segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017


135. Qual será a verdadeira História da Humanidade?


Jober Rocha*


                  Creio que todos os leitores já se perguntaram, ao menos uma vez na vida: - Por que será que nada faz sentido? Por que não sabemos quem somos, de onde viemos e para onde vamos?  Dúvidas estas cruciais, que já preocupavam os filósofos gregos.
                 Depois de muito pesquisar acho que cheguei, finalmente, a uma conclusão. Esta nossa ignorância é deliberadamente programada por elites que governam os nossos destinos como habitantes do planeta. Não digo pelos nossos governantes, quaisquer que sejam eles; posto que, são, quase sempre, apenas simples gerentes destas elites; cujos verdadeiros propósitos eles mesmos com certeza, também, desconhecem.
                          A recente eleição nos EUA deixou bem claro isto. Quem poderia imaginar que em um país tão rico, com universidades tão famosas, com pessoas tão cultas, existiriam, apenas, como candidatos à Presidência da República (em substituição ao apagado e totalmente fora do contexto Barack Obama, que parecia, por suas ações e reações, apenas alguém representando mal o seu papel na peça em que o escalaram como ator da vez), dois personagens cuja única coisa que sabiam fazer bem era atacarem-se em público, como se inimigos fossem, e desempenharem, novamente, o mesmo papel de Obama no drama (ou na comédia) representada pelas eleições presidenciais em um país tão desenvolvido.
                     Será que, de tantas pessoas competentes existentes naquele grande país, só restavam aqueles dois como candidatos a presidência? Ao questionar-se a respeito, qualquer leitor inteligente, logo perceberá que existe algo de errado nisto tudo. Por que, apenas, pessoas medíocres (que estão na média, sem nenhuma intenção pejorativa) são escolhidas para função tão importante quanto a de Presidente da República? Certamente, por que não serão eles a conduzirem, com independência e vontade própria, os destinos dos países que governam. Isto não se passa apenas nos países mais desenvolvidos, mas na grande maioria de todos os demais. 
                       Se não bastasse toda uma classe de funcionários do Estado, que detém parcela importante do poder (financeiro, tecnológico, político e militar), mas não o de decidir, verdadeiramente, os caminhos políticos e estratégicos de longo prazo do Estado, sendo meros executores de ordens táticas destas elites anteriormente mencionadas; os Presidentes da República, em que pese a magnificência do cargo, também prestam contas a estas mesmas elites que, nas trevas do anonimato ou escondidas pelo Véu de Maya (aquele que cega os seres humanos com as suas ilusões), lançam os dados ou dão as cartas no jogo mundial da dominação. Quase sempre, por detrás desta prestação de contas subserviente, dos ‘Gerentes’ ou dos ‘Testas de Ferro’, encontram-se o suborno com dinheiro público e privado e a chantagem.
                              Desde a mais remota antiguidade, segundo alguns autores afirmam, estas elites têm representado interesses alienígenas; isto é, de fora do planeta, quer os leitores acreditem, quer não creiam. Não é por outra razão que, de uma maneira geral (como espécie animal que somos), nós adoramos e nos prostramos de joelhos perante supostas divindades que habitariam fora do planeta Terra, em que vivemos. 
                                  Só esta percepção já seria razão suficiente para olharmos com desconfiança os nossos passado e presente. Por que nossas divindades não poderiam residir no centro da Terra? Nas águas dos mares, rios, lagos e lagoas? Nos minerais? Nos vegetais? Nos animais, como acreditavam os antigos egípcios e ainda acreditam os indianos? Em outros planos de existência? Por que a morada delas seria, tradicionalmente, o céu, para os cristãos, os judeus e os islamitas? Certamente, por que de lá teriam vindo em suas máquinas voadoras, com os seus conhecimentos científicos, tecnológicos e espirituais.
                            Estes seres seriam de várias raças e com diferentes agendas para o nosso planeta e para os seres que aqui existiam. Alguns seriam benevolentes e interessados em ajudar-nos em nossa evolução; outros seriam indiferentes e interessados apenas em seus objetivos de raça e de espécie. Outros, ainda, seriam maléficos e interessados em manter-nos em escravidão, impedir nosso desenvolvimento e assenhorear-se de nossos recursos naturais.
                         Isto tudo pode soar como ficção científica, mas constitui-se em um fato incontroverso a passagem destes seres e de suas naves pelo nosso planeta. Figuras pintadas em cavernas e objetos esculpidos em cerâmica, argila, madeira e metal na antiguidade o atestam; da mesma forma como fotos, filmes e registros de radares de solo e de aeronaves o confirmam na atualidade.
                                 Através de um processo de sonegação de informações e de transvaloração de valores (transvaloração esta citada, pela primeira vez, pelo filósofo Friedrich Nietzsche em várias de suas obras), a humanidade tem sido conduzida, como a um rebanho, na direção determinada pelas elites já mencionadas.
                            A Ciência apresenta teorias que tentam justificar e compartimentar o conhecimento humano, retrocedendo a vida humana até uma determinada data. Não menciona, verdadeiramente, a exata idade do homem sobre a face do planeta, nem as diversas civilizações, tecnologicamente desenvolvidas, que já se sucederam e eclipsaram ao longo da existência do planeta. 
                                   Da mesma maneira, em que pesem as evidências deixadas por povos antigos da presença de seres extraterrestres na Terra, pouca importância tem sido atribuída a tais fatos pela Ciência oficial. Granitos talhados pesando dezenas de toneladas, milimetricamente cortados em épocas remotíssimas. Furos cilíndricos de vários diâmetros, perfeitos, atravessando granitos de vários metros de profundidade. Baixos e altos relevos perfeitamente talhados em granito, datados de tempos imemoriais. 
                                       Esqueletos antropomórficos de seres com cinco ou mais metros de altura, descobertos desde o século XIX e cuidadosamente escondidos ou destruídos. Marcas de pés humanos deixados em terrenos na localidade de Mpaluzi, na África do Sul, perto da fronteira com a Suazilândia, e que as eras geológicas transformaram em pegadas impressas na pedra (granito fenocristal ou granito porfiroide) com a idade de 200 milhões a três bilhões de anos. 
                                             Tais formações graníticas ostentam pegadas humanas com cerca de um metro e vinte de comprimento por cinqüenta centímetros de largura e foram descobertas em 1912 por Stoffel Coetzee, mas não tiveram nenhum destaque por parte da Ciência Oficial. Artefatos tecnológicos modernos descobertos em sítios arqueológicos antiqüíssimos e junto com esqueletos ou outras peças ancestrais. Os principais destes objetos, denominados Ooparts, são os seguintes:

1. Pilhas elétricas usadas no antigo Egito e descobertas recentemente;
2. Pilar de aço, enterrado na Alemanha, medindo dois metros e vinte para fora da terra e um metro para baixo, datado de um período da Idade Média, quando o aço ainda não havia sido descoberto;
3. Calculadora analógica mecânica, conhecida como o Mecanismo de Anticitera, datada de dois mil anos; 
4. Brinquedos para crianças, do antigo Egito, com a forma de aviões modernos e datados de um período anterior a Jesus Cristo;
5. Hieróglifos do antigo Egito, com desenhos de naves modernas, de submarinos e de carros de combate;
6. Megalitos em Balbeck, no Líbano, perfeitamente talhados e pesando dezenas de toneladas, cujos guindastes atuais não conseguem elevar do solo;
7. Lâmpadas que produzem luz elétrica, encontradas em Ondera, no Egito, e que datam do tempo dos faraós;
8. Pilar de ferro medindo sete metros, encontrado em Delhi, na Índia, datado de 400 anos antes de cristo e feito de ferro forjado com 98% de pureza;
9. Linhas de Nazca, no Peru, com figuras em grande escala, impossíveis de serem traçadas sem apoio aéreo, e que datam do ano de 400 d.C.;
10. Bateria descoberta em Bagdá, no Iraque, datada de 250 a.C e que produzia eletricidade.
11. O Mapa de Piri Reis, que foi o primeiro mapa conhecido que mostra a costa ocidental de Europa, o norte da África, a costa do Brasil, a borda leste da América do Sul, além de várias ilhas do Atlântico e a Antártica. As latitudes e as longitudes do mapa estão marcadas corretamente. Relativamente a conformação das regiões polares, o mapa retrata como elas eram, há dez mil anos antes da data atribuída ao mapa, isto é 1513. Da mesma forma muitos estudiosos afirmam que, sem uma visão da Terra vista do espaço, seria impossível construir aquele mapa naquela época. 
12. Em 1973, perto de Aiud, na Romênia, escavadores descobriram em um mesmo local, três objetos.  Dois deles eram ossos de mastodontes pré-históricos e o terceiro uma peça de metal de vinte centímetros de comprimento, doze centímetros e meio e largura e sete centímetros de profundidade. A posterior análise datou-o como sendo de 250 mil anos e a peça fazia parte de um sistema mecânico complexo. Possuía doze tipos de metais diferentes, sendo que noventa por cento dele era composto por alumínio, metal este que só nos últimos 200 anos os seres humanos conseguiram obter e trabalhar com ele.

