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quarta-feira, 6 de julho de 2016

88. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 28 e Capítulo final)

Jober Rocha


Capítulo 28
Segunda feira, 31 de março


                        Acordei bem cedo e bastante animado. Quem sabe não será hoje que receberei do meu médico a boa notícia de que encontrou, finalmente, a cura para esta moléstia que me atormenta e que me deixa fora da realidade, fazendo com que eu tenha uma visão do mundo e das pessoas totalmente falsa, diferente daquela verdadeira? 
                                Assim, coloquei a minha segunda melhor roupa (pois a primeira havia sido levada no último assalto que sofri no ônibus) e me dirigi sorridente ao consultório do psiquiatra.
                         Lá chegando, fui surpreendido por um cartaz na porta do médico, que dizia: “Não trabalho hoje. Quer saber o motivo? Pergunte ao seu inconsciente!”
                         Desanimado retornei a casa, pensando no caminho sobre as relações, muitas vezes conflituosas, entre médicos e pacientes, vendedores e consumidores, editores e leitores, sacerdotes e fiéis, etc. Tão distraído estava que ao ouvir a voz: - “Passa tudo, tio”! - nem me dei conta que havia sido reconhecido pelo velho assaltante, que escolhera aquela empresa de ônibus para dar o seu plantão diário e que já me considerava seu amigo, tantas foram às vezes em que nos encontramos em um coletivo desta linha. 
                                Tendo eu já dado a ele tudo o que tinha, pedi que desta vez deixasse a calça e a camisa, pois eram as únicas peças de vestuário que possuía. Ele, me dando um fraterno abraço, como se velhos amigos fossemos, respondeu: - “Segue na paz do Senhor, parceiro, já estou cheio de calças e camisas e as suas não me farão nenhuma falta!”
                                Já em casa, comendo algumas bananas, me pus a pensar sobre o tema sobre o qual raciocinava no coletivo e que havia sido interrompido pelo assaltante.
                              Um distintivo de todo ser humano que habita as cidades modernas, notadamente nos países do Terceiro Mundo, é o de estar insatisfeito com as condições de vida da cidade onde trabalha, se diverte e sobrevive; notadamente se pertencer às classes de renda B, C e D.
                            Constantemente, o cidadão se sente ludibriado, quer nas compras que efetua (preços altos, prazos de validade vencidos, produtos defeituosos, entregas não efetuadas, etc.); quer nas informações que recebe através da mídia (mentiras, inverdades, baixo nível da programação, etc.); quer na religião que professa, tornada uma mercadoria por sacerdotes (interessados apenas nos dízimos e nos recursos financeiros dados pelos fiéis) que pregam uma religião desvinculada da realidade presente. 
                              Mais ludibriado, ainda, se sente ao constatar que após as eleições municipais, estaduais e federais, aqueles candidatos em quem votou (em razão de suas promessas de campanha), não cumprem o que prometeram e se envolvem em processos de corrupção, em malversação de verbas públicas, em nepotismo, etc.
                          Ludibriado ao extremo se considera quando ao pagar, com quase cinco meses de seu trabalho ao ano, os impostos municipais, estaduais e federais, constata que muito pouco recebe em troca, seja em termos de saúde, transporte, segurança, saneamento, etc.
                         Desconsolado, vê que para sobreviver necessita se endividar junto às instituições financeiras que, com a autorização do governo federal, cobram os juros mais elevados do planeta. Para honrar um financiamento ou empréstimo necessita tomar outro, tornando-se um escravo da dívida, em uma servidão consentida, perante aquelas instituições financeiras.
                        Sem poder contar com serviços públicos de qualidade, volta-se para os serviços privados, muitas vezes também sem qualidade.
                           Neste sofrimento diuturno, o individuo se sente sozinho e desesperançado; posto que, não percebe como conseguir ser ouvido, de modo a ter seus direitos respeitados, com um sistema judicial totalmente inoperante, antiquado e cheio de brechas legais, de embargos e de recursos de todo tipo, em razão de uma legislação criada pelas elites em seu próprio benefício; legislação esta que, na maioria dos casos, arquiva ou torna prescritos os crimes destas elites e pune, quase sempre, de maneira branda os crimes das demais classes sociais (progressões de penas, indultos, prestação de serviços comunitários, prisões domiciliares, etc). Isto, sem falar em uma alardeada indústria de ações trabalhistas, vendas de alvarás, de sentenças, etc.
                         Entretanto, esta vontade do individuo de querer mudar o mundo, para poder mudar suas próprias condições, constitui uma maneira pouco objetiva de alcançar o resultado almejado; já que, existe maneira mais simples e totalmente ao alcance de qualquer um, qual seja: mudar a si mesmo.
                         Esta mudança de si mesmo depende, em primeiro lugar, da conscientização do indivíduo de que a maior parte daquilo que ocorre de mal em sua vida, quase sempre, ocorre devido a sua concordância, consciente ou inconscientemente. Em segundo lugar, de fazer valer seus direitos por si mesmo. Explico-me melhor: não estou incitando o individuo a fazer justiça com suas próprias mãos. Estou dizendo que, fazendo melhor suas escolhas, poderá se livrar de problemas atuais e futuros. Os indivíduos devem ser menos crédulos, mais desconfiados, mais exigentes, menos inocentes e mais atualizados.
                    É conhecida a importância dos meios de comunicação na divulgação de propagandas e de contra informação, objetivando a aceitação, pelas populações, de idéias, produtos e valores (morais, comportamentais, etc.).        
                            Avram Noam Chomsky, filósofo, lingüista e ativista político norte americano, professor catedrático que leciona há mais de quarenta anos no Instituto Tecnológico de Massachusetts-MIT, tem dado enorme contribuição à Lingüística, à Ciência e a Psicologia de um modo geral, à Psicologia Evolucionária, à Ciência da Computação, à Política, à Economia e às Ciências Sociais, através de seus livros e de suas teorias. A ele é atribuída a frase: “A propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significava para o estado totalitário”.
                                Em suas conferências denominadas ‘Visões Alternativas’  ele apresenta uma lista de dez princípios de que se utilizam freqüentemente às classes dominantes (nacionais e internacionais), objetivando levar os cidadãos a, inconscientemente, apoiarem os interesses destas classes, interesses estes que, em sua maior parte, são totalmente diversos daqueles dos indivíduos (e até mesmo conflitantes), objetivando a manipulação econômica e social de países, nações e comunidades. Os princípios listados por Chomsky podem ser assim sintetizados:

