quarta-feira, 12 de agosto de 2020

390. A vida imita a arte, a tecnologia e vice-versa.



Jober Rocha*




                     O filósofo Aristóteles (385 a.C. – 323 a.C.) teria declarado em seu tempo que a arte imitava a vida. O escritor Oscar Wilde (1854 - 1900) foi mais além e declarou que a vida imitava a arte muito mais do que a arte imitava a vida.
                                 Eu acrescentaria que a vida imita a arte, a tecnologia e vice-versa. Os argumentos para esta minha afirmação poderão ser encontrados nas linhas que se seguem.
                                       A arte imitar a vida ou, mais propriamente, as coisas essenciais da vida, é algo que todos nós entendemos facilmente, pois toda arte, por mais abstrata que possa ser, teve sua origem na vivência e na experiência do artista; isto é, se espelharia na sua vida, de uma maneira geral. 
                                    A vida imitar a arte também é fácil de percebermos, pois através da arte as pessoas aprenderiam sem precisar vivenciar, na prática, os efeitos reais das venturas ou desventuras representadas através das obras de arte, notadamente aquelas que se referem à literatura e ao teatro.
                                   Na era da Informática ao falarmos em computadores também falamos em H.D ou Disco Rígido, que corresponde à memória permanente do computador, aquela que armazena todas as informações que são salvas pelo usuário, mesmo quando o computador é desligado. Este disco é um dispositivo com grande capacidade de armazenamento de dados e que vem incorporado ao computador.
                                   Na era da informática temos, portanto, a possibilidade e a capacidade de armazenar dados alfanuméricos, bem como cenas de vídeo, de áudio e de processá-las, isoladamente ou em conjunto, quase da mesma forma como o nosso próprio cérebro é capaz de fazê-lo.
                                          Computação em nuvem, por sua vez, é um conceito que faz referência a uma nova tecnologia que permite o acesso a programas, arquivos e serviços por meio da internet, sem a necessidade de instalação de programas ou do armazenamento de dados – daí vem a ideia de nuvem, como se as informações ficassem em um determinado local no espaço. Com isso, os serviços podem ser acessados de maneira remota, de qualquer lugar do planeta e a qualquer momento. Assim, para realizarmos determinada tarefa de nosso interesse, bastaria, apenas, com que nos conectássemos a este serviço, fornecido vinte e quatro horas por dia pelos servidores de empresas como a Microsoft, a Salesforce a Slytap, a HP, a IBM, a Google e a Amazon; desfrutássemos de suas ferramentas operacionais, salvássemos o trabalho e depois poderíamos acessá-lo, novamente, de qualquer outro lugar.
                                             A inteligência artificial, por outro lado, consiste em um ramo de pesquisa da ciência da computação que busca, através de símbolos computacionais, construir mecanismos e/ou dispositivos que simulem a capacidade do ser humano de pensar, resolver problemas, ou seja, de ser inteligente.
                                         A Inteligência artificial, portanto seria uma capacidade do sistema, ou agente inteligente, para interpretar corretamente dados externos, aprender a partir desses dados e utilizar essas aprendizagens para atingir objetivos e tarefas específicos através de adaptações flexíveis.
                                           Certamente os leitores já perceberam que a tecnologia atual no campo da informática está imitando o cérebro humano e, em futuro não muito remoto deverá ultrapassá-lo. Na atualidade, os computadores utilizando a inteligência artificial já sobrepujam o cérebro humano em diversas atividades, notadamente nos jogos. O software Alphazero conseguiu, sozinho e em apenas três dias, tornar-se mestre em alguns jogos, como xadrez, go e shogi, e vencer seus competidores humanos nesses jogos. A inteligência artificial pode fazer o mesmo com qualquer jogo de raciocínio similar.
                                     Quando falo que os computadores irão sobrepujar o cérebro humano me refiro ao do ser humano normal e não ao dos cientistas e especialistas que projetam e desenvolvem estas tecnologias. Estes estarão sempre um passo a frente da tecnologia, pois são os seus criadores.
                                         A mente humana, da mesma forma como os atuais computadores, armazena informações alfanuméricas; bem como, de vídeo, de áudio, emoções e sensações, absorvidas pelos sentidos, que utilizamos para a tomada de decisões. Penso que essas informações armazenadas em nossas mentes não são destruídas com a nossa morte física, pois, similarmente, da mesma forma como ocorre com a informática, elas seriam mantidas na nuvem que corresponderia ao nosso espírito.
                                           É uma hipótese que ainda não pode ser confirmada; mas, estou certo de que o será no futuro. Muito daquilo que hoje está além da Física, fazendo, pois, parte da Metafísica, futuramente fará parte daquela. Outras dimensões e outros planos de existência, bem como universos paralelos e energias espirituais são matérias a serem estudadas no âmbito da Física, como fenômenos físicos que são. Não vejo nenhuma conotação religiosa ou esotérica nestes assuntos, embora as religiões e o esoterismo tentem se apresentar como especialistas nestas áreas, que pouco ou quase nada conhecem.
                                         Uma rápida comparação entre o nosso cérebro e um computador pessoal evidencia que ambos se complementam, muito embora um deles leve vantagem em algumas características e o outro se sobressaia em outras.
                                           O computador é mais veloz que o cérebro humano, embora não consiga fazer abstrações e este consiga. Os computadores também são melhores em tomar decisões racionais. Pelo fato de não possuírem, ainda, inconscientes não são portadores de traumas, recalques ou síndromes.....
                                             Seres humanos possuem criatividade, emoções e empatia, características que faltam aos computadores.
                                            Os seres humanos, por enquanto, são melhores em movimentos motores complexos; embora os robôs já estejam bem avançados e futuramente possam nos ultrapassar.
                                       Em cálculos apurados e complexos os computadores ganham dos seres humanos. Em memória nós ganhamos, mas não conseguimos utilizar toda a nossa capacidade disponível e eles usem toda a capacidade de que dispõem.
                                          Podemos, portanto, perceber que da mesma forma que a vida imita a arte e a tecnologia, esta também imita a arte e a vida, em uma simbiose que beneficia as três. Os seres humanos se desenvolvem e progridem graças à colaboração da arte e da tecnologia. A arte, produzida pelos seres humanos, cada vez mais, faz uso da tecnologia. A tecnologia, criada e aperfeiçoada pelos seres humanos, cada vez mais incorpora a arte em seus desenvolvimentos.
                                            Em um futuro não muito longínquo, quem poderá negar que as três não venham a se encontrar ligadas, para sempre, em um único ser, que tenha vida própria e que aperfeiçoe tecnologicamente a si mesmo, com arte, como a ficção científica nos deixa antever, instigando nossas mentes a caminhar em direção e em busca do progresso?