                          A Religião, por sua vez, com os seus dogmas e as suas revelações, tenta fazer com que a credulidade e o misticismo, característicos das criaturas humanas, aflorem e dominem a razão, também esta uma característica das mesmas criaturas. A razão, em alguns humanos, acaba vencendo a credulidade e o misticismo nesta contenda milenar; mas, na grande maioria das vezes, ela se torna perdedora. Basta ver que o número de seres humanos que professam algum tipo de religião é bem maior do que aqueles que não professam.
                           Quem já leu a Fábula da Caverna, de Platão, sabe que a nossa percepção da realidade é totalmente limitada e condicionada, em razão da situação e do local em que nos encontremos. 
                             Quem já estudou Nietzsche sabe qual é a Genealogia da Moral; isto é, como ela surge ou como sofreu transvalorações ao longo da história humana. Transvaloração ou tresvaloração, segundo o filósofo, significa atribuir um novo sentido a uma velha qualidade (quer seja um vício ou uma virtude). Neste particular, os fracos, pela transvaloração transformar-se-iam nos justos que odiariam as injustiças. A impotência transformar-se-ia no mérito e na bondade, a baixeza passaria a ser a humildade e a covardia considerada paciência.                            O moderno termo ‘Comportamento Politicamente Correto’, busca esta transvaloração apontada por Nietzsche. Sem medo de ser considerado adepto da Teoria da Conspiração (que já deixou de ser teoria para aqueles que já deixaram o rebanho), por detrás destas transvalorações, que periodicamente ocorrem na história da Humanidade, estão sempre as elites subterrâneas que, como as Moiras ou as Parcas, puxam os cordéis do destino da humanidade.
                               Evidentemente, somos aquilo que aprendemos. E só aprendemos, de uma maneira geral e extensiva às massas, aquilo que se constitui na verdade oficial divulgada pelo Estado. Esta verdade (é essa a principal tese deste texto) tem sido escamoteada, falseada e escondida, com a finalidade de não permitir que conheçamos, jamais, quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos; questionamentos tão importantes que já eram alvo da preocupação dos antigos filósofos gregos. 
                            Noam Chonsky, filósofo e cientista cognitivo, professor do MIT – Massachusetts Institute of Technology, é grande estudioso sobre os meios de comunicação de massa e de seu papel no apoio aos interesses das grandes empresas e de seus controladores, sendo, junto com Edward S. Herman, criador da Teoria da propaganda de Chomsky e Herman.
                                   Para ele, o Capitalismo nada mais é do que um Mercantilismo corporativo, controlado por empresas ajustadas com governos, que sempre intervêm a favor do capital, apesar da fantasia do livre mercado (inexistente, diz ele, nos Estados Unidos e em todas as partes do mundo), e que exercem controle sobre a Economia, a Política, a Sociedade e a Cultura. 
                              A verdade (como vêm e como já disse alguém) é libertadora dos indivíduos; razão pela qual, ela tem sido mantida escondida da quase totalidade dos seres humanos.
                               Por outro lado, todos nós sabemos da existência de sociedades secretas, que possuem objetivos exotéricos e esotéricos. Os primeiros são aqueles divulgados para o público, de uma maneira geral, e os segundos mencionados apenas para os seus membros, de uma maneira particular. Neste segundo objetivo, uns poucos dirigentes, ademais, teriam acesso a informações e objetivos não divulgados para os demais. O exoterísmo é conhecido, na vida militar e policial, como ‘História de Cobertura’. 
                                Quaisquer que sejam as Religiões, as Ideologias, as Filosofias e as Ciências, todas possuem (da mesma forma que essas sociedades secretas) determinadas proposições que as justificam a luz da moral e dos bons costumes; todavia, ademais destas denominadas ‘Histórias de Cobertura’, possuem, também, objetivos ideológicos e interesses de grupos, quase sempre inconfessáveis, que passam despercebidos da maioria dos seus adeptos e do público em geral. Existiria, assim, uma História real da humanidade e outra fictícia. A primeira guardada para muito poucos, e a segunda divulgada oficialmente para as massas humanas.
                              Se tais sociedades secretas existiram no passado ou ainda existem na atualidade comprovadamente (e, apenas, para citar algumas delas: Bilderberg; Ordo Templi Orientis; A Mão Negra; A Ordem dos Assassinos; Sociedade Teosófica; Os cavaleiros do Círculo Dourado; Sociedade Thule; Skull and Bones; Maçonaria e Illuminati); com certeza, alguma outra, bem mais oculta e bem mais poderosa existirá evidentemente.
                                       Alguns pesquisadores acreditam que esta última, bem mais poderosa, seja formada por seres alienígenas; os primeiros seres com inteligência superior a pisarem o solo do planeta, e criadores ou modificadores da raça humana, mediante trabalhos de manipulação genética. Os Deuses que nos criaram, segundo a tradição de muitos povos antigos, poderiam ser estes seres alienígenas (como hoje em dia, dado o estágio de desenvolvimento das Ciências, em escala menor e mais limitada, os nossos próprios cientistas já fazem, com algumas espécies animais, criadas ou modificadas em laboratórios).
                                         Talvez em um passado distante estes seres das sombras vivessem ao sol, isto é, fossem conhecidos e vivessem em contato com os seres humanos. Por alguma razão, até então, desconhecida, poderão ter partido para a clandestinidade, mantendo, ainda, o controle sobre a nossa espécie, através de prepostos. Sabe-se que a servidão consentida é preferível a escravidão imposta. A segunda delas, portanto, é fonte de revoltas e de tentativas de libertação; mas a do primeiro tipo, como não é percebida, torna-se aceita pelo ser humano de maneira pacifica. Quem sabe se não foi este fato que fez com que os nossos verdadeiros senhores se tornassem ocultos, deixando prepostos da nossa própria raça em seus lugares?
                                   Alguns afirmam que, da mesma forma que as antigas descobertas dos colonizadores europeus foram motivadas por interesses de ordem econômica e estratégica, os interesses de alguns dos alienígenas que nos visitam, também, podem ser os mesmos; como, certamente, serão os nossos interesses quando e se pudermos, futuramente, encetar viagens pelo Universo.
                                 Finalizando, estou convencido de que a verdadeira História da Humanidade jamais será encontrada nos livros de História e, talvez, jamais venha a ser conhecida; a não ser que um fator superveniente, algum dia, obrigue aqueles poucos que a conhecem a revelar tudo o que sabem...

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017


134. O Analista de Curtidas, Comentários e Compartilhamentos no Facebook

Jober Rocha*


            Após cerca de quarenta anos trabalhando como analista em uma agência de pesquisas de opinião, de propaganda e de marketing, ele, já aposentado e para manter-se em forma intelectualmente, afastando-se, assim, do Mal de Alzheimer (enfermidade comum às pessoas da sua família), resolvera dedicar-se à análise e a interpretação das curtidas, comentários e compartilhamentos de seus amigos virtuais, no Facebook (FB), e também dos amigos dos seus amigos. 
               Achava que com isto poderia descobrir, antecipadamente, alguma tendência psicossocial nascente; antecipar-se a possíveis revoltas e revoluções, em andamento; perceber mudanças no comportamento moral da sociedade brasileira; identificar novas ideologias sendo implantadas sub-repticiamente no país; constatar a morte de antigas religiões ou o desabrochar de novas seitas; etc. etc. etc.
                Na realidade ele não saberia o que fazer, na prática, com o resultado das suas eventuais descobertas; mas, a preocupação maior que tinha, conforme já dito, era com a manutenção da saúde mental, evitando alguma doença que fosse fruto da ociosidade intelectual.
                      Dando início ao seu novo projeto de vida, começou, então, por pertencer ao maior número possível de grupos no FB e tentar obter a maior quantidade de amigos virtuais que se dispusessem a aceitá-lo como tal. 
                Feito isto, procurava, diuturnamente, alimentar os grupos a que pertencia com matérias polêmicas, que originassem inúmeros comentários, curtidas e compartilhamentos; os quais, ele, meticulosamente, catalogava, classificava e analisava estatisticamente, calculando a média, a moda, a mediana, a variância e o desvio padrão. 
                     Em grupos ideológicos de direita ele postava matérias de esquerda, e vice-versa. Em grupos religiosos, divulgava textos ateus, e, em grupos ateus, matérias religiosas. Uma hora ele defendia o governo e em outra o atacava. Era contra e a favor da corrupção, contra e a favor do aborto. Homofóbico algumas vezes, defensor dos Movimentos GLBT em outras ocasiões. A favor da civilização em diversas oportunidades, e da barbárie logo em seguida. A polêmica era o seu objetivo e as discussões que se seguiam (por vezes acaloradas) o seu campo de pesquisas.
                   Suas matérias e comentários eram alvo da apreciação de muitos internautas e da total execração de inúmeros outros. Ele coletava, sistematicamente, todas as respostas às suas matérias; respostas estas em que buscava significados ocultos nas entrelinhas, além de correlacionar as mesmas com a alta do dólar, a queda na bolsa e a variação na taxa de juros.
                 Em pouco tempo o local do seu escritório, na residência, tornou-se pequeno para guardar tanta informação acumulada e ele passou a ocupar, também, um dos outros quartos do apartamento em que morava, no centro da cidade.
                   Parte substancial do seu salário de aposentado passou a ser gasta com folhas de papel A4 e com cartuchos de tinta da pequena impressora. Os relatórios e gráficos eram produzidos diariamente, e em enormes quantidades, correlacionando nomes de pessoas com posições ideológicas, religiosas, filosóficas e comportamentais. As paredes da casa eram cobertas por papéis contendo gráficos em barra, em setores, histogramas, etc.
                   Em breve, as matérias polêmicas que postava passaram a ser alvo da observação acurada das agências governamentais de inteligência; dos movimentos revolucionários extremistas radicais, instalados no país e no exterior; e dos fundamentalistas religiosos, notadamente os islâmicos. Mais um pouco e os seus passos passaram a ser seguidos e vigiados, bem de perto, por uma gama enorme de indivíduos desejosos de expulsar seu corpo físico definitivamente do nosso planeta e a sua alma desta dimensão, despachando-a para outros planos de existência. 
                     Uns achavam que ele constituía uma ameaça potencial à democracia; outros que ele era uma ameaça real à ditadura do proletariado; outros, ainda, imaginavam que ele ameaçava a volta da monarquia e dos regimes autocráticos; alguns achavam que ele as incentivava. 
                       Religiosos o julgavam o próprio anticristo ou, no mínimo, um integrante graduado das hordas de Satanás. Ateus o viam como um fanático religioso, discípulo e seguidor de Antônio Conselheiro, líder da comunidade de Canudos, na Bahia, ou de James Warren ‘Jim’ Jones, fundador e líder do grupo ‘Templo dos Povos’, que se suicidou com todos os seus seguidores em Jonestown, na Guiana.
                        Alguns dos grupos a que ele se vinculara no FB, passaram, a partir de então, a exigir a aprovação prévia, por qualquer dos responsáveis pelo grupo, de todas as matérias postadas. Assim, sempre que recebiam algum texto dele, simplesmente, negavam logo a sua divulgação, sem a necessidade de maiores explicações, prévias ou posteriores.
                         Diversos amigos virtuais deixaram de seguir o seu nome ou passaram a ocultar as publicações dele, na página inicial do FB. Em pouco tempo, ele, um ilustre desconhecido perdido na multidão dos internautas, passou a ser monitorado por diversas entidades secretas, nacionais e internacionais. Sua vida esteve por um fio em inúmeras ocasiões, sendo ele, milagrosamente, salvo das mãos dos carrascos, exclusivamente, pela graça da Providência Divina.
                          Enquanto isto, as suas análises estatísticas prosseguiam. Chegou a descobrir uma alta correlação positiva entre o aparecimento, no FB, de notícias sobre a presença de naves alienígenas nos céus do país e as prisões de políticos brasileiros no âmbito da operação Lava a Jato. Isto o levou a concluir que seres extraterrestres, capturados em nosso território, em razão da alta tecnologia de que dispunham para ler as mentes e chegar aos pensamentos de políticos e empresários, estariam colaborando com a Justiça Brasileira para a análise da veracidade das delações premiadas dos envolvidos; objetivando, com isto, cair nas boas graças das nossas autoridades e facilitar as suas próprias liberações de volta ao espaço sideral de onde vieram. Ele chegou, mesmo, a preparar uma matéria a este respeito e divulgá-la em um dos grupos do FB, que tratava de assuntos relacionados com UFO’s e outros casos insólitos.
                          Em uma análise que fez encontrou correlação inversa entre o montante roubado dos cofres públicos brasileiros, pelos políticos e empresários corruptos, e a taxa de mortalidade no Zimbabwe, país da África austral anteriormente conhecido como Rodésia do Sul. Quanto mais se roubava aqui, ao longo dos anos, mais a mortalidade decrescia naquele país africano. Isto o levou a concluir que nem tudo estava perdido; já que, alguma coisa de bom resultara do roubo escancarado praticado contra o nosso erário público. Talvez, com a divulgação, na Mídia, daquele resultado que obtivera em suas análises, os políticos e empresários brasileiros envolvidos na Lava a Jato acabassem, até, por vir a receber medalhas e comendas da ONU e daquele país africano, como causadores que teriam sido (através de suas ações criminosas, ao longo dos anos) de uma maior longevidade da população do Zimbabwe.
                         Alcançou inúmeras e inéditas conclusões, ao correlacionar a mortandade de peixes nas lagoas brasileiras, com a quantidade de bombas lançadas pela coalizão no Iraque e com os preços do cacau na bolsa de Nova Iorque. Passava os dias, as tardes e as noites redigindo textos em que analisava as correlações que descobria entre as mais diversas variáveis, e as implicações políticas, econômicas, militares e psicossociais destas relações mútuas de dependência que detectava. 
                              Certo dia concluiu que o fim do mundo estava próximo, pois encontrara uma relação direta de dependência (uma correlação positiva) entre a queda de meteoros na superfície da Lua e a extinção de diversas espécies animais e vegetais em nosso planeta. Como a queda de meteoros naquele satélite natural aumentava a cada dia, supôs que todas as espécies logo se extinguiriam em nosso planeta. A partir desta conclusão, vendeu tudo o que tinha, encerrou a sua participação em todos os grupos do FB, desfez todas as amizades virtuais e desapareceu.
                           Um amigo de infância dele, em viagem de férias pelo sertão da Paraíba, afirmou ter visto um tipo muito parecido trajando bata branca encardida e suja de pó, portando um cajado e vasta cabeleira branca, além de comprida barba emaranhada, seguido por meia dúzia de adeptos andrajosos que entoavam cânticos religiosos, enquanto ele, vociferando, lançava pragas e maldições à tecnologia da Informática e a sua disseminação através das redes sociais...