                             Estratégia da Distração; Estratégia de Criar Problemas e Depois Oferecer a Solução; A Estratégia da Ação Gradual; A Estratégia de Adiar; Falar ao Público Como se Este se Tratasse de Crianças; Utilizar o Aspecto Emocional Muito Mais que a Reflexão; Manter o Povo na Ignorância e na Mediocridade; Estimular o Público a Ser Complacente com a Mediocridade; Reforçar o Sentimento de Culpa Pessoal e Conhecer os Indivíduos Melhor do que Eles Mesmos se Conhecem. Não entrarei em detalhes sobre cada uma destas estratégias, pois elas podem ser conhecidas pelos próprios nomes.    
                                  Pelo exposto, podemos ver que a mídia consiste em um importante fator utilizado para a condução do rebanho humano. Devemos, portanto, acreditar com reservas naquilo que recebemos através da mídia diariamente e entender que, ao invés de pretender nos informar e instruir para que decidamos, acertadamente, por nós mesmos, a mídia busca fazer com que pensemos da forma como as elites desejam que pensemos.
                                Com respeito a uma nova atitude do indivíduo enquanto consumidor, eu destaco como importante as declarações de Sam Walton, fundador do WAL MART (a maior rede varejista do mundo), fazendo o discurso de abertura de um programa de treinamento para seus funcionários: - "Eu sou o homem que vai a um restaurante, se senta à mesa e com paciência espera, enquanto o garçom faz tudo, menos saber qual é o meu pedido. Eu sou o homem que vai a uma loja e espera calado, enquanto os vendedores terminam suas conversas particulares. Eu sou o homem que entra num posto de gasolina e nunca toca a buzina, mas espera com paciência que o empregado termine a leitura do seu jornal. Eu sou o homem que, quando entra num estabelecimento comercial, parece estar pedindo um favor, ansiando por um sorriso ou esperando apenas ser notado. Eu sou o homem que entra num banco e aguarda, tranquilamente, que as recepcionistas e os caixas terminem de conversar com seus amigos e espera. Eu sou o homem que possui uma desesperada e imediata necessidade de um produto, mas não reclama, pacientemente, enquanto os funcionários trocam idéias entre si ou, simplesmente, abaixam a cabeça e fingem não o ver. Você deve estar pensando que sou uma pessoa quieta, paciente, do tipo que nunca cria problemas. Se engana. Sabe quem eu sou? EU SOU O CLIENTE QUE NUNCA MAIS VOLTA! Eu me divirto vendo milhões sendo gastos todos os anos em anúncios de toda ordem, para me levar de novo àquelas firmas que deixei de frequentar. Quando fui lá, pela primeira vez, tudo o que deviam ter feito era apenas a pequena gentileza, tão barata, de me atender e enviar um pouco mais de cortesia. Clientes podem demitir todos de uma empresa, do alto executivo para baixo, simplesmente, gastando seu dinheiro em algum outro lugar” 
                             Assim, constato que o Sistema de Dominação existente funciona bem quando, e enquanto, a maioria das pessoas aceita a dominação, acredita nas ‘verdades’ proclamadas pelo Sistema, e as reproduz. 
                           Os indivíduos enquanto cidadãos, consumidores, fiéis, eleitores, contribuintes, correntistas, telespectadores, leitores, etc., possuem uma monumental força, insuspeitada por eles mesmos. Se conscientes e unidos, podem ‘quebrar’ empresas (não consumindo seus produtos ou serviços), podem fechar igrejas transformadas em empresas pelos seus dirigentes que só pensam no dinheiro dos fiéis (não frequentando seus templos), podem sanear o legislativo do país (não votando em políticos reconhecidamente corruptos ou que não tenham ficha limpa) e podem pressionar o governo a se moralizar (mediante passeatas, greves, boicotes, etc.). 
                              Só não o fazem por serem desunidos, mal informados, acomodados, influenciáveis e ingênuos. A única maneira de mudar o mundo é começando por mudar a nós mesmos. Reconheço que somos apenas uma gota no vasto oceano dos seres dominados, mas o mar se move na direção para onde as gotas se dirigem, e não o contrário. O mesmo se passa com os bandos de pássaros, com os cardumes, com os rebanhos e com as populações; isto é, são os seus componentes que os movimentam. Se nós, seres humanos, nos tornarmos conscientes de como as coisas se passaram até agora, poderemos modificá-las no futuro. Como bem disse o médium Chico Xavier: “embora não possamos voltar atrás e fazer um novo começo, podemos sempre começar de novo e fazer um novo fim”.
                                Célia Resende, em seu livro ‘Terapia de Vidas Passadas’ menciona que “Para essa transformação devemos considerar, entre outras coisas, a união entre o psiquismo e a política. Vivemos numa sociedade cheia de injustiças e baseada em um modelo de produção antiquado, destruidor do meio ambiente e provocador de desigualdades. Porém, não devemos nos confundir e pensar que essa mudança não pode ser conseguida sem se pertencer a uma igreja, partido político ou seita da Nova Era. A verdadeira transformação é interior, não depende de rituais nem de sectarismo”.
                                   Espero que esta nova maneira de entender o mundo em que vivemos; nova na medida em que difere da versão oficial, se adotada pela maioria dos indivíduos, contribua para libertá-los de falsas propagandas, falsos valores, crenças, crendices e superstições; que, de maneira maquiavélica, têm sido inoculados e mantidos vivos em nossas mentes, com o único objetivo de nos esconder a verdade e permitir que sejamos facilmente dominados, sem que dessa dominação nos apercebamos e sem que oponhamos resistência a ela. 
                                   Deveríamos nos tornar mais conscientes dos nossos interesses e menos ingênuos com relação aquilo que nos tentam incutir através da grande mídia, oficial e privada. Devíamos procurar fontes alternativas para nos informar: cursos, seminários, palestras, livros e a própria WEB; além de defender os nossos pontos de vista e valores, não nos deixando influenciar e, principalmente, fazendo apenas aquilo que a nossa consciência, ou o bom senso, indicasse.
                                         Após eu haver escrito tudo isto, a velha dúvida volta a minha mente: - E se estas conclusões forem todas falsas, fruto apenas do avanço da doença que distorce minha percepção das coisas? Talvez eu devesse parar de escrever este diário. Vamos que caia em mãos de alguém que acredite em tudo o que ele contém, em todas as suas conclusões? E se este desafortunado sair por ai, espalhando estas minhas maneiras distorcidas de ver a nossa sociedade e a nossa gente? E se todos aqueles que o escutarem acreditarem naquilo que diz e seguirem seus conselhos? Acho que estaremos frente a uma nova geração de brasileiros que poderia, eventualmente, virar tudo de ‘cabeça para baixo’, com conseqüências imprevisíveis para a nossa servidão consentida.
                                      Entretanto, às vezes, ouço uma voz interior, que me diz baixinho no ouvido: - Vai fundo cara, vamos mudar este país!

Capítulo Final
Nota do autor (1)


                      Levo ao conhecimento dos meus prezados leitores que recentemente descobri, através de informações obtidas com o meu vizinho da frente (do qual me tornei amigo em razão dele também ser torcedor do América Futebol Clube), que o antigo morador e ex-proprietário da modesta casa em que resido atualmente, não foi, como eu supus no Prólogo desta obra, vitimado por um repentino surto psicótico, vindo a falecer no hospício para onde havia sido conduzido.
                                 Na realidade, ele viajou junto com seu psiquiatra, que apresentou o caso dele a uma banca da Faculdade de Medicina da Universidade de um determinado Estado Norte-Americano, para obter o título de Doutor (PHD). 
                               Seu caso era tão raro que a American Society of Psychiatry, Viticulture and Enology, o mantém em um hotel cinco estrelas com todas as despesas pagas e um salário mensal de dez mil dólares, pelo prazo em que durar a análise completa que ele fará, em um diário como este que aqui esqueceu, da vida norte americana, de seus costumes e de sua gente; enquanto os cientistas analisam a sua estranha e rara síndrome, diga-se de passagem, totalmente desconhecida, ainda, naquele avançado país do Primeiro Mundo. 
                              Creio que foi em razão da rápida viagem que fez aos USA que deixou tudo para trás, não pensando mais em retornar a este nosso país.  Tendo ficado inadimplente com a prefeitura local, no que respeita ao pagamento do Imposto Predial e Territorial, sua casa foi a leilão, sendo por mim adquirida. Por sorte, deixou o diário que escreveu esquecido dentro do armário e, por mais sorte ainda, eu o encontrei antes que fosse atirado ao lixo junto com o próprio armário. 
                             Consegui negociar o seu diário com estudantes de psicologia que cursavam o mestrado e, com os recursos que arrecadei na venda, adquiri uma TV de plasma onde assisto, aos domingos, o futebol com meu vizinho da frente, tomando umas caipirinhas e saboreando uns pasteis de casca de camarão, feitos por dona Cotinha, sua esposa de um terceiro casamento.
                               Já fiz amizade com todos os moradores da comunidade e andei perguntando se conheciam o antigo proprietário da casa onde moro. A opinião é unânime: um tipo esquisito, que não gostava de futebol, pagode, cachaça, churrasco na laje com banho de caixa d’água, culto no templo, macumba no terreiro, novela na TV, briga na rua, ver ‘presunto’ desovado, jogar pedra na polícia, servir de olheiro; em suma, um chato que não se entrosava e não falava com ninguém!
                               Eu, já tendo estabelecido relações sociais com a comunidade e sendo um dos moradores mais cultos e inteligentes (afinal sou professor de português), pretendo me candidatar ao cargo de presidente da Associação de Moradores, em uma primeira etapa, para, posteriormente, disputar uma cadeira na Assembléia Legislativa. 
                                 Causa-me muita tristeza, no fundo da alma, ver o que a doença pode fazer com o corpo e com a mente de uma pessoa. Eu que fui, talvez, uma das poucas pessoas a ler integralmente o seu diário (já que a maioria daqueles que a ele teve acesso deve ter parado logo nas primeiras páginas), posso atestar o alto grau de insanidade que apresentava na época em que o escreveu. 
                                 Seus argumentos são totalmente estapafúrdios e desconexos, demonstrando uma visão do nosso país e da nossa gente totalmente oposta daquela de nós outros, a maioria da população e suas autoridades, ou seja, aqueles de ‘Mens Sana in Corpore Sano’; isto é, saudáveis de corpo e mente. Espero que encontrem cura para o seu mal nos Estados Unidos, país rico e cientificamente desenvolvido e que ele fique por lá, pois, por aqui não faz falta nenhuma.

