sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

341. A catástrofe do dia de Natal


Jober Rocha*



                                 No dia de Natal daquele ano, isto é, em uma quinta-feira, um asteroide vindo das profundezas do espaço sideral se chocaria com a Terra. De acordo com o monitoramento do Centro de Estudos de Objetos Próximos à Terra, entidade da NASA, o fenômeno deveria acontecer às 01h14 do dia 25 de dezembro, ou seja, ao se iniciar o dia de Natal daquele ano.
                                           A estimativa dos cientistas era a de que a rocha espacial, conhecida como 320432 (2001 BH60), que teria até 800 metros de diâmetro, cruzaria o espaço a uma velocidade de mais de 44 mil km/h.
                                               O impacto com a Terra seria devastador e o local previsto para a colisão seria, justamente, aquele município, cujo nome era Sorte Grande, no interior do Estado.
                                                A notícia havia chegado alguns dias antes da data fatídica, trazida por um comerciante local que retornara da capital e que trazia, além das mercadorias lá adquiridas para a sua pequena loja, um exemplar do jornal A Voz da Verdade. Em uma página interna, de curiosidades internacionais, o jornal publicou uma pequena nota sobre o assunto, dando como fonte da mesma a agência Semsede, localizada em um ponto qualquer das montanhas nevadas do Azerbaijão.
                                               Assim, a trágica notícia caiu como uma bomba no pequeno município e espalhou-se rapidamente, como um rastilho de pólvora, entre os pacatos moradores urbanos e a gente humilde e trabalhadora do campo.
                                       A nota do jornal, inicialmente, foi mencionada em uma conversa informal no Bar do Landi (imigrante de origem italiana, residente no local desde há muitos anos). Dali caminhou para a igreja, onde, naquele exato momento, se realizava uma missa pela alma do fazendeiro Juvêncio, falecido em queda do cavalo enquanto cavalgava bêbado, de volta para a sua fazenda.
                                            Da missa a notícia seguiu para o bordel local, conhecido como Casa da Dolores, onde o assunto foi motivo de especulações entre os frequentadores; bem como, de dúvidas por parte das moças que ali trabalhavam.
                                  Da Dolores a notícia seguiu célere para a Loja Maçônica da cidade, onde foi objeto de comentários, por parte do Mestre de Cerimônias, durante o Tempo de Estudos e, em razão de haver se tornado motivo de inúmeras discussões acirradas entre os aprendizes, companheiros e mestres, o Venerável viu-se obrigado a encerrar a sessão daquela noite de segunda-feira com um único e rápido golpe do malhete (os leitores maçons, evidentemente, entenderão melhor todo este processo).
                                       Como a maioria dos homens influentes da cidade fazia parte da Maçonaria, a notícia logo estava em todas as casas; dali se espalhando, rapidamente, para os cortiços e para os casebres da periferia.
                                          O Conselho Municipal, imediatamente, se reuniu para traçar uma estratégia de como fazer para minimizar os estragos causados pelo impacto do bólido nas terras do município.
                                                A primeira medida foi selecionar a Comissão de Recepção, que seria constituída pelas famílias do prefeito, do juiz, do promotor, do delegado e pelo padre da igreja matriz. Alguns abastados fazendeiros se ofereceram para adquirir, por alto valor, alguma vaga ou desistência de última hora na referida comissão.
                                     A segunda medida foi elaborar um programa de obras emergenciais, evidentemente dispensadas de licitação, para resistir ao impacto de tão enorme projétil vindo do espaço sideral. 
                                               A terceira foi de definir um local onde seria construído um pequeno mirante de onde as altas autoridades locais e os viajantes pudessem observar a catástrofe e, antes do desfecho final, em uma derradeira confraternização, beber da aguardente local, trocar presentes e saborear alguns quitutes preparados por Dona Cotinha, baiana e viúva do antigo médico da cidade.
                                         Os habitantes locais, no entanto, não contavam com o fato de aquela nota do jornal haver extrapolado as fronteiras do município e ter atingido outras cidades vizinhas.
                                             Pouco tempo depois da notícia ter se espalhado, inúmeros veículos a motor, carroças puxadas por bois e burros, viajantes a pé e a cavalo, começaram a chegar à sede do município, lotando os dois pequenos hotéis e o galpão nos fundos da igreja matriz.
                                              O prefeito, rapidamente, já havia mandado fazer uma placa de bronze a ser colocada em local de destaque, com os seguintes dizeres:
                                                      “Em reconhecimento à excelente administração do prefeito Zequinha na Prefeitura de Sorte Grande, a população local, antes de sua completa extinção pela queda do inesperado asteroide, resolveu deixar registrado para a posteridade os enormes agradecimentos que lhe devem por tudo aquilo que de bom e útil ele fez em prol do município e de sua gente”. 
                                                 O padre, baseando-se na iniciativa do prefeito, também havia mandado fazer placa para colocar nas proximidades do altar-mor da igreja matriz, nos seguintes termos: 
                                                “Neste ano da graça, o Criador de todas as coisas tendo tomado ciência das palavras proferidas pelo padre Josias no púlpito da Igreja Matriz de Sorte Grande (quando este falava sobre a existência de um messias, na antiga cidade de Jerusalém, que pregava a existência de um Reino dos Céus e a necessidade de todas as criaturas serem virtuosas), ao constatar a grande quantidade de pecadores viciosos neste nosso município, resolveu riscá-lo da face do planeta enviando do céu uma vingança terrível, que chegará, justamente, no dia do Natal sob a forma de um trágico presente que levará todos os cidadãos para padecer eternamente no fogo do inferno”.
                                                    A Associação dos Estudantes de São João Marcos (de tendência marxista), capitaneada por Dona Dorinha, diretora do grupo escolar local e ativista de esquerda, iniciou a confecção de diversas faixas e cartazes, de natureza política e reivindicatória, a serem colocadas nas proximidades do local de impacto. As faixas, dentre outras coisas, diziam: 
                                          “Estudantes de Sorte Grande pedem o fim da discriminação planetária”! “Queremos fazer intercâmbio cultural e estagiar nos diversos planetas do Sistema Solar”! “Pela gratuidade no transporte intergaláctico”! “Pelo fim do lixo espacial”!
                                           Alguns dos bares da cidade lançaram novos pratos e diferentes drinques, apelando para a inusitada notícia que atraía turistas até aquele distante município. Assim, anunciavam:
                                              Filé à Extraterrestre (filé com arroz, fritas e um tempero secreto de origem extraterrestre); Sopa de Poeira Espacial (grãos de poeira espacial, ervilhas e torradas produzidas pelo atrito na atmosfera terrestre); Batida Estelar (cachaça, suco de meteoro e gotas de orvalho, batidos no vácuo).
                                             Pelas ruas da cidade foram sendo instaladas diversas barraquinhas, cujos proprietários pareciam orientais e os produtos que vendiam assemelhavam-se àqueles originários da China. Havia naves espaciais que apitavam e acendiam luzes coloridas, foguetes que soltavam fumaça e disparavam raios luminosos, máscaras de seres extraterrestres, etc.
                                              O Governador do Estado, adiantando-se ao prefeito do Município de Sorte Grande, enviou uma equipe da capital para montar o sistema de som, o palanque e as arquibancadas, pois pretendia fazer um discurso de saudação para fechar com ‘chave de ouro’ o final do seu governo e, quem sabe, da vida humana na Terra.
                                                  O Presidente da república, também alertado, só não iria ao histórico acontecimento em razão de compromissos internacionais inadiáveis, ademais de pane na aeronave presidencial.
                                                    Em poucos dias o município regurgitava de gente. Os alojamentos e acomodações eram insuficientes para tantas pessoas. Muitos dormiam nas calçadas, sob marquises. Alguns trouxeram barracas e as montavam próximo ao local onde seria o ponto de impacto.
                                             O discurso que o prefeito faria acabou vazando para a imprensa e, pelo que foi divulgado antecipadamente no jornal local, começava assim: “Caríssimos, idolatrados e magnânimos concidadãos e nobres autoridades visitantes. Nesta benfazeja ocasião em que pautado pelos mais nobres sentimentos de fidalguia, de fraternidade, de cordialidade e de admiração me dirijo a vossas excelências ...”
                                                Em um derradeiro mutirão incessante, as ruas eram varridas, as paredes caiadas, as árvores podadas, o lixo recolhido. O delegado e alguns agentes faziam incursões na periferia, para deter os poucos e conhecidos ‘ladrões de galinha’ que viviam pelas aforas da cidade.
                                                Finalmente, chegou a véspera do grande dia, previsto pela NASA, segundo a nota de jornal. O impacto se daria por volta da uma hora da manhã, no local demarcado. Enorme multidão aguardava, próximo da hora aprazada, a chegada do asteroide. Algumas agências jornalísticas, embora desconfiadas de charlatanice, haviam enviado seus observadores e as moças da Casa da Dolores jamais tinham tido tantos clientes.
                                               Minutos antes da meia noite, uma agitação percorreu a multidão. Alguém afirmara haver visto uma luz se movendo no negro céu. Alguns apontavam para o norte, outros para o sul. Fotógrafos e cinegrafistas preparavam suas câmeras e flashes. Infelizmente, tinha sido apenas um boato falso.
                                        Chegou meia noite e meia. Nada do objeto extraterrestre aparecer no céu. Começou a ventar e a esfriar e, por volta de uma hora da madrugada, caiu um forte aguaceiro, obrigando a maioria dos presentes a se dispersar. Muitos voltaram para suas casas ou para seus quartos nos hotéis. Os que estavam nas barracas, após consumirem diversas garrafas de cachaça, dormiam a sono solto.
                                                Alguns, mais religiosos, ajoelhados e molhados pela chuva, oravam, tremendo de frio.
                                                    Em pouco tempo, já não restava mais ninguém naquele local. Garrafas e latas vazias, sacos plásticos, jornais e revistas, caixotes e restos de comida atirados ao solo, atestavam que a raça humana naquele município, realmente, não havia evoluído muito e, como um projeto malogrado do Criador, merecia ser prontamente exterminada. 
                                           Ao longe eram ouvidas risadas e música sendo tocada na Casa da Dolores, onde as moças eram insuficientes para atender a tantos clientes.
                                            O sino da Igreja Matriz bateu uma hora da madrugada, duas horas, três horas e nada.
                                          Boa Sorte, sem dúvida alguma, havia sido salva, mais uma vez, pela sua boa sorte...


