sábado, 2 de julho de 2016

78. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 16)

Jober Rocha


Capítulo 16
Quarta Feira, 19 de março


                 Acordei com muita fome e comi, logo de manhã, umas oito ou dez bananas e uns cinco ou seis pedaços de pão, pois pretendia passar o resto do dia meditando, pesquisando e escrevendo. 
                        Como a imprensa nada noticia que não seja relativo a esportes, novelas e crimes, às vezes recorro à internet para me informar sobre o que se passa pelo Brasil e pelo mundo. No bar do Everaldo, bem perto de casa; ou seja, mais ou menos a uns dois quilômetros daqui, encontro um terminal de computador onde posso acessar a WEB e navegar pelo mundo todo. 
                     Foi assim, que me inteirei de algumas noticias recentes (destacando medidas já adotadas, e outras a serem, ainda, adotadas nos principais países ocidentais), quais sejam: a obrigatoriedade de implantação de chips nos corpos dos cidadãos norte americanos (em teoria para que possam fazer jus ao sistema de saúde daquele país); a obrigatoriedade da implantação de ‘chips’, em crianças nascidas em toda a União Européia (nos adultos a implantação será obrigatória também, em futuro próximo); a concessão, pelos Estados Unidos e pela União Européia, às empresas mais ricas do mundo, do direito de controlar o que todos nós vemos na Internet. É o chamado apocalipse da Internet, como está sendo conhecido.
                    Tais medidas têm passado despercebidas em muitos países; já que, a mídia a elas não tem dado o destaque que merecem em razão do impacto que trarão sobre a liberdade humana, até agora mais ou menos protegida pelos regimes ditos democráticos.
                 A internet, desde sua implantação, tem se baseado em uma visão democrática da rede, sendo esta, normalmente, utilizada para difundir idéias e conhecimentos, salvar vidas, ajudar pessoas, combater injustiças e a corrupção, levantar e divulgar problemas comunitários, etc.etc.etc.
                   Países como os Estados Unidos e a União Européia, segundo notícias recentes, pretendem conceder às empresas mais ricas do mundo, o direito de mostrar os conteúdos que desejarem, de forma mais rápida; enquanto bloqueiam ou diminuem a velocidade daquelas empresas que não possam pagar para obter o mesmo destaque aos seus conteúdos. A internet sem neutralidade funcionaria, assim, de forma similar a TV por cabo (fechada), na qual o pacote de programação comprado filtraria tudo aquilo que poderia ou não ser visto.
               Segundo técnicos na matéria, as melhorias até hoje verificadas na velocidade e no funcionamento da internet (que permitiram a transmissão de vídeos de maneira mais rápida, por exemplo), têm beneficiado também a mídia independente (alternativa), além de todos os seus usuários. Isto é conhecido como ‘neutralidade da rede’ e era protegido por leis nos USA, até que um tribunal americano as revogou.
                      Mais recentemente, o Parlamento Europeu analisou a aprovação de regulamentação que davam, aos provedores de acesso à Internet, o direito de controlar o que vemos na WEB, diminuindo a velocidade dos sites que não concordassem em pagar uma determinada taxa. 
                       Isto tudo têm sido feito sem ouvir a sociedade; isto é, se trata de medidas impostas de maneira ditatorial; ou seja, de cima para baixo.
                       Alguns provedores de Internet, que serão beneficiados, têm se mobilizado no sentido de pressionar os políticos a favor da aprovação destas medidas, que controlariam o acesso a rede.
                          Em nosso país, isto também esta sendo colocado em pauta no Congresso Nacional e deverá passar a vigorar, após a aprovação do Marco Civil da Internet. A aprovação do referido Marco, contendo proposição neste sentido, privilegiará determinadas questões, em detrimento de outras, estabelecendo uma censura silenciosa sobre determinados temas, que não sejam do interesse dos maiores e mais ricos provedores. Com isto, se estaria criando uma barreira econômica, a impedir o surgimento da mídia alternativa. Na ausência da neutralidade, somente empresas com grandes recursos financeiros poderiam fazer frente às taxas cobradas pelos provedores e dispor de maior velocidade para divulgar seu material.
                        O usuário, por sua vez, possuiria faixas de plano da Internet, similar ao que hoje ocorre na TV a cabo (fechada). Para cada faixa, haveria um pacote de assuntos com diversos conteúdos (músicas, e-mail, vídeos, etc.). Com este Marco aprovado, as críticas políticas, sociais, econômicas, etc., desaparecerão, para sempre, da Internet.
                  Relativamente à implantação do chip nos cidadãos norte-americanos esta nova lei de Saúde, aprovada em março de 2010, requer um chip que seria colocado em todos os cidadãos, compulsoriamente. O chip, com capacidade de ser rastreado, não só irá conter a informação pessoal dos indivíduos, mas também conterá dados referentes à sua conta bancária e relativos a sua movimentação financeira. O microchip seria, portanto, obrigatório e, sem ele, os norte-americanos não terão direito aos serviços de saúde.
                    No referente à Comunidade Européia entraria em vigor, em toda a Europa, a obrigação de apresentar as crianças, nascidas naquela comunidade, para instalar o microchip sob a pele, que deveria ser aplicado em hospitais públicos no momento do nascimento. O microchip em questão seria fornecido gratuitamente e conteria informações relativas ao indivíduo (nome, tipo de sangue, data do nascimento, etc.), sendo também um poderoso detector GPS que irá funcionar com uma micro-bateria substituível, periodicamente, nos hospitais do Estado. O chip contendo GPS permitiria uma margem de erro de detecção igual ou inferior a 5 metros. Ele seria conectado diretamente a um satélite que iria gerenciar as conexões. A instalação seria totalmente indolor, segundo notícias, em razão do chip ser implantado sob a pele, na mão, no cotovelo esquerdo ou na testa, entre os olhos, áreas livres ou com menos terminações nervosas.
                 Com base no exposto, vê-se que caminhamos, celeremente, para a redução drástica das liberdades individuais de todos os cidadãos do mundo. Como um rebanho, caminhamos docilmente para nosso destino neste que seria um caso de servidão consentida sem precedentes na história da humanidade. As servidões, originadas da escravidão, nunca foram aceitas pacificamente e os escravos sempre foram obtidos como presas de guerra, sendo mantidos na posse de seus captores ou vendidos em mercados de escravos. Neste caso presente, os escravos estariam, sem se rebelar, estendendo os próprios punhos (no caso, as mãos, os cotovelos ou as testas) aos grilhões que os sujeitariam (a ele e a seus descendentes), eternamente, ao Estado e, consequentemente, às elites dominantes.
                  Ao falarmos em elites dominantes (considerando nosso planeta com uma população de cerca de sete bilhões de seres humanos), constatamos que, apenas, 161 pessoas controlam 140 corporações que, praticamente, dominam todo o sistema econômico e político do mundo. Destes sete bilhões de indivíduos, apenas trinta e dois milhões podem ser consideradas ricas, segundo padrões internacionais.
           A chamada Nova Ordem Mundial, que congregaria elites Ocidentais, Sino Soviéticas e Muçulmanas, em busca da implantação de um governo único no planeta (cuja totalidade de países seria reduzida a apenas dez), está bem próxima de ser implantada (tão somente resolvam algumas diferenças estruturais referentes a aspectos religiosos destas elites e de seus povos). O objetivo seria – quem sabe? – o estabelecimento de uma única religião como já pretendiam os Cavaleiros Templários no início dos anos 1000 D.C., em Jerusalém. Medidas neste sentido já teriam sido tomadas, com a criação, na Alemanha, de uma catedral onde diversas religiões adorariam e cultuariam um mesmo Deus. O próprio papa da Igreja Católica, em seus pronunciamentos, tem pregado esta religião única.
                   Karen Hudes, advogada do Banco Mundial durante 20 anos, divulgou um relatório no qual informa como as elites dominam o mundo, através de um núcleo fechado de instituições financeiras. “A meta é controlar tudo, governos e indivíduos. Nos querem a todos como escravos da dívida, querem a todos os nossos governos escravos da dívida e querem a todos os nossos políticos dependentes das gigantescas contribuições financeiras que eles canalizam para as campanhas. Como as elites também são donas de todos os principais meios de informação, esses meios nunca revelaram o segredo de que existe algo, fundamentalmente, errado na maneira como nosso sistema trabalha” – declarou Karen Hudes, em “Confessions of a former World Bank insider”.
                   Todas estas medidas mencionadas que, sem alarde da grande mídia (vinculada a estas 140 corporações), vêm sendo implantadas sem questionamentos, já fariam, portanto, parte do projeto de implantação da Nova Ordem Mundial.
                   Uma grande questão, ainda sem resposta, é a seguinte: conseguirão as elites mencionadas, implantar tais medidas e, conseqüentemente, a chamada Nova Ordem Mundial, a partir de regimes democráticos ou os governos deverão, antes, se transformarem em ditaduras, para que o povo, perdendo parte de suas liberdades seja, compulsoriamente, obrigado a aceitar a servidão?
                  Uma possível resposta a como devemos proceder, com relação a esta questão, já havia sido formulada no século XVI, por Étiene de La Boétie, em seu ‘Discurso da Servidão Voluntária’ (Martin Claret Editora):
- “Não é preciso combater nem derrubar esse tirano. Ele se destrói sozinho, se o país não consentir com sua servidão. Nem é preciso lhe tirar algo, mas só não lhe dar nada. O país não precisa se esforçar para fazer algo em seu próprio benefício, basta que não faça nada contra si mesmo. São, por conseguinte, os próprios povos que se deixam, ou melhor, que se fazem maltratar, pois seriam livres se parassem de servir. É o próprio povo que se escraviza e se suicida, quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura”.

