quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

353. O Inferno de Dante*

O Rio de Janeiro no ano de 2025


Jober Rocha**


                                Acordei com estampidos vindos da rua. Isso já era uma coisa normal em todos os bairros da cidade; mas, naquela manhã, os tiros eram tantos e acompanhados de muita gritaria, razão pela qual resolvi olhar por detrás da persiana fechada do meu quarto e ver do que se tratava.
                                                 Antes quero dizer que moro com a família, mulher e dois filhos, em um apartamento de três quartos em um bairro de classe média alta, na cidade do Rio de Janeiro.
                                                   A última eleição presidencial havia transcorrido três anos antes, em 2022. Nela havia sido eleito um candidato de extrema esquerda. O anterior presidente, um liberal de direita candidato a reeleição, embora tenha feito um bom governo, por haver se recusado a utilizar os recursos do Fundo Partidário nas eleições de 2022, não conseguiu mobilizar seus tradicionais eleitores nem aqueles outros que lhe faziam oposição. 
                                                     Sua campanha foi pobre e totalmente superada pela dos partidos de esquerda, que se uniram em torno do nome de um único candidato. Este candidato, tendo sido anteriormente condenado e preso, por casuísmos das mais altas cortes do país fora solto e tivera a sua condenação anulada. Os demais processos a que respondia foram todos paralisados e arquivados, possibilitando, com isso, que se apresentasse candidato nas eleições de 2022.
                                                 Naquela eleição, o dinheiro do fundo correu solto para a mídia venal e para a compra de corações e mentes dos formadores de opinião, fazendo com que a população ignorante, submissa e interesseira, mais uma vez, fosse engabelada com promessas do paraíso terrestre construído pelas mãos daquele candidato esperto e bem falante, dono de uma retórica invejável e que superava a de todos os demais políticos da esquerda oportunista do país.
                                                      Enfim, foi eleito aquele velho candidato da esquerda que, paradoxalmente, além dos votos dos mais pobres, contou também com os votos e o apoio de grandes empresários, de autoridades religiosas, de intelectuais, de artistas e de militares graduados das mais altas patentes.
                                                     Tendo transcorridos três anos da posse do candidato eleito, em 2025, praticamente, já vivíamos em um governo ou regime narco-comunista. Os líderes das facções criminosas, até então presos incomunicáveis em presídios federais, haviam sido todos soltos e seus negócios haviam prosperado e se expandido. Plantações de maconha e destilarias de cocaína funcionavam abertamente em vários Estados da Federação, depois que tanto a produção quanto o consumo de drogas haviam sido liberados pelas autoridades.
                                                       Os militantes e os ativistas da esquerda, que estavam infiltrados no governo anterior sabotando decisões do presidente e de sua equipe de governo e fornecendo informações privilegiadas para seus partidos e que, por isso mesmo, haviam sido demitidos, retornaram todos no novo governo de esquerda eleito, agora com muito mais força política e um ódio mais intenso contra o capitalismo.
                                                     As facções criminosas, que operavam livremente, haviam recrutado milhares de ‘soldados’, que intimidavam a inoperante polícia e amedrontavam a população trabalhadora, temerosa de sair às ruas e vivendo trancada em suas casas, torcendo para que dela se esquecessem.
                                                   Esses ‘soldados’ do crime, anteriormente desunidos e em guerra entre eles mesmos, já haviam superado suas divergências e se unido em torno de um líder único, conhecido como Mariozinho Beira Rio, que chefiava com mão de ferro aquele exército de criminosos.
                                                Nas reuniões e solenidades no palácio do governo, na capital federal, via-se, constantemente, a presença de inúmeros assessores fardados de alguns países comunistas, tanto do nosso continente quanto de fora dele.
                                              Os uniformes visíveis, nestas ocasiões, cada qual mais colorido que o outro, demonstravam que nossas autoridades nada mais eram que simples representantes fantoches e lacaios de países comunistas mais antigos e mais poderosos, que, aproveitando-se da saída dos USA dos acordos e foros internacionais; do protecionismo e do fechamento daquele país em torno de suas fronteiras; da ausência de ideólogos de direita que contrabalançassem os ideólogos de esquerda junto ao meio intelectual e artístico (que, tradicionalmente, orientam a juventude e as massas trabalhadoras incultas) e do trabalho desenvolvido por entidades internacionais e pelos representantes de algumas religiões que adotaram as chamadas Teologia da Libertação e a Ecoteologia ou Teologia Ambientalista (está última uma forma disfarçada de panteísmo, mas, que, visava, na prática, assenhorear-se dos recursos naturais da Região Amazônica para grupos econômicos a elas ligados) , visando à implantação da Nova Ordem Mundial, tinham, finalmente, conseguido chegar ao poder em inúmeros países sul americanos e africanos.