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

340. A importância dos formadores de opinião, para o futuro do Brasil 


Jober Rocha*



                                   O aparelhamento das instituições que fazem parte dos três poderes da república, nas últimas décadas de governos de esquerda; bem como, a destinação de verbas públicas para diversos meios de comunicação privados, visando cooptá-los para a apologia de tais governos e para o panegirico das suas autoridades, já são sobejamente conhecidos pela maioria dos brasileiros.
                                                No atual governo do presidente Jair Bolsonaro estas aberrações foram reduzidas; mas, ante a eminência de uma total aniquilação, elas como que buscaram novas forças que lhes proporcionassem uma sobrevida, mesmo que por pouco tempo. 
                                                 Assim é que o presidente e a sua equipe de governo têm enfrentado diversos percalços, partidos de simpatizantes e membros remanescentes dos governos de esquerda que ainda permanecem nas instituições governamentais dos três poderes da república. Da mesma forma a grande mídia, anteriormente mantida com dinheiro público, ao ter fechada a torneira governamental pela qual as verbas se esvaiam em grande escala, passou a promover intensa campanha de críticas, difamações, inverdades, etc., tendo como alvo o presidente, sua família e a equipe de governo.
                                                   A população brasileira, aos poucos, tem tomado ciência através da pequena mídia ou da mídia alternativa, representada pelas redes sociais da WEB, de todo um quadro de guerra assimétrica que se delineia em nosso país, envolvendo interesses internos e externos milionários ou, até mesmo, bilionários.
                                            De um lado interesses puramente ideológicos, que desejam o continente sul americano totalmente comandado por governos comunistas. De outro, aventureiros nacionais e estrangeiros que vislumbraram o lugar ideal para fazer grandes fortunas, contando, para tal, com um povo inculto, inocente, submisso e despolitizado.
                                                  A principal batalha no âmbito desta guerra tem, pois, como teatro de operações as mentes dos brasileiros. Não é por outra razão que os governos de esquerda alimentavam os meios de divulgação com enormes verbas publicitárias, de forma a que só veiculassem assuntos enaltecedores e de interesse do governo, como também suprimissem qualquer notícia negativa que expusesse à mostra as suas podres entranhas; não é por outra razão que as escolas e universidades públicas foram totalmente tomadas de assalto por ativistas e militantes político-ideológicos de esquerda, encarregados da preparação de gerações de jovens que, se por um lado terminavam os cursos despreparados para as profissões técnicas que haviam escolhido, por outro, saiam bem preparados para a militância política e para o ativismo de esquerda.
                                                  Desfazer este estado de coisas tem sido muito difícil para o novo governo, que conta com inimigos reais dentro e fora do país; inimigos estes que, em vias de perder seus benefícios financeiros imorais e ilegais; bem como, de alcançar seus objetivos políticos e ideológicos espúrios, não hesitam em combater com métodos desleais e desonestos.
                                           Mesmo em uma guerra tradicional, determinados critérios, métodos e ações são respeitados pelas partes envolvidas no conflito, de modo a preservar populações civis indefesas e evitar degradar ou destruir o meio ambiente, por exemplo.
                                             Na guerra assimétrica revolucionária comunista, no entanto, vale tudo. Seus ideólogos e dirigentes não respeitam nada e ninguém, fazendo uso do terrorismo e do ecoterrorísmo em todas as frentes, com bastante frequência. Tudo é justificável por eles, quando se trata de atingir os seus objetivos de conquista do poder de forma global, inclusive incendiar florestas, poluir os mares costeiros com despejos de petróleo e destruir propriedades agroindustriais produtivas, dentre outras ações. 
                                          Como essa nefasta ideologia que serve de suporte ao comunismo é, principalmente, materialista e contrária a qualquer religião (que consideram como o ‘ópio do povo’ - famosa frase presente na Introdução à ‘Crítica da Filosofia do Direito’ de autoria de Hegel e de Karl Marx), não hesitam em destruir o meio ambiente e suas espécies, na busca pelos objetivos de conquista do poder; o que não fariam caso fossem panteístas, politeístas ou, mesmo, monoteístas; para os quais, filosoficamente, destruir a Natureza é o mesmo que destruir os Deuses que a compõem ou ofender o Deus que a criou.
                                          Em vista do exposto, considero cada vez mais importante o papel dos formadores de opinião brasileiros, que não comungam da ideologia marxista nem do roubo descarado dos recursos públicos por parte de uma elite cleptocrata encastelada desde décadas no poder e que dita as regras, à revelia do povo e do novo presidente, dificultando ou impedindo mudanças que se fazem urgentemente necessárias para o nosso desenvolvimento atual e futuro. 
                                            Tais formadores de opinião devem seguir cumprindo seus importantes papéis no esclarecimento da nossa população, mesmo que imaginem estar falando para ouvidos moucos ou escrevendo para deficientes visuais que não conseguirão ler suas matérias, pois, sem eles, esta ‘guerra santa’ travada em nosso país, na atualidade, contra ‘forças do mal’ estará inexoravelmente perdida. Lembremo-nos que a vitória quase impossível de um simples deputado, sem nenhum recurso ou apoio financeiro de grupos econômicos, que conseguiu vencer seu milionário rival nas urnas, rival este que contava com todo o apoio da grande mídia, foi, sem dúvida, um verdadeiro milagre.
                                          Nossos oponentes, como já dito anteriormente, fazem uso de todos os meios disponíveis para denegrir o atual governo, notadamente se utilizando das chamadas ‘fakes news’ que, posteriormente demonstradas serem falsas, não são por eles desmentidas e permanecem como sendo verdades para a população em geral. 
                                              Para neutralizá-las é importantíssimo que os patriotas formadores de opinião, fazendo uso da oratória ou da pena, sem pejo, temor ou vergonha, comentem, argumentem, debatam e esclareçam a nossa população, em todas as oportunidades e em todos os locais. Nossos inimigos fazem isto diuturnamente. Temos que fazer melhor do que eles para sobrepuja-los junto aos corações e às mentes de nossos cidadãos, ávidos por entender o que se passa neste conturbado e rico país, onde uma minoria de criminosos, tradicionalmente, vem se apropriando dos frutos do trabalho de todos, enganando-os com falsas promessas de um paraíso terrestre sob a denominação de socialismo bolivariano.
                                              Só não dizem que este paraíso que prometem logo se transformaria em um verdadeiro inferno (como alguns exemplos existentes no continente, tais quais Cuba e Venezuela, bem o demonstram) e que os deuses responsáveis por criarem estes supostos paraísos (que seriam esses, mesmos, criminosos) logo se mostrariam como os verdadeiros demônios que, na realidade, nunca deixaram de ser.