                         Será que nenhum progresso ocorreu no espírito humano, desde as palavras de La Boétie, no século XVI?
                          Será que os povos aceitarão, pacificamente, a perda de suas liberdades fundamentais; posto que, o que agora está em jogo não é mais a supremacia de um país ou de um povo sobre os demais, mas, sim a perda da liberdade de todos os indivíduos?
                           Será que o destino da raça humana é, mesmo, o da eterna servidão consentida?
                    Como a Imprensa Brasileira nada diz a respeito, nem os Sindicatos, nem os Partidos Políticos, nem a União dos Estudantes Nacionais, nem as Religiões, nem as Organizações Não Governamentais, suponho que estas medidas foram todas tomadas em benefício das populações e que eu é que não consegui perceber o verdadeiro alcance social delas, em razão do meu estado débil de saúde mental. Rogo a Deus que meu médico leve a patologia do meu caso para professores norte-americanos da University of Crazy e que eles, com toda a Ciência e conhecimento da mente humana que possuem, consigam vislumbrar um tratamento adequado para o meu caso.


(Continua no dia seguinte – nota do autor)

77. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 15)

Jober Rocha


Capítulo 15
Terça Feira, 18 de março

                 Depois de uma agitada noite, na qual pesadelos terríveis me assolaram a mente, com certeza, motivados pela doença que consome lentamente meus neurônios, acordei cansado e saudoso do tempo em que levantava com disposição suficiente para enfrentar qualquer coisa que o dia me proporcionasse, seja de bom ou de ruim.
                  Resolvi caminhar para vencer o cansaço e durante a minha caminhada, nesta manhã, tendo parado em frente a um bar onde vários moradores bebiam cerveja e cachaça, vi surgir uma forte discussão entre dois deles a respeito de futebol. Pouco antes de partirem para a briga, ambos se ofenderam com palavrões e ameaças. Lembro-me que um deles chamou o outro de subdesenvolvido e que o ofendido perguntou ao ofensor: - E você, só porque tem uma bicicleta já pensa que é do Primeiro Mundo?
                 Chegando a casa, após comer umas bananas amassadas com farelo de pão, me pus a pensar sobre quais as características que diferenciavam os países subdesenvolvidos daqueles do Primeiro Mundo.
                    Há cerca de 2.500 anos, Platão, em seu livro VI, de ‘A República’, descreveu a alegoria da caverna (já conhecida de todos, mas que vale a pena recordar), na qual prisioneiros desde o nascimento, acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhassem somente para uma parede iluminada por uma fogueira, observariam um palco onde estátuas dos seres como os homens, as plantas, os animais, etc., eram manipuladas, como que representando o cotidiano desses seres. No entanto, as sombras das estátuas eram projetadas na parede, sendo a única imagem que aqueles prisioneiros conseguiriam enxergar. Com o correr do tempo, os homens dariam nomes a essas sombras (tal como nós mesmos damos às coisas que vemos) e, também, à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fariam, inclusive, torneios para se gabar e se vangloriar daqueles que acertassem as corretas denominações e as regularidades de aparição. Um destes prisioneiros, entretanto, conseguindo se livrar de suas amarras e vasculhar o interior da caverna constatou que o que permitia aquela visão era a fogueira e que, na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Percebeu que havia passado a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando afastado da verdadeira realidade.
                 Ao sair da caverna à luz do sol, imediatamente teve a sua visão ofuscada e só depois de se habituar a nova realidade pode enxergar as maravilhas que via fora da caverna. Não demorou a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas que via dentro da caverna, sendo, portanto, muito mais reais. Aquilo significava que ele poderia contemplar a verdadeira realidade, isto é, os seres como eram em si mesmos. Não tinha dificuldades em perceber que o Sol era a fonte da luz que o fazia ver o real, bem como era desta fonte que provinha toda a existência viva (os ciclos de nascimento, o tempo, o calor que aquece o ambiente, etc.). Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, esse ex-prisioneiro, lembrando-se de seus antigos amigos no interior da caverna e da triste vida que lá levavam, imediatamente, sentiu pena deles e desceu à caverna para lhes contar o novo mundo que havia descoberto. Entretanto, como seus antigos parceiros eram ainda prisioneiros, não conseguiam vislumbrar senão a realidade que presenciavam e começaram a debochar do seu companheiro liberto, chamando-o de louco e dizendo que acabariam por matá-lo, se não parasse com aquelas suas maluquices.
                   Pelo exemplo anterior da alegoria da caverna, vemos que tudo aquilo que não conhecemos não existe para nós. Assim, como alguém já disse, o mundo terá para nós o tamanho abrangido pelo nosso conhecimento, nada mais nem menos.
                     Aqueles que viveram e estudaram no exterior, em países mais desenvolvidos que o nosso, tendo absorvido a cultura, os costumes, o grau de desenvolvimento econômico, político, social do país ou da região onde viveu, são como o prisioneiro liberto; isto é, portadores de uma visão bem mais abrangente do que aqueles seus conterrâneos que nunca saíram do Brasil. A nova realidade que terão conhecido e que, com certeza, lhes provocou um choque cultural logo que desembarcaram, muitas vezes, não é nem suspeitada por aqueles outros brasileiros que jamais deixaram nossas fronteiras. Em inúmeras ocasiões esses viajantes, já tendo retornado ao nosso país, se viram falando para ouvidos moucos; isto é, que não escutam ou nem querem escutar aquilo que eles tinham a dizer.
                     Os que residiram no exterior, aos poucos, certamente foram percebendo as enormes diferenças que separavam nossa cultura e nossos costumes dos daqueles países desenvolvidos onde residiram. Não digo que estes países não possuíssem muitas mazelas que também nos assolam e incomodam; mas, o tratamento que a elas dispensavam é que, fundamentalmente, é diferente do nosso. De tanto conviver com pessoas que respeitam as leis e possuem alto grau de urbanidade, acabamos por absorver estes predicados e, de volta ao nosso país, sofremos um choque, idêntico aquele inicial de que falei; só que, agora, no sentido contrário. 
                        Exemplificando, qualquer um que tenha vivido alguns anos em país desenvolvido, será incapaz de jogar lixo e cuspir no chão das ruas. Da mesma forma, falar alto em ambientes públicos, estacionar em locais não permitidos ou em cima das calçadas, ‘furar’ as filas ou tentar levar vantagens sobre os demais, em qualquer situação, como fazem geralmente os brasileiros. Estes procedimentos, típicos do nosso país, não são comuns nos países desenvolvidos cultural e socialmente.
                 Ontem, contemplando da janela do ônibus as praias do fundo da Baia, eu observava as ondas depositarem de volta nas areias negras, o lixo que a cidade havia jogado nas águas do mar. Nas ruas engarrafadas, os motoristas buzinavam para tentar fazer o trânsito fluir, na ausência de guardas municipais, já que os semáforos não funcionavam. Ontem à noite, lendo um artigo de Bertrand Russel, fui surpreendido com a falta de energia elétrica, que fez com que eu fosse dormir sem me inteirar do que dizia o filósofo.
                  Na TV, nos jornais e na Internet quase cinqüenta por cento do espaço é preenchido por notícias de roubos, desvios de dinheiro, corrupção no governo, crimes comuns, mortes e assassinatos. Os outros cinqüenta por cento tratam de novelas, futebol e religião.
                   Os produtos adquiridos nos supermercados, por aqueles que dispõem de renda para tal, com freqüência já são comercializados com a validade vencida. Nos leites ‘longa vida’ que bebemos, as fábricas adicionam formol, soda cáustica e outros agentes químicos cancerígenos, para aumentar sua validade. Inseticidas contaminam a maioria das frutas e legumes que consumimos.
                    A água que recebem nas torneiras, aqueles que dispõem de água encanada, é imprópria para o consumo da forma como lhes chega. Para bebê-la devem ferver e filtrar, bem diferente daquela que é bebida diretamente da torneira nos países desenvolvidos.
                     As filas, aqui, são comuns em todos os lugares e aceitas como normais e fazendo parte do cotidiano de todos e de cada um. Os impostos são dos mais elevados do mundo e pagos sem reclamação pelos contribuintes, para quase nada ter em troca; já que os serviços públicos são totalmente deficientes.
                  A saúde pública é uma utopia e está sempre carente de pessoal, de instalações e de equipamentos; a saúde privada é cara e também carente de instalações modernas e adequadas. Na maior parte dos casos o cidadão, que paga pela pública também tem que pagar pela saúde privada, para poder ter o seu problema resolvido. A segurança pública, de um modo geral, é deficiente e o contingente que efetivamente atua produzindo bons resultados é constantemente criticado por parte da imprensa e de Organizações ‘Políticas’ de Direitos Humanos, que preferiam uma polícia menos atuante no combate à criminalidade, sabe-se lá por que motivo (embora muitos imaginem a razão desta preferência). Da mesma forma que na saúde, o cidadão que paga impostos para poder contar com a segurança pública, também tem que pagar uma segurança privada para ter seus bens e sua vida protegidos.
                    Aqueles que jamais conheceram outras terras, outras culturas, outras maneiras de viver em comunidade, poderão, como os prisioneiros da caverna de Platão, achar que a vida é assim mesmo e que temos que nos acostumar com suas idiossincrasias. Para os escravos filhos de escravos, a escravidão sempre foi uma coisa normal e consentida, já que fora esta a condição vivenciada por seus pais e avós. Os animais nascidos em cativeiro desconhecem o que seja poder viver em liberdade na Natureza.
                   Assim, nós, brasileiros, temos sempre de nos acautelar para andar pelas ruas, temos de manter nossas portas e janelas gradeadas, temos que nos prevenir contra os golpes e falcatruas que procuram nos impingir em todo momento, temos que pagar muito caro pelo pouco que recebemos do Estado e julgamos tudo isto coisas normais ao fato de existirmos, estarmos domiciliados aqui e sermos cidadãos deste país.
                      Isto tudo que foi mencionado anteriormente, no meu modo de ver a questão, não é fruto de (ou que possa ser atribuído somente a) dirigentes, partidos políticos no poder, correntes ideológicas ou conjunturas interna e externa.
                Considerando que em outros países mais desenvolvidos econômica, cultural, política e socialmente, as coisas são bastante diferentes da forma como aqui as conhecemos (e já nos acostumamos), a questão que alguns leitores mais perspicazes poderão, sem dúvida, formular, é a seguinte: - Será que esta incapacidade de administrar corretamente uma nação, de conviver em paz e harmonia com os semelhantes, de respeitar as leis, de possuir urbanidade, etc., se deve a uma fraqueza de caráter do nosso povo ou aí tem ‘dedo’ do Criador, para que a nossa gente purgue, ainda em vida, pecados desta e de outras anteriores existências ou resgate carmas de vidas passadas?
                  Não tenho opinião formada com respeito ao resgate de pecados ou carmas, mas, para aqueles que neles creem, imagino que, se acaso existissem, estes poderiam ser expiados em qualquer lugar do planeta, não, necessariamente, tendo que ser resgatados somente em nosso país. A inaptidão para a construção de uma sociedade que respeite as leis e na qual a população e as autoridades trabalhem juntas, na busca do progresso material e espiritual da nação, deve ser buscada, com certeza, em nossa formação histórico-cultural, mais que em nossa Metafísica. Isto é fruto, exclusivamente, do conjunto das pessoas que aqui viveram, e vivem, de seus caracteres, da educação que receberam e que possuem, das crenças que professam e da maneira como encaram o passado, o presente e o futuro; em suma, talvez, do nosso inconsciente coletivo.
            Pode ser, entretanto, que nada do que eu disse até aqui seja a verdadeira razão a nos diferenciar dos países desenvolvidos do Primeiro Mundo. As razões que apresentei são aquelas que me ocorrem à mente, mas, como eu e o meu médico sabemos, a minha capacidade de entender e absorver a realidade é prejudicada pela doença mental que me acomete e, em vista disso, não posso garantir que aquilo que disse anteriormente seja realmente verdade.