Nota do autor (2)


                       Poucos dias antes de este diário ser por mim negociado com os estudantes de que já falei, chegou ao meu conhecimento, através dos chefes da comunidade onde resido (possuidores de inúmeros contatos na Bolívia, Colômbia, México e nos Estados Unidos), que o autor do diário, tendo concluído as suas observações sobre a sociedade norte-americana, nos mesmos moldes do diário que fez para o nosso caso, está sendo cogitado para o Prêmio Nobel da Sagacidade, em razão de haver trazido à luz inúmeros aspectos daquela sociedade que ainda não haviam sido percebidos pelos próprios habitantes do país.
                                 Vários sociólogos de renome, economistas, políticos, filósofos e religiosos pagam fortunas para assistir algumas de suas conferências, traduzidas pára vários idiomas.
                              Muitos escritores famosos querem escrever obras em parceria com ele. Parece também que foram divulgados os resultados de seus exames de saúde mental e que estes foram considerados absolutamente normais pela junta médica que o assiste naquele país.
                          Embora a Medicina seja bastante avançada nos Estados Unidos, não acredito que alguém capaz de escrever um diário como este que ele aqui deixou, esteja em pleno gozo de suas faculdades mentais. 
                             Isto, com certeza, deve se tratar de mais uma jogada comercial dos americanos, para prejudicar o nosso país, alegando que aqui a Medicina é medíocre e que o Estado não respeita as minorias e os enfermos mentais. Concorda comigo?


87. Continuação de Diário de um 'Maluco Beleza' (Capítulo 27)

Jober Rocha


Capítulo 27
Domingo, 30 de março 


                    Esta semana soube de uma notícia ocorrida com o filho do meu vizinho que me deixou bastante entristecido. O fato, ocorrido poucos dias antes, ouvi na padaria da comunidade, contado entre risos e chacotas. Adolfo, este era seu nome, desde pequeno sempre fora bom de briga.   No colégio ninguém tirava satisfação com ele, sem sair com um olho roxo ou com o nariz sangrando.
                             Em sua juventude, havia frequentado todas as academias de artes marciais: jiu-jitsu, caratê, boxe, tae-kwondo, capoeira, Krav Maga, etc.
                           Atualmente, trabalhava como segurança em uma empresa corretora de câmbio, títulos e valores, localizada no quarto andar de um elegante prédio comercial no centro da cidade.
                             Na sua função de segurança já havia passado por muitas experiências difíceis; tais como, separar brigas entre clientes e funcionários, prender estelionatários, falsários, etc.
                               A triste experiência que viveu naquele dia, entretanto, marcou para sempre a sua vida.
                                  Em determinado momento do dia, entretido em olhar no terminal de computador a flutuação das cotações do Euro, não percebeu a entrada, no recinto, de vários indivíduos portando maletas e sacolas.
                           Quando deu por si, ele mesmo, já estava sob a mira das armas, como também os demais seguranças, clientes e empregados. Os assaltantes, extremamente violentos, obrigaram todos os presentes a se dirigirem para um quarto nos fundos, onde ordenaram que tirassem todas as roupas e pertences, que logo em seguida passaram a vasculhar.
                              Como ele hesitasse bastante em acatar a ordem dada, alguns colegas pensaram que, tendo uma arma escondida sob as roupas, iria reagir a qualquer momento. Naquela hora de extrema tensão, um dos assaltantes apontando-lhe a metralhadora ordenou, aos berros, que tirasse logo tudo.
                              Ele, sob os olhares de todos, aos poucos, foi tirando suas roupas: primeiro a camisa, depois a calça, a meia e os sapatos; ficando vestido, apenas, com uma calcinha feminina branca com rendas pretas. Suas pernas nuas e depiladas exalavam um forte cheiro de perfume barato. As unhas dos pés estavam pintadas de esmalte vermelho vivo. Em sua nádega direita, via-se a tatuagem de um coração, onde, na parte interna, estava escrita a frase: “Amor eterno de Juvenal”.
                            Tendo a noticia, rapidamente, se espalhado por toda a comunidade onde morávamos, Adolfo teve que mudar-se para outro bairro. Não deixou o novo endereço para ninguém, pedindo, apenas, que o dono da padaria local entregasse um pequeno bilhete endereçado a alguém chamado Juvenal.

(continua no dia seguinte – nota do autor)

terça-feira, 5 de julho de 2016


86. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 26)

Jober Rocha

Capítulo 26
Sábado, 29 de março



                             Como os investidores para os quais eu trabalhava já haviam deixado transparecer, em determinada ocasião, que meu antecessor no cargo havia desaparecido repentinamente por falar demais (imagino que ele, em uma de suas viagens ao país vizinho, resolvendo fazer um pouco de turismo, perdeu-se em alguma ruela desconhecida e, depois, por falar de mais o português e de menos o espanhol, não soube encontrar o caminho de volta), resolvi não aceitar o convite do senador; pois, sempre tive muito medo de me extraviar em lugares desconhecidos.
                                      Em determinado dia, ao voltar de uma de minhas viagens ao Paraguai e chegar à comunidade, verifiquei, com pesar, que nenhum dos meus clientes investidores encontrava-se presente na comunidade. Ao indagar, soube que todos os clientes, menos um deles, haviam falecido repentinamente e que o único sobrevivente andava lá pelo interior do Estado de São Paulo, em regime incomunicável. Assim, na impossibilidade de qualquer contato com meus antigos patrões, lembrei-me de um amigo paraguaio, que havia conhecido em uma de minhas viagens e cuja avó, doente grave segundo ele, morava na mesma comunidade que eu. Conforme relatou o meu amigo quando o contatei por telefone, alguns dias depois, sua avó, em decorrência da enfermidade de que padecia, tinha necessidade de vários medicamentos, só fabricados no Paraguai. Ofereci-me, assim, para receber os remédios e entregá-los à sua desditosa avó.
                                    A partir de então, toda semana ele enviava uma mala com cerca de cinqüenta quilos, que eu tinha que apanhar à noite na estação rodoviária. Passados alguns meses, causou-me surpresa ver, não apenas uma, mas, sim, duas malas. Pensei, contristado, na hipótese de sua avó haver piorado da moléstia que a acometia e necessitar de um número maior de medicamentos. Transcorridos mais alguns meses, ao chegar à rodoviária, deparei com vários policiais fardados, ao lado das malas. Supus, mediatamente, que a avó havia falecido e esperavam que alguém fosse apanhar as malas, para, então, comunicar ao portador a trágica noticia ou que, a partir daí, o próprio poder público, constrangido por não fabricar aqui no país aqueles medicamentos tão úteis para a pobre velha, resolvera, ele mesmo, usando para tal seus próprios funcionários, fazer a entrega para a velhinha. Em qualquer das hipóteses meus trabalhos não eram mais necessários, razão pela qual voltei calmamente para casa.
                                  Ao alimentar, certo dia, uma pequena ratazana que me acompanhava desde os primeiros momentos de permanência naquela comunidade; fui procurado em meu barraco, por uma senhora idosa, que conduzia um pequeno bebê no colo. Alegando não ter dinheiro para a passagem, pediu-me, penhoradamente, que levasse a criança ao aeroporto; pois, a mesma, iria visitar os pais residentes no exterior e os avos paternos estariam aguardando no saguão do Aeroporto Internacional.                                  A criança era um bonito bebê negro que, com uma chupetinha na boca, foi comigo de ônibus até o aeroporto, sem um chorinho sequer. Lá chegando, entreguei-a aos avos que sorriram de alegria ao ver-me. Segundo disseram, moravam com o filho casado na Suíça. Eram dois velhinhos simpáticos, louros e de olhos azuis. Pagaram-me um café, deram o dinheiro da passagem de volta e agradeceram efusivamente pelo trabalho que tive.
                            Durante todo aquele ano a referida senhora idosa me procurou, quase semanalmente, levando sempre uma ou duas crianças para que eu as conduzisse ao aeroporto, de onde os avos as levariam para visitar os pais no exterior. Como sei o triste que é viver afastado da família, já que fui abandonado por minha primeira mulher e perdi o contato com meu filho, Mico Preto, sempre me dispus a levar as pobres crianças. Por vezes, eu as deixava no aeroporto e retornava para casa com lágrimas nos olhos.
                                      Certo dia, recebi a notícia de que minha ex-esposa havia falecido ao fazer uma cirurgia para mudança de sexo. Segundo disseram, durante um transplante, havia sofrido rejeição da parte transplantada retirada do corpo de um caminhoneiro, morto em acidente de trânsito, gentilmente doada pela família. Conforme soube mais tarde, a esposa do caminhoneiro assistiu a cirurgia e chorava copiosamente ao contemplar a parte do seu marido sendo retirada, para ser transplantada. A mesma fonte me assegurava que meu filho, Mico Preto, era agora um importante executivo em empreendimento lucrativo na comunidade onde morava. Parece que tinha, ademais, o alto cargo de gerente.
                                       Embora passando necessidades, resolvi não procurá-lo. Fazia tanto tempo que havíamos nos separado e eu não desejava envergonhá-lo perante seus funcionários e superiores, aparecendo sujo, maltrapilho e desempregado.
                                      Meses depois soube, por um policial para quem sempre entregara os envelopes fechados que recebia de meus ex-patrões, que Mico Preto havia falecido. Ele não soube me dizer a causa da morte; porém, imagino que tenha sido o excesso de trabalho e os elevados níveis de colesterol e de triglicerídeos, como ocorre com todo executivo que não se cuida, principalmente, ocupando cargo tão elevado quanto o dele sujeito a preocupações diárias com as flutuações da economia.   Assim, desempregado, vivendo de bicos, sem família, sem perspectiva alguma de futuro, tomei a resolução de abreviar aquele rosário de sofrimentos que constituía a minha vida.
                                    Preparava-me para saltar do vão central daquela ponte na rodovia, mencionada no início, quando, acolhido por mão bondosa a me dar todo apoio naquela ocasião, fui bafejado por um sopro divino e tomei fôlego para recomeçar de novo. Às instâncias do meu salvador e protetor, iniciei a árdua tarefa de escrever as minhas memórias; as quais, segundo afirmação do próprio, render-me-iam substancial aporte de recursos financeiros, referentes aos direitos exclusivos de publicação. Transcorridos, entretanto, vários meses após a entrega à ele, dos originais para publicação, jamais recebi da parte do meu salvador e suposto benfeitor, um único vintém em pagamento pelo árduo trabalho que realizei naquela ocasião; fato que, deixando-me em estado depressivo, contribuiu, sobremaneira, para o agravamento da minha enfermidade.


