quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018


170. Os Protocolos dos Sábios do Brasil**


Jober Rocha*


                                  Uma entidade esotérica, de abrangência mundial e com atuação histórica destacada em nosso país, preocupada com a situação de degradação econômica, militar, psicossocial e política do Brasil, resolveu formar um conselho de sábios (segundo os dicionários, um grupo de pessoas apontado ou eleito como corpo consultivo e/ou deliberativo e/ou administrativo, seja de atividades públicas, seja de atividades privadas) constituído apenas por brasileiros, para que sugerissem, à mencionada entidade, as ações necessárias (a serem incentivadas de forma velada, mediante a influência que a entidade podia exercer, na vida pública e privada, através da ação de seus membros, patriotas dedicados e homens honestos), objetivando consertar tudo aquilo que existe de errado por aqui e que, de maneira inexorável, está conduzindo o nosso país ladeira abaixo no Concerto das Nações, visto que, na atualidade, já somos considerados como um dos países mundialmente mais fracos em termos de educação, saúde, saneamento, segurança pública, transporte público, etc. 
                                                 O conselho, formado por pessoas externas à organização e consideradas de notório saber, após seis meses de deliberações, deveria produzir um documento final que contivesse todas as diretrizes necessárias ao alcance do objetivo proposto. 
                                                 O documento em apreço (após muita discussão anterior acerca do seu título), em sessão onde, finalmente, houve unânime consenso, teria o pomposo nome de "Os Protocolos dos Sábios do Brasil", em alusão a um documento similar muito mais antigo. O texto encomendado ao conselho de sábios, embora para ser utilizado pela direção da organização, também poderia subsidiar a ação de políticos, de executivos e de empresários que, eventualmente, pertencessem àquela entidade esotérica.
                                                 Tendo escolhido o título do documento que produziriam, os sábios passaram, então, a discutir por qual dos setores, dos quatro mencionados anteriormente, dariam inicio, primeiramente, às suas análises.
                                                  Escolheram o setor político, por ser aquele que mais influência vinha exercendo sobre a degradação dos demais e por ser, também, o que mais males estava causando à nação, de uma maneira geral. 
                                                O segundo setor a ser abordado foi o econômico, desestruturado que estava em razão de episódios generalizados de corrupção, superfaturamento de obras, desvio de recursos públicos, políticas equivocadas, má gestão de empresas públicas, etc. 
                                                A seguir preocuparam-se com o setor psicossocial, no qual, em razão da falência do sistema de segurança pública e de carências sociais imensas, o país estava a um passo da guerra civil, com o rompimento do Contrato Social e o risco de convulsões sociais graves. 
                                                  Finalmente dedicaram-se a análise do setor militar, enfraquecido este por sucessivos governos, que nele viam possível inimigo às suas sanhas avassaladoras pelo desvio de recursos públicos.
                                                        O documento final (ao qual eu tive acesso em razão de um primo distante, do cunhado da minha finada tia, pertencer à entidade esotérica patrocinadora dos referidos protocolos e me haver cedido cópia do mesmo, sob o compromisso de não divulgá-lo jamais), foi por mim bastante sintetizado. Todavia, resolvi divulgá-lo de forma resumida, em que pese promessa feita a ele, porque julguei mais importante alertar os meus fiéis leitores para a grave crise que vivemos e para as propostas  de solução dos sábios brasileiros, do que padecer para sempre no fogo do inferno por violar juramento feito. Em resumo, os protocolos tratavam do seguinte:

Resumo dos Protocolos dos Sábios do Brasil


                                               "Em virtude da atual fragilidade de todos os poderes brasileiros, nosso poder de homens de bem será mais duradouro do que qualquer outro, porque será invencível no momento em que estiver tão enraizado que nenhuma astúcia maligna o poderá destruir...
                                              Temos diante de nós um plano, no qual está exposta estrategicamente a linha de que não podemos nos afastar, sem correr o risco de ver destruído o trabalho de muitos meses.
                                      Nosso futuro presidente, nossos futuros governadores, nossos futuros prefeitos, nossos futuros senadores, nossos futuros deputados e nossos futuros vereadores deverão ser de exemplar inatacabilidade e possuir, todos eles, fichas limpas na justiça, para que possamos alcançar os nossos objetivos nacionais aqui propostos, que objetivam colocar o país no rumo certo; rumo este que havia sido perdido em decorrência da má gestão de sucessivos governos anteriores.

                                               Após meses de intensas discussões chegamos às seguintes proposições (de caráter geral e que visam colocar o país no rumo que havia perdido, conforme mencionado, em decorrência de má administração e do desvio de recursos públicos em grande escala), que passamos a destacar:

I. Para o Setor Político

                                                   É consenso generalizado entre nós sábios, que a função política não é um emprego, mas uma colaboração cidadã ao Município, Estado e ao País; da mesma forma como assim pensam os cidadãos da maioria dos países desenvolvidos. Em virtude deste fato, qualquer candidato eleito não deverá ter um salário correspondente a sua função política, nem se aposentar nesta função. 
                                                  As despesas, exclusivamente necessárias ao desempenho de suas funções, serão cobertas pelo governo, que, todavia, manterá o seu salário de origem (quando o político estiver empregado antes de se eleger), a título de indenização, pelo prazo de duração do mandato, proibida a reeleição. Este salário indenizatório não poderá ultrapassar o valor de dez salários mínimos, mesmo que o eleito ganhe quantia mais elevada na vida privada, pois consideramos a política como uma vocação e não como um meio de vida. 
                                               Sua aposentadoria será feita através da Previdência Social. Do salário que receber mensalmente do Estado, como indenização, enquanto permanecer no mandato, ele custeará as suas despesas pessoais e as de seus familiares (moradia, transporte, alimentação e educação). 
                                                Em caso de enfermidades usará o Sistema Único de Saúde, caso não disponha de plano de saúde privado. Em síntese, o político eleito deverá ser tratado como qualquer cidadão brasileiro, sem nenhuma exclusividade ou privilégio pelo fato de representá-los, o que, estamos certos, ele faz por vocação e não por querer vantagens indevidas ou qualquer tipo de enriquecimento. 
                                                Será vedado a qualquer político eleito ocupar cargo executivo em ministérios, secretarias, governos estaduais, etc. Caso queira, deverá renunciar ao cargo para o qual foi eleito.


