domingo, 5 de junho de 2016


34. A Nova Moral do Politicamente Correto 

                       Jober Rocha*


           O termo Comportamento Politicamente Correto, muito usado em nosso país na atualidade, está relacionado a uma nova abordagem política que busca estabelecer linguagem e comportamento próprios (aparentemente neutros), de modo a evitar que possam ser ou que venham a ser ofensivos ou preconceituosos com relação a pessoas de determinados grupos sociais, principalmente, em razão de raça, sexo ou religião. Linguagem e comportamento, como todos sabem, fazem parte dos hábitos, costumes, usos e regras, que se materializam na assimilação social dos valores morais.
            Neste contexto, sem que muitos se apercebam, está sendo estabelecida uma nova moral, desvinculada daquela de genealogia religiosa vigente no país, até então, sob a ótica eufemística do ‘Comportamento Politicamente Correto’. 
           A expressão ‘Politicamente Incorreto’, por sua vez, é a que trata de nomear formas de expressão e de comportamento que procuram externar supostos preconceitos sociais, sem receios de nenhuma espécie. Este conceito é entendido, por alguns acadêmicos, ditos de esquerda, como uma forma de se expressar e de ter um determinado comportamento, considerados incorretos e utilizados por grupos conservadores de direita. O Comportamento Politicamente Correto, neste contexto, seria aquele que deveria ser seguido pelos cidadãos e de que se já utilizariam  os liberais e os progressistas de esquerda. 
                Os conceitos sobre aquilo que é ou não politicamente correto, entretanto, são estabelecidos em nosso país pelos senhores no poder e pela ideologia de esquerda dominante, sendo expressos, através da Mídia cativa e subserviente, para absorção pelas massas populacionais incultas e inocentes com respeito à Genealogia da Moral.
             Os que criticam o ‘Comportamento Politicamente Incorreto’ o acusam de fascista, enquanto os críticos do ‘Comportamento Politicamente Correto’ o acusam de patrulhamento ideológico de tendência marxista. Como alguém já disse, em algum lugar, ambos os lados buscam denegrir um ao outro, na busca por um espaço na mente dos nossos pacatos cidadãos.
                 Dentre os poucos filósofos que se ocuparam sobre a Genealogia da Moral (como a moral se origina), Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão do século XIX, foi um dos que apresentou as idéias mais revolucionárias sobre o tema. Em sua obra ‘Genealogia da Moral’, o filósofo faz uma crítica à moral vigente em sua época, buscando responder a perguntas tais como: - Sob quais condições o homem inventou os juízos de valor contidos nas palavras bem e mal? Que valores possuem tais juízos? Eles estimularam ou impediram o desenvolvimento da Humanidade até os dias atuais? São eles sinais de indigência, de empobrecimento ou de degeneração da vida humana?
Nesta sua obra, o autor distingue duas classes de seres humanos: a dos senhores e a dos escravos (a aristocracia e a plebe). Pertencentes a classe dos senhores, segundo ele, duas categorias distintas competiriam entre si pelo poder: a dos guerreiros ou dos militares (que praticava as virtudes do corpo e que conduzia as coisas da guerra) e a dos sacerdotes (que praticava as virtudes do espírito e que conduzia as coisas divinas). Desta competição e rivalidade entre as duas categorias, surgiriam duas morais distintas: a dos senhores, oriunda dos guerreiros, e a dos escravos, oriunda dos sacerdotes; já que estes, na luta pelo poder, acabaram por aliar-se aos escravos para, sobrepujando os guerreiros, ocupar o lugar antes pertencente aos senhores.
                Em outro livro seu, ‘O Anticristo’, Nietzsche condena a religião cristã pelos meios de que se utiliza; dentre eles, o aviltamento e a autoviolação do homem por meio do conceito de pecado. Segundo ele, “Para dominar a massa é necessário fazê-la infeliz, criando os conceitos de pecado, de culpa e de castigo”. Assim, o homem deve sofrer de modo a que sempre tenha necessidade do sacerdote. Desta forma, segundo o filósofo, por meio da invenção do pecado é que o sacerdote dominaria senhores e escravos.
           Nietzsche afirmava, ademais, que: “O pecado tem sua origem no sentimento de culpa, instigado nas massas pelos sacerdotes”. Segundo ele, “os sacerdotes, ao serem questionados pelos pobres de espírito (os seres mais fracos perante a Natureza) sobre as razões de seus sofrimentos, indicariam, como resposta, que eles deveriam buscá-la em si mesmo, em uma culpa anterior, e que deveriam entender o seu sofrimento como uma punição”. 
            Assim, o doente foi transformado em pecador e para expiar seus pecados teria que viver atrelado ao sacerdote, pois só ele poderia levá-lo ao reino dos céus, onde se livraria de todos os sofrimentos.
             Os argumentos utilizados por Nietzsche para defender os seus pontos de vista, contrários à moral implantada pela religião cristã, eram os de que a análise do que é bem ou é mal, estabelecida pela religião, iria contra os valores naturais e nobres daqueles que, por seus atributos naturais e seu comportamento guerreiro, desde tempos imemoriais, detinham o poder e a posse dos bens terrenos. Ao estabelecer, a partir de sua impotência e do seu ressentimento, a valoração dos conceitos de bem e de mal que beneficiariam os chamados escravos (utilizando-se de critérios considerados divinos), em detrimento dos denominados senhores, a religião praticou uma transvaloração destes valores, convertendo em mal aquilo que antes era bem e em bem o que antes era mal. 
          Para o filósofo, vontade e poder não se separam. Os fracos, segundo ele, a partir do estabelecimento destes valores morais com base na religião, ocultariam a impotência com a máscara do mérito e da bondade. A baixeza transformar-se-ia em humildade, a covardia em paciência. Os fracos, ainda segundo Nietzsche, seriam, conforme esta transvaloração, os justos que odiariam a injustiça oriunda dos fortes. 
             Assim, a moral estabelecida com base em critérios religiosos e não mais em critérios de ordem natural, como nos primórdios, seria, para o filósofo, algo contra a Natureza do ser humano, negando a realidade da vida e justificando-se em critérios supostamente divinos. 
         A classe dominante, a partir de então, pela aceitação e pela adoção desta nova moral estabelecida pela religião, passou a sofrer de má consciência e criou a ilusão de que deter o poder, acumular riqueza e possuir o mando era algo que devia ser considerado errado. Para o filósofo, a vida humana consistia apenas em vontade de poder, de dominação e, em última instância, em vontade de potência. 
            As verdadeiras virtudes, para ele, eram: o orgulho, a alegria, a saúde, o amor sexual, a amizade, a veneração, os bons hábitos, a vontade inabalável, a disciplina intelectual e a vontade de poder. Ele era contrário a qualquer tipo de igualitarismo e, até mesmo, à ideia do Imperativo Categórico de Immanuel Kant. Como ateu, era contra o estabelecimento da moral por critérios religiosos.
       Os argumentos de Nietzsche foram utilizados pelos nazistas, na época da Segunda Guerra Mundial, para defender as teses de supremacia racial alemã, o que fez com que alguns leitores, com pouca leitura, considerassem erroneamente Nietzsche como um precursor do nazismo.
             Voltando, agora, ao Politicamente Correto mencionado, vemos, na atualidade, que em tempos de comunismo ateu ou, simplesmente, de ateísmo puro e simples, uma nova moral está sendo aos poucos estabelecida, não mais por critérios de ordem religiosa, mas por critérios de ordem política; até porque, o grande poder de que dispunham as religiões ocidentais cistãs tem sido substancialmente reduzido, principalmente naqueles países, como o nosso, onde a esquerda assumiu o comando, já há algum tempo, e o Estado se diz laico. 
          A mesma transvaloração apontada por Nietzsche, com respeito à implantação da moral religiosa, sem dúvida, estará ocorrendo com respeito ao estabelecimento daquilo que é considerado politicamente correto, em tempos de uma nova ordem moral sendo implantada pelo ateísmo. 
               Como exemplo, vemos que a Mídia, sustentada com verbas públicas e comprometida com os detentores do poder, não cansa de destacar e incentivar comportamentos considerados imorais (contrários aos bons costumes tradicionais) e amorais (afastados de quaisquer preocupações de ordem moral), com base naquela moral tradicional estabelecida pela religião. 
              No presente, muitos vícios já são considerados virtudes e muitas virtudes consideradas vícios. Leis são feitas para proteger ou acobertar comportamentos viciosos ou, até mesmo, criminosos. Muitos comportamentos imorais, antiéticos, delituosos ou criminosos já são tolerados ou aceitos pelas pessoas, pouco faltando para que sejam considerados comportamentos normais. Muitos intelectuais, empresários e militares, membros estes de uma elite patriótica e voltada para o nosso desenvolvimento sócio-econômico em bases democráticas e capitalistas, já começam a ter receio de se expressar ou de proceder de maneira considerada politicamente incorreta, temerosos de alguma represália ou, até mesmo, por acreditarem, já influenciados pela Mídia, que esta maneira de se expressar ou de proceder é realmente errada (da mesma forma como chegaram a acreditar os senhores de antanho, quando da implantação da moral religiosa, segundo Nietzsche). Por vezes, ao vermos artistas, intelectuais, políticos, autoridades públicas, etc. fazendo determinadas afirmações, totalmente imorais e antiéticas, como se fossem as coisas mais normais e naturais, percebemos que, realmente, a moral em nosso país está mudando.
             Como bem destacou o filósofo, através da transvaloração dos valores morais, o bem pode passar a ser considerado mal e este passar a ser considerado bem, por aqueles que conseguem ver os seus conceitos de moral vitoriosos, implantados e aceitos.
              Não é meu objetivo defender o estabelecimento de uma moral dos senhores nem o de uma moral dos escravos, segundo a concepção de Nietzsche. Também não é meu escopo defender a moral tradicionalmente estabelecida pela religião, nem uma nova moral a ser estabelecida pelo ateísmo marxista, mediante o eufemismo de ‘Politicamente Correto’. 
               Meu objetivo com este ensaio é apenas o de reafirmar que a verdade, qualquer que seja ela, por mais guardada e escondida dos indivíduos, um dia surgirá clara aos olhos humanos, mesmo que tenha sido impedida de ser evidenciada por quaisquer critérios ou meios, sejam de ordem moral ou de qualquer outra ordem. Nada como o tempo para desnudar os acontecimentos.
             Da mesma forma, os nossos pensamentos e as nossas ações, sempre dentro dos marcos legais, devem ser baseados em nossas próprias convicções e concepções do que é certo ou do que é errado, de modo que nos sintamos em paz com as nossas consciências e sem ressentimentos ou sentimentos de culpa por assim proceder, mesmo que estes pensamentos e estas ações estejam em desacordo com os critérios considerados politicamente corretos do momento. Como dizia Cícero: “O Tempora, o mores”!