-*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

133. Um dia e uma noite na velha Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, RJ.


Jober Rocha*



                      Poucas pessoas terão tido a oportunidade, única, de passar pela experiência de desfrutar, durante um dia e uma noite, a rotina da antiga Escola de Aeronáutica, (Organização Militar que ministrava o Curso de Formação dos Oficiais Aviadores da Força Aérea Brasileira), situada no Campo dos Afonsos, no subúrbio de Marechal Hermes desde o ano de 1941 até o ano de 1971. 
                      Eu passei por aquela escola no ano de 1964; ou seja, quarenta e três anos após a criação, naquele local, do Aeroclube do Brasil em 1911, primeira atividade ligada à aviação ali exercida. Pouco depois, em 1914 foi criada no local a Escola Brasileira de Aviação. Em 1919 passou a ser Escola de Aviação Militar; em 1939 transformou-se no Primeiro Regimento de Aviação; em 1941, com a criação naquele mesmo ano da Força Aérea Brasileira, transformou-se na Base Aérea dos Afonsos. Na ocasião, foi ali extinta a Escola de Aviação Militar e, em seu lugar, criada a Escola de Aeronáutica, cujos alunos passaram a ser designados Cadetes da Aeronáutica.
                    Assim, a minha turma, em 1964, terá sido a vigésima terceira a passar por aquela organização com o objetivo de alcançar o oficialato da Aeronáutica. A partir de 1971 o CFOAv passou a ser integralmente ministrado na Academia da Força Aérea, na cidade de Pirassununga, no Estado de São Paulo. Estou certo de que a vivência que tive, na velha escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, terá sido a mesma, ou muito semelhante, daquelas de quantos cadetes por ali estiveram, antes e depois da minha passagem por aquela escola.
                          Em 28 de fevereiro de 1964, junto com os demais integrantes da ‘Turma Sai da Reta’, vindos da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, de Barbacena, além de novos candidatos que haviam feito concurso diretamente para a Escola de Aeronáutica; bem como, de militares bolivianos e paraguaios (participantes de um acordo entre o Brasil e aqueles dois países, para o treinamento de pilotos militares), fui matriculado no primeiro ano do Curso de Formação de Oficiais Aviadores e incluído no efetivo da Escola de Aeronáutica e do Corpo de Cadetes da Aeronáutica.
                            Na Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, cujo comandante na ocasião era o Brigadeiro do Ar Antônio Raymundo Pires, pela primeira vez tomei contato, realmente, com a aviação militar. 
                         O Campo dos Afonsos possuía uma mística que a todos contagiava. Parte da Intentona Comunista, de 1935, havia se desenrolado ali; como também no quartel do Terceiro Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha, com muitas vitimas fatais, vários militares feridos e inúmeros prisioneiros. 
                           Os integrantes do Primeiro grupo de Caça, que combateram nos céus da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, dali haviam partido, alguns deles para nunca mais voltarem.
                          Inúmeros aviadores famosos, no Brasil e no Mundo, haviam transitado por suas edificações e hangares e em suas pistas pousado e decolado. Charles Astor, um dos primeiros pára-quedistas do país, que, ademais disto, efetuava malabarismos nas asas de aviões em vôo, vivia no Campo dos Afonsos. 
                            Foi, portanto, com muito respeito pelo quanto de história aquela Organização Militar encerrava, que passei pelos portões da Escola de Aeronáutica para iniciar mais uma etapa da vida militar rumo ao meu destino.
                                 Ali, como cadetes aviadores do primeiro ano do CFOAv, passamos a ter instruções na aeronave ‘Fokker’ T-21.
                             As instruções do primeiro ano (Estágio Primário) consistiam em decolagem, subidas e descidas, curvas de pequena, média e grande inclinação, estol com e sem motor, parafuso, pane simulada, pouso e arremetida. 
                                 Após havermos solado (voado sozinho sem instrutor), treinávamos ‘glissada’, oito sobre marcos, oito preguiçoso e algumas outras manobras.
                            Nosso Comandante de Esquadrilha chamava-se capitão Ozolins e o Sub-Comandante Tenente Mello. Em determinada ocasião o capitão Ozolins foi substituído pelo tenente Walmik Conde Filho. Alguns dos instrutores do Estágio Primário eram os tenentes: Mayron, Gouveia, Fabio, Nogueira, Barroso, Reginaldo, Gilson, Belchior e Rego. Alguns dos capitães ‘checadores’ eram: Perlingeiro, Neves, Luiz Rosa, Lobo, Mario Martins, Aquino e Azevedo. 
                              Possuíamos excelente quadro de professores, dentre eles, destacando-se: Vilaboim, Paulino Jaques, General Armando, Miss Carney, Miss Farney e Baratta.
                            A comida na Escola de Aeronáutica era considerada, pelos cadetes, como de boa qualidade. O café da manhã era iniciado com um mingau de aveia ou de sagu, seguido de bife e ovos, uma fruta (maçã ou banana) e café com leite e pão com manteiga.
                             Pela manhã, após o café, nos dirigíamos marchando para o hangar do Estágio Primário, o último dos hangares, ao final do pátio de estacionamento das aeronaves, onde hoje está instalado o Museu Aeroespacial. Marchávamos por cerca de trezentos metros, passando pelos outros estágios (Secundário e Avançado).  O pátio e os hangares fervilhavam de mecânicos, oficiais, sargentos, cadetes e, sobretudo, de aeronaves. O ronco de tantos motores, ao mesmo tempo, era algo ensurdecedor. O vento produzido por tantas hélices, girando, fazia voar longe nossos bonés, enquanto marchávamos sob um sol forte e um céu azul.
                                Chegando, finalmente, ao hangar do Estagio Primário, tomávamos conhecimento dos nomes dos primeiros cadetes a voarem. Os demais aguardariam o retorno dos primeiros. Os instrutores (todos eles tenentes) indicavam as missões do dia e, até o dia do vôo solo, eram nossos companheiros constantes na cabine dos aviões. No hangar havia um quadro com várias placas de metal contendo os números das aeronaves. Ao sair com uma aeronave tínhamos que virar a placa do lado contrário, para que os demais soubessem que aquela aeronave não estava mais disponível no pátio de estacionamento. Em seguida, apanhávamos o pára-quedas e as almofadas de assento e nos dirigíamos para o avião estacionado no pátio.
                              Ao chegarmos junto do avião, subíamos na asa esquerda, abríamos à capota e colocávamos as almofadas e o pára-quedas, no assento do piloto. Descíamos da asa e procedíamos ao cheque externo do avião, que consistia em vistoriar toda a estrutura externa da aeronave, drenar os tanques de combustível das asas e retirar a capa do ‘Tubo de Pitot’, tubo este que permite a indicação da velocidade do avião. Subíamos novamente na asa, vestíamos o pára-quedas, arrumávamos as almofadas, sentávamos e amarrávamos o cinto de segurança. 
                                 Às vezes a aeronave necessitava de um apoio externo para dar a partida, o que era feito por um sargento com um gerador de energia portátil. Dada a partida, taxiávamos em direção a cabeceira da pista em que iríamos decolar. A pista de decolagem era determinada pelo movimento da ‘Biruta’; pois decolávamos e pousávamos, sempre, contra o sentido do vento. Às vezes, ainda no meio do caminho, tínhamos de nos dirigir para outra pista, em razão da mudança do vento. Em lá chegando, parávamos a quarenta e cinco graus com a pista e procedíamos ao cheque interno, que consistia, dentre outros procedimentos, em verificar o comportamento dos diferentes relógios indicadores no painel de instrumentos. 
                                Se estivesse tudo certo, deveríamos olhar para a Torre de Controle, a fim de esperar o sinal verde da lanterna para a decolagem ou, então, caso algum dos instrumentos apresentasse defeito ou recebêssemos sinal vermelho, retornar para o estacionamento no Estágio Primário.  Esta etapa, entretanto, apenas poucos de nós fazíamos; pois, além de estarmos sobrecarregados com o cheque interno e nos esquecermos de olhar para a torre de controle, achávamos que aquela pista era inteiramente nossa, já que havíamos chegado ali primeiro.