_*/ Economista e Doutor pela universidade de Madrid. Membro titular da Academia Brasileira de Defesa – ABD e do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos – CEBRES.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

339. Possíveis razões da tolerância excessiva com os vícios 


Jober Rocha*



                                 Os vícios, no mundo moderno, embora tolerados e muitas vezes incentivados por interesses ideológicos ou por motivos escusos e inconfessáveis, são responsáveis por inúmeras mazelas da civilização humana. Segundo a minha interpretação da questão, eles podem ser classificados, de maneira jocosa, em dois tipos: os nossos vícios, toleráveis e que não nos incomodam e os vícios dos outros, intoleráveis e que nos molestam.
                                             O vocábulo vicio significa um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem. É, também, considerado, simplesmente, como o oposto da virtude e foi muito bem caracterizado por Margaret Mead, ao afirmar:  “A virtude é quando se tem a dor seguida do prazer e o vício é quando se tem o prazer seguido da dor”.  
                                                 Segundo a genealogia da moral, as definições de quais seriam os vícios do momento vão sendo estabelecidas pelos povos ao longo do tempo e estas definições costumam variar entre as épocas, em razão daquilo que o filósofo Friedrich Nietzsche denominou de transvaloração de valores. 
                                                Esta transvaloração de valores; ou seja, quando a virtude passa a ser considerada um vício e o vício considerado uma virtude, já foi tentada, inúmeras vezes, ao longo da existência humana, em épocas distintas. A mais recente ocorreu com a iniciativa de implantação do comportamento politicamente correto tentada pelas esquerdas mundiais, quando as virtudes e os vícios ocidentais, tradicionalmente estabelecidos por critérios religiosos judaico-cristãos, passaram a ser definidos por preceitos político-ideológicos, definidos, agora, pelas esquerdas.
                                            No entanto, desde o surgimento da raça humana, a natureza do homem sempre foi, e sempre será, a mesma; tendo ele vindo ao mundo com todos os defeitos e qualidades (vícios e virtudes) necessários para sobreviver em um meio inóspito, rude e violento, no qual vigora a ambição, a competição e o espírito de sobrevivência individual e coletiva.
                                                Os seres humanos, por outro lado, segundo o que reza o Imperativo Categórico (muito bem explicado pelo filósofo Immanuel Kant em sua obra ‘Crítica da Razão Prática’), reconhecem, na prática e na teoria, que deveriam pautar as suas vidas pelos sentimentos e ações virtuosos, percebendo que não devem fazer aos outros aquilo que não desejam que façam a eles mesmos. Ademais, sabem muito bem quando os seus sentimentos e as suas ações são viciosos, mesmo que não evitem cometê-los. 
                                                   Entretanto, na prática, segundo eu penso, as injunções psicossociais são de tal ordem que, em muitas ocasiões, as ações e os sentimentos viciosos, mesmo sendo reconhecidos como nefastos e prejudiciais, acabam por prevalecer sobre as ações e os sentimentos virtuosos. Isto se deve tanto a vontade própria, intrínseca de muitos seres humanos em razão de suas convicções, desejos e frustrações; quanto aos incentivos e induções programadas que os indivíduos recebem, partidas dos interesses das elites mundiais e disseminadas através das mídias.
                                           Explico-me melhor: Existe, reconhecidamente, uma tendência intrínseca para o vício por parte de muitos indivíduos, posto que qualquer vício é agradável no princípio e, como o próprio nome indica, viciante. Poder, riqueza, sexo, gula, tóxicos, bebidas alcoólicas e psicotrópicos, por exemplo, são coisas que viciam muitos indivíduos por serem agradáveis, inicialmente, e por causarem dependência física e psíquica, posteriormente. Lembrem-se que, logo após a Segunda Grande Guerra, a maioria da população mundial fumava cigarros, um vício cujos malefícios eram, então, desconhecidos dos consumidores; mas, bem conhecidos dos produtores.
                                           Paralelamente a esta tendência intrínseca para o vício, partida do próprio indivíduo ao buscar em excesso aquilo que lhe é agradável (já preconizada desde a Grécia Antiga pelos adeptos do Epicurismo)  e que o deixará frequentemente dependente, existe o lado do vício que é estimulado (ou não reprimido por muitas autoridades constituídas, que estão a serviço das elites dominantes) como forma de reduzir tensões sociais; de alienar as massas humanas, desviando suas atenções dos problemas nacionais; de conquistar objetivos de dominação, mediante o enfraquecimento da vontade popular; de enriquecimento de grupos, com a produção e a comercialização de produtos e substancias  que causam dependência física e psíquica; etc. 
                                            Não é por outra razão que o fumo e o álcool são vendidos livremente, que o comércio de drogas estupefacientes não é punido com o rigor que deveria ser no mundo todo (a exceção da Indonésia, China, Malásia, Arábia Saudita, Irã, Singapura e Vietnã, dentre outros, que o punem com a pena de morte) e que os únicos agentes envolvidos em todo este processo, a serem combatidos, sejam aqueles marginais que vivem nas periferias e que vendem o produto ao consumidor final. 
                                            Os grandes produtores, financiadores e distribuidores de drogas, por se tratarem de gente da elite nacional e mundial, que possuem em muitos governos e governantes os seus prepostos ou parceiros, são deixados de lado como se não existissem. Eventualmente, uma ou outra investigação é feita, com o desbaratamento de alguma pequena unidade de produção, justamente para esconder as demais grandes unidades que continuam produzindo de vento em popa.
                                                Reconhecidamente, não existe nenhum interesse mundial em acabar com a produção e o consumo de drogas estupefacientes. Foi com esta produção e incentivo ao consumo que a Inglaterra dominou a China e a Índia durante muitos anos, viciando as respectivas populações no consumo do ópio, de modo a mantê-las submissas. As produções de maconha, de cocaína e de ópio no próprio Sudeste Asiático, fornecidas às tropas norte-americanas durante a guerra do Vietnam, também tiveram objetivos políticos-estratégicos e psicossociais. 