_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sábado, 4 de junho de 2016


33. A História que se repete como Farsa**

Jober Rocha*


           No início do século XX, a Rússia imperial era comandada pelo Czar Nicolau II e por sua esposa, a imperatriz Alexandra Feodorovna (princesa Alix de Hesse-Darmstadt, alemã de nascimento). 
            Nicolau, um imperador fraco e despreparado, passou a ser comandado pela imperatriz, também despreparada, e pelo grande amigo desta, o mago Rasputin. A grande amizade surgida entre este e a imperatriz era devida ao fato de Rasputin, em inúmeras ocasiões, haver salvo a vida do filho dos imperadores, o infante Alexei (o czarevich), hemofílico. Alguns autores afirmam que existia algo mais por detrás desta amizade, porém, isto jamais foi comprovado. Rasputin acabou sendo assassinado por um membro da família imperial, ajudado por outros dois cortesãos. Pouco antes do ocorrido, talvez temendo ou adivinhando algo, em uma carta ao Czar, Rasputin afirmou que se ele fosse morto por alguém da família imperial, a dinastia russa seria extinta em dois anos e o imperador e sua família mortos.
               Naquela ocasião, com a entrada da Rússia em guerra contra a Áustria-Hungria, em defesa da sua aliada Sérvia, invadida pela Áustria sob o argumento de que aquela havia planejado o assassinato do arquiduque Francisco José, o conflito se estendeu a outros países da Europa. A Inglaterra e a França vieram em auxílio da Rússia e a Alemanha socorreu a Áustria-Hungria. Assim, portanto, teve início a Primeira Guerra Mundial.
          Meu objetivo não é o de recontar a História russa nem a da Primeira Grande Guerra, mas, apenas, o de estabelecer um paralelo entre as condições vigentes, na época, naquele país (na realidade um vasto império, por sua extensão territorial) e aquelas que encontramos, na atualidade, em nosso país (também um vasto império, por sua extensão territorial e pela importância da sua economia).
           Karl Marx, em cujas teorias os revolucionários se apoiaram para implantar o Comunismo na Rússia, afirmou, como um visionário: - “A História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. É sobre esta frase de Marx que centrarei o presente texto.
          As causas da tragédia que fez desmoronar o império russo são por demais conhecidas: um imperador fraco e despreparado, comandado pela esposa (também despreparada) aliada a um charlatão, o mago Rasputin, que indicava ministros e altos dirigentes, ao Czar, a troco de propina; o país despreparado militarmente, sustentando uma guerra contra a Alemanha e a Áustria-Hungria; a indústria, ainda incipiente, tendo de voltar-se para o abastecimento das forças armadas, deixou a população carente de gêneros de primeira necessidade; um sistema de transportes deficiente (a malha ferroviária era pequena para um império tão grande e os poucos comboios disponíveis passaram a ocupar-se com o transporte de tropas, armamentos e munições, deixando as cidades sem abastecimento de gêneros, carvão, etc.); a elite, totalmente insensível à crise pela qual passava o povo, preocupava-se, apenas, com festas, banquetes, viagens, namoros e mexericos; ministros incompetentes, que desconheciam os negócios de suas pastas, eram nomeados apenas por serem apadrinhados de Rasputin e pela eventual fidelidade que demonstravam aos imperadores; a derrota na guerra travada contra a Alemanha e os milhões de mortos, vitimados pela mesma, dentre o povo russo; uma desenfreada corrupção promovida pelas elites imperiais e pela alta administração da burocracia do império; por se tratar de um império autocrático, as instituições eram excessivamente burocratizadas.
           Uma DUMA (Assembléia Legislativa criada no final do império russo), cujo objetivo era o de introduzir algumas liberdades civis básicas, que permitissem conter as revoltas populares, foi convocada quatro vezes (sendo dissolvida sempre que contrariava os interesses do Czar). As duas primeiras foram dissolvidas logo após serem criadas, em razão da maioria de seus membros fazer parte da oposição ao império autocrático do Czar. As duas últimas duraram cinco anos cada, por contarem com deputados oriundos da alta burguesia, donos de terras e empresários; isto é, deputados a serviço do Czar. Durante a vigência da última DUMA, ocorreu a Revolução de março de 1917, que obrigou a abdicação do Czar e, posteriormente, condenou à pena de morte toda a sua família, extinguindo, para sempre, a Dinastia dos Romanov.
           Os membros da alta administração, e os próprios integrantes da família imperial, percebiam que algo de muito grave estava ocorrendo no país, mas não acreditavam que pudessem ser destronados, em razão da índole tradicional do povo russo: obediente, acostumado a passar necessidades, religioso, monarquista.
           Embora em nosso país não estejamos travando nenhuma guerra externa (mas, sim, vivendo uma guerra social interna, cujo número anual de mortos é maior do que o de muitas guerras travadas na atualidade), creio que os leitores já vislumbraram algumas similaridades entre as pré-condições existentes na Rússia Czarista, no início de 1900 (condições estas que, acirrando-se a partir do ano de 1914, acabaram por conduzir aquele país à Revolução de 1917), com as nossas condições brasileiras no início da década de 2000; condições estas que, acirrando-se a partir de 2014, poderão trazer surpresas às nossas elites por volta do ano de 2017, fazendo à História tornar a se repetir, agora, porém, como farsa.
           Nossas elites, salvo algumas poucas exceções, da mesma forma que as da Rússia, naquela ocasião, preocupam-se apenas em consumir de forma intensa e em acumular riqueza (não importa que de maneira, muitas vezes, desonestas e ilegais), não tendo maiores preocupações com as nossas populações e com o nosso futuro como potência mundial.
              Nossas Dumas (Câmara e Senado) são formadas, em grande parte, por políticos oportunistas, descompromissados com o povo e, apenas, compromissados com os governantes do momento e com os partidos no poder. Nossos ministros, em sua maioria, são apenas políticos, não sendo especialistas nas áreas de seus ministérios ou, mesmo, desconhecendo tudo ou quase tudo a respeito da pasta que ocupam. Ao contrário do império russo, onde a Czarina mandava, aqui manda o Czar dos sindicatos (que é quem comanda o governo por detrás dos bastidores, conforme muitos dizem e apregoam). A corrupção grassa nos três poderes, conforme a imprensa, com freqüência, denuncia.
        Nossos portos, nossas estradas e nossa malha ferroviária são de péssima qualidade e incompatíveis com um país da dimensão do nosso, que necessita produzir e escoar sua produção para abastecer uma população de 200 milhões de indivíduos e para exportar os excedentes.
             O descontentamento é grande entre a população; seja em razão dos baixos salários; seja da alta no custo de vida; seja da deficiência dos transportes urbanos; seja da crise na saúde e da falta de atendimento médico-hospitalar; seja da falta de segurança e do congestionamento das cidades (com carência de água, esgotos, coleta de lixo, etc.); seja da impunidade para os membros das elites empresarial, política, administrativa e judiciária (quando são apanhados cometendo ilegalidades).
             Embora nosso país seja, na teoria, uma República Democrática e não um Império Autocrata, nós somos, ainda, um país capitalista onde uma elite empresarial produz, enriquece, paga impostos e gera empregos. Entretanto, diversos países em nosso entorno, em união com o Brasil, criaram, no ano de 2008, a União das Nações Sul-Americanas – UNASUL (formada por Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Guiana, Peru, Brasil, Suriname, Venezuela, Uruguai, Colômbia e Paraguai). As propostas da UNASUL para este conjunto de 12 países são, dentre outras: A criação de uma unidade técnica de coordenação eleitoral (talvez para que os partidos no poder jamais percam as eleições); criação de uma escola sul-americana de defesa (para o estabelecimento de uma doutrina comum entre as forças armadas dos países membros); implantação de projetos multinacionais de infra-estrutura (com certeza, financiados pelos bancos oficiais brasileiros); abertura do espaço aéreo dentro da UNASUL (para facilitar o deslocamento de pequenas aeronaves, levando e trazendo seja lá o que for); livre circulação de pessoas entre os países membros (objetivando facilitar o deslocamento dos desempregados dos países mais pobres para aqueles países mais ricos); unificação das forças armadas dos países membros (esta unificação, certamente, conduzirá a uma padronização futura de armamentos e de doutrinas de emprego. 
             Ainda que a nossa Indústria de Defesa possa participar deste novo mercado armamentista que surgirá com a padronização, a unificação de forças armadas é algo muito perigoso, notadamente, quando se tem em mente que cada país possui distintos Objetivos Nacionais Permanentes e é comum o conflito de interesses nas relações políticas e econômicas internacionais. 
           Por detrás da UNASUL existe um projeto político-ideológico. Nosso país, como o maior e o mais rico destes doze, talvez tenha muito pouco a ganhar com tais medidas; sendo estas, sim, do interesse daqueles países em pior situação que a nossa e daqueles partidos políticos e organizações não governamentais, interessados na implantação de uma nova ideologia no Continente Sul-Americano. 
          Como exemplo do que acabamos de expor, poderemos nos deparar, de uma hora para outra, com nossas cidades cheias de imigrantes destes outros onze países que, somados aos africanos e haitianos que para cá têm vindo em grandes quantidades, estarão tomando empregos de brasileiros, concorrendo com empresas e indústrias brasileiras e recebendo auxílios financeiros do governo federal pagos com o dinheiro dos nossos impostos. Ocorre, ainda, que uma união como esta retirará, de nosso país e de nossas autoridades, o poder de decisão e a autonomia sobre muitas questões importantes para nossa soberania.
          Por outro lado, da mesma forma que na Rússia Czarista, nossas elites e parte substancial da população lúcida deste nosso país, percebem que algo de muito grave está ocorrendo com nossas instituições, mas, como os russos naquele passado distante, não acreditam que possa haver uma reviravolta total no Sistema, haja vista a boa índole do nosso povo e a sua religiosidade.
Finalmente, para que a nossa situação atual e a da Rússia Czarista sejam idênticas, falta-nos, tão somente, um Rasputin; mas, creio que este logo acabará aparecendo com o andamento das ações da Operação Lava Jato.

