domingo, 21 de maio de 2017


140. Parece que eles sentiram o golpe...**


Jober Rocha*


                        A rede WEB, mais especificamente o You Tube, possui um enorme poder de divulgação mundial de informações. Em questão de segundos, de um ponto a outro do planeta, um filme sobre algo desconhecido ou uma informação importante sobre fato do momento, chega, instantaneamente, à grande parte das residências, locais de trabalho, de veraneio ou, diretamente, nas mãos dos usuários dos whatsUpp. O poder de informação e de formação de opinião que isto representa, em um mundo globalizado, é imenso.
                        Os chamados ‘donos do mundo’, aquelas trezentas maiores corporações (pertencentes a umas poucas famílias, que alguns já contabilizaram como sendo da ordem de 1.300) que dominam os sistemas produtivos da maioria dos países e que impõem às sociedades os seus valores e as suas verdades, de um momento para outro deixaram de lado a euforia dos primeiros tempos (quando imaginavam uma publicidade mundial para seus produtos e vendas também de caráter mundial), ao se darem conta de que inúmeras matérias de cunho político-ideológico, mediante uma transvaloração dos valores tradicionais por eles instituídos, estavam sendo divulgadas, mundialmente, sem nenhum controle maior por parte deles ou de seus prepostos nos governos.
                         O efeito multiplicador destas matérias, ao espraiar-se pelos vários continentes, estava possibilitando, apesar das idiossincrasias típicas dos diversos povos e das distintas raças, a unificação, em um nível jamais visto, do pensamentos e da maneiras de ver e entender o mundo que nos cerca; bem como, de perceber as injustiças sociais que caracterizavam a maioria dos países, notadamente aqueles do denominado Terceiro Mundo.
                        Rapidamente, os ‘donos do mundo’ tentaram, através de seus prepostos nos governos, estabelecer regras e marcos na Internet, que permitissem eliminar matérias indesejáveis e potencialmente perigosas para seus interesses perenes de dominação.
                        Paralelamente, sob o argumento de impedir a divulgação de assuntos violentos, racistas, anti-religiosos e homofóbicos, estas trezentas maiores empresas mundiais retiraram os seus patrocínios do You Tube (como seus maiores anunciantes), que era da ordem de quase cem milhões de dólares, deixando-o a beira da falência. 
                       Muitos alegam que por detrás dos interesses que estavam sendo prejudicados, e que conduziram estas trezentas principais empresas a retirarem seus patrocínios do You Tube, estavam os chamados Iluminattis e a ideia da implantação de uma denominada Nova Ordem Mundial. Ocorre que a WEB, se em um primeiro momento poderia ser o instrumento ideal para a implantação desta Nova ordem Mundial, ao fazer com que as mensagens dos Iluminattis atingissem a maioria das pessoas em todos os continentes (com as suas propostas, para o nosso planeta, de um único território, uma única moeda, uma única religião, o fim dos Estados soberanos e a criação de um governo mundial), em um segundo instante proporcionou voz aos pequenos ‘You Tubers’, produtores independentes de filmes e textos divulgados no You Tube e ativistas políticos e ideológicos.
                       Este efeito perverso, inicialmente não percebido ou não considerado como muito importante pelos ‘donos do mundo’, mostrou-se como uma ameaça quase mortal aos seus interesses’, pois consistiu na criação de uma Mídia fora do controle deles, com o poder de solapar-lhes as bases ideológicas e políticas; bem como, os conceitos de moral e os costumes que haviam implantado, notadamente no Ocidente, ao longo dos tempos. Talvez, tenham concluído ser preciso, para suas sobrevivências, efetuar mudanças radicais ou iniciar uma nova fase na História da Humanidade.
                       Aos que imaginam tudo isto como fazendo parte de uma Teoria da Conspiração, acrescento, ainda, mais um pouco de combustível na fogueira. Inúmeros são os casos de relatos, captação em radares, fotos e filmes de objetos voadores não identificados. A WEB está cheia deles e alguns são falsificações grosseiras, mas outros são comprovadamente verdadeiros; inclusive muitos deles foram divulgados por governos e forças aéreas ao redor do mundo. 
                       A minha tese é a seguinte: e se as elites mundiais (ou uma parte importante delas) já mantiveram contatos oficiais com seres alienígenas e as teses Iluminattis (da implantação de um só governo mundial, uma só religião, um só território e uma só moeda), nada mais são do que exigências destes seres para que possamos fazer parte de uma eventual federação de raças cósmicas (possivelmente existente no Universo e que pode ser que possua este protocolo político, econômico e social para o ingresso de novos membros), e podermos, desta forma, nos integrar a outras espécies mais antigas, beneficiando-nos dos seus conhecimentos científicos e tecnológicos e afastando, com estas medidas por eles propostas e buscadas pelos Iluminattis, a possibilidade da ocorrência futura de novas guerras mundiais (eliminando tudo aquilo que desune a raça humana, como os países, as religiões, os governos, as moedas, as várias línguas, etc.)? 
                       Esta é uma hipótese que não pode ser descartada, notadamente quando ignoramos a maior parte daquilo que verdadeiramente ocorre pelo mundo, quer de forma pública ou privada. 
                       Quando, ao longo da História Humana, nós, o povo, chegamos a nos inteirar de alguma coisa importante ou sensível, esta, quase sempre, se tratou apenas da versão dos fatos e não dos fatos concretamente ocorridos. Sendo verdadeira a hipótese levantada e, possivelmente, para evitar pânico, convulsão social ou rebeliões populares, tudo poderia estar sendo arquitetado em sigilo pelos ‘donos do mundo’, com as eventuais dissensões de praxe entre as elites, em razão de interesses contrariados, da busca de hegemonia nesta fase de transição, do espírito de competição, da ânsia pelo poder, da ganância por riquezas, etc. Se teremos um governo mundial, quem será o mandatário e virá de que país? Uma só religião, quem será o Pontífice Máximo e sairá de qual religião? Um só território, como se organizará a estrutura de poder neste território?                                           
                       Dificilmente as elites abrirão mão do poder que já desfrutam, a não ser que vislumbrem a possibilidade de mais poder. Talvez, por isto, ainda não tenham conseguido implantar a Nova Ordem Mundial em nosso planeta. Quanto ao povo, pelo visto, com ou sem a existência de alienígenas, jamais deixará de ser aquilo que sempre foi ao longo da História Humana: massa de manobra em uma eterna servidão consentida.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Texto publicado no jornal A Palavra, nº 191, APA/BNDES, Rio de Janeiro, RJ.




sexta-feira, 12 de maio de 2017



139. Será a Justiça Divina apenas mais uma falácia?



Jober Rocha*


                   A palavra falácia, segundo os dicionários, deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Trata-se a falácia, portanto, de um raciocínio errado com a aparência de verdadeiro. Segundo os critérios da lógica e, também, da retórica, uma falácia consistiria em um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho, na tentativa de provar de forma eficaz e convincente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão, algumas vezes, podem parecer convincentes para grande parte do público, apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos em razão disso. Este é justamente o caso do questionamento que dá título ao presente texto e que denominamos de Justiça Divina. Reconhecer falácias não é coisa fácil; já que, os argumentos falaciosos costumam ter validade emocional, íntima e psicológica, ainda que não lógica.

                  As falácias podem ser cometidas intencionalmente ou não. No primeiro caso denominam-se sofismas e no segundo paralogismos. Evidentemente, a presença de uma falácia em um texto não o invalida totalmente, mas apenas o argumento no qual ela ocorreu. Algumas vezes é fácil reconhecê-la; outras, dificílima. A lista de falácias, por categoria, é enorme: da ambiguidade; do apelo a motivos; de erros de categoria e de regras gerais; causais; de explicação; erros de definição; da dispersão; indutivas; argumentum ad hominem; non sequitur; etc.
                  Para se discorrer sobre a Justiça Divina, por sua vez, costuma-se, previamente, fazer uma escolha sobre a Natureza Humana: seria ela Determinista (isto é, todos os acontecimentos que lhe ocorrem são causados por fatos anteriores) ou nela existiria o Livre-arbítrio (ou seja, o poder que cada indivíduo, supostamente, teria de escolher livremente suas ações ou os caminhos que deseja seguir)? Esta última característica é preconizada por diversas religiões, como, por exemplo, o cristianismo, o espiritismo, o budismo, etc., como a indicar que o ser humano dispõe do poder de escolher, para sua existência, o caminho certo ou o caminho errado, por sua livre e espontânea vontade. 
                  Sobre estas duas possibilidades muitos filósofos, religiosos e homens de Ciência já escreveram milhares de páginas, ao longo da História Humana. Um breve resumo da matéria poderia destacar cinco grandes correntes: 


1. Determinismo Mecanicista e Teleológico: Rejeita a ideia de que os homens possuem livre-arbítrio,

2. Libertarísmo: Aceita que os indivíduos possuem livre-arbítrio pleno,
3. Indeterminísmo: Aceita que os indivíduos possuem livre-arbítrio e que as ações que praticam são efeitos sem causas,
4. Compatibilísmo: Aceita que o livre-arbítrio existe mesmo em um universo sem incerteza metafísica; isto é, seria um livre-arbítrio que respeitaria as ações ou pressões internas e externas,
5. Incompatibilísmo: Entende que não há maneira de reconciliar a crença em um universo determinístico com um livre-arbítrio verdadeiro.


                  Ademais, alguns dos principais filósofos assim expressaram seus pontos de vista sobre o assunto, que não é matéria pacífica no ambiente filosófico e científico:



Spinoza: O filósofo Spinoza afirmou em seu livro ‘Ética’ que “Não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada, por sua vez, por outra causa e essa por outra, e assim sucessivamente até o infinito. Os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar.”.