                                               O comércio da droga, livremente feito entre os militares, além de dar coragem aos soldados combatentes, enriquecia grupos e fornecia dinheiro para o fomento de insurreições e operações especiais contra governos hostis aos USA em várias partes do mundo. O mesmo é feito por outras grandes potências, como a Rússia e a China, contra governos de países hostis. As facções criminosas envolvidas com o tráfico de drogas constituem braços armados importantes para a implantação de regimes comunistas em todo o mundo, razão pela qual os governantes de esquerda, ao assumirem o poder em países democráticos capitalistas, as protegem e fortalecem antes de darem o golpe final que transformara aqueles países democráticos em países comunistas.
                                                Estas drogas, acrescidas do crack e de algumas outras substâncias não mencionadas, vendidas nas periferias dos centros urbanos, mantém alienadas parcela significativa da população que, após seus consumos, fica prostrada em algum canto isolado sentindo os efeitos estupefacientes da droga consumida e sem incomodar ninguém. Outra parcela fica ativa e parte para assaltos, visando obter novos recursos para seguir custeando o trágico vício. Os consumidores das drogas mais caras são, em geral, empresários, diretores, gerentes, intelectuais, profissionais liberais, altos funcionários dos três poderes da república, etc. Os que ingerem as drogas mais baratas costumam ser estudantes, empregados subalternos, desempregados, marginais, etc.
                                                    A prostituição e o tráfico de escravas brancas continuam de vento em popa em todo o mundo; fora esporádicas operações de repressão feitas por alguns países para justificar as verbas que recebem e as instituições que criaram para, supostamente, reprimir tais atividades criminosas. Muitos grupos lucram quantias enormes explorando a prostituição mundial, a indústria de produtos eróticos, de vídeos pornográficos, de robôs destinados a prática do sexo; industrias estas que são, atualmente, estimuladas através da permissividade dos governos, que, além da autorização do seu funcionamento, permite a importação de componentes e, inclusive, autoriza que façam propaganda na mídia.
                                                       Alimentos viciantes são produzidos com as mais modernas técnicas de engenharia alimentar e objetivam deixar os consumidores viciados naqueles produtos, alguns deles possuindo em sua formulação substâncias que causam dependência física, neles inseridas com esta finalidade específica. Bebidas alcoólicas e cigarros são livremente vendidos no comércio, com propagandas que as associam aos esportes, a ambientes sofisticados e a status social.
                                                     Medicamentos psicotrópicos, receitados para patologias como depressão, stress e síndrome do pânico, são consumidos por parcela significativa da população mundial e, a par da tranquilidade que proporcionam aos pacientes, também causam dependência física e psíquica. Tais medicamentos, sem dúvida, devem constituir parte importante da receita financeira de muitos laboratórios e objetivam, no fundo, manter as populações anestesiadas e sob controle, evitando explosões de ira e de revolta destas contra ações e decisões governamentais que lhes são contrárias e prejudiciais e que, na realidade, constituem as causas últimas de muitas das patologias psicossomáticas. Por detrás destas doenças, quase sempre, estão os baixos salários, o desemprego, as dificuldades de toda a ordem, a burocracia, as injustiças, etc.
                                                O vício na massificação da cultura física dos corpos dos indivíduos e no que respeita ao desempenho sexual, também, é incentivado pelas elites através da mídia, ao estabelecer padrões de beleza que, para serem alcançados, demandam o consumo de produtos químicos formulados por laboratórios (para aumentar a massa muscular, aumentar a potência sexual, etc.), além da prática de exercícios físicos promovida pelas academias. Quem não possui aqueles atributos físicos de beleza ou de desempenho sexual, propalados como os ideais, não se destaca em seu círculo, pois este, influenciado pela mídia, só valoriza determinados padrões e atributos.
                                              Os vícios de jogos eletrônicos, jogos de loterias, corridas de cavalos, jogos de cartas, roletas, bingos, etc. são, também, estimulados pelos governos de muitos países, visando arrecadar impostos, desviar recursos e alienar os seus cidadãos.
                                                  Os demais vícios estimulados pela mídia e ligados à aparência física, à moda, à prática de esportes, à religião, ao consumo de determinados produtos e serviços vinculados a ostentação de poder e de riqueza, estão sempre presentes, diariamente, na vida de todos os seres humanos, constituindo objetivos a serem por eles alcançados, caso queiram ser admirados e desejem se destacar dos demais componentes do rebanho. 
                                                Vejam, meus caros leitores, que os vícios, na atualidade, medram entre os seres humanos, na maior parte dos países, e são protegidos e incentivados por muitas autoridades, que fazem vistas grossas para eles (pois estas autoridades, se não estão diretamente seguindo ordens de elites interessadas em suas difusões, muitas vezes, recebem benefícios indevidos sob a forma de dinheiro e de vantagens, da parte daqueles criminosos a quem caberia, institucionalmente, reprimir). Algumas autoridades ideologicamente contaminadas, por sua vez, embora não aufiram vantagens indevidas daqueles a quem caberia reprimir; em razão do viés ideológico que possuem, os consideram como vítimas de uma sociedade injusta a qual, corajosamente, enfrentam com as armas que possuem. Em virtude deste pensamento totalmente errado, muitas vezes, punem com pouco rigor ou absolvem criminosos envolvidos em tais atividades.
                                                  Por detrás disto tudo, portanto, existem grupos empresariais faturando alto e pagando altas propinas para algumas autoridades; diversos políticos conseguindo aprovar leis lesivas às populações e benéficas, somente, a pequenos grupos; criminosos, condenados e presos, sendo libertados ao arrepio das leis, mediante casuísmos formulados por magistrados em instâncias superiores; algumas autoridades do executivo e do judiciário, mancomunadas com fornecedores de muitos destes vícios, também estão enriquecendo para deixá-los operar livremente. 
                                                        A este quadro uma população cada vez mais viciada e inerme assiste passivamente, sem oferecer nenhuma resistência, como se vivesse constantemente dopada e sem maior interesse acerca a conjuntura política reinante; em suma, agindo como verdadeiros escravos em uma servidão consentida.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha. Membro Titular da Academia Brasileira de Defesa - ABD e do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos – CEBRES.



