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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

 428. O Caso número 23

Jober Rocha


- Caso número 23!
Com uma voz de falsete o magistrado, envolto em uma grossa capa preta, chamou o próximo caso a ser julgado.
- O Estado contra o senhor José Manuel da Silva, acusado de ter sido apanhado urinando na rua!
- Confessa senhor José Manuel?
- Claro meritíssimo. Em um país como este é a única coisa que resta ao cidadão comum!
- Como assim?
- Quando votamos e elegemos os políticos municipais (prefeitos e vereadores), não é simplesmente para pagar-lhes um salário e enche-los de mordomias. É para que zelem pelo município: consertem os buracos das ruas, os sinais de trânsito apagados, limpem as praças, varram as ruas e também, dentre outras, que coloquem banheiros públicos para serem usados pela população!
- Em nosso município não existe um único banheiro público nas ruas. Por isso, eu, estando com a bexiga cheia e transitando pela Rua das Ameixas Pretas, onde só existem residências particulares cujas entradas são vedadas a estranhos, resolvi urinar na rua antes que a minha bexiga estourasse. Estou convencido de que fiz a coisa certa, pois, caso contrário, as consequências advindas para mim seriam muito piores. Ficaria meses internado no péssimo hospital municipal, sendo atendido por profissionais mal pagos e sem interesse nenhum pelo meu caso particular. Poderia acabar falecendo com uma septicemia. Para evitar tudo isto, eu urinei na calçada da Rua das Ameixas Pretas, sob os olhares admirados de algumas senhorinhas. Não sei meritíssimo se admirados pelo inusitado do fato ou se pelo ‘tamanho do problema’...!
- Senhor José Manuel da Silva, o seu caso não é tão simples assim. Existem outros fatores em jogo, como a violação da moral pública; a subversão dos costumes; o fato de expor órgão sexual de tamanho anormal aos olhares de crianças e mulheres; molhar a via pública com líquido de odor fétido; fazer suas necessidades fisiológicas na exata hora em que o sino da igreja tocava, chamando os fiéis para a missa, em um flagrante desrespeito às coisas divinas e, finalmente, ter molhado a perna da calça do guarda que foi detê-lo, com um resto de urina que sobrara em sua bexiga!
- Veja, portanto, que você pode ser incluído em vários itens da legislação penal e, embora muitas mulheres do município torçam pela sua liberação, a grande maioria dos homens quer vê-lo atrás das grades, na cadeia!
Nesse exato momento, o promotor levantou-se de sua cadeira e disse:
- Se fosse só pelo inusitado do ‘tamanho do problema’, o Ministério Público não faria carga sobre o fato, mas temos que levar em consideração todas as demais implicações cíveis e criminais que o acontecimento suscita. Temos que pensar na defesa do Estado e nas gerações futuras!
O advogado do Sr. José Manuel da Silva, até então calado, levantou-se, pediu vênia ao juiz e disse:
- Meus senhores e minhas senhoras algum dos presentes já se encontrou, porventura, em uma situação igual a do meu cliente? Com a bexiga cheia no meio da rua de um bairro desconhecido, formado só de casas, sem nenhuma loja onde pudesse haver um banheiro destinado aos clientes?
- Se alguém já passou por esta situação sabe bem da aflição que dominou o meu cliente na ocasião!
- Acredito que todos aqui presentes, na mesma situação, teriam feito exatamente o que ele fez. Em uma hora trágica como esta, passa-se por cima de tudo: moral, costumes, religiosidade, obediência às leis, amizades, respeito, etc. A necessidade fisiológica a tudo isso se sobrepõe, mandatória. Lembrem que, em Jó 8.1-11, Jesus teria dito: - Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra!
-Pergunto, pois aos presentes: qual de vós nunca deixou algumas gotas de urina cair na sua cueca ou calcinha, antes de poder aliviar sua bexiga em um confortável banheiro?  
- Recordem que meu cliente estava distante de qualquer banheiro e sua bexiga necessitava ser esvaziada a qualquer custo, após os primeiros pingos começarem a sair descontrolados.
- Aquele que jamais molhou a cueca ou a calcinha, que condene o meu cliente!
O Juiz, então, com a cueca já molhada, pois estava sem ir ao banheiro desde as oito horas da manhã, arquivou o caso e deu por encerrada a seção. A seguir, os presentes começaram a se levantar e caminhar em fila indiana para os dois banheiros existentes no local. Alguns tinham as pernas fechadas e comprimiam o ventre. Outros já aparentavam manchas visíveis de urina nas roupas.




quinta-feira, 6 de maio de 2021

 420. A Visão de Michel de Nostradamus


 Jober Rocha*


    Nestes tempos de pandemia, em uma noite quente em que havia tomado um tranquilizante para poder dormir, tive a sensação de que caia em um precipício e, logo a seguir, que acordava sobressaltado na cidade do Rio de Janeiro, onde realmente morava. Não saberia dizer se estava verdadeiramente acordado ou se sonhava, pois o que passarei a narrar foi, para mim, tão real que até hoje ainda estou em dúvida se não se tratou de um sonho ou de uma premonição acerca de algo que, certamente, está bem próximo de ocorrer no futuro ano de 2025.

    Acordei com estampidos vindos da rua. Isso já era uma coisa normal em todos os bairros da cidade; mas, naquela manhã, os tiros eram tantos e acompanhados de muita gritaria, razão pela qual resolvi olhar por trás da persiana fechada do meu quarto e ver do que se tratava.

  Antes, porém, quero dizer que meu nome é Michel de Nostradamus de Castro e Silva e moro com a família, mulher e dois filhos, em um apartamento de três quartos em um bairro de classe média alta, na cidade do Rio de Janeiro.

  A última eleição presidencial havia transcorrido três anos antes, em 2022. Nela havia sido eleito um candidato de extrema esquerda. O anterior presidente, um liberal de direita candidato a reeleição, embora tenha feito um bom governo, por haver se recusado a utilizar os recursos do Fundo Partidário nas eleições de 2022, não conseguiu mobilizar seus tradicionais eleitores nem aqueles outros que lhe faziam oposição. 

  Sua campanha foi pobre e totalmente superada pela dos partidos de esquerda, que se uniram em torno do nome de um único candidato. Este candidato, tendo sido anteriormente condenado e preso, por casuísmos das mais altas cortes do país fora solto e tivera a sua condenação anulada. Os demais processos a que respondia foram todos paralisados e arquivados, possibilitando, com isso, que ele se apresentasse candidato nas eleições de 2022.

     Naquela eleição, o dinheiro do fundo correu solto para a mídia venal e para a compra de corações e mentes dos formadores de opinião, fazendo com que a população ignorante, submissa e interesseira, mais uma vez, fosse engambelada com promessas do paraíso terrestre construído pelas mãos daquele candidato esperto e bem falante, dono de uma retórica invejável  com a qual ainda supera todos os demais políticos de esquerda, oportunistas, do país.

     Enfim, foi eleito aquele velho candidato da esquerda que, paradoxalmente, além dos votos dos mais pobres, contou também com os votos e o apoio de grandes empresários, de autoridades religiosas, de intelectuais, de artistas e de militares graduados das mais altas patentes.

     Tendo transcorrido três anos da posse do candidato eleito, em 2025, praticamente, já vivíamos em um governo ou regime narco-comunista. Os líderes das facções criminosas, até então presos incomunicáveis em presídios federais, haviam sido todos soltos, seus negócios haviam prosperado e se expandido. Plantações de maconha e destilarias de cocaína funcionavam abertamente em vários Estados da Federação, depois que tanto a produção quanto o consumo de drogas haviam sido liberados pelas autoridades parlamentares.

     Os militantes e os ativistas da esquerda, que estavam infiltrados no governo anterior, de direita, sabotando decisões do presidente e de sua equipe de governo e fornecendo informações privilegiadas para seus partidos e que, por isso mesmo, haviam sido demitidos, retornaram todos no novo governo de esquerda eleito, agora com muito mais força política e um ódio muito mais intenso contra o capitalismo.

  As facções criminosas que agiam livremente, haviam recrutado milhares de ‘soldados’, que intimidavam a inoperante polícia e amedrontavam a população trabalhadora, temerosa de sair às ruas e vivendo trancada em suas casas, por força do chamado lockdown, torcendo para que dela se esquecessem.

     Esses ‘soldados’ do crime, anteriormente desunidos e em guerra entre eles mesmos, já haviam superado suas divergências e se unido em torno de um líder único, conhecido como Mariozinho Beira Rio, que chefiava com mão de ferro aquele exército de criminosos.