Voltaire: Voltaire em ‘O Filosofo Ignorante’ afirma: “Nada é sem causa. Um efeito sem causa é apenas uma palavra absurda. Todas as vezes que quero, isto só pode ocorrer em virtude do meu juízo bom ou mau; este juízo é necessário, portanto minha vontade também o é. Com efeito, seria muito singular que toda a Natureza, todos os astros obedecessem a leis eternas, e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que, menosprezando tais leis, pudesse agir sempre como lhe agradasse, ao sabor do seu capricho. Agiria ao acaso e sabe-se que o acaso nada é; pois, Inventamos esta palavra para exprimir o efeito, conhecido, de toda causa desconhecida. Não há intermediário entre a necessidade e o acaso, e sabeis que não há acaso; portanto, tudo o que ocorre é necessário.”.
Immanuel Kant: Kant em ‘Critica da Razão Prática’ afirma que a religião não pode ser baseada na ciência nem na teologia, mas sim na moral. “Temos de encontrar uma ética universal e necessária; princípios ‘a priori’ de moral, tão absolutos e certos quanto a matemática. Temos de mostrar que a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por si só, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica, que o senso moral é inato, e não derivado de experiência. O imperativo moral de que precisamos, como base da religião, deve ser um imperativo absoluto, categórico.”
“A mais impressionante realidade em toda a nossa experiência é, precisamente, o nosso senso moral, nosso sentimento inevitável, diante da tentação, de que isto ou aquilo está errado. Podemos ceder; mas, apesar disto, o sentimento lá está.”( grifo nosso).
“E uma boa ação é boa não porque traz bons resultados, ou porque é sabia, mas porque é feita em obediência a esse senso íntimo do dever, essa lei moral que não vem de nossa experiência pessoal, mas legisla imperiosamente e ‘a priori’ para todo o nosso comportamento, passado, presente e futuro.”(grifo nosso).
Hegel: Hegel desenvolveu uma velha ideia, prenunciada por Empédocles e corporificada por Aristóteles, que é a do movimento dialético. “O movimento de evolução é um continuo desenvolvimento de oposições, e a fusão e reconciliação destas. Não só os pensamentos se desenvolvem e evoluem segundo esse movimento dialético, mas também as coisas. Tese, antítese e síntese constituem a fórmula e o segredo de todo o desenvolvimento e de toda a realidade.”.
Schopenhauer: Para Schopenhauer “Cada um acredita de si mesmo ‘a priori’ que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver. ‘A posteriori’, entretanto, descobre para seu espanto, através da experiência, que não é livre, mas sujeito a necessidade (grifo nosso), que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta e que, do inicio ao fim da vida, ele deve conduzir o mesmo caráter, o qual ele mesmo condenou.”.
Hobbes afirma que “O livre-arbítrio é um poder definido pela vontade e, portanto, não é livre nem não livre. Seria, assim, um erro atribuir liberdade à vontade.”.
Locke, em seu ‘Ensaio acerca do Entendimento Humano’, afirma que “A questão de se a vontade humana é livre ou não, é imprópria. A liberdade, que é apenas um poder, pertence apenas aos agentes e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.”.
Isaiah Berlin diz que “Para uma escolha ser livre, o agente deve ter sido capaz de agir de outra maneira.” Este princípio, mais tarde denominado de principio das Possibilidades Alternativas, é considerado por seus defensores como uma condição necessária para a liberdade.
Nietzsche, em seu “Porque Sou um Destino” afirma que “A religião inventou a noção do pecado juntamente com o seu instrumento de tortura, o livre-arbítrio, para confundir os instintos, para fazer da desconfiança frente aos instintos uma segunda natureza!”
Daniel Dennet, um compatibilísta, apresenta o seu argumento para uma ‘Teoria Compatibilista do Livre-Arbítrio’ da seguinte maneira: “Se os indivíduos não considerarem a existência de Deus, através do ‘Caos’ e da pseudo-aleatoriedade ou aleatoriedade quântica, o futuro não está definido para os seres finitos. Visto que os indivíduos teriam a capacidade de agir diferentemente do que se espera, o livre-arbítrio existiria.” 


                    A Ciência também tem efetuado inúmeras tentativas de responder a questão do livre-arbítrio através de pesquisas científicas.

                   O pensamento científico, de uma maneira geral, vê o universo de maneira determinística e alguns pensadores científicos creem que para predizer o futuro é preciso, simplesmente, dispor de informações sobre o passado e o presente. A crença atual, entretanto, consiste em uma mescla de teorias determinísticas e probabilísticas.
                   Albert Einstein, determinista, acreditava na Teoria da Variável Oculta, isto é, de que no âmago das probabilidades quânticas existiriam variáveis pré-determinadas.
                     Os Incompatibilistas alegam que a hereditariedade e o ambiente configurariam uma ‘coerção irresistível’, e todas as nossas ações seriam controladas, portanto, por forças exteriores a nós mesmos.
                   Voltando a ideia de falácia na chamada Justiça Divina, constata-se que foi através da interpretação religiosa da Bíblia, por Agostinho de Hipo (Santo Agostinho), que surgiu e se firmou, entre os pensadores cristãos, a ideia do livre-arbítrio que veio, por fim, ensejar o surgimento da noção do pecado, mediante uma transvaloração dos valores, até então, existentes.                    
                     Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche, a existência do pecado constitui a base de todo o poder exercido pelo sacerdote, que têm a autoridade de perdoá-lo mediante a aplicação de alguma penitência, por ele mesmo estabelecida.
                     Vê-se que, dependendo da forma como a Natureza Humana é considerada, a chamada Justiça Divina, segundo alguns que nela acreditam, poderia ocorrer de forma pré ou de forma pós encarnação. Pré se, antecipadamente a encarnação, fosse acertado, de comum acordo, entre o espírito e a divindade, o destino daquele na existência que se iniciaria. Pós se, ainda, de comum acordo, o espírito possuísse a faculdade de escolher e de traçar o seu próprio destino, tão logo encarnado, sem a necessidade de consulta prévia, anterior ou posterior, à divindade.  Algumas religiões pensam da primeira forma e outras da segunda.
                        Outro aspecto relevante, conhecido como Teodicéia (ramo da Teologia que trata da coexistência de um Deus todo-poderoso, de bondade infinita, com o mal; isto é, a resposta para a pergunta: por que Deus permite o mal?), serviu para atiçar mais lenha nesta já alta fogueira.                             
                          Lembremo-nos, todavia, que todas as considerações até aqui apresentadas são, exclusivamente, criações, humanas; ou seja, trata-se, tão somente, de seres humanos tentando adivinhar como pensaria o Criador de Todas as Coisas e quais seriam as Suas Razões para aquilo que, supostamente, Ele pretende ou faz com as Suas criaturas.
                    A Teodicéia procura, assim, mostrar que ainda é razoável acreditar em Deus, apesar das evidências do mal no mundo, e tenta oferecer uma estrutura para explicar por que o mal existe; evidentemente, fazendo uso de falácias. A Teodiceia é, portanto, baseada em uma teologia natural que tenta provar a existência de Deus e procura demonstrar que esta existência permanece provável, mesmo depois que o problema do mal é colocado; dando uma justificativa, quase sempre falaciosa, para Deus permitir o mal de acontecer; posto que, por detrás do suposto mal, encontrar-se-ia a mais pura Justiça Divina. Os autores religiosos fazem uso, para tanto, com relativa freqüência, de falácias em suas teses, visando convencer o público leitor de que existe, por detrás de todos os males, uma justiça promovida pelo Criador; em que pese toda a dor, toda a magoa, todo o sofrimento, toda a desigualdade e toda a comprovada injustiça, vivenciada, em todos os momentos, pelos seres humanos encarnados. Acresce, ainda, segundo afirmam muitos pensadores religiosos, que o Criador deixar-se-ia influenciar por pedidos de suas criaturas, interferindo nestes problemas de ordem humana, seja para corrigi-los, para modificá-los ou para eliminá-los. Por detrás disto tudo estaria pairando a imagem da Justiça Divina, que, conforme ditado popular, tarda, mas não falha. Reconheço que é consolador para os seres humanos imaginarem que alguém vela por eles e que este alguém, como um pai, está pronto a enxugar-lhes o pranto e a corrigir o que se lhes afigura como alguma injustiça humana, eventualmente, contra eles praticada. É consolador, mas não significa que isto seja verdadeiro.
                      Mudando um pouco de assunto, o primeiro filósofo a discorrer sobre a Arte e a Ciência de “Como Vencer um debate sem precisar ter razão”, fazendo uso de sofismas, creio que foi Arthur Schopenhauer em sua obra com o próprio título entre aspas, já citado.
                     Recentemente, ademais, uma lista com 24 tipos diferentes de argumentos falaciosos foi elaborada por Jesse Richardson, Andy Smith e Som Meaden, responsáveis pelo site Thou Shalt Not Commit Logical Fallacies. Os argumentos listados pelos autores, a título de exemplo, são os seguintes:


1. Apresentar o argumento da outra pessoa de forma errônea, como forma de atacá-lo mais facilmente. Ao exagerar, deturpar ou inventar o argumento da outra pessoa é mais fácil apresentar a nossa própria posição como sendo razoável ou válida. Todavia, este tipo de desonestidade não só mina o discurso racional, como prejudica a nossa própria posição, já que põe em causa a nossa credibilidade. Se estivermos dispostos a deturpar o argumento do nosso oponente, de forma negativa, também estaremos dispostos a exagerar a nossa própria posição, como positiva. Exemplo: O João diz que, no nosso país, deveríamos gastar mais dinheiro na Educação e Ciência, ao que o José responde: mas então tu odeias tanto o teu próprio país que queres deixá-lo sem Sistema Nacional de Saúde?



2. Assumir que há uma relação real ou perceptível entre duas coisas significa que uma é a causa da outra. Um erro deste tipo é a falácia cum hoc ergo propter hoc (com isto, portanto por causa disto), em que assumimos que, porque duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, então uma é a causa da outra. O erro está em ignorar a possibilidade de que pode haver uma causa comum a ambos os acontecimentos ou, como no exemplo abaixo, que as duas coisas em questão não têm qualquer relação causal entre elas e a sua relação aparente é apenas uma coincidência. Outra variação comum é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disto, portanto por causa disto), em que assumimos uma relação causal porque um acontecimento se deu depois de outro e, portanto, o segundo deve ter sido causado pelo primeiro. Exemplo: Apontando para um gráfico, o Francisco mostra que as temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, enquanto que, ao mesmo tempo, o número de piratas tem diminuído. Logo, a falta de piratas é que tem aquecido o mundo e o aquecimento global, da forma como dizem que ocorre, é uma fraude.



3. Tentativa de manipulação através de uma resposta emocional, em vez de um argumento verdadeiramente convincente. Os apelos à emoção incluem apelos ao medo, inveja, ódio, piedade, orgulho, entre outros. É importante assinalar que, por vezes, um argumento logicamente coerente pode inspirar emoções e ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia ocorrem quando a emoção é usada em vez de um argumento lógico ou como forma de ocultar o fato de que não existe nenhuma razão racional convincente para a posição que estamos a tomar. Todos, com exceção dos sociopatas, somos afetados pela emoção e, portanto, os apelos à emoção são uma táctica argumentativa comum e efetiva. Mas, em última análise, têm falhas, são desonestos e tendem a fazer com que o nosso oponente se emocione. Exemplo: O Luís não queria comer miolos com brócolis, mas o seu pai disse-lhe para pensar nas pobres crianças famintas de África que não tinham qualquer comida para comer.