-*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Publicado em Leitura Recomendada de 12.01.2015, www.reservaer.com.br



32. Nostradamus e o futuro do Brasil

Jober Rocha*


            Nostradamus, ou Michel de Saint-Rémy, é conhecido em todo o mundo por suas previsões futuristas, apresentadas em versos na sua mais importante obra, denominada “As Centúrias‟. Astrólogo, médico e alquimista famoso, contemporâneo de Paracelso, Nostradamus trabalhou para Catarina de Médici, ainda quando esta não era rainha; mas, tão somente, esposa sem filhos de Henrique de Orleans, segundo filho do rei Francisco I e segundo na ordem de sucessão do trono (o primogênito era seu irmão Francisco). Henrique era, assim, um príncipe quase sem nenhuma chance de reinar. 
             Nostradamus previu para Catarina que ela acabaria reinando, com a morte do primogênito Francisco e, também, a de seu próprio marido Henrique, alçado ao trono pela morte do irmão. Para tanto, Catarina, até então estéril, deveria possuir um filho; o que acabou ocorrendo antes da morte de Henrique (dizem que o filho era do chefe da guarda pessoal de Henrique, chamado Montgomery, que acabou por matá-lo acidentalmente em um torneio de Justa, realizado anos depois). 
              Nostradamus (que chamarei de mago do bem em oposição a Cosino Ruggieri, o mago do mal, que também servia a Catarina), fazia uso da Astrologia para suas previsões contemporâneas e futuras. Independente disto, dizem que durante alguns de seus ataques epiléticos ele tinha visões do futuro; visões estas das quais tomava nota em um caderno que carregava sempre com ele, para, posteriormente, poder interpretá-las. 
            Nostradamus tornou-se muito amigo do Marques de Saint-André, preceptor dos filhos de Francisco I, com quem gostava de discutir questões filosóficas. Saint-André, um dos homens mais inteligentes do seu tempo, embora extremamente ambicioso, acabou por trair Nostradamus em várias ocasiões. Nas amigáveis conversas filosóficas com Saint-André, no entanto, Nostradamus dizia a este que muitas das previsões que fazia sobre sua época (e que acabavam deslumbrando os cortesãos franceses), eram, apenas, fruto de 24 sua acurada e inteligente observação com respeito a alguns fatos cotidianos. 
            Mudando de cenário e de época, no Brasil de hoje vemos que não é necessário possuir o conhecimento esotérico e científico de Nostradamus para fazer previsões acerca do futuro de nosso país e de nossos governantes. Para tanto, basta uma observação constante e atenta da nossa realidade, como já dizia e fazia aquele velho mestre do esoterismo. 
           Inicialmente, devemos observar a queda de popularidade recente, da nossa governante máximo, em todo o país e, mais especificamente, no Nordeste que a elegeu. 
Tal queda é devida, em grande parte, às medidas restritivas tomadas após as eleições; medidas estas que a candidata, na ocasião, afirmou que quem as tomaria, caso fosse eleito, seria o seu opositor naquela eleição. 
              Em segundo lugar, atentar para o descontentamento dos produtores, das cidades e dos campos, com a recessão vivida e com seus custos para o nosso país. 
Em terceiro, perceber o descontentamento dos trabalhadores com as demissões e as perdas trabalhistas decorrentes da recessão, das repercussões da operação Lava Jato sobre as empreiteiras envolvidas (cujos principais dirigentes estão presos e as suas empresas já começaram um processo de demissão em massa de empregados), além do retorno de altas taxas de inflação mensal, que corroem salários e elevam o preço da cesta básica.
                Em quarto devemos reparar no descontentamento dos comerciantes com a queda nas vendas. Observar o descontentamento geral, com a queda no PIB; a alta do dólar; o aumento dos impostos; a forte baixa no mercado de capitais; a escassez de água e a elevação de tarifas, por uma má gestão e por um mau planejamento hídrico; a escassez e a elevação das contas de energia elétrica (com o risco de eventual racionamento). 
                 Em quinto, notar o descontentamento dos militares com os baixos vencimentos, com o desprestígio governamental (ao colocar como Ministro da Defesa um civil, sem vínculos com as Forças Armadas e que, segundo diz a imprensa, por elas não morre de amores. Após o afastamento da presidenta, o seu vice, que ficou no lugar dela, manteve um civil no Ministério da defesa, que continua não morrendo de amores pelos militares) e com o sucateamento de equipamentos e instalações. 
                Em sexto, ver o descontentamento dos aposentados com os índices de correção de suas aposentadorias, inferiores à correção do benefício Bolsa Família e, mesmo, do Auxílio Reclusão. 
            Acrescendo a estes itens mencionados, convém notar que o governo federal estava, totalmente, sem base parlamentar e praticamente a deriva, sendo criticado por integrantes do próprio partido, até então, no poder. Ademais, tendo em conta os depoimentos coletados pelo Ministério Público na chamada Operação Lava Jato, operação que apura desvio de recursos da Petrobrás para diretores, membros do governo, políticos e partidos políticos, a cada dia que passa as denuncias mais se aproximam da sede do governo federal, do Partido dos Trabalhadores e do ex-presidente Luís Inácio. 
              Constata-se, portanto, que não é necessário possuir conhecimento esotérico e ter visões, como ocorria com Nostradamus, para adivinhar qual o rumo que as coisas tomarão daqui por diante, principalmente, quando se tem em conta que o país ficou dividido após as últimas eleições; que o ex-presidente Luis Inácio tem afirmado que estas crises fazem parte de um complô para derrubar a presidenta afastada e que o Partido dos Trabalhadores se propõe a mobilizar seus militantes, rurais e urbanos, para impedir o afastamento definitivo da ex-presidenta. 
                É de se prever, portanto, uma resistência (talvez, mesmo, até armada), caso seja confirmado o impeachment, resistência esta que poderá contar, eventualmente, até com o apoio de estrangeiros vivendo em nosso país ou, ainda, de militares de potências estrangeiras, que já se declararam abertamente pela intervenção no Brasil, caso a ex-governante do nosso seja deposta. 
            Embora eu não tenha dúvidas quanto à resposta a esta questão que formularei a seguir, a mesma, no entanto, constitui uma pergunta que para alguns leitores, talvez, seja, necessário realmente possuir uma visão esotérica de modo a antever como o nosso combalido país haverá de sair-se, ao final, desta trágica situação. 
             A questão é a seguinte: Esta transição terá, verdadeiramente, o poder e a infelicidade de nos conduzir à uma guerra civil e, no caso afirmativo, estarão as nossas forças armadas, como sempre, coesas ou se apresentarão divididas na ocasião?

_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

31. E aí, está reclamando do que?**


Jober Rocha*


        Considerando a agrura pela qual passa o nosso país, é muito comum vermos brasileiros reclamando acaloradamente dos efeitos da crise atual e discutindo sobre as origens e conseqüências da mesma. Os seus efeitos, evidentemente, são percebidos e sentidos na pele pela maioria da nossa população; as suas origens e as suas conseqüências, no entanto, não são reconhecidas pela grande maioria.
         Relativamente à sua origem, está crise atual não deve ser atribuída, apenas, a fatores econômicos e políticos considerados supervenientes; posto que, eventuais candidatos a ministros, competentes em suas respectivas pastas, existem em quantidade no mercado de trabalho brasileiro e dentre as funções de ministros competentes está a de se antecipar a eventuais crises.
         Quando, em detrimento de nomeações de alguns destes inúmeros profissionais competentes para os diversos ministérios existentes, são feitas nomeações de amigos ou companheiros incompetentes (nomeações estas, que atendem a interesses político-partidários inconfessáveis, como parece ser o caso de grande parte dos ministérios, antes e depois do impeachment da presidenta, a possibilidade de surgirem crises pode ser antevista por qualquer pessoa razoavelmente esclarecida, antes mesmo que ocorram. Assim, a origem desta crise atual deve ser buscada em outros fatores, já que aqueles de natureza econômica e política são, evidentemente, conseqüências e reflexos de uma causa anterior.
         Com referência às implicações da crise, se o estado de calamidade das contas públicas, o desarranjo institucional, a obsolescência de instalações, equipamentos, máquinas, processos administrativos, organizacionais, de logística e de gerência da maioria dos organismos pertencentes aos três poderes, tiverem as magnitudes que parecem ter, certamente, levaremos vários anos (senão décadas) para recuperar posições ou situações já alcançadas no passado. 
           Se pensarmos em termos de Dívida Pública, corremos o risco de ter um enfarte ao conhecer a sua magnitude: Dois trilhões e quinhentos bilhões de reais (posição esta em maio de 2015). Se pensarmos em termos de Previdência ou de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com certeza enfartaremos.
        O aparelhamento político dos três poderes da República, realizado nos últimos anos (quando grande parte daqueles nomeados para cargos comissionados ou funções de direção, sem a necessidade de concurso público, foram indivíduos vinculados ao partido no governo ou à sua base aliada), tornou difícil uma administração da coisa pública lastreada em critérios de seriedade, honestidade, imparcialidade e competência. 
          Muitos servidores públicos não concursados, nomeados para cargos em comissão ou ocupantes de funções de direção, além de desconhecerem integralmente os problemas com os quais teriam de se defrontar, não possuíam a formação acadêmica e profissional necessária para as funções ou para os cargos que ocupariam. Suas indicações e nomeações foram devidas às sinecuras, aos nepotismos ou aos acordos políticos para o aparelhamento dos três poderes, lastreados em interesses ideológicos ou, até mesmo, criminosos e inconfessáveis. Daí a uma falência total do governo, das instituições públicas e de muitas empresas privadas, a distância foi curta, como se costuma dizer.
         Ao perguntarmos como isso tudo pode ocorrer e porque nos encontramos na triste situação em que estamos, devemos enxergar em nós mesmos a causa primeira de todo este drama sócio-cultural, com repercussões políticas e econômicas, vivido pelos brasileiros. Na verdade, o sujeito e o próprio objeto deste artigo somos todos nós, caros amigos leitores, e as escolhas erradas que temos feito ao longo das nossas vidas. O Sistema de Dominação existente funciona bem quando e enquanto a maioria das pessoas aceita a dominação, acredita nas ‘verdades’ proclamadas pelo Sistema, e as reproduz. 
          Como afirmou Étiene de La Boétie em seu ‘Discurso da Servidão Voluntária’, escrito no século XVI e, portanto, 360 anos antes de Mahatma Gandi divulgar, em 1906, o principio da não agressão – Satyagraha (uma forma não violenta de protesto e de desobediência civil): - “Não é preciso combater nem derrubar esse tirano. Ele se destrói sozinho, se o país não consentir com sua servidão. Nem é preciso tirar-lhe algo, mas só não lhe dar nada. O país não precisa esforçar-se para fazer algo em seu próprio benefício, basta que não faça nada contra si mesmo. São, por conseguinte, os próprios povos que se deixam, ou melhor, que se fazem maltratar, pois seriam livres se parassem de servir. É o próprio povo que se escraviza e se suicida, quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura”. 
      Os indivíduos, enquanto cidadãos, consumidores, fiéis, eleitores, contribuintes, correntistas, telespectadores, leitores, etc., possuem uma monumental força, insuspeitada por eles mesmos. Se conscientes e unidos, podem ‘quebrar’ empresas (não consumindo seus produtos ou serviços), podem fechar igrejas (não frequentando seus templos), podem sanear o legislativo do país (não votando em políticos reconhecidamente corruptos ou que não tenham ficha limpa) e podem pressionar o governo a se moralizar (mediante passeatas, greves, boicotes, etc.). Só não o fazem por serem desunidos, mal informados, acomodados, influenciáveis e ingênuos. A única maneira de mudar o mundo é começando por mudar a nós mesmos. Reconheço que somos apenas uma gota no vasto oceano dos seres dominados, mas o mar se move na direção para onde as gotas se dirigem e não o contrário. O mesmo se passa com os bandos de pássaros, com os cardumes, com os rebanhos e com as populações. São os seus componentes que os movimentam. Se nós, seres humanos, nos tornarmos conscientes de como as coisas se passaram até agora, poderemos modificá-las no futuro. Como bem disse o médium Chico Xavier (cuja frase é citada erroneamente, ao final de muitos e-mails, como sendo de autoria de Rui Barbosa): “- Embora não possamos voltar atrás e fazer um novo começo, podemos sempre começar de novo e fazer um novo fim”. 
            Nossas escolhas erradas, com respeito àqueles que conduzirão o Poder Legislativo do país, têm sido a principal causa do nosso atraso econômico e social e das crises pelas quais passamos. A nossa alienação quanto a questões geopolíticas e econômicas, bem como a nossa inocência e pouca cultura quanto a questões de ordem ideológica, política, religiosa e filosófica, estão por detrás de todos os males que nos afligem, compondo um pano de fundo de nossas idiossincrasias.
           Eu faço votos de que uma nova maneira de entender o nosso país e o mundo em que vivemos (nova na medida em que difere da versão oficial) contribua para libertar-nos de falsas propagandas, falsos valores, falsas crenças, crendices e superstições, todos maquiavelicamente inoculados em nossas mentes com o único objetivo de esconder-nos a verdade e permitir que sejamos facilmente dominados, sem que dessa dominação tenhamos ciência e sem que a ela oponhamos resistência.
         Que vocês, caros leitores, passem a ser mais conscientes dos seus interesses e menos ingênuos com relação aquilo que lhes tentam incutir através da grande mídia, oficial e privada. Procurem fontes alternativas para se informar, como cursos, seminários, palestras, livros e a própria WEB. Defendam os seus pontos de vista e valores, não se deixando influenciar e, dentro da lei, principalmente, fazendo apenas aquilo que as suas consciências ou o bom senso lhes indicar.