II. Para o Setor Econômico (Público e Privado)


                                                 Os juros bancários não poderão ser superiores a taxa de 2,0%, como aquelas que são praticadas na maioria dos países desenvolvidos. 
                                                   Deverá haver a substituição de todos os tributos por apenas um, sobre movimentação financeira, cobrado sobre cada parte de uma transação bancária, isto é, sobre o débito e sobre o crédito. 
                                                  A abertura e o fechamento de firmas comerciais e de serviços; as contratações e as demissões de empregados; as importações e exportações de mercadorias; as concorrências públicas e as compras do Estado; deverão ser totalmente desburocratizadas. 
                                                   No entanto, descoberta alguma fraude ou falsidade ideológica, a punição para o fato deverá ser implacável, com a prisão dos responsáveis por prazo bem longo, de modo a desestimular tais iniciativas.
                                                       Empresas grandes e médias empregadoras de mão de obra, tanto nas cidades quanto no campo, deverão contar com incentivos governamentais de várias ordens.
                                                    O governo elaborará planos estratégicos setoriais, de curto, médio e longo prazo, que extrapolarão governos e que deverão ser seguidos à risca por todos eles, sob pena de prevaricação dos responsáveis.
                                               Todas as operações de financiamento, concedidas pelo Estado ou por Empresas Públicas de caráter financeiro, deverão ser lastreadas em garantias reais e não mais em outros tipos de garantias de difícil ou impossível realização no caso de inadimplência.
                                                         Má gestão de empresa pública ou gestão temerária, que envolva episódios comprovados de corrupção ou de desvio de recursos, deverão ser enquadradas como crimes hediondos e, consequentemente, inafiançáveis.
                                                        A administração pública federal não poderá ultrapassar o número máximo de quinze ministérios e o total de servidores ministeriais não poderá ultrapassar o efetivo de 350 mil, já incluídos os cargos comissionados. Os Estados da Federação  e os Municípios deverão fazer um corte de pessoal da ordem de vinte por cento, acabando com as funções comissionadas e gratificadas, até que passem a vigorar superávits anuais sucessivos em suas finanças.
                                                       Os governos municipais, estaduais e federais não poderão gastar mais do que arrecadam (lei a este respeito já existe, mas não é cumprida). Os responsáveis, caso isto ocorra, deverão responder por crimes hediondos e inafiançáveis.
                                                        Os preços dos produtos da cesta básica não poderão sofrer elevações que ultrapassem a inflação do período compreendido desde a data do último aumento.

III. Para o Setor Psicossocial


                                               Todo indivíduo que for encontrado portando ostensivamente fuzil de guerra ou arma de uso restrito, sem ser membro das forças policiais ou militares (salvo os casos de colecionadores, caçadores e atiradores, devidamente legalizados e registrados nos órgãos competentes), deverá ser automaticamente abatido pela autoridade policial ou militar que constatar o fato. 
                                                       Toda ação de saque a estabelecimento comercial será reprimida a bala pelas forças policiais. Todo indivíduo preso, a critério da autoridade que efetuou a prisão, deverá ser conduzido algemado até a autoridade judiciária. A corrupção e o desvio de recursos públicos serão considerados crimes hediondos e punidos como tal.
                                                        Qualquer pessoa que assassinar um policial ou um militar no exercício de suas funções, será condenada à prisão perpétua ou à pena capital, que deverão ser implantadas o mais rápido possível no país, em virtude da situação de convulsão social já existente em diversos Estados da Federação, com a morte diária de policiais assassinados por marginais.

IV. Para o Setor Militar


                                                     Considerando a nossa estratégia militar de defesa, segundo a qual nos guiamos pelos princípios constitucionais da não intervenção, da defesa da paz, da solução pacífica dos conflitos e da democracia; bem como, em razão da escassez atual de recursos, da extensão do nosso território (rico em bio diversidade e em minerais estratégicos) e das nossas extensas costas marítimas (ricas em petróleo), ambos objetos da cobiça internacional, propomos que as nossas forças armadas priorizem as seguintes atividades:

Marinha de Guerra – Aquisição de submarinos convencionais e movidos a propulsão nuclear, em número suficiente para guarnecer e defender o nosso litoral marítimo. Aquisição e desenvolvimento de satélites espaciais que monitorem todo o litoral marítimo do país, até o limite de nosso mar territorial.  Desenvolvimento de alternativas nacionais aos sistemas de localização e de posicionamento, dos quais o país e as suas forças armadas dependem. Manutenção de uma Guarda Costeira, composta por embarcações velozes e bem armadas, objetivando reprimir o contrabando, a pirataria, o tráfico de drogas e a entrada de imigrantes clandestinos. O Corpo de Fuzileiros Navais deverá estar presente com maior intensidade na região da foz do Rio Amazonas e nas grandes bacias fluviais do Amazonas e do Paraguai-Paraná.

Exército Brasileiro - Aquisição e desenvolvimento de baterias de mísseis de curto alcance (até 1.000 km), de médio alcance (de 1.000 a 2.500 km) e de alcance intermediário (2.500 a 3.500 km), a serem instaladas em toda a costa brasileira. Fabricação de veículos lançadores de satélites e dos respectivos satélites de baixa e de alta altitude, sobretudo de satélites geoestacionários de múltiplos usos. Manter e expandir o serviço militar obrigatório, selecionando-se os jovens conscritos segundo os critérios de: vigor físico, aptidão manual e capacidade intelectual. Deverá ser considerado, ademais, o fato de que todas as classes sociais precisam estar representadas na força. Aumentar a defesa da região amazônica e de suas fronteiras, encarada, na atual fase por que passa o país, como o foco de concentração das diretrizes de monitoramento e mobilidade da força, fortalecendo-se os quartéis e organizações militares da região.

Força Aérea Brasileira – A prioridade deve ser a da vigilância aérea do território nacional e do mar territorial. A Força Aérea deverá possuir plataformas e sistemas próprios para monitorar, para combater e transportar pessoal e equipamentos, notadamente na região amazônica. Deverá ser incentivada a produção de veículos lançadores de satélites, de aviões de inteligência e dos respectivos aparatos de visualização e de comunicações, que estejam sob integral domínio nacional.