  Nas reuniões e solenidades no palácio do novo governo de esquerda, na capital federal, via-se, constantemente, a presença de inúmeros assessores fardados de alguns países comunistas, tanto do nosso continente quanto de fora dele.

    Os uniformes visíveis, nestas ocasiões, cada qual mais colorido que o outro, demonstravam que nossas autoridades nada mais eram que simples representantes fantoches e lacaios de países comunistas mais antigos e mais poderosos, que, aproveitando-se da saída dos USA dos acordos e foros internacionais; do protecionismo e do fechamento daquele país em torno de suas fronteiras; da ausência de ideólogos de direita que contrabalançassem os ideólogos de esquerda junto ao meio intelectual e artístico (que, tradicionalmente, orientam a juventude e as massas trabalhadoras) e do trabalho desenvolvido por entidades internacionais e pelos representantes de algumas religiões que adotaram as chamadas Teologia da Libertação e a Ecoteologia ou Teologia Ambientalista (está última uma forma disfarçada de panteísmo, mas, que, visava, na prática, assenhorear-se dos recursos naturais da Região Amazônica para grupos econômicos a elas ligados), visando à implantação da Nova Ordem Mundial, tinham, finalmente, conseguido chegar ao poder em inúmeros países sul americanos e africanos.

  Assim, tendo eu feito uma breve síntese dos fatos ocorridos após a derrota nas urnas do candidato liberal de direita, seguirei com a narração do que ocorreu naquele dia e nos demais que se seguiram ao meu ‘suposto’ sonho.

  Olhando por detrás da persiana, vi muitas pessoas armadas saqueando os transeuntes e as lojas abertas, algumas delas já cerrando-as rapidamente. Resolvi descer até a portaria do prédio e ver como estavam as coisas lá embaixo, isto é, nas ruas.

  No térreo fui alertado pelo porteiro a não sair do prédio, mas minha curiosidade era grande demais e resolvi sair e caminhar pelas ruas.

     A primeira coisa que notei foi a total ausência da polícia. Está havia, simplesmente, sumido. Caminhando por várias ruas não vi nenhum policial, como, também, nenhum bombeiro para combater os inúmeros incêndios que grassavam pelo bairro, ateados com coquetéis Molotov jogados pelos criminosos e revoltosos.

     Pelo que pude perceber, as facções criminosas haviam ordenado aos moradores das comunidades pobres que se rebelassem contra as autoridades constituídas e fossem às ruas para roubar e saquear o comércio e as residências particulares, visando a instauração do caos social. 

     Essas facções agiam sob ordem do partido político no poder, que encontrou forte resistência da parte de alguns civis e militares patriotas, que não compactuam com a tentativa de implantação do comunismo no país. O objetivo dos criminosos era implantar o caos nas cidades e no campo para que o governo pudesse agir com mão forte, reprimindo os patriotas com o auxílio das forças armadas e das forças policiais cooptadas.

     Notei, caminhando pelas ruas, as lojas fechadas, a ausência de transportes públicos e, apenas, um ou outro veículo circulando. Muita fumaça partindo dos prédios incendiados e as ruas quase todas desertas.

    Ao longe eu ouvia rajadas de fuzis e de metralhadoras e disparos de pistolas. Resolvi retornar para casa, me esgueirando rente às paredes das lojas e dos edifícios.

     Fiquei cerca de três ou quatro dias em casa com meus familiares, comendo aquilo que tínhamos na despensa. A situação nas ruas, pelo que imagino, não se modificará. Nenhuma polícia, nem elementos das forças armadas eram vistos circulando pela cidade. As lojas permaneciam fechadas e os gêneros alimentícios já faltavam em todas as residências. Uma ocasião, durante a noite, a luz foi cortada em um ato de sabotagem junto às torres de distribuição, segundo fiquei sabendo por intermédio do porteiro. Pouco depois, cortaram o fornecimento de água.

     Resolvi que não valia mais a pena esperar ali, no apartamento, a normalização da situação, pois, pelo visto, ela jamais se normalizaria.

     Decidi que tentaria me deslocar com a família para uma casa de fim de semana que comprara a prestação, localizada em região montanhosa do interior, afastada da capital.

     Antevendo eu a possibilidade de uma futura convulsão social no país, há alguns anos adquiri esta casa em região montanhosa isolada, onde poderia estocar alimentos, armas e munições, em um porão previamente construído, e tentar sobreviver com o que dispunha.

  Ali eu poderia resistir durante muito tempo, até as coisas se definirem e o país voltar ao seu rumo, com ordem e segurança.

  Com calma e tempo, eu preparei previamente uma horta, plantei árvores frutíferas, montei um galinheiro onde viviam cerca de trinta e poucas galinhas e iniciei uma criação de coelhos. O terreno possuía em seus limites um pequeno córrego de águas limpas, que abastecia a casa.

     A energia da casa vinha de células captadoras de energia solar. O gás da cozinha vinha de uma pequena usina produtora de gás, a partir de rejeitos orgânicos. Havia também estocado diesel para a caminhonete. 

    Em suma, se eu conseguisse chegar até a minha propriedade nas montanhas, ali poderia sobreviver durante muito tempo, resistindo pela força das armas a alguma invasão ou assalto de bandos ou turbas revoltosas.

  O grande problema era chegar até lá, pois a convulsão social havia se estendido por todos os Estados da Federação e, naquela situação, transitar pelas ruas das cidades transformou-se em uma aventura arriscada, ainda mais com mulher e filhos.

    De qualquer forma, dei início a preparação para sair daquele apartamento. Minha caminhonete Toyota estava estacionada na garagem do prédio com o tanque de diesel cheio. 

     Recolhi os mantimentos que ainda restavam em casa, enchi várias garrafas de plástico com água potável, apanhei vários cobertores, meus documentos e os dos demais membros da família e coloquei tudo na parte de trás do veículo.

    Peguei minha pistola Beretta mod. 92, calibre 9mm, com quatro carregadores de 15 tiros cada, cheios; minha pistola Colt 1911, calibre .45, com cinco carregadores de 7 tiros cada, cheios; uma escopeta Mossberg, calibre 12, semiautomática, com capacidade para 10 cartuchos, carregada, e diversas caixas de munição que possuía em casa.

    Coloquei as caixas com as munições no porta luvas, as pistolas na cintura, os carregadores nos bolsos da calça e a escopeta ao meu lado no banco da caminhonete, reuni a família e deixei a garagem do prédio sem nem olhar para trás e sem saber quando ali voltaria novamente.

    Sai do prédio e transitei por várias ruas desertas, tomando o rumo do Aterro do Flamengo. Avisei aos familiares que, quando me vissem sacando alguma das armas, eles deveriam se jogar no chão do veículo e dali só sair com ordem minha. 

     Pretendia atravessar a Ponte Rio Niterói, seguir pela Avenida do Contorno, já em Niterói, até atingir a BR 101, passando pelo município de Itaboraí e, mais adiante, seguir pela RJ 116 em direção ao município de Nova Friburgo. Dali, depois de atingir Muri no quilômetro 73, pegaria a estrada à direita em direção ao município de Lumiar. 

    Minha propriedade fica próxima de São Pedro da Serra, em uma alta montanha, quase sempre coberta pela cerração, entre este município e o de Benfica.

  Pelo caminho por onde passávamos, o panorama era de uma guerra declarada: casas, lojas e edifícios em chamas ou enegrecidos pelo fogo já apagado. Buracos de balas em muitas paredes, ruas desertas, esparsos veículos circulando, nenhuma viatura policial ou das forças armadas.

     Entrei no Aterro do Flamengo e segui em direção ao Aeroporto Santos Dumont, de onde seguiria através do túnel Marcello Alencar até a Praça Mauá.

     Nas proximidades do aeroporto, ainda de longe, notei que haviam feito uma barreira na pista e algumas pessoas armadas faziam sinais para que eu parasse. Parar, naquela situação, significaria morte certa. Mandei que todos no veículo se abaixassem, saquei a pistola 9 mm e desci os vidros da frente do veículo. Fiz que ia parar na barreira, o que tranquilizou os seus integrantes.

     Com os olhos procurei rápido o ponto mais fraco da barreira e logo o encontrei. Alguns caixotes de madeira jogados na pista bloquearam o lado esquerdo da via e percebi que por ali poderia passar, quebrando aqueles caixotes com as rodas do veículo.

    Quando um dos que ali estavam se aproximou pela direita, atirei em seu peito com a pistola. Ele caiu e os outros se aproximaram. Descarreguei meio carregador neles, joguei o veículo em direção aos caixotes e, passando por eles, pisei fundo no acelerador, pois eles começaram a atirar em minha direção. Felizmente não acertaram nenhum tiro. 