_*/ Economista, Mestre em Ciências pela Universidade Federal de Viçosa-MG e Doutor em Economia pela Universidade de Madrid-Espanha.

_**/ Publicado em Leitura Recomendada de 12.10.2015, www.reservaer.com.br

quinta-feira, 2 de junho de 2016


30. Unidos sob a Força do Direito ou pelo Direito da Força?


Jober Rocha*


        Com a saída do governo do presidente João Batista Figueiredo e com a assunção do presidente José Sarney ao poder, o Brasil deixou para trás, em 1985, vinte anos de regime militar - ou do direito da força – e ingressou em um regime democrático, onde deveria prevalecer a força do Direito.
           Nestes vinte e nove anos, que se seguiram ao fim do regime militar, constatou-se que as denuncias de corrupção e os escândalos financeiros se avolumaram e não pararam de crescer.
              Não que escândalos de corrupção inexistissem no período do governo militar, como também no reinado e no império do Brasil. Ocorre que tais regimes (ditadura, monarquia e império) são, por natureza, regimes que se caracterizam pela força das armas e da autoridade de uma determinada pessoa, que, geralmente, tudo pode. Ao contrário, no regime democrático - onde a participação popular, através do voto, é que conduz o governante ao posto máximo – o cidadão no poder deverá estar sujeito às leis vigentes, como também os demais membros do executivo, do parlamento e do judiciário.
             Em nosso país, entretanto, sob o manto democrático estendido após o fim do regime militar, uniram-se alguns membros dos três poderes e da iniciativa privada (conforme denuncias, diárias, da imprensa), visando à realização de ações criminosas que os beneficiariam diretamente; bem como o partido político no poder e aqueles outros partidos pertencentes à base aliada.
           Ao mesmo tempo em que isto ocorria, o partido no poder, até então, esquecendo-se da máxima ‘viva e deixe viver’, comum entre os poderosos nas Repúblicas de Bananas, moveu acirrada campanha contra os militares, colocando-os como réus, em episódios da passada Guerra Revolucionária travada nas décadas de 1960 e de 1970. Ademais - sob este mesmo manto da democracia - o partido no poder até o afastamento da presidenta, tinha conduzido as nossas Instituições Republicanas à adoção de práticas comuns aos regimes totalitários, como o Comunista e o Socialista.
       Diante destes fatos, constatamos que saímos de um regime de força para, infelizmente, mergulharmos em outro regime de força.
        O filósofo Jean-Jacques Rousseau em sua obra “Du Contrat Social ou Principes Du Droit Politique”, publicada em Amsterdam no ano de 1762, já mencionava: “a ordem é um direito sagrado, que serve de base a todos os outros”. Dizia também o filósofo, que “os homens, tendo nascidos iguais e livres, só alienam sua liberdade em proveito próprio”.
           As convenções, segundo o autor, “eram as bases de toda a autoridade legítima entre os homens; já que, nenhum deles tem autoridade natural sobre o outro e a força não gera nenhum direito”.
           Conforme pensava Rousseau - considerando que os homens não podiam criar novas forças - não tinham eles nenhuma alternativa a não ser a de se unir, e dirigir as forças que existiam “formando, por agregação, uma soma de forças que possa prevalecer sobre a resistência, colocá-las em jogo por uma só motivação e fazê-las agir de comum acordo”.
         Assim, o problema fundamental que o Contrato Social dava solução, segundo Rousseau, era o de “achar uma maneira de associação que defendesse e protegesse a pessoa e os bens de cada associado, pela qual, cada um, unindo-se a todos, obedecesse unicamente a si mesmo, sendo livre como antes”.
           Com respeito ao soberano, ou governante, o filósofo afirmava: “alicerçado nos indivíduos que o compõem, não pode ter seus interesses contrários ao do povo, não tendo nenhuma necessidade de garantia com seus súditos, pois é impossível que o corpo, queira prejudicar todos os seus membros”.
Entretanto, para o filósofo, “se através do Contrato Social o homem se vê privado de muitas vantagens advindas da Natureza, ele passa a possuir outras que as compensam, como: faculdades exercitadas e desenvolvidas, ampliação de idéias, sentimentos enobrecidos, etc. Com o Contrato Social o homem perde sua liberdade natural e seu direito ilimitado a tudo que o tenta e que ele pode atingir, mas ganha a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui”.
          Embora o Contrato Social de Rousseau tenha sido citado, inúmeras vezes, por algumas de nossas autoridades – que, se alguma vez o folhearam, seguramente, não entenderam com profundidade suas teses - aquele contrato vigente até então em nosso país, já tendo sido rompido unilateralmente pelo próprio soberano, estaria à beira de ser rompido, também, pelos súditos. Explico-me melhor: Conforme dito no início, sendo a Ordem um direito sagrado, que serve de base a todos os outros, é evidente que sem respeito ao ordenamento jurídico (que manteve os nossos cidadãos, até agora, fiéis ao Contrato Social pactuado) os demais direitos do cidadão perderão seu valor e acabarão por se extinguir. Da mesma forma, conforme já mencionado anteriormente, os homens só alienam sua liberdade em proveito próprio: quando percebem inexistir benefício algum pela troca que fizeram, a tendência é romper o Contrato Social, às vezes de maneira radical e violenta, como muitos povos já o fizeram. 
       Alguns exemplos do rompimento do contrato, por parte do nosso soberano, podem ser encontrados em diversas medidas adotadas, como, por exemplo: a tolerância extrema com os movimentos campesinos e urbanos que invadem propriedades rurais ou urbanas, produtivas ou não, muitas vezes depredando e danificando culturas, instalações e equipamentos; a elevada carga tributária (uma das mais elevadas do mundo) a que os súditos e suas empresas estão submetidos, sem uma contrapartida equivalente em termos de saúde, segurança, transportes, serviços, etc.; a morosidade e, muitas vezes, a parcialidade do Judiciário com respeito aos julgamentos de autoridades e dos chamados réus ‘chapa branca’, isto é, pertencentes aos partidos políticos no poder; o corporativismo do legislativo, quando se trata de punir, através da cassação de mandatos, seus representantes no senado e na câmara; o envolvimento de inúmeras autoridades, dos três poderes, em episódios de corrupção divulgados pela mídia, sem que estas autoridades paguem, judicialmente, pelos seus atos e devolvam aos cofres públicos aquilo que receberam ilicitamente. A tentativa de estabelecer um governo comunista, ou socialista, sem um referendo popular - governo este que teria o poder e a intenção de mexer nos bens dos cidadãos e suspender muitos dos seus direitos constitucionais, modificando, ademais, as instituições públicas e privadas; a aliança política, econômica e estratégica com países comandados por ditadores retrógrados - que utilizam ideologias idem para governar seus países; o perdão de dívidas de países africanos com o nosso país (países estes comandados por ditadores, em sua grande maioria, milionários), sem nenhuma consulta aos demais poderes da república e á população. A tentativa de desarmamento da população, cujo objetivo velado é o de retirar armas em poder dos súditos, de modo a evitar eventuais revoltas e rebeliões que possam destronar os soberanos; o sucateamento proposital das forças armadas, deixando o país indefeso frente a eventuais ameaças externas e internas; a cessão de partes importantes do território nacional (por sua riqueza em recursos naturais e minerais estratégicos), e sua completa autonomia, para determinadas populações indígenas (algumas destas habitando áreas de fronteira que adentram outros países), caracterizando, em alguns casos, verdadeiros crimes de Lesa-Pátria; o loteamento de cargos comissionados com elevados salários, na administração pública, entre os membros do partido do governo e da base parlamentar que o apóia, de seus parentes e amigos; o envolvimento de pessoas muito próximas ao soberano em denúncias de corrupção e desvio de recursos públicos, malversação de verbas, etc., etc. e etc.
           Tais constatações deixaram evidente o rompimento unilateral, pelo nosso soberano, do Contrato Social estabelecido em nosso país; pois, parece claro, não foi este contrato constituído para providenciar proteção e melhorias aos súditos, mas, sim, para beneficiar o soberano e sua corte.
              Da parte dos súditos, ao se depararem com dois pesos e duas medidas; isto é, um tratamento para as autoridades da corte e outro para os simples mortais trabalhadores, mesmo aqueles menos informados e inteligentes perceberão que estão sendo logrados. Ao constatarem que pagam uma das cargas tributárias mais altas do mundo, sem benefícios que o justifique, dar-se-ão conta de que estão sendo iludidos. Ao serem assaltados ou violentados nas ruas ou em suas residências, sem que as autoridades os protejam, constatarão, sem dúvida, que estão sendo ludibriados; ao necessitarem de socorro médico e ficarem horas, dias, semanas e meses, nas filas dos hospitais sem serem atendidos, perceberão que estão sendo enganados; ao verem as autoridades legislarem sobre seus próprios salários, ao verem as inúmeras gratificações e benesses que engordam os contracheques destas autoridades e compararem tudo isto ao percentual de elevação anual do salário mínimo (muitas vezes representando, apenas, alguns poucos Reais a mais e, conforme pesquisa feita por alguém, representando apenas o equivalente a um frango comprado no supermercado), perceberão que estão sendo traídos. Mesmo aqueles súditos mais afortunados, beneficiados com moradias populares, constatarão, segundo pesquisa divulgada pela imprensa, que as casas que receberam desfazem-se aos poucos, em razão da má construção e dos materiais de baixa qualidade com que foram edificadas. Estes súditos, com certeza, também perceberão que foram enganados. Aqueles que buscam emprego e não conseguem, seja em razão da escolaridade deficiente que receberam nas escolas mantidas pelo soberano, seja em razão da estagnação econômica em que se encontra o país (e que, segundo alguns economistas, deve continuar nos próximos anos ou mesmo acentuar), constatarão que foram iludidos e que apenas lhes resta um subemprego ou os caminhos da contravenção e do crime. Ao perceberem que os recursos financeiros que faltam em setores essenciais e básicos, como na saúde, no saneamento, nos transportes, na segurança pública, nas estradas, são encontrados em profusão em obras supérfluas como a dos estádios de futebol, onde foram gastos, por baixo, cerca de trinta bilhões de reais, constatarão o desperdício e a má gestão do soberano. Mesmo aqueles que se beneficiam de bolsas concedidas pelo governo, perceberão, em breve, se ainda não o fizeram, que aqueles recursos que recebem, mensalmente, aos poucos vão perdendo seu poder de compra em razão da inflação, que a má gestão pelo soberano, da administração pública fez retornar. Os que se dedicam ao pequeno comércio, aos pequenos serviços ou são profissionais autônomos, constatarão a sanha arrecadadora com que os agentes do governo federal, estadual e municipal os perseguem, na ânsia de retirar-lhes o pouco que obtiveram com o seu suor diário. Os cidadãos comuns, ao fazerem uso do direito constitucional de ir e vir sofrem, na pele, com as excessivas e vultosas multas de trânsito, taxas e impostos referentes ao uso e posse de veículos, pedágios e cobranças legais ou ilegais de estacionamento, por parte de agentes terceirizados ou dos chamados ‘flanelinhas’.
          Ao constatarem que formam a base da pirâmide, que são eles que tudo executam e que contribuem com seu esforço e com sua renda para a construção do país - país este que, embora a sétima ou oitava economia mundial, muito pouco lhes dá em retribuição pelo tanto que fazem, em razão de má gestão dos soberanos que têm se sucedido - e constatarem, ademais, a perda dos valores morais, das virtudes e da proteção que buscavam ao participarem do Contrato Social firmado com o soberano; verem os vícios dominar o cenário político do país, com verdadeiras quadrilhas dilapidando os cofres da nação, os súditos podem, eventualmente, se sublevar e romper também o Contrato Social que já havia sido rompido pelo soberano, instaurando-se uma convulsão social e a conseqüente guerra civil que sempre a acompanha. Temos visto isto acontecer em diversas partes do mundo, tanto no passado quanto no presente. Nós, que sempre pensamos que estas coisas só ocorriam em outros países, estamos perto de vê-las ocorrer também no nosso.
            Quem já teve a curiosidade de acompanhar pelo You Tube a guerra civil travada na Síria, no Iraque, na Palestina, no Afeganistão, na Ucrânia e em vários outros países africanos, sabe, muito bem, dos devastadores efeitos e das conseqüências de guerras desta natureza sobre a vida presente e futura dos cidadãos.
           Certamente, quando a maioria dos cidadãos se der conta de que esta sendo ludibriada e que deve alijar do poder os atuais governantes – como parece estar ocorrendo – o cenário político deverá se alterar. O que fará, nesta contingência, o partido alijado do poder, ainda é uma incógnita. O que poderá com toda certeza ocorrer, caso o partido vencedor das eleições mantenha, ainda, o rumo democrático, é a instalação de Comissões da Verdadeira Justiça, perante as quais todos aqueles envolvidos no desvio de recursos públicos, em malversação de verbas, em concorrências fraudulentas, etc. etc. etc. - e, apesar disto, absolvidos pela Justiça comum ou por fóruns privilegiados – deverão ser chamados a se explicar, espontaneamente ou de forma coercitiva.
           Que Deus, sendo brasileiro como muitos dizem ser, interceda para que não tenhamos que passar pela infelicidade de uma convulsão social, como tudo isto leva a crer, retornando a um estado de barbárie com o rompimento do contrato social - como ocorre nos conflitos mencionados anteriormente - e que permaneçamos, ainda, unidos pela força do Direito.