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sábado, 8 de agosto de 2020

389. O Poder de Mudar Tudo


 Jober Rocha*




                           Quantas vezes em nossas existências nos deparamos com situações em que achamos que não existe mais nenhuma saída para o problema que vivenciamos ou que visualizamos nos cenários nacional e internacional. Este impasse a que me refiro pode ser de caráter pessoal ou se referir a terceiros e de natureza política, econômica, psicossocial ou militar.
                                  Tanto é assim, que muita gente comete até suicídio, imaginando que não existe nenhuma saída para o dilema com que se defronta. A única saída, para os que assim pensam e agem, consiste em deixar esta vida em busca da paz de espírito e da tranquilidade tão almejada e supostamente encontrada em algum outro plano de existência.
                            Ocorre que, se analisarmos a história, veremos, sempre, nela a comprovação do conhecido ditado popular: ‘Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe’. 
                         Impérios e imperadores, monarcas e monarquias, ditadores e ditaduras, desde o início dos tempos, já tiveram o seu surgimento, a sua ascensão e o seu ocaso. Tudo o que possui vida tem sempre um começo, um meio e um fim. Esta, sim, é uma Lei Historicamente Determinada, concepção esta inventada por Karl Marx e que os marxistas gostam sempre de mencionar quando se referem a uma suposta luta de classes, embate este inventado por Marx no século XVIII.
                            Quantas vezes nos defrontamos com episódios trágicos, notadamente aqueles de caráter político ideológico, em que não vemos nenhuma alternativa e, de repente, alguma coisa ocorre e a situação, antes imutável, muda totalmente.
                                 A última eleição brasileira para o cargo de presidente da republica é um exemplo de tudo isto que afirmei.  O nosso país, durante três décadas, foi governado por partidos de esquerda que objetivavam implantar aqui um regime comunista. Recursos para a campanha de 2018, por parte dos partidos de esquerda, não faltavam. Tinham eles, ao longo destas três décadas, desviado tanto dinheiro público, conforme divulgado pela Operação Lava a Jato, que poderiam facilmente ter ganhado as eleições. Contavam, ademais, com o aparelhamento do estamento governamental e com urnas eletrônicas não confiáveis. Inúmeros especialistas no assunto afirmavam serem estas urnas facilmente fraudáveis. Mesmo assim, foram utilizadas nas eleições.
                                           Ocorre que, por um verdadeiro milagre, o deputado Jair Bolsonaro, concorrendo por um pequeno partido, sem recursos financeiros, sem o apoio de grandes empresários e de grupos empresariais, sem o apoio da grande mídia e dos estudantes secundários e universitários (doutrinados estes por mestres ativistas ideológicos e militantes de partidos de esquerda); contando, apenas, com o apoio de brasileiros do bem, simpatizantes da sua causa nas redes sociais, causa esta de total honestidade e de combate à corrupção endêmica na política brasileira, conseguiu ser eleito presidente da república com cerca de 57 milhões de votos. Isto era algo impensável. Os próprios institutos de verificação de opinião não previram essa hipótese.
                                     Chego, portanto, a imaginar a intercessão de uma ‘mão invisível’, conforme aventada pelo economista Adam Smith (1723-1790), autor de ‘Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações’, ao afirmar: “Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse, é levado, por uma ‘mão invisível’, a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade”.
                                    Essa mão invisível a que Smith se referia, sem dúvida alguma, seria algo imponderável, de caráter metafísico, que tinha o poder de reverter situações críticas insolúveis. Só posso imaginar que ele se referisse à mão do Criador, o único com poder para uma empreitada de tal magnitude. 
                                       Creio que a grande aliada nesta empreitada de modificar qualquer situação vigente chama-se morte.
                                      Através dela inúmeros seres malignos são retirados do cenário nacional e internacional, deixando de interferir maleficamente nestas duas conjunturas, como faziam até então.
                                       Com que indescritível alegria eu vejo nos necrológios das mídias sociais a notícia de que determinado vilão, inimigo da sociedade de bem, passou desta para pior (sim, por que para melhor só passam aqueles que dedicaram suas vidas ao bem comum, a melhoria das condições do povo, ao progresso da humanidade). 
                                     Reconheço, embora não aceite, que a morte possui a característica de fazer com que os sobreviventes que restaram perdoem os pecados daqueles que se foram. 
                                       Assim, é comum o panegírico daqueles que só maldade fizeram em vida, notadamente os políticos, por parte daqueles que, desgraçadamente, sofreram os efeitos destas maldades. 
                                         Esquecem estes desgraçados que as ervas daninhas lançam raízes. Para cada vilão morto surge logo um sucessor. Esta, também, é uma Lei Historicamente Determinada, conforme a imaginação de Karl Marx intuiu e ele fez questão de deixar patente, para as gerações posteriores, em sua obra ‘O Capital’, ao mencionar a suposta inexorável luta de classes entre os trabalhadores e seus patrões.
                                     Assim, quando vejo nas manchetes dos jornais que determinados políticos, determinados magistrados, determinados sacerdotes e determinados executivos passaram desta para pior, em decorrência ou não da pandemia que assola o nosso país, vejo nisto a famosa mão invisível já mencionada. Sei que o Criador vela pelo nosso destino e estou certo de que Ele interfere neste mundo material em que vivemos, quando e sempre a situação terrena se descontrola por força da ambição desmedida de umas poucas ‘autoridades’.
                                     Portanto, meus caros políticos, magistrados, executivos e demais autoridades, é ato importante e de grande sabedoria vocês se precaverem contra o olho que tudo vê, daquele que é onisciente e onipresente, ao fazerem suas maquinações em benefício próprio e em detrimento daqueles que lhes custeiam os salários e as mordomias.
                                      Saibam que no plano metafísico alguém vela por estes míseros e infelizes coitados que vocês fazem sofrer diariamente e creiam que Ele pode, a qualquer momento e sem nenhum aviso prévio, chamar algum de vocês (ou mesmo todos ao mesmo tempo) para uma conversa particular; dessas conversas em que não adianta sofismar nem usar da retórica para tentar escapulir impune, como se acostumaram, pois Ele sabe tudo o que vocês fizeram de mau, desde o início de suas carreiras, e irá, sem dúvida, proferir um veredicto do qual nenhuma corte, por mais superior que seja, conseguirá livrá-los...  


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

388.  A Falácia do Livre Arbítrio



Jober Rocha*



               Esta afirmação deixará muitos cristãos chocados, já que a figura do livre arbítrio é básica na estrutura da sua religião, pois, conforme muito bem analisou a questão o filósofo Friedrich Nietzsche, é ela que dá suporte à noção de pecado, peça chave do cristianismo, a induzir os adeptos desta religião a prática das virtudes e a rejeição dos vícios, ambos definidos pela própria religião.
                   Pretendo provar esta minha afirmação, que dá título ao presente texto, embora saiba que a discussão entre a existência do livre arbítrio ou do determinismo, na vida dos seres humanos, tem ocupado o tempo e a mente de inúmeros filósofos, cientistas, pensadores religiosos e de pessoas comuns, que adoram discutir e ganhar as suas discussões mesmo não tendo razão.
                  Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente incoerente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega.
                    Para chegar até onde desejo, eu Iniciarei por aquilo que tem sido dito pelos filósofos:

. Spinoza: O filósofo Spinoza afirmou em seu livro ‘Ética’ que “Não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada, por sua vez, por outra causa e essa por outra, e assim sucessivamente até o infinito. Os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.