Considerações finais dos Protocolos


                                        Estas medidas propostas, de caráter geral, visam proteger o país, interna e externamente, e trazê-lo de volta ao rumo certo, devendo ser seguidas pelos novos mandatários a serem eleitos em futuro próximo. Embora estas propostas tenham sido a nós encomendadas por uma sociedade esotérica, para seus fins particulares, somos de parecer que deveriam ser intensamente divulgadas para os eleitores brasileiros, alertando-os para as nossas prioridades e para que elegessem políticos com elas compromissados.
                                               Reconhecemos que somente através de uma liderança honesta, carismática e desinteressada das coisas materiais, conseguiríamos vencer os anos de má gestão e de apropriação particular indevida dos recursos públicos, que temos vivido nas mãos de governantes inescrupulosos e incompetentes. 
                                               Não existem palavras para definir como este libertador do país, da miséria, da dependência, do subdesenvolvimento material de sua sociedade, e mental de sua gente, seria ovacionado pelas gerações vindouras, cujos pais e avós sofreram, e têm sofrido, sob o governo de políticos como estes mencionados. Quem se negaria a abrir as portas ao libertador? Quem se recusaria a obedecê-lo? Que brasileiro deixaria de brindar-lhe a sua lealdade e a sua admiração? 
                                                Muitos políticos no passado, como falsos messias, já se arvoraram em libertadores da pátria e em redentores da pobreza no nosso país; mas os inquéritos policiais em curso demonstraram que, através da fraude em concorrências, do simples desvio de recursos públicos e da concussão, apenas conseguiram libertar as suas próprias famílias da pobreza em que jaziam secularmente.
                                                    Urge, pois, procurar com uma lanterna, como fazia o filósofo grego Diógenes, este honesto salvador da pátria; já que, como disse Petrarca em seus versos (que adaptamos para o Brasil):

Vertù contra furore   
(O valor tomará armas contra o furor)
Prenderà l’arme, e fia combatter corto   
(Que a luta se espraie bem depressa)
Chè l’antiquo valore     
(Pois a coragem antiga) 
Ne brasiliano cor non é ancor morto  
(Ainda não morreu no coração dos brasileiros)"




_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Conto  de humor (ficção)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018


169. Todos nós, seres humanos, queremos as mesmas coisas...**


Jober Rocha*


                                  Os seres humanos, da mesma maneira que os animais, são caracterizados por possuírem comportamentos previsíveis, em razão dos seus instintos. Assim é que a Etologia, ciência que estuda o comportamento das espécies animais (aí incluída a espécie humana), utiliza modelos e conceitos teóricos para a interpretação dos fenômenos que caracterizam seu objeto, enquanto disciplina científica. Os principais temas com os quais esta ciência se ocupa, são:

- A evolução do comportamento dos animais;

- O relacionamento entre os animais, de uma mesma espécie, que vivem em grupos (famílias) ou isolados;

- O comportamento dos animais com as mudanças que ocorrem na natureza (aquecimento global, secas, alagamento de regiões, etc.)

- A relação entre as diversas espécies animais, na natureza;

- O relacionamento e o comportamento dos animais com os seres humanos, em diversas situações;

- A utilização de resultados de experiências com animais para o avanço de pesquisas sobre o comportamento humano.

                                           A concepção etológica do ser humano é a de um ser biologicamente cultural e social, cuja psicologia se voltou para a vida sociocultural e para qual a evolução criou preparações biopsicológicas específicas.
                                         Outras ciências, como a Psicologia, o Marketing, a Inferência Estatística, as Ciências Atuariais, o Cálculo de Probabilidades, a Teoria dos Jogos, as Pesquisas de Mercado e de Opinião, fazendo uso de conhecimentos etológicos, tentam se antecipar, prevendo fatos e eventos psicossociais futuros, através do estudo de cenários alternativos simulados.

                                             Entretanto, devemos estar sempre atentos, pois, tudo aquilo que no comportamento humano é de ordem psicológica, está sujeito a anomalias profundas, apresentando paradoxos a todo instante; isto é, no repertório da conduta humana, devemos incluir todas as possibilidades de crimes, patologias e contravenções às próprias leis socialmente estabelecidas. 
                                          Voltando ao tema deste ensaio, é fácil perceber que, de uma maneira geral, todos nós, seres humanos, desejamos as mesmas coisas, coisas estas que podem ser traduzidas por: saúde, segurança, afeto, proteção, habitação, comodidade, alimentação, vestuário, informação, cultura, educação, emprego, transportes e lazer, apenas para ficar por aqui e sem nos aprofundarmos muito.
                                               Ocorre que, notadamente naqueles países menos desenvolvidos e do chamado Terceiro Mundo, para adquirirmos tudo o que de básico nós necessitamos (e tudo aquilo que, de supérfluo, a Mídia com a publicidade e a propaganda nos faz desejar), faz-se preciso, em primeiro lugar, que tenhamos dinheiro. Mas, como ter dinheiro, sem emprego? Mesmo para aqueles que possuem algum tipo de emprego, os montantes necessários para adquirir tudo o que desejam, na qualidade e quantidade de que necessitam, para a maioria deles, jamais poderá ser alcançado ou, se acaso o for algum dia, somente ocorrerá no final das suas vidas, em razão dos baixos níveis salarias da maioria das populações.
                                                Toda esta situação, que quase sempre não existe para os habitantes dos países desenvolvidos do Primeiro Mundo, se deve ao fato de o Estado, nos países pobres periféricos (por razões várias, dentre elas destacando-se a malversação de recursos públicos), não prover saúde, transporte, segurança, habitação, etc. em níveis adequados de qualidade e de quantidade, razão pela qual estas necessidades têm que ser supridas com recursos próprios dos cidadãos.
                                                 Considerando então os comportamentos humanos, das pessoas que vivem em comunidades urbanas (e que são objeto de estudos da Psicologia e da Etologia), nós constatamos, que: 