     Entrei no túnel Marcello Alencar e rumei célere em direção à Praça Mauá. Ali chegando, tomei a direção da subida da Ponte Rio Niterói. Eventualmente, cruzava com algum veículo em sentido contrário, pois aquela parecia uma cidade fantasma, embora possuísse cerca de 6,2 milhões de habitantes.

    A travessia da ponte foi tranquila. De cima dela pude avistar partes da cidade do Rio de Janeiro, que ficavam para trás e parte da cidade de Niterói, para onde eu me dirigia. Em ambas a fumaça negra dos incêndios turvava o céu azul daquele belo dia de sol.

     O posto de pedágio estava vazio e as cancelas todas abertas. Não vi nenhum funcionário no local. Tomei o rumo da Avenida do Contorno, local perigoso pois passava por cerca de quinze comunidades carentes, a pior delas entre os quilômetros 307 e 309 da BR 101 (Rodovia Niterói-Manilha), chamada Complexo do Salgueiro e mais conhecida como Faixa de Gaza.

     Nesta rodovia parei o veículo e pedi a minha esposa que ocupasse o volante. Passei para o banco de trás da caminhonete, arriei ambos os vidros laterais, segurei nas mãos a escopeta Mossberg semiautomática, engatilhei o mecanismo e fiquei atento à estrada.

     Mais à frente, justamente na altura da Faixa de Gaza, duas motocicletas atravessadas na pista impediam o trânsito de veículos. Minha mulher ficou nervosa, sem saber o que fazer. Mandei que seguisse devagar e mirasse com a nossa caminhonete a parte do meio da pista que separava ambas as motos, pois entre elas havia um espaço de cerca de um metro.

    Em volta das motocicletas haviam cerca de dez pessoas conversando, algumas com fuzis nas mãos e outras com suas armas penduradas nos ombros pelas bandoleiras. No acostamento da rodovia notei mais algumas pessoas.

     Nenhuma delas esperava reação, pois foram completamente surpreendidas pelos meus disparos repetidos em suas direções. Muitos deles, atingidos pelos inúmeros chumbos projetados dos cartuchos, caíram ao chão. Minha mulher jogou o veículo entre as duas motos, que foram atiradas para o lado. Ao mesmo tempo eu seguia disparando em todas as direções, vendo gente cair por todos os lados, todos atingidos pelos meus disparos.

    Mais uma vez passamos incólumes por uma barreira de revoltosos sublevados. Seguimos até perto de Itaboraí, quando pedi a ela que parasse o veículo e eu assumi o volante. Recarreguei todas as armas e seguimos em frente.

    Meus filhos, dois meninos, um com doze anos e o outro com quatorze, participavam daqueles acontecimentos como se estivessem vivendo na vida real algum dos jogos de guerra que costumavam acessar com seus Smartphones. Eu me recordava dos velhos filmes de faroeste em que os colonizadores, em carroções puxados por parelhas de cavalos, eram assediados pelos índios revoltosos.

  Lembrei-me, naquela ocasião, do maquiavelismo dos governantes de esquerda que desarmaram a população do país, já prevendo a chegada destes dias trágicos que viveríamos. Os cidadãos desarmados tornavam-se presas fáceis das organizações criminosas que importavam fuzis, pistolas e munições em quantidade, pelas fronteiras desguarnecidas do país.

     Eu, desde longa data, havia me filiado a um clube de tiro e caça e, como atirador desportivo e caçador, havia adquirido diversas armas e munições, além de praticar com frequência o tiro sob as mais diversas modalidades.

  Sempre achei que a esquerda não desistiria enquanto não tomasse o poder em nosso país. Os episódios da Intentona Comunista de 1935 e da Guerrilha Urbana e Rural, iniciada após o Movimento Militar de 1964, reforçaram esta minha crença e fizeram com que eu me preparasse pessoalmente para essa eventualidade. 

     Aprendi técnicas de sobrevivencialismo e procurei construir um refúgio isolado e distante dos centros urbanos, para viver com a família em uma eventualidade como a que agora se apresentava. Quantos cidadãos de bem irão perecer nessa convulsão social, por não terem feito o mesmo?

     Uma coisa que notei agora, e que jamais pensei que fosse ocorrer, é que os primeiros a sumirem das ruas nas convulsões sociais são as autoridades públicas. As ruas tornam-se desertas de uma hora para a outra. A polícia, os bombeiros, os militares, os serviços públicos, todos desaparecem da vida da cidade. O transporte público para de funcionar, os lixos não são mais coletados e se amontoam pelas ruas, a luz e a água são cortadas, o comércio fecha as suas portas, surge o desabastecimento e com ele a fome.

    Quem antecipadamente não se preparou para uma eventualidade deste tipo é apanhado de surpresa e, infelizmente, acaba perecendo. A situação geral de destruição é muito parecida com aquela que ocorre nos grandes cataclismos; todavia, nestes existe um espírito de cooperação entre os sobreviventes. Na convulsão social e na guerra civil o espírito é de antagonismo e de guerra entre os participantes dos dois lados em contenda.

    Você seguirá vivendo tão somente enquanto dispuser de armas, munições, água e comida. Ninguém estará preocupado com a sua situação, a não ser você mesmo.

     Minha mulher é uma pessoa prática e fatalista. O que tiver de ser será, segundo ela pensa. Vive bem com aquilo que tiver, não sendo ambiciosa nem gastadeira. Se adapta perfeitamente à vida simples do campo, como eu também. Espero que possamos seguir sobrevivendo enquanto durar esta terrível situação pela qual estamos passando, exclusivamente, por descaso de algumas autoridades, políticas, militares, econômicas e religiosas, não comprometidas com a ideologia marxista nem com o narcotráfico, nas últimas décadas de governos esquerdistas, mas ineficientes e desinteressadas.

     Tais autoridades sempre acharam que, em nosso país, as coisas poderiam ser negociadas entre os grupos que disputavam o poder, visando chegar a um acordo que fosse bom para todos os grupos; sempre foram pacifistas; sempre tiveram receio da opinião mundial. 

     Pouco ou nada entendiam de política, de ideologia, de estratégia geopolítica e se deixaram iludir pelo canto das sereias marxistas-gramscistas, que almejavam alcançar o poder, inicialmente de forma pacífica, subvertendo a moral e os bons costumes como fizeram na realidade nos anos em que governaram, antes de partir para o golpe final na democracia mediante a revolta que ora vivenciamos envolvendo, de um lado, as facções criminosas e o povo pobre das periferias, armados e incentivados pelos ideólogos e intelectuais de esquerda, e do outro a população dos profissionais liberais e dos empresários da classe média (os pequenos burgueses odiados pelos comunistas), desarmados pelos governos de esquerda. 

     As elites envolvidas com o narcotráfico, com o desvio de dinheiro público, com concorrências fraudadas, com a compra de leis e decretos que os favorecia, com a compra de sentenças quando julgadas pelos crimes cometidos, eram declaradamente favoráveis aos governos de esquerda venais, que roubavam e deixavam roubar.

     Com o início da convulsão social, os ricos e oportunistas seguiram em seus aviões particulares para as grandes capitais no exterior e para os paraísos fiscais, onde aguardariam a poeira assentar, vivendo nababescamente, para retornarem, futuramente, com seus esquemas e maquinações tradicionais, tão logo os novos e poderosos governantes comunistas controlassem totalmente  a situação.  

    Terminada esta digressão, face a impaciência que já percebo em alguns leitores para conhecer o desenrolar dos acontecimentos daquele dia, seguirei narrando a nossa viagem. 

    Após atravessarmos o município de Itaboraí, viramos à esquerda e seguimos pela RJ 116 em direção a Nova Friburgo. Já estávamos, praticamente, bastante longe dos principais focos de rebelião, que eram os centros urbanos populosos, como o Rio de Janeiro e Niterói.

     Passamos por Sambaetiba, Agrobrasil, Papucaia e Cachoeiras do Macacu, antes de atingir Nova Friburgo. Esse trajeto foi feito sem nenhum incidente, pois a estrada estava praticamente deserta. 

  Não vimos nenhum veículo da Polícia Rodoviária, nem pessoas andando nas margens da estrada. Parecia que éramos os únicos habitantes vivos do planeta. Nos municípios em que penetramos, as lojas estavam todas fechadas e as ruas vazias. Notamos alguns veículos queimados e marcas de disparos de armas de fogo nas paredes das casas. A situação, realmente, parecia muito grave.