                                            Assim, tendo eu feito uma breve síntese dos fatos ocorridos após a derrota nas urnas do candidato liberal de direita, seguirei com a narração do que ocorreu naquele dia e nos que se seguiram.
                                               Olhando por detrás da persiana, vi muitas pessoas armadas saqueando os transeuntes e as lojas, algumas delas já cerrando as suas portas rapidamente. Resolvi descer até a portaria do prédio e ver como estavam as coisas lá em baixo, isto é, nas ruas.
                                                No térreo fui alertado pelo porteiro a não sair do prédio, mas minha curiosidade era grande e resolvi sair e caminhar pelas ruas.
                                                    A primeira coisa que notei foi a total ausência da polícia. Está havia, simplesmente sumido. Caminhando por várias ruas não vi nenhum policial, como, também, nenhum bombeiro para combater os inúmeros incêndios que grassavam pelo bairro, ateados com coquetéis Molotov jogados pelos criminosos e revoltosos.
                                               Pelo que pude perceber, as facções criminosas haviam ordenado aos moradores das comunidades pobres que se rebelassem contra as autoridades constituídas e fossem às ruas para roubar e saquear o comércio e as residências particulares, visando a instauração do caos social. 
                                             Essas facções agiam sob ordem do partido político no poder, que encontrara forte resistência da parte de alguns civis e militares patriotas, que não compactuavam com a tentativa de implantação do comunismo no país. O objetivo era implantar o caos nas cidades e no campo para que o governo pudesse agir com mão forte, reprimindo os patriotas com o auxílio das forças armadas e das forças policiais cooptadas.
                                                Notei, caminhando pelas ruas, as lojas fechadas, a ausência de transportes públicos e, apenas, um ou outro veículo circulando. Muita fumaça partindo dos prédios incendiados e as ruas quase todas desertas.
                                             Ao longe eu ouvia rajadas de fuzis e metralhadoras e disparos de pistolas. Resolvi retornar para casa, me esgueirando rente as paredes das lojas e dos edifícios.
                                                       Fiquei cerca de três ou quatro dias em casa com meus familiares, comendo aquilo que tínhamos na despensa. A situação nas ruas não se modificara. Nenhuma polícia, nem elementos das forças armadas eram vistos circulando pela cidade. As lojas permaneciam fechadas e os gêneros alimentícios já faltavam em todas as residências. Uma ocasião, durante a noite, a luz foi cortada em um ato de sabotagem junto as torres de distribuição, segundo fiquei sabendo por intermédio do porteiro. Pouco depois, cortaram o fornecimento de água.
                                                    Resolvi que não valia mais a pena esperar ali, no apartamento, a normalização da situação, pois, pelo visto, ela não se normalizaria.
                                                        Decidi que tentaria me deslocar com a família para minha casa de fim de semana, localizada em região montanhosa do interior, afastada da capital.
                                                         Antevendo eu a possibilidade de uma futura convulsão social no país, há alguns anos eu adquirira uma casa em região montanhosa isolada, onde estocara alimentos, armas e munições, em um porão previamente construído.
                                                             Ali eu poderia resistir durante muito tempo, até as coisas se definirem e o país voltar ao seu rumo, com ordem e segurança.
                                                             Com calma e tempo, eu preparara previamente uma horta, plantara árvores frutíferas, montara um galinheiro onde viviam cerca de trinta e poucas galinhas e iniciara uma criação de coelhos. O terreno possuía em seus limites um pequeno córrego de águas limpas, que abastecia a casa.
                                                   A energia da casa vinha de células captadoras de energia solar. O gás da cozinha provinha de uma pequena usina produtora de gás a partir de rejeitos orgânicos. Havia estocado diesel para a caminhonete. 
                                                           Em suma, se eu conseguisse chegar até a minha propriedade, ali poderia sobreviver durante muito tempo, resistindo pela força das armas a alguma invasão ou assalto de bandos ou turbas revoltosas.
                                                   O grande problema era chegar até lá, pois a convulsão social havia se estendido por todos os Estados da Federação e, naquela situação, transitar pelas ruas das cidades transformara-se em uma aventura arriscada, ainda mais com mulher e filhos.