4. Assumir que, porque um argumento está mal construído ou uma falácia foi cometida, então o argumento está, necessariamente, errado. É muito frustrante ver alguém a debater ou argumentar mal uma posição correta. A maior parte das vezes, um debate ganha-se, não porque o vencedor tem razão, mas porque ele é melhor a debater que o seu opositor. Se formos honestos e racionais, temos que ter em mente que, só porque alguém cometeu um erro na sua argumentação, não significa, necessariamente, que o argumento, em si, esteja errado.

Exemplo: Ao reconhecer que a Maria cometeu uma falácia ao argumentar que deveremos comer comida saudável porque está na moda, a Alice resolveu comer um duplo-hamburguer com queijo e bacon todos os dias.


5.  Quando se constrói um argumento que dá a entender que caso se permita que A aconteça, então Z também vai eventualmente acontecer, pelo que A não deveria acontecer.  O problema com este raciocínio é que evita enfrentar o tema e, em vez disso, desvia a atenção para uma hipótese extrema. Como não apresentamos nenhuma prova de que tal hipótese extrema vai de fato acontecer, esta falácia é semelhante à falácia do apelo à emoção, já que desencadeia o medo. Na verdade, o argumento está injustamente marcado por conjecturas não substanciadas.

Exemplo: O Joaquim afirma que caso se permita o casamento a pessoas do mesmo sexo, então depois vamos acabar por permitir o casamento entre progenitores e filhos, entre pessoas e chimpanzés ou entre pessoas e automóveis.
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6. Atacar o caráter do oponente ou alguma característica pessoal, em vez de enfrentar o seu argumento.  Os ataques ad hominem podem tomar a forma de um ataque aberto a alguém ou, de um modo mais sutil, levantar dúvidas sobre o seu caráter ou atributos pessoais. O resultado desejado com um ataque ad hominem é minar o oponente, sem realmente enfrentar o seu argumento ou apresentar um argumento próprio convincente. Exemplo: Depois da Xana fazer uma apresentação convincente de porque é que os impostos deveriam ser mais justos e equitativos, o Simão pergunta à audiência se deveríamos ou não acreditar numa mulher que não é casada, que até já foi presa uma vez e que tem um cheiro esquisito.
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7. Evitar enfrentar uma crítica virando-a contra o acusador – responder a uma crítica com uma crítica. Literalmente se traduz como “tu também”. Esta falácia é frequentemente usada como uma eficaz manobra diversionista (red herring) porque retira o foco de atenção do acusado e desvia-o de novo para o acusador. A implicação é a seguinte: se o nosso oponente também faz aquilo de que nos está acusando, então, é um hipócrita. Independentemente de isto ser ou não verdade, o problema reside no fato de esta ser  efetivamente uma tática de fuga ao reconhecimento e de resposta à crítica. Ao virar a crítica contra o acusador, o acusado não precisa responder à acusação. Exemplo: A Natália nota que a Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de responder ao seu argumento, Ana acusa a Natália de também ter cometido uma falácia lógica num momento anterior da sua conversa.
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8. Porque algo é difícil de entender ou não se sabe como funciona, então é provavelmente falso. Assuntos complexos, como a evolução biológica por seleção natural, precisam de certo grau de compreensão antes que os possamos abordar devidamente. Esta falácia é geralmente usada em substituição desse conhecimento. Exemplo: O Joaquim desenhou um peixe e um ser humano e, com um ar depreciativo, perguntou ao Ricardo se ele realmente achava que as pessoas eram idiotas o suficiente para achar que o peixe se tinha transformado num humano só por acaso.


9. Modificar os objetivos ou abrir uma exceção quando a afirmação feita se demonstra falsa. Os seres humanos são criaturas curiosas e têm uma aversão especial a estarem errados. Em vez de percebermos os benefícios de sermos capazes de mudar o nosso entendimento através de uma melhor compreensão, muitos de nós inventam formas de se agarrarem a crenças antigas. Uma das formas mais comuns de o fazermos é racionalizar, à posteriori, o motivo pelo qual o que pensávamos ser verdadeiro deve permanecer verdadeiro. É geralmente fácil encontrar a razão para uma crença que se adapta a nós e é necessária integridade e uma genuína honestidade para que examinemos as nossas próprias crenças e motivações sem cair na armadilha de justificar a nossa forma de nos vermos e de vermos a nós próprios e o mundo que nos rodeia.

Exemplo: Mestre Supimpa dizia-se vidente, mas quando as suas “capacidades” eram testadas em condições científicas, magicamente desapareciam. Segundo Supimpa, a explicação para este fenômeno é que era necessário ter-se fé nele, para que as suas capacidades tivessem efeito.


10. Fazer uma pergunta que tem uma assunção incluída, de forma que não pode ser respondida sem aparentar culpa. As falácias da pergunta complexa são particularmente efetivas no desvio de debates racionais devido à sua natureza “inflamatória”: o receptor da pergunta é levado a defender-se e pode parecer agitado ou “à defensiva”. Não só esta falácia é também um apelo à emoção, como traiçoeiramente enquadra o argumento de uma forma enganadora, como uma espécie de ‘falácia do espantalho’ preventiva.

Exemplo: A Graça e a Margarida estão interessadas no Bruno. Um dia, estando o Bruno a ouvir, a Graça pergunta com um tom inquisitivo: “Margarida, estás tendo problemas com drogas?”.


11. Dizer que o ônus da prova não compete à pessoa que fez a afirmação, mas qualquer outra pessoa que a queira negar. O ônus da prova recai em quem faz uma afirmação e não em quem a quer falsificar. A incapacidade, ou a falta de vontade, para falsificar uma afirmação não a torna válida, nem lhe dá qualquer credibilidade. No entanto, é importante notar que nunca podemos estar certos de algo e, portanto, temos que avaliar todas as afirmações com base na evidência existente. Descartar algo apenas porque ainda não foi provado, é também um raciocínio falacioso. Exemplo: O Bernardo declara que há um bule a orbitar o Sol, entre a Terra e Marte. Como ninguém pode provar que ele está errado, a sua afirmação é, portanto, válida.



12. Usar um duplo-sentido ou linguagem ambígua para induzir em erro ou deturpar a verdade. Os políticos são muitas vezes peritos em usar a ambiguidade para induzir em erro e mais tarde, caso sejam questionados, explicam como, tecnicamente, não estavam a mentir. A razão pela qual este tipo de estratégia é uma falácia é que se trata intrinsecamente de uma deturpação da verdade. Exemplo: A Margarida promete entregar o projeto até ao fim do mês ao diretor. Quando o mês chega ao fim, novo mês começa e o diretor pergunta pela tarefa por cumprir. A Margarida explica que não está atrasada, porque o prometido é que terminaria o projeto até ao final do mês… seguinte.


13. Achar que há alguma tendência por trás de fenômenos estatisticamente independentes. Diz-se que esta falácia, em que muitos acreditam, pode ter dado origem a um cidade no meio do deserto de Nevada, nos Estados Unidos da América. Apesar da probabilidade da “mudança na sorte” ser baixa, cada nova jogada na roleta é completamente independente da anterior. Logo, embora possa haver uma pequena probabilidade de atirar a moeda ao ar e sair “coroa” 20 vezes seguidas, a probabilidade de sair “coroa”, em cada uma dessas jogadas, continua a ser 50/50 e não é influenciada pela tentativa anterior.
Exemplo: Em seis jogadas de roleta, saiu sempre vermelho, portanto o Rui estava quase seguro que depois sairia preto. Como, ao pensar desta forma, estava a sofrer de uma espécie de “seleção natural econômica”, rapidamente ficou sem as suas poupanças.


14. Como forma de validação, apelar à popularidade de uma afirmação ou ao fato de muitas pessoas praticarem determinado ato. A falha deste argumento é que a popularidade de uma ideia não tem qualquer relevância para a sua validade. Se tivesse, então a Terra teria sido plana durante a maior parte da história, para se ajustar à crença popular. Explicamos melhor esta e a falácia do apelo à antiguidade   Exemplo: Samuel, bêbado, apontou um dedo ao Fernando e pediu-lhe para explicar porque é que tanta gente acreditava em fantasmas, se eram só uma velha superstição. O Fernando, pelo seu lado, já tinha tomada umas cervejas a mais e caiu da cadeira.



15. Usar, como argumento, a posição ou a opinião de uma figura ou de uma instituição de autoridade. Em relação a esta falácia, é importante notar que as autoridades em determinados campos têm argumentos válidos e que não deveríamos desprezar a experiência e sabedoria de outras pessoas. No entanto, para formular um argumento, uma pessoa deve defender-se com o seu próprio mérito, ou seja, há que saber por que é que a pessoa com autoridade toma uma posição em particular. Mas, claro que é possível que uma pessoa ou instituição com autoridade estejam erradas. Portanto, a autoridade dessa pessoa ou instituição não tem qualquer relevância intrínseca na verdade ou falsidade das suas afirmações. Exemplo: Como não podia defender a sua posição de que a evolução “não é real”, o Roberto alega que conhece cientistas que também questionam a evolução (e que presumivelmente não é um Primata).



16. Assumir que uma parte se aplica ao todo ou a outras partes da mesma coisa.

Por vezes, quando algo é certo para uma parte, também se aplica ao todo, mas a diferença crucial é ter evidência que demonstre que esse é o caso. Como observamos consistência nas coisas, o nosso pensamento pode tornar-se enviesado, de forma a assumirmos consistência onde ela não existe. Exemplo: O Daniel foi uma criança precoce e gostava de lógica. Ele argumentava que os átomos eram invisíveis e que ele era feito de átomos, logo, que ele também era invisível. Infelizmente, e apesar das suas habilidades de raciocínio, perdia a jogar às escondidas.


17. Fazer um apelo ao purismo como modo de descartar uma crítica relevante ou uma falha no próprio argumento. Nesta forma de raciocínio errado, a crença pessoal torna-se infalsificável porque, independentemente das provas, simplesmente alteramos os nossos parâmetros de forma a que não se apliquem a um “verdadeiro” exemplo. Este tipo de racionalização, à posteriori, é uma forma de evitarmos críticas válidas ao nosso argumento.

Exemplo: O Bill afirma que nenhum escocês verdadeiro põe açúcar no chá, ao que Charles replica que ele é escocês e gosta de pôr açúcar no chá. Furioso, como um verdadeiro escocês, o Bill grita dizendo que nenhum escocês verdadeiro adoça o chá!


18. Julgar algo como bom ou mau, tendo como base apenas a sua proveniência.

Esta falácia evita a argumentação, desviando o foco de atenção para a origem da coisa ou da pessoa. É semelhante à falácia ad hominem já que usamos a percepção negativa pré-existente para dar a entender que o argumento da outra pessoa está errado, sem realmente apresentar motivos válidos para a falta de mérito do argumento.
Exemplo: Acusado no Telejornal de corrupção, o deputado diz que deveríamos ter muito cuidado com o que aparece na televisão; porque, todos nós sabemos, a imprensa pode não ser de confiança.