. Voltaire: Voltaire em ‘O Filosofo Ignorante’ afirma: “Nada é sem causa. Um efeito sem causa é apenas uma palavra absurda. Todas as vezes que quero, isto só pode ocorrer em virtude do meu juízo bom ou mau; este juízo é necessário, portanto minha vontade também o é. Com efeito, seria muito singular que toda a Natureza, todos os astros obedecessem a leis eternas, e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que, menosprezando tais leis, pudesse agir sempre como lhe agradasse, ao sabor do seu capricho. Agiria ao acaso e sabe-se que o acaso nada é. Inventamos esta palavra para exprimir o efeito conhecido de toda causa desconhecida.”. “Não há intermediário entre a necessidade e o acaso, e sabeis que não há acaso; portanto, tudo o que ocorre é necessário”.

. Immanuel Kant: Kant em ‘Critica da Razão Prática’ afirma que a religião não pode ser baseada na ciência nem na teologia, mas sim na moral. “Temos de encontrar uma ética universal e necessária; princípios ‘a priori’ de moral, tão absolutos e certos quanto a matemática. Temos de mostrar que a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por si só, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica, que o senso moral é inato, e não derivado de experiência. O imperativo moral de que precisamos, como base da religião, deve ser um imperativo absoluto, categórico.”
“A mais impressionante realidade em toda a nossa experiência é, precisamente, o nosso senso moral, nosso sentimento inevitável, diante da tentação, de que isto ou aquilo está errado. Podemos ceder; mas, apesar disto, o sentimento lá está.”
“E uma boa ação é boa não porque traz bons resultados, ou porque é sabia, mas porque é feita em obediência a esse senso íntimo do dever, essa lei moral que não vem de nossa experiência pessoal, mas legisla imperiosamente e ‘a priori’ para todo o nosso comportamento, passado, presente e futuro.”

. Hegel: Hegel desenvolveu uma velha ideia, prenunciada por Empédocles e corporificada por Aristóteles, que é a do movimento dialético. “O movimento de evolução é um continuo desenvolvimento de oposições, e a fusão e reconciliação destas. Não só os pensamentos se desenvolvem e evoluem segundo esse movimento dialético, mas também as coisas. Tese, antítese e síntese constituem a fórmula e o segredo de todo o desenvolvimento e de toda a realidade”.

. Schopenhauer: Para ele, “Cada um acredita de si mesmo ‘a priori’ que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver. ‘A posteriori’, entretanto, descobre para seu espanto, através da experiência, que não é livre, mas sujeito a necessidade (grifo nosso), que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta e que, do inicio ao fim da vida, ele deve conduzir o mesmo caráter, o qual ele mesmo condenou”.

. Hobbes afirma que “O livre-arbítrio é um poder definido pela vontade e, portanto, não é livre nem não livre. Seria, assim, um erro atribuir liberdade à vontade.”

. Locke, em seu ‘Ensaio acerca do Entendimento Humano’, afirma que “A questão de se a vontade humana é livre ou não, é imprópria. A liberdade, que é apenas um poder, pertence apenas aos agentes e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.”

. Isaiah Berlin diz que “Para uma escolha ser livre, o agente deve ter sido capaz de agir de outra maneira.” Este princípio, mais tarde denominado de principio das Possibilidades Alternativas, é considerado por seus defensores como uma condição necessária para a liberdade.

. Nietzsche, em seu “Porque Sou um Destino” afirma que “A religião inventou a noção do pecado juntamente com o seu instrumento de tortura, o livre-arbítrio, para confundir os instintos, para fazer da desconfiança frente aos instintos uma segunda natureza”!

. Daniel Dennet, um compatibilísta, apresenta o seu argumento para uma ‘Teoria Compatibilista do Livre-Arbítrio’ da seguinte maneira: “Se os indivíduos não considerarem a existência de Deus, através do ‘Caos’ e da pseudo-aleatoriedade ou aleatoriedade quântica, o futuro não está definido para os seres finitos. Visto que os indivíduos teriam a capacidade de agir diferentemente do que se espera, o livre-arbítrio existiria”. Os Incompatibilistas alegam que a hereditariedade e o ambiente configurariam uma ‘coerção irresistível’, e todas as nossas ações seriam controladas, portanto, por forças exteriores a nós mesmos.

                    Naquilo que se refere às religiões, constata-se que as culturas mais antigas, orientais, sob a influência do budismo e do hinduísmo, optaram por uma visão determinística da existência humana, que beneficiaria a evolução espiritual.
             As culturas ocidentais, sob a influência do judaísmo/ catolicismo/protestantismo, optaram por uma visão de livre-arbítrio, que beneficiaria a satisfação dos desejos do ego.   Estas duas visões, opostas, parecem justificar o estagio de desenvolvimento econômico e científico mais elevado no Ocidente que no Oriente.
                       Relativamente ao pensamento científico, a Ciência também tem efetuado inúmeras tentativas de responder a questão do livre-arbítrio através de pesquisas científicas.
                        O pensamento científico, de uma maneira geral, vê o universo de maneira determinística e alguns pensadores científicos creem que para predizer o futuro é preciso, simplesmente, dispor de informações sobre o passado e o presente. A crença atual, entretanto, consiste em uma mescla de teorias determinísticas e probabilísticas.
                          Albert Einstein, determinista, acreditava na Teoria da Variável Oculta, isto é, de que no âmago das probabilidades quânticas existiriam variáveis determinadas.
                         Do mesmo modo que os físicos, os biólogos também tratam da questão do livre-arbítrio, através da Natureza e da Nutrição.  Questionam, assim, a importância da Genética e da Biologia, na influencia do comportamento humano, quando comparadas com a Cultura e o Ambiente.
                      Em Gomes G. (2001) 'Os dois conceitos freudianos de 'Trieb'. Psicologia; Teoria e Pesquisa, encontramos a seguinte afirmação:

                       ”Podemos afirmar que, se Freud não fosse um forte adepto do determinismo psíquico, ele jamais poderia ter feito o que fez: conduzir os sintomas neuróticos e toda uma classe de fenômenos psíquicos extremamente banais a uma categoria de fundamental importância em sua pesquisa. A opção determinista também pode ser vista como determinante para sua forte adesão ao conceito de pulsão. É por achar que um fenômeno psíquico não pode nunca resultar puramente de uma razão abstrata, ou de uma pura espontaneidade criativa, que Freud foi buscar no conceito de pulsão uma fonte sempre presente da ocorrência do psíquico"