                                                 De qualquer forma, dei início a preparação para sair dali. Minha caminhonete Toyota estava estacionada na garagem do prédio com o tanque de diesel cheio. 
                                                  Recolhi os mantimentos que ainda restavam em casa, enchi várias garrafas de plástico com água potável, apanhei vários cobertores, meus documentos e os dos demais membros da família e coloquei tudo na parte de trás do veículo.
                                                       Peguei minha pistola Beretta mod. 92, calibre 9 mm, com quatro carregadores de 15 tiros cada, cheios; minha pistola Colt 1911, calibre .45, com cinco carregadores de 7 tiros cada, cheios; uma escopeta Mossberg, calibre 12, semiautomática, com capacidade para 10 cartuchos, carregada, e diversas caixas de munição que possuía em casa.
                                                      Coloquei as caixas com as munições no porta luvas, as pistolas na cintura, os carregadores nos bolsos da calça e a escopeta ao meu lado no banco da caminhonete, reuni a família e deixei a garagem do prédio sem nem olhar para trás e sem saber quando ali voltaria novamente.
                                                  Sai do prédio e transitei por várias ruas desertas, tomando o rumo do Aterro do Flamengo. Avisei aos familiares que, quando me vissem sacando alguma das armas, eles deveriam se jogar no chão do veículo e dali só sair com ordem minha. 
                                                   Pretendia atravessar a Ponte Rio Niterói, seguir pela Avenida do Contorno, já em Niterói, até atingir a BR 101, passando pelo município de Itaboraí e, mais adiante, seguir pela RJ 116 em direção ao município de Nova Friburgo. Dali, depois de atingir Muri no quilômetro 73, pegaria a estrada à direita em direção ao município de Lumiar. 
                                                             Minha propriedade ficava próxima de São Pedro da Serra, em uma alta montanha, quase sempre coberta pela serração, entre este município e o de Benfica.
                                                   Pelo caminho por onde passávamos, o panorama era de uma guerra declarada: casas, lojas e edifícios em chamas ou enegrecidos pelo fogo já apagado. Buracos de balas em muitas paredes, ruas desertas, esparsos veículos circulando, nenhuma viatura policial ou das forças armadas.
                                                    Entrei no Aterro do Flamengo e segui em direção ao Aeroporto Santos Dumont, de onde seguiria através do túnel Marcello Alencar até a Praça Mauá.
                                                      Nas proximidades do aeroporto, ainda de longe, notei que haviam feito uma barreira na pista e algumas pessoas armadas faziam sinais para que eu parasse. Parar, naquela situação, significaria morte certa. Mandei que todos no veículo se abaixassem, saquei a pistola 9 mm e desci os vidros da frente do veículo. Fiz que ia parar na barreira, o que tranquilizou os seus integrantes.
                                                   Com os olhos procurei rápido o ponto mais fraco da barreira e logo o encontrei. Alguns caixotes de madeira bloqueavam o lado esquerdo da pista e vi que por ali poderia passar, quebrando aqueles caixotes com as rodas do veículo.
                                                Quando um dos que ali estavam se aproximou pela direita, atirei em seu peito com a pistola. Ele caiu e os outros se aproximaram. Descarreguei meio carregador neles, joguei o veículo em direção aos caixotes e, passando por eles, pisei fundo no acelerador; pois eles começavam a atirar em minha direção. Felizmente não acertaram nenhum tiro. 
                                            Entrei no túnel Marcello Alencar e rumei célere em direção à Praça Mauá. Ali chegando, rumei em direção a subida da Ponte Rio Niterói. Eventualmente, cruzava com algum veículo em sentido contrário, pois aquela parecia uma cidade fantasma, embora possuísse cerca de 6,2 milhões de habitantes.
                                                   A travessia da ponte foi tranquila. De cima dela pude avistar partes da cidade do Rio de Janeiro, que ficavam para trás e parte da cidade de Niterói, para onde eu me dirigia. Em ambas a fumaça negra dos incêndios turvava o céu azul daquele belo dia de sol.
                                                         O posto de pedágio estava vazio e as cancelas todas abertas. Não vi nenhum funcionário no local. Tomei o rumo da Avenida do Contorno, local perigoso pois passava por cerca de quinze comunidades carentes, a pior delas entre os quilômetros 307 e 309 da BR 101 (Rodovia Niterói-Manilha), chamada Complexo do Salgueiro e mais conhecida como Faixa de Gaza.