(Continua no dia seguinte – nota do autor)


sexta-feira, 1 de julho de 2016

76. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 14)

Jober Rocha


Capítulo 14
Segunda Feira, 17 de março

  
                    Hoje ao acordar, me senti imensamente infeliz. Vivendo sozinho e sem amigos, com o reduzido salário de aposentado e vítima de uma enfermidade que aos poucos vai destruindo a minha mente, não tenho nenhum motivo para me sentir alegre e feliz.
        Meditando sobre as razões da minha infelicidade, acabei por pensar sobre a infelicidade geral, de todos os indivíduos. Porque somos infelizes? – era a questão que me atormentava. Finalmente, depois de tanto pensar a respeito, cheguei a conclusão de que a felicidade pode ser definida como um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos, que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou o júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior. Ela pode ser abordada pela ótica da Filosofia, da Religião ou da Psicologia.
                    Desde os primórdios do tempo tem sido buscada pelo homem. Filósofos, pensadores e religiosos, sempre se dedicaram a definir sua natureza e que tipo de comportamento ou estilo de vida levaria a felicidade plena.
                Meu objetivo, entretanto, é o de tentar investigar as razões pelas quais, no mundo moderno, as pessoas, em grande parte, se sentem e se dizem infelizes e são levadas a consumir grandes quantidades de drogas e medicamentos, que aliviem ou minimizem seus estados patológicos de infelicidade.
                São diversas as abordagens desta investigação. Iniciarei pelos entendimentos filosóficos, religiosos, psicológicos, sociais, científicos e ideológicos, acerca da felicidade, para, em seguida, tentar determinar porque se encontra ausente na vida de tantos indivíduos.
                  Inicio pela filosófica. O primeiro filósofo a tratar da Felicidade, foi Zoroastro (VII A.C.), na Pérsia, atual Irã, ao afirmar que no final dos tempos o Bem venceria o Mal. O Bem incluía a beleza, a justiça, a saúde e a felicidade. Quase na mesma época, na China, Lao Tse afirmava que a Felicidade poderia ser obtida tendo como modelo a Natureza. Outro filósofo chinês, Confúcio (também da mesma época) afirmava que a Felicidade poderia ser atingida, mediante o disciplinamento das relações sociais.
                Três séculos depois, o filósofo grego Aristóteles (IV A.C.), preceptor de Alexandre da Macedônia, associou a Felicidade à virtude, pois a vida virtuosa seria uma vida feliz. A Felicidade consistira, pois, em uma atividade da alma. Assim, um homem feliz seria um homem virtuoso.
                    Outros filósofos gregos também discorreram sobre o tema, como Epicuro (Epicurismo) e Pirro de Elis (Ceticismo). A escola grega conhecida como Estoicismo, criada por Zenão, afirmava que a Felicidade seria alcançada através da tranqüilidade e que esta poderia ser atingida pelo autocontrole e pela aceitação do destino.  
              Mais recentemente, Jean Jacques Russeau, filósofo francês, afirmava que o ser humano foi originalmente feliz, mas que a civilização havia destruído este estado de felicidade. Para retomá-lo, a educação humana deveria conduzir o homem à sua simplicidade original.
             Auguste Comte, com sua Escola Positivista, nomeou a Ciência e a Razão como os elementos fundamentais para se atingir a felicidade.
                    Relativamente à abordagem Religiosa da felicidade, para o Budismo, doutrina surgida na Índia e criada por Sidarta Gautama (VI A.CC.), a felicidade suprema seria atingida, apenas, pela superação dos desejos do EGO. A felicidade consistiria, assim, na ausência ou libertação do sofrimento.
                   Para o Cristianismo, religião sobre Jesus Cristo surgida a partir do Concilio de Niceia em 325 D.C., o amor seria o elemento fundamental da harmonia, necessária para o estado de felicidade. Alguns pensadores cristãos afirmavam que a felicidade era a visão da essência de Deus.
                     No Islamismo, religião fundada por Maomé, a caridade e a esperança em uma vida após a morte, seriam os elementos fundamentais da felicidade.
              Com respeito à abordagem psicológica, o psiquiatra Sigmund Freud (1856-1939), considerado como o criador da psicanálise, defendia que todo ser humano é movido pela busca da felicidade, através daquilo que ele denominou de Princípio do Prazer. Esta busca, entretanto, estaria fadada ao fracasso devido à impossibilidade de o mundo real satisfazer a todos os nossos desejos. A isto Freud deu o nome de "Princípio da Realidade". Segundo Freud, o máximo a que poderíamos aspirar seria uma felicidade parcial. A psicologia positiva - que dá maior ênfase ao estudo da sanidade mental e não às patologias - relaciona a felicidade com emoções e atividades positivas.
A abordagem social vincula a felicidade do indivíduo, a posse de emprego, de moradia, de alimentação suficiente, de segurança, saúde, laser, diversão, etc.
               Cientificamente, estudos recentes têm procurado achar padrões de comportamento e pensamento nas pessoas que se consideram felizes. Alguns padrões encontrados são:

• Capacidade de adaptação a novas situações
• Buscar objetivos de acordo com suas características pessoais
• Riqueza em relacionamentos humanos
• Possuir uma forte identidade étnica
• Ausência de problemas
• Ser competente naquilo que se faz
• Enfrentar problemas com a ajuda de outras pessoas
• Receber apoio de pais, parentes e amigos
• Ser agradável e gentil no relacionamento com outras pessoas
• Não super dimensionar suas falhas e defeitos
• Gostar daquilo que se possui
• Ser auto-confiante
• Pertencer a um grupo
• Independência pessoal