                          Existem várias desordens relativas ao funcionamento do cérebro e que, na Medicina Neurológica, alguns chamam de ‘desordens do livre-arbítrio’, como a neurose obsessivo-compulsiva, em que o indivíduo sente uma necessidade incontrolável de fazer algo contra a sua própria vontade. Outras síndromes, como a de ‘Tourette’ e a da ‘Mão Estranha’, levam o individuo a fazer movimentos involuntários sem que tenha a intenção de fazê-los.
                      Na Ciência Cognitiva, no Emergentismo e na Psicologia Evolucionária, o livre-arbítrio seria a geração de quase infinitos possíveis comportamentos, através da interação de conjunto finito e determinado de regras e parâmetros. As experiências de livre-arbítrio surgiriam, assim, da interação de regras finitas e de parâmetros determinados, que gerariam comportamentos infinitos e imprevisíveis.
                            Em que pesem os avanços obtidos pela Ciência, de um modo geral, nós ainda estamos bem longe de poder encontrar explicações para os fenômenos metafísicos que, há milênios, ocupam constantemente o pensamento daqueles que se interessam pelo assunto. As teorias religiosas, filosóficas e cientificas têm-se sucedido, umas as outras, em um perpétuo embate ideológico pela primazia da posse sobre a verdade metafísica. A maior parte delas tenta esconder seu total desconhecimento sobre como as coisas ocorrem naquela realidade, através de textos muitas vezes rebuscados, ininteligíveis ou herméticos.
                        Pelo que podemos deduzir parece que tem sido constantemente negado ao ser humano, desde o inicio dos tempos até os dias atuais, o conhecimento irrefutável de como as coisas se passariam no território em que penetramos após a morte. As únicas instituições a se aventurarem a incursionar a respeito, neste campo, são as religiosas, que, todavia, o fazem não através de fatos científicos, mas, sim, da chamada ‘revelação’, que necessita da fé para se transformar em verdade aceita. 
                     Considerando que a espécie humana é portadora de características muito especiais, que lhe conferem um lugar de destaque entre as demais espécies, através do seu desenvolvimento intelectual e do acumulo de conhecimento proporcionado pelo progresso das ciências, chegaremos, com certeza, a descobrir como as coisas ocorrem do outro lado; mesmo porque, em conformidade com o nosso ponto de vista, grande parte dos fenômenos metafísicos de hoje, serão, apenas, simples fenômenos físicos amanhã. 
                           Pelo fato de desconhecermos, no presente, as verdadeiras explicações para estes fatos, os colocamos para além da Física. Entretanto, todos eles não passariam de simples fenômenos pertencentes ao campo das Ciências, conforme constataremos, com certeza, futuramente.
                              Mas, voltando ao tema do presente texto, felizmente, na era da tecnologia da informática, da inteligência artificial, em que imensos volumes de informação são diariamente armazenados e processados e quando sabemos que a posse das informações significa poder, podemos analisar com mais acuidade o fenômeno psicológico envolvendo todas as decisões humanas e provar que o livre arbítrio não passa, simplesmente, de uma falácia que tem sido proclamada ao longo dos dois últimos milênios com objetivos determinados.
                           Ao mencionar que não possuímos livre arbítrio estou me referindo às grandes decisões, aquelas que importam em sérias consequências para nós mesmos e para terceiros (estas a que me refiro, não fazem parte de nossas simples escolhas; mas, nos são impostas pela experiência que acumulamos e pelas informações disponíveis que temos). Possuímos livre arbítrio, que eu chamaria de direito de escolha, quando se tratam de simples decisões, como a de escolher a cor de uma camisa dentre várias, uma comida para o almoço dentre diversas, uma bebida, etc.
                              Ao longo da vida humana, da mesma forma como ocorre com os computadores, as mentes dos seres humanos assimilam, absorvem e armazenam imensas quantidades de informações. Tais informações são utilizadas para que os indivíduos decidam suas ações da melhor forma possível, em seus benefícios próprios. 
                             Ninguém, fazendo uso das informações de que dispõe, decide de forma errada, intencionalmente, em seu prejuízo, a não ser quando sofre de alguma patologia psíquica aguda ou crônica ou está submetido a uma forte emoção que o coloca fora de seu estado normal. Estamos falando de seres humanos normais que, por definição, são racionais e agem racionalmente.
                           Alguém poderá contestar: - Mas os santos são exceções, pois decidem a favor dos demais e contra os seus próprios interesses! Concordo, mas eles são santos e não seres humanos normais e, portanto, esta análise que faço não vale para eles.
                             Ao se defrontar com a necessidade de tomar alguma decisão, todo ser humano faz uso das informações prévias de que dispõe. Analisa estas informações e, com base nelas, toma, inconscientemente, a decisão mais acertada em seu próprio benefício. É assim que nós agimos, em todos os momentos de nossas terrenas existências. Mesmo ao fazer o mal, quem o faz está tomando a decisão correta, segundo os parâmetros da sua função objetivo. Da mesma forma procede ao fazer o bem. As funções objetivo de cada indivíduo, a cada momento, são diferentes daquelas dos demais.
                            Quero deixar claro que os indivíduos normais e racionais não poderiam tomar decisões diferentes daquelas que tomaram, pois estas são as que maximizam as suas funções objetivo, considerando todas as restrições, limitações, informações, conhecimentos, experiências e vivências que acumularam ao longo da vida.
                            Portanto, não temos esta escolha que a corrente favorável ao chamado livre arbítrio defende. Esta escolha só existiria se não possuíssemos nenhuma informação previa e decidíssemos com base, exclusivamente, no nosso desejo do momento.
                                    Só temos uma alternativa, que é a melhor decisão e é a que adotamos na hora em que precisamos. Todas as demais decisões, que poderíamos eventualmente tomar, seriam, para nós, piores do que a adotada, pois, caso contrário, não a teríamos escolhido. Só a escolhemos por que a nossa experiência prévia e as informações de que dispúnhamos nos fizeram com que a adotássemos. 
                                Livre arbítrio significaria poder escolher e, neste caso, não temos escolhas; pois seremos, inexorável e inconscientemente, conduzidos a adotar a decisão que nos afigura como a melhor. Jamais adotaremos alguma outra decisão que nos pareça pior do que a que adotamos. Só farão isto aqueles que perderam o contato com a realidade e, portanto, sofrem de alguma patologia psíquica ou estão sob uma forte emoção e, portanto, fora de si. 
                                   Nossas decisões, desta forma, são sempre  inconscientemente determinadas por nossas informações e experiências prévias. As decisões que tomamos, ao longo de nossas vidas, podem até ser reconhecidas, mais tarde, por nós mesmos, como tendo sido decisões erradas; entretanto, quando foram tomadas, eram as decisões corretas, com base nas informações de que dispúnhamos naquela ocasião.
                                 Isto sempre ocorreu, ainda ocorre e irá sempre ocorrer na vida de todos nós, seres humanos. 
                               Portanto, não há que se falar em livre arbítrio, construção esta, conforme bem intuiu Friedrich Nietzsche, que tinha uma razão bem definida ao ser adotada na Idade Média pela Igreja de Roma: colocar como pecado do indivíduo (por ter sido responsabilidade do próprio ser humano que poderia ter tomado outra decisão) algo que era da responsabilidade do seu Criador; isto é, as experiências de vida das criaturas, bem como o modo como as informações que elas geraram são armazenadas em suas mentes e usadas para a tomada de decisões foram todas obras daquele que as criou. 
                                  Nada disto seria, pois, a meu ver, obra dos seres humanos; já que, segundo o próprio cristianismo, eles já encarnaram com missões previamente determinadas por aquele que as criou (nasceram em determinado local, em determinada família, com determinado caráter, com determinada inteligência, com determinada constituição e aparência física), tratando-se, assim, de criaturas que de nenhuma forma interferiram em suas criações. 
                                      O mesmo raciocínio é válido para aqueles que não acreditam na existência de um Criador. Para estes, também, o ser humano jamais teria livre arbítrio para escolher entre várias decisões, pois sempre tomaria inconscientemente aquela que lhe parecesse a melhor para si mesmo, com base em sua experiência prévia e nas informações geradas por esta; muito embora, para todos nós, seja bem mais agradável imaginarmos que temos total liberdade de decidir sobre a nossa própria sorte.