_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

29. A Falácia sobre a Luta de Classes**


Jober Rocha*


        O filósofo e sociólogo Karl Marx (1818-1883) e seu amigo Friedrich Engels (1820-1895), fundadores do chamado socialismo científico, criaram a expressão ‘luta de classes’ para indicar o conflito entre os chamados opressores e os denominados oprimidos (isto é, a burguesia e o proletariado), conflito este que, segundo eles, vigoraria no sistema de produção capitalista. Para eles, a referida luta teria surgido com a instituição da propriedade privada dos meios de produção e só acabaria com o fim do capitalismo e das classes sociais.
      Em conformidade com Vladimir Lenin (1870-1924), revolucionário e chefe de estado da República Socialista Soviética Russa, “as classes são grupos de homens em que uns podem apropriar-se do trabalho dos outros, graças à diferença do lugar que ocupam no sistema da economia social”.
         Marx afirmava que nas sociedades primitivas não havia a divisão entre classes e que esta surgiu em razão das mudanças ocorridas nas forças de produção, bem como através dos conflitos existentes entre os indivíduos em razão disto, que conduziram à posse privada, por determinados grupos sociais, dos excedentes produzidos e da própria terra geradora de riqueza. Segundo ele, a luta de classes era inevitável, em razão da irreconciliável relação entre proprietários e não proprietários dos meios de produção, e seria regida por leis sociais historicamente determinadas. A luta de classes era, assim, para o filósofo, o motor do desenvolvimento histórico das sociedades e a mais importante força motriz da história humana, mesmo que pudesse se desenvolver em outros terrenos que não o econômico; isto é, os terrenos político, religioso, filosófico ou em qualquer outro solo fértil ideologicamente.
          Aqueles que ainda seguem os pressupostos de Marx e de Engels julgam que a existência de uma sociedade sem classes, como as que, eventualmente, existiram no passado em pequenas comunidades indígenas, é uma possibilidade histórica concreta no mundo atual. Outros, embora reconhecendo a existência da luta de classes, acham, no entanto, que nos países pobres a tentativa de eliminá-la, com vistas à implantação de regimes socialistas, sem classes sociais, não passam de simples quimeras. É, por exemplo, o caso de José ‘Pepe’ Mujica, antigo guerrilheiro Tupamaro e atual agricultor e político, ex-presidente do Uruguai, que afirmou em entrevista recente “a luta de classes é como o sol e as estrelas. Negá-la é negar a realidade. No entanto, posso ser mais claro: as tentativas de se construir países socialistas a partir de países pobres, em minha humilde opinião, demonstraram que são utópicas e impossíveis – mais que utópicas, são quiméricas”.
         Em minha, também, humilde opinião, aquilo que foi caracterizado por Marx e Engels como luta de classes, nada mais é do que o anseio dos indivíduos por melhores condições de vida. Na época em que Marx e Engels formularam suas teorias, a psicologia ainda estava em seus primórdios e Sigismund Freud (1856-1939), médico neurologista, ainda não havia revolucionado a Psicologia, com criação da Psicanálise e aquela era confundida com a Filosofia. A Psicologia surgiu, com as suas várias escolas, apenas, no início do século XX, como uma ciência que tentava se desenvolver objetivando compreender o homem e seu comportamento, de modo a facilitar a convivência dele com si mesmo e com os demais, através de três escolas principais: Funcionalismo (William James, 1842-1910), Estruturalísmo (Edward Titchener, 1867-1927) e Associacionísmo (Edward Thorndike, 1874-1949). Por outro lado, as Bolsas de Valores, embora já existissem desde o século XV, eram voltadas para a compra e venda de moedas, letras de cambio, metais preciosos e financiar bancos centrais. O comércio de ações só apareceu no século XIX, quando algumas bolsas começaram a negociar mercadorias e valores mobiliários. Só algum tempo depois da divulgação das teses de Marx as bolsas de valores começaram a negociar ainda de modo incipiente, com ações de empresas industriais.
       Os desejos humanos (objetos da análise psicológica comportamental) ao longo da história, normalmente, evoluem dos físicos (focados nas necessidades do corpo: alimentação, abrigo, família, sexo, etc.) para os de riqueza, de poder, de conhecimento e de espiritualidade. A ordem em que evoluem nos indivíduos, todavia, pode ser distinta desta apresentada ou, mesmo, alguns destes desejos serem suprimidos em determinados indivíduos ou em conjuntos de seres humanos, por razões diversas. 
         Assim, a denominada luta de classes, em meu modesto ponto de vista, corresponde a uma falácia criada por aqueles dois eminentes filósofos para justificar seus pontos de vista revolucionários. Os meios de produção (em razão de seus custos elevados) estarão, sempre, em mãos daqueles que detém o capital, sejam eles indivíduos ou Estados, mas, jamais, em mãos dos proletários em razão de lutas de classes. Imaginar que as coisas se passariam desta forma, a não ser para justificar teses ideológicas, é demonstração de muita ingenuidade ou de total desconhecimento da psicologia humana e do funcionamento dos sistemas econômicos.
          A Revolução Industrial, que consolidou o Sistema Capitalista no século XVIII, trouxe em seu bojo a Divisão Internacional do Trabalho (seja com respeito a países, regiões ou indivíduos), divisão esta que consiste em uma especialização das funções econômicas e que foi um reflexo da solidificação da globalização incipiente. 
         A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), após seu termino, acelerou de maneira nunca vista a economia mundial e, com isto, as globalizações da produção e do consumo se acentuaram significativamente. Esta divisão ou especialização, independente de vantagens comparativas que as justifiquem, quando se tratam de países ou regiões, demonstra, ademais, que nem todos os indivíduos possuem as mesmas capacidades e as mesmas aptidões; isto é, muitos são aqueles que acham mais fácil obedecer do que comandar, muitos os que preferem vender sua força de trabalho a comprar a força de trabalho de outros. 
         O que deve pautar as discussões, em meu modo de ver, é o papel do Estado em promover uma razoável distribuição de renda entre seus cidadãos, de modo a eliminar os eventuais conflitos, entre patrões e empregados (não entre os detentores ou não dos meios de produção), por um maior nível de renda para aqueles que vendem sua força de trabalho, fato este que, conseqüentemente, acarretaria uma melhoria sempre crescente em suas condições sócio-econômicas. Poucos trabalhadores desejariam ocupar os lugares dos seus patrões (com as suas responsabilidades e riscos inerentes); isto é, dos donos dos meios de produção, desde que os seus salários fossem razoáveis e suficientes para a boa manutenção deles próprios e de suas famílias. Nem todos os soldados sonham com serem generais, em que pese o poder e as regalias destes últimos. Quem imagina o contrário está redondamente enganado com relação a psicologia humana, individual e coletiva. Assim, nem todos os proletários desejam ser possuidores dos meios de produção, promovendo até mesmo uma luta de classes para tanto. Guerras civis, motins e revoluções, sempre ocorreram na história da humanidade, mas, neste caso, em razão do rompimento do Contrato Social, tão bem pensado e formulado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Se o referido contrato for mantido pelos pactuantes (povo e governo) e sua execução for considerada satisfatória por ambas as partes, inexistirão movimentos sediciosos internos que objetivem rompê-lo, tais como uma suposta luta de classes, em que ainda creem os adeptos de Marx.
          Existem países comunistas, sem classes sociais, onde os indivíduos não são possuidores dos meios de produção, mas, apenas, vendedores de suas forças de trabalho ao Estado, este, sim, o verdadeiro detentor dos meios de produção. Em tais países, uma elite dominante, tendo se apropriado do poder, usufrui das benesses de um consumo nababesco e, por vezes, hereditário. Por outro lado, existem países capitalistas com classes sociais distintas (ou, mesmo, castas), onde os indivíduos aceitam com tranqüilidade suas classes ou castas, sem nenhuma tensão social e sem demonstração de desejarem pertencer à classe ou casta dos outros: alguns países orientais, em razão de suas convicções religiosas sobre a Metafísica da vida e da morte, e alguns países ocidentais onde o nível cultural, de renda e de escolaridade é bastante elevado. 
         Existem também países capitalistas, com classes sociais, em que parte dos meios de produção pertence a particulares (pessoas jurídicas e pessoas físicas) e parte pertence ao Estado. Naqueles países onde o Mercado de Capitais é bem estruturado, qualquer pessoa física (pertencente à classe dos patrões ou à classe dos trabalhadores) pode adquirir, democraticamente, ações (preferenciais ou ordinárias) de empresas, ações estas que são negociadas em Bolsas de Valores. Constata-se, portanto, no mundo moderno, que a existência ou não de classes sociais não é o fator que assegura ou deixa de assegurar a posse dos meios de produção. 
         Da mesma forma, nem a ideologia dominante nem o próprio sistema econômico vigente, também, são os fatores determinante da posse ou não dos meios de produção por parte dos trabalhadores, justificando, assim, uma eventual ‘luta de classes’.
          Embora classificada, pelos dois eminentes filósofos, mencionados no início, como uma lei social histórica, a propalada ‘luta de classes’ consiste, apenas, segundo a minha modesta maneira de ver este assunto, uma falácia que mascara o simples desejo das classes trabalhadoras por maiores salários e por melhores condições de vida, frente a proprietários dos meios de produção, muitas vezes insensíveis às condições e reivindicações destes trabalhadores. O papel do Estado, como árbitro e moderador, isento, destes eventuais conflitos é que vem a ser, em minha ótica, de fundamental importância para a solução satisfatória destas reivindicações trabalhistas.
        Imaginar que todos os proletários são infelizes e que iriam ao extremo da ‘luta de classes’, apenas, por não serem os donos dos meios de produção é de uma ingenuidade portentosa ou de uma ignorância nababesca; posto que, aqueles que assim pensam, olvidam importantes aspectos psicológicos da natureza humana, ademais da razoável distribuição de renda e das características dos modernos Mercados de Capitais, existentes em muitos países democráticos. Essa suposta “Lei Histórica” da luta de classes, tem sido vendida como verdadeira pelas esquerdas, objetivando unicamente apoio popular para a tomada do poder. Após haverem chegado lá, esquecem-se de que anteriormente a mencionaram e reprimem as manifestações e os descontentamentos populares (com a situação econômica e social, motivada por políticas erradas de seus governos), da mesma forma como os países capitalistas costumam fazer; isto é, com a força policial. 
       Vejam a titulo de exemplo sobre o comportamento psicológico dos indivíduos, meus caros leitores, esta letra do ‘Rap da Felicidade’, conhecida melodia Funk que fez sucesso recente nas rádios brasileiras e nas periferias das cidades, de autoria de Cidinho e Doca:

“Eu só quero é ser feliz,
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci
E poder me orgulhar e ter a consciência
Que o pobre tem seu lugar...”


         Finalmente, sem a intenção de buscar fazer qualquer apologia da pobreza, eu reconheço que uma política de redistribuição de renda bem conduzida (como a que tem sido feita em muitos países), bem como uma justiça severa e igual para todos (como aquela que é exercida também em muitos países), são as melhores ações para se eliminar tensões sociais motivadas, quase sempre, pelo descontentamento das massas trabalhadoras com suas condições econômicas e sociais, que podem desembocar em conflitos sociais graves, com o risco do rompimento do chamado contrato social.


_*/ O autor é Economista, M.S. pela Universidade Federal de Viçosa, MG, Doutor pela Universidade Autônoma de Madrid e possui o Doutorado de Terceiro Ciclo pela Universidade de Paris I – Pantheón/Sorbonne.

_**/ Publicado na Revista da Aeronáutica nº 291. 2015. Rio de Janeiro, RJ.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