                  Ideologicamente, alguns pensadores vinculam a felicidade a aspectos tais, como pertencer ou não a determinadas classes sociais, viver ou não em determinados sistemas econômicos, etc.
                     O filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) defendeu o estabelecimento de uma sociedade igualitária, em classes, como elemento fundamental para se atingir a felicidade humana. Adam Smith (1723-1790) achava que a iniciativa privada e a livre concorrência, eram a base para a riqueza das nações e a felicidade de seus habitantes. J. M. Keynes (1883-1946), por sua vez, propunha uma política intervencionista do Estado, através de medidas fiscais e monetárias, para reduzir os efeitos dos Ciclos Econômicos que, em épocas de depressão, deixavam às populações empobrecidas e infelizes.
                      A explicação da razão pela qual grande parte das pessoas não é, normalmente, feliz, passa, certamente, por todas estas vertentes mencionadas. 
                  Considerando, portanto, a importância de aspectos tais como a riqueza, as condições de vida, a desnutrição e a educação, para o alcance da felicidade, podemos constatar que mais da metade dos habitantes do planeta se considera infeliz. 
                    Relativamente a importância da abordagem ideológica, Étienne de la Boétie  (advogado francês que ocupou o cargo de conselheiro do Parlamento de Bordeaux, bem antes de Rousseau apresentar o seu “Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens”), já havia escrito sobre os tiranos e a servidão. Em seu ‘Discurso da Servidão Voluntária’, escrito entre 1546 e 1548, afirmava: “É incrível ver como o povo, quando é submetido, cai de repente em um esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão”. “É verdade que no início serve-se obrigado e vencido pela força. Mas os que vêm depois servem sem relutância e fazem voluntariamente o que seus antepassados fizeram por imposição. Os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e educados na servidão, sem olhar mais à frente, contentam-se em viver como nasceram e não pensam que têm outros bens e outros direitos, a não ser os que encontraram. Chegam, finalmente, a persuadir-se de que a condição de seu nascimento é natural”. “Os homens submissos, desprovidos de coragem guerreira, perdem também a vivacidade em todas as outras coisas, têm o coração tão fraco e mole que não são capazes de qualquer grande ação. Os tiranos sabem muito bem disso. Por isso, fazem o possível para torná-los ainda mais fracos e covardes”. “A inclinação natural do povo ignorante, cujo número é cada vez maior nas cidades, é desconfiar daquele que o ama e acreditar naquele que o engana. Não penseis que um pássaro caia mais facilmente no laço ou um peixe, por gulodice, morda mais cedo o anzol, que todos esses povos que se deixam atrair prontamente pela servidão, pela menor doçura que os façam provar. É, realmente, assombroso ver como se deixam ir tão rapidamente ao menor afago que lhes seja dispensado”. “O teatro, os jogos, as farsas, os espetáculos, os gladiadores, os animais ferozes, as medalhas, os quadros e outras drogas semelhantes eram para os povos antigos a isca da servidão, o preço da sua liberdade, os instrumentos da tirania. Os tiranos antigos empregavam esses meios, essas práticas e esses atrativos para entorpecer seus súditos sob o jugo. Assim os povos, embrutecidos, achando belos esses passatempos, entretidos por um prazer vão, que passava rapidamente diante de seus olhos, se acostumavam a servir tão ingenuamente (e até pior) como as criancinhas que aprendem a ler vendo as imagens brilhantes dos livros coloridos” “Os tiranos de Roma recorreram também a outro meio: dar com freqüência festas às decúrias públicas, iludindo como podiam essa canalha que se entrega ao prazer da boca, mais que a qualquer outra coisa. O romano mais sensato e esperto não deixaria sua tigela de sopa para recuperar a liberdade da República de Platão. Os tiranos distribuíam em profusão um quarto de trigo, um sesteiro de vinho e um sestércio, e então dava dó ouvir gritar: ‘Viva o Rei!’ Os imbecis não percebiam que recuperavam apenas uma parte do que era seu, e que mesmo a parte que recuperavam o tirano não pudera dar-lhes se, antes, não a tivesse tirado deles mesmos. O que hoje apanhava o sestércio e se empanturrava no banquete público bendizendo a generosidade de Tibério ou de Nero no dia seguinte, obrigado a abandonar seus bens à cobiça, seus filhos à luxúria, seu próprio sangue à crueldade desses imperadores magníficos, não dizia palavra, mudo como uma pedra e imóvel como um tronco. “O povo ignorante sempre foi assim: entrega-se com paixão ao prazer que não pode receber, honestamente, e é insensível ao erro e à dor que não pode suportar sem se aviltar”. “Os primeiros reis do Egito nunca se mostravam em público sem levar ora um gato, ora um ramo, ora um fogo sobre a cabeça, e desse modo se mascaravam e se fingiam de mágicos. Com essas formas estranhas, inspiravam certa reverência e admiração a seus súditos, que só deveriam rir e zombar deles, se não fossem tão estúpidos ou submissos. É realmente lamentável ouvir falar de quantas coisas os tiranos do passado se valeram para consolidar sua tirania, e de quantos meios mesquinhos se serviam, encontrando sempre o populacho tão bem disposto em relação a eles que caia em sua rede mesmo quando mal a soubessem armar. “Eles sempre tiveram facilidade em enganá-lo e nunca o sujeitaram melhor do que quando mais zombavam dele”. “Os próprios tiranos achavam estranho que os homens pudessem suportar um homem que os maltratasse. “Por isso se cobriam de bom grado com o manto da religião e, se possível, queriam tomar emprestada alguma amostra da divindade para manter sua vida malvada”.
                 Rousseau, por sua vez, afirmava em seu Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens: “Tratei de expor a origem e o progresso da desigualdade, o estabelecimento e o abuso das sociedades políticas, tanto quanto essas coisas se podem deduzir da natureza do homem pelas luzes exclusivas da razão, e independentemente dos dogmas sagrados que dão à autoridade soberana a sanção do direito divino. Resulta do exposto que a desigualdade, sendo quase nula no estado de natureza, tira a sua força e o seu crescimento do desenvolvimento das nossas faculdades e dos progressos do espírito humano, se tornando, enfim estável e legítima pelo estabelecimento da propriedade e das leis. Resulta ainda que a desigualdade moral, autorizada unicamente pelo direito positivo, é contrária ao direito natural todas as vezes que não concorre na mesma proporção com a desigualdade física. “Essa distinção determina suficientemente o que se deve pensar, nesse sentido, da espécie de desigualdade que reina entre todos os povos; pois, é manifestamente contra a Lei da Natureza (de qualquer maneira que a possamos definir), que uma criança mande em um velho, que um imbecil conduza um homem sábio ou que um punhado de pessoas nade no supérfluo, enquanto à multidão esfomeada falta o necessário”.      
                 Modernamente, tendo a servidão sido substituída pelo trabalho assalariado, as mesmas condições continuaram prevalecendo, se não pioraram. Com a instituição do trabalho assalariado, a concorrência pelo emprego e pelos postos de trabalho foi implantada, gerando uma competição danosa entre as populações. Na disputa pelo emprego, os outros concorrentes são considerados rivais, se não inimigos. No desemprego, ao contrário da servidão, o ser humano se vê despojado do básico para sua sobrevivência, tendo de, muitas vezes, recorrer à caridade pública. Auxílios Desemprego foram instituídos, em muitos países, para minorar os efeitos do desemprego, mas vigoram por prazo reduzido. A falta de emprego e renda contribui enormemente para a infelicidade humana. 
                 Com respeito à abordagem psicológica, se constata que a Mídia moderna enfatiza (em sua ânsia para expandir o consumo, o Capitalismo e a Economia de Mercado), o uso de conhecimentos sobre a psicologia humana, vinculados ao desejo de ter poder, de possuir beleza física e saúde, de alcançar status social, etc., oferecendo produtos e serviços que, supostamente, permitiriam alcançar aqueles objetivos. Evidentemente, estabelecida esta ‘cultura’, quem não participa dela, por razões econômicas, se sente infeliz.
                 Relativamente à abordagem social, é patente que aqueles moradores da periferia, em áreas carentes, sem infra estrutura de saúde, saneamento, transporte, segurança, habitação, etc. não possuem motivos para se considerarem  felizes. 
                  No que se refere à abordagem religiosa, que prega uma vida virtuosa e livre de desejos, se constata ser tão difícil, se não quase impossível, viver em um mundo concorrencial, regido pelo consumo de bens materiais (consumo este que move a economia e que gera empregos e renda às populações) e pela economia capitalista de mercado (onde as ‘regras do jogo’ são, quase sempre, desumanas e imorais, quando não ilícitas), não desejando consumir ou não sendo obrigado, com freqüência, a comportamentos viciosos ou ilegais. O dilema enfrentado pelos seres humanos nestas condições (teoria versus prática) os leva, muitas vezes, a estados angustiantes de conflito que conduzem à depressão e ao stress. Muitos recorrem ao uso de drogas e de medicamentos, para poder continuar convivendo em sociedade. Tais indivíduos, com certeza, não são felizes. 
                  A ciência, através do desenvolvimento tecnológico, tem buscado facilitar a vida dos indivíduos, mediante o lançamento de novos produtos, equipamentos e utensílios, que visam diminuir o trabalho, aumentar o conforto e elevar a produtividade do ser humano. Neste particular, contribui para aumentar a felicidade. Por outro lado, grande parte dos avanços tecnológicos, ao gerar novos postos de trabalho nos países do Primeiro Mundo (que produzem estes avanços e os divulgam pelo mundo, criando a sua demanda), acaba gerando desemprego, nos países menos desenvolvidos (que, não os produzindo, passam a importar estes avanços mais modernos, os trocando pelos antigos artigos que eventualmente produziam). No balanço entre os prós e os contras do desenvolvimento tecnológico, eu não saberia dizer se produzem mais felicidade do que a eliminam. Outro aspecto negativo é que, muitas vezes, as empresas criam a necessidade de produtos e serviços, através da propaganda e (para a produção de bens e serviços totalmente supérfluos), consomem o meio ambiente sem pena e sem remorsos (ar, solo, rios, lagos, mares, etc.), reduzindo a saúde, o bem estar e a felicidade dos indivíduos. 
                 Quanto à abordagem filosófica, creio que o amor pelo conhecimento puro e simples é, em si mesmo, fonte inesgotável de felicidade, embora muitos não possam participar deste prazer em virtude de não saberem ler, de não possuírem educação que os tenha despertado para tal, de não disporem de recursos financeiros que lhes possibilitem adquirir conhecimentos, etc. 
                Constato, assim, que a felicidade depende de fatores internos e externos ao indivíduo. Muitos são felizes na total carência e na adversidade, dependendo apenas de como encarem a Metafísica da vida e da morte. Outros tantos são infelizes na total abundância e na ventura, em razão de suas convicções Metafísicas relativas à vida e à morte.
                    Aqueles seres mais preocupados com o fato de Ter (matéria), normalmente, tendem a ser mais infelizes que os preocupados com o fato de Ser (espírito); já que, sentem mais as perdas materiais. Contraditoriamente, aqueles indivíduos mais ignorantes (mais pobres de espírito, menos esclarecidos ou mais inocentes), que tendem a se contentar com o pouco que têm e com o pouco que sabem, por terem tão pouco e desconhecerem quase tudo, são incapazes de uma avaliação do contexto geral e, neste particular, se consideram relativamente felizes em suas existências, de pouco ter e de pouco saber.
              Em vista do exposto, posso concluir que a felicidade consiste em um fluxo de sentimentos (mais ou menos duráveis no tempo) de satisfação, consigo mesmo e com o mundo ao seu redor; fluxo de sentimentos este, gerado por vários fatores que incidem interna e externamente aos seres humanos. Os fatores com maior ou menor peso dependerão da concepção Metafísica, de cada indivíduo, acerca de questões tais como: Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?
             Aqueles que entendem a existência humana como uma escola de aprendizado visando à evolução espiritual, mesmo passando por grandes adversidades poderão não se sentir infelizes. Aqueles materialistas, que vêm à existência humana como um simples acidente ocorrido na vasta extensão de um Universo sem Criador, mesmo desfrutando das delícias e prazeres proporcionados pela fortuna, pela beleza e pela saúde, poderão não se sentir felizes ao imaginar que, em alguma oportunidade, irão perder, para sempre e definitivamente, aqueles atributos que possuem...
        Ao finalizar estas conclusões, dúvidas cruéis tomam conta de mim: será verdade isto tudo que mencionei ou é fruto, tão somente, da minha errônea percepção do mundo, das coisas e das pessoas a minha volta, motivada pela grave moléstia que me acomete? Será que os infelizes são apenas uma minoria e eu, que pensava não estar sozinho, mas, sim, acompanhado pela maioria absoluta da população (que seria formada de infelizes), estou, na realidade, ao lado de apenas uns poucos infelizes, que pensam, sentem e agem como eu? 