C.Q.D.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

387. Um breve ensaio sobre a atração


Jober Rocha*



                     A Ciência da Física possui uma Lei conhecida como da Gravitação Universal, enunciada em 1682, pelo físico e matemático inglês Isaac Newton, que dizia: “se dois corpos possuem massa, ambos estão submetidos a uma força de atração mútua proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade”. A gravitação é, pois, uma propriedade da matéria que se manifesta como uma força, a qual é designada por gravidade ou força de atração gravitacional.
                            Entretanto, a atração que nos interessa investigar neste ensaio é àquela que atua entre dois seres humanos distintos; os quais, embora também submetidos à Lei da Gravitação Universal por se tratarem de duas massas, sofrem a atração causada por determinadas leis psicológicas e biológicas, as quais, da mesma forma que a força gravitacional age, atuam no sentido de aproximar os seres humanos uns dos outros, em busca do amor ou da amizade.
                      Este tema da atração entre pessoas tem sido muito estudado por filósofos e psicólogos e está, evidentemente, ligado intimamente ao amor, ao afeto e a amizade.
                            A atração precede ao amor e à amizade, pois só sentimos estes últimos por aqueles que nos atraem. Os dicionários a definem como a ação de atrair algo ou alguém, de forma encantadora ou sedutora, a partir de um conjunto de características (físicas, emocionais ou psicológicas) que despertem o interesse ou o desejo por algo ou alguém. 
                                Segundo os estudiosos do assunto, alguns fatores parecem ser os responsáveis pela atração entre duas pessoas: a proximidade entre elas; a exposição constante de uma a outra; a semelhança de atitudes e de valores que ambas possuam; a necessidade de complementariedade que buscam; a atração física que despertam e a carência afetiva que apresentam. Evidentemente deverão existir outros fatores que fazem com que surja atração entre duas pessoas, como, por exemplo, a capacidade de guardarem e de dividirem segredos, a lealdade, o carinho, o afeto, o apoio, a franqueza e o senso de humor; mas, eu considero como os mais relevantes aqueles inicialmente mencionados.
                              Esta atração mencionada tem sido fruto de ampla discussão, estudo e pesquisa por parte de psicólogos, pensadores e filósofos; bem como, de uma eterna admiração, exaltação, louvor, valorização e enaltecimento por parte dos poetas e dos escritores que utilizam o tema em suas obras literárias ao ressaltarem a amizade e o amor.
                                   Creio que foi o filósofo Aristóteles (324 a.C. a 322 a.C.), em sua ‘Ética a Nicômaco’, um dos primeiros a escrever de forma substancial e aprofundada sobre a atração entre duas pessoas, fato que conduziria a amizade ou ao amor, os quais ele considerava como virtudes extremamente necessárias à vida. Segundo alguns pesquisadores, os escritos de Aristóteles consistiriam na mais completa e bela análise que, filosoficamente, já se fez sobre o fenômeno da atração entre pessoas. 
                                Anteriormente a ele, Sócrates (469 a.C. a 399 a.C.) já havia declarado: - “Para conseguir a amizade ou amor de uma pessoa digna é preciso desenvolver, em nós mesmos, as qualidades que nela admiramos”. 
                                    Platão (427 a.C. a 347 a.C.) teria afirmado, por sua vez: - “A amizade ou o amor é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”.
                                      Voltando a Aristóteles, podemos constatar que ele distinguia três tipos de amizades, e consequentemente de amor, entre os seres humanos: a fundamentada no interesse, a baseada no prazer e aquela considerada como a  amizade, ou o amor, perfeito.
                                  As duas primeiras, segundo ele, eram apenas acidentais, porque a pessoa amada não era amada por ser quem era, mas porque proporcionava algum bem ou prazer ao outro. Por isto, tais amizades/amores, se desfaziam facilmente se as partes não permanecessem como eram desde o início; pois, se uma das partes cessasse de ser útil ou agradável como fora desde o início, a outra deixaria de amá-la. Acresce, segundo o filósofo, que a utilidade e o prazer não são permanentes, mas estão constantemente mudando. Dessa forma, quando desaparece o motivo da amizade/amor/atração, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para chegar a um fim, conforme pensava o filósofo.
                                    Quando a atração, que se transformaria em amizade ou amor, se dá por prazer ou por interesse, pensava o filósofo que até os maus poderiam ser amigos, se amarem e se atraírem. Da mesma forma, os bons também poderiam ser amigos dos maus e aqueles que não são nem bons nem maus poderiam ser amigos de qualquer tipo de pessoa. 
                                      Todavia, em razão daquilo que são por si mesmo, só o terceiro tipo de amizade ou amor poderia ser considerado como perfeito para Aristóteles.
                            A amizade ou o amor, perfeitos, para ele, seriam aqueles que existiriam entre indivíduos que são bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem uns aos outros, de maneira idêntica, e são bons em si mesmos. Estes agiriam em razão de suas próprias naturezas e não por acidente ou interesses particulares. Uma amizade ou amor assim, como seria de esperar, teria caráter permanente, para Aristóteles; visto que, um deles encontraria, no outro, todas as qualidades que imaginava deveria este possuir. 
                                O filosofo, entretanto, salientava que amizades ou amores como estes eram raros, pois também eram raros indivíduos como estes. Acrescentava, ainda, que entre as pessoas idosas era menos frequente que surgissem tais amizades ou amores, depois de já idosas, pois tais pessoas eram menos bem-humoradas e não encontravam muito prazer na companhia umas das outras; sendo que a boa disposição e a sociabilidade eram consideradas, pelo filósofo, as marcas principais da amizade ou do amor e contribuíam para que estes ocorressem.
                              Ainda, segundo Aristóteles, em todas as amizades ou amores que envolvessem desigualdades, a amizade ou o amor também deveriam ser proporcionais, isto é, a parte melhor deveria receber mais amor ou amizade do que dava, assim como deveria ser mais útil, e de modo análogo, em cada um dos outros casos; pois, quando o amor ou a amizade era proporcional ao merecimento das partes, estabelecer-se-ia, de certa forma, a igualdade, que era considerada uma característica essencial da amizade e dos amores.
                               O filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), por sua vez, um dos grandes pensadores da história a respeito do tema, em sua obra ‘A Vontade de Amar’, menciona: 
                           “Quando o instinto sexual se manifesta na consciência do indivíduo de uma maneira vaga e geral, sem determinação exata, é porque nela nasce de uma maneira absoluta, a vontade de viver. E quando, conscientemente, o instinto amoroso se fixa em determinado indivíduo, é que esta mesma vontade deseja ardentemente viver em um ser novo e distinto. O instinto do amor é meramente subjetivo, mas sabe iludi-los, ocultando-se sob a máscara de uma admiração objetiva. Para conseguir seus fins, a natureza emprega a sua astúcia. Por mais que haja o amor perfeito e desinteressado a alguém, o supremo fim deste é a geração de um novo ser. É prova disso não se satisfazer o amor com uma reciprocidade sentimental, mas ter necessidade da posse, do gozo físico. A certeza de ser amado não traz consolo quando existe a privação daquela que se ama e, devido a isso, muitos são os homens que têm feito saltar os miolos”.