                                O número de horas de voo com que o cadete, normalmente, solava (voava sozinho) variava de onze a quatorze horas. Durante a manhã e a tarde, dezenas de pequenos aviões T-21 eram vistos subindo, descendo e tirando rasantes nas áreas de treinamento e sobre o Campo dos Afonsos.
                                  Nosso uniforme de voo consistia em um macacão azul escuro e botas pretas. Quando não estávamos voando eles ficavam pendurados em cabides, do lado de fora dos alojamentos, talvez pelo odor que desprendiam; já que só eram lavados uma vez por mês, no máximo.
                                Tive dois instrutores até o dia do voo solo, o primeiro deles foi o Tenente Belchior e o segundo o Tenente Rego. Ao ser levado a cheque, para o voo solo, eu possuía doze horas de voo e havia realizado quarenta pousos e decolagens.
                            O local de treinamento era a região da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes que, naquela ocasião, eram áreas praticamente desertas. Decolávamos de Marechal Hermes e nos dirigíamos para aquela região, voando visual. O Campo dos Afonsos possuía uma pista de concreto e, ao lado, em paralelo, uma pista de grama que utilizávamos para os nossos pousos e decolagens. Denominava-se 08 em um sentido, e 26 no sentido oposto. Era cortada por outra pista de grama, perpendicular, denominada 17 em um sentido e 35 no outro. Havia também uma biruta, marcando a direção do vento, que avistávamos do céu ao fazer o procedimento para o pouso.
                                  Quando eu voava solo, gostava de passar baixo por sobre as areias da praia, quase sempre desertas, e por sobre o mar, embora soubesse que se algum oficial, voando por ali, me avistasse, eu seria infalivelmente punido ou, até mesmo, desligado. 
                               Nas ocasiões em que treinávamos pane simulada, deveríamos, após cortar o motor, escolher um local para pousar, fixarmo-nos nele e fazer, planando, a aproximação para o pouso. Se víssemos que iríamos cair antes ou depois, do local escolhido, arremetíamos a aeronave com a certeza de que, se aquela fosse uma pane verdadeira, teríamos certamente nos ‘estrepado’.
                        No dia do primeiro voo solo o oficial ‘checador’, sempre um capitão aviador, informado pelo instrutor de que o cadete estava apto para voar sozinho, efetuava, com este, um voo até a área de instrução para confirmar suas condições de pilotagem e o seu nível de treinamento. Ao regressarem, após o pouso, caso o cadete estivesse aprovado, o ‘checador’ desejava-lhe boa sorte e o autorizava a decolar sozinho para o circuito do campo e o pouso.
                               A sensação experimentada, então, por cada um de nós, era um mistura de satisfação e de receio. Pela primeira vez estávamos voando inteiramente por nossa conta. Qualquer erro, porém, teria que ser remediado, exclusivamente, por nós mesmos.
                           Após regressar deste voo o cadete, já solo, era atirado pelos demais companheiros em um pequeno lago, denominado ‘Lago do Lachê’, como batismo pelo fato de ter voado sozinho.
                              Em meados do ano era dado início aos preparativos para o salto de pára-quedas, que todos os cadetes do primeiro ano eram obrigados a fazer. Os treinamentos eram ministrados na Brigada Paraquedísta, na Vila Militar, próxima do Campo dos Afonsos, e o salto era dado de uma aeronave C-82 (conhecida como Vagão Voador).
                          Quem nunca saltou, não pode avaliar o que representava para aquele que o pratica, um salto de pára-quedas. Antes do salto todos temiam a não abertura do pára-quedas; tanto é assim, que, obrigatoriamente carrega-se outro, de reserva, preso ao peito. 
                          Nos instantes que antecedem ao pulo, pensamentos negativos ocorrem a todos aqueles que saltam pela primeira vez. Todavia, vencido o temor inicial de colocar a vida em risco, a euforia desfrutada com a abertura do pára-quedas, a visão da terra, do horizonte e do firmamento, descortinada durante a queda, é algo indescritível.  Tão logo se chega ao solo, se quer de novo saltar.
                            No segundo ano (Estágio Básico) o cadete aprendia acrobacias (tounneaux, looping, over head, curva de himmelman, etc.) e voo em grupo ou formatura, ainda voando o ‘Fokker’ T-21.
                       No terceiro ano (Estágio Avançado) o treinamento que o cadete recebia, na nova aeronave North-American T-6 Texan, era a de repetir o treinamento aprendido com o T-21 e, ademais, iniciar o voo avançado (voo por instrumentos, voo noturno, navegação aérea e treinamento de voo simulado - Link Trainer). 
                             Terminando o curso e tendo sido declarado Aspirante a Oficial Aviador, o militar era enviado para realizar o Estágio de Seleção de Pilotos de Caça, na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará, ou de pilotos de bombardeio, em Natal, no Rio Grande do Norte.
                 Mas, voltando ao dia a dia do cadete aviador, o ambiente em que vivíamos era integralmente preenchido por inúmeras atividades que, sucedendo-se umas as outras, deixavam-nos completamente cansados ao final ao cair da noite.
                          Durante o dia, um forte odor de gasolina misturava-se ao cheiro das essências nativas, oriundas das espécies vegetais que existiam naquele campo. Inúmeros pássaros disputavam com as aeronaves militares a primazia do espaço; seus pios sendo sobrepujados pelos roncos dos motores dos aviões que saiam ou que chegavam.
                            Em cada canto, em cada alameda, em cada edifício, qualquer médium ou sensitivo poderia perceber espíritos de antigos aviadores que por ali haviam passado, contemplando, com seus velhos macacões de voo e suas toucas de couro, os novos cadetes que chegavam a cada ano, e que ali aprendiam os ‘macetes’ para sobreviver em uma profissão tão perigosa quanto a de aviador militar. 
                             A escola possuía um monumento ao Cadete Imortal, isto é, um monumento àqueles jovens que haviam perdido as suas vidas em acidentes aeronáuticos. Nele, constavam os nomes de dezenas de cadetes que haviam oferecido as suas breves existências em prol do ideal da aviação.
                          Finda as atividades diárias, e antes de mergulhar em um sono reparador, eu costumava caminhar até os hangares, onde estavam estacionadas as aeronaves, para um derradeiro voto de boa noite àquelas velhas amigas que nos mantinham nos ares, dia e noite, e que sempre nos traziam de volta, incólumes, até a nossa querida Escola de Aeronáutica. Algumas delas ainda despendiam calor de seus motores. Alguns cadetes e instrutores preparavam-se para os vôos noturnos que se iniciariam.
                        No céu de Marechal Hermes, uma lua prateada derramava seus raios sobre as aeronaves e sobre as pistas de pouso e decolagem. Um vento frio soprava de quando em vez, fazendo com que eu levantasse a gola da japona. Em uma destas ocasiões pareceu-me divisar, no circuito de tráfego da pista, uma aeronave que se aproximava para o pouso.
                               Firmando os olhos pude perceber um antigo P-47, daqueles que combateram nos céus da Itália, já na reta final, aproximando-se da pista de cimento. Aquela aeronave já não era mais usada na Força Aérea Brasileira e só existiam algumas poucas, inoperantes e tratadas como relíquias em algumas Bases Aéreas.
                            A aeronave tocou o solo e, logo em seguida, arremeteu em direção ao espaço de onde tinha vindo sumindo de vista em poucos segundos.
- Quem seria o seu piloto? – pensei com os meus botões.
- De onde viera e para onde iria? – continuei pensando.
                              Um calafrio percorreu-me o corpo todo e resolvi retornar para o alojamento, onde uma cama amiga me esperava. O meu dia havia terminado e, como sempre, esperava por uma noite agradável e sem mosquitos. Felizmente eu não tinha voo noturno e nem estava de serviço, o que me assegurava uma noite de sono ininterrupta até a manhã seguinte.