sábado, 14 de dezembro de 2019

338. Humor Negro


Jober Rocha*



                                   Certo dia, ouvindo de um amigo, engenheiro eletrônico, a triste notícia de que ele teria que se submeter a uma cirurgia de urgência, perguntei-lhe do que se tratava. Respondeu-me, deprimido, que teria que substituir uma válvula cardíaca que já não funcionava tão bem como deveria. 
                                                          Após vários minutos de lamentações, meu amigo e eu nos despedimos contristados. Prometi orar para que a cirurgia tivesse sucesso e ele rapidamente se recuperasse.
                                                          Mais tarde, tomando uma dose de uísque e comendo uns salgadinhos, comecei a pensar que poderia haver, por detrás desta trágica notícia relatada pelo amigo, um certo humor negro partido da mente privilegiada do Criador; ou seja, daquele que tudo pode e que seria, em última análise, o causador de todas as nossas mazelas orgânicas e vicissitudes pessoais. Evidentemente, o nosso Criador que pode nos conceder benesses, também, pode retirá-las a qualquer momento ou enviar castigos terríveis, segundo dizem os sacerdotes.
                                                  Como possuo uma rara inteligência e um acendrado espírito humorístico, fiquei me imaginando na pele do Criador, na hora de ter de retirar algum benefício de suas criaturas; de enviar-lhes alguma desventura; de criar alguma dificuldade na vida daqueles que, tão somente por possuírem o dom da vida em determinada etapa da existência, julgam-se pequenos deuses eternos, seja por se considerarem muito poderosos, muito ricos, muito belos ou muito saudáveis. Não direi muito inteligente, pois este é o caso, apenas, de uma pequena minoria da qual felizmente faço parte e estou certo de que jamais nos consideraremos mini deuses eternos. 
                                                 Da mesma maneira como disse, no passado, aquele ídolo da esquerda sul - americana chamado Che Guevara, “Hay que endurecer sin perder la ternura”!, fico imaginando que eu, como Criador de todas as coisas, pensaria, talvez de forma semelhante, algo assim como “Hay que castigar las criaturas, sin perder el humor”!
                                            Desta forma, fazendo uso da minha grande imaginação e de um acendrado senso de humor negro, comecei a selecionar quais seriam as enfermidades e vicissitudes que eu, caso fosse realmente o Criador de todas as coisas, enviaria para determinadas criaturas minhas, que precisassem ser reorientadas para o rumo da humildade, da modéstia, da tolerância e da caridade, mediante o sofrimento físico ou então que, dada a gravidade do fato cometido e ao esgotamento do tempo de permanência destas criaturas no planeta, devessem se apresentar, imediatamente, através do desencarne, perante a minha divina presença.
                                          A seguir, apresento algumas enfermidades e vicissitudes (que representariam sofrimentos físicos, psíquicos e emocionais), com as quais eu, com todo o amor que carrego comigo, obsequiaria estas minhas criaturas, pois, como todos sabem, os seres humanos só aprendem pela via do sofrimento.
                                           Em se tratando, pois, de doenças, para um engenheiro eletrônico eu enviaria (da mesma forma como Ele fez com o meu amigo, cujo relato deu origem a este texto) um problema na VÁLVULA cardíaca.
                                            Para um advogado eu mandaria um PROCESSO inflamatório, agudo ou crônico dependendo do meu estado de humor na ocasião. Para um contador eu lhe tiraria a RAZÃO, mediante um desBALANÇO nas sinapses neuronais do cérebro. 
                                            Para um mergulhador eu o deixaria com ÁGUA nos pulmões, HIDROPSIA ou, se seus pecados fossem muito graves, dar-lhe-ia uma EMBOLIA pulmonar.  
                                               Um aviador seria, por mim, agraciado com crônica FALTA DE AR ou com alguma doença nas pernas que lhe retirasse a SUSTENTAÇÃO e o fizesse descer da ALTURA em que, orgulhoso da profissão, havia se colocado perante seus parentes e amigos.
                                                       Para um investidor eu pensaria em algo que, ao ser extraído de sua POUPANÇA, lhe retirasse parte dos FUNDOS, como, por exemplo, grandes hemorroidas. Motoristas e cobradores de coletivos seriam chamados à minha presença, imediatamente, após praticarem a chamada ROLETA russa. Um equilibrista de circo seria aquinhoado com um DESEQUILÍBRIO emocional. A um jóquei eu enviaria uma pneumonia GALOPANTE.
                                              Um engenheiro civil seria bem servido com duas ou três PONTES de safena. Um bombeiro hidráulico teria várias artérias ENTUPIDAS. Um caçador receberia, quando menos esperasse, uma doença que seria TIRO E QUEDA.
                                        Um perito policial sucumbiria de uma PERITONITE. Um analista de sistemas teria uma neuropatia que comprometesse o seu SISTEMA nervoso periférico. Um jogador, sem um diagnóstico clínico fechado, ficaria sendo JOGADO de um hospital para outro em busca da solução para o seu caso. Um cozinheiro cairia nas mãos de um profissional incompetente e relaxado, que ficaria meses COZINHANDO o seu caso ou, então, o cozinheiro poderia também vir a sofrer de uma neFRITE.
                                           Um cabeleireiro, acometido de grave distúrbio emocional, estaria sempre perdendo a CABEÇA. Um dentista que estivesse devendo no sistema de partidas dobradas celestial, isto é, que tivesse mais débitos espirituais do que créditos, jamais chegaria a pegar uma BOQUINHA em algum órgão do governo.
                                         Um mau militar, impatriótico ou mesmo traidor, sofreria de uma inCONTINÊNCIA urinária que o obrigaria a usar sempre um fraldão, CAMUFLADO sob a calça. A um pedreiro eu lhe presentearia com PEDRAS nos rins ou na bexiga. Um confeiteiro teria AÇUCAR no sangue. Um caldeireiro PRESSÃO alta. Um ferreiro problemas na CORRENTE sanguínea, como, por exemplo, carência de FERRO. Um oculista teria uma MACULA em seu passado. 
                                           A um procurador os médicos, finalmente, ENCONTRARIAM tumores espalhados pelo corpo. Um juiz perderia o JUIZO. A um camelô, os médicos não dariam nenhuma GARANTIA de que seria curado. Um jardineiro veria BROTAR chagas pelo corpo todo ou, então, enfrentar uma TUBERCULOse que estendesse suas RAÍZES pelos dois pulmões. Um lutador profissional teria, durante meses, que LUTAR CONTRA A DOR em um leito de hospital.
                                                     Um comerciante dono de ótica seria um neurÓTICO ou um psicÓTICO. Um borracheiro sofreria de flatulência, tendo que aguentar o CHEIRO de seus gases intestinais. Uma vendedora de cuscuz, da mesma forma que o investidor, poderia ter problemas de HEMORROIDAS ou uma FÍSTULA ANAL. 
                                                  Um motorista de caminhão teria uma CARGA GENÉTICA desfavorável que lhe causaria inúmeras moléstias. Um professor de Português, poderia ter uma grave hérnia de HIATO, CONSOANTE ao seu estado mórbido.  O empilhador iria acumulando uma DOR em cima da outra. 
                                                  E assim, eu seguiria fazendo uso do humor negro para castigar as minhas ovelhas desgarradas. O objetivo implícito nessa atitude seria, também, o de fazer com que as criaturas percebessem haver uma correlação entre os males físicos e psíquicos que as acometiam e as suas vidas, certamente impuras, que teimavam em levar de maneira desregrada e contra meus preceitos. 
                                                  Algumas, talvez, percebessem a relação de causa e efeito, outras, certamente, não a perceberiam. Todavia, o recado seria dado e aquelas que tivessem olhos para ver, veriam. 
                                                 Só não pensei no que fazer quando as ovelhas desgarradas se tratassem de escritores ou de escritoras. Pensando bem, na atualidade, como ninguém mais tem o costume de ler, os eventuais males que estes pudessem causar com os conteúdos dos seus textos seriam tão pequenos que é melhor deixá-los de lado, perdoá-los e fazer de conta que eles nem existem.