28. Considerações sobre a Amizade

Jober Rocha*  

         Creio que o filósofo Aristóteles (324 a.C. a 322 a.C.), em sua ‘Ética a Nicômaco’, foi um dos primeiros a escrever substancialmente sobre a amizade, que considerava uma virtude extremamente necessária à vida. Segundo alguns pesquisadores, os escritos de Aristóteles consistem na mais completa e bela análise que, filosoficamente, já se fez sobre o fenômeno da amizade. Anteriormente a ele, Sócrates (469 a.C. a 399 a.C.) já havia declarado: - “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver, em nós mesmos, as qualidades que nela admiramos”. Platão (427 a.C. a 347 a.C.) teria afirmado, por sua vez: - “A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”.
    Os Epicuristas (Epicuro 341 a.C a 270 a.C.) também exaltavam a amizade, na qual baseavam um dos fundamentos da sua ética e da sua conduta prática. Todavia, ela era uma manifestação na vida do sábio e não estaria da forma como foi considerada em Aristóteles, ligada as relações humanas. Epicuro estava disposto a oferecer a sua própria vida em benefício de um amigo, se necessário fosse; pois, para ele, os amigos eram as únicas pessoas em quem se podia confiar e deviam ser preservados em nossos corações.
  Para o cristianismo o amor ao próximo veio superar o conceito de amizade, em termos filosóficos, pois o próximo é aquele que está perto de nós, podendo ser amigo ou inimigo; embora, muito antes do surgimento do cristianismo, Aristóteles já houvesse dito, com relação à amizade: -“Comporte-se com o amigo como consigo mesmo. Veja nele outro eu”!
   No Wikipédia (biblioteca da WEB), encontramos que “a amizade (do latim amicus, amigo, que possivelmente se derivou de amore, amar, ainda que se diga também que a palavra provém do grego) é uma relação afetiva, a princípio, sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas. Em sentido amplo, é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Neste aspecto, pode-se dizer que uma relação entre pais e filhos, entre irmãos, demais familiares, cônjuges ou namorados, pode ser também uma relação de amizade, embora não necessariamente”.
       “A amizade pode ter como origem um instinto de sobrevivência da espécie, com a necessidade de proteger e ser protegido por outros seres. Alguns amigos se denominam "melhores amigos". Os melhores amigos muitas vezes se conhecem mais que os próprios familiares e cônjuges, funcionando como um confidente. Para atingir esse grau de amizade, muita confiança e fidelidade são depositadas”.
      “Muitas vezes os interesses dos amigos são parecidos e demonstram um senso de cooperação. Mas também há pessoas que não necessariamente se interessam pelo mesmo tema, mas gostam de partilhar momentos juntos, pela companhia e amizade do outro, mesmo que a atividade não seja a de sua preferência”.
      “A amizade é uma das mais comuns relações interpessoais que a maioria dos seres humanos tem na vida. Em caso de perda da amizade, sugere-se a reconciliação e o perdão. Carl Rogers diz que a amizade é “a aceitação de cada um, como realmente ele é".”
       Voltando a Aristóteles, constatamos que este distinguia três tipos de amizades: a fundamentada no interesse, a baseada no prazer e a amizade perfeita.
      As duas primeiras, segundo ele, “eram apenas acidentais, porque a pessoa amada não era amada por ser quem era, mas porque proporcionava algum bem ou prazer ao outro. Por isto, tais amizades se desfazem facilmente, se as partes não permanecem como eram no início, pois, se uma das partes cessa de ser útil ou agradável, a outra deixa de amá-la. Acresce que o útil e o prazer não são permanentes, mas estão constantemente mudando. Dessa forma, quando desaparece o motivo da amizade, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para chegar a um fim”. 
        Quando a amizade é por prazer ou por interesse, até os maus poderiam ser amigos, conforme destaca o filósofo. Da mesma forma, os bons podem ser amigos dos maus e aqueles que não são nem bons nem maus podem ser amigos de qualquer tipo de pessoa; mas, por aquilo que são por si mesmos, só o terceiro tipo de amizade poderia ser considerado perfeito.
          A amizade perfeita, para Aristóteles, seria aquela que “existiria entre indivíduos que são bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro, de maneira idêntica, e são bons em si mesmos. Estes seriam amigos em razão de suas próprias naturezas e não por acidente. Uma amizade assim, como seria de esperar, é permanente, visto que um encontra, no outro, todas as qualidades que os amigos devem possuir”. 
         O filosofo, entretanto, salienta que amizades assim são raras, pois também são raros indivíduos como estes. Acrescenta, ainda, que “entre as pessoas idosas é menos freqüente surgir amizade (depois de já idosas), pois tais pessoas são menos bem-humoradas e não encontram muito prazer na companhia umas das outra; e a boa disposição e a sociabilidade são consideradas as marcas principais de amizade e são as suas causas”.
         Não se pode ser amigo de muitas pessoas, no sentido de ter com elas uma amizade perfeita, a não ser em casos excepcionais; pois, tais amizades demandam tempo para experiências, recíprocas, de convivência, que as tornem íntimas.
     Destacava Aristóteles, ademais, que “existe outra espécie de amizade que envolve uma desigualdade entre as partes, por exemplo, a amizade entre pai e filho, e em geral a amizade entre a pessoa mais velha e a mais jovem, a amizade entre marido e a mulher, e em geral a amizade entre quem manda e quem obedece”. “Essas amizades diferem umas das outras, pois a que existe entre pais e filhos não é a mesma que existe entre quem manda e quem obedece; nem a amizade de pai para filho é idêntica a de filho para pai, como a do marido para a mulher não é a mesma que a da mulher para o marido. De fato, a virtude e a função de cada uma dessas pessoas são diferentes, e por isso igualmente diferem o amor e as razões pelas quais as pessoas envolvidas são amigas”. “Nessas diferentes espécies de amizade, cada parte, portanto, não recebe a mesma coisa da outra, e nem deveria pretender isso. Quando os filhos dão aos pais aquilo que devem dar aos que lhes deram a vida, e os pais aquilo que devem dar aos filhos, a amizade entre tais pessoas é duradoura e equitativa.” “Em todas as amizades que envolvem desigualdade, o amor também deve ser proporcional, isto é, a parte melhor deve receber mais amor do que dá, assim como deve ser mais útil, e de modo análogo, em cada um dos outros casos, pois quando o amor é proporcional ao merecimento das partes, estabelece-se, de certa forma, a igualdade, que é considerada uma característica essencial da amizade”.
        Para o filósofo, a amizade devia ser distinguida das duas coisas com as quais parecia ter mais afinidade: o amor e a benevolência. Distinguida da benevolência porque esta pode ter como alvo pessoas desconhecidas e permanecer oculta, o que não ocorre com a amizade, e distinguida do amor, porque este é semelhante a uma afeição e a amizade a um hábito.
       Aqueles que foram contemplados com a felicidade de poder dispor, na velhice, de um grande número de verdadeiros amigos - forjados durante a infância e a adolescência - podem se considerar seres humanos predestinados; pois, é acontecimento raro. A amizade desenvolvida entre amigos que conviveram juntos durante muito tempo (como aquelas que desfrutamos na vida militar) e que, eventualmente, correram riscos juntos, é indissolúvel. Ao se encontrarem, após anos de ausência, é como se o tempo não houvesse transcorrido. 
     Cito o exemplo da amizade desenvolvida entre aqueles que participaram de guerras e de revoluções, onde suas vidas, muitas vezes, dependeram de seus pares. Cito, também, a amizade existente entre o mestre e seus alunos ou discípulos, como é o caso de Frei Luis de León, professor da Universidade de Salamanca, na Espanha, no século XVI, que foi preso pela Inquisição em razão de traduzir livros não autorizados pela Igreja Católica. Como seus alunos eram também seus amigos, após cinco anos de cárcere, tendo sido solto e havendo retornado à sua cátedra na universidade, na primeira aula que proferiu perante seus antigos alunos e amigos, iniciou com as seguintes palavras: - “Como deciamos ayer...” (Como dizíamos ontem...)
      Finalizando como tudo na vida possui, no mínimo, duas interpretações de observação e de compreensão, reporto-me a dois pensamentos, opostos, sobre a amizade:
“É preciso ter sempre alguém em quem se possa confiar e falar abertamente, ao menos em um raio de dez quilômetros. Não adianta se estiver mais longe”. (Guerdjef).
“Não te abras com teu amigo que ele outro amigo tem; e o amigo do teu amigo, possui amigos também...” (Mario Quintana).

_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.




27. Contradições Incoerentes ou Verdades Incontroversas?

Jober Rocha*


        Costuma-se dizer que existe contradição quando se afirma e se nega, simultaneamente, algo sobre a mesma coisa. O Princípio da Contradição nos diz que duas proposições contraditórias não podem ser ambas falsas ou ambas verdadeiras, ao mesmo tempo. Existe, assim, uma relação de simetria; pois, ambas não podem ter o mesmo valor de verdade. Ocorre, portanto, uma contradição, quando uma afirmação é falsa e a outra é verdadeira. Se forem ambas verdadeiras ou falsas, não existirá, neste caso, contradição.
       Pode ocorrer, no entanto, da contradição ser apenas aparente e, em razão da sua eventual incoerência (não detectável a primeira vista, mas somente após ser analisada em profundidade), vir a se constituir em uma verdade incontestável. 
        Esta pequena introdução tem por objetivo, simplesmente, o de indicar aos estimados leitores aonde quero chegar: as contradições, que afirmam e negam a mesma coisa, podem, eventualmente, ou serem verdades ou se tratarem de mentiras incontroversas. Explico-me melhor, através de um exemplo prático: grande parte dos seres humanos acredita possuir duas características, a animal e a espiritual; ou seja, um corpo e uma alma (espírito quando encarnado). Sabemos também que, segundo a Religião, estas características se opõem; isto é, quanto mais evoluído espiritualmente o ser humano (mais virtuoso, ou seja, bom, generoso, pacífico, caridoso, etc.), menos devem prevalecer sobre ele seus instintos animais (viciosos em certa medida, ou seja, gula, raiva, egoísmo, concupiscência, etc.). Tanto é assim que os monges e sacerdotes, que se dedicam a evolução espiritual, vivem em conventos e mosteiros isolados, celibatários, alimentando-se frugalmente, mortificando-se e meditando para vencer seus desejos e impulsos animais, sintetizados no Ego. Nota-se, com isto, que, perante as Religiões, existe uma clara oposição entre a evolução espiritual e a prevalência dos instintos animais e dos desejos materiais, isto é, aqueles sentimentos típicos do Ego.
          Um óbvio exemplo de contradição, neste caso, consistiria no fato de ser possível ao ser humano evoluir espiritualmente mantendo vivos, ou mesmo expandindo, os desejos do seu Ego. Por Ego entendemos o Eu de cada um; isto é, o defensor da sua personalidade e dos seus interesses materiais intrínsecos. A principal função do Ego seria, pois, a de procurar harmonizar os desejos e a realidade; ou seja, conciliá-los com as exigências e os valores da sociedade. Seria, assim, a parte da psique que teria como funções a regulação das tendências instintivas (animais) e a comprovação da realidade. O Budismo e o Hinduísmo, por exemplo, pretendem, através da meditação, obter a eliminação do Ego, pois, este, mantendo o ser humano preso às coisas materiais e mundanas, dificultaria a evolução espiritual; já que, impediria a alma de integrar-se ao Todo Espiritual e fazer parte de uma Comunhão Universal. 
       A Evolução, qualquer que seja ela, ocorre sempre dialeticamente. A tese e a antítese, ao conflitarem, provocam a síntese, que já não é mais nem uma nem a outra, porém transformou-se em uma evolução das duas. O eterno conflito entre Vícios e Virtudes, comum aos seres inteligentes encarnados, faz parte do Processo Dialético de Evolução. É da oposição entre ambos que sintetizamos a nossa evolução espiritual. Com a eliminação do Ego, cessando os desejos materiais, a oposição entre vícios e virtudes acaba e teremos, então, atingido ao chamado Nirvana (estado que os Budistas consideram como de libertação suprema, obtido com a extinção dos desejos, da aversão e da ignorância, que conduziria à libertação de todo o sofrimento). Ao atingirmos este estado, seriamos espíritos iluminados, totalmente evoluídos segundo a interpretação budista. 
          A meu juízo, a única razão pela qual o Criador não necessitaria mais evoluir é a de que Ele nunca possuiu contradições; isto é, seria detentor apenas de virtudes (qualidades), não possuindo vícios (defeitos). Portanto, o processo dialético, válido para a evolução das criaturas, não atingiria o Criador, que não necessitaria evoluir.
       Assim, a contradição mencionada anteriormente (evoluir espiritualmente mantendo vivos ou mesmo expandindo os desejos do Ego) pode constituir, no entanto, uma verdade incontroversa. A explicação para tão controversa afirmação é apresentada a continuação: Segundo o Cristianismo, em conformidade com o Livro do Gênesis (I-28), Deus, após a criação do homem e da mulher e abençoando-os, teria dito: - “Sejam férteis e multipliquem-se. Encham e subjuguem a Terra. Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movam na Terra”!
Ora, os espíritos inteligentes e racionais, em conformidade com o que pregam as religiões, encarnam para proporcionar a possibilidade de suas almas evoluírem naquela existência. A existência humana, muito mais do que colaborativa (como, talvez, já possa ter sido em passado remoto), é, na atualidade, concorrencial (os indivíduos concorrem entre si pelos alimentos, pela água, pelos empregos, pelas riquezas ou bens, pelo conhecimento, pela educação, etc. etc. etc.). Tanto é assim que, ao nascer, já trazemos em nosso Ser interior (caráter) os Vícios e as Virtudes que nos permitirão sobreviver e evoluir, dialeticamente, em um planeta inóspito onde os conflitos de interesses são a tônica. Com certeza tudo isto foi antecipadamente pensado e planejado pelo Criador, para que pudéssemos sobreviver às adversidades e aos conflitos humanos e, ainda assim, evoluir espiritualmente.
Individualmente, no mundo atual, os seres humanos podem pautar suas vidas por comportamentos ascéticos que os conduzam a uma rápida evolução espiritual; entretanto, coletivamente isto não é possível. A perpetuação de nossa espécie, a sua conservação e a sua expansão, sempre dependeram, na prática, do espírito empreendedor e de conquista de nossos antepassados, já mencionado anteriormente em Gênesis (I-28) (independentemente de aquela suposta afirmação do Criador ser ou não verdadeira). Este espírito, traduzido na mensagem “Sejam férteis e multipliquem-se. Encham e subjuguem a Terra. Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movam na Terra!”, bem demonstra, da parte de quem escreveu aquele texto, que seria necessária a satisfação dos desejos do Ego, em grande escala, para que a civilização humana pudesse se expandir, progredir e evoluir.
        O Sistema Capitalista, que na atualidade domina a maior parcela dos países do planeta e que tem sido responsável pelo crescimento de suas economias, é baseado no consumo desenfreado. Os países Socialistas e Comunistas, que constituem a outra parcela, também desejam consumir cada vez mais. Este consumo nada mais é do que a subordinação, pela coletividade, dos valores espirituais aos valores materiais. Entretanto, é esta subordinação coletiva que permite ao ser humano poder se dedicar, individualmente, aos aspectos espirituais da existência. Traduzindo: os monges e religiosos em geral (bem como seus templos, mesquitas, igrejas e sinagogas), vivem de esmolas e de doações que arrecadam das suas comunidades, e essas comunidades só podem contribuir para a manutenção e a expansão das religiões na medida em que produzam, consumam e aufiram renda, cada vez em maior quantidade.
       Constata-se, assim, que a evolução espiritual dos indivíduos pode ser coerente com a satisfação dos desejos do Ego coletivo (sem nenhuma contradição), pois é esta que possibilita, em grande parte, aquela.
      A evolução espiritual obtida através das vias religiosa, filosófica e científica, por outro lado, depende também do conhecimento adquirido pelos indivíduos. Para adquirir conhecimento, principalmente nos países capitalistas ocidentais, recursos financeiros se fazem necessários (boas escolas, bons livros, materiais didáticos, recursos de informática, etc.). Assim, o dinheiro que constitui o símbolo máximo do materialismo é requerido, quase sempre, para que se alcance a almejada evolução espiritual. Observe meu caro leitor, como todas as religiões são ávidas por ele...