(Continua no dia seguinte – nota do autor)


85. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 25)

Jober Rocha


Capítulo 25
Sexta Feira, 28 de março


                       Na manhã seguinte, não a encontrando no leito, fui informado por sua governanta que ela havia viajado para visitar a avó na Bielorússia, não tendo data prevista para voltar. A partir daquele dia resolvi que seria celibatário para o resto da vida. 
                                Desde então, deixei de pensar em mulheres e passei a me dedicar a estudos filosóficos. De tanto estudar, ler e interpretar o que diziam os filósofos, aos poucos, finalmente eu consegui formular minha própria Teoria Filosófica. Pude inclusive estabelecer, após muita meditação introspectiva, alguns princípios básicos, que se resumem nos pensamentos apresentados a seguir, aos quais denominei de ‘Leis Fundamentais da Filosofia’:
  . Não penso, logo, não consigo terminar uma frase seque...
  . Ser ou não ser não é a questão; a questão é quando os outros
começam a desconfiar que você seja.
   . Só sei que nada sei, mas, se algum dia souber que sei, então saberei, ou não, se sei ou se não      sei.
                                Sou, certamente, sem falsa modéstia, o primeiro filósofo ocidental a prever, com anos de antecedência, a falência do Sistema Comunista Internacional e a Crise Econômica do Capitalismo, ao afirmar: - “A Dialética Transcendental perder-se-á para sempre, entre Antinomias e Paralogismos, a menos que a Teologia Racional supere a Tradição Epistemológica!
                           Tendo a Teoria Filosófica por mim desenvolvida pouca aceitação no meio dos filósofos e desiludido com a economia, com as mulheres e com as ciências, eu decidi dedicar-me em profundidade à religião. Por esta altura, já havia gasto tudo aquilo que acumulara ao longo dos anos e estava passando fome. Às vezes, me via até falando sozinho.
                             Entrando ao cair da tarde em uma igreja, para informar-me com o padre sobre como fazer para ingressar nas ordens monásticas, ele, ao me observar falando sozinho, supôs que eu orava e, ao observar meu corpo esquelético, me perguntou com doçura há quantos dias não me alimentava.
                            Ao responder-lhe que havia três dias só bebia água, o padre, com visível alegria, disse-me: - “Que bom que você veio, meu filho, pois vejo que jejua com freqüência e que ora baixinho o tempo todo. Estamos começando, agora mesmo, um grupo de orações e jejum e você veio mesmo a calhar. Pode aguardar ali naquele canto, que a reza e o jejum já vão começar e se estenderão até amanhã pela manhã. Já vou escalar você para os grupos de segunda, quarta e sexta-feira!”
                                 Morto de fome e de sede, eu abandonei aquele local e comecei a vagar, sem rumo, pelas ruas da cidade. Ao passar por uma viela pouco movimentada naquela hora do dia, tive a atenção despertada para uma placa colocada em uma casa, que dizia: ‘Bolsa-Família – Cadastramento’.
                              Entrando pelo portão aberto, deparei com uma fila de aproximadamente quinze pessoas. Instalando-me no final da fila, aos poucos, fui fazendo amizade com os demais participantes. Um deles até me ofereceu um pedaço da banana que comia, vendo a expressão de fome com que eu o fitava.
                                Entabulando conversação com o individuo que estava à minha frente, dele obtive preciosas informações. Disse-me, após as apresentações de praxe, que era professor universitário de Física Quântica, com pós-graduação na Inglaterra. Desempregado há quatro meses, vinha recebendo o seguro desemprego. Havia se candidatado ao Vale-Gás e para os filhos menores ao Bolsa-Escola. O filho mais velho, que havia puxado à mãe, entrara para a universidade pública através do sistema de quotas.  Outro filho, condenado por roubo, recebia o auxílio reclusão. Como o professor havia sido de esquerda em sua juventude e militado em um grupo revolucionário, entrara, recentemente, com um pedido de aposentadoria e salários retroativos, junto a um chamado “Comitê de Indulto e Esquecimento”.
                                   Enquanto aguardava o desfecho do seu caso, estava ali, na fila, para solicitar a Bolsa-Família. Sugeriu-me que eu arranjasse uma esposa grávida para pleitear, também, o Auxílio-Natalidade. Deu-me, a seguir, o endereço do restaurante e do hotel onde se comia e dormia a um Real, que ficavam nas proximidades. Como a fila estivesse demorando muito a andar, já que a quantidade de documentos solicitados era enorme e o funcionário encarregado do cadastramento estava assumindo as suas funções naquele dia; isto é, não possuía nenhuma experiência prévia em cadastramentos, despedi-me do professor de quem já ficara amigo e, novamente, continuei a andar sem destino.
                                   No entanto, sem que eu me apercebesse, a mão da providencia divina conduzia-me, diretamente, para o sopé de uma favela. Em lá chegando, os moradores ao verem o meu estado cadavérico e andrajoso, julgaram que se tratava de um mendigo doente e alcoólatra e me deixaram ficar em um barraco desabitado. Deram-me de comer e de beber e, aos poucos, fui retomando as minhas antigas condições físicas.
                                   Em agradecimento, comecei a prestar pequenos serviços àquela comunidade, seja levando determinados embrulhos bastante pesados a um barraco situado no alto do morro, onde vários moradores de binóculos apreciavam a vista do mar, seja conduzindo envelopes fechados que deviam ser entregues aos membros de uma determinada viatura policial; viatura esta que, todos os dias e ao anoitecer, circulava por aquela comunidade. Imagino que os envelopes continham a relação das pessoas da localidade necessitadas de auxílio do poder público e que, para não melindrá-las, os seus nomes eram mantidos em sigilo escritos em uma folha guardada naquele envelope.
                                       Com isto adquiri, com o passar do tempo, grande conhecimento e amizade junto ao meio policial, já que era sempre saudado com alegria pelos integrantes de várias outras viaturas que circulavam pelas imediações daquele morro.
                                 Recuperado completamente, um dia recebi a visita de vereador cuja base eleitoral situava-se justamente naquela localidade e que, após dizer que admirava muito o meu trabalho comunitário junto àquelas famílias carentes, oferecia-me um lugar de assessor em seu gabinete na Câmara. Confesso que fiquei bastante entusiasmado, principalmente quando soube do elevado valor do salário, aceitando de imediato a vaga que ele me oferecia. Apenas estranhei, após haver assinado todos os papeis, quando, em resposta à minha pergunta sobre a data em que começaria a trabalhar, ele respondeu: - “Não precisa se incomodar não, parceiro. Vai trabalhando por aqui mesmo, pois a Câmara está em obras e não tem nem lugar para sentar!” Despediu-se de mim colocando os papéis em sua pasta e, desde então, nunca mais o vi.
                                       Jamais recebi o salário que ele me prometeu; mas, acredito que ele o estivesse guardando para entregar-me ao final das obras, quando, então, eu teria o meu lugarzinho a seu lado, no gabinete da Assembléia Legislativa. Enquanto este dia não chegava, em razão do grande conhecimento que eu possuía do mercado financeiro, por ter feito o curso técnico de Contabilidade, fui convidado por alguns investidores importantes da comunidade, a prestar assessoria econômico-financeira sobre como aplicar bem e com segurança, o enorme volume de recursos financeiros ali gerados pelas atividades econômicas locais, relacionadas com a indústria do fumo e dos fármaco-químicos.
                                            Iniciei, a partir de então, um período de intensas e prolongadas viagens ao Paraguai; pois, os investidores da favela (todos com cargos de gerente) faziam questão de que os seus recursos fossem aplicados exclusivamente naquele país. Tantas vezes fui ao país vizinho, que já era até conhecido dos guardas da fronteira, os quais me saudavam efusivamente após brindá-los, como eu freqüentemente fazia, com algumas garrafas de uísque doze anos.
                                            Certa ocasião, hospedado em um hotel na cidade de Pedro Juan Caballero, na divisa entre o Brasil e o Paraguai, conheci um senador que, após saber do meu trabalho junto aos investidores da favela, convidou-me a ir até a capital, onde apresentaria outros colegas senadores e deputados, todos interessados naquele tipo de consultoria que eu desenvolvia.