                                     “A vontade de viver, evidente, em toda a espécie, é a força soberana que atrai duas pessoas de sexos diferentes, procurando realizar seus fins no novo indivíduo que deve nascer deles. Terá a vontade ou o caráter do pai; a inteligência da mãe, de ambos a constituição física; as feições reproduzirão mais vezes a do pai, a figura será semelhante mais frequentemente à da mãe. Tão difícil como explicar o caráter particular de cada indivíduo, é compreender o sentimento, também particular, da inclinação de uma pessoa por outra”.
                         “Não haverá, sem dúvida, um único homem que, no primeiro momento, não deseje a mulher mais formosa, pois esta realiza o tipo mais puro da espécie; depois procurará as qualidades que lhe faltam ou as imperfeições que não lhe pareçam, mas, pelo contrário, qualidades opostas às suas. Por isso vemos, por exemplo, os homens baixos gostarem de mulheres altas, os loiros das morenas, etc. Quando o indivíduo encontra outro, do sexo oposto, que o completa, isto é, completa seus defeitos, sabe ele, inconscientemente, que isto produzirá um novo ser mais perfeito, que está exposto à sua criação. Quanto mais viril um homem seja, mais procurará a mulher que tenha em si, no mais alto grau, todas as características da feminilidade e vice-versa”. 
                                 “Existe em todas as grandes paixões um cálculo inconsciente com o qual medem os amantes, instintivamente, esta parte proporcional necessária a cada um deles. O mesmo acontece com o temperamento; cada qual preferirá, certamente, com uma intensidade proporcional à energia de seu temperamento, um temperamento oposto ao seu. De acordo com a lei de concordância dos sexos, um homem pode sentir-se cativo por uma mulher declaradamente feia, se seus defeitos e irregularidades físicas são o corretivo do homem, por serem opostos aos dele. É quando, então, a paixão alcança seu maior grau. Sem o suspeitar, o indivíduo é guiado e dirigido pelo gênio da espécie, e daí se origina a importância que este liga a certos pormenores que lhe deveriam ser indiferentes. O gênio da espécie está sempre em guerra com os gênios protetores do indivíduo; é o mais encarniçado inimigo deste, pois não titubeia em aniquilar a felicidade deste para lograr seus fins”.
                                 “A verdade é que todo ser, em si, existe mais na espécie do que no indivíduo. Esse interesse pela constituição particular da espécie, origem de toda relação amorosa, desde o mais leve capricho até a paixão mais exaltada, faz com que cada um conceda ao amor uma importância vital”.
                                Quando Schopenhauer escreveu sua obra, a Psicologia (ciência que estuda os processos mentais - sentimentos, pensamentos, razão e o comportamento humano) ainda não havia nascido como Ciência, sendo estudada pela Filosofia. A psicologia como um campo autoconsciente de estudo experimental começou apenas em 1879, em Leipzig, Alemanha, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório dedicado exclusivamente à pesquisa psicológica. Da mesma forma, a psicanálise (que busca compreender os processos reprimidos pelo subconsciente, que geram sintomas como a angústia ou a ansiedade) só veio surgir em 1890, através do médico Sigmund Freud que centrou seus trabalhos nos pacientes com sintomas neuróticos e/ou histéricos. Acho, portanto, bastante aprofundadas e meritórias as análises e conclusões de Aristóteles e, posteriormente, as de Schopenhauer.
                                     Com respeito à abordagem psicológica, o psiquiatra Sigmund Freud (1856-1939), considerado como o criador da psicanálise, defendia que todo ser humano era movido, de um modo geral, pela busca da felicidade, através daquilo que ele denominou de “Princípio do Prazer”, que vale também para o amor e para a amizade, em particular. Esta busca, entretanto, segundo ele, seria fadada ao fracasso, devido à impossibilidade de o mundo real satisfazer a todos os nossos desejos. A isto, Freud deu o nome de "Princípio da Realidade". Segundo ele, o máximo a que poderíamos aspirar, de um modo geral, seria uma felicidade parcial, valendo isto também para o amor e para a amizade. A psicologia positiva, por sua vez - que dá maior ênfase ao estudo da sanidade mental e não às patologias - relaciona a felicidade com as emoções e as atividades positivas.
                                 Na minha modesta maneira de ver a questão, relativamente aos casos do amor e da amizade, o prazer se trataria, pois, de uma emoção mais fortemente vinculada aos sentidos físicos e a felicidade constituiria uma emoção mais ligada aos sentimentos do intelecto e do espírito.
                                    O Psicólogo Robert Steimberg, em 1986, apresentou uma denominada teoria triangular do amor. No contexto das relações interpessoais, os três componentes do amor, de acordo com a sua teoria, seriam a intimidade, a paixão e o compromisso. A intimidade englobaria os sentimentos de apego, proximidade e vínculo; a paixão abarcaria o sentimento conjunto de limerência (estado cognitivo e emocional involuntário que resulta de um desejo romântico por outra pessoa, combinado por uma intensa, avassaladora e obsessiva necessidade de se ter o sentimento correspondido) e de atração sexual; e o compromisso consistiria na decisão de permanecer com a outra pessoa, compartilhando ao longo do tempo as conquistas e os planos comuns.
                                     Atualmente, na Psicologia, em geral, existe o consenso de que todos os indivíduos amam de modo diferente; pois todos possuem histórias diferentes. Ademais, este amor individual se modifica com o passar do tempo; isto é, a própria forma de entender o amor, que está sendo vivido, muda na vida das pessoas à medida que amadurecem.
                                  O fato é que desde o surgimento do homem na superfície do planeta, os sentimentos de amor entre os indivíduos de sexos diferentes, felizmente, têm superado os de ódio e de aversão, permitindo que a população aumente.
                                      A denominada psicologia da atração, aceita e divulgada por inúmeros psicólogos modernos, busca explicar o porquê de nos sentirmos atraídos por determinadas pessoas, que, eventualmente, poderemos vir a amar ou ter amizade e a razão de querer mantê-las sempre por perto em nossas vidas. A origem para este fenômeno está, segundo afirmam os psicólogos, na força energética que conecta os indivíduos, fazendo com que eles se sintam emocionalmente próximos. Contudo, tanto nos relacionamentos amorosos quanto nas amizades, como regra geral, procuramos sempre por pessoas que tenham afinidades conosco. Dessa forma, poderemos chegar a compartilhar interesses, manter conversas mais profundas e criar maiores laços de empatia. 
                                   Este é, sem dúvida, um assunto fascinante e instigante para prolongadas discussões, pois afeta a todos nós, seres humanos já encarnados e aqueles ainda por encarnar, que só o farão caso haja um acordo afetivo prévio entre seus eventuais progenitores, proporcionado pelo mecanismo da atração e sob a observação e o consentimento do gênio da espécie, conforme salientava Schopenhauer.
                                   Finalizando, gostaria de destacar dois pensamentos divergentes sobre o tema da atração, quer para o amor, quer para a amizade, mencionados a continuação.
                                     Segundo o místico e mestre espiritual George Gurdjieff (1866-1949) “É preciso ter sempre alguém, de preferência do sexo oposto, em quem se possa confiar e falar abertamente, ao menos em um raio de dez quilômetros. Não adianta se estiver mais longe”. Na época e no local em que ele proferiu este pensamento, os transportes e os sistemas de telecomunicação deveriam ser precários, razão, talvez, para o estabelecimento da distância de dez quilômetros.
                                             O poeta e escritor brasileiro Mario Quintana (1906-1994), por sua vez, em sentido contrário ao de Gurdjieff, dizia, com sabedoria: “Não te abras com teu amigo que ele outro amigo tem; e o amigo do teu amigo, possui amigos também”... 