     Os pedágios da estrada, da mesma forma que o da Ponte Rio Niterói, estavam vazios e com as cancelas abertas.

     Finalmente, mais tranquilizados, pudemos apreciar um pouco da bela paisagem que se descortinava e respirar aquele ar puro que sentíamos ao subir a serra. Matas com grandes árvores se perdiam no horizonte. Por vezes, ao fazer alguma curva, avistávamos um fio de água escorrendo pelas encostas rochosas que a estrada margeavam. Aspirávamos um cheiro de essências florestais quando descíamos os vidros das janelas do veículo.

    Os meninos brincavam no banco de trás, minha mulher dormia no assento do meu lado. Aquele parecia mais com um dia de férias do que com um dia de guerra, no qual eu já havia matado e ferido diversas pessoas. Chegamos ao alto da serra de Friburgo e começamos a descer.

     Passamos pelo posto fechado da Polícia Rodoviária, na entrada do município, e seguimos em frente. Pouco depois de Muri, viramos à direita e entramos na estrada que conduzia a Lumiar.

     Esta estrada, como as demais, estava totalmente deserta. Pensei comigo mesmo: será que só eu tive a ideia de construir um abrigo fora de casa na cidade e afastado, para me esconder e tentar sobreviver? Todos os demais se escondiam em suas próprias casas nas cidades? Só podia ser isto, para as estradas se acharem todas desertas.

     Depois de rodar algumas horas, nos aproximamos da minha propriedade. A casa ficava na parte alta da montanha e era acessada por uma estrada de terra. Na época das chuvas, mesmo usando a tração nas quatro rodas era difícil chegar ao alto, pois o barro ficava escorregadio.

     Chegamos a casa em um dia de semana, de surpresa. Todavia, quem foi surpreendido fui eu, pois um indivíduo estava sentado na varanda.

    Ao descer da caminhonete, notei que ele portava um revólver na cintura, de um lado, e um facão, do outro. Já desci com a Colt .45 na mão, engatilhada, e mandei que deitasse no chão com as mãos na nuca. Ele, vendo a minha disposição, seguiu a ordem que recebeu. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu que a casa estava vazia e que ele resolveu pegá-la para si, pois o país estava em guerra e o comunismo havia sido implantado. Segundo ele, tudo era de todos e aquela propriedade agora era dele.

     Percebi que corria um risco enorme ao deixá-lo ir embora, naquela situação de guerra civil em que nos encontrávamos; pois ele poderia voltar com outros companheiros seus e tomar a casa pela força, matando a mim, minha mulher e meus filhos. Mandei que a esposa e os filhos permanecessem na caminhonete, aproximei-me e, com ele ainda deitado de costas no chão, apontei para a sua nuca e disparei. A morte foi instantânea e eu diria que até indolor. A varanda ficou, imediatamente, toda suja de sangue.

    Arrastei o corpo dele, segurando-o pelas pernas, para fora da varanda, em direção ao chão de terra, vendo um rastro de sangue que escorria da sua cabeça esfacelada seguir o mesmo trajeto do seu corpo.

     Minha mulher e as crianças, saindo correndo do carro, entraram na casa pela porta dos fundos e eu fui cavar um buraco razoavelmente grande para depositar aquele corpo.

     Escolhi um local distante da casa e, com uma picareta, uma pá e uma enxada comecei a cavar. Depois de horas, o buraco estava com uma profundidade razoável. Arrastei o corpo até lá e joguei-o dentro. A seguir comecei a tapá-lo, jogando terra com a pá. Em breve o buraco estava totalmente fechado. Coloquei alguns troncos secos e arbustos em cima, bem como algumas pedras.

     Voltei para a casa, guardei as ferramentas e fui limpar a varanda e os rastros de sangue.

     Em breve tinha terminado tudo e estava com as costas e os braços doloridos. Descarreguei a caminhonete, acendi as luzes da casa, pois já escurecia, e preparei-me para comer algo. Minha mulher já tinha feito um arremedo de jantar e as crianças já haviam comido e estavam dormindo.

    Tomei um banho rápido e sentei-me à mesa, junto com ela.

 Minha mulher me olhou e vi que dos olhos molhados escorriam lágrimas. Peguei em sua mão e, depois de algum tempo, disse baixinho olhando-a firme nos olhos: 

     - É a vida. Temos de sobreviver. Não temos mais a quem recorrer neste país do salve-se quem puder. As autoridades deixaram de existir. Estamos por nossa própria conta e risco.  

    No dia seguinte começaria a vida da minha família no campo, que duraria cerca de três anos; período este que durou a guerra civil em nosso país. 

    Pouco depois acordei no apartamento do Rio de Janeiro, com uma forte dor de cabeça. A casa estava ainda às escuras e no maior silêncio. Teria eu feito uma viagem ao futuro enquanto dormia? Seria aquilo tudo verdade?

    Aquilo tudo me parecia mais um conto de ficção, destes que lemos em revistas especializadas no assunto; todavia, estou convencido de que no Brasil e no mundo de hoje, ninguém poderá distinguir, sem medo de errar, o que é ficção daquilo que é a pura realidade...

_*/ Da Academia Brasileira de Defesa


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

415.  Histórias de amantes e de amores que a História preservou


Jober Rocha



            Pesquisando na WEB (http://www.educ.fc.ul.pt › hfe › abelardo › abelardohelois) encontrei um resumo da história de amor, verídica, entre Pierre Abélard (1079 – 1142) e Heloisa de Argenteuil (1090 – 1164) , que consistiu em uma história verdadeiramente dramática, como muitas que a História preservou em seus anais e outras tantas que foram, pela mesma História, esquecidas

                O romance, segundo o link resume, iniciou-se na cidade de Paris. Abelardo tinha 37 anos, era filósofo escolástico e teólogo francês e Heloísa 17 anos, escritora, erudita e, mais tarde, abadessa. Heloisa era filha da fundadora da abadia de Fontevraud, Hersint de Champagne, com Gilbert de Garlande, senescal da França. Portanto, ela pertencia a uma família da alta sociedade local.

            “Abelardo, ao ver a jovem Heloísa, ficou encantado com a sua beleza e tentou aproximar-se dela, pedindo ao seu tio Fulberto que o alojasse em sua casa, pois ficaria mais perto da escola onde lecionava e não teria as preocupações de cuidar de uma casa, ficando com mais tempo para se dedicar aos seus estudos”.

            “O tio de Heloísa viu, nesta oferta, uma oportunidade para a sua sobrinha evoluir nos estudos. Assim, Abelardo tornou-se professor de Heloísa”.

            “Todas as horas vagas que Abelardo tinha dedicava-as a ensinar Heloísa, inicialmente na presença do tio Fulberto. Algum tempo depois, Fulberto, confiando em Abelardo, deixava-os sozinhos”.

           “Como Abelardo ensinava na escola durante o dia, dava aulas a Heloísa durante a noite, enquanto o seu tio Fulberto e todos dormiam”.

           “Em pouco tempo, cresceu entre ambos um grande amor e deixaram de se preocupar com os livros e o estudo, fascinados um pelo outro. Viviam esta paixão de forma intensa”.

            “Tanto Abelardo quanto Heloísa eram dois jovens intelectuais, e ao viverem o seu amor sabiam dos perigos que corriam perante a sociedade”.

            “Numa certa noite, o tio Fulberto descobriu o amor escondido entre Abelardo e Heloísa. Furioso, expulsou Abelardo de sua casa. Entretanto, o amor entre Abelardo e Heloísa não diminuiu; pois começaram a se encontrar nos locais que Heloísa podia frequentar sem acompanhantes: sacristias, confessionários e catedrais”.

            “Heloísa engravidou e, para evitar um escândalo, Abelardo levou-a, as escondida, da casa do tio Fulberto para a sua aldeia, em Palais; onde ficou aos cuidados da sua irmã até dar à luz um menino, a que deram o nome de Astrolábio”.

            “Abelardo voltou para Paris, para continuar a ensinar; mas não conseguia estar longe de Heloísa e, assim, foi pedir ao tio Fulberto permissão para casar com Heloísa. Fulberto, embora magoado, consentiu no casamento. Heloísa deixou o filho com a irmã de Abelardo e dirigiu-se a Paris”.

            “O casamento realizou-se durante a noite, às escondidas, numa pequena ala da Catedral de Notre-Dame, de modo a que ninguém desconfiasse. Só estavam presentes os familiares de Heloísa e alguns amigos de Abelardo”.