(Continua no dia seguinte – nota do autor)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

84. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 24)

Jober Rocha

Capítulo 23
Quarta Feira, 26 de março

                      Ocorreu-me, hoje pela manhã, um episódio que vivenciei anos antes de adquirir a enfermidade que ora me acomete. O fato ocorreu, justamente, no dia em que eu saía de férias rumo a casa de campo de um amigo, no interior de Minas Gerais.
                            Entrei naquela oficina mecânica do subúrbio procurando por um alicate, para apertar a porca do terminal da bateria do carro que estava um pouco frouxa, dificultando a partida do veículo ao virar a chave de ignição.
                         O mecânico, tipo magro, de olhar inteligente e fino bigodinho sobre o lábio, ao apanhar o alicate, abrir o capô e apertar a referida porca, disse, como quem não quer nada: - Às vezes a dificuldade em dar a partida é da bobina que está com defeito. Vou dar uma olhadinha para o senhor!
                         Sem esperar a minha concordância, ele começou a retirar a bobina e, logo após, levou-a lá para dentro, para teste. Eu, sem jeito, não falei nada e fiquei apenas olhando.
                            Pouco depois, o mecânico voltou lá do fundo com o seguinte diagnóstico: - Ela esta mesmo condenada. Essa, já era. Quando a bobina dá defeito, sobrecarrega a ignição eletrônica que acaba pifando também; vou dar uma olhadinha para o senhor, patrão!
                         Em seguida, foi retirando a ignição eletrônica, que também levou lá para dentro. Retornando, pouco tempo depois, o mecânico afirmou: - Esta também está condenada. Vou ver as velas e os seus cabos; pois, estes, também dificultam a partida quando estão com problemas!
                          Foi logo retirando os cabos das velas e as próprias, que levou lá para dentro. Ao voltar foi curto e grosso: - Não disse ao senhor, patrão? Os cabos estão cortados e as velas todas sujas. Tem que trocar tudo!
                      Enquanto falava, seu ajudante, tipo baixo e atarracado, com olhar suspeito, ia substituindo as peças condenadas por peças novas.
                        Após ter trocado as mangueiras do radiador, as pastilhas de freio, a bomba d’água, a bomba de gasolina, o cano de descarga e os amortecedores, o mecânico apresentou a conta de dez mil reais, dizendo que o material trocado era todo original e, por isso, havia ficado um pouco mais caro. Disse, ainda, que nem tinha cobrado a mão-de-obra, por haver simpatizado comigo e querer me ajudar naquele momento difícil.
                              Eu, acanhado, peguei o cartão de crédito e paguei o conserto.
                           Ao sair da oficina, sob os cumprimentos e curvaturas do mecânico e do seu ajudante, pensei comigo mesmo: - Puxa vida, ainda bem que meu carro, retirado hoje da concessionária e no qual vou viajar de férias, é zero quilômetro e só tinha esses poucos defeitos. Imagino quantos defeitos o carro poderia ter, se eu, ao invés deste veículo novo, tivesse adquirido um usado. Sou um sujeito de sorte, já que o mecânico descobriu logo aqueles problemas, pois, caso contrário, eu poderia ficar enguiçado no meio de qualquer estrada deserta e acabaria perdendo alguns dias de minhas férias!
                             Enquanto seguia dirigindo, pensava: - Até que não foi tão caro assim. Vou parcelar em doze vezes no cartão, economizarei nos restaurantes e, no final, nem perceberei o impacto da despesa.

                           Hoje, recordando-me do caso, acho que a moléstia que atualmente me acomete o cérebro já devia ter se instalado, naquela ocasião, e, sorrateiramente e sem que eu daquilo me desse conta, vinha prejudicando a minha capacidade de avaliar as situações e de julgar o meu comportamento e o dos demais. Ainda hoje, em que pese alguns amigos terem dito que eu fui enganado pelo mecânico, continuo achando que ele, realmente, queria me ajudar...