1. Em síntese, todos os seres humanos desejam as mesmas coisas;
2. Os seus comportamentos, frente a situações comuns, são os mesmos;
3. As leis e o aparato do Estado existem para reprimir os delitos tipificados como crimes;
4. Anomalias e paradoxos, no comportamento humano, ocorrem e, em grandes contingentes populacionais, tenderão a ser percentualmente elevados;
5. Os níveis de carência, de toda ordem, das populações de países do Terceiro Mundo são altos e com tendência crescente, face as altas taxas de natalidade;
5. As técnicas de propaganda e publicidade, fazendo uso de conhecimentos científicos, incentivam as pessoas a consumirem e a comprarem;
6. Para comprar algo é necessário dinheiro;
7. Existem diversas formas de se obter dinheiro: trabalhando honestamente; conseguindo uma sinecura, um apadrinhamento ou um nepotismo na administração pública; especulando; se corrompendo; furtando; roubando; vendendo produtos proibidos por lei; etc;
8. Existem diversas formas de se fazer o dinheiro render mais: aplicando-o a juros; praticando agiotagem; especulando; regateando na compra; adquirindo produtos furtados, roubados ou contrabandeados; furtando água, luz, sinais de TV e de Internet de concessionários de serviços públicos; etc.
                                                     Quando as leis de um país são rigorosas e os três poderes se caracterizam pela honestidade, pelo patriotismo e pelo espírito de servir ao povo, seus patrões, as carências populares tendem a diminuir; pois, o Estado cumpre o seu papel de provedor de infra-estrutura social; o povo, em geral, não viola as leis, e as anomalias e os paradoxos que surgem são punidos com severidade. Os cidadãos, neste caso, tendo o básico de que necessitam, suprem o supérfluo de que precisam com os seus recursos próprios, adquiridos de forma honesta e dentro da lei.
                                               Quando as leis são fracas e os subterfúgios  legais nas suas aplicações são muitos, quando os três poderes não se destacam pela honestidade, pelo patriotismo e pelo espírito de servir ao povo; ademais de o Estado não cumprir o seu papel de provedor de infra-estrutura social, uma grande parcela da população viola as leis  em busca da satisfação de suas necessidades (pois tais violações são, em geral, tratadas com benevolência nas várias instâncias da justiça), seguindo o exemplo que vem de cima, das próprias autoridades envolvidas em ilícitos penais. Os cidadãos, neste caso, desempregados ou empregados com salários vis, costumam adquirir o básico e o supérfluo de que necessitam através do furto, do roubo, da fraude, da corrupção, da aquisição de cargas roubadas, da compra de produtos contrabandeados, etc. Nas comunidades carentes do Rio de Janeiro é prática corrente o furto de luz; de sinais de TV à cabo e de internet; da compra de cargas roubadas, etc.
                                             O fato é que todos os indivíduos desejam consumir e o freio da religião, da moral e dos bons costumes não é suficiente, neste caso, quando o Estado é fraco e os três poderes são lenientes com o crime nas altas esferas e, por conseqüência, também nas baixas. Muitos, ao serem apanhados cometendo estes crimes mencionados, afirmam: - Faço o que todos fazem. Se não for eu será outro a fazer!
                                                 Assim, meus caros amigos leitores, como não existem efeitos sem causas, conforme preconizava Voltaire, a razão para os altos índices de criminalidade ocorridos em nosso país, tem as suas causas no fato de nós, seres humanos, desejarmos as mesmas coisas; nas carências não supridas pelo Estado; no incentivo ao consumo promovido pela Mídia, em geral e na leniência das autoridades com o crime nas altas e nas baixas esferas; sem contar, evidentemente, com as anomalias e paradoxos no comportamento humano que levam muitos indivíduos a cometerem os crimes mencionados, mesmo não tendo as carências de que são vítimas a maioria das populações (é o caso dos chamados crimes do colarinho branco, onde o motivo não é a necessidade premente).
                                              Ao contrário de outros povos, não sujeitos aos mesmos condicionamentos, muitos indivíduos, pela necessidade ou pelo exemplo, resolvem violar as leis (em razão da grande impunidade e da leniência com os crimes e com os criminosos; quando, como por exemplo, políticos condenados não perdem o mandato e nem o salário) na ânsia de consumir, não hesitando em praticar atos ilegais tipificados como crimes. 
                                             Alguns leitores, com base na Etologia e na Psicologia, ao compreenderem as forças que movem as pessoas para determinados caminhos, podem, até, aceitar a explicação para estes tipos de crimes e justificar os comportamentos dos criminosos. Ocorre que, em sociedade, as regras se fazem necessárias para que todos possam viver em paz. Se ninguém seguir as regras, a sociedade não poderá vingar. Comparemos esta situação com a de um edifício de apartamentos em que, aos poucos, os moradores fossem deixando de pagar as suas cotas condominiais. Ao fim, quando todos não mais as pagassem, o prédio se tornaria inviável como residência (sem luz, sem gaz, sem água, sem limpeza, sem porteiro, sem elevador, sem faxina, etc). O Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, estaria rompido quando ninguém mais, no país, seguisse os ditames da lei.
                                               Não vejo maneiras de romper o atual círculo vicioso do consumo criminoso, tal a magnitude do problema aqui  em nosso país instalado. O próprio Ministro da Defesa afirmou em recente declaração pública que o Sistema de Segurança Pública brasileiro está falido. O crime (roubo de cargas, assaltos, furtos de toda ordem, desvios, corrupção, malversação de verbas, etc.) tenderá a crescer cada vez mais. Uma mudança verdadeira e duradoura neste quadro atual seria traumática e não aceitável pelas forças sociais e políticas dominantes que se mantêm no poder, algumas delas se beneficiando fortemente deste quadro descrito.
                                               Se nas próximas eleições a esquerda prevalecer, com toda a insanidade de que é capaz e que tem demonstrado, o quadro será trágico e sem retorno, como já podemos constatar, apenas, olhando para um grande país vizinho, de cujo território, dominado por um governo de esquerda, milhares de cidadãos refugiados, invadem, diariamente,  o nosso Território de Roraima e cidades do Estado do Amazonas em busca de abrigo, trabalho e comida. Narco empresários, aliados a políticos corruptos, deram origem a chamada Narcopolítica, na qual carreiras políticas são financiadas pelo trafico de drogas, representando séria ameaça ao Estado Democrático de Direito. A aliança da esquerda venal e antipatriótica com o crime organizado, caso venha a se fortalecer daqui para a frente, selará, de uma vez por todas, o nosso destino de país subdesenvolvido.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Ensaio