_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

337. Le Grand Chef de Cuisine


Jober Rocha*



                              Ele pertencia a uma tradicional família de políticos do interior do país sustentada, desde os tempos do império, por verbas oficiais. Grandes latifundiários que eram, eles nada cultivavam em suas terras. 
                                         Fazia ele, assim, parte de uma minoria de agricultores políticos que se limitava a desviar para as contas que mantinha em bancos, no país e no exterior, os recursos que recebia do governo anualmente, cuja destinação original deveria ser para o plantio e a colheita de leguminosas.
                                             A maior parte dos membros jovens da família nem estudava e nem trabalhava; ou seja, preparava-se para ocupar altos cargos na política. Os membros mais idosos da família já haviam encontrado seus caminhos como políticos, seja no próprio município, seja no Estado ou na Capital Federal.
                                                 Ele, tipo magro, pele muito branca, dedos finos e com longos cabelos negros, era bem diferente dos demais jovens da família. Diferia não só na aparência, mas, também, nos interesses e preferências: enquanto os rapazes da família, geralmente musculosos e queimados de sol, se interessavam por esportes, ele gostava de culinária. Enquanto as moças gostavam de rapazes e os rapazes gostavam de moças, ele preferia, sempre, a companhia de rapazes.
                                                Em certa ocasião, participando do banquete comemorativo da posse do avô como deputado federal, na Capital da República, ele teve a oportunidade de saborear iguarias muito finas, elaboradas por um grande mestre da culinária francesa contratado a peso de ouro pela família, com a verba de representação que o avô, antecipadamente, recebera do governo.
                                                 Após o lauto jantar ele foi à cozinha para conhecer o artífice daquelas maravilhas que provara. O ‘Chef’ era um tipo alto, magro, branco como ele mesmo e de olhos verdes, sonhadores, com quem nosso personagem se identificou logo ao primeiro contato.
                                                    Convidou o ‘Chef’ para visitá-lo na casa funcional do seu avô, na Capital Federal, onde parte da família estava hospedada, o que foi logo aceito por este, revirando os olhos verdes e exclamando: - Oui, mon cherry!
                                                 A partir de então eles eram sempre vistos juntos, pelas ruas e pontos turísticos da Capital Federal e das demais cidades no entorno da mesma. Aos poucos, pelas mãos do ‘Chef’ e amigo, ele foi introduzido nos segredos da difícil e sofisticada Culinária Francesa. 
                                                  Iniciou pelos pratos mais fáceis: Quiche Lorraine; Cassoulet; Coq au Vin; Ratatouille; Cuisses de Grenouilles; Fondue Savoyarde; Confit de Canard e Gratin Dauphinois.
                                                     Mais tarde passou aos pratos mais requintados: Limande à La Normande; Le Canard à L’orange; Poulett Marine et Grillé au Citron Vert, Poisson ao Court-Bouillon e Poulet à La Marengo; este último uma homenagem à Batalha de Marengo, travada contra os austríacos, em 1800, e vencida pelas tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte.
                                                    Os pratos que preparava, sob a supervisão do ‘Chef’, eram apreciadíssimos pelo restante da família (ainda de férias na Capital Federal, meses depois daquela posse do avô), que já pensava até em abrir um restaurante na própria capital, onde os parentes e amigos, alguns com mandatos populares naquela cidade, poderiam saborear os requintados pratos que seriam elaborados e, evidentemente, pagos com recursos de diárias e de verbas de representação. 
                                          Em breve, contando com financiamentos governamentais obtidos mediante a intervenção do avô deputado, um sofisticado restaurante foi inaugurado pela família às margens de um belo lago na Capital Federal, com vistas para a cidade, para os ministérios e para o palácio presidencial.
                                               O jantar de inauguração, ao qual compareceu toda a classe política, empresarial e do primeiro escalão governamental, foi, sem dúvida, noticiado previamente pelos principais periódicos locais.
                                                  Ele, naquela altura já sendo tratado como um novo ‘Grande Chefe de Cozinha’, fazendo uso da sua grande criatividade e querendo unir os costumes da culinária francesa às tradições regionais do seu país, superou-se na cozinha, fazendo adaptações, transformações e novas criações de sofisticadas receitas.
                                                     Assim é que ao iniciar-se o jantar, com todos os lugares ocupados pela fina flor daquela elite acostumada a comer bem às expensas de polpudas diárias recebidas dos cofres públicos, foram anunciados, em francês e na língua local, os pratos que seriam servidos.
                                                O ‘maître’, em um perfeito francês e também na língua local, anunciou: - Mesdames et messieurs, les plats que nous servons maintenant sont comme suit (Senhoras e senhores, os pratos que nós serviremos agora são os seguintes):

• Soup de Calango Vert au Citron (Sopa de Calango Verde ao Limão);
• Bouillon  Haricots (Caldinho de Feijão);
• Viande du Soleil au Beurre de Garrafe (Carne de Sol na Manteiga de Garrafa);
• Tarte de Seriguelas a L’anglaise (Torta de Seriguela à Inglesa);
• Chèvre Tripés a L’orange avec Phare de L‘Arrière-Pays (Buchada de Bode na Laranja com Farofa do Sertão);
• Queue de Boeuf aux Herbes de Provence Nord-Est (Rabada em Ervas Nordestinas);
• Bouillon Mocotó avec Cuisses de Grenouilles dês Vallées Humides (Caldo de Mocotó com Coxa de Rã dos Vales Úmidos).
Les desserts son (As sobremesas são)
• Macaxeira Jumbo Sauce Champagne (Macacheira Gigante ao Molho de Champanhe);
• Sucre Brun de Canne à Sucre (Rapadura de Cana).
Les apéritifs son (Os aperitivos são):
• Petite Femme de La Campagne (Caipirinha);
• Battre de Fruit de La Passion (Batida de Maracujá);
• Battre Arachide (Batida de Amendoim);
• Vin de La Région Rugueuse (Vinho do Agreste);
• Bière a La Pression (Chopp);
• Réfrigérants (Refrigerantes);
• L’eau Minérale Naturelle dês Sources de L’arrière-Pays (Água Mineral Natural de Fontes do Sertão).