Capítulo 24
Quinta-Feira 27 de março



                        Em determinada ocasião da minha vida, antes de decidir tornar-me um servidor público, passei por um período de grande desilusão acerca os homens, das coisas e das instituições. Este fato quase me conduziu a abreviar o breve tempo que me restava de vida, cansado que estava de acreditar no futuro do nosso país e da nossa gente.
                       Certo dia, pendurado no parapeito do vão central da Ponte Rio – Niterói, tentando acabar com minha triste existência, ensaiava pular para por fim, definitivamente, ao meu insuportável tormento. 
                      Fui, felizmente, salvo por um editor, de conceituada empresa jornalística, cujo carro havia furado os quatro pneus naquela ponte recentemente privatizada; e que me recomendou, além de consultas periódicas a um psiquiatra, que colocasse no papel o resumo das minhas adversidades e lhe enviasse, com vistas a uma possível publicação em capítulos, num folhetim de pequena tiragem da Baixada Fluminense. Foi, então, o que fiz naquela ocasião.
                        Tendo transcorridos vários meses, nos quais me dediquei integralmente a passar minhas vicissitudes para o papel e quando, já com toda a documentação debaixo do braço, entrava no escritório da editora, passei por uma das maiores vergonhas da minha vida. Ao entrar na ante-sala do diretor contemplei uma mãe que deixava seu filhinho, de aproximadamente quatro anos, fazer xixi na porta de um belo e raro armário de madeira trabalhada, estilo Luis XV. Olhando aquela criança urinando naquela verdadeira obra de arte, senti, nas entranhas, uma vergonha enorme. Imaginem que o pintinho dele era maior do que o meu!
                            Meu nome de batismo não convém mencionar, pois não vem ao caso. Desde pequeno meus pais, parentes, amigos e conhecidos chamavam-me de Coisinha. Meu comportamento sempre foi dos mais exemplares, embora alguns diretores de colégio, ao me verem chegar com meu pai, para fazer a matrícula, sempre alegassem falta de vagas para aquele ano letivo. Assim, muito do que sei aprendi por mim mesmo, como autodidata, através da leitura assídua de cartazes publicitários nas ruas, de livrinhos das Coleções Gozadores, de figurinhas das Balas Guri, de cartazes de filmes pornográficos e de diversos manuais de instalação de eletrodomésticos, que encontrava nas latas de lixo do bairro.
                                Embora um pouco cheio de complexos, em razão dos inúmeros traumas sofridos ao longo da existência, de uma coisa, verdadeiramente, posso me vangloriar: da minha grande esperteza.
                             No início da crise econômica mundial, minha mulher estava no final de uma difícil e sofrida gravidez. Certa noite, ela acordou gemendo e disse: - “Coisinha, a bolsa arrebentou!” Calmamente, respondi: - “Sossega mulher, já vendi todas as ações que tinha em carteira e com o dinheiro arrecadado comprei tudo em dólares!”. Em seguida, voltei a dormir. Horas depois, ela me acordou de novo, dizendo: - “Coisinha, está em contração!”. Com bastante calma, respondi: - “A economia é assim mesmo, em algumas horas se contrai e em outras se expande”!  Em continuação, voltei novamente a dormir. Passadas algumas horas, que para mim pareceram apenas minutos, novamente ela me acordou com um solavanco, mostrou um bebê e disse: - “Coisinha, corta aqui o cordão umbilical”!
                            Um mês depois batizávamos Coisinha Filho, que eu só chamava de Mico Preto e a família e os amigos de Bolha Econômica. Minha mulher, depois do parto, largou o bebê comigo e passou a sair com uma amiga o dia inteiro. Às vezes dormia fora de casa, só voltando no dia seguinte. Não queria mais saber de mim, nem do Mico Preto.
                            Em certa ocasião, reclamei à minha sogra sobre o comportamento da filha. A sogra prometeu falar com ela. Dias depois a sogra me contou como havia sido a conversa.  Ao dizer-lhe que seu marido gostaria de ter ao lado uma mulher cheirosa, gostosa e carinhosa, minha mulher, com aquela voz grossa que sempre teve, respondeu: - “Poxa vida, mãe, mas quem não gostaria!”
                            Passados mais alguns meses, foi embora definitivamente com a amiga. Deixei o Mico Preto com a sogra e fui à luta.
                               Como o processo de separação não pode ser amigável, já que ambos alegávamos ser o homem da casa, tive que recorrer à justiça. O desempate foi feito pelo juiz, no momento exato da audiência. Ele ficou cerca de uns vinte minutos olhando, ora para mim ora para ela, na dúvida. Só ganhei porque entrou na sala um médico Proctologísta, a quem já havia consultado uma vez, que, ao ver-me, exclamou de longe: - “Ô Coisinha, aquele tumor na tua próstata está me parecendo maligno, viu!”
                              Finalmente, terminado o processo de separação, fui à procura de uma nova companheira.
                                Enamorei-me de uma jovem de seus dezoito anos, virgem, que logo me levou à casa dos seus pais. Na sala sentei-me no sofá, entre ela e o irmão pequeno, tendo em frente sua mãe, seu pai e a avó. Eis que, repentinamente, a mãe, pensando em me convidar para o almoço, perguntou: - “O cavalheiro gosta de comer o que?”
                              Para não dar trabalho à velha, humildemente respondi: - “Eu só gosto de comer a quilo!”
                            O silencio que se seguiu foi constrangedor. A jovem começou logo a chorar. A avó, pegando pela mão o neto, saiu da sala dizendo baixinho: - “Mas que pouca vergonha!”
                             A mãe, com um lenço esfregando nos olhos úmidos, dizia: - “Nunca fui tão humilhada!”
                           Notando, pelo canto dos olhos, o pai, sargento da polícia aposentado, se levantando e fazendo menção de sacar algo debaixo da camisa, corri rápido em direção à porta entreaberta e, desembestando pela escada do edifício de apartamentos, só fui parar a alguns quarteirões de distancia, nunca mais passando por aquela rua.
                                Pensei, pouco depois, em procurar uma coroa rica e bonitona, que satisfizesse os meus mais inconfessáveis desejos.
                                Felizmente, encontrei uma que preenchia os requisitos. Era rica, gostosa e linda. Logo no primeiro encontro, afirmou que estava ansiosa para satisfazer todos os meus ardentes desejos. No dia seguinte fomos ao seu clube, onde almoçamos. À tarde, passeamos no iate dela e, à noite, jantamos tomando vinho francês e ouvindo música clássica.
                      Mais tarde, na cama, trajando um curtíssimo baby-doll preto, me disse: - “Vem, meu gostosão, que eu vou satisfazer todos os seus desejos!” Bastou dizer estas palavras para que eu, deitado ao seu lado na cama, tirasse do bolso do pijama uma lista contendo relação com perto de vinte itens, que iam desde sorvete de morango na casquinha até um trenzinho completo, com máquina, vagões, estação e trilhos, e entregasse a ela que, com um olhar que me pareceu tocado pela emoção, segurou a lista com mãos tremulas e prorrompeu em copioso choro. Virei, então, para o lado e dormi em seguida, como uma verdadeira pedra, pois estava esfalfado depois de um dia cansativo de tantos passeios.




83. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 23)

Jober Rocha

Capítulo 23
Quarta Feira, 26 de março

                      Ocorreu-me, hoje pela manhã, um episódio que vivenciei anos antes de adquirir a enfermidade que ora me acomete. O fato ocorreu, justamente, no dia em que eu saía de férias rumo a casa de campo de um amigo, no interior de Minas Gerais.
                            Entrei naquela oficina mecânica do subúrbio procurando por um alicate, para apertar a porca do terminal da bateria do carro que estava um pouco frouxa, dificultando a partida do veículo ao virar a chave de ignição.
                         O mecânico, tipo magro, de olhar inteligente e fino bigodinho sobre o lábio, ao apanhar o alicate, abrir o capô e apertar a referida porca, disse, como quem não quer nada: - Às vezes a dificuldade em dar a partida é da bobina que está com defeito. Vou dar uma olhadinha para o senhor!
                         Sem esperar a minha concordância, ele começou a retirar a bobina e, logo após, levou-a lá para dentro, para teste. Eu, sem jeito, não falei nada e fiquei apenas olhando.
                            Pouco depois, o mecânico voltou lá do fundo com o seguinte diagnóstico: - Ela esta mesmo condenada. Essa, já era. Quando a bobina dá defeito, sobrecarrega a ignição eletrônica que acaba pifando também; vou dar uma olhadinha para o senhor, patrão!
                         Em seguida, foi retirando a ignição eletrônica, que também levou lá para dentro. Retornando, pouco tempo depois, o mecânico afirmou: - Esta também está condenada. Vou ver as velas e os seus cabos; pois, estes, também dificultam a partida quando estão com problemas!
                          Foi logo retirando os cabos das velas e as próprias, que levou lá para dentro. Ao voltar foi curto e grosso: - Não disse ao senhor, patrão? Os cabos estão cortados e as velas todas sujas. Tem que trocar tudo!
                      Enquanto falava, seu ajudante, tipo baixo e atarracado, com olhar suspeito, ia substituindo as peças condenadas por peças novas.
                        Após ter trocado as mangueiras do radiador, as pastilhas de freio, a bomba d’água, a bomba de gasolina, o cano de descarga e os amortecedores, o mecânico apresentou a conta de dez mil reais, dizendo que o material trocado era todo original e, por isso, havia ficado um pouco mais caro. Disse, ainda, que nem tinha cobrado a mão-de-obra, por haver simpatizado comigo e querer me ajudar naquele momento difícil.
                              Eu, acanhado, peguei o cartão de crédito e paguei o conserto.
                           Ao sair da oficina, sob os cumprimentos e curvaturas do mecânico e do seu ajudante, pensei comigo mesmo: - Puxa vida, ainda bem que meu carro, retirado hoje da concessionária e no qual vou viajar de férias, é zero quilômetro e só tinha esses poucos defeitos. Imagino quantos defeitos o carro poderia ter, se eu, ao invés deste veículo novo, tivesse adquirido um usado. Sou um sujeito de sorte, já que o mecânico descobriu logo aqueles problemas, pois, caso contrário, eu poderia ficar enguiçado no meio de qualquer estrada deserta e acabaria perdendo alguns dias de minhas férias!
                             Enquanto seguia dirigindo, pensava: - Até que não foi tão caro assim. Vou parcelar em doze vezes no cartão, economizarei nos restaurantes e, no final, nem perceberei o impacto da despesa.
                           Hoje, recordando-me do caso, acho que a moléstia que atualmente me acomete o cérebro já devia ter se instalado, naquela ocasião, e, sorrateiramente e sem que eu daquilo me desse conta, vinha prejudicando a minha capacidade de avaliar as situações e de julgar o meu comportamento e o dos demais. Ainda hoje, em que pese alguns amigos terem dito que eu fui enganado pelo mecânico, continuo achando que ele, realmente, queria me ajudar...