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

168. Sobre o excesso de assuntos**


Jober Rocha*




                                 Muitos leitores ficarão sem entender a razão deste titulo, logo em seguida ao título anterior. A explicação é simples. Estas duas ocorrências, o excesso e a escassez, são os piores episódios na vida de qualquer escritor (como também na vida de muitas mulheres de antigamente, conforme anunciava a propaganda, nas rádios de todo o país, do famoso Regulador Xavier - remédio para cólicas menstruais - do qual talvez só se lembrem aqueles leitores meus contemporâneos do tempo de menino. Existiam dois frascos do remédio para cólicas: o Número 1, para o excesso, e o Número 2, para a escassez.
                                               Estes dois são, portanto, problemas com que frequentemente se deparam os profissionais da escrita. Algumas vezes encontram-se totalmente sem assuntos para escrever e outras se deparam com o excesso deles.
                                          Ocorre que, ao contrário do que muitos imaginam, o excesso de temas é tão ruim quanto a sua escassez. A explicação é a mesma que faz com que caia o preço do tomate, quando todos os produtores rurais resolvem plantar este produto, em razão do seu elevado preço nos mercados. Todos os agricultores, tendo a mesma ideia, ao plantarem tomate provocam, logo em seguida, a superprodução do mesmo e o preço, antes elevado, cai em todos os mercados, às vezes a valores ínfimos, pelo excesso de oferta.
                                               Com muitos assuntos na pauta do dia, todos aqueles que se dedicam à tarefa de escrever (jornalistas, escritores, articulistas, filósofos, comentaristas, blogueiros, etc.) falam diariamente sobre os mesmos temas, que, em breve, acabam por cansar os leitores, em virtude da repetição do mesmo assunto contado, quase sempre, da mesma forma ou com poucas variações. Quem leu um texto, praticamente, leu todos os demais como se costuma dizer.
                                                 Outra dúvida é aquela sobre a escolha do assunto a escrever, quando existem diversos temas atuais (políticos, sociais, econômicos, militares, etc.) que mobilizam a atenção dos indivíduos.
                                                Por outro lado, o escritor deve ter uma ideia bem clara daquilo que deseja expor, antes de começar a digitar. Muitas vezes, novas idéias ocorrem durante o desenrolar do seu trabalho e ele tem que se policiar para não sair do foco e divagar sobre vários outros assuntos, como costuma ocorrer com alguns conferencistas e palestrantes que acabam se perdendo durante suas explanações.
                                                 Os leitores de determinados escritores, por sua vez, os seguem, justamente, em razão dos assuntos que abordam. Se eles começarem a mudar de temas com muita frequência, vários de seus leitores poderão deixar de acompanhá-los. 
                                                Em compensação inúmeros outros leitores gostam quando os escritores que seguem, escrevem em suas novas obras sobre temas diametralmente opostos daqueles abordados nas anteriores. Este também é um dilema de todo escritor: especializar-se em determinado tema ou partir para a chamada “clinica geral”?
                                                    Ademais, o escritor deve escrever apenas sobre temas atuais, que influenciam a vida diária das pessoas, ou escrever sobre o passado ou o futuro?
                                                Dedicar-se aos contos, às crônicas, aos romances, às novelas ou aos ensaios? 
                                                   Muitas vezes o escritor faz de tudo um pouco, pois necessita colocar para fora de sua mente tudo aquilo que, constantemente, a ela está chegando e que necessita de um canal de escoamento para continuar fluindo.
                                                     Outras preocupações de menor monta podem ser ainda consideradas, como, por exemplo: 
                                                 Como chegar aos leitores? Como fazer com que percam os seus escassos e preciosos tempos destinados à leitura, a escolherem um texto seu, que, com toda certeza, se tratará de apenas mais um, dentre tantos outros disponíveis, no vasto mundo da Literatura? 
                                               Como editar, registrar e distribuir suas obras, quando impressas, em um país como o nosso em que qualquer obra literária é cara, quando comparada à padrões internacionais, e o governo, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se apropria de parte substancial do trabalho de todos, cria barreiras burocráticas a tudo aquilo que é produzido internamente? 
                                                  Como motivar a população a ler mais obras de autores nacionais; posto que, somos um país onde se lê muito pouco e apenas os chamados ‘Best Sellers’ de autores estrangeiros e de uns poucos escritores nacionais apadrinhados pela indústria editorial?
                                                 Muitas vezes, o escritor, ainda. necessita se preocupar com aquilo que diz, dependendo da Mídia de que se utiliza, em razão da censura, do chamado comportamento politicamente correto e das eventuais ações cíveis e criminais movidas por leitores que possam se sentir melindrados, ofendidos ou injuriados com alguma passagem da obra. Vejam que os livros, na atualidade, costumam destacar, logo no início, quando se tratam de obras de ficção, que qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas e com fatos reais ocorridos é  uma mera coincidência.
                                              Assim, meus caros amigos, quando lemos algum texto que nos agrada, não imaginamos o quanto de ‘suor e lágrimas’ pode haver por detrás daquela obra; muitas vezes, escrita durante noites de insônia ou em períodos de enfermidade do autor; outras vezes, redigida em ocasiões de dificuldades financeiras ou em períodos de crises afetivas ou familiares.
                                            O bom escritor de Literatura (como o bom ator que, embora sofrendo por algum motivo, não contamina o personagem que representa deixando transparecer, para o público, a dor que passa em seu próprio íntimo), deve escrever de forma isenta, sem tomar partido de seus personagens; porém, sofrendo com eles as suas vicissitudes e alegrando-se com as suas vitórias, sem deixar que os leitores percebam qualquer eventual problema particular que ele vivencie, até mesmo quando o seu maior problema consista em superar a falta ou dominar o excesso de assuntos, enquanto trabalha para a conclusão da sua obra.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