                                                        Nesta rodovia parei o veículo e pedi a minha esposa que ocupasse o volante. Passei para o banco de trás da caminhonete, arriei ambos os vidros, segurei nas mãos a escopeta Mossberg semiautomática, engatilhei e fiquei atento a estrada.
                                                      Mais à frente, justamente na altura da Faixa de Gaza, duas motocicletas atravessadas na pista impediam o trânsito de veículos. Minha mulher ficou nervosa, sem saber o que fazer. Mandei que seguisse devagar e mirasse com a nossa caminhonete a parte da pista que separava ambas as motos, pois entre elas havia um espaço de cerca de um metro.
                                                      Em volta das motocicletas haviam cerca de dez pessoas conversando, algumas com fuzis nas mãos e outras com suas armas penduradas nos ombros pelas bandoleiras. No acostamento da rodovia notei mais algumas pessoas.
                                                        Nenhuma delas esperava reação, pois foram completamente surpreendidas pelos meus disparos repetidos em suas direções. Muitos, atingidos pelos inúmeros chumbos projetados dos cartuchos, caíram ao chão. Minha mulher jogou o veículo entre as duas motos, que foram atiradas para o lado. Ao mesmo tempo eu seguia disparando em todas as direções, vendo gente cair por todos os lados, atingidas pelos meus disparos.
                                                      Mais uma vez passamos incólumes por uma barreira de revoltosos sublevados. Seguimos até perto de Itaboraí, quando pedi a ela que parasse o veículo e assumi o volante. Recarreguei todas as armas e seguimos em frente.
                                                             Meus filhos, dois meninos, um com doze anos e o outro com quatorze, participavam daqueles acontecimentos como se estivessem vivendo na vida real algum dos jogos de guerra que costumavam acessar com seus Smartphones. Eu me recordava dos velhos filmes de faroeste em que os colonizadores, em seus carroções puxados por parelhas de cavalos, eram assediados pelos índios revoltosos.
                                                   Lembrei-me, naquela ocasião, do maquiavelismo dos governantes de esquerda que desarmaram a população do país, já prevendo a chegada destes dias negros que vivíamos. Os cidadãos desarmados tornavam-se presas fáceis das organizações criminosas que importavam fuzis, pistolas e munições em quantidade, pelas fronteiras desguarnecidas do país.
                                                  Eu, desde longa data, havia me filiado a um clube de tiro e caça e, como atirador desportivo e caçador, havia adquirido diversas armas e munição em quantidade, além de praticar com frequência o tiro sob as mais diversas modalidades.
                                                    Sempre achei que a esquerda não desistiria enquanto não tomasse o poder em nosso país. Os episódios da Intentona Comunista de 1935 e da Guerrilha Urbana e Rural, iniciada após o Movimento Militar de 1964, reforçaram esta minha crença e fizeram com que eu me preparasse pessoalmente para essa eventualidade. 
                                                     Aprendi técnicas de sobrevivencialísmo e procurei construir um refúgio isolado e distante dos centros urbanos, para viver com a família em uma eventualidade como a que agora se apresentava. Quantos cidadãos de bem irão perecer, por não terem feito o mesmo?
                                                       Uma coisa que notei agora, e que jamais pensei que fosse ocorrer, é que os primeiros a sumirem das ruas nas convulsões sociais são as autoridades públicas. As ruas tornam-se desertas de uma hora para a outra. A polícia, os bombeiros, os militares, os serviços públicos, todos desaparecem da vida da cidade. O transporte público para de funcionar, o lixo não é mais coletado e se amontoa pelas ruas, a luz e a água são cortadas, o comércio fecha as suas portas, surge o desabastecimento e com ele a fome.
                                                    Quem antecipadamente não se preparou para uma eventualidade deste tipo é apanhado de surpresa e, infelizmente, acaba perecendo. A situação geral de destruição é muito parecida com aquela que ocorre nos grandes cataclismos; todavia, nestes existe um espírito de cooperação entre os sobreviventes. Na convulsão social e na guerra civil o espírito é de antagonismo e de guerra entre os participantes dos dois lados em contenda.
                                                Você seguirá vivendo tão somente enquanto dispuser de armas, munições, água e comida. Ninguém estará preocupado com a sua situação, a não ser você mesmo.
                                                            Minha mulher é uma pessoa prática e fatalista. O que tiver de ser será, segundo pensa. Vive bem com aquilo que tiver, não sendo ambiciosa nem gastadeira. Se adapta perfeitamente a vida simples do campo, como eu também. Espero que possamos seguir sobrevivendo enquanto durar esta terrível situação pela qual estamos passando, exclusivamente, por descaso de algumas autoridades, políticas, militares, econômicas e religiosas, não comprometidas com a ideologia marxista nem com o narcotráfico, nas últimas décadas de governos esquerdistas.
                                                  Tais autoridades sempre acharam que, em nosso país, as coisas poderiam ser negociadas entre os grupos que disputavam o poder, visando chegar a um acordo que fosse bom para todos os grupos; sempre foram pacifistas; sempre tiveram receio da opinião mundial. 
                                                    Pouco ou nada entendiam de política, de ideologia, de estratégia geopolítica e se deixaram iludir pelo canto das sereias marxistas-gramscistas, que almejavam alcançar o poder, inicialmente de forma pacífica, subvertendo a moral e os bons costumes como fizeram na realidade nos anos em que governaram, antes de partir para o golpe final na democracia mediante a revolta que ora vivenciamos envolvendo, de um lado, as facções criminosas e o povo pobre das periferias, armados e incentivados pelos ideólogos e intelectuais de esquerda, e do outro a população dos profissionais liberais e dos empresários da classe média (os pequenos burgueses odiados pelos comunistas), desarmados pelos governos de esquerda. 
                                                     As elites envolvidas com o narcotráfico, com o desvio de dinheiro público, com concorrências fraudadas, com a compra de leis e decretos que os favorecia, com a compra de sentenças quando julgadas por crimes cometidos, eram declaradamente favoráveis aos governos de esquerda venais, que roubavam e deixavam roubar.
                                                      Com o início da convulsão social, os ricos e oportunistas seguiram em seus aviões particulares para as grandes capitais no exterior e para os paraísos fiscais, onde aguardariam a poeira assentar, vivendo nababescamente, para retornarem, futuramente, com seus esquemas e maquinações tradicionais, tão logo os novos e poderosos governantes comunistas controlassem a situação.  
                                                   Terminada esta digressão, face a impaciência que percebo em alguns leitores para conhecer o desenrolar dos acontecimentos daquele dia, seguirei narrando a nossa viagem. 
                                                         Após atravessarmos o município de Itaboraí, viramos à esquerda e seguimos pela RJ 116 em direção a Nova Friburgo. Já estávamos, praticamente, bastante longe dos principais focos de rebelião, que eram os centros urbanos populosos, como o Rio de Janeiro e Niterói.
                                                     Passamos por Sambaetiba, Agrobrasil, Papucaia e Cachoeiras de Macacu, antes de atingir Nova Friburgo. Esse trajeto foi feito sem nenhum incidente, pois a estrada estava praticamente deserta. 
                                                 Não vimos nenhum veículo da Polícia Rodoviária, nem pessoas andando nas margens da estrada. Parecia que éramos os únicos habitantes vivos do planeta. Nos municípios em que penetrávamos, as lojas estavam todas fechadas e as ruas vazias.                                                               Notávamos alguns veículos queimados e marcas de disparos de armas de fogo nas paredes das casas. A situação, realmente, parecia muito grave.
                                                        Os pedágios da estrada, da mesma forma que o da Ponte Rio Niterói, estavam vazios e com as cancelas abertas.
                                                Finalmente, mais tranquilizados, pudemos apreciar um pouco da bela paisagem que se descortinava e respirar aquele ar puro que sentíamos ao subir a serra. Matas com grandes árvores se perdiam no horizonte. Por vezes, ao fazer alguma curva, divisávamos um fio de água escorrendo pelas encostas rochosas que a estrada margeava. Um cheiro de essências florestais sentíamos, quando arriávamos os vidros das janelas do veículo.
                                                     Os meninos brincavam no banco de trás, minha mulher dormia no assento do meu lado. Aquele parecia mais com um dia de férias do que com um dia de guerra, no qual eu já havia matado e ferido diversas pessoas. Chegamos ao alto da serra de Friburgo e começamos a descer.
                                                 Passamos pelo posto fechado da Polícia Rodoviária, na entrada do município, e seguimos em frente. Pouco depois de Muri, viramos à direita e entramos na estrada que conduzia a Lumiar.
                                                         Esta estrada, como as demais, estava totalmente deserta. Pensei comigo mesmo: será que só eu tive a ideia de construir um abrigo fora de casa na cidade e afastado, para me esconder e tentar sobreviver? Todos os demais se escondiam em suas próprias casas nas cidades? Só podia ser isto, para as estradas se encontrarem todas desertas.
                                                 Depois de rodar algumas horas, nos aproximamos da minha propriedade. A casa ficava na parte alta da montanha e era acessada por uma estrada de terra. Na época das chuvas, mesmo usando a tração nas quatro rodas era difícil chegar ao alto, pois o barro ficava escorregadio.
                                                    Chegamos a casa em um dia de semana, de surpresa. Todavia, quem foi surpreendido fui eu, pois um indivíduo estava sentado na varanda.
                                               Ao descer da caminhonete, notei que ele portava um revolver na cintura, de um lado, e um facão, do outro. Já desci com a Colt .45 na mão, engatilhada, e mandei que deitasse no chão com as mãos na nuca. Ele, vendo a minha disposição, seguiu a ordem que recebeu. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu que a casa estava vazia e que ele resolvera pegá-la para si, pois o país estava em guerra e o comunismo havia sido implantado. Segundo ele, tudo era de todos e aquela propriedade agora era dele.
                                                     Percebi que corria um risco enorme ao deixa-lo ir embora, naquela situação de guerra civil em que nos encontrávamos; pois ele poderia voltar com outros companheiros seus e tomar a casa pela força, matando a mim, minha mulher e meus filhos. Mandei que a esposa e os filhos permanecessem na caminhonete, aproximei-me e, com ele ainda deitado de costas no chão, apontei para a sua nuca e disparei. A morte foi instantânea e eu diria que até indolor. A varanda ficou, imediatamente, toda suja de sangue.
                                                       Arrastei o corpo dele, segurando-o  pelas pernas, para fora da varanda, em direção ao chão de terra, vendo um rastro de sangue que escorria da sua cabeça esfacelada seguir o mesmo trajeto do seu corpo.
                                                     Minha mulher e as crianças, saindo correndo do carro, entraram na casa pela porta dos fundos e eu fui cavar um buraco razoavelmente grande para depositar aquele corpo.
                                                    Escolhi um local distante da casa e, com uma picareta, uma pá e uma enxada comecei a cavar. Depois de horas, o buraco estava com uma profundidade razoável. Arrastei o corpo até lá e joguei-o dentro. A seguir comecei a tapá-lo, jogando terra com a pá. Em breve o buraco estava totalmente fechado. Coloquei alguns troncos secos e arbustos em cima, bem como algumas pedras.
                                                Voltei para a casa, guardei as ferramentas e fui limpar a varanda e os rastros de sangue.
                                                       Em breve tinha terminado tudo e estava com as costas e os braços doloridos. Descarreguei a caminhonete, acendi as luzes da casa, pois já escurecia, e preparei-me para comer algo. Minha mulher já tinha feito um arremedo de jantar e as crianças já haviam comido e estavam dormindo.
                                                         Tomei um banho rápido e sentei-me à mesa, junto com ela.
                                                     Minha mulher me olhou e vi que dos olhos molhados escorriam lágrimas. Peguei em sua mão e, depois de algum tempo, disse baixinho olhando-a firme nos olhos: 
                                                  - É a vida. Temos de sobreviver. Não temos mais a quem recorrer neste salve-se quem puder. As autoridades deixaram de existir. Estamos por nossa própria conta e risco.  
                                                No dia seguinte começaria a vida da minha família no campo, que duraria cerca de três anos; período este que durou a guerra civil em nosso país. 
                                             Seu fim só começou com o bombardeio norte-americano à Venezuela e à Cuba, com os USA estabelecendo uma zona de exclusão aérea e marítima, para aeronaves e embarcações russas e chinesas, e o bloqueio de todo o litoral, desde o Golfo do México até a Patagônia. 
                                                        Quatro forças tarefas compostas por porta-aviões, fragatas e submarinos nucleares bloqueavam o Mar do Caribe e o Atlântico Sul, impedindo a passagem de navios de guerra e aeronaves da Rússia e da China, que não se atreveram a participar de uma guerra convencional de tão grandes proporções há uma enorme distância de casa.
                                                       Finalmente o bem triunfara sobre o mal; embora tenha sido terrível o custo desta vitória, tanto em vidas humanas quanto em recursos físicos, financeiros e meio-ambientais. 
                                                  Restava agora reconstruir vidas, famílias e bens, que tinham sido destruídos pela ambição de poder e de riqueza de uma elite nacional venal e maligna; bem como pela sanha, por parte de alguns velhos países comunistas, de controlar nossas matérias primas e nossos recursos naturais e ambientais, que tanta falta sempre lhes fizeram. 
                                               A vida que