-*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017


132. Como sobreviver em um mundo de mentiras?**


Jober Rocha*


                        Recentemente o Facebook anunciou a introdução de novas medidas para combater a circulação de notícias falsas, principalmente na Alemanha.
                         É fato notório que partidos políticos e empresas ou organizações privadas (através da Mídia, de agências de marketing e de institutos de pesquisas de opinião); bem como os governos (por intermédio da Mídia e de suas agências de informação e de contra-informação) veiculam notícias falsas para alcançar os objetivos de influenciar eleitores, consumidores, contribuintes e cidadãos de uma maneira geral.
                     O Facebook pretende agora, isoladamente e por iniciativa própria, segundo divulgou, implantar um sistema que permita aos usuários marcarem notícias suspeitas; bem como, exibirá avisos junto às matérias identificadas como falsas, por organizações independentes de verificação de tais fatos, além de cortar a publicidade de sites que divulguem notícias falsas, embora se apresentem como organizações verdadeiras.
                           Muitas agências de notícias, em todo o mundo, permitem que a desinformação se propague por seus intermédios, sem nenhum controle, fazendo com que, algumas vezes, as notícias se tornem virais e influenciem o pensamento e o comportamento das populações.
                       Penso que esta falta de controle nas notícias diárias, sobre aquilo que é falso ou mentiroso, constitui o grande dilema que se coloca para a humanidade na era da informática digital global em que vivemos. Talvez as nossas leis devessem considerar como crimes a criação, a divulgação e a propagação de qualquer notícia falsa, através dos meios de comunicação (como já ocorre com a propaganda enganosa), tantos e tão graves são os malefícios que podem advir da propagação de falsas notícias e de informações mentirosas. Todavia, como fazer para separar a verdade da mentira? Esta é a grande questão que se impõe nos dias atuais.
                        Vivendo em um mundo de falsidades e sem termos, muitas vezes, como percebê-las em nosso dia a dia, corremos o risco de estar, na realidade, inseridos para sempre em uma Matrix, como aquela descrita no filme do mesmo nome. 
                        No filme o personagem Neo, pergunta ao personagem Morfeu, em um diálogo mais ou menos como o seguinte: 
- O que é Matrix?
                       Morfeu responde: - Matrix está em toda parte; é o mundo que acreditamos ser real, para que não percebamos a verdade!
- Que verdade? - pergunta Neo.
                 Morfeu responde: - A de que nós somos escravos. Como todos os demais seres humanos você, igual a mim, também, nasceu em cativeiro; isto é, nasceu em uma prisão da qual não se dá conta por ser a sua própria mente que está aprisionada!
                Assim, podemos estar presos a um Sistema de Organização Política, Social e Econômica que, constantemente alimentado por mentiras, nos sujeitariam a um modo particular de ver, de entender e de viver, diariamente, as relações sociais em que estamos inseridos. Viveríamos desta forma em uma servidão consentida e da qual, por dela não nos darmos conta, jamais pensaríamos em nos libertar.
                   Tal servidão seria alimentada por realidades fantasiosas ou falsas, de ordem religiosa, ideológica, filosófica, política, econômica, militar e psicossocial, que se sobreporiam a nossa capacidade de perceber a verdadeira realidade; notadamente por serem veiculadas, de forma constante, por todas as Mídias e de maneira planejada, segundo objetivos definidos. Não é por outra razão que, em determinadas ocasiões, todos os meios de divulgação mundiais passam a falar uma mesma linguagem, isto é, a pregar determinadas idéias em todos os países; bem como, governos de nações distintas passam a adotar procedimentos idênticos e a promulgar leis semelhantes (por exemplo: a divulgação mundial da chamada ideologia de gênero – que é na realidade uma falácia - e a promulgação de leis autorizando os casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, visando, ambas, a um controle mundial da natalidade; bem como, a divulgação de notícias tendentes a cooptar as populações mundiais para permitirem o implante subcutâneo, em seus corpos, de um chip com o suposto objetivo de beneficiá-las com facilidades e maior apoio dos serviços de saúde governamentais).
                     Por outro lado, nos países do Terceiro Mundo, a maior parte das notícias veiculadas pela imprensa falada, escrita e televisionada, diariamente, versa sobre assuntos irrelevantes para o desenvolvimento sócio-econômico destes países, como, por exemplo, propagandas de produtos ou serviços, esportes, novelas, mexericos e religião. Os espaços destinados às notícias de cunho econômico, científico, filosófico e político são mínimos e, quase sempre, de caráter tendencioso buscando influenciar o público. Nota-se, ademais, uma intenção deliberada de manter as populações destes países alheias das grandes decisões nacionais e mundiais; bem como, inteiramente massificadas por informações irrelevantes, que visam a aliená-las com respeito a estas decisões já mencionadas. A Mídia atual não está mais interessada nos aspectos jornalísticos das notícias, tendo-se transformado em verdadeiros lobbies que vendem seus serviços para aqueles que melhor pagam por eles, sejam quais forem os objetivos que estes pagadores porventura tenham. 
                 A psique humana, desta forma, estaria sendo controlada a partir de uma programação sutil, especificamente destinada a confundir e a alterar a nossa percepção da realidade, conduzindo às massas humanas, desta forma, para os caminhos desejados pelas elites mundiais.
                         Estas mentiras, inverdades, informações falsas, etc., ao serem divulgadas de forma maciça, e devido ao fato de muitas delas serem conflitantes entre si, por vezes, acabam estressando parcelas mais suscetíveis da população que, adotando pensamentos e procedimentos niilistas, se refugiam em drogas, licitas e ilícitas, como forma de superar as situações de conflito vivenciadas.
                             Os aspectos descritos até aqui conduzem aos que se empenham em descobrir as verdades fundamentais por detrás dos fatos, a que jamais cheguem a ter plena certeza sobre o que quer que seja; pois, todos nós vivemos em uma realidade cambiante. O que hoje é tido como verdade amanhã pode não o ser mais; já que, nos balizamos por tudo aquilo que assimilamos através da Mídia e esta, em sua maior parte, tem por objetivo nos confundir e direcionar, segundo objetivos quase sempre inconfessáveis. A própria Ciência e a Filosofia, oficiais, estão eivadas de conceitos e preconceitos que, muitas vezes, não representam a verdadeira realidade dos fatos, mas, sim, a realidade que as elites mundiais querem nos impor como verídica.
                      Ocorre que ao falarmos em elites mundiais, imaginamos as mesmas unidas e coesas, em torno de um objetivo comum, o que nem sempre é verdade. As principais elites dominantes, na atualidade, podem ser classificadas como as ocidentais, as sino-soviéticas e as muçulmanas ou islâmicas. Por sobre estas, no entanto, outra elite se sobrepõe e busca unir as demais em torno de uma agenda comum. Esta é conhecida como a elite illuminati, que tenta unir as demais em torno do objetivo comum de uma Nova Ordem Mundial, compreendendo esta uma única religião, em um único território (o planeta), com uma única moeda, dirigida por um único governo mundial e, talvez futuramente, falando uma única língua.
- Com que objetivo elas pretenderiam tão grande empreitada? – perguntarão os leitores. 
                       Quanto a isto, posso apenas especular, já que me faltam informações e estes propósitos não são explicitamente divulgados pela Mídia.
                      Li em algum lugar que as raças oriundas do espaço, que nos visitam com freqüência (conforme comprovado por milhares de fotos, de filmes, de imagens de radar dos aviões e dos aeroportos, depoimentos de pessoas que afirmam ter tido contatos com seres vindos do espaço, etc.), possuem uma estrutura social-administrativa distinta da nossa; isto é, se estruturaram em seus astros de origem de forma holográfica e não da forma piramidal como os seres humanos se estruturaram (com uma pequena elite no topo, detendo todo o conhecimento e a riqueza, e uma grande população na base, sem a posse do conhecimento e da riqueza).
                         O principio da holografia significa colocar o todo nas partes, através da utilização da redundância de funções, aumento da rede de conexões e obtenção de generalização e especialização simultâneas. Assim, incorporam-se funções extras a cada uma das partes para que possa executar mais funções, ao invés de uma única tarefa específica. Isto significa que no lugar de onde vêm os 'alliens', todos sabem de tudo e participam de tudo. Ademais da estrutura holografia, nos astros de origem destas criaturas extraterrestres, existiria apenas uma única raça, uma única língua, um único território (o astro) e um único governo. Os leitores mais perspicazes, a esta altura, já terão atinado aonde desejo chegar.
                             Talvez para que venhamos a nos inserir e nos tornarmos parte de uma eventual comunidade espacial, existente fora do nosso planeta e que partilhe entre si conhecimentos e tecnologia, tenhamos que nos adequar a determinados protocolos alienígenas e estes protocolos impliquem na mudança de nossa estrutura social-organizacional, da forma piramidal atual para a forma holográfica, comum a estas raças alienígenas. Todos os alienígenas detêm o mesmo conhecimento, podendo desempenhar as mesmas funções em qualquer lugar do cosmos. Da mesma forma, os bens de que necessitam são distribuídos igualmente por todos.
                           Considerando que as barreiras da língua, das raças, das religiões, dos territórios, das moedas, artificialmente impostas em nosso planeta pelos seres humanos, da mesma forma que servem para separar os indivíduos e consolidar o poder das elites, servem, também, para promover as disputas, as desavenças, as ambições e as guerras. Em um planeta como a Terra, sob a ameaça constante de guerras nucleares, guerras estas que poderão gerar impactos relevantes em nosso Sistema Solar e, por conseqüência, em todos os outros Sistemas Solares do Universo, é razoável supor que outras raças, porventura existentes, queiram manter-nos sob constante vigilância e, até mesmo, cooptar-nos para fazer parte de alguma federação de planetas e de espécies inteligentes, eventualmente existentes no Cosmos. Para tanto, todavia, poderíamos ter de nos adequar aos seus protocolos, o que implicaria nas mudanças mencionadas, que algumas elites terrestres poderiam estar tentando implantar, de forma velada e sigilosa, para continuarem mantendo a primazia sobre as demais elites e assegurar o poder sobre as massas humanas, de que desfrutam na atualidade.
                                As populações do planeta, como sempre, incultas e desinformadas, mantêm-se a margem dos acontecimentos, alijadas de qualquer participação em seus destinos. Até quando continuaremos inseridos em uma Matrix, vivendo uma servidão consentida e sobrevivendo em um mundo de mentiras?