(Continua no dia seguinte - nota do autor)




75. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 13)

                                                                                                   Jober Rocha

Capítulo 13

Domingo, 16 de março

 


                  Amanheceu o dia com um sol radiante, a temperatura amena e o céu totalmente azul e sem nenhuma nuvem. Resolvi fazer um passeio diferente hoje; isto é, resolvi ir até o aeroporto para ver as aeronaves pousando e decolando. Assim, me preparei com a minha melhor roupa e tomei o rumo do ponto de ônibus, chegando a ele após quase meia hora de marcha forçada pela estrada empoeirada.
                  Depois de uma viajem de quase duas horas, cheguei ao meu destino final. O aeroporto estava bastante cheio neste domingo. Filas enormes de jovens e adultos embarcavam para Miami, nos Estados Unidos. Dali eles seguiriam, com certeza, para a Disneylandia, objetivando gastar os dólares que haviam acumulado ao longo do ano. Outros jovens e adultos, que aqui desembarcavam, já chegavam com camisas e casacos trazendo estampados, em inglês, palavras e frases indicativas das lojas e dos lugares que frequentaram.
                 Vendo aquele ir e vir de jovens e adultos brasileiros, todos alegres e sorridentes, me ocorreu que o povo brasileiro é reconhecido, mundialmente, por algumas de suas características principais, quais sejam: alegre, paciente, dócil, pacífico, crédulo, religioso, inocente, despolitizado, imitador, desorganizado, conciliador, pouco afeto ao trabalho e medroso. Nossa História, antiga e contemporânea, está cheia de exemplos quanto a isto.
                  Embora algumas destas características sejam, muitas vezes, desejáveis individualmente, coletivamente deixam transparecer um povo fraco e submisso.
                 As interpretações históricas, que tentam vincular tais características do povo brasileiro à sua colonização, não me parecem suficientes. Da mesma forma que os Estados Unidos da América do Norte, o Brasil também foi colonizado por um povo corajoso e ambicioso (os feitos portugueses na América, na África e na Ásia são conhecidos), que utilizou, como os nossos irmãos do norte, mão de obra de escravos africanos na colonização do país. Como os USA, seu desenvolvimento também foi edificado com base na imigração de contingentes populacionais de todas as partes do mundo. Com um sistema de colonização mais ou menos semelhante, os Estados Unidos, no entanto, não possuem um povo com as mesmas características nossas. De um modo geral, são sérios, politizados, corajosos, espertos, criativos, organizados e trabalhadores. A história antiga e contemporânea deles está cheia de exemplos quanto a isto.
                 Na época da descoberta do Continente Americano, Portugal, Espanha, França. Holanda e Inglaterra eram os países da Europa que empreendiam navegações, pelos mares e oceanos, com objetivos comerciais e de conquista de novos territórios. O estágio de desenvolvimento econômico e tecnológico destes países era mais ou menos equivalente; isto é, as discrepâncias existentes não eram de grande magnitude.
                   Assim, um aspecto histórico que, realmente, pode ter diferenciado as características entre as populações iniciais destes dois países, foi a de que nossos colonizadores (ao contrario daqueles da América do Norte que foram para ficar, crescer e enriquecer junto com o país), aqui vieram para explorar o território conquistado em benefício da matriz e retornar para a mesma, tão logo seu objetivo fosse alcançado. Podemos destacar a vinda da família real (quando reinava D. João VI) para o Brasil, em 1806, com toda a corte, fugindo das tropas napoleônicas que invadiram Portugal. O Brasil, de simples colônia, passou a ser a sede da monarquia portuguesa. Tão logo a ameaça cessou, todos eles retornaram para Portugal, em 1821, deixando para trás, a contragosto, D. Pedro I (filho do monarca) como regente.
                       Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, em paralelo à nobreza de sangue de origem portuguesa, vitalícia e transmitida para os sucessores, conviveu uma nobreza brasileira oriunda de favores prestados à família real em nosso país, vitalícia, mas não transmitida aos descendentes daqueles felizardos agraciados com os novos títulos de condes, viscondes, marqueses e barões.
                   Tudo aquilo oriundo da ‘Terra Brasilis’ (nome do nosso país que aparecia em alguns mapas antigos) era, naquela ocasião, depreciado; a começar pelos naturais da terra e pelos poucos produtos aqui fabricados. Em contrapartida, tudo o que chegava da Europa era disputado e valorizado.
                       A língua de ‘bom tom’ falada pelos intelectuais, pela nobreza e pela rica burguesia era o francês; bem como, a Literatura que liam era de origem francesa, em sua maior parte. Desde os vinhos que estas categorias consumiam até as roupas que usavam, os utensílios de casa e as armas que portavam, eram, em sua quase totalidade, originários da Europa.
                         Talvez, pelo fato das três categorias anteriores (intelectuais, nobres e ricos burgueses) serem as formadoras de opinião, as populações passaram, também, a valorizar e desejar os produtos e as novidades que vinham de fora do país.
         Outras interpretações que vinculam as características do nosso povo, mencionadas no início, ao clima tropical, podem também ter algum valor; já que, diversos países vizinhos, nas mesmas condições que o nosso, possuem características psicossociais semelhantes.
             Os colonizadores que aqui aportaram, portanto, sempre mantiveram os olhos e os pensamentos na matriz, para onde esperavam voltar algum dia; ao contrario dos colonizadores do território norte americano, que sempre desejaram construir seus futuros e o das suas famílias naquele novo continente.
                   A denominada “Doutrina Monroe”, apresentada ao congresso pelo presidente dos Estados Unidos da América do Norte, James Monroe, no ano de 1823, resumida na frase “América para os Americanos”, consistia em três pontos:
. A não criação, pelos europeus, de novas colônias nas Américas;
. A não intervenção, pelos europeus, nos assuntos internos dos países americanos; e
. A não intervenção dos Estados Unidos em conflitos relacionados aos países europeus.