(Continua no dia seguinte – nota do autor) 





domingo, 3 de julho de 2016

82. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’

 (Capítulo 22)

Jober Rocha



Capítulo 22
Terça feira, 25 de março


                  Revendo algumas antigas fotografias do meu tempo de criança, ocorreu-me um episódio que vivenciei e do qual, ainda hoje, guardo a nítida lembrança.
                           O acontecimento que abalou a pequena cidade de Ribeirópolis, no interior do Estado, ocorreu muito antes de a mídia mundial começar a divulgar, incansavelmente, casos de contatos de primeiro, segundo e terceiro graus com seres extraterrestres ou, até mesmo, episódios de abduções por naves alienígenas. 
                          Os únicos seres que poderiam almejar descer dos céus, conforme a crença local admitia, eram os anjos - que o padre da antiga igreja, construída pelos primeiros desbravadores do sertão, não cansava de elogiar em suas pregações aos domingos e dias santos.
                            Naquele lugar longínquo, onde a televisão ainda não havia chegado, os jornais saiam quinzenalmente e a rádio local apenas irradiava as palavras do vigário e uma ou outra música sacra (dentre as quais a mais tocada era a Ave Maria); era praticamente impossível que uma estória como aquela, que vou contar-lhes por dela haver participado como um dos coadjuvantes, não fosse integralmente verdadeira e aceita, sem questionamentos, pelos habitantes locais.
                       Meu pai, em razão de grave revés financeiro sofrido em decorrência da comercialização de ‘produtos piratas’, mudara-se com toda a família para aquele pequeno município (que possuía alguns garimpos de pedras preciosas e algumas fazendas agro-pecuárias), objetivando livrar-se do assédio diário de alguns oficiais de justiça, bem como entrar no ramo da exportação clandestina daquelas pedras e, com isto, recuperar o seu antigo patrimônio perdido.
                          A casa onde fomos residir ficava as margens de um rio que, embora manso e relativamente pequeno, na época das chuvas tornava-se caudaloso e avançava até quase o nosso quintal.
                             Em uma casa vizinha a nossa residia uma família de gaúchos, que também fora para aquela região, alguns anos antes, buscando tentar a sorte na agricultura. Possuíam duas filhas, uma com dezessete anos e a outra com dezoito. 
                                 As meninas eram lindíssimas. Tinham belos olhos verdes, cabelos louros e corpos que eram olhados com inveja pelas outras mulheres, e com cobiça por todos os homens do local. Sabedoras do valor intrínseco que possuíam, em uma terra onde o tipo físico predominante de mulher era o da cabocla ou da cafuza, vendiam bem caro os seus olhares brejeiros àqueles pobres jovens locais, que as assediavam em suas incansáveis disputas.
                             Entretanto, por força dos hormônios próprios da idade, elas eram vistas, muitas vezes, suspirando pelos cantos e folheando uma ou outra revista que lhes caia às mãos, com fotos de artistas de cinema, de cantores ou de atletas de qualquer modalidade esportiva.
                             Em uma manhã nublada, após uma noite chuvosa com muitos raios e trovões, quando o nível do rio subira quase alcançando a cerca do terreno da casa, seus pais, ao entrarem no quarto que ocupavam as meninas, para acordá-las, constataram que as mesmas haviam desaparecido.
                              Procuraram-nas primeiro pelas vizinhanças, com o auxílio de amigos da família e de admiradores das moças; depois, por todo o município, com o auxilio da polícia. Elas haviam desaparecido totalmente. Parecia que ambas tinham sido conduzidas dali para local desconhecido, sem deixar nenhum vestígio ou marcas. Suspeitou-se de assassinato, de rapto ou, até mesmo, de fuga. Entretanto, por mais que o povo da cidade especulasse a respeito, seus pais não viam qualquer motivo para nenhuma das hipóteses levantadas.
                         Instadas pelo padre e pela congregação de beatas, foram feitas inúmeras novenas milagrosas, rogando aos céus pela volta das duas lindas jovens.
                            Eu, como jovem vizinho e admirador fervoroso de ambas, que costumava espioná-las tomando banho de rio quase desnudas, participei, voluntária e incansavelmente, de todos os esforços promovidos para encontrá-las; pois, ainda não tinha perdido as esperanças de algum dia vir a desfrutar do interesse e dos favores de alguma delas.
                         Por fim, com o passar do tempo, todos assumiram que elas realmente haviam desaparecido, misteriosamente, para não mais voltar.
                            Tendo passado oito meses da data do sumiço das jovens, em uma bela manhã de sol, as duas apareceram no centro da cidade, cada uma carregando uma pequena maleta na mão.Vinham da direção da fazenda de propriedade de dois irmãos, solteiros e ricos, que plantavam café e cacau para exportação.Traziam, além das pequenas maletas, duas enormes barrigas, indicando que ambas estavam lá pelo oitavo ou nono mês de gestação.
                          Em casa, na presença dos pais, do padre e de diversos moradores, elas puderam, finalmente, contar uma fantástica estória sobre o que lhes havia ocorrido. 
                         Segundo relataram, envergonhadas e cabisbaixas, naquela noite de chuva forte, repentinamente, o quarto onde elas dormiam havia sido iluminado por uma intensa luz, que as cegou momentaneamente. 
                           Com a diminuição gradativa da intensidade da luz, puderam ver dois anjos que as convidaram a visitar a morada dos Deuses. Os anjos fizeram-nas entrar em um veículo prateado que, a uma velocidade incrível, as havia conduzido para uma terra distante, em um local do céu para elas totalmente desconhecido.
                             Naquela terra tudo era diferente do que conheciam aqui na Terra. Embora só tivessem ficado poucos dias visitando aquele local, os anjos lhes informaram que no lugar de onde tinham vindo (a Terra) já haviam transcorrido vários meses, em razão do fenômeno físico da relatividade espaço-temporal. 
                              Ao conduzi-las de volta para a Terra, afirmaram que o crescimento de suas barrigas, que elas já haviam notado, era normal e devia-se a um fator gravitacional, que acometia a todos os viajantes espaciais. Com o passar do tempo aquelas barrigas enormes desapareceriam. Disseram, também, que os Deuses, dentro de mais alguns dias, enviariam dois bebês para que elas cuidassem, com vistas a observar se aqueles pequenos filhos de divindades se adaptariam as condições atmosféricas e a vida em nosso planeta.
                          Os seus pais, muito religiosos, ao ouvirem aquela narração ajoelharam-se para orar em agradecimento, no que foram seguidos pela multidão de trabalhadores rurais e de garimpeiros, que a tudo assistia.
                          O padre, demonstrando certo ceticismo, deu início a uma oração em louvor dos Deuses, que foi rezada por todos os presentes, naquela ocasião.
                         Os bebês, que chegaram poucos dias depois, eram (segundo opinião daqueles que os contemplavam) muito parecidos com os dois ricos fazendeiros locais; os quais, rapidamente, prometeram ao padre mandar erguer em suas terras uma capela em agradecimento aos Deuses, por aquela deferência de enviar dois anjos tão parecidos com eles. 
                      Certa ocasião, meses depois, eu realizava um pequeno trabalho a pedido do pai das jovens, no sótão da casa deles, quando, ao abrir um pequeno baú cheio de velharias, encontrei o livro de um autor inglês, traduzido para o português, com uma estória muito parecida com aquela do depoimento que eu ouvira relatado pelas meninas.
                          Muito religioso imediatamente pensei, fazendo contristado o sinal da cruz: - Milagres realmente acontecem. Quando os Deuses querem, até mesmo a ficção pode se transformar em realidade...