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Publicado no Jornal A Palavra, edição 182, de 31.01.2017. Rio de Janeiro, RJ.
_**/ Publicado na Revista Ideias em Destaque nº 49, do INCAER-Instituto Histórico e Cultural da Aeronáutica. Rio de Janeiro, 2017.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

131. A perfeição não existe, logo...


Jober Rocha*


                       A perfeição, conforme esclarecem os dicionários, designa uma circunstância que não pode ser melhorada ou um ser que reúne todas as qualidades e não tenha nenhum defeito.
                        Filosoficamente Aristóteles já considerava, em sua época, três critérios para que algo ou alguém pudesse ser considerado perfeito:
1. Aquilo a que não falta nenhuma de suas partes ou além do qual não se pode achar nenhuma das partes que lhe pertença;
2. O que possui, em sua própria espécie, uma excelência que não possa ser sobrepujada; e
3. O que atingiu seu objetivo; desde que se trate de um bom objetivo. 
                     No primeiro sentido, o perfeito seria o completo; no segundo, o excelente; e no terceiro o real ou atual, por que cumpriu seu objetivo. O primeiro e o terceiro são conceitos absolutos e, portanto, pertencem à Metafísica. O segundo é um conceito que exprime apenas a excelência relativa de algo, não fazendo parte da Metafísica. Assim, os filósofos quando estudam a perfeição tratam somente do primeiro e do terceiro significados distinguidos por Aristóteles.
                    O desenvolvimento da Ética, por sua vez, trouxe a noção da perfeição como uma idéia; isto é, uma condição que não é alcançada, mas deve, necessariamente, ser almejada.
                     A Escolástica (pensamento cristão da Idade Média que tentava conciliar a racionalidade com a verdade revelada, concebida pela fé cristã), afirmava que uma coisa era tanto mais perfeita quanto maior a sua posse do ser; e como Deus possuía todo o ser, era totalmente perfeito. Esse era o pensamento de Tomás de Aquino ao descrever a perfeição de Deus, e da sua criatura, como consistindo na posse, por ambos, do ser. 
                      Ocorre, todavia, devido à perfeição de Deus formulada pelo Cristianismo, que um ser perfeito não poderia criar coisas e seres imperfeitos; daí serem as criaturas, sob a ótica da Escolástica, forçosamente, perfeitas.
                    A contradição entre a formulação escolástica e a práxis é evidente. Todos passaram a percebê-la, de forma mais clara, após a divulgação, em 1858, da obra de Charles Darwin sobre a evolução das espécies animais. A Teoria da Evolução explica e apresenta abundantes evidências de que a diversidade biológica é o resultado de um processo de descendência com modificações, onde os organismos vivos se adaptam, gradualmente, através da seleção natural, e as espécies se ramificam, sucessivamente, a partir de formas ancestrais, como galhos em uma árvore. 
                        As igrejas cristãs logo se posicionaram contra esta teoria, pois contradizia e solapava as bases do criacionismo divino (formulado pela Bíblia, em Gênesis); no qual, a perfeição do Criador e das criaturas era a tônica.
                     Inúmeras outras contradições, surgidas com a noção de perfeição do Criador e das criaturas, se apresentaram ao longo da história do Cristianismo (e também do Judaísmo e do Islamismo). A própria vinda de messias e de profetas, enviados posteriormente, pelo Criador, deixaria evidente uma falha no Projeto Divino da Criação; já que, teria sido necessária a vinda destes messias e destes profetas para corrigir os rumos errados tomados pela humanidade.
                    O próprio dogma do Pecado Original, formulado por Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), em uma controvérsia com o monge Pelágio, da Bretanha, que se apoiou em passagens da Epístola de Paulo aos Romanos e aos Coríntios, além de uma passagem do Salmo 51, contradiz a ideia da perfeição das criaturas. Este dogma, segundo Jaques Le Goff, em sua obra “Uma História do Corpo na Idade Média”, teria contribuído muito para aumentar o poder de controle da Igreja de Roma sobre a vida sexual dos povos da Idade Média. 
                         Por outro lado, a morte de Jesus Cristo, na cruz, se justificaria como tendo ocorrido para salvar os seres humanos deste pecado ou vício de origem, que seria congênito e hereditário, contradizendo a perfeição da criação proporcionada por um ser divino perfeito.
                    Vejam, ademais, que, embora um mecanismo maravilhoso e quase perfeito, o corpo humano apresenta moléstias e enfermidades, de origem interna e externa, que o debilitam e destroem. Da mesma forma a alma (o espírito quando encarnado), que comanda o corpo e a mente humana, embora maravilhosa por suas virtudes, também apresenta vícios que a corrompem.
                        No que respeita ao Reino Vegetal, a linhagem que deu origem às plantas terrestres evoluiu do ambiente aquático. A conquista das terras secas, pelos vegetais, modificou profundamente aspectos geomorfológicos e geoquímicos do planeta, afetando, também, a evolução de todas as demais formas de vida, em uma contínua interação entre os três reinos da Natureza. A competição entre as próprias plantas, ao se intensificar, favoreceu àquelas de maior crescimento, possibilitando o surgimento de formas cada vez mais arborescentes e que originaram as primeiras florestas há cerca de trezentos e setenta milhões de anos. Assim, as espécies vegetais estão sempre em constante mutação e adaptação as condições ambientais, não sendo, evidentemente, perfeitas.
                     Relativamente ao Reino Mineral, percebe-se que este está sempre em constante movimentação e transformação, seja através dos ventos, da ação geotérmica, das marés, da luz e do calor solar, dos movimentos sísmicos, da ação da gravidade, da variação de temperatura, da precipitação pluvial, etc. Mesmo quanto às substancias químicas e ao nível atômico e subatômico, a transformação e a evolução tornam-se evidentes: substâncias sofrem transformações em que processos químicos fazem com que elas desapareçam ou ocorram reações em que aparecem novas substâncias; átomos se transformam em outros átomos diferentes, ao perderem elétrons, como, por exemplo, o caso do hidrogênio que se transforma em hélio; a corrosão do ferro que transforma seus átomos em íons, etc.
                              Através da Radioatividade (decaimento radioativo de núcleos instáveis), uma parte do núcleo de um átomo se desprende na forma de partícula alfa e novo elemento é formado, com massa atômica menor. É o caso, por exemplo, do urânio que se transforma em chumbo. 
                          Com respeito ao próprio Universo, constata-se que, embora os incontáveis corpos celestes girem todos em suas órbitas, muitas vezes, estrelas explodem e desaparecem; meteoros caem na superfície de planetas; explosões ocorrem na superfície do nosso sol; corpos celestes entram em rota de colisão e se destroem mutuamente, etc. Tudo isto comprova que a tão desejada perfeição não existe em nenhum lugar do Cosmos. 
                            Verifica-se, portanto, que nada no Universo é perfeito, no sentido do terceiro critério de Aristóteles, e que tudo se encontra em constante transformação, mutação e evolução (não tendo, ainda, atingido seu objetivo) independente dos dogmas religiosos em contrário. Como disse o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei, no século XVII, após haver sido condenado à prisão em um tribunal eclesiástico da Inquisição e obrigado a se retratar, por divulgar e ensinar a Teoria Heliocêntrica e o movimento da Terra em torno do sol: - Eppur si muove (contudo, ela se move).
                           Assim, vê-se que nada na Natureza atende ao requisito três, mencionado no início e formulado por Aristóteles. A perfeição, mais em conformidade com a definição oferecida pela Ética, seria uma característica buscada pela própria Natureza, mas nunca encontrada. Talvez esta própria perfeição que pretendemos para o Criador não ocorra na realidade; principalmente, tendo em vista as imperfeições e o caráter evolutivo imprimido a todas as suas criações e criaturas. Um ser perfeito, evidentemente, não produziria coisas imperfeitas, tese que sempre defendeu o próprio cristianismo. Podemos imaginar e aceitar a imperfeição no Reino Animal; já que, os espíritos necessitariam evoluir, dialeticamente, para patamares mais elevados. Entretanto a imperfeição não tem sentido de existir no Reino Vegetal e no Mineral, que, conforme rezam as próprias religiões, são ausentes de espíritos.
                              O espírito em sua imaterialidade, afirmam as religiões monoteístas, sempre existiu e estaria em continua evolução. Mesmo tendo alcançado os graus mais elevados de iluminação, eu creio que os espíritos de luz (como eles são chamados), por serem imperfeitos, sempre terão algo a aprender e estágios novos de evolução para alcançar; já que, sendo o Criador único, na concepção destas religiões, nenhum espírito, por mais evoluído que fosse, poderia se igualar a eventual perfeição do seu Criador. 
                            Até para as religiões politeístas, onde existem vários Deuses, existe um status de maior ou menor grau de importância, isto é, uma ordem de precedência; tendo os Deuses habilidades individuais, necessidades, vontades e histórias distintas. Se existem esta precedência e estas distinções, que caracterizam cada um dos Deuses, os fatos indicam que nem mesmo estes seriam integralmente perfeitos, pois um deles seria mais importante que os demais ou teria criado os outros Deuses de menores status, como ocorria na Mitologia Grega e Romana. O próprio cristianismo, ao falar em pai e filho estabeleceu esta distinção hierárquica e, para não contradizer-se, Tertuliano (160-250 d.C) criou o denominado Espírito Santo, defendido por Atanásio (296-373 d.C), bispo de Alexandria e decretado por Constantino (272-337 d.C), Imperador Romano. O Espírito Santo uniria estes dois Deuses em um só; posto que, se tratava de uma religião monoteísta.
                             As religiões panteístas (aquelas para as quais Deus está presente em toda a Natureza) evidenciam, ainda mais, essa imperfeição divina. Como um Criador perfeito poderia estar presente em reinos imperfeitos que se transformam e evoluem a todos os momentos?
                                   Após tudo o que foi dito o leitor, mais comprometido com a racionalidade do que com o dogmatismo poderá exclamar, de si para consigo: 
- Se a perfeição não existe, logo, o Criador também não existe ou, caso exista, evidentemente, não parece ser uma Entidade perfeita ou tão poderosa como imaginamos!
- Por que uma Entidade que, filosoficamente, pode tudo, não poderia ter feito tudo de modo perfeito? Será que a Filosofia e a Metafísica, até agora, têm percorrido caminhos equivocados ao idealizarem um Criador perfeito?
- Será que o filósofo Voltaire deveria ter formulado apenas três das suas quatro hipóteses sobre a Natureza de Deus (O Criador quer e não pode, ou seja, é bom e não tem poder; ou pode e não quer, ou seja, tem poder e não é bom; ou não quer e não pode, ou seja, não é bom e não tem poder), descartado a quarta e última hipótese (Deus quer e pode, ou seja, é bom e tem poder) por não ser verdadeira e compatível com o Universo imperfeito da criação em que vivemos?
                                  Algumas outras possibilidades poderiam ainda ser exploradas, mas estou certo de que para alguns leitores elas poderão passar por delírios ou teorias conspiratórias. Todavia, sinto-me na obrigação de mencionar duas delas.
                                   A primeira é a de que poderíamos estar vivendo uma vida virtual ou estarmos em uma Matrix. Esta seria, assim, uma falsa realidade, na qual aquilo que vemos pode não ser, exatamente, da forma como vemos; já que, por vivermos em três dimensões, apenas, captamos aquilo que nossos sentidos percebem, deixando de perceber o que se encontra em outras dimensões e que poderia, eventualmente, apresentar-nos diferentes realidades para os fenômenos que observamos.
                                   Como não podemos sair desta Matrix, alguns autores afirmam que não devemos tentar nos afastar desta realidade em que estamos; mas aprender a viver nela, esquivando-nos das suas ilusões e olhando além da falsa realidade, para não sermos controlados e manipulados por seus idealizadores, quaisquer que sejam eles.
                            A segunda possibilidade é a de que sejamos frutos da criação (ou oriundos de modificação genética no DNA de seres inferiores, já existentes no planeta) processada por raças alienígenas, que aqui aportaram há milhares ou milhões de anos e que seriam considerados como aqueles Deuses vindos do céu, mencionados nas antigas religiões ainda hoje professadas.
                                   Esta possibilidade, hoje em dia, já é factível pela Ciência praticada na Terra. A técnica denominada Ectogênesis busca desenvolver seres humanos fora do ventre feminino. Trata-se de um útero artificial que reproduz o ambiente natural, onde o bebe é gestado em uma incubadeira em que está rodeado de líquido aminiótico sintético e controlado por uma placenta artificial que proporciona os nutrientes para que o novo ser cresça, além de eliminar os seus resíduos.
                                  Com o método da Ectogênesis o DNA poderia ser modificado antecipadamente, de forma a escolher-se as características desejadas para aquele novo ser, como a cor dos olhos, o tipo de cabelo, etc. No ano de 2074, segundo o cientista J.B.S. Haldane, cerca de setenta por cento dos nascimentos mundiais já seria feito desta forma. Assim, o milagre da criação deixará de ser divino e passará a ser humano. Se hoje a nossa Ciência já dispõe desta técnica, o que dizer de civilizações alienígenas bem mais adiantadas do que a nossa, que conseguem (e já conseguiam no passado) chegar até nós com as suas naves?