           “Pouco tempo depois o casamento foi descoberto e Fulberto, envergonhado, resolveu vingar-se de Abelardo. Contratou uns homens para invadirem os aposentos de Abelardo durante a noite e castraram-no”. 

            “Na sua angústia e vergonha, Abelardo obrigou Heloísa a ingressar no mosteiro de Santa Maria de Argenteuil. Heloísa tinha vinte anos. Heloísa fez os votos monásticos e ingressou na vida religiosa por amor a Abelardo. Abelardo retirou-se para o mosteiro de Saint-Denis. Durante muitos anos Abelardo e Heloísa não se viram, apenas trocavam cartas um com o outro. Nestas cartas Heloísa expressava toda a sua dor pela triste sorte do seu amor e toda a sua rebeldia por ter ingressado na vida religiosa e ter vestido o hábito”.

            “Heloísa e Abelardo nunca deixaram de se amar. Anos mais tarde, Abelardo construiu uma escola-mosteiro perto de Heloísa. Viam-se diariamente; mas não se falavam, apenas trocavam cartas”. 

            “Abelardo morreu em 1142, com 63 anos de idade. Heloísa mandou construir uma sepultura em sua homenagem”.

           “Em 1162 morre Heloísa e, a seu pedido, foi sepultada ao lado de Abelardo. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes foram levados para o cemitério do Père Lachaise, em Paris”.

 

                 O motivo desta introdução foi o de despertar o interesse dos leitores para uma simples história de amor que, infelizmente, a História esqueceu; mas, que ainda deve permanecer viva na mente de alguns sobreviventes que dela participaram, direta ou indiretamente. Por incrível que pareça, está história também ocorreu na cidade de Paris.

                   Eu tomei conhecimento dela através de um ex combatente brasileiro da Segunda Grande Guerra, que esteve internado em um hospital norte americano, no mesmo quarto em que também estava um dos dois personagens  principais desta bela história de amor, recuperando- se de desnutrição e de diversas moléstias adquiridas em um campo de concentração na Alemanha. Como ambos os pacientes internados conviveram durante meses, juntos naquele mesmo quarto, acabaram por consolidar uma sólida amizade e um ficou conhecendo a história de vida do outro.

                        Anos depois conheci o ex combatente brasileiro que me relatou esta incrível história. Resolvi escrever sobre ela para que, ao menos, em algum lugar do planeta ficasse registrada para a posteridade e algumas pessoas dela tomassem conhecimento.

                        A história que irei relatar, portanto, trata do amor entre  Johnny Rock e Holly Hellen, iniciada durante a vigência da Segunda Grande Guerra Mundial.

                      Johnny era, ao inicio da guerra, um oficial submarinista da Marinha e, posteriormente, por razões de saúde, foi transformado em um agente norte americano servindo na Europa, para apoiar a criação de movimentos de resistência às tropas alemãs. Hellen era uma agente inglesa, também atuando na Europa com finalidades semelhantes; porém, ambos não se conheciam. 

                   A base de operação dos dois era na cidade de Paris.

                    O problema que levou Johnny da Marinha para as ações clandestinas de um agente infiltrado na Europa foi o seguinte:

                  Durante sua vida de submarinista, praticou uma operação bastante arriscada em um porto italiano.  Conduzindo um mini submarino, conhecido também como submarino de bolso pelo seu reduzido tamanho, armado com explosivos, penetrara em um porto italiano com a missão de afundar um cruzador inimigo ali atracado. Conseguiu, na calada da noite, adentrar o porto com a sua carga e posicioná-la debaixo do cruzador; fugindo nadando em seguida. A espoleta de tempo detonara quando ele já se encontrava bem afastado. O navio foi destruído e cerca de três mil marinheiros italianos pereceram nesta operação.

                   Ele, todavia, foi visto nadando nas águas do porto e, rapidamente, aprisionado. Após interrogatórios feitos no local, foi enviado para o quartel da Gestapo, na Alemanha.

                   Ali padeceu torturas intensas. Todavia, como era um militar treinado em fuga e evasão, em breve já tinha pronto um plano de fuga.

                    Tendo conseguido concretizá-lo, fugiu da Alemanha para a Holanda. Passou a seguir pela Bélgica e pela França ocupadas, pela Espanha e conseguiu chegar a Portugal, onde manteve contato com a Marinha do seu país, que o recambiou para os USA.

                   Lá desembarcando, como ele estava tremendamente debilitado, passou meses em tratamento para recuperar-se e poder retornar ao serviço ativo.

                      Como era considerado um herói de guerra, aceitaram logo o pedido que fez para tornar-se um agente infiltrado na Europa. Deram-lhe treinamento adequado e enviaram-no para a França, onde saltou de paraquedas próximo da cidade de Paris. A resistência francesa necessitava do apoio das forças aliadas, para ter uma expressão mais significativa que ultrapassasse as atividades clandestinas e as lutas de guerrilha.

                   Com documentos falsos e dinheiro, conseguiu atingir a capital ocupada, onde manteve contato com os maquis (Maquis é um termo que designa, ao mesmo tempo, os grupos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial que se escondiam em zonas montanhosas com vegetação tipo bosques ou maquis, para atacar de surpresa as tropas nazistas, assim como para designar os locais onde eles se escondiam). Os maquis de Paris denominavam-se FFI ou ‘FiFis’, como eram chamados. Eram as Forças Francesas do Interior, que passou a ser a designação dos membros da Resistência Francesa na fase final da Segunda Guerra Mundial. 

                     Em outubro de 1941, no seio da França livre de De Gaulle, foi criado o Bureau Central de Renseignement et d'Action Militaire (BCRA), dirigido pelo coronel Passy e especializado em missões de sabotagem e de informação. As redes do BCRA, criadas e dirigidas em Londres, estavam, portanto, na fronteira entra a Resistência no exterior e a Resistência no interior.

                     Três serviços secretos britânicos passaram a operar em território francês: o Special Operations Executive (SOE), encarregado da execução das operações; o MI6, encarregado da informação; o MI9, encarregado das evasões. Segundo o historiado Michael R. D. Foot, o SOE enviou para a França durante o conflito 1.800 agentes, dos quais 1.750 homens e 50 mulheres, sendo Holly Hellen uma delas. 

                      Um em cada quatro destes agentes foi preso enquanto durou a guerra, sendo está uma proporção elevada; todavia, inferior à de outros países: um em dois nos Países Baixos, um em três na Bélgica. Os agentes do SOE armaram 250.000 resistentes franceses e executaram operações de sabotagem importantes.

                     Quis o destino que Johnny e Hellen se conhecessem durante uma operação de emboscada, montada pelos ‘FiFis’ contra tropas alemãs de ocupação. Nesta operação, Hellen teve a oportunidade de salvar a vida de Johnny.

                        Para comemorar o sucesso da operação procuraram um bar isolado, em um subúrbio da cidade, para beber alguma coisa e conversar. Hellen pediu pastis (bebida alcoólica aromatizada com anis, cujo nome vem do provençal, significando ‘mistura’), enquanto Johnny pediu leite. Ao estranhar seu pedido, pois o leite era racionado (já que estava destinado às crianças), Hellen ouviu dele a história da sua captura e tortura pela Gestapo, quando ficara desnutrido e com a saúde comprometida. Por isso, sempre que podia, ele tomava leite.

                     Hellen, como muitas inglesas de origem celta, era loura e de olhos azuis. Johnny, como americano de ascendência grega, era branco com cabelos pretos e olhos castanhos.

                  Em um clima de guerra, longe das famílias e sozinhos em uma terra estranha, o amor surgiu facilmente entre eles.

                     A partir daquele dia, embora cada um dos dois continuasse desenvolvendo suas próprias atividades junto aos ‘Fifis’, eles procuravam ficar juntos sempre que possível.

                  Costumavam passear de mãos dadas, durante a tarde, pelo Bois de Vincennes (um parque no estilo jardim inglês, a leste de Paris. O parque tem o nome da cidade vizinha de Vincennes), como um casal de namorados. Nestes momentos esqueciam que o mundo estava em guerra e o imaginavam como um lugar de paz e tranquilidade, onde dois amantes podiam conversar coisas de amor, se beijar e desfrutar da Natureza.  Não faziam planos para o futuro, pois este era, naturalmente, incerto.

                       Deixaram os locais onde se hospedavam desde que haviam chegado clandestinamente a Paris e alugaram um pequeno quarto em uma hospedaria. Ambos possuíam documentos de identidade falsos que os tornavam cidadãos franceses e, como ambos falavam fluentemente o francês, imaginaram uma estória de cobertura para justificar suas estadias na cidade, caso fossem parados em alguma ‘blitz’ nazista ou questionados por pessoas locais.