               Por sua vez, o ‘Destino Manifesto’ (doutrina que justificou o expansionismo norte americano interna e externamente ao seu território) legitimou, desde o início, a ambição e o interesse político e econômico daquele povo (a compra da Louisiana, da Flórida, do Alasca, a conquista do Texas, etc.). Assim a sociedade norte-americana esteve, sempre, mobilizada em torno dos objetivos de conquistar novas terras e de prosperar. O presidente James Buchanan declarou, em seu discurso de posse em 1875: “A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (...) e nada a pode deter”.
           Nossas primeiras elites se contentaram com as dimensões continentais do Brasil, que procuraram defender da secessão e da cobiça de vizinhos hostis, de origem hispânica.
              Deve ser notado que, enquanto a ambição do povo norte- americano sempre foi de se expandir por todo o continente americano, o anseio do povo brasileiro sempre foi o de, apenas, se defender de países estrangeiros, objetivando manter seu território. Os poucos territórios que conquistamos de países vizinhos, tinham por objetivo, apenas, o ampliar as nossas defesas, mas não um objetivo imperialista. Não é por outra razão que, enquanto a Doutrina de Defesa Norte Americana diz que seu objetivo é o de “defender os interesses norte-americanos em qualquer parte do mundo”, o objetivo da Doutrina de Defesa Brasileira é o da “não intervenção e da solução pacífica dos conflitos”.
          Um grande país com um povo de características fracas, próximo de outro grande país, cujo povo possui características fortes, está fadado a se tornar vassalo, tanto política e economicamente quanto culturalmente. É este o nosso caso concreto, histórico-cultural, com relação aos Estados Unidos da América do Norte e a Europa Ocidental; embora governos recentes tenham tentado mudar o foco destas vassalagens para outras, tanto de natureza asiática quanto européia oriental.
              A vassalagem cultural se apresenta como muito mais nociva que as vassalagens política e econômica; já que, estas últimas se tornam bem mais difíceis de serem rompidas quando existe a primeira.
              Alguns exemplos de vassalagem cultural, observáveis na atualidade, por parte dos formadores de opinião do nosso povo, podem ser citados:
. Uso de palavras estrangeiras (principalmente inglesas) no vocabulário quotidiano das pessoas;
. Nomes estrangeiros (principalmente ingleses e franceses) dados a edifícios residenciais e a lojas comerciais;
. Uso de camisas, casacos, tênis, gravatas, bolsas, relógios, etc. de marcas estrangeiras, como forma de demonstrar status social, embora existindo produtos similares aqui fabricados;
. Viagens freqüentes à Disneylândia (para diversão), à Nova York (para compras) e às principais capitais europeias (para comidas e bebidas), muitas vezes sem conhecer nenhum Estado da Federação do seu país, a não ser aquele em que vive;
. Assunção de valores e de costumes estrangeiros, que chegam a se sobrepor aos nossos valores e costumes (Halloween, música country, etc.);
. Considerar como se fossem nossos próprios inimigos, aqueles países, e seus dirigentes que são inimigos dos Estados Unidos e da Europa, independentemente de nosso país manter ou não relações com eles, transmitindo, assim, uma imagem de ausência de soberania em suas decisões de política externa;
. Excesso de exibição de filmes estrangeiros, relativamente à exibição de filmes nacionais, nos cinemas, na televisão aberta e na televisão por assinatura.

              Nosso país, por seu contingente populacional, por sua extensão territorial, por sua riqueza mineral, por seu clima e por sua condição geográfica, já poderia ser uma potência do Primeiro Mundo há muito tempo. 
                  Só não o é em razão da subserviência, da vassalagem cultural, da falta de patriotismo e da corrupção endêmica que, historicamente, grassam nos três poderes da República, alimentadas por elites descompromissadas com nosso futuro, como nação, e sob as vistas complacentes do povo brasileiro.
             Nossa subserviência e vassalagem ocorrem tanto em decorrência das características já citadas, como também de nosso inexpressivo poder militar, que, nas questões externas, nos força a adotar uma atitude quase sempre conciliadora e servil.
                 Nosso país faz parte do BRICS (ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul) e, embora economicamente sejamos um dos membros mais fortes (nosso PIB é superado, apenas, pelo da China e da Índia), nossas forças armadas consistem na mais fraca de todas elas (a única que não tem poder nuclear), não sendo compatível com a importância econômica de nosso país. Nossos céus, mares e território estão perigosamente vulneráveis. A Região Amazônica, por seu potencial mineral e de biodiversidade, é sabidamente alvo da cobiça internacional. Nossos recursos petrolíferos, notadamente sob o mar, também são cobiçados; todavia, nossas forças terrestres, aéreas e navais estão entre as mais deficientes e fracas de todo o continente, não sendo capazes de defender nosso território, nosso espaço aéreo e nosso mar territorial de uma eventual invasão.
                Nosso país carece, atualmente, de Planos de Desenvolvimento de Longo Prazo, como já os teve em passado recente (PAEG, Metas e Bases, Plano Decenal, etc.). As políticas setoriais adotadas são sempre casuísticas. Os programas do submarino à propulsão nuclear e do veículo lançador de satélites andam a passos lentos. A aquisição dos novos aviões de caça para a força aérea, cujo processo se iniciou anos atrás, demorou a ser concluída, em razão dos inúmeros lobbies de pressão que existem junto aos Poderes Legislativo e Executivo, movidos por fornecedores de aeronaves concorrentes, que não hesitam em comprar corações e mentes.
           Nossa subserviência é de tal ordem, que firmamos todos os acordos referentes ao meio ambiente, a não proliferação de armas nucleares e a criação de reservas indígenas em áreas ricas em minerais estratégicos, na frente da maioria dos países, muitos dos quais não os firmaram até hoje e nem irão firmá-los no futuro. Fomos o primeiro país a propor, voluntariamente, a redução da emissão de gás carbônico, sacrificando nosso desenvolvimento econômico. Embora este feito tenha um forte apelo junto à opinião pública internacional, países que poluem a atmosfera muito mais que o nosso não reduziram as suas emissões; pelo contrário, aumentaram. 
                 Nosso congresso votou, em passado recente, lei proibindo explosões nucleares nossas (não as alheias) em nosso território, por pressão estrangeira, desativando, também, nosso programa nuclear, embora sejamos um dos únicos países a possuir reservas de urânio e tecnologia de enriquecimento própria. Dois outros países que também tinham programas semelhantes não os desativaram (como fizemos em razão das pressões externas recebidas) e, atualmente, estão próximo de concluí-los.
           Precisamos, com urgência, de lideres e governantes patrióticos, não comprometidos com oligarquias retrógradas, internas e externas, que pensam apenas em seus objetivos imediatos de riqueza. Precisamos de elites compromissadas com o futuro de nosso país e de sua gente, que queiram se associar ao povo na marcha pela conquista do desenvolvimento com distribuição de renda e igualdade social. Não necessitamos de feitores, nem desejamos continuar como escravos, para sempre, de senhores internos e externos.
              Nosso país só terá encontro marcado com seu destino de potência quando as elites que o dominam, disto se derem conta e resolverem compartilhar o país que lhes pertence com o povo que nele habita.
             Após este desabafo momentâneo, uma tristeza enorme me invade, por saber que eu, ao perceber a nossa realidade de maneira diferente daquela captada por uma pessoa normal com as suas faculdades mentais inteiramente preservadas, cometo uma tremenda injustiça com o alegre e sociável povo brasileiro, ao vê-lo da forma como o vejo em minha insanidade mental. 
                 Rogo ao criador, por vezes, para que este diário jamais caia em mãos alheias que venham, eventualmente, divulgá-lo no futuro. Se o acaso fizer com que seja manuseado por mãos que não as minhas, que o leitor de suas páginas, rapidamente, o destrua após tomar ciência do seu conteúdo, para que as conclusões doentias que contém não venham a contaminar futuros leitores de futuras gerações.
             Do aeroporto segui direto para casa. Na viajem de volta, novamente em pé no coletivo e absorto em meus profundos pensamentos filosóficos, somente percebi o assalto quando a enorme arma colidiu com o meu estomago, machucando-o. O assaltante, que era o mesmo, me reconhecendo da vez anterior, disse: - Aí, o coroa, a tua sandália de dedo que levei da outra vez deu certinho no meu pé. A camisa ficou folgada e o resto todo caiu feito uma luva. Vou levar tudo de novo, menos a sua camisa!
             Chegando a casa, meus vizinhos estavam todos sentados em cadeiras colocadas na rua. Ao me verem chegar, só de cueca e camisa, nada disseram. Após eu haver entrado em casa e fechado a porta, prorromperam em estrondosa gargalhada. Entrando na cozinha para uma rápida refeição de pão e algumas bananas, ouvi alguém dizendo alto, lá fora: - Esse camarada não fala com quase ninguém, mora sozinho e chega só de cueca; ou é bandido ou é gay!

(continua no dia seguinte – nota do autor)

74. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 12)

Jober Rocha

  Capítulo 12
Sábado, 15 de março.