                                   Estas duas hipóteses não poderiam ser descartadas, na medida em que as nossas origens ainda não foram satisfatoriamente explicadas pela Ciência oficial, que deveria ser religiosa, política e ideologicamente isenta, mas que, na realidade, não o tem sido até os dias atuais.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


130. A Arte e a Ciência de passar despercebido


Jober Rocha*


                 É uma característica natural, da maior parte dos seres humanos, gostar de se destacar em alguma coisa, de ser notado e admirado pelos demais. Desde os tempos mais remotos, inúmeros personagens famosos, ao longo da História Humana (reis, imperadores, filósofos, inventores, escritores, médicos, guerreiros, sacerdotes, etc.), têm buscado sobressair-se sobre seus contemporâneos, deixando seus nomes indelevelmente escritos no Livro da Vida. 
                 Muitos tiveram os seus nomes imortalizados em razão de suas virtudes, outros em razão de seus vícios; mas o fato é que, tanto uns quanto os outros, destacaram-se em suas épocas, chamando a atenção daqueles que viviam neste mundo e despertando sobre eles a atenção dos que habitavam no mundo dos Deuses e das Divindades, fazendo com que alguns destes (com poder decisório sobre o trânsito das almas humanas), focassem seus espíritos e olhares divinos naquelas simples criaturas feitas de matéria.
             Conta-se que um centurião romano que, por covardia, fugia de uma batalha, ao ser repreendido pelo próprio imperador, César, sacou da espada e tentou matá-lo, para poder continuar fugindo; sendo morto pela guarda pessoal do imperador. Ao despertar a atenção para a sua pessoa, o centurião encontrou a morte. Talvez, se houvesse se entregado ao inimigo como prisioneiro ou se escondido em uma gruta, atrás de alguma pedra, teria sobrevivido alguns anos a mais.
                     Por outro lado, inúmeros são os episódios em que a longa vida desfrutada por milhares, se não por milhões, de indivíduos deveu-se, unicamente, ao fato de terem passado totalmente despercebidos no período de suas existências, sem nunca e em nada se destacarem (a não ser na Ciência e na Arte de camuflarem os seus corpos e as suas qualidades). Para isto, contribuiu muito a sabedoria que tais indivíduos foram capazes de desenvolver e acumular ao longo de suas vidas; mas, como nada deixaram por escrito sobre tema tão importante, tomo eu a iniciativa de fazê-lo para satisfação daqueles que se interessam em poder desfrutar de uma vida longa. 
                     Inicialmente, todo aquele que se destaca, chama a atenção dos semelhantes e provoca, de início, ciúmes e inveja daqueles que não possuem aquelas qualidades que fizeram com que ele se destacasse. 
                     Em segundo lugar, aqueles que se distinguem dos demais, por saberem que são melhores do que eles, em alguma coisa, se transformam em pessoas orgulhosas e passam a atrair, mais ainda, os ciúmes e a inveja dos seus contemporâneos; porém, agora, dois possíveis novos sentimentos entrariam em cena, quais sejam: os da raiva e da vingança. Sejamos sinceros e objetivos: reconheçamos que os seres humanos sentem raiva dos indivíduos orgulhosos e buscam deles se vingar, quer os leitores acreditem ou não nesta afirmação. Observem os seus ambientes de trabalho e contemplem os vizinhos que possuem no entorno da suas residências, para verem se tenho ou não razão?
                  Aqueles que, em sentido oposto, se distinguem por suas maldades e péssimas qualidades são, também, objeto de raiva e de vingança por parte de seus contemporâneos, evidentemente.
                    Isto tudo que foi dito já fora percebido, desde a mais remota antiguidade, pelos eremitas. Tanto é assim, que sempre procuraram o ermo das florestas e os cumes das altas montanhas geladas para edificarem suas covas, onde passariam o resto de suas vidas (que seria, certamente, bem longa), meditando, alternadamente, sobre assuntos supérfluos e importantes. Digo supérfluos e importantes, porque quem já tentou meditar sabe do que estou falando. Noventa e nove por cento dos pensamentos que nos assediam, durante uma seção de meditação, são sobre coisas supérfluas. Só a muito custo conseguimos expulsá-los e deixar fluir o um por cento das coisas importantes.
                  Mas, voltando ao assunto principal: ao despertarmos a atenção dos nossos contemporâneos sobre as qualidades ou defeitos que temos, nós atraímos, como mencionado, todos aqueles sentimentos já referidos; porém, ao chamarmos a atenção dos Deuses sobre as nossas pessoas, seja pelo excesso de virtudes ou de vícios, corremos o grande risco de sermos por eles chamados, logo em seguida, para elogios, no primeiro caso, ou para reprimendas, no segundo.
                        Assim, depois de muito meditar, cheguei a algumas conclusões sobre a Arte e a Ciência de desfrutar de uma vida longa; as quais, eu passo a relatar aos leitores que tiveram a cortesia e a amabilidade de chegarem até esta parte:

            1. Viaje com freqüência, pois quando o Criador se lembrar de você, terá dificuldades ou mesmo não conseguirá encontrá-lo em trânsito; tantas são as escadarias dos aeroportos e dos metrôs, os conveses dos navios, os pubs londrinos, os museus franceses, etc. etc. etc.
              2. Faça longas caminhadas pelas matas fechadas (usando roupas camufladas para dificultar sua localização); fique fora do seu domicilio a maior parte do tempo (já que este é um ponto de referência para pessoas mal intencionadas que queiram abreviar sua passagem pelo planeta, e para espíritos etéreos, estes a lhe buscarem por ordem do Criador pelas razões já expostas); use roupas que não despertem a atenção dos olhares humanos ou do Olho de Horus (aquele olho do Deus egípcio que tudo vê). Seja comedido em tudo o que fizer. Fale baixo. Não emita a sua opinião para estranhos; não busque discussões pelo simples prazer de vencê-las. Não se vanglorie de nada. Não queira amealhar riqueza, pois esta é uma das coisas que mais desperta a atenção, neste plano físico e no plano etéreo, sobre você.
           3. Não busque a glória efêmera de um destaque humilhante sobre os seus contemporâneos; glória esta que poderá abreviar-lhe os dias. Ao contrário, seja conhecido como aquele indivíduo irresponsável e que nada leva a sério. Os humanos escarnecerão de você, chamando-o de um ‘pobre coitado’, e os Deuses o deixarão em paz; pensando: - Este pobre de espírito ainda tem muito que aprender para evoluir. Deixemo-lo ficar mais um pouco, neste planeta de expiação e de aprendizado... 
           4. Passe a maior parte do tempo em alguma biblioteca pública, lendo ou escrevendo. Aproveite o longo tempo que irá desfrutar com este seu anonimato, para instruir-se e, quem sabe, não necessitar mais voltar a um planeta como este onde nada parece dar certo, onde todos são inimigos de todos, onde os viciosos parecem mais felizes e mais bem aquinhoados do que os virtuosos, onde as injustiças parecem ser a tônica e o mérito causa inveja e é malvisto.

                    Evidentemente, estas regras não valem para aqueles que acham ‘valer mais um gosto do que seis vinténs’ e que estão em busca de qualidade de vida e não de quantidade de dias vividos. A estes, recomendo-lhes que rasguem este texto ao terminar a sua leitura ou que o guardem no armário do banheiro; pois, nunca se sabe do dia de amanhã... 