                       Naquele novo alojamento onde se instalaram, podiam desfrutar um do outro sem nenhum receio. Nas frias noites de Paris se amavam debaixo das cobertas até adormecerem cansados. Dormiam, então, abraçados; como dois irmãos siameses unidos pelo coração e pela mente.

                      Em diversas ocasiões marcavam encontro com os ‘Fifis’ no cemitério Père Lachaise, localizado no 20º Arrondissement. Ali, junto com os Maquis, como uma família chorando por entes queridos mortos, em algum túmulo se reuniam, combinavam suas ações armadas e planejavam suas estratégias, aguardando o dia do desembarque das tropas norte americanas, inglesas, canadenses e neozelandesas no continente europeu. A data do desembarque, conhecido como o Dia D, seria anunciada, na véspera de sua ocorrência, através de mensagens de rádio divulgadas pela rádio BBC de Londres. Mal sabiam que naquele cemitério, em duas covas juntas, estavam enterrados os restos mortais de Abelardo e Heloisa, amantes como eles, falecidos quase oitocentos anos antes.

                     Todavia, em uma operação de sabotagem mal sucedida, a instalações militares alemãs, acabaram sendo presos pelos nazistas. Interrogados em Paris, foram levados para o quartel da Gestapo na Alemanha. Após alguns meses de sofrimento com interrogatórios e torturas, foram enviados para o campo de trabalhos forçados de Dachau, na própria Alemanha. Ficaram em alas diferentes, ele na de homens e ela na de mulheres.

                        Aos poucos, conseguiram se comunicar mediante bilhetes enviados através de alguns prisioneiros que possuíam mais liberdade de circulação dentro daquele Campo de Concentração.

                       Johnny ficou sabendo que Hellen estava grávida. Alguns meses depois, soube que ela perdera a criança. Naquele campo a alimentação era escassa e os trabalhos forçados intensos. Ambos se encontravam desnutridos e com diversas moléstias típicas da promiscuidade entre pessoas, da falta de asseio e do frio intenso.

                    No ano de 1945, forças norte-americanas libertaram mais de 20.000 prisioneiros no Campo de Buchenwald e, em seguida, liberaram os campos de Dora-Mittelbau, Flossenbürg, Dachau e Mauthausen.

                  Johnny, com pneumonia e desnutrido, foi, imediatamente, recambiado de volta aos Estados Unidos. No hospital onde ficou foi que conheceu o ex combatente brasileiro que eu conheci mais tarde e que me relatou esta comovente história de amor que ouvira do próprio personagem principal.

                    Após ter se recuperado, Johnny buscou incansavelmente localizar Hellen. Suas buscas, todavia, foram infrutíferas. Jamais conseguiu localizá-la.

                  Fico imaginando quantas belas histórias de amor, semelhantes ou não a esta, devem ter existido ao longo da trajetória do homem sobre a face do planeta e ficaram totalmente desconhecidas da posteridade.

                  Pesquisando, certo dia, na WEB encontrei uma carta escrita em um velho pergaminho de papiro depositado no Musee de L’homme, em Paris. O museu, vinculado ao Museu Nacional de História Natural, é dedicado à apresentação de um vasto painel relativo às ciências humanas, com itens que vão da pré-história até a contemporaneidade, passando pelas áreas da antropologia, etnologia, arqueologia, biologia, meio-ambiente, história e geografia, sempre tendo a raça humana, com sua evolução e cultura, como ponto focal.

                 A carta havia sido descoberta durante uma expedição científica francesa ao Egito, logo após o ano de 1798, quando Napoleão Bonaparte com dezoito mil soldados chegou ao Cairo, dando início a Campanha do Egito, realizada durante a Revolução Francesa. As escavações realizadas na ocasião, no local onde o pergaminho foi encontrado, descobriram túmulos e monumentos da XXV dinastia, que ocorreu entre 724 a.C e 717 a.C (A XXV dinastia egípcia, também conhecida como Dinastia Núbia ou dos Faraós Negros, foi a última do Terceiro Período Intermediário do Egito, que ocorreu após a invasão Núbia. A XXV dinastia era uma linha de faraós que se originaram no Reino de Cuxe, localizado no atual norte do Sudão e no Alto Egito).

                   A correspondência, basicamente, tratava de uma comunicação particular entre um amante preterido e a sua amada. Seus termos eram os seguintes:


“Amiga,

Perdoe-me por chamá-la assim, mas, tendo você comigo rompido, não posso - e não devo mais - tratá-la da maneira carinhosa e apaixonada com que sempre a tratei. 

Não que eu tenha deixado de ter por você o afeto que sempre tive ou que meu amor tenha diminuído um milímetro que seja; mas é que, tendo desfrutado outrora de um infinito amor do qual me julgava correspondido, hoje disponho apenas da memória para manter vivas as belas recordações dos tempos em que estivemos juntos. 

Creio que o mesmo não ocorre com você e, por esta razão, chamo-a apenas de amiga.

Gostaria de dizer-lhe que sua simples passagem pela minha vida, foi suficiente para fazer com que esta se justificasse inteiramente perante os Deuses. 

Pode ser até que estes objetivassem para esta ínfima centelha de vida que criaram, trazendo-me a este mundo, algum propósito maior, nesta breve existência terrestre, de fama, de fortuna ou de sabedoria.

Quero que saiba, entretanto, que de tudo isto eu abdicaria - no caso desta hipótese ser verdadeira - apenas para manter o seu amor, por mim, igual àquele que ainda mantenho por você. 

Creio que basta o amor para justificar, plenamente, a existência humana; pois, tudo o mais passa a ser acessório na vida de dois verdadeiros amantes como nós já fomos.

Reconheço que não são muitas, ao longo da história, as almas denominadas ‘gêmeas’ que conseguiram, após terem se encontrado, continuar unidas e felizes até a extinção de suas apaixonadas vidas. 

A grande maioria sempre ficou pelas margens do caminho; principalmente, porque eram apenas denominadas ‘gêmeas’, não sendo, na realidade, aquilo tudo que pensavam ser. 

Não sei se este será o nosso caso; pois, até agora, não entendi as razões alegadas para o rompimento.

Considerando que tais razões verdadeiramente existiram, peço-lhe, mais uma vez, que as releve. Se destas razões fizer parte o seu amor por outra pessoa, não lhe pedirei tanto; pois o amor que sinto é grande o bastante para desejar vê-la feliz para sempre, não importa que não tenha sido ao meu lado”. 


                        A História oficial sempre documentou inúmeros casos de amor entre pessoas de sexos diferentes, bem como entre indivíduos do mesmo sexo. As principais histórias entre amantes, que estão documentadas historicamente, referem-se aos seguintes personagens mencionados a continuação.

                       Os leitores interessados em conhecer suas histórias, poderão obtê-las em livros ou pesquisando na WEB. Os personagens não estão ordenados por ordem cronológica no tempo. Imagino que para cada uma dessas histórias lembradas devam existir milhares de outras esquecidas.

                        Afinal, o amor, como a força mais sutil de todas, é um sentimento que está sempre além do bem e do mal (como costumava dizer Friedrich Nietzsche) e presente em todas as pessoas, épocas e lugares. Os principais amantes heterossexuais cujas histórias poderão ser conhecidas, pois foram registradas para a posteridade, são:

                         Dante e Beatriz, Pedro I de Portugal e Inés de Castro, Joana ‘a louca’ e Filipe ‘o belo’, Mumfaz Mahal e Shah Vohan, Diego Marcilla e Isabel de Segura, Princesa Diana e Dodi Al Fayed, John Lennon e Yoko Ono, Salvador Dali e Gala, Sissi da Baviera e Francisco José, Liu Guojiang e Xu Chaoqing, Lola Montez e Luis I da Baviera, Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, Luís Carlos Prestes e Olga Benário, Jesus e Maria Madalena,  Ana Emília Ribeiro de Castro e Dilermando Cândido de Assis, Madame Pompadour e Luís XV, Servilia Caepionis e Júlio César, Marie Walewska e Napoleão Bonaparte, Bonnie e Clyde, Aspasia e Péricles, Salomão e a Rainha de Saba, Henrique VIII e Ana Bolena, Cleopatra e Marco Antônio, Marilyn Monroe e John F. Kennedy, Camila Parker e Príncipe Charles da Inglaterra, Wallys Simpson e Eduardo VIII da Inglaterra, Katherine Hepburn e Spencer Tracy, Khatarina Schratt e Francisco José da Áustria, Monica Lewinsky e Bill Clinton, Pocahontas e John Rolfe, Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi, Margarida de Valois e Joseph Boniface de La Mole, Frida Kahla e Léon Trotsky.