(Continua no dia seguinte – nota do autor)


81. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 21)

Jober Rocha


Capítulo 21
Segunda Feira, 24 de março


                  Um antigo colega de repartição pública do qual me lembrei agora com saudade, morava na zona sul, possuía dois filhos e era bem casado. Trabalhava em minha seção e ia para o trabalho, todos os dias, em seu carro conversível. Possuía um colega de infância que morava perto dele e que, também, trabalhava no centro da cidade. 
                       Em uma determinada ocasião aconteceu um episódio que o obrigou a pedir transferência para outra repartição. Este episódio, que irei relatar a seguir, ficou sendo do conhecimento de todos os demais colegas e motivo de chacotas, razão pela qual ele solicitou a sua transferência.
                         Naquele dia o amigo lhe telefonara pela manhã pedindo carona para o trabalho, já que o carro do amigo enguiçara dentro da garagem.
                          Atendendo ao pedido, meu colega apanhou-o em casa e dirigiu-se, como sempre fazia, pelo caminho mais curto para o centro da cidade.
                     Naquele dia, entretanto, por causa de um acidente mais à frente, a estrada, que era de mão dupla, estava completamente congestionada.
                Eles ficaram vários minutos parados e o trânsito não fluía. Notando, porém, que o engarrafamento era apenas no sentido do centro, ocorreu ao meu colega voltar e pegar outra estrada que, embora mais longa, deveria estar vazia naquela hora.
                         Estavam parados em frente a um Motel chamado Palácio da Luxúria, à esquerda da mão em que seguiam. Como não dava para fazer a volta na própria estrada, meu colega resolveu entrar pelo portão do motel, fazer a volta lá dentro e sair pelo mesmo portão, em direção contrária ao centro da cidade.
                       Foi exatamente o que fez. Só que, após haver contornado por dentro do terreno do motel, na saída, parando no portão para esperar um carro que passava na hora, deu de cara com o seu chefe e com alguns colegas de trabalho. Todos eles, em um mesmo veículo, estavam parados na pista que seguia para o centro, em razão daquele engarrafamento, bem em frente ao motel. Eles o reconheceram de imediato, naquele carro conversível amarelo e, sem nada dizer, apenas sorriram em sua direção.
                        Aqueles sorrisos meu colega compreendeu na hora o que significavam, ao perceber que haviam visto a seu lado o amigo e vizinho, a quem desconheciam, e ambos saindo juntos pela manhã de um motel na estrada.
                       Ao chegar ao trabalho bem mais tarde, já que a outra estrada que tomara também estava congestionada, ele notou que todos o olhavam de maneira estranha, alguns com risinhos disfarçados. Teve até a impressão de haver ouvido, por detrás de uma porta fechada, alguém as gargalhadas dizendo:- Aquele cara nunca me enganou!

(Continua no dia seguinte – nota do autor)




80. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 20)

Jober Rocha


Capítulo 20
Domingo, 23 de março


                        Não sei o motivo pelo qual tem me ocorrido, nestes últimos dias, um estado de total desânimo no qual relembro, com lágrimas nos olhos, episódios a mim ocorridos antes que esta insidiosa moléstia me acometesse. Aproveito este diário para colocar estas lembranças no papel, em uma espécie de catarse que facilite minha aceitação sobre coisas que não posso modificar.
                      Esta estranha estória, que passarei a narrar, ocorreu há muitos anos atrás e dela tomei conhecimento por haver ocorrido com um colega de trabalho, também bacharel em Direito como eu e inconformado com a sua baixa posição hierárquica na repartição pública em que trabalhávamos naquela ocasião.
                 Corria o ano de mil novecentos e poucos e o nosso país, ainda atrasado econômica e culturalmente, ensaiava os primeiros passos no sentido da superação dos obstáculos ao seu desenvolvimento.
                 Ele, o personagem principal, com a idade de vinte e poucos anos, trabalhando como contínuo na mesma repartição em que eu também trabalhava, concluíra, junto comigo, o curso de Direito na capital e procurava um emprego mais condizente com o seu status de bacharel, emprego este tão difícil naquela época quanto hoje.
                      Na ocasião, começavam a proliferar cursos de Direito no interior do Estado, cada cidade querendo ter sua própria faculdade.
                  Através de um amigo comum, meu e deste companheiro de trabalho (amigo este, na oportunidade, alto funcionário público), ele ficou sabendo de uma vaga para professor na Faculdade de Direito de uma pequena cidade, bem afastada da capital.
                     Na falta de qualquer outra oportunidade, para lá se dirigiu. Após uma rápida entrevista com o diretor recentemente nomeado para o cargo, ele soube que estava sendo criada a Faculdade de Direito e que necessitavam de um professor para a nova cadeira de Contabilidade, que havia entrado na grade curricular das Faculdades de Direito, naquele ano.
                   De Contabilidade ele nada sabia; pois, na faculdade em que se formara não havia, até então, aquela disciplina. Imaginou, porém, que, assim como ele, os alunos do curso também nada saberiam daquela matéria.
                     Achava que com um pouco de retórica, de sofística e da hermenêutica jurídica, que havia aprendido na capital, conseguiria enrolar aqueles caipiras do interior (assim nomeara ele os seus futuros alunos).
                      No dia programado para sua primeira aula, acordou cedo em seu quarto no único hotel daquela cidadezinha, barbeou-se e colocou sua melhor roupa, para causar boa impressão aos alunos.
                        Chegando à sala de aulas, havia cerca de 30 alunos, além do diretor, esperando por ele.
                        Alguns daqueles alunos, entretanto, já possuíam noções da matéria, por haverem feito o curso Técnico de Contabilidade, em cidade vizinha, e alguns até trabalharem em escritórios locais de Contabilidade.
                      Após apresentar-se aos alunos e tecer vários comentários sobre o clima quente da região, a perspectiva de chuvas próximas e a arquitetura colonial da igreja matriz, ele perguntou à platéia se alguém queria fazer alguma pergunta, antes de encerrar a aula.
                     Vários alunos levantaram-se e, alternadamente, perguntaram: - Professor, o que é Ativo Fixo? O que é Capital Circulante? O que é Patrimônio Líquido? O que é Capital de Giro? O que é Passivo à Descoberto?
                 Apanhado de surpresa, ele ficou durante alguns momentos com a cabeça baixa, procurando, pelo canto dos olhos, uma maneira rápida de escapulir daquele ambiente. Pensou em atirar-se pelo vão da janela entreaberta; mas, logo em seguida lembrou-se de que estavam no quarto andar do prédio.
                  Ele nunca ouvira falar naqueles termos contábeis e não tinha a menor noção do que significavam. Subitamente, porém, veio-lhe à mente que, se os alunos lhe perguntavam, era porque também não saberiam.
                       Pensando rápido e fazendo uso de toda a malandragem aprendida ao longo de seus vinte e poucos anos vividos na capital, respondeu, calmamente:
 - Meus caros alunos imaginem vocês uma empresa que se dedique à exploração de estradas de ferro e que transporte em seus vagões gasolina, álcool, diesel ou qualquer outro produto líquido. Os trilhos da estrada constituiriam o Ativo Fixo da empresa. O comboio, formado pela máquina e por todos os vagões, representaria o Capital Circulante. A carga dos vagões consistiria no Patrimônio Líquido e as rodas da locomotiva no Capital de Giro. Passivo a Descoberto é quando encontram o maquinista da composição abraçado com o seu ajudante no interior da cabine da locomotiva!
                    Parou de falar e, em seguida, encarou a platéia de frente, para ver o efeito de suas palavras. Estava plenamente convencido do bom senso e da veracidade daquela sua explicação, julgando-a, até mesmo, digna de figurar nos principais compêndios da matéria.
                  Os alunos entreolharam-se e, levantando todos ao mesmo tempo, prorromperam em estrepitosa vaia, retirando-se, em seguida, ruidosamente da sala.
                No final da tarde daquele dia encontraram o meu colega na estação ferroviária, esperando o trem das dezoito horas, cabisbaixo e demonstrando certo descontrole nervoso.
                    De pé, na plataforma da estação ferroviária, ao ver a locomotiva se aproximar, atirou-se nos trilhos quando esta passou por ele, tendo morte instantânea.
                      Poucos meses depois alguns alunos afirmaram haver visto seu espírito, de pé, na mesma plataforma ao entardecer, talvez ainda mortificado pelas vaias recebidas, esperando, com certeza, a próxima chegada do Capital Circulante das dezoito horas...

(Continua no dia seguinte – nota do autor)