     
                Tendo acordado cedo, saí para uma pequena caminhada pelas redondezas, neste sábado chuvoso e cinza. Pelo caminho encontrei crianças sujas e mal alimentadas, velhos doentes amparados por muletas, e uma população esquecida pelas autoridades e pelo próprio Criador. 
                Caminhando, me lembrei de uma antiga questão a ocupar a mente de filósofos e de religiosos, chamada Teodicéia; isto é, a razão pela qual o Criador, todo poderoso e de bondade infinita, permitia o sofrimento de seus filhos. Reconheço que o ser humano sempre aprende pelo caminho mais difícil e que não viemos a este mundo para desfrutar de uma existência de total felicidade (como já diziam os filósofos Estoicos, Céticos e Cínicos, ao contrário dos filósofos Epicuristas, que assim pensavam); pois, segundo minha convicção, está só seria destinada aos espíritos superiores e, assim mesmo, quando desencarnados. 
                   Reconheço também que o sofrimento humano é devido, conforme sabiamente afirmou Sidarta Gautama muito antes do nascimento de Jesus Cristo, aos anseios, aos desejos e aos apegos para a satisfação dos sentidos; ou seja, a realização das vontades do Ego, que prendem o indivíduo ao ciclo da existência terrestre. Ao se eliminar o Ego, o sofrimento desapareceria. Todavia, segundo a concepção de vida que ora prevalece na sociedade terrena, o Ego é necessário para a evolução social do planeta e para que os Sistemas Políticos e Econômicos existentes sobrevivam e se expandam; isto é, os seres humanos precisam consumir cada vez mais, satisfazendo seus Egos, para que as indústrias e as empresas produzam, gerem empregos, paguem impostos que custeiem obras públicas, etc. etc. e etc.
                   Vejo nisto uma contradição, que, certamente, o Criador e os filósofos e religiosos já terão percebido muito antes de mim. Como, todavia, permitem que as coisas assim continuem a se desenrolar, não consigo atinar como podem desejar que cheguemos a evoluir espiritualmente nesta existência, se:
1. Para a evolução espiritual é necessário que as virtudes prevaleçam sobre os vícios e que os seres humanos se desapeguem dos desejos materiais, que os mantêm presos a existência terrestre;
2. Para que os seres humanos possam sobreviver e se reproduzir, nos moldes em que a sociedade atual está estabelecida, certamente com o Seu consentimento, é claro, faz-se necessário que tenham um forte apelo consumista: isto é, que os indivíduos desejem, cada vez mais, bens materiais para que as rodas da engrenagem política, econômica, psicossocial e militar continuem se movimentando, gerando empregos, pagando impostos, fazendo guerras, matando pessoas, construindo e destruindo; em suma, que através da prevalência dos vícios o Sistema continue a se expandir, permitindo que os espíritos continuem a ir e a vir, desta existência para outras e de outras para esta, evoluindo sem parar.
                
                 As duas hipóteses anteriores são totalmente conflitantes, mas, estou certo de que existe uma razão para que assim seja e que eu é que não tenha conseguido percebê-la. Existindo esta razão, rogo para que, com respeito a ela, o Criador cientifique a todos aqueles que pensam como eu; pois, é muito ruim saber que devemos seguir pelo caminho indicado por Ele e constatar que as autoridades que nos comandam, aqui na Terra, exigem que sigamos pelo caminho por elas escolhido, que é bem diferente do Dele. 
                   O conflito gerado internamente nas criaturas, motivado por esta contradição, tem influído enormemente no aumento do stress, da depressão e dos distúrbios mentais. Talvez a síndrome que apresento possa ser devida a este conflito; entretanto, só terei certeza disto após a defesa da tese de doutorado do meu psiquiatra na University of Crazy, nos USA, marcada para o próximo mês.

(Continua no dia seguinte - nota do autor)

73. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capitulo 11)


Jober Rocha

Capítulo 11
Sexta Feira, 14 de março


          Acordei decepcionado. Li até o final o ‘Tratado Lógico Filosófico’, do filósofo Wittgenstein, e não encontrei a tão falada solução final para os problemas filosóficos, mencionada por ele em sua introdução. 
                     Sei que ele posteriormente rejeitou suas próprias conclusões, contidas neste tratado, e escreveu outro trabalho chamado ‘Investigações Filosóficas’. Se vivesse na atualidade, ele poderia ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor por propaganda enganosa, é a minha opinião. 
          Após um rápido café da manhã, onde comi uma banana e um pedaço de pão, liguei a TV para deixar fluir o dia com coisas amenas. Em um programa religioso que sintonizei, o padre discorria sobre o Livre Arbítrio e os Pecados. Dizia ele que todas as pessoas podem optar, em razão de seu Livre Arbítrio, entre o certo e o errado. Aqueles que optassem pelo certo iriam para o céu e aqueles que optassem pelo errado, isto é, pelo Pecado, iriam para o inferno, dizia ele.
        Aquelas palavras, novamente, me trouxeram a mente coisas que eu havia lido sobre Religião e Filosofia.
               As religiões usualmente adotadas no Ocidente, afirmam que todos os seres humanos possuem Livre Arbítrio; enquanto as religiões adotadas no Oriente reafirmam o Determinismo da existência humana. Da mesma forma, as correntes filosóficas e os filósofos não têm uma posição unânime sobre o assunto. Assim, existem várias correntes e posicionamentos filosóficos com relação à matéria, conforme o Criador, certamente, já terá tido ciência. Dentre as correntes filosóficas, destacam-se:
1. Determinismo Mecanicista e Teleológico, que rejeita a idéia de que os homens possuam Livre Arbítrio,
2. Libertarísmo, que aceita que os indivíduos possuem Livre Arbítrio pleno,
3. Indeterminísmo, que aceita que os indivíduos possuem Livre Arbítrio e que as ações que praticam são efeitos sem causas,
4. Compatibilísmo, que aceita que o Livre Arbítrio existe, mesmo em um universo sem incerteza metafísica; isto é, seria um Livre Arbítrio que respeitaria as ações ou pressões internas e externas,
5. Incompatibilísmo, que Entende que não há maneira de reconciliar a crença em um Universo determinístico com um Livre Arbítrio verdadeiro

                     Dentre os posicionamentos filosóficos destaco, como mais importantes, os de:
1. Spinoza: O filósofo Baruch Spinoza afirmou em seu livro ‘Ética’ que “Não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer, isto ou aquilo, por uma causa que é determinada, por sua vez, por outra causa e essa por outra, e, assim, sucessivamente até o infinito. Os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar.”.
2. Voltaire: Voltaire em ‘O Filosofo Ignorante’ afirma: “Nada é sem causa. Um efeito sem causa é apenas uma palavra absurda. Todas as vezes que quero, isto só pode ocorrer em virtude do meu juízo, bom ou mau; este juízo é necessário, portanto, minha vontade também o é. Com efeito, seria muito singular que toda a Natureza e todos os astros, obedecessem a leis eternas, e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que, menosprezando tais leis, pudesse agir sempre como lhe agradasse, ao sabor do seu capricho. Agiria ao acaso e se sabe que o acaso nada é. Nós inventamos esta palavra para exprimir o efeito, conhecido, de toda causa desconhecida. Não há intermediário entre a necessidade e o acaso, e sabeis que não há acaso; portanto, tudo o que ocorre é necessário.”.
3. Immanuel Kant: Kant em ‘Critica da Razão Prática’ afirma que a religião não pode ser baseada na Ciência nem na Teologia, mas sim na Moral. “Temos de encontrar uma ética universal e necessária; princípios ‘a priori’ de Moral, tão absolutos e certos quanto à Matemática. Temos de mostrar que a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por si só, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica e que o senso moral é inato, não derivado de qualquer experiência. O imperativo moral de que precisamos como base da religião, deve ser um imperativo absoluto, categórico.”
“A mais impressionante realidade em toda a nossa experiência é, precisamente, o nosso senso moral, nosso sentimento inevitável, diante da tentação, de que isto ou aquilo está errado. Podemos ceder; mas, apesar disto, o sentimento lá está”.
“E uma boa ação é boa não porque traz bons resultados, ou porque é sabia, mas porque é feita em obediência a esse senso íntimo do dever, essa lei moral que não vem de nossa experiência pessoal, mas legisla imperiosamente e ‘a priori’ para todo o nosso comportamento, passado, presente e futuro”.
4. Hegel: Hegel desenvolveu uma velha ideia, pré enunciada por Empédocles e corporificada por Aristóteles, que é a do movimento dialético. “O movimento de evolução é um continuo desenvolvimento de oposições, e a fusão e reconciliação destas. Não só os pensamentos se desenvolvem e evoluem segundo esse movimento dialético, mas também as coisas. Tese, Antítese e Síntese constituem a fórmula e o segredo de todo o desenvolvimento e de toda a realidade.”.
5. Schopenhauer: Para Schopenhauer “Cada um acredita de si mesmo ‘a priori’ que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver. ‘A Posteriori’, entretanto, descobre para seu espanto, através da experiência, que não é livre, mas, sujeito a necessidade e que, apesar de todas as suas resoluções e reflexões, ele não muda sua conduta e que, do inicio ao fim da vida ele deve conduzir o mesmo caráter, o qual ele mesmo condenou.”.
6. Hobbes afirma que “O Livre Arbítrio é um poder definido pela vontade e, portanto, não é livre nem não livre. Seria, assim, um erro atribuir liberdade à vontade.”.
7. Locke, em seu ‘Ensaio acerca do Entendimento Humano’, afirma que “A questão de se a vontade humana é livre ou não, é imprópria. A liberdade, que é apenas um poder, pertence apenas aos agentes e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.”.
8. Isaiah Berlin diz que “Para uma escolha ser livre, o agente deve ter sido capaz de agir de outra maneira.”. Este princípio, mais tarde denominado de ‘Principio das Possibilidades Alternativas’, é considerado por seus defensores como uma condição necessária para a liberdade.
9. Nietzsche, em seu “Porque Sou um Destino” afirma que “A religião inventou a noção do pecado juntamente com o seu instrumento de tortura, o Livre Arbítrio, para confundir os instintos, para fazer da desconfiança frente aos instintos uma segunda natureza!”.
10. Daniel Dennet, um Compatibilísta, apresenta o seu argumento para uma ‘Teoria Compatibilista do Livre Arbítrio’ da seguinte maneira: “Se os indivíduos não considerarem a existência de Deus, através do ‘Caos’ e da pseudo-aleatoriedade ou aleatoriedade quântica, o futuro não está definido para os seres finitos. Visto que os indivíduos teriam a capacidade de agir diferentemente do que se espera, o Livre Arbítrio existiria.”. Os Incompatibilistas alegam que a hereditariedade e o ambiente configurariam uma ‘coerção irresistível’, e todas as nossas ações seriam controladas, portanto, por forças exteriores a nós mesmos.
        Com respeito ao posicionamento dos homens de Ciência sobre o tema do Livre Arbítrio versus Determinismo, o pensamento científico, de uma maneira geral, como o Criador certamente já sabe, vê o Universo de maneira determinística e alguns pensadores científicos crêem que para predizer o futuro é preciso, simplesmente, dispor de informações sobre o passado e o presente. A crença atual, entretanto, consiste em uma mescla de teorias determinísticas e probabilísticas.
        Albert Einstein, determinista, acreditava na ‘Teoria da Variável Oculta’; isto é, de que no âmago das probabilidades quânticas existiriam variáveis determinadas.
        Do mesmo modo que os físicos, os biólogos também tratam da questão do Livre Arbítrio através da Natureza e da Nutrição.  Questionam, assim, a importância da Genética e da Biologia na influencia do comportamento humano, quando comparadas com a Cultura e o Ambiente.
        Existem várias desordens relativas ao funcionamento do cérebro e que, na Medicina Neurológica, alguns chamam de ‘desordens do Livre Arbítrio’ como a Neurose Obsessivo  Compulsiva, quando o indivíduo sente uma necessidade, incontrolável, de fazer algo contra a sua própria vontade. Outras síndromes, como a de ‘Tourette’ e a da ‘Mão Estranha’, levam o individuo a fazer movimentos involuntários, sem que tenha a intenção de fazê-los.
        Na Ciência Cognitiva, no Emergentismo e na Psicologia Evolucionária, o Livre Arbítrio seria a geração de quase infinitos possíveis comportamentos, através da interação de conjunto finito, e determinado, de regras e parâmetros. As experiências de Livre Arbítrio surgiriam, assim, da interação de regras finitas e de parâmetros determinados, que gerariam comportamentos infinitos e imprevisíveis.
              Como o Criador e como todas as pessoas de bom senso podem bem ver, o nosso conhecimento científico, filosófico e religioso ainda é muito precário com relação a este assunto, que é de fundamental importância para a nossa evolução espiritual. As opiniões se dividem e, na ausência de uma manifestação direta do Criador a respeito do tema, os seres humanos ficarão eternamente oscilando entre um e outro conceito, sem saber, ao certo, qual deles é o verdadeiro.
                    Entretanto, em que pese tudo aquilo que eu disse anteriormente, é possível que, em razão da moléstia que me acomete, eu tenha entendido tudo errado e, portanto, rogo aqueles que eventualmente venham ler este diário, que considerem haver sido escrito por alguém que não estava de posse de todas as suas faculdades mentais.