19. Apresentar dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades quando, na verdade, existem mais. Esta tática insidiosa tem a aparência de um argumento lógico mas, se analisarmos o caso com cuidado, torna-se evidente que há mais possibilidades que a dualidade que é apresentada. O pensamento binário de “preto ou branco”, não permite contemplar às muitas variáveis, condicionantes e contextos nos quais existiriam mais que as duas possibilidades apresentadas. Enquadra o argumento de uma forma enganadora e ensombra o debate honesto e racional. Exemplo: Numa campanha para reunir apoio ao seu plano, que iria diminuir os direitos fundamentais do cidadão, o Líder Supremo advertiu o seu povo que, ou estavam do seu lado, ou estariam do lado dos inimigos do país.



20. Apresentar um argumento circular, no qual a conclusão está incluída na premissa.

Este argumento sem coerência lógica surge muitas vezes em situações nas quais assumimos algo que está muito entranhado e que, portanto, é dado como um fato. Usamos como prova, aquilo que estamos a tentar provar. A argumentação circular é má, principalmente porque não é muito boa. Exemplo: As palavras de Odin são verdadeiras e infalíveis. Sabemos isso porque assim o diz no “Grande Livro de Odin, O livro das coisas boas e verdadeiras que não devem nunca ser questionadas”. 


21. Argumentar que, porque algo é natural, é, portanto válido, justificado, inevitável ou ideal. Só porque algo é natural, não significa que seja bom. Por exemplo, o assassinato é muito natural, mas a maioria de nós concordará que não é algo que se deva fazer ou que a sua “naturalidade” sirva de justificação.  Exemplo: Um curandeiro chegou à aldeia oferecendo, como solução para as doenças, vários remédios naturais, como uma água muito especial. Dizia que as pessoas deveriam ter cuidado com os remédios artificiais, como os antibióticos.

(Nota: muitos antibióticos são, na realidade, de origem natural)


22. Usar uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de argumento válido ou evidência sólida. É por vezes muito mais fácil acreditarmos num testemunho pessoal em vez de tentar compreender um conjunto de dados complexo e a variação ao longo de um contínuo. As medidas quantitativas científicas são quase sempre mais rigorosas que as percepções e experiências pessoais, mas temos tendência a acreditar naquilo que é concreto e/ou com as palavras de alguém em quem confiamos, em vez da realidade estatística mais “abstrata.

Exemplo: O Paulo diz que o seu avô fumava dois maços de tabaco por dia e viveu até aos 97 anos, portanto não acredita no que lê sobre os estudos científicos com meta-análises que afirmam que há uma relação entre o tabaco e o câncer do pulmão.


23. Selecionar os dados de forma a que se ajustem ao argumento ou procurar um padrão que se ajuste à hipótese. O nome desta falácia de “falsa causa” advém do exemplo de um atirador que dispara aleatoriamente a vários celeiros e depois desenha o alvo onde há mais buracos de bala, dando a entender que é muito bom atirador. A aglomeração de dados pode dar-se naturalmente, por acaso, e não indica, necessariamente, uma relação causal.

Exemplo: Os fabricantes de Sumix afirmam que uma pesquisa indica que, dos cinco países onde é mais consumido o sumo, três são dos mais saudáveis do mundo. Logo, o Sumix é bom para a saúde.


24. Argumentar que a verdade está no compromisso, ou no meio termo.

Na maior parte dos casos, a verdade está algures entre dois extremos, mas isto pode enviesar o nosso pensamento. Por vezes, algo é simplesmente falso e o compromisso que inclui essa idéia é também falso. O meio caminho entre uma verdade e uma mentira é, também, uma mentira.
Exemplo: A Helena afirma que as vacinas causam autismo, mas o seu amigo Cláudio, que está cientificamente bem informado, diz que essa afirmação é comprovadamente falsa. Alice, amiga de ambos, procura um compromisso e diz que, se calhar, as vacinas causam autismo, mas não de todos os tipos.
 
           Os exemplos de argumentos falaciosos são tantos, que deixarei aos leitores o trabalho de procurá-los nos textos religiosos que falem sobre Justiça Divina, de qualquer seita ou religião, onde, certamente, serão profusamente encontrados.

              Em que pese acreditar na existência de um Criador, não imagino que ele realmente interfira na vida e na morte de quem quer que seja, para promover Justiça quando o espírito ainda se encontra encarnado. Imaginamos o Criador agindo segundo nossas crenças e valores; entretanto, quem somos nós, simples mortais, para tentar determinar como pensa, age e julga o Criador de todas as coisas. Quão pobre de espírito seria Este, e quão imperfeita teria sido a Sua criação, caso necessitasse de louvações, de orações, de pedidos e de oferendas para estabelecer seus desígnios e para processar seus atos em busca de uma justiça cósmica e espiritual; bem como, para interferir e mudá-los circunstancialmente, em razão de eventuais motivos supervenientes não previstos, após previamente decidido o rumo dos destinos entre espíritos e a divindade, se é de fato, realmente, assim que as coisas se passam naquela dimensão. A própria Justiça Divina consistiria em não interferir, jamais, no cenário que se desenrola ou no panorama que se descortina no mundo material.                          
                  Tenho a convicção de que todas as coisas acontecem, inexoravelmente, quando e por que têm que acontecer. Se todas as mães e todos os pais, de ambos os lados de algum conflito entre países, rezassem ao Criador pedindo por seus filhos combatentes (o que, certamente, eles sempre fizeram e ainda fazem), estes, independentemente da quantidade de orações feitas pelos progenitores, continuariam a morrer em decorrência dos tiros, das bombas e dos acidentes, como sempre ocorreu em todas as guerras. Caso contrário, seria possível uma guerra sem vítimas e sem mortes e eu nunca soube de nenhuma.
                       Se o Criador quisesse interferir nas contendas, por razões de Justiça Divina (ou estivesse preocupado com o destino, pré ou pós, traçado para suas criaturas), tê-lo-ia feito antes que os conflitos ou as guerras se iniciassem, impedindo-os, e não apenas por ouvir os apelos de pais e mães dos combatentes ou deles próprios. Como disse Voltaire em seu Tratado de Metafísica, de 1738, podemos imaginar quatro alternativas: ou o Criador quer e não pode (é bom, mas não tem poder), ou pode e não quer (tem poder, mas não é bom), ou não quer e não pode (não é bom e não tem poder), ou quer e pode (é bom e tem poder).
                     Em minha modesta opinião acredito que todas estas hipóteses, em teoria, poderiam se verificar, até mesmo concomitantemente; já que, não seriam elas mutuamente excludentes para o poder do Criador que tudo pode. Entretanto, sei que todos nós temos muito a aprender, nesta e em outras existências. Por este motivo Ele, embora podendo e, até mesmo, eventualmente, desejando, não interfere durante a existência do ser humano para modificar suas leis imutáveis em benefício de quem quer que seja; fazendo com que a propalada Justiça Divina e, da mesma forma, os chamados Milagres, nada mais se tratem do que sofismas, posto que falácias intencionais daqueles que desejam fazer o marketing da religião que abraçaram; já que, a verdadeira Justiça Cósmica e Espiritual é, inexoravelmente, conhecida, percebida, desejada e buscada por cada espírito, individualmente, e por todos eles em conjunto, ao longo de suas múltiplas encarnações, conforme mencionado por Kant e citado no início do texto com grifo nosso.                  
                      Os próprios espíritos rejeitariam, por um sentimento intrínseco e universal de justiça, a interferência divina em suas evoluções particulares. Lembremo-nos que a evolução espiritual é alguma coisa que tem que ser alcançada pelos próprios espíritos, não podendo ser outorgada por ninguém, nem mesmo pelo Criador de todas as coisas.



_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.