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


129. Uma Noite Inesquecível**

Jober Rocha*


         Ninguém saberia dizer como aquela notícia, da vinda e do pouso de uma nave com extraterrestres, chegou à pequena cidade de São João Marcos em uma tarde ensolarada do mês de maio de 1935; mas, o fato é que ela se propagou como um rastilho de pólvora, entre os seus pacatos moradores urbanos e a gente humilde e trabalhadora do campo.
            A notícia surgiu, inicialmente, em uma conversa informal no Bar do Landi (imigrante de origem italiana, residente no local desde há muitos anos). Dali caminhou para a igreja, onde, naquele exato momento, se realizava uma missa pela alma do fazendeiro Juvêncio, falecido em queda do cavalo enquanto cavalgava bêbado, de volta para a sua fazenda. Da missa a notícia seguiu para o bordel local, conhecido como Casa da Dolores, onde o assunto foi motivo de especulações entre os frequentadores; bem como, de dúvidas por parte das moças que ali trabalhavam. Dentre estas dúvidas, a primeira e principal era saber se os extraterrestres frequentariam ou não aquele local mal afamado. A segunda, caso a primeira se confirmasse, era saber quais as suas preferências femininas. A terceira era imaginar em qual moeda pagariam as despesas e a cotação dela com relação a nossa própria moeda.
        Da Dolores a notícia seguiu célere para a Loja Maçônica da cidade, onde foi objeto de comentários, por parte do Mestre de Cerimônias, durante o Tempo de Estudos e, em razão de haver se tornado motivo de inúmeras discussões acirradas entre os aprendizes, companheiros e mestres, o Venerável viu-se obrigado a encerrar a sessão daquela noite de segunda-feira com um único e rápido golpe do malhete (os leitores maçons, evidentemente, entenderão melhor todo este processo).
          Como a maioria das pessoas mais influentes da cidade fazia parte da Maçonaria, a notícia logo estava em todas as casas; dali, se espalhando rapidamente para os cortiços e para os casebres da periferia.
           No dia seguinte apareceu uma nota no pequeno jornal local ‘ São João Marcos News’, que dizia: “Cabograma recebido dos Estados Unidos da América do Norte confirmou a iminente descida em São João Marcos, de uma nave tripulada por extraterrestres, originária de distante constelação. Segundo a agência de notícias americana, os interesses dos alienígenas são totalmente pacíficos e visam, unicamente, ao estreitamento dos laços de amizade com os habitantes de São João Marcos, povo ordeiro e trabalhador, cuja fama de boa gente já ultrapassou o nosso Sistema Solar e atingiu os mais distantes rincões do Universo”.
           O Conselho Municipal, imediatamente, se reuniu para traçar uma estratégia de como fazer para recepcionar tão distintas personalidades, viajantes estelares cheios de saber, conhecimento e experiência.
          A primeira medida foi selecionar a Comissão de Recepção, que seria constituída pelas famílias do prefeito, do juiz, do promotor, do delegado e pelo padre da igreja matriz. Alguns abastados fazendeiros se ofereceram para adquirir, por alto valor, alguma vaga ou desistência de última hora.
            A segunda medida foi elaborar um programa de atividades e de visitas ao município e seus arredores. A inauguração da nova creche, a visita à lagoa dos jacarés e uma ida ao mirante, faziam parte da programação.
                    A terceira foi de definir um local para o pouso e de mandar construir uma pequena pista e uma sede (onde as altas autoridades e os viajantes pudessem se confraternizar, beber da aguardente local, trocar presentes e saborear alguns quitutes preparados por Dona Cotinha, baiana e viúva do antigo médico da cidade). Os habitantes locais, no entanto, não contavam com o fato de aquela nota do jornal haver extrapolado as fronteiras do município e ter atingido outras cidades vizinhas.
              Pouco tempo depois, inúmeros veículos a motor, carroças puxadas por bois e burros, viajantes a pé e a cavalo, começaram a chegar à sede do município, lotando os dois pequenos hotéis e o galpão nos fundos da igreja matriz.
                 O prefeito já havia mandado fazer uma placa de bronze a ser colocada em local de destaque, com os seguintes dizeres: “Os extraterrestres, em reconhecimento a excelente administração do prefeito Zequinha na Prefeitura de São João Marcos, decidiram visitar o município no ano de 1935, durante o seu mandato, para colher subsídios sobre como bem administrar uma cidade, de modo a poderem levar novos conhecimentos de Administração Pública para a Galáxia e para o Sistema Solar de onde vieram”.
                 O padre, baseando-se na iniciativa do prefeito, também havia mandado fazer placa para colocar nas proximidades do altar-mor, nos seguintes termos: “No ano da graça de 1935, viajantes extraterrestres oriundos do espaço sideral, tendo tomado ciência das palavras proferidas pelo padre Josias no púlpito da Igreja Matriz de São João Marcos (quando este falava sobre a existência de um messias, na antiga cidade de Jerusalém, que pregava a existência de um Reino dos Céus), vieram diretamente daquele referido Reino dos Céus para confirmar ao ilustre povo deste nosso município, como a mais absoluta das verdades, tudo aquilo que, até então, havia sido dito pelo venerado padre Josias”.
                  A Associação dos Estudantes de São João Marcos, capitaneada por Dona Dorinha, diretora do grupo escolar local, iniciou a confecção de diversas faixas e cartazes de boas vindas a tão distintos visitantes. As faixas, dentre outras coisas, diziam: “Estudantes de São João Marcos saúdam ilustres visitantes extraterrestres e pedem o fim da discriminação planetária!”. “Queremos fazer intercâmbio cultural e estagiar no planeta de vocês!” “Pela gratuidade no transporte intergaláctico!” “Pelo fim do lixo espacial!”
                      Alguns dos bares da cidade lançaram novos pratos e diferentes drinques, apelando para a inusitada notícia, que atraía turistas até aquele distante município. Assim, anunciavam: “Filé à Extraterrestre (filé com arroz, fritas e um tempero secreto de origem extraterrestre)”; “Sopa de Poeira Espacial (grãos de poeira espacial, ervilhas e torradas produzidas pelo atrito na atmosfera terrestre); “Batida Estelar (cachaça, suco de meteoro e gotas de orvalho, batidos no vácuo).
                 Pelas ruas da cidade foram sendo instaladas diversas barraquinhas, cujos proprietários pareciam orientais e os produtos que vendiam assemelhavam-se àqueles originários da China. Havia naves espaciais que apitavam e acendiam luzes coloridas, foguetes que soltavam fumaça e disparavam raios luminosos, máscaras de seres extraterrestres, etc.
                    O Governador do Estado, cuja sede do governo ficava na Cidade de Niterói, adiantando-se ao prefeito do Município de São João Marcos, enviou uma equipe, daquela capital, para montar o sistema de som, o palanque e as arquibancadas, pois pretendia fazer um discurso de saudação aos visitantes e tentar obter recursos financeiros à fundo perdido, para algumas obras que marcariam com ‘chave de ouro’ o final do seu governo.
                 Na Cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, a pequena notícia do jornal ‘São João Marcos News’ também havia chegado, por intermédio de um assessor parlamentar que retornava das férias em casa de parentes naquele longínquo município. Logo, formou-se uma comitiva de deputados e senadores que, desejosos de comparecer ao evento, solicitaram passagens e diárias para uma semana, além de prepararem uma ‘Moção de Boas Vindas’ e de concederem, a todos os extraterrestres, a ‘Comenda do Mérito Parlamentar Interestelar Brasileiro’, criada especificamente para agraciar tão nobres visitantes. 
                  O Presidente da República, também alertado, só não iria ao histórico acontecimento em razão de compromissos internacionais inadiáveis, ademais de pane no Rolls Royce presidencial.
               Em poucos dias o município regurgitava de gente. Os alojamentos e acomodações eram insuficientes para tantas pessoas. Muitos dormiam nas calçadas, sob marquises. Alguns trouxeram barracas e as montavam próximo ao local onde seria efetuado o pouso da nave.
                  O discurso que o prefeito faria acabou vazando para a imprensa e, pelo que foi divulgado no jornal local, começava assim: “Caríssimos, idolatrados e magnânimos seres de outras galáxias. Nesta benfazeja ocasião em que pautado pelos mais nobres sentimentos de fidalguia, de fraternidade, de cordialidade e de admiração me dirijo a vossas excelências espaciais...”
                    Em um mutirão incessante, as ruas eram varridas, as paredes caiadas, as árvores podadas, o lixo recolhido. O delegado e alguns agentes faziam incursões na periferia, para deter os poucos e conhecidos ‘ladrões de galinha’ que viviam pelas aforas da cidade.
             Finalmente, chegou o grande dia, previsto não se sabe por quem, para a descida dos alienígenas. O pouso se daria por volta das vinte horas, no local demarcado. Enorme multidão aguardava, na hora aprazada, a chegada da nave. As principais agências espaciais, do mundo inteiro, embora desconfiadas de charlatanice, haviam enviado seus observadores e as moças da Casa da Dolores jamais tinham tido tantos clientes pagando em moedas fortes (dólares, euros, rublos, ienes e yuans).
                    Minutos antes das vinte horas, uma agitação percorreu a multidão. Alguém afirmara haver visto uma luz se movendo no negro céu. Alguns apontavam para o norte, outros para o sul. Fotógrafos e cinegrafistas preparavam suas câmeras e flashes. Infelizmente, tinha sido apenas um boato falso.
                Chegaram as vinte e uma, vinte e duas, vinte e três, vinte e quatro horas, e nada dos extraterrestres aparecerem. Começou a ventar e a esfriar e, por volta das duas da madrugada, caiu um forte aguaceiro, obrigando a maioria dos presentes a se dispersar. Muitos voltaram para suas casas ou para seus quartos nos hotéis. Os que estavam nas barracas, após consumirem diversas garrafas de cachaça, dormiam a sono solto. Alguns, mais religiosos, ajoelhados e molhados pela chuva, oravam, tremendo de frio.
                   Em pouco tempo, já não restava mais ninguém naquele local. Garrafas e latas vazias, sacos plásticos, jornais e revistas, caixotes e restos de comida atirados ao solo, atestavam que a raça humana ainda não estava preparada, culturalmente, para o contato com deuses oriundos do espaço e pertencentes à outra raça, talvez milhares de anos, mais evoluída que a nossa.
Ao longe eram ouvidas risadas e musica sendo tocada na Casa da Dolores, onde as moças eram insuficientes para atender a tantos clientes.
                    Os únicos que viram a grande nave iluminada, sobrevoando baixo o lugar do pouso, foram um cavalo que pastava e um gato, caminhando por sobre as telhas de um telhado em busca de uma gata. Tendo a nave, com quatro visitantes extraterrestres, feito duas passagens baixas, quase tocando o solo, e não encontrando ninguém no local, velozmente retornou para a imensidão do espaço sideral de onde viera...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.
_**/ Conto premiado no Concurso Literário de Contos de São João Marcos - 2016