_**/ Crônica




quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


167. Sobre a falta de assuntos**


Jober Rocha*



                                    Qualquer escritor há de convir que, discorrer sobre a falta de assuntos para escrever, é uma das coisas mais difíceis que existe.
                                   O assunto, qualquer que seja ele, tem a propriedade de preencher (bem ou mal) todas as linhas de uma página e vai motivando o leitor a seguir o raciocínio do escritor até o final do texto.
                                        A falta de assunto, por sua vez, abordada em algum texto, tem que ser bem conduzida (eu diria, até, que com certa maestria), para que aquele que lê o mesmo não o abandone logo de início e vá dedicar-se a alguma outra tarefa ou atividade mais útil.
                                            Assim, como vêem os meus amigos, não é nada fácil encontrar-se frente ao teclado e não ter nenhum assunto interessante na mente sobre o qual discorrer, ao menos, algumas páginas. 
                                           Eu compararia esta sensação de agonia e de desespero, que alguns escritores vivenciam ao passar pela situação, ao mesmo que sente um prisioneiro prestes a ser fuzilado e que encara o pelotão de soldados já entrando em forma, recebendo a munição e alimentando as suas armas, sob o olhar sério do comandante que, em breve, dará as três ordens fatais: Preparar! Apontar! Fogo!
                                             É a mesmíssima sensação, estou convencido, que outrora sentiam os condenados franceses ao serem conduzidos em carroças-prisão à Place de Grève ou Place de l’Hôtel de Ville, em Paris, onde perderiam as suas cabeças na conhecida guilhotina. 
                                              O famoso escritor francês Victor Hugo, com certeza, passando por um momento como esse em que eu hoje me encontro (isto é, sem nenhuma imaginação sobre o que escrever) e, talvez, tendo a mesma ideia de comparação daquilo que sentia com a sensação dos condenados que eu tive, deve ter resolvido escrever a sua obra conhecida como “O último dia de um condenado”, conseguindo, com muito trabalho, chegar a cerca de cinquenta páginas.
                                             Vejam meus amigos que, mesmo para um escritor famoso como ele, momentos de total ausência de idéias podem ocorrer com freqüência. O que dirá, então, para aqueles que, como eu, ainda se engatinham pelo mundo da Literatura?
                                             Desde o tempo dos sofistas, na Grécia antiga, a arte de enrolar leitores e ouvintes já fazia parte da Filosofia e era estudada e aprimorada. O sofisma, como sabemos, consiste em um raciocínio capcioso que objetiva defender algo falso e confundir aquele que contradita com o sofista. O sofista sempre procede de má fé e o seu objetivo é ganhar a discussão, mesmo não tendo razão.
                                                   Os mais conhecidos sofistas gregos foram Protágoras, Górgias, Hipias, Licofron, Pródico, Trasimaco e Cálicles.
                                                        Os sofistas, portanto, eram mestres em fazer com que posições impopulares passassem a ser convincentes; tornando, ainda, o argumento mais fraco no argumento mais forte, fazendo, apenas, uso de falácias. Da mesma forma, quando se tratava de sofistas escritores, seus textos buscavam confundir e distrair os leitores da tese sendo discutida, fazendo com que, ao final, ficassem com aquela sensação estranha de que nada absorveram nem aprenderam com aquele texto lido.
                                                      O filósofo Arthur Schopenhauer, em sua obra ‘Como vencer um debate sem precisar ter razão’, estabeleceu 38 estratagemas da chamada Dialética Erística, formando um verdadeiro catálogo de trapaças bastante interessante, cuja ideia não era a de ensinar o leitor a trapacear, mas, apenas, prepará-lo para se defender das argumentações desonestas de seus adversários em eventuais debates.
                                                    Como vêem os amigos leitores, o mundo da Literatura está repleto de textos filosóficos, romances, novelas, contos, ensaios, crônicas, poemas, trabalhos científicos, etc. escritos por poucos escritores que têm, na realidade, alguma coisa a dizer e por muitos que, nada tendo, apenas desejam ser bem remunerados  pelo tempo que gastaram.
                                                     Grande parte daqueles que escrevem com frequência, possui o único objetivo de vender palavras a leitores ávidos por conhecimento e/ou distração. Todavia, em muito poucos textos os leitores encontrarão o que, realmente, procuram. Por vezes, grandes bibliotecas particulares são formadas por obras sequer lidas ou, muitas vezes, apenas folheadas, por tratarem de assuntos desinteressantes, apenas constatados após adquiridas as obras literárias.
                                                    A peça literária que mostra o seu valor, na minha modesta opinião de aprendiz, é aquela em que o leitor segue lendo com interesse até o final e, quando termina, não se sente traído pelo escritor, finalizando o texto sem aquela sensação de que este o obrigou a perder o seu precioso tempo com alguma obra totalmente sem assunto...


_*/ Economista e Doutor pela universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Crônica de humor