                             Alguns dos principais amantes homossexuais, cujas histórias também ficaram registradas oficialmente, são: 

Adriano e Antinoo, Oscar Wilde e Alfred Douglas, Willian Shakespeare e William Hart, Rock Hudson e Mark Kristian, Alexandre da Macedônia e Heféstion, Cary Grant e Randolph Scott, Sócrates e Alcibiades, Ricardo Coração de Leão e Felipe II da França.

                               As próprias mitologias grega, hindu, romana, celta, nórdica, maia e egípcia, estão cheias de amores entre os deuses, entre si, e dos deuses com os humanos. Mencionarei alguns destes casos, como, por exemplo, na Mitologia Grega: de Afrodite e Adônis, Eros e Psiquê, Páris e Helena, Hades e Persefone, Orfeu e Eurídice, Hero e Leandro, Aquiles e Pátroclo, Apolo e Daphne, Perseu e Andrómeda, Zeus e Europa. Na Mitologia Hindu: Rama e Sita, Arjuna e Daupradi, Shiva e Parvati, Krishna e Radha, Akash e Akita.

                            Na Mitologia Romana: Daphnis e Chloe, Aeneas e Dido, Marte e Vênus. Na Mitologia Celta, Artur e Guinevere, Tristão e Isolda, Diarmuid e Gráinne, Deirde e Naoise, Oisin e Niamh, Cúchulain e Emer, Midhir e Etain. Na Mitologia Nórdica: Hagbard e Signy, Njord e Skadi, Odin e Frigg, Bragi e Iduna, Baldes e Nanna, Thor e Sif, Loki e Sigyn. Na Mitologia Maia: Ixchel e Itzama.

                            Na Mitologia Egípcia: Osíris e Ísis, Set e Anat, Hórus e Hator, Nut e Geb, Anúbis e Anput.

                          Estou convencido de que cada leitor, se questionado a respeito, teria também uma bela história de amor a contar, talvez até mais emocionante que as citadas. 

                           Sua história, talvez, só não tenha passado para os anais da História, certamente, pela falta de um escritor, de um historiador ou de um cronista social da época, que a relatasse sob a forma de um conto, de um romance, de uma novela, de uma poesia, de uma notícia ou de um fato histórico digno de ser mencionado.

                         Esta é a razão pela qual estes artífices das palavras embora, por vezes, partidários, tendenciosos, enganosos, falsos, dissimulados e astuciosos, têm o poder de conduzir os indivíduos da total obscuridade histórica para os holofotes do palco em que se desenrola a comédia humana, nomeada assim por Honoré de Balzac; isto é, a vida social, onde eclodem todas as paixões.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.





            

            