sexta-feira, 28 de abril de 2017

138. Sobre a indecisão no meio militar

Jober Rocha*


             “É uma coisa os soldados cumprirem ordens, outra seguirem os exemplos nobres. Os primeiros têm por paga o soldo, os outros a glória.” Esta frase, cujo autor não me recordo, povoou os primeiros anos da minha vida em uma escola militar. Escrita em uma das paredes de um dos alojamentos, era constantemente lida por quantos ali transitassem. Vejam os leitores que o autor já destacava a diferença de comportamento entre os militares; ou seja, entre aqueles com iniciativa própria daqueles que apenas cumpriam ordens. Outra frase, também escrita em uma das paredes do alojamento, dizia que “Cem anos não podem apagar um momento de perda da honra”.
                Após ter convivido durante cinco anos na vida militar, acabei tomando outro rumo que me levou a travar conhecimento com os fenômenos econômicos, com o comportamento dos agentes produtivos, com as Teorias Econômicas, com a Sociologia, com as Ideologias, com as Correntes Filosóficas, com os alicerces do Direito, com a Psicologia das Massas, com a Ciência Cognitiva, a Crítica Social, o Ativismo Político, etc. Formei-me em Economia, fiz o mestrado no país e cursei o doutorado na Espanha e na França. Tempos depois tive a oportunidade de retornar ao convívio militar através da realização do Curso de Administração do Transporte Marítimo, promovido pela Diretoria de Portos e Costas da Marinha do Brasil, com duração de um ano. Alguns anos depois fui estagiário na Escola Superior de Guerra (vinculada ao Estado Maior das Forças Armadas), ao cursar o Curso Superior de Guerra, também, com duração de um ano.
                 Menciono isto tudo, apenas, para evitar que alguns leitores, militares ou não, fiquem a imaginar se aquele que escreveu o presente texto está habilitado a falar sobre algo que, ao longo da História, tem sido objeto da preocupação de estrategistas, de comandantes militares, de historiadores militares, de cientistas do comportamento humano e de combatentes. Por outro lado, já aposentado, fui, durante dez anos, permissionário em um quartel de Infantaria da minha cidade. Mais uma vez, retornei ao meio militar. Naquele quartel fiz grandes amizades e cheguei a presidir a Associação de Amigos e Veteranos, ali instalada, sendo, posteriormente, presidente do Conselho Deliberativo da associação.
                 Volto a destacar que tudo aquilo que até aqui relatei não visa a minha autopromoção, servindo, tão somente, para enfatizar que não falo sem conhecimento de causa ou que tento discorrer sobre algo com que não tenho intimidade. Convivi muitos anos com militares das mais variadas patentes, de soldados a oficiais generais, e creio poder fazer uma análise, embora sucinta e superficial, sobre o pensamento da grande maioria dos militares com os quais convivi, tendo a ousadia ou a temeridade de generalizar minhas conclusões.  
                  Sem a menor pretensão de querer chegar aos pés daquilo que foi deixado à posteridade por estrategistas famosos como Sun Tsu, Maquiavelli, Liddell Hart, Clauzewitz, Schilieffen, teóricos que foram da estratégia militar, estas considerações tentam evidenciar as minhas opiniões particulares sobre um tema específico, qual seja o da iniciativa ou da falta dela no meio militar. Reconheço ser este um texto polêmico, mas a polêmica é o meu objetivo maior, visando despertar a atenção dos militares e das nossas autoridades militares para a importância do problema, levando-as a aprofundarem o assunto. 
                 A minha intenção não é a de tecer críticas a pessoas ou a instituições, mas, tão somente, através de relatos de situações que presenciei evidenciar que existe algo de falho ou de errado impedindo ou tolhendo a iniciativa pessoal, extremamente necessária aos militares em suas atividades bélicas na defesa do Brasil, das nossas leis e da nossa ordem.
                  Inicialmente eu gostaria de destacar as diferenças entre as iniciativas pessoais (com as evidentes exceções de praxe) que se apresentam gritantemente distintas, em média, entre os militares das polícias militares e os das forças armadas convencionais. Os primeiros vivem, em nosso país, diuturnamente em um Teatro de Guerra real, teatro este para o qual os segundos são levados a participar, episodicamente e em situações muito específicas. A participação de nossas FFAA em combates fora do Brasil, após a WWII, ocorreu apenas, em pequena escala, na República Dominicana, em Suez e no Haiti (todas em missão de paz, pela ONU). Note-se que houve mais baixas entre os heróis anônimos das polícias militares brasileiras, no período de 1994 a 2016 (cerca de 3.000 policiais mortos em confronto), do que entre os heróis combatentes da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial (460 praças, 13 oficiais e 08 pilotos). 
                  O número de Policiais Militares mortos, apenas no Rio de Janeiro e no período citado, representa um percentual do efetivo empregado (da ordem de 3,59%) maior do que o mesmo percentual das baixas norte-americanas em guerras mundiais. “É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do Rio de Janeiro do que estando em guerras", disse o coronel Fabio Cajueiro, que era um dos oficiais presentes na discussão travada no Fórum de Policiais Mortos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, realizado na academia da Polícia Militar, em Sulacap, na Zona Norte do Rio, fórum aquele que visava diminuir a vitimização de policiais. Só no primeiro mês de 2017, 18 policiais foram mortos no Estado do Rio de Janeiro.
                      O fato de atuar, diuturnamente, em um Teatro de Guerra real (ainda que tais guerreiros, de forma errônea no meu ponto de vista, continuem sendo julgados por uma legislação cível e criminal de tempos de paz; o que é algo contraditório e deixa bem claro a fraqueza do executivo, do legislativo e do Judiciário em reconhecerem o Estado de Guerra Interna existente em muitos dos Estados da Federação, que já possuem áreas liberadas e dominadas por facções criminosas, as quais trazem o pânico e a violência às comunidades no seu entorno e à população de toda a cidade), faz com que o Policial Militar, muitas vezes atuando sozinho, em duplas ou em pequenas frações, tenha de decidir, por si mesmo, a conduta que adotará. 
                    Como a velha frase que, muitas vezes, ouvi na aviação: “A indecisão mata o piloto!”, a indecisão do policial acabará por levá-lo a óbito. A frase que vale para o piloto vale também para o policial militar em uma viela estreita e suja de uma favela na periferia, onde ele tem que decidir, na hora e sem perguntar a ninguém, qual a iniciativa que irá adotar frente à situação que se apresenta. 
                       Por sua vez, em um quartel das forças armadas convencionais brasileiras em “tempos de paz”, a forte hierarquia e o fato de os conscritos ou mesmo dos militares engajados, serem, em sua maioria, oriundos das classes de renda mais baixas, aliado a uma natural subserviência e timidez típicas destas classes menos favorecidas do nosso povo, faz com que raramente as praças militares tenham iniciativa própria em diversas situações. Assim, é comum sempre perguntarem aos superiores o que devem fazer e como devem proceder, temendo serem repreendidos ou punidos caso façam algo errado. 
                     Já presenciei inúmeros episódios em que o comandante do quartel decidia quase tudo, inclusive sobre o corte da grama do campo de futebol. Todos os pequenos problemas que poderiam ser resolvidos nos escalões inferiores, eram submetidos ao comandante, sobrecarregando-o. Não que inexista delegação de funções e de atribuições, mas, na prática, elas não costumam vigorar em razão da falta de iniciativa e do temor de punições, caso a decisão tomada não tenha sido a mais correta ou a necessária para o caso específico. A mesma situação verificada entre as praças ocorre, com freqüência, entre os subalternos e os superiores. Mesmo ao chegar aos altos postos de mando, alguns, ainda, continuam consultando os seus superiores para decisões que seriam da sua própria alçada.
                     Extrapolando um pouco a matéria e mudando de cenário, vemos que o mesmo também ocorre quando os militares que (em conformidade com o artigo 142 da Constituição da República Federativa do Brasil: “Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.) possuem a missão de defender a pátria, a lei e a ordem, contemplam estas três serem diariamente vilipendiadas, desrespeitadas e desdenhadas pelas próprias elites no poder. 
                         Como naquele quartel mencionado anteriormente, todos esperam a decisão do comandante supremo das forças armadas (do presidente ou, até mesmo, do responsável por algum dos demais poderes), para poderem agir em defesa da pátria, das leis e da ordem, esquecendo-se de que o próprio comandante supremo (presidente da república), bem como os responsáveis pela Câmara e pelo Senado federal, têm sido mencionados em depoimentos de empresários beneficiados pela delação premiada como tendo recebido, ilegalmente, recursos de caixa dois e tendo sido citados em pedidos de abertura de inquéritos no âmbito da Operação Lava-Jato conduzida pela Polícia Federal. Ademais, recentemente, o Ministro Nelson Fachin, do STF, autorizou a abertura de 76 inquéritos envolvendo 8 ministros do atual governo, 24 senadores, 39 deputados, 3 governadores e 1 ministro do TCU. E notem que estamos apenas no início das denúncias e das apurações sobre corrupção, desvio de recursos públicos e crimes de lesa pátria em nosso país. Constata-se, assim, que o Brasil já não possui mais segurança jurídica e que a máquina pública - no dizer do ministro do STF Gilmar Mendes - foi tomada por uma Cleptocracia; ou seja, um Estado governado por ladrões. 
                        Neste contexto, as leis, os decretos e as portarias, aprovados e promulgados pelo Legislativo e pelo Executivo, atuais, careceriam de credibilidade e de legitimidade; posto que, estariam sob suspeição, em razão de terem sido elaborados e aprovados por personagens, em grande parte, réus nos processos de corrupção instaurados na Justiça.
                     Enquanto isto ocorre, muitos militares, mais acostumados a cumprirem ordens do que a seguirem os exemplos nobres, aguardam por uma iniciativa, partindo dos poderes constituídos, para intervirem em defesa da pátria, das leis e da ordem. Mas, o que fazer, se a origem dos nossos problemas atuais está, justamente, em muitas daquelas ‘autoridades’ responsáveis conjunturalmente pelos poderes constituídos, personagens estas as quais, ao contrário dos militares, jamais lhes interessaram a defesa da pátria, das leis e da ordem? Creio que a resposta a este questionamento poderia ser encontrada escrita nas paredes do velho alojamento daquela escola militar em que estudei, mencionadas no início deste texto; já que, a nossa situação, além de inusitada, é incompreendida pela maioria das populações das democracias ocidentais. 
                        A instalação de uma Cleptocracia no governo é um fato inédito na maioria destes países e para nos livrarmos de uma situação destas o mecanismo eleitoral não demonstra ser suficiente; já que, o Tribunal Superior Eleitoral-TSE começa, este ano, a julgar a ação em que o PSDB pede a cassação da chapa Dilma-Temer, vencedora das eleições presidenciais de 2014, por fraude eleitoral e pelo uso de recursos originários de caixa dois, oriundos do desvio de recursos públicos em obras contratadas pelo governo com diversas empreiteiras.
                      O julgamento é considerado o mais importante da história do tribunal. Por outro lado, a utilização de urnas eletrônicas nas eleições (sistema implantado em nosso país), tem sido muito criticada por possibilitar fraudes, na medida em que o eleitor não recebe nenhum comprovante informando sobre a natureza do seu voto; isto é, em qual candidato ele votou e a que partido político pertencia. Somos, talvez, o único país do mundo a utilizar este sistema.
                       Embora muitos critiquem as intervenções militares na vida civil dos países, na atualidade e em algumas situações pontuais, elas são as únicas alternativas viáveis, para libertar as populações, de alguns deles, de uma eterna servidão à déspotas e aos seus asseclas e comparsas, travestidos de democratas, que desejam apenas perpetuar-se no poder e enriquecer ilicitamente.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

137. O Estagio


                                  Jober Rocha*




São Petersburgo, Império da Rússia, 18 de março de 1842.

De: Aleksandr Nicolaevich Romanov, primogênito e príncipe herdeiro (czarevich), filho de Nicolau I, da Rússia e da princesa Carlota, da Prússia.

Para: Sua Alteza Imperial Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – Dom Pedro II, mui digno Imperador Constitucional e Perpétuo Defensor do Brasil.

Assunto: Estagio não remunerado para conselhos políticos, treinamento sobre governabilidade e noções para uma boa administração de um império. 



Majestade,
Na qualidade de príncipe herdeiro do Império da Rússia e com a idade atual de 22 anos (exatamente sete anos mais velho do que Vossa Majestade, prematuramente declarado e coroado Imperador do Brasil), dirijo-me a presença de Vossa Alteza, nesta oportunidade, pelos motivos que a seguir passarei a expor:

1. Minha educação, como futuro imperador da Rússia, é feita sob a supervisão de Vasily Zhukovsky, poeta liberal e tradutor competente, muito conhecido por aqui, que incluiu em meu aprendizado várias disciplinas importantes para o desempenho da sagrada missão de um imperador; bem como, o estudo das principais línguas europeias. Imagino que Vossa Alteza esteja passando por algo semelhante no Brasil, pelas mãos do seu tutor José Bonifácio de Andrada; em que pese haver assumido o Império com apenas cinco anos de idade e coroado imperador aos quinze. 
Meu pai, o Czar Nicolau I, diferentemente do seu, D. Pedro I, não deseja abrir mão, prematuramente, do império para mim. Cuida de sua saúde com extremo rigor, alimenta-se bem, faz exercícios físicos e mantém alguns médicos de confiança sempre ao seu lado. Pelo visto, espera viver cem anos ou mais.