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

166. Das duas, uma!**


Jober Rocha*




                              Desde o surgimento da raça humana sobre a face do planeta, a existência ou não de um Criador continua sendo a preocupação maior de todos os seres humanos.
                                           As teorias prós e contras se sucedem, umas as outras, ao longo do tempo. As religiões afirmam que sim; porém, a Ciência e a Filosofia ainda permanecem em cima do muro, pois, enquanto algumas teorias dizem que sim, outras dizem que não.
                                     Entretanto, duas considerações a respeito de tema tão importante e instigante podem ser feitas, com base naquilo que observamos em nosso cotidiano. É o que tentarei fazer neste ensaio se a tanto me ajudar o engenho e a arte, como gostava de mencionar em seus sonetos Luís de Camões. São duas hipóteses conflitantes e discorrerei sobre ambas, a seguir.
                                          Em primeiro lugar, existe um axioma do Direito que diz: “Quem pode o mais, pode o menos!” Isto significa que quem detém o poder para fazer grandes obras, também possui o poder para fazer as pequenas.
                                                 O eventual Criador do universo com tudo o que nele existe e que tão bem soube impor a ordem sobre a matéria (com suas leis universais e imutáveis), também poderia impor a ordem sobre a vida humana (sua criação mais importante, segundo dizem as religiões) com leis que, não tendo a necessidade de serem imutáveis em razão de um possível livre-arbítrio humano, pelo menos fossem universais. 
                                        Explico-me melhor: Todos os seres nascem iguais; isto é, pelo mesmo processo e por vontade do seu suposto Criador, que jamais explicou, de forma clara e de modo a não deixar dúvidas às suas criaturas, a razão pela qual as criara. Não existe, pois, razão plausível para que algumas criaturas sejam destinadas a servir e outras a serem servidas, sob os olhares complacentes do Criador de ambas. Da mesma forma, não existem razões plausíveis para que tudo aquilo produzido no planeta, por Ele criado, não seja dividido por todas as suas criaturas de forma equânime. 
                                             O Criador, segundo parece, observa a concentração nas mãos de poucos, de tudo aquilo que é produzido, com certa bonomia e parece até que favorecendo esta concentração de forma dolosa e planejada. As religiões, de uma maneira geral, procuram fazer crer ao povo que os governantes foram indicados pelo Criador, tanto que antigamente eram os papas que coroavam os reis e os imperadores. Em sendo verdadeira a afirmativa, o Criador seria cúmplice de reis déspotas e de imperadores sanguinários que reinaram ao longo da História dos povos e das nações.
                                         Estou convencido de que, se fosse do seu desejo, ele, que pode o mais e o menos, poderia dar um basta às injustiças terrenas, enviando, por exemplo, uma peste que só atacasse autoridades venais, ambiciosas, poderosas e malignas. Cataclismos poderiam ocorrer em todo o mundo, pela interferência divina, atingindo áreas onde estivessem concentradas as moradias dos poderosos donos deste planeta, em que nós, o povo, tivemos em alguma ocasião no tempo a infelicidade de nascer, para viver atrelado a uma servidão consentida.
                                                  Porque ele não o faz? Não creio que desconheça a situação de penúria e de dificuldades em que vive 99% da população mundial, embora existam recursos para acabar com a penúria e com as dificuldades econômicas e financeiras de todos os habitantes do planeta. 
                                                      Segundo estudo do Banco Mundial divulgado em 2016, com informações colhidas em 2013 (denominado “Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality”) e dadas às premissas adotadas no estudo, pode-se inferir que um por cento da população mundial vive na riqueza e os noventa e nove por cento restantes são os que sustentam tudo isso. 
                                                       Caímos, assim, na velha questão exposta por Voltaire, ao citar o capitulo 13 da obra de Lactâncio “Da Cólera de Deus”, em que Epicuro questiona: - “Ou Deus quer extirpar o mal desse mundo e não pode, ou pode e não quer; ou não pode nem quer; ou, finalmente, quer e pode. Se ele quer e não pode, é sinal de impotência. Se pode e não quer, é malvadez. Se não quer nem pode é, simultaneamente, malvadez e impotência. Se ele quer e pode, então porque nada faz em prol da grande maioria dos seres humanos?” 
                                                               Qual seria, portanto, a razão de todo o mal e de toda injustiça que reinam sobre a maioria esmagadora dos indivíduos no planeta Terra?
                                                           A única explicação plausível é de que essa nossa condição é necessária e aceita ou, até mesmo, imposta pelo Criador. Caso não o fosse, ele teria poderes para revertê-la; pois, como já mencionado anteriormente, quem pode o mais pode o menos, e se o Criador não faz nada para mudar o quadro existente é por que ele é necessário, por alguma razão que desconhecemos. 
                                                          Qual a razão para que alguns poucos tenham uma vida de riqueza, de poder e de domínio e a grande maioria viva  carente e submissa em uma eterna servidão consentida? Esta é uma questão que as mentes humanas, notadamente aquelas pautadas pelos sentimentos de justiça, de fraternidade e de igualdade, não conseguem alcançar. 
                                                        As explicações religiosas, que não justificam a questão, afirmam que isto se deve ou a um “pecado original de seus antepassados terráqueos” ou a “erros cometidos pelos próprios indivíduos em suas vidas anteriores”. 
                                                       Noventa e nove por cento das almas viventes seriam, assim, pecadoras e sofreriam nesta existência por que teriam, supostamente, cometido erros em vidas anteriores ou padeceriam de um suposto pecado original, cometido por seus ascendentes Adão e Eva (que nenhuma delas chegou, sequer, a conhecer)? 
                                                  Pergunto aos leitores se isto não indicaria uma falha grave no projeto divino da criação da vida humana? Seres humanos criados por Deus e pecadores em sua maioria? Deus, considerado perfeito, teria errado em sua criação ao fazer os seres humanos quase todos pecadores?
                                                       Portanto, apenas um por cento da população mundial seria, por esta razão, constituído por almas ilibadas que, nada devendo de existências anteriores, poderiam usufruir nesta vida dos benefícios dadivosos da riqueza e do poder? Apenas um por cento da criação seria perfeita? Noventa e nove por cento teria vindo com defeito? Digo isso por que a meta da nossa civilização é o progresso e o Desenvolvimento Econômico e Social, dos quais todos querem participar, auferindo integralmente seus resultados e suas benesses. Todavia, apenas um por cento, pelo visto, possui esse direito.
                                               Ocorre que, paradoxalmente, é justamente este um por cento (todos nós percebemos isto, com facilidade) que se constitui nos vilões da história, aqueles que possuem os piores caracteres e os que exploram os outros noventa e nove por cento restantes da humanidade, ficando com quase toda a renda produzida pelo trabalho que estes realizam. São eles, sabemos nós, que provocam as guerras, os cismas, as cisões, as revoluções, os grandes desfalques nos governos dos Estados e que maquinam operações financeiras de grande vulto lesivas ao povo e ao erário público, sempre com o intuito de manterem o poder e a riqueza de que historicamente desfrutaram. A explicação religiosa, portanto, embora tente, não consegue justificar o questionamento que qualquer pessoa mais esclarecida faça, com respeito a essa injustiça da desigualdade terrestre.
                                                  Estaria o Criador, deliberadamente, do lado dos vilões? Estaria o Criador agindo contra a sua própria criação? Seria a criação humana, na realidade, fruto do seu suposto Criador ou possuiria ela outra origem, até então desconhecida? O Criador não interferiria em nada que se relacionasse com a sua criação ou com a criação de outrem? Estes um por cento beneficiados poderiam ter sido criados por um Criador diferente daquele que criou os demais noventa e nove por cento?
                                                   Vejam meus caros leitores, que inúmeras outras questões se colocam, quando a questão principal não é respondida de forma satisfatória.
                                                  A segunda hipótese a ser discutida (difícil de nela acreditarmos, por não ser racional) é a de que, não existindo nenhum criador e que sendo a vida humana fruto tão somente do acaso, os mais espertos, desde o início, dominaram os mais fracos e mais bobos e que esta dominação perpetuou-se até os dias atuais. 
                                              Neste caso, restaria aos dominados, insatisfeitos, a alternativa de se revoltarem e ocuparem o lugar dos dominantes para, por sua vez, exercerem a sua dominação sobre eles, em um ciclo de alternância de poder que se prolongaria eternamente: ora este um por cento de espertos dominaria os noventa e nove por cento de otários, ora este um por cento dos mais vivos seria dominado pelos noventa e nove por cento de bobos, até que, por algum fator superveniente, resolvessem todos se juntar ao conjunto da população global e dele fazerem parte “na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença”. Essa é uma hipótese difícil de se realizar, em razão da natureza humana ser egoísta, como bem sabem aqueles que se dedicam ao estudo do psiquismo humano.
                                             O título deste ensaio “Das duas, uma!”, ainda continua, para mim, insuficiente. Digo isto por que não acredito em nenhuma das duas hipóteses aventadas até aqui. Creio que deve existir, ainda, uma terceira ou quarta hipótese.
                                                   Alguns afirmam que o nosso planeta é um planeta de expiação, onde espíritos maldosos ou pouco evoluídos encarnariam para aprender através do sofrimento. Mal comparando, seria como um presídio onde noventa e nove por cento dos prisioneiros seriam comandados por um por cento de carcereiros. Acho esta hipótese medíocre, que representaria a falência do projeto divino da criação e que não estaria a altura de um Criador que pode o mais e que também pode o menos.
                                                     A quarta hipótese é a de que seriamos fruto de um experimento de criação de vida, partido de seres mais evoluídos de outros sistemas solares ou de outras dimensões, que teriam escolhido este planeta para as suas experiências e que nos controlariam a distância e, também, através de alguns prepostos encarregados de organizar a nossa vida política, social e econômica. Nossa função seria, dentre outras, a de produzirmos determinados bens e serviços dos quais nossos criadores se apropriariam de forma velada, para que não tivéssemos ciência da nossa eterna servidão.
                                                    Assim, a Filosofia, a Ciência e a Religião, a que temos tido acesso, até o presente, teriam por objetivo impedir que nós descobríssemos a verdadeira razão da existência humana; sempre encoberta por um “Véu de Maya” ou por uma distração sensorial que nos teria impedido, até hoje, de conhecer a verdade.
                                             Creio que existam, ainda, uma quinta e uma sexta hipóteses, mas não me arrisco a tentar aprofundá-las, sob pena de perder os poucos leitores que ainda me restam...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Ensaio de humor.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018