_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

terça-feira, 28 de julho de 2020


386. A  Esquerda Virótica



Jober Rocha*


Em tempos de pandemia, resolvi fazer uma analogia entre a situação política atual, da esquerda brasileira e mundial, e a forma como agem os vírus que assolam os organismos humanos.
Uma rápida pesquisa nos indica que nosso corpo tem barreiras que tentam impedir a entrada de qualquer vírus, sendo a nossa pele uma delas. Trata-se de uma barreira natural que o vírus consegue ultrapassar quando temos uma ferida ou algum machucado, por menor que sejam. Os vírus também costumam entrar em nossos organismos através dos olhos, do nariz e da boca.
Tendo conseguido entrar em nossos corpos, os vírus, como parasitas que são, precisam penetrar nas células para que possam se multiplicar e sobreviver. Pra isso, eles se encaixam na superfície da célula como uma chave se encaixando na fechadura, o que facilita a sua entrada.
Na realidade, os vírus buscam destruir nossos organismos por dentro, embora estes disponham de mecanismos de defesa capazes de livrar-se deles e de impedir que nos destruam.
As democracias que se utilizam do sistema capitalista, da livre iniciativa e da livre concorrência; bem como, da liberdade de pensamento e de expressão,  também estão sempre sujeitas a tentativa de invasão por parte da ideologia marxista que, também de forma parasitária (da mesma forma como ocorre com os corpos humanos, que são constantemente assediados pelos vírus biológicos que desejam vencer nossas defesas para neles penetrar) tenta se infiltrar nas mentes das pessoas e nos organismos estatais democráticos, visando destruí-los pelo lado dentro, como fazem os vírus.
Passada aquela fase da tentativa de tomada violenta do poder, pregada inicialmente por Stalin para implantar o comunismo nos países democráticos, o filósofo italiano Antônio Gramsci (1891-1937) imaginou uma forma mais eficaz (talvez, até mesmo, baseada na observação do comportamento dos vírus, como por mim aqui descrito; quem sabe?).
A forma vislumbrada por Gramsci para a tomada pacífica do poder e a implantação do comunismo nas democracias foi resumida em um decálogo, já por demais conhecido na atualidade, mas que nunca é demais repetir.
Suas propostas tinham por objetivo: Obter a hegemonia na sociedade civil, obter a hegemonia na sociedade política (Estado), estabelecer o domínio do intelectual coletivo (partido classe) e silenciar os intelectuais independentes.
As ações que imaginou eram destinadas a enfraquecer as trincheiras da democracia nos partidos políticos, no poder executivo, no poder legislativo, no poder judiciário, nas escolas e nas forças armadas.
Da mesma forma como agem os vírus, cujos sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças, as ações imaginadas por Gramsci eram, e são, dissimuladas e protegidas pelas franquias da própria democracia, tornando difícil a sua identificação como ações visando a implantação de um governo comunista.
Seu objetivo era “Realizar a transformação intelectual e moral da sociedade pelo abandono de suas tradições, usos e costumes, mudando valores culturais de forma progressiva e contínua, introduzindo novos conceitos que, absorvidos pelas pessoas, criam o senso comum modificado, gerando uma consciência homogênea construída com sutileza e sem aparente conteúdo ideológico, buscando a identificação com os anseios e necessidades não atendidas pelo poder público”.
O método, por Gramsci desenvolvido, era, em síntese, o seguinte: “Baseado no desejo de mudança dos indivíduos em direção a um mundo novo, com a sociedade sendo controlada através dos mecanismos de uma democracia popular, onde os pensadores livres temendo serem rotulados de retrógrados ou de alienados se submeteriam a uma prisão sem grades, calando suas vozes de divergência e se deixando vencer pelo senso comum modificado; este desejo de mudança prosseguiria intoxicando a sociedade (Igreja, Família, Escola, Governo e a Mídia) sob a égide do Estado, usado para reduzir e suprimir a capacidade de reação individual e coletiva”.
A Glasnost (transparência) e a Perestroika (reestruturação), estabelecidas na URSS no governo de Mikhail Gorbachev, de 1985 a 1991, tinham como principais objetivos modernizar e abrir a economia soviética, além de garantir maior abertura política. Estas medidas foram as principais responsáveis pelo fim da União Soviética e do seu sistema político econômico (socialismo), que vigorava desde a Revolução Russa de 1917. Foram também de fundamental importância para o fim da Guerra Fria entre o Ocidente e o Oriente.
Quando o mundo pensava ter o comunismo se exaurido e terminado como forma de governo e sistema econômico, eis que ele retorna revivido na América Latina, como uma Fênix, através da organização conhecida como Foro de São Paulo que, congregando dezenas de movimentos e partidos comunistas do continente, estabelecia as diretrizes Gramscistas, que deveriam ser aplicadas nos diversos países latinos (e africanos), objetivando transformar as democracias existentes naquilo que eles denominaram de socialismos bolivarianos, eufemismo utilizado pelos movimentos de esquerda para evitar a palavra comunismo, já bastante desgastada mundialmente.
Da mesma forma como agem os vírus biológicos, os ideólogos, ativistas e militantes marxistas, buscam vencer as barreiras do sistema democrático para, penetrando suas defesas, promoverem o caos interno através de medidas inteligentemente elaboradas pelo filósofo italiano.
A título de curiosidade, mencionarei apenas duas das inúmeras medidas propostas pelo Foro de São Paulo, com base na cartilha de Antônio Gramsci, para cada uma das trincheiras da Democracia brasileira:
Partidos Políticos
- Esvaziar as poucas lideranças da oposição através de patrulhamento e ataque (dossiê) direto ou indireto (parentes);
-   Infiltrar militantes nos outros partidos para obter o seu controle e esvaziar os líderes de oposição, os neutros e os que não são adeptos do «partido classe».
Poder Executivo
-    Distribuir cargos em órgãos e empresas públicas para militantes do partido-classe e seus aliados, em todos os níveis da administração (federal, estadual e municipal) para aparelhar o Estado;
-  Criar uma estrutura policial que possa ser transformada em Guarda Nacional ou Guarda Pessoal ou em Polícia Política (Polícia Federal, Força Nacional) para emprego imediato, quando chegar o momento oportuno.
Poder Legislativo
-   Desmoralizar o Legislativo, mantendo privilégios, barganhas e a falta de espírito público;
-  Criar leis para dar o respaldo às mudanças de usos, costumes e valores da nacionalidade brasileira.
Poder Judiciário
-  Retardar ou impedir o aperfeiçoamento do funcionamento do judiciário;
-   Estimular o corporativismo extremado na magistratura.
Escola
-   Usar as universidades como refúgio ideológico;
-  Fortalecer o controle do sistema de ensino que não ensina a pensar, através do MEC.
Forças Armadas
-   Enfraquecer a união dos militares, afastando os militares da ativa dos militares inativos;
-  Enfraquecer o espírito de corpo, separando os oficiais generais da tropa.