domingo, 21 de junho de 2020

376. Contem-me alguma coisa que eu ainda não saiba!


 Jober Rocha*



                                  Um antigo filósofo grego cheio de empáfia, naqueles belos tempos de Sócrates e de Platão, durante suas viagens pela Grécia, sempre que encontrava outros filósofos em alguma Polis costumava desafiá-los com a seguinte frase: 
                                                         - E aí, meus amigos, contem-me alguma coisa que eu ainda não saiba!
                                                  Certo dia, em uma roda de filósofos e de estudantes na cidade de Atenas, tendo ele chegado à academia quase no final das discussões, proferiu aos presentes a mesma pergunta de sempre.
                                                     Um dos jovens estudantes, adiantando-se aos demais, chegou-se a ele e disse: - Pois bem, vou lhe falar sobre algo que, certamente, você desconhece:  falarei sobre as razões das imperfeições humanas.
                                                     Apanhado de surpresa, o filósofo nada disse ao estudante, limitando-se a contemplá-lo com uma certa admiração. Até então, ele fora o primeiro que se dispôs a responder firmemente e de modo categórico à sua indagação.
                                                            Todos os presentes se sentaram ao redor do estudante e ele começou sua preleção dizendo:
                                                Todos nós nascemos com, ao menos, alguma imperfeição física, mental ou psíquica; imperfeição esta que pode aumentar com o tempo ou diminuir com ele. Podemos acabar nos acostumando com ela, após a convivência de uma vida inteira, ou jamais nos conformarmos com aquilo que nos diferenciaria dos demais, criticando e jamais perdoando o Criador por aquela injustiça contra nós praticada, sem motivo algum.
                                                        Uns são baixinhos, outros altos demais, alguns nascem surdos, outros cegos, outros gagos, outros mudos. Muitos nascem aleijados, alguns com dificuldades de entender as coisas e de raciocinar, outros com problemas mentais, outros, ainda, com desvios de caráter ou de conduta.
                                                       Ao longo da vida de cada indivíduo, portanto, a estas imperfeições físicas, mentais e psíquicas congênitas, podem, ainda, ser acrescentadas outras imperfeições adquiridas, da mesma ordem ou mais intensas que as anteriores.
                                                       Não existe nenhum ser humano, filho do homem, que não as tenha, por mais belo, saudável, inteligente e dotado de riqueza que possa ser ou que tenha sido.
                                                        Vocês já se perguntaram a razão disso vir a ocorrer com criaturas feitas por um Ser ou por uma Entidade considerado, por todos, como o máximo da perfeição?
                                                     A resposta é bastante simples: justamente por termos sido criados por um ser perfeito somos todos imperfeitos.
                                                       Um velho preceito diz que ‘quem pode o mais pode o menos’, logo, caso fosse o desejo do Criador, poderíamos ter nascido todos igualmente belos, igualmente saudáveis, igualmente inteligentes. Seríamos, todos, cópias de nós mesmos. Mas, não é isto o que ocorre. Qual a razão destas diferenças que nos afligem e que imaginamos serem injustiças praticadas por alguém que todos imaginamos perfeitamente justo, por definição?
                                                     Não me aprofundarei pelo caminho da explicação Matemática, por alguns já conhecida, da denominada Curva Normal, que trata dos fenômenos que se distribuem segundo uma curva normal (aquela em forma de sino), pois esta curva apenas constata uma realidade e não a determina nem a explica.
                                                             Em rápidas palavras, para aqueles ainda não familiarizados, comentarei sobre o que se trata; isto é, sobre os fenômenos de Natureza sobre os quais atua a chamada Curva Normal. Tal lei Matemática demonstra como as coisas se passam, mas não justifica a razão pelas quais ocorrem. Esta explicação tentarei fazer por outros critérios, que não os da Matemática.
                                                A maior parte dos fenômenos probabilísticos, de natureza continua e alguns de natureza discreta, podem ser representados por uma Lei Matemática conhecida por ‘Lei de Distribuição Normal’. O seu uso é geral em todas as Ciências, bastando dizer que mais de oitenta por cento dos fenômenos da Natureza, possuem comportamentos com as características desta ‘Distribuição Normal’.
                                                       Assumir que um evento se distribui normalmente está baseado em dois fundamentos: o primeiro ocorre quando a distribuição da própria população de eventos que se estuda é Normal e o segundo ocorre quando a distribuição da população estudada não for Normal, mas o número de casos for muito grande. Os valores mais frequentes; isto é, os valores que correspondem às maiores probabilidades de virem a ocorrer, se encontram em torno da média da variável considerada. Quanto mais afastados os valores estão da média, quer acima quer abaixo desta, menos frequentes são as suas ocorrências.
                                                      Esta interpretação da Lei de Distribuição Normal é coerente com o que se passa na maior parte dos fenômenos que sucedem na Natureza. Ora, as características dos fenômenos que ocorrem com os seres humanos, podem, também, ser representadas através de uma denominada ‘Função de Distribuição Normal’.
                                                        Isto ocorre, não porque os indivíduos assim o queiram, mas, porque, segundo penso, suas condutas, que podem ser descritas por esta Lei Matemática, são, invariavelmente, regidas pelo ‘Processo Dialético da Evolução Humana’. 
                                                       Nenhum grupo de pessoas reconhecidas como normal (por normal entenda-se o que é considerado correto, sob algum ponto-de-vista. É o oposto da anormalidade. A normalidade, muitas vezes, se dá por conta de uma maioria em comum, sendo anormal aquele que contraria esta maioria)  pensa e age, unanimemente, de uma determinada maneira, sobre uma determinada questão; principalmente, quando o número de seus integrantes for grande o bastante, pois, sempre, existirão pontos de vista opostos ou conflitantes (motivados pelas suas distintas inteligências, pelas suas distintas morfologias, pelas suas diversas maturidades, pelos seus diversos tipos psíquicos, pelas suas diversas capacidades intelectuais e, principalmente, pela maior ou menor prevalência dos sentimentos viciosos ou virtuosos, presentes em todos os seres humanos), que, considerados no conjunto de todo o grupo (ou da amostra ou da população), fornecerão uma média, uma moda, uma mediana e uma variância para qualquer evento analisado. 
                                                     Quanto maior seja o grupo (a amostra ou a população), mais a Curva Normal representará o evento em questão. Para uma definição sobre o significado de moda, média, mediana, desvio padrão e variância, sugiro que procurem compêndios sobre a matéria ou que se esclareçam com os Matemáticos gregos, considerados como dos melhores e mais competentes da atualidade.
                                            A razão, por detrás de tudo isto até aqui comentado, é o fato de que a evolução humana ocorre mediante um processo dialético, já mencionado por Zenão de Eleia, mas que outros consideram como o seu pai o nosso próprio colega e confrade Aristóteles, no qual são necessárias a tese e a antítese, para que, finalmente, ocorra uma síntese. Tese é uma proposição, antítese a sua negação e a síntese é a resultante de ambas, diferente, portanto, destas duas anteriormente mencionadas.
                                                 Assim, oscilando entre as virtudes e os vícios e entre as contradições humanas, a humanidade sintetiza, dialeticamente, em cada período de tempo, a sua necessária evolução. Alguns denominam esse processo de Princípio do Contraditório, que vigora tanto na Natureza quanto na vida psicossocial dos indivíduos: a verdade aparece por intermédio das contradições humanas e tudo na Natureza, que necessita de evolução (como o espírito humano), evolui dialeticamente. 
                                              Logo, se não existissem contradições, a humanidade não evoluiria e a verdade não seria conhecida. Está é, pois, a razão que encontro para as imperfeições humanas tão bem determinadas pelo Criador; bem como, para os vícios e as virtudes presentes em todos os seres humanos. Também é, segundo penso, a razão pela qual o Criador ou o Grande Arquiteto do Universo, que não necessita mais evoluir, pode ser considerado perfeito, isto é, a fonte de todas as virtudes e a ausência de todos os vícios.
                                                     Assim, pessoas totalmente belas ou totalmente feias, totalmente saudáveis ou totalmente doentes, totalmente inteligentes ou totalmente beócias, com comportamentos totalmente virtuosos ou totalmente viciosos, serão, sempre, considerados como extremos em um grupo (amostra ou população), enquanto a espécie humana continuar habitando a superfície do planeta em busca de sua evolução. 
                                                      Com isto, quero deixar claro que, no que respeita às consideradas características físicas, mentais e psicológicas mencionadas, às virtudes e aos vícios, os comportamentos extremos, por exemplo, face à determinadas situações vivenciadas pelos grupos (ou pelas amostras ou pelas populações) normais,  constituem-se em exceções ao comportamento médio e, como tal, não são seguidos pela maioria, mas, apenas, por 0,3 por cento dos indivíduos; ou seja, 0,15 por cento seriam totalmente virtuosos e 0,15 por cento seriam totalmente viciosos, em um conjunto total constituído, cem por cento, de indivíduos normais.
                                                        Assim, frente à determinada situação com que se defronta um grupo (ou uma amostra ou uma população) normal, podemos afirmar que sessenta e oito por cento dos indivíduos deste grupo (ou desta amostra ou desta população), apresentará características morfológicas, mentais e psicológicas ou comportamentais, consideradas normais e que estarão a menos de um desvio padrão da média da variável que se está pesquisando. Noventa e cinco por cento dos indivíduos do grupo apresentará características ou um comportamento que estará a menos de dois desvios padrões da média e noventa e nove, vírgula sete, por cento, dos indivíduos, apresentara características ou um comportamento que estará a menos de três desvios padrões com relação à média.
                                                    As características ou comportamentos totalmente extremos e destoantes da média, constituiriam, assim, os extremos da curva representativa da Distribuição Normal, curva esta, como já mencionado anteriormente, que possui a forma de um sino.
                                                       O normal para os integrantes desta nossa espécie humana (isto é, aquilo que ocorrerá com a maior parte dos indivíduos ou aquilo que a maioria fará, buscando o seu progresso) será, sempre, estar na média no que quer que seja e, relativamente ao comportamento psicossocial, a moral e aos costumes, pautar sua conduta por procedimentos que incluam virtudes e vícios, em doses consideradas aceitáveis em cada época; já que, os sentimentos virtuosos (como, por exemplo, os de misericórdia, de bondade, de amor, de compaixão, etc.) não constituem leis que, obrigatoriamente, tenham que ser seguidas por todos os indivíduos; como, também, os sentimentos viciosos (aqueles contrários aos virtuosos), representados, por exemplo, pela ira, raiva, egoísmo, inveja, maldade, etc., não constituem crimes, a menos que sejam  transformados em ações concretas que violem leis existentes.
                                                   Logo, se não existissem diferenças e contradições físicas, mentais e psicológicas, a humanidade como um todo e os espíritos em particular não evoluiriam e a verdade não seria conhecida. 
                                                    Está é, pois, a razão que encontro para as diferenças, congênitas e adquiridas, entre os seres humanos; bem como, para os vícios e as virtudes presentes em todos os indivíduos. 
                                                       Também é, segundo penso, a razão pela qual o Criador ou o Grande Arquiteto do Universo, que não necessita evoluir, pode ser considerado a fonte de todas as virtudes e a ausência de todos os vícios.
                                                       Finda a sua exposição todos os presentes se retiraram, a maioria ainda meditando sobre as palavras do estudante.
                                                       O filósofo, antes cheio de empáfia, dirigiu-se ao estudante que juntava seus pertences, deu-lhe um forte abraço e exclamou: - Obrigado, meu caro amigo, por ter-me contado algo que eu ainda não sabia!
                                                           Os leitores estarão se perguntando por que escrevi um conto deste teor em uma época de atribulações políticas, de pandemia e de quase convulsão social, quando assuntos mais importantes e prementes despertam as nossas atenções diárias.
                                                       Explico-me: qualquer evento de natureza climática, qualquer acontecimento político, qualquer declaração de autoridade governamental, qualquer crime cometido ou qualquer competição esportiva, por exemplo, são analisadas por ‘especialistas’ contratados, às vezes, à peso de ouro, visando desinformar ou criar contrainformação que neutralize a verdade dos fatos, conhecida esta, apenas, de alguns poucos brasileiros.
                                                         As hipóteses e as teorias que inúmeros destes especialistas cheios de empáfia difundem são, em sua maioria, estapafúrdias; principalmente, em razão de seus difusores, em grande parte, se tratarem de pessoas totalmente desqualificadas e despreparadas para aquelas tarefas a que se propõem.
                                                                O fato é que nosso país está cheio destes analistas improvisados, normalmente com um viés esquerdista, críticos do atual governo, sem cursos, sem mestrados, sem doutorados, sem experiências práticas; em suma, sem um currículo de vida que fale por eles. São especialistas de última hora descobertos pela mídia, que lhes assegura o notório saber que propalam e lhes atribui o título de especialistas que ostentam, ainda que digam, apenas, sandices, asneiras, estultices, parvoíces e necedades, afirmando tudo saber sobre os assuntos tratados.
                                                   Especialistas midiáticos existem em todos os países. Todavia, nos países desenvolvidos os analistas, peritos, consultores, 'experts', etc., costumam possuir títulos acadêmicos que os credenciam para suas funções e, nestes lugares, realmente, a especialidade consiste em um fato corriqueiro; sendo que o referido profissional preza muito o prestigio angariado no meio em que trabalha. 
                                                         Mesmo assim, muitos analistas midiáticos em países desenvolvidos ainda fazem previsões erradas. Por outro lado, o público que os ouve é muito mais intelectualizado, politizado e crítico do que aquele de países como o nosso.
                                                         Acresce, ainda, que aquilo que tais especialistas afirmam em seus países como verdades, caso não o sejam, lhes costuma trazer consequências profissionais, cíveis e criminais; razão pela qual eles tomam muito cuidado com tudo aquilo que afiançam como verdadeiro.
                                                        Poucos são aqueles que, jactando-se dos interlocutores, perguntam descaradamente como fazem alguns dos nossos pseudos especialistas, notadamente em atividades políticas, econômicas, militares e psicossociais: 
                                                   -Contem-me alguma coisa que eu ainda não saiba?


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha. Membro fundador da Academia Brasileira de Defesa- ABD e membro titular do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos - CEBRES.