2. Enquanto a minha vez não chega, estudo e faço planos para o futuro da Rússia. Eu gostaria de implantar grandes mudanças em meu país, logo após ser declarado Czar, como, por exemplo: liberdade de expressão, incentivo à iniciativa privada, reforma da Administração do Império, desenvolvimento da exploração dos Recursos Naturais, expansão e melhoria da rede ferroviária, melhoria da condição de vida dos camponeses, fim da servidão em todas as províncias, implantação do serviço militar obrigatório, abolição do castigo corporal aos militares, uma nova administração judicial baseada no modelo francês, um código civil e criminal mais simplificado, um novo código penal, a criação de uma polícia rural, etc.
 Imagino que Vossa Alteza, embora comandando um império com características diferentes daquelas deste em que vivo e que, algum dia, deverá ser por mim chefiado pela graça de Deus, possui os mesmos sentimentos ou desejos semelhantes. Reconheço que qualquer reforma é muito mais fácil de ser tentada em países menos populosos e mais homogêneos, do que em grandes impérios como o da Rússia e o do Brasil; entretanto, aguardo ansioso o dia em que poderei tentar implantar as mudanças que vislumbro.

3. Vossa Majestade não imagina quanto o invejo. Aos quinze anos de idade já comanda um vasto império, enquanto eu, com vinte e dois, creio que jamais chegarei a sentar no trono do Czar. Enquanto Vossa Alteza recebe as homenagens e reverências de toda a sua corte e de todo o seu povo, eu, aqui em Moscou, sou um ilustre desconhecido e ninguém me leva a sério. 
Os ministros, os duques, arquiduques, condes e barões, passam por mim e não fazem nenhuma reverência. Acho que pensam que eu nunca chegarei a substituir meu pai ou que seus títulos de nobreza são maiores do que o meu, um simples filho de Czar. Enquanto Vossa Alteza participa de reuniões com seus ministros e conselheiros, eu fico andando pelos vastos corredores do palácio imperial, buscando alguém que me escute e que acredite em meu potencial como guerreiro e como futuro administrador de um império tão vasto quanto o russo.

4. Por vezes, durante a estação fria, nesta corte onde as pessoas somente pensam em festas e ostentações, tenho ímpetos de largar tudo, tomar um navio e, como um simples passageiro, desembarcar no Porto do Rio de Janeiro onde, certamente, encontrarei uma temperatura tropical amena e aquele sol que aquece os corpos e proporciona uma bela cor bronzeada. Por aqui todos os cortesões apresentam aquela cor pálida, que nos deixa sempre em dúvida se estão ou não doentes.  
Ao fazer minhas refeições, quase sempre compostas de carnes gordurosas, fico sonhando com as deliciosas frutas tropicais saboreadas, com toda a certeza, por Vossa Alteza. Ao banhar-me nos rios quase congelados do meu país, imagino os riachos de águas límpidas e tépidas do Brasil; por vezes, com cachoeiras maravilhosas que massageiam os corpos dos banhistas. Sonho com as areias mornas das praias que banham o território de vosso imenso império.

5. Durante as guerras, notadamente a Caucasiana (iniciada em 1817 e ainda se desenrolando); a Revolta de Dezembro de 1825 (da aristocracia militar contra a nobreza); a Guerra Russo-Persa de 1826/28 (quando tomamos a Armênia); a Guerra Russo-Turca de 1828/29, quando tomamos a foz do Danúbio e a Costa Leste do Mar Negro; e a Revolta da Polônia de 1830/31, o gasto de recursos e a perda de vidas humanas é enorme. Muitas destas guerras poderiam ter sido evitadas, caso as pessoas fossem menos ambiciosas e violentas. 
Quando exprimo estes meus pensamentos em público, na corte, sou taxado de “bonzinho”, de “inocente”, de “fraco” e de “sem ambição”. Invejo, mais uma vez, Vossa Majestade, que administra um império tão vasto quanto este daqui sem necessitar ir à guerra contra os vizinhos e sem revoltas militares internas. Como devem ser tranquilos os dias passados na corte de Vossa Alteza. Como devem viver felizes os vossos súditos.

6. Considerando o até aqui exposto, Vossa Majestade já deve imaginar como me sinto, sendo sem ser, podendo sem poder, mandando sem mandar. Dizem que represento o futuro do império, mas acho que este futuro ainda demorará muito a chegar ou pode ser, até, que nunca chegue. 
Fui informado que meus pais estão buscando uma esposa para mim, dentre as casas reais europeias, conforme é tradição da realeza russa e de outras tantas realezas. Outra vez invejo Vossa Alteza, que pode escolher, por si mesmo, aquela que o acompanhará por toda a vida, sem a necessidade de atender aos interesses políticos, estratégicos e econômicos dos pais.

7. Finalizando, chego ao motivo pelo qual tomei a liberdade de escrever à Vossa Majestade: somos jovens e temos uma grande responsabilidade pela condução dos negócios e destinos de nosso império. Eu, embora tenha tido bons mestres e tutores, não possuo nenhuma experiência sobre a administração imperial e, após a revolta de dezembro de 1825, tenho muito receio da aristocracia militar. 
Muitos destes aristocratas, pelo simples fato de terem comandado tropas vitoriosas, acham que os territórios conquistados lhes deveriam pertencer por direito. Esquecem que são, apenas, servos do Czar e servidores do império. 
Assim, gostaria de fazer uma visita ao Brasil e aprender, mediante um estagio não remunerado junto a Vossa Majestade, os meandros e as nuances da boa administração quanto aos aspectos políticos, militares, econômicos e psicossociais de um império. As noticias que aqui me chegam são muito elogiosas com respeito à capacidade administrativa de Vossa Alteza e, por esta razão, estou certo de que terei muito a aprender em vossa corte, caso me honre com a aceitação da presente solicitação. As minhas despesas nas terras do Brasil e aquelas decorrentes do séquito que me acompanhará, enquanto durar este meu período de estagio junto ao vosso império, serão todas custeadas pelo Império Russo. 
Rogo a Vossa Majestade que me ajude, neste momento difícil da minha existência.

Aleksandr Nicolaevich Romanov
Czarevich do Império da Rússia



Nota do autor:
Cópia da presente correspondência foi encontrada em um baú, no porão do Palácio de Tsarskoe Selo, no ano de 1923, onde o Czar Nicolau II, neto de Alexandre II (Aleksandr Nicolaevich Romanov), vivia com a família antes da fatídica Revolução de 1917, que eliminou, para sempre da Rússia a Dinastia Romanov.  Junto da cópia, havia uma carta de D. Pedro II alegando que, por problemas políticos conjunturais, a visita de Aleksandr teria de ser adiada. Os historiadores acham que Pedro II gostava mais de aprender do que de ensinar.
O Czar Alexandre II morreu assassinado em 13.03.1881, aos 63 anos, na cidade de São Petersburgo, pela explosão de uma bomba lançada por Ignaty Grinevetsky, membro da organização terrorista Vontade do Povo.
O imperador Pedro II foi deposto por militares em 15.11.1889, embora querido pelo povo brasileiro. Faleceu em Paris, no dia 05.12.1891, aos 66 anos, vitimado por uma gripe que evoluiu para pneumonia. Décadas depois da morte a sua reputação foi restaurada e os seus restos mortais foram trazidos de volta para o Brasil. Nos arquivos do império foi encontrada a carta de Aleksandr com o seguinte comentário de Dom Pedro II (então com quinze anos) a margem do texto: “Ora, onde já se viu. Estagio não remunerado. Era só o que faltava!”


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.