São inúmeras as ações propostas para desestabilizar nossas defesas democráticas e todas elas foram aplicadas nestas décadas de governos de esquerda pelas quais passou o nosso país.
Felizmente, nossos mecanismos institucionais de defesa têm resistido, até agora, as investidas do vírus ideológico marxista.
Todavia, parece que um novo ideólogo, cujo nome eu até agora desconheço, resolveu, em um gesto inteligente e maquiavélico, unir o vírus biológico ao ideológico.
Ao mesmo tempo em que solapava internamente o sistema democrático, não só o brasileiro, mas os de diversos outros países (como os USA e a Europa, por exemplo), lançava no meio ambiente mundial um vírus desconhecido (que diversos infectologistas afirmam ter sido criado e/ou modificado em laboratório) que, ademais de vitimar milhões de seres humanos, parou a Economia Mundial em razão da quarentena imposta por determinação da Organização Mundial de Saúde, chefiada por um político marxista, e seguida a risca por diversos países, estados e municípios governados também por políticos de esquerda
Remédios baratos e de uso popular rotineiro, que diversos cientistas afirmavam eficazes para o tratamento, foram abruptamente retirados das farmácias e tiveram suas prescrições proibidas nos hospitais. Ao mesmo tempo, verbas bilionárias foram cedidas aos governos estaduais, por ordem do parlamento, para a aquisição, sem concorrência pública, de hospitais de campanha, equipamentos e instalações diversos, respiradores, máscaras e medicamentos. Ao mesmo tempo, a corte suprema dava plena autonomia aos governadores e prefeitos para estabelecerem quarentenas, cerrarem as atividades econômicas e adotarem outros procedimentos que julgassem necessários, como, por exemplo, aquisições de bens e serviços sem as necessárias concorrências públicas.
A Mídia internacional dominada pela esquerda, como sempre, apoiou a iniciativa de paralização da Economia Mundial, em que pese uma opinião em contrário de inúmeros cientistas sociais, economistas, médicos, biólogos e infectologistas, afirmando que a quarentena de nada serviria e que a paralização da Economia Mundial, ao fechar empresas e demitir milhões (ou bilhões) de empregados, mataria muito mais gente de fome do que a temida pandemia.
O fato é que, embora o mal seja muito mais ativo do que o bem, por almejar o controle das mentes individuais, parece que, até agora, não tem conseguido sobrepujar o bem, fazendo com que acreditemos nos ditados populares que dizem: “É um grande mal, não fazer o bem”; “Nunca é tarde para o bem”; “Ninguém estima o bem que tem, até que o perde"; "O bem só se conhece quando se perde"; "A liberdade é a mãe de todos os bens, quando se faz acompanhar da justiça".
A esquerda mundial, aliada aos narcotraficantes e com o apoio dos políticos venais, almejou implantar o regime comunista em todo o mundo, notadamente nos continentes sul-americano e Africano (embora também no continente americano do norte), mais susceptíveis da ideologia marxista em virtude dos elevados níveis de pobreza e da falta de instrução e de cultura. Em diversos países foi bem sucedida, mas, felizmente e milagrosamente, não conseguiu, até agora, implantar o comunismo em nosso país nem nos USA (as duas maiores potências do novo mundo), países onde os presidentes são liberais de direita,  abominam o regime comunista e trabalham em conjunto para varrer esta nefasta ideologia que só trouxe miséria e autoritarismo, com perda das liberdades individuais, em todos os países onde se instalou.
Espero que a ciência e o bom senso humano consigam se livrar, definitivamente, destes vírus, biológicos e ideológicos, mencionados, dando início a uma nova fase de desenvolvimento econômico, de saúde, de progresso científico e tecnológico. Que este período trágico jamais se repita na história humana e que, como uma Lei Historicamente Determinada (termo inventado e tão ao gosto de Karl Marx), que o bem sempre prevaleça sobre o mal...

_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.