                                                Aqueles importantes convidados da corte, ao ouvirem a descrição, na língua local, dos pratos, das sobremesas e dos aperitivos que seriam servidos, começaram a se levantar e a caminhar em direção a porta de saída. Todos eles, com seus telefones celulares de quinta geração ao ouvido, chamavam os motoristas dos veículos oficiais que os serviam, diuturnamente, na Capital Federal. 
                                              O único e magistral erro do nosso ilustre personagem e ‘Grande Chefe de Cozinha’, tardiamente por ele percebido, foi o de querer que o ‘maître’ traduzisse os nomes dos pratos do francês, que ninguém entendia mas admirava, para a língua local, que ninguém admirava, mas que todos entendiam, alguns mais e outros menos; já que muitas daquelas autoridades possuíam apenas o primeiro grau. 
                                               Se o ‘maître’ tivesse apenas mencionado os nomes franceses dos pratos, das bebidas e das sobremesas, aquela teria sido, certamente, mais uma noite gastronômica maravilhosa na Capital Federal. Ao ouvirem os nomes em francês, sem entender seus significados, nem imaginariam que iriam comer calangos, rãs e mocotós.
                                                 Ao ouvirem os nomes dos pratos na língua local, todavia, sentiram-se todos ofendidos e desprestigiados em razão dos altos cargos que ocupavam na corte, com a apresentação, no jantar de inauguração de tão sofisticado restaurante, daqueles simples pratos de consumo popular dos habitantes do sertão. Muitas autoridades diziam até que providenciariam a cassação do alvará de funcionamento daquele estabelecimento, que se atrevia a servir Sopa de Calango e Coxa de Rã dos Vales Úmidos.
                                                 Ele, muito nervoso, gritava aos quatro cantos da casa, entremeando palavras francesas a língua local, afirmando que havia sido ultrajado, insultado, afrontado e desconsiderado por aqueles convidados que se retiravam.
                                           Dizia que eles não haviam respeitado os direitos humanos que ele possuía de tentar fazer, a sua maneira, a união da culinária francesa à culinária do sertão; que haviam sido preconceituosos com uma minoria de mestres cozinheiros, inovadores como ele, que trabalhavam a serviço do desenvolvimento da gastronomia nacional e internacional. Tudo em vão. Os clientes foram todos embora profundamente ofendidos.
                                                  Assim é que meses depois daquele evento qualquer viajante, se deslocando ao serviço público, privado ou mesmo em visita de turismo à Capital Federal, que passasse pelas margens do belo lago veria o mato crescendo e as paredes descascadas em redor daquele que prometia ser um dos grandes restaurantes da cidade.
                                               O Grande Chefe de Cozinha, tendo retornado à sua cidade natal, passou a ocupar seus dias na ociosidade, como sempre fizeram seus irmãos e primos, aguardando, finalmente, que chegasse a sua vez na fila da sucessão política local.
                                             Uma ou outra vez, quando o desejo aumentava muito, ele ia para a cozinha e preparava uma suculenta ‘Viande Séchée avec de La Citrouille’ (Carne Seca com Abóbora), que saboreava com prazer, na companhia de alguns parentes mais chegados, trajando uma rica vestimenta de ‘Chef de Cuisine’, com a gola e os punhos bordados por famosas costureiras locais e calçando tamanquinhos importados do Marrocos.


_*/ Economista e Doutor pela universidade de Madrid, Espanha.





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

336. A Fama e a Fortuna


Jober Rocha*



                                 Durante o período em que trabalhei como médico em um hospital público, eu soube de uma estória simplesmente inacreditável. 
                                           Um colega de trabalho, até então um médico sério e respeitado dentro daquele hospital, a partir de determinada ocasião passou a faltar aos plantões, a não ter mais interesse pelos casos médicos e, sobretudo, a contar sempre uma mesma estória fantástica. 
                                         Sua narrativa, que passarei a expor aos leitores da forma como dela me recordo, era, basicamente, a seguinte:
Em um dia chuvoso estava ele de plantão na emergência daquele hospital no qual, da mesma forma que comigo ocorria, trabalhava mais por caridade do que por necessidade. 
                                           Era um cirurgião geral com certa prática, já tendo vários anos de formado. A manhã tinha transcorrido normal, com alguns casos de pessoas mordidas por cães, pernas e braços quebrados, cortes e machucados superficiais.
                                           Na parte da tarde, quase ao findar o seu plantão, deu entrada na emergência um indivíduo que havia sido recolhido na via pública, possivelmente após ter sido atropelado. 
                                       Ao lhe auscultar o coração, o médico não percebeu nenhum batimento; embora percebesse que o paciente estava vivo e se mexendo. Procedeu, então, a uma massagem cardíaca, a respiração boca a boca e à aplicação do aparelho desfibrilador; porém, o coração não respondia a nenhum estímulo, embora o paciente continuasse vivo e se movimentando. 
                                          Resolveu, então, rapidamente, abrir-lhe o peito para, através de uma cirurgia exploratória, averiguar as reais condições de seus órgãos internos.
                                              À medida que abria o peito, de alto a baixo, notou que os órgãos do indivíduo eram totalmente diferentes daqueles dos seres humanos que ele tão bem conhecia e estavam localizados em posições totalmente diversas. 
                                                    Todo o seu interior era diferente: veias, nervos, tendões. O próprio coração, que era duplo, possuía forma quadrada e localizava-se próximo ao abdômen. Possuía apenas um pulmão, localizado ao lado, na posição do fígado. 
                                                A própria coloração dos órgãos era, também, diferente; alguns azuis e outros verdes. O sangue era de cor amarelada. 
                                              Surpreendido, imaginou, inicialmente, tratar-se de um fato raríssimo na medicina, que poderia acarretar-lhe fama e fortuna se soubesse explorar com inteligência o caso, divulgando-o em congressos e revistas científicas, com fotos exclusivas. Poderia, ainda, tratar-se aquele de um ser alienígena e, neste caso, o seu nome passaria para a História Mundial como o primeiro ser humano a, comprovadamente, fazer contato com um extraterrestre.
                                                 Como seu plantão já havia terminado, resolveu não dizer nada a ninguém, fechar o talho aberto e deixar o paciente internado durante aquela noite, para, no dia seguinte (tendo durante a noite pensado com calma sobre os detalhes de como deveria proceder), tomar as medidas necessárias à divulgação do fato, tanto junto à imprensa, de um modo geral, quanto junto ao meio científico, de um modo particular. 
                                             A noite inteira não conseguiu dormir, pensando nas implicações da descoberta que havia feito e em como poderia tirar o melhor proveito de todo aquele acontecimento. 
                                                 Pela manhã, já sabendo como deveria proceder, dirigiu-se ao hospital à procura do paciente. 
                                            Não conseguindo localizá-lo, de imediato, perguntou a um acadêmico de serviço, naquela hora, sobre o seu paradeiro. Este, ainda sonolento, respondeu, calmamente: - O paciente acabou de levantar-se do leito e tomou o elevador no final do corredor!
                                               Em desabalada carreira ele desceu os dois lances de escada até a portaria. Lá, perguntando ao segurança, soube que o paciente havia saído junto com dois outros indivíduos que pareciam seus irmãos gêmeos, tal a semelhança física e os trajes iguais que usavam. 
                                              Ele ainda percorreu correndo várias ruas das imediações; porém, a sua “fama e fortuna” já havia desaparecido em alguma daquelas vielas sujas do bairro. 