_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


26. A Raça Humana estará à altura das novas exigências do futuro?

 Jober Rocha*


A marcha com que a destruição meio ambiental caminha, na atualidade, é sem precedentes na história da humanidade. Os seres humanos têm alterado de tal forma a vida no planeta que estão deixando para trás, nos sedimentos e no gelo dos pólos terrestres, uma série de sinais que identificarão, futuramente, para aqueles que eventualmente sobrevivam, a passagem desta nossa atual grande civilização (que alguns cientistas consideram como a quarta ou a quinta grande civilização a ter sua existência neste planeta, desde o início dos tempos). Os sinais que deixaremos são suficientemente diferentes daqueles deixados até então, para justificar o reconhecimento pelas gerações futuras de uma época geológica característica. Esta época que estamos vivendo já foi batizada por alguns cientistas de Antropoceno e teria, segundo eles, se iniciado em meados do século passado. O que a caracterizaria seria o consumo exagerado de determinados materiais, como o alumínio, o concreto, o plástico, o ferro e o aço e também as conseqüências das explosões nucleares e da emissão de gases oriundos da queima de combustíveis fósseis, gases estes que provocaram o Efeito Estufa e suas danosas conseqüências ao meio ambiente terrestre.
        Estas marcas da nossa atual civilização estão, assim, sendo deixadas nos sedimentos da crosta terrestre (excesso de metais, de plásticos, de concreto, rádio-nuclídeos gerados pelas explosões nucleares, partículas de cinza, oriundas da queima de combustíveis, resíduos de pesticidas, de inseticidas e de adubos químicos, lixo inorgânico, etc.). Em razão da degradação ambiental, inúmeras espécies animais e vegetais já foram extintas e outras tantas caminham para tal. As águas de quase todos os rios, lagos, lagoas, mares e oceanos encontram-se poluídas com o lixo urbano e contaminadas com metais pesados, compostos organofosforados, hidrocarbonetos, plásticos, etc. As doenças oriundas de vetores como os insetos e os ratos expandem-se pelo mundo, sem falar naquelas disseminadas por vírus e por bactérias, muitas destas, na atualidade, já resistentes a qualquer tipo de antibióticos. Desastres ambientais, por sua vez, como aquele ocorrido em Mariana, Minas Gerais, aceleram o processo de degradação ambiental e de eliminação de espécies animais e vegetais.
         As guerras por motivação econômica, estratégica, religiosa ou, simplesmente, para a redução da população mundial, se sucedem nos quatro cantos do planeta, ceifando milhões de vítimas entre civis e militares. Milhões de refugiados, fugitivos destas guerras, invadem diversos países europeus em busca de salvação e de sobrevivência, contribuindo para a modificação dos costumes locais e gerando, muitas vezes, ódios por parte daqueles que tiveram o seu dia a dia modificado, para pior, pelos invasores e por suas demandas por habitação, alimentos e empregos.
          A moral e os costumes modificam-se do dia para a noite. O próprio papa, Francisco, reconhece que não há fogo no inferno e que Adão e Eva não são reais, modificando crenças e dogmas milenares no ocidente. Segundo o papa, o inferno seria apenas um artifício literário; isto é, uma metáfora da alma. Assim, para ele, a igreja já não acreditaria em um inferno literal, onde os espíritos sofreriam e padeceriam em razão de seus pecados quando encarnados, coisa incompatível com o infinito amor do Criador. A moral estabelecida pela igreja, em tempos de ateísmo, está sendo substituída pelo Comportamento Politicamente Correto; definido este por critérios ideológicos. As populações crescem a taxas elevadas, esgotando os recursos naturais e fazendo com que surjam teorias conspiratórias afirmando existir, de forma deliberada, por parte da pequena elite mundial que comanda as ações humanas a influenciarem os destinos do planeta, procedimentos vários que objetivariam eliminar este excesso populacional, reduzindo o população mundial para alguma coisa em torno de 6 a 7 bilhões de pessoas.
          Astrofísicos afirmam que existe vida extraterrestre e que algumas raças alienígenas nos visitam, com freqüência, desde há muito tempo. Afirmam, inclusive, que em alguns locais do Cosmos, estas raças poderiam ser de natureza biológica e robótica; já que, civilizações extremamente avançadas poderiam ter se desenvolvido ao ponto de se tornarem máquinas vivas, nas quais a Biologia trabalharia integrada com a Informática, com a Química e com a Mecânica.
        A possibilidade de estarmos sendo visitados, observados e analisados por seres de outros mundos é enorme, haja vista as inúmeras aparições de objetos voadores não identificados pelos céus do nosso planeta, aparições estas comprovadas por radares, fotos, agroglifos (crop circles), filmes e, mesmo, por declarações de autoridades militares e civis. Tais seres, com toda a certeza, estarão muito mais avançados tecnologicamente do que nós. Sabemos que no passado, na época dos descobrimentos terrestres e da colonização de novos territórios, os povos mais atrasados, notadamente da América e da África, foram quase inteiramente dizimados e totalmente espoliados de seus bens, pelos invasores europeus. Populações inteiras foram escravizadas e postas a trabalhar para os conquistadores. Estaria, em pleno século XXI, a raça humana em vias de sofrer um novo processo de colonização, desta vez por outras espécies ou raças planetárias?
        Sendo verdadeira esta possibilidade, nossas autoridades e nossos líderes militares estariam em condições de proporcionar algum tipo de defesa para a proteção das populações ameaçadas? Seríamos capazes de superar uma tentativa de invasão alienígena?
       Caso tivéssemos de passar por uma prova como esta, estaríamos aptos a enfrentá-la através da união de todos os países da Terra? Seríamos capazes, portanto, de superar tudo aquilo que nos afasta e nos desune como espécie, como, por exemplo: as línguas, as raças, as religiões, as ideologias, os sistemas econômicos e políticos? Conseguiríamos, a partir de então, superar o nosso atraso milenar, tanto científico, quanto tecnológico, social, político, etc.? Seremos capazes, no futuro, mesmo que não venhamos a enfrentar ameaças extraterrestres, de refrear a destruição ambiental que até agora promovemos e de recuperar os rios, a fauna e a flora já degradados; ou o nosso destino, como espécie, é o de deixar para trás os planetas que destruímos e partir, eternamente, em busca de novos planetas objetivando colonizá-los e neles, nos estabelecermos para mais uma jornada (o que, parece, pretendemos fazer com Marte já nos próximos anos), como pensam alguns cientistas?
        Encontraremos no futuro novas formas de convivência social, nas quais a maioria das pessoas não seja mais tiranizada e explorada por poucas? Conseguiremos, enfim, nos transformar em senhores de nossos próprios destinos, como humanos, ou estaremos fadados a ser, para sempre, vassalos em uma servidão consentida, vivendo em um planeta degradado e comandados por seres oriundos do espaço ou, mesmo, como até agora tem ocorrido, por outros seres tão humanos quanto nós?

_*/ Economista, M.S. e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.