sábado, 11 de fevereiro de 2017


136. Meninos devem brincar de guerreiro e meninas de boneca


Jober Rocha*


                   Episódios ocorridos ao redor do mundo, na atualidade, deixam claro que em um passado recente os países ocidentais tomaram novo rumo, diferente daquele que tradicionalmente tinha sido seguido pelos nossos antepassados. Esse novo rumo, contemporaneamente ainda trilhado, nota-se de forma mais freqüente naquilo que está relacionado com a saúde humana e no que diz respeito ao comportamento psicossocial. 
                    Explico-me melhor: diversos alimentos, milenarmente consumidos pela humanidade e sem nenhuma restrição com relação à saúde, em razão do desenvolvimento da Ciência Médica e da Farmacologia, passaram a ser estigmatizados como agentes causadores de inúmeras patologias, por diversos estudos médicos conduzidos em universidades e grandes centros de pesquisa em todo o mundo. É o caso, por exemplo, das carnes e gorduras de origem animal (notadamente as de porco), da gordura de coco, da manteiga, do ovo, etc. O principal argumento, contrário a ingestão de tais alimentos, é o de que eles aumentariam o nível do mau colesterol, presente no sangue dos seres humanos. 
                           A redução no consumo destes alimentos foi, imediatamente, seguida da elevação no consumo das gorduras vegetais (como o óleo de soja e as margarinas) e no consumo de medicamentos (como as estatinas), enriquecendo grandes corporações industriais e laboratórios, de âmbito mundial. Sabe-se que os resultados de muitas pesquisas (realizadas estas em todos os campos da Ciência) divulgados como verdadeiros, algumas vezes não passaram de engôdos visando a interesses inconfessáveis de natureza econômica, política, religiosa ou ideológica. A massificação pela Mídia destas informações, muitas vezes falsas, objetiva a movimentação de uma indústria milionária que tudo compra em seu rastro, até mesmo reputações de cientistas, de filósofos, de pensadores religiosos e de pesquisadores.
               No campo Psicossocial ocorre o mesmo, quando os costumes e a moral tradicionalmente aceitos, através de uma transvaloração de valores (termo utilizado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche para indicar a transformação radical ocorrida em algumas épocas, na moral vigente e nos costumes) sofrem uma total inversão, fazendo com que aquilo que antes era tido como bem passe a ser considerado como mal e vice versa. Essa transvaloração, evidentemente, também é produzida em razão de interesses econômicos, políticos, religiosos e ideológicos.
                       Recentemente, com a proliferação das ideologias de esquerda nos países ocidentais, passou a vigorar o denominado 'Comportamento Politicamente Correto'. Este termo, muito usado na atualidade, está relacionado a uma nova abordagem política que busca estabelecer linguagem e comportamento próprios (aparentemente neutros), de modo a evitar que possam ser ou que venham a ser ofensivos ou preconceituosos com relação a pessoas de determinados grupos sociais, principalmente, em razão de raça, sexo ou religião. Linguagem e comportamento, como todos sabem, fazem parte dos hábitos, costumes, usos e regras, que se materializam na assimilação social dos valores morais. 
                            Neste contexto, sem que muitos se apercebam, está sendo estabelecida uma nova moral, desvinculada daquela de origem religiosa vigente, até então no mundo ocidental, sob a ótica eufemística do Comportamento Politicamente Correto, que tenta implantar uma nova moral, em tempos de ateísmo e de materialismo incentivados e disseminados pelas ideologias de esquerda nos países ocidentais, onde o comunismo e o socialismo conseguiram chegar ao poder em muitos deles. 
                       A expressão ‘Politicamente Incorreto’, por sua vez, é a que trata de nomear formas de expressão e de comportamento que procuram externar supostos preconceitos sociais, sem receios de nenhuma espécie. Este conceito é entendido, por alguns acadêmicos, ditos de esquerda, como uma forma de se expressar e de ter um determinado comportamento, considerados incorretos e utilizados por grupos conservadores de direita. O Comportamento Politicamente Correto, neste contexto, seria aquele que deveria ser seguido por todos os cidadãos e de que se já utilizariam os liberais e os progressistas de esquerda. 
                    Os conceitos sobre aquilo que é ou não politicamente correto, entretanto, são estabelecidos pelas elites no poder e pela ideologia de esquerda dominante, sendo expressos através da Mídia, cativa e subserviente, para absorção pelas massas populacionais incultas, e inocentes com respeito à Genealogia da Moral.
                        Aqueles que criticam o ‘Comportamento Politicamente Incorreto’ o acusam de fascista, enquanto os críticos do ‘Comportamento Politicamente Correto’ o acusam de patrulhamento ideológico de tendência marxista. Como alguém já disse, em algum lugar, ambos os lados buscam denegrir um ao outro, na busca por um espaço na mente dos nossos pacatos cidadãos.
                          Na pós-modernidade no ocidente cristão, o feminismo militante, o antibelicísmo, a tipificação do assédio sexual como crime, a educação dos filhos homens pelas mulheres (que querem que eles vejam a vida da forma como elas a vêem), a insegurança masculina sobre a sua própria masculinidade (incentivada pela ideologia de gênero divulgada nas escolas), a implantação do comportamento politicamente correto, a legislação referente aos direitos humanos, a legislação referente aos direitos dos homossexuais (inclusive com relação aos casamentos e as adoções), tudo isto junto, teve o efeito perverso de deixar o ocidente em posição mais vulnerável que o oriente, notadamente neste caso presente dos refugiados islâmicos, para os quais as leis ocidentais nada valem. 
                        Os comportamentos adotados no ocidente, mencionados anteriormente, teriam, assim, efeminado os homens ocidentais frente aos árabes, notadamente os homens europeus. Isto ocorre, ademais, em outros continentes e em outras partes do mundo ocidental, onde os valores morais da sociedade foram também transvalorados. Esta transvaloração, deve ser sublinhado, não partiu do povo, que sempre vai a reboque das decisões, mas das elites no poder e em razão dos seus interesses particulares ou dos grupos a que elas estão vinculadas. As redes sociais mostraram, em diversas ocasiões, os homens europeus apanhando dos refugiados, sem nenhuma reação de defesa. As mulheres sendo estupradas e agredidas sem nenhuma reação da parte dos homens europeus e também da própria polícia. A impressão que dava era de que eles não sabiam como reagir frente a situações como aquelas a que não estavam acostumados.
                           Nos países orientais islâmicos, como nas periferias pobres das grandes cidades, o que vale é a lei do mais forte. Sabe-se que nestes países islâmicos a Igreja, o Estado e a Sociedade, são regidos por uma só lei. A mulher é considerada um ser inferior e deve obedecer ao homem, ao contrário das leis e da visão ocidental. 
                      Não desejamos uma volta à barbárie ou um retrocesso na civilização ocidental, mas o fato é que esta se viu vulnerável, perante as levas de refugiados que penetraram em suas fronteiras e que intimidaram as autoridades e as populações dos respectivos países onde se instalaram, sem uma resposta adequada aos assaltos, estupros e assassinatos cometidos pelos refugiados. Esta intimidação ainda ocorre e deverá se acentuar com a tentativa de implantação da Sharia nas regiões dos países onde os refugiados se instalaram.  A Sharia consiste em um conjunto de regras comportamentais e legais, segundo creem os islamitas, dado por Deus aos homens para que organizassem as suas vidas e é, portanto, para eles, uma lei universal. A obediência à Sharia, assim, não seria obrigatória, apenas, para os islamitas, mas, para todos os seres humanos que vivam nas áreas onde os refugiados se instalam.  
                         Vê-se, portanto, que alguma coisa terá que ser mudada, tanto nos costumes como na moral ocidentais. Os Estados Unidos da América do Norte, com a eleição de Donald Trump, já deu sinais de que tentará implantar estas mudanças. Se a Europa não reagir à altura, submetendo estes refugiados e imigrantes às suas leis, em breve, perderá, totalmente, o controle da situação, notadamente considerando que as taxas de fecundidade e de natalidade entre a população de origem árabe são muito maiores do que as da população européia. 
                     Na França de hoje, quarenta por cento dos nascimentos se dão entre famílias árabes. O ocidente, notadamente na Europa, necessita de uma nova transvaloração de valores (como aquela mencionada por Nietzsche), enfatizando a virilidade, a honra e a coragem; pois, do lado de lá, da Jihad islâmica, isto é, da guerra santa dos islamitas radicais contra os não islamitas, são estes os valores que contam. Este segundo significado da Jihad (a Jihad externa) está bem representado nas palavras de Maomé, quando nelas os muçulmanos são instruídos a usar de meios combativos para difundir a ‘paz’ e a ‘justiça’ da religião islâmica nas áreas que não estejam sob a influência do profeta Maomé.
                   Assim, acreditamos que premidos pelas circunstâncias, em futuro próximo, os meninos ocidentais deverão voltar a brincar de guerreiros e as meninas de boneca, como tradicionalmente fizeram os seus avós, bisavós, tetravós....

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017


135. Qual será a verdadeira História da Humanidade?


Jober Rocha*


                  Creio que todos os leitores já se perguntaram, ao menos uma vez na vida: - Por que será que nada faz sentido? Por que não sabemos quem somos, de onde viemos e para onde vamos?  Dúvidas estas cruciais, que já preocupavam os filósofos gregos.
                 Depois de muito pesquisar acho que cheguei, finalmente, a uma conclusão. Esta nossa ignorância é deliberadamente programada por elites que governam os nossos destinos como habitantes do planeta. Não digo pelos nossos governantes, quaisquer que sejam eles; posto que, são, quase sempre, apenas simples gerentes destas elites; cujos verdadeiros propósitos eles mesmos com certeza, também, desconhecem.
                          A recente eleição nos EUA deixou bem claro isto. Quem poderia imaginar que em um país tão rico, com universidades tão famosas, com pessoas tão cultas, existiriam, apenas, como candidatos à Presidência da República (em substituição ao apagado e totalmente fora do contexto Barack Obama, que parecia, por suas ações e reações, apenas alguém representando mal o seu papel na peça em que o escalaram como ator da vez), dois personagens cuja única coisa que sabiam fazer bem era atacarem-se em público, como se inimigos fossem, e desempenharem, novamente, o mesmo papel de Obama no drama (ou na comédia) representada pelas eleições presidenciais em um país tão desenvolvido.
                     Será que, de tantas pessoas competentes existentes naquele grande país, só restavam aqueles dois como candidatos a presidência? Ao questionar-se a respeito, qualquer leitor inteligente, logo perceberá que existe algo de errado nisto tudo. Por que, apenas, pessoas medíocres (que estão na média, sem nenhuma intenção pejorativa) são escolhidas para função tão importante quanto a de Presidente da República? Certamente, por que não serão eles a conduzirem, com independência e vontade própria, os destinos dos países que governam. Isto não se passa apenas nos países mais desenvolvidos, mas na grande maioria de todos os demais. 
                       Se não bastasse toda uma classe de funcionários do Estado, que detém parcela importante do poder (financeiro, tecnológico, político e militar), mas não o de decidir, verdadeiramente, os caminhos políticos e estratégicos de longo prazo do Estado, sendo meros executores de ordens táticas destas elites anteriormente mencionadas; os Presidentes da República, em que pese a magnificência do cargo, também prestam contas a estas mesmas elites que, nas trevas do anonimato ou escondidas pelo Véu de Maya (aquele que cega os seres humanos com as suas ilusões), lançam os dados ou dão as cartas no jogo mundial da dominação. Quase sempre, por detrás desta prestação de contas subserviente, dos ‘Gerentes’ ou dos ‘Testas de Ferro’, encontram-se o suborno com dinheiro público e privado e a chantagem.
                              Desde a mais remota antiguidade, segundo alguns autores afirmam, estas elites têm representado interesses alienígenas; isto é, de fora do planeta, quer os leitores acreditem, quer não creiam. Não é por outra razão que, de uma maneira geral (como espécie animal que somos), nós adoramos e nos prostramos de joelhos perante supostas divindades que habitariam fora do planeta Terra, em que vivemos. 
                                  Só esta percepção já seria razão suficiente para olharmos com desconfiança os nossos passado e presente. Por que nossas divindades não poderiam residir no centro da Terra? Nas águas dos mares, rios, lagos e lagoas? Nos minerais? Nos vegetais? Nos animais, como acreditavam os antigos egípcios e ainda acreditam os indianos? Em outros planos de existência? Por que a morada delas seria, tradicionalmente, o céu, para os cristãos, os judeus e os islamitas? Certamente, por que de lá teriam vindo em suas máquinas voadoras, com os seus conhecimentos científicos, tecnológicos e espirituais.
                            Estes seres seriam de várias raças e com diferentes agendas para o nosso planeta e para os seres que aqui existiam. Alguns seriam benevolentes e interessados em ajudar-nos em nossa evolução; outros seriam indiferentes e interessados apenas em seus objetivos de raça e de espécie. Outros, ainda, seriam maléficos e interessados em manter-nos em escravidão, impedir nosso desenvolvimento e assenhorear-se de nossos recursos naturais.
                         Isto tudo pode soar como ficção científica, mas constitui-se em um fato incontroverso a passagem destes seres e de suas naves pelo nosso planeta. Figuras pintadas em cavernas e objetos esculpidos em cerâmica, argila, madeira e metal na antiguidade o atestam; da mesma forma como fotos, filmes e registros de radares de solo e de aeronaves o confirmam na atualidade.
                                 Através de um processo de sonegação de informações e de transvaloração de valores (transvaloração esta citada, pela primeira vez, pelo filósofo Friedrich Nietzsche em várias de suas obras), a humanidade tem sido conduzida, como a um rebanho, na direção determinada pelas elites já mencionadas.
                            A Ciência apresenta teorias que tentam justificar e compartimentar o conhecimento humano, retrocedendo a vida humana até uma determinada data. Não menciona, verdadeiramente, a exata idade do homem sobre a face do planeta, nem as diversas civilizações, tecnologicamente desenvolvidas, que já se sucederam e eclipsaram ao longo da existência do planeta. 
                                   Da mesma maneira, em que pesem as evidências deixadas por povos antigos da presença de seres extraterrestres na Terra, pouca importância tem sido atribuída a tais fatos pela Ciência oficial. Granitos talhados pesando dezenas de toneladas, milimetricamente cortados em épocas remotíssimas. Furos cilíndricos de vários diâmetros, perfeitos, atravessando granitos de vários metros de profundidade. Baixos e altos relevos perfeitamente talhados em granito, datados de tempos imemoriais. 
                                       Esqueletos antropomórficos de seres com cinco ou mais metros de altura, descobertos desde o século XIX e cuidadosamente escondidos ou destruídos. Marcas de pés humanos deixados em terrenos na localidade de Mpaluzi, na África do Sul, perto da fronteira com a Suazilândia, e que as eras geológicas transformaram em pegadas impressas na pedra (granito fenocristal ou granito porfiroide) com a idade de 200 milhões a três bilhões de anos. 
                                             Tais formações graníticas ostentam pegadas humanas com cerca de um metro e vinte de comprimento por cinqüenta centímetros de largura e foram descobertas em 1912 por Stoffel Coetzee, mas não tiveram nenhum destaque por parte da Ciência Oficial. Artefatos tecnológicos modernos descobertos em sítios arqueológicos antiqüíssimos e junto com esqueletos ou outras peças ancestrais. Os principais destes objetos, denominados Ooparts, são os seguintes:

1. Pilhas elétricas usadas no antigo Egito e descobertas recentemente;
2. Pilar de aço, enterrado na Alemanha, medindo dois metros e vinte para fora da terra e um metro para baixo, datado de um período da Idade Média, quando o aço ainda não havia sido descoberto;
3. Calculadora analógica mecânica, conhecida como o Mecanismo de Anticitera, datada de dois mil anos; 
4. Brinquedos para crianças, do antigo Egito, com a forma de aviões modernos e datados de um período anterior a Jesus Cristo;
5. Hieróglifos do antigo Egito, com desenhos de naves modernas, de submarinos e de carros de combate;
6. Megalitos em Balbeck, no Líbano, perfeitamente talhados e pesando dezenas de toneladas, cujos guindastes atuais não conseguem elevar do solo;
7. Lâmpadas que produzem luz elétrica, encontradas em Ondera, no Egito, e que datam do tempo dos faraós;
8. Pilar de ferro medindo sete metros, encontrado em Delhi, na Índia, datado de 400 anos antes de cristo e feito de ferro forjado com 98% de pureza;
9. Linhas de Nazca, no Peru, com figuras em grande escala, impossíveis de serem traçadas sem apoio aéreo, e que datam do ano de 400 d.C.;
10. Bateria descoberta em Bagdá, no Iraque, datada de 250 a.C e que produzia eletricidade.
11. O Mapa de Piri Reis, que foi o primeiro mapa conhecido que mostra a costa ocidental de Europa, o norte da África, a costa do Brasil, a borda leste da América do Sul, além de várias ilhas do Atlântico e a Antártica. As latitudes e as longitudes do mapa estão marcadas corretamente. Relativamente a conformação das regiões polares, o mapa retrata como elas eram, há dez mil anos antes da data atribuída ao mapa, isto é 1513. Da mesma forma muitos estudiosos afirmam que, sem uma visão da Terra vista do espaço, seria impossível construir aquele mapa naquela época. 
12. Em 1973, perto de Aiud, na Romênia, escavadores descobriram em um mesmo local, três objetos.  Dois deles eram ossos de mastodontes pré-históricos e o terceiro uma peça de metal de vinte centímetros de comprimento, doze centímetros e meio e largura e sete centímetros de profundidade. A posterior análise datou-o como sendo de 250 mil anos e a peça fazia parte de um sistema mecânico complexo. Possuía doze tipos de metais diferentes, sendo que noventa por cento dele era composto por alumínio, metal este que só nos últimos 200 anos os seres humanos conseguiram obter e trabalhar com ele.

                          A Religião, por sua vez, com os seus dogmas e as suas revelações, tenta fazer com que a credulidade e o misticismo, característicos das criaturas humanas, aflorem e dominem a razão, também esta uma característica das mesmas criaturas. A razão, em alguns humanos, acaba vencendo a credulidade e o misticismo nesta contenda milenar; mas, na grande maioria das vezes, ela se torna perdedora. Basta ver que o número de seres humanos que professam algum tipo de religião é bem maior do que aqueles que não professam.
                           Quem já leu a Fábula da Caverna, de Platão, sabe que a nossa percepção da realidade é totalmente limitada e condicionada, em razão da situação e do local em que nos encontremos. 
                             Quem já estudou Nietzsche sabe qual é a Genealogia da Moral; isto é, como ela surge ou como sofreu transvalorações ao longo da história humana. Transvaloração ou tresvaloração, segundo o filósofo, significa atribuir um novo sentido a uma velha qualidade (quer seja um vício ou uma virtude). Neste particular, os fracos, pela transvaloração transformar-se-iam nos justos que odiariam as injustiças. A impotência transformar-se-ia no mérito e na bondade, a baixeza passaria a ser a humildade e a covardia considerada paciência.                            O moderno termo ‘Comportamento Politicamente Correto’, busca esta transvaloração apontada por Nietzsche. Sem medo de ser considerado adepto da Teoria da Conspiração (que já deixou de ser teoria para aqueles que já deixaram o rebanho), por detrás destas transvalorações, que periodicamente ocorrem na história da Humanidade, estão sempre as elites subterrâneas que, como as Moiras ou as Parcas, puxam os cordéis do destino da humanidade.
                               Evidentemente, somos aquilo que aprendemos. E só aprendemos, de uma maneira geral e extensiva às massas, aquilo que se constitui na verdade oficial divulgada pelo Estado. Esta verdade (é essa a principal tese deste texto) tem sido escamoteada, falseada e escondida, com a finalidade de não permitir que conheçamos, jamais, quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos; questionamentos tão importantes que já eram alvo da preocupação dos antigos filósofos gregos. 
                            Noam Chonsky, filósofo e cientista cognitivo, professor do MIT – Massachusetts Institute of Technology, é grande estudioso sobre os meios de comunicação de massa e de seu papel no apoio aos interesses das grandes empresas e de seus controladores, sendo, junto com Edward S. Herman, criador da Teoria da propaganda de Chomsky e Herman.
                                   Para ele, o Capitalismo nada mais é do que um Mercantilismo corporativo, controlado por empresas ajustadas com governos, que sempre intervêm a favor do capital, apesar da fantasia do livre mercado (inexistente, diz ele, nos Estados Unidos e em todas as partes do mundo), e que exercem controle sobre a Economia, a Política, a Sociedade e a Cultura. 
                              A verdade (como vêm e como já disse alguém) é libertadora dos indivíduos; razão pela qual, ela tem sido mantida escondida da quase totalidade dos seres humanos.
                               Por outro lado, todos nós sabemos da existência de sociedades secretas, que possuem objetivos exotéricos e esotéricos. Os primeiros são aqueles divulgados para o público, de uma maneira geral, e os segundos mencionados apenas para os seus membros, de uma maneira particular. Neste segundo objetivo, uns poucos dirigentes, ademais, teriam acesso a informações e objetivos não divulgados para os demais. O exoterísmo é conhecido, na vida militar e policial, como ‘História de Cobertura’. 
                                Quaisquer que sejam as Religiões, as Ideologias, as Filosofias e as Ciências, todas possuem (da mesma forma que essas sociedades secretas) determinadas proposições que as justificam a luz da moral e dos bons costumes; todavia, ademais destas denominadas ‘Histórias de Cobertura’, possuem, também, objetivos ideológicos e interesses de grupos, quase sempre inconfessáveis, que passam despercebidos da maioria dos seus adeptos e do público em geral. Existiria, assim, uma História real da humanidade e outra fictícia. A primeira guardada para muito poucos, e a segunda divulgada oficialmente para as massas humanas.
                              Se tais sociedades secretas existiram no passado ou ainda existem na atualidade comprovadamente (e, apenas, para citar algumas delas: Bilderberg; Ordo Templi Orientis; A Mão Negra; A Ordem dos Assassinos; Sociedade Teosófica; Os cavaleiros do Círculo Dourado; Sociedade Thule; Skull and Bones; Maçonaria e Illuminati); com certeza, alguma outra, bem mais oculta e bem mais poderosa existirá evidentemente.
                                       Alguns pesquisadores acreditam que esta última, bem mais poderosa, seja formada por seres alienígenas; os primeiros seres com inteligência superior a pisarem o solo do planeta, e criadores ou modificadores da raça humana, mediante trabalhos de manipulação genética. Os Deuses que nos criaram, segundo a tradição de muitos povos antigos, poderiam ser estes seres alienígenas (como hoje em dia, dado o estágio de desenvolvimento das Ciências, em escala menor e mais limitada, os nossos próprios cientistas já fazem, com algumas espécies animais, criadas ou modificadas em laboratórios).
                                         Talvez em um passado distante estes seres das sombras vivessem ao sol, isto é, fossem conhecidos e vivessem em contato com os seres humanos. Por alguma razão, até então, desconhecida, poderão ter partido para a clandestinidade, mantendo, ainda, o controle sobre a nossa espécie, através de prepostos. Sabe-se que a servidão consentida é preferível a escravidão imposta. A segunda delas, portanto, é fonte de revoltas e de tentativas de libertação; mas a do primeiro tipo, como não é percebida, torna-se aceita pelo ser humano de maneira pacifica. Quem sabe se não foi este fato que fez com que os nossos verdadeiros senhores se tornassem ocultos, deixando prepostos da nossa própria raça em seus lugares?
                                   Alguns afirmam que, da mesma forma que as antigas descobertas dos colonizadores europeus foram motivadas por interesses de ordem econômica e estratégica, os interesses de alguns dos alienígenas que nos visitam, também, podem ser os mesmos; como, certamente, serão os nossos interesses quando e se pudermos, futuramente, encetar viagens pelo Universo.
                                 Finalizando, estou convencido de que a verdadeira História da Humanidade jamais será encontrada nos livros de História e, talvez, jamais venha a ser conhecida; a não ser que um fator superveniente, algum dia, obrigue aqueles poucos que a conhecem a revelar tudo o que sabem...

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.