(Continua no dia seguinte - nota do autor)


72. Continuação de Diário de um ‘Maluco Beleza’ (Capítulo 10)


Jober Rocha

Capítulo 10
Quinta Feira, 13 de março



           Neste dia, tendo acordado bem disposto, resolvi caminhar pela comunidade. Fazia uma bela manhã de sol e o céu estava de um azul magnífico. Chegando a uma pracinha onde se reuniam todos os ébrios da região, alguns velhos e muitas crianças, eu notei que a conversa dominante era a respeito do filho de um dos moradores que, tentando fugir da polícia que viera prendê-lo a noite anterior, havia sobrevivido aos cerca de quinze disparos que recebera durante a fuga.
                  Diziam que aquilo havia sido um milagre, idêntico ao ocorrido com a filha de dona Hercília que, ao se deparar com traficantes rivais em disputa, escapara com vida da chacina que eles praticaram: tendo ela caído ao solo sem ser atingida pela fuzilaria, logo depois dois outros corpos caíram sobre o dela e, quando os traficantes chegaram para os disparos de misericórdia na nuca, vendo que os de cima estavam mortos, não repararam que ela não havia sido ferida e, em seguida, foram todos embora.
         Pensando sobre aqueles fatos e sobre a atribuição de milagres dada pelo povo àquelas ocorrências, me lembrei das palavras que já lera sobre este assunto, formuladas por alguns filósofos acerca dos denominados ‘milagres’. Inúmeros pensadores, muito mais sábios do que eu e sem problemas mentais como os meus, já meditaram sobre esta matéria anteriormente e as conclusões a que alguns deles chegaram foram às seguintes:
                 O filósofo e escritor Jean Marie Arouet, conhecido como Voltaire, em seu ‘Dicionário Filosófico’, afirmava que: - “Segundo as idéias aceitas, os milagres seriam violações das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Mediante essa exposição, o milagre seria uma contradição; já que uma lei não pode ser violada”. Voltaire afirmava, ademais: - “Deus nada pode fazer sem razão, sendo impossível conceber que a natureza divina trabalhasse para algum homem, em particular, em detrimento dos outros; se constituindo a mais absurda das loucuras, imaginarmos que o Ser Infinito invertesse, em favor de alguns, o movimento dessas imensas molas que fazem mover o Universo inteiro. Assim, ousar supor que Deus realiza milagres é realmente o insultar (se é que os homens podem insultar a Deus), e desonrar de certo modo a divindade”. Voltaire citava, ainda, que, ao perguntarem a um filósofo o que diria se visse o sol deter sua marcha e os mortos ressuscitarem, este teria respondido: - “Me tornaria Maniqueísta e diria que existe um principio que desfaz o que o outro fez”.
                   O filósofo Baruch de Spinoza afirmava: - “Contra a natureza ou acima da natureza, o milagre não passa de absurdo e Deus era mais bem conhecido graças à ordem e à necessidade da natureza do que por pretensos milagres”.
                    Alguns autores modernos especulam que, na impossibilidade da alteração de leis universais, imutavelmente por Ele mesmo criadas, Deus atuaria, apenas, nos eventos probabilísticos. Assim, se um indivíduo tem grande probabilidade de contrair uma doença mortal, ou sofrer algum revés, o Criador poderia, em razão das súplicas e do merecimento deste, reduzir esta probabilidade o livrando completamente do mal.
                   A questão, pelo visto, continua e ainda continuará por muito tempo em aberto, na ausência de um pronunciamento oficial do Criador a respeito do assunto. O fato é que muitas religiões usam esta possibilidade para angariar prestigio e fortuna em nome Dele.
                    A maioria das igrejas e o próprio Espiritismo enfatizam para os seus adeptos a ideia do milagre, da cura sobrenatural ou mediúnica, como forma de manter seus fiéis ou adeptos sempre vinculados àquelas instituições e aos seus sacerdotes, médiuns ou dirigentes.
                   A igreja católica chegou a criar centros onde tais milagres, supostamente, aconteceriam com certa freqüência, como Lourdes (na França), Fátima (em Portugal) e Aparecida do Norte (no Brasil).
                   As igrejas evangélicas fazem com que os supostos milagres ocorram dentro dos próprios templos (com pastores fazendo supostas curas milagrosas nos cultos ao vivo e naqueles transmitidos pela televisão, exorcizando os demônios dos fiéis); da mesma forma, o Espiritismo também propicia supostas curas mediúnicas nos próprios centros espíritas. Em um destes centros, em meu país e no Estado onde resido, um médium que supostamente receberia o espírito de um médico alemão para fazer curas mediúnicas, está respondendo a dezenas de processos, cíveis e criminais, por lesões corporais graves, ocorridas em cirurgias mediúnicas, por ele realizadas em frequentadores do centro espírita onde atua, com a utilização de facas e tesouras não esterilizadas.
                   Em minha modesta opinião, concordando com as afirmações dos filósofos citados, creio que o Criador, com a Sua onisciência, há muito já disporia do conhecimento antecipado acerca das necessidades evolutivas, das aflições e dos sofrimentos de todas as suas criaturas. Estou convencido de que os pedidos que, eventualmente, algumas pudessem Lhe dirigir, não seriam suficientes para que Ele alterasse todo o planejamento já anteriormente elaborado, prévio à encarnação e conduzido por espíritos de luz quando ainda na dimensão etérea, que teria como objetivo à evolução espiritual daquelas mesmas criaturas.
           Entretanto, como a maioria da população pensa de modo diferente do meu, estou certo de que devem estar mais próximos da verdade do que eu e do que os filósofos que citei. Pensando bem, me ocorreu agora que os referidos filósofos, da mesma forma que comigo ocorre, poderiam estar passando também por moléstias mentais graves, que prejudicassem os seus modos de pensar e de entender a realidade do seu tempo, razão pela qual teriam desenvolvido teses e teorias incompreendidas pela maior parte das populações até o presente. Não é possível que a maioria das pessoas esteja totalmente errada e uma pequena minoria de filósofos esteja certa. 
              Com esses pensamentos ainda na cabeça, voltei para casa onde, após uma lauta refeição constituída de um bom pedaço de pão e algumas grandes e saborosas bananas, me pus a ler o ‘Tratado Lógico Filosófico’, de Ludwig Wittgenstein, que, em sua introdução, promete uma ‘solução final’ para todos os problemas da Filosofia. Espero que não seja semelhante àquela proposta por Adolf Hitler durante a Segunda Grande Guerra...

(Continua no dia seguinte - nota do autor)