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 8 de dezembro de 2019


335. Um Conto de Natal


Jober Rocha*




                               O episódio que passarei a narrar teve início na véspera do dia de Natal do ano de 19xx, na cidade de Y, no Estado de Z.
                                           De tão inusitado que me pareceu, ao dele tomar conhecimento, a princípio não acreditei em sua veracidade. Pouco tempo depois, porém, após conhecer a sua principal protagonista, pude constatar que o fato era a mais correta expressão da verdade, pois se tratava de pessoa íntegra, honesta e inocente.
                                           Na época em que tal fato se deu, a personagem principal possuía apenas quatorze anos e era estudante de uma escola pública do município.
                                             Embora uma menina esperta e inteligente, todavia, jamais havia ido sozinha ao centro da cidade. Filha única, ela residia com os pais em um bairro pobre na periferia da cidade. Estudava no Ensino Fundamental, em uma escola pública próxima de sua casa.
                                            Na véspera do Natal daquele ano, pensando em adquirir um presente para os pais, saiu de casa mais cedo, para uma simples ida ao Centro da Cidade onde compraria os presentes que imaginara, em falta nas poucas lojas do bairro.
                                                Tomou um ônibus que por ali passava achando que ele ia para o Centro; porém, após rodar quase meia hora por lugares totalmente desconhecidos para ela, não tendo o veículo chegado ao Centro, ela indagou a razão ao motorista. Este afirmou que aquele ônibus não ia para o Centro e pediu que ela descesse e apanhasse outro. 
                                            Pegando outro ônibus, após mais meia hora rodando, foi novamente informada pelo motorista do novo coletivo para que descesse e apanhasse outro, pois aquele veículo também não passava no Centro da Cidade.
                                            Já fazia duas semanas que ela trocava de ônibus, constantemente, sem conseguir chegar ao seu destino, isto é, o Centro da Cidade. Como, felizmente para ela, estava com uniforme de colegial não pagava passagem.
                                                  Os dias e as noites se sucediam infindáveis, sem que ela chegasse ao seu destino. Havia sofrido em pé, durante intermináveis períodos, ora sob um calor infernal ora sob frio intenso, em estradas engarrafadas, em pistas alagadas, em caminhos enlameados. Andava em ônibus vazios, cheios e lotados.
                                                            Um dia, notou que a menstruação não havia vindo aquele mês. Mais alguns meses se passaram, até notar que sua barriga crescia e que havia movimentos lá dentro.
                                           Pensou consigo mesma, enquanto aguardava o sinal vermelho abrir para que o veículo pudesse prosseguir: - Será que foi naquele engarrafamento, quando o ônibus estava lotado e eu fiquei imprensada entre aqueles dois matutos baixinhos?
                                                A barriga crescia a olhos vistos e agora, felizmente, os demais passageiros já lhe davam lugar para sentar naqueles ônibus lotados.
                                               Por volta do oitavo mês de gravidez, ao passar sob um viaduto, observou uma placa rodoviária, onde conseguiu ler:

São Gabriel da Cachoeira - Estado do Amazonas – Centro da Cidade – Distância 15 KM.

                                                  Resolveu descer logo após transcorridos os 15 quilômetros mencionados na placa, pois, pelo menos, constatou que havia chegado a um Centro de Cidade e aqueles solavancos da estrada de terra a incomodavam bastante, fazendo com que a criança se movesse dentro da sua barriga.
                                        Atendida no Posto de Saúde local onde procurou auxílio, teve o bebê ali mesmo naquele posto. A criança era bastante saudável e, na realidade, ela constatou que o seu filho, realmente, possuía traços de ambos os mencionados matutos baixinhos daquela viagem lotada, entre os quais ficara imprensada.
                                                   Uma enfermeira do Posto de Saúde, compadecida de suas desditas, ofereceu-lhe a residência na periferia de São Gabriel da Cachoeira para que ficasse algum tempo, até o bebê crescer um pouco mais e poder viajar com a mãe.
                                              Meses depois, ela necessitando ir ao centro de São Gabriel da Cachoeira com o filho pequeno para comprar fraldas, tomou um ônibus; logo depois outro, a seguir mais outro e, aproximadamente oito meses depois, chegou ao Centro da Cidade de Y, no Estado de Z, seu local de origem.
                                                 Ao dirigir-se à casa dos pais com aquele bebê no colo, enquanto seguia caminhando pelas ruas, pois foi a pé para casa por razões de segurança, pensava temerosa: - Eles não vão acreditar em mim. Vão me expulsar de casa e, o que é pior, eu não comprei os presentes de Natal deles!
                                            Tempos depois deste episódio, vim a conhecê-la em uma feira caipira na Cidade, feira está a qual ela sempre frequentava, com um amigo, na esperança de algum dia encontrar aqueles dois matutos baixinhos e pleitear a pensão alimentícia de filho. O amigo, que com ela ia sempre à feira, acabou por se enamorar e lhe propôs casamento.
                                                   Querendo assumir integralmente a paternidade da criança, ele combinou de se casarem em cerimônia simples numa pequena capela na própria Cidade de Y.
                                                         No dia marcado para o enlace chegou cedo à capela, quase junto com os padrinhos e convidados. Com o passar do tempo, como ela tardasse a chegar, ligou para os seus pais.
                                                   Estes, ainda em casa, afirmaram que ela havia saído de manhã bem cedo, para, em uma simples ida ao Centro, comprar alguma coisa para a cerimônia do casamento e, até àquela hora, ainda não havia retornado.
                                                  Recentemente o noivo recebeu uma carta dela, postada no correio da Cidade de Tarauacá, na fronteira do Acre com a Colômbia, dizendo que esperava baixarem as águas do rio que banhava a cidade para poder, em uma pequena canoa, navegar até o município vizinho, distante dali cerca de trinta léguas, de onde tentaria apanhar um ônibus com destino à Cidade de Y
                                                  Já faz seis meses desde o fatídico dia em que o noivo recebeu aquela carta e, como este assunto é tão estranho, imaginei compartilhá-lo com os meus leitores; pois, pode ser que algum deles, eventualmente, venha saber do atual paradeiro dela e possa ajudar-me a encontrá-la, para, finalmente, dar um pouco de tranquilidade ao noivo e aos pais dela.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.