165. No que você está pensando?**


Jober Rocha*




                                   Hoje pela manhã, ao abrir o Facebook, deparei-me com a velha frase que dá bom dia, boa tarde ou boa noite a todos aqueles que costumam consultá-lo a qualquer hora: - No que você está pensando, fulano?
                                           Fiquei imaginando quantos romances poderiam ser escritos por algum escritor de sucesso e competência, caso ele conseguisse descobrir aquilo que o Facebook também quer saber dos seus usuários. Imagino até que, por detrás desta simples e inocente pergunta feita, possa existir toda uma equipe de escritores sem trabalho, sentados em algumas salas na empresa de informática, olhando para as telas de seus vários computadores sintonizados com todos os países do mundo, esperando que, pelo menos, uma única pessoa se interesse em responder a esta pergunta por eles formulada.  
                                              Infelizmente, creio que são obrigados a passar os seus dias e noites, fumando e tomando café, aguardando, com os olhos fixos nas telas, alguém que se disponha a contar no que está pensando, logo no momento seguinte aquele em que acessa o Facebook. Não conheço uma única pessoa que, alguma vez na vida, tenha respondido a esta questão formulada na tela.
                                            Entretanto, se a pergunta ainda está lá, na página inicial de qualquer um de nós, deve ter a sua utilidade.
                                          Fico imaginando se aquilo não seria algo ‘bolado’ por psicólogos e pessoas do serviço secreto, tentando colher informes de eventuais terroristas desatentos e mal treinados que, vendo a mensagem e movidos pela raiva contra o governo e as autoridades, logo responderiam: - Matar o presidente! ; - Colocar explosivos no metro! ; - Jogar veneno nas águas que abastecem a cidade!
                                            Se não for este o motivo, não consigo atinar com outro. Por que razão eles desejariam saber no que estou pensando?
                                          Será que a pergunta parte de movimentos religiosos radicais, que desejariam saber se pensamos mais em virtudes do que em vícios ao acessar o Facebook?
                                            Será que alguma organização ligada à espionagem industrial-militar tenta obter, de algum desavisado internauta, os planos de um novo acelerador de partículas nucleares, esperando que ele responda a pergunta formulada divulgando os planos e as idéias que estão em sua mente naquele exato momento?
                                           Será que são integrantes de partidos políticos, esperando que confessemos em quem pretendemos votar nas próximas eleições, já que o nome do nosso tal candidato não nos sai da cabeça?
                                           Será que aquela mensagem não teria sido ali inserida, de forma sub-reptícia, pelo seu cônjuge ou namorado (a), especialista em informática (coisa que você nunca chegou a desconfiar ou perceber), desejoso de verificar se você tem outra (o)?
                                       Vejam que são tantas as possibilidades que, para qualquer internauta cauteloso e com alguma sombra duvidosa no passado ou no presente, dá até medo pensar em responder a tão famigerada pergunta. 
                                         No entanto, sendo um escritor por vocação, sinto-me verdadeiramente curioso de conhecer o que passa pelas mentes dos internautas. Quantos contos, romances e novelas poderiam ser escritos todos os dias, baseados naquilo que passa pelas mentes de tantas pessoas. Quantos dramas e novelas de fazer inveja ao “Direito de Nascer”, quantos romances mais eróticos do que “O Diário de uma Prostituta”; quantos livros de Ciência mais complicados do que “A Teoria da Relatividade”, poderiam brindar os leitores mundiais todos os dias da semana? Acredito que muitos. Entretanto, para tal, seria preciso que os internautas perdessem o receio de dizer aquilo que pensam. 
                                           Como em muitos países do Terceiro Mundo, na atualidade, vigoram governos ditatoriais camuflados de democracias é natural que todos tenham receio de expor suas idéias; notadamente, quando sabem ou desconfiam da existência de censores do outro lado da telinha. Esta pergunta feita pelo Facebook, vê-se logo, foi formulada por alguém que vive em um país do Primeiro Mundo, com liberdade de expressão. Esqueceu-se ela, todavia, que, tendo a internet alcance mundial, a pergunta formulada pelo Facebook seria lida em locais distantes onde a regra geral de bem viver é ouvir e ler; mas, nada falar, comentar ou escrever.
                                             Talvez, nestes países, a pergunta pudesse ser reformulada e a informação desejada extraída indiretamente. Talvez, pudessem usar as modernas técnicas de marketing que fazem com que consumidores e eleitores prestem informações sobre produtos e candidatos de suas preferências a terceiros, pessoas desconhecidas que nunca viram em suas vidas.
                                           Talvez pudessem explorar a vaidade dos internautas, as suas ambições, as suas volúpias, as suas religiosidades para que, finalmente, confessassem naquilo que estão pensando ao acessar o Facebook.
                                               Enquanto isso eu sigo tentando encontrar algum assunto interessante sobre o qual escrever, para manter os poucos leitores que ainda me restam...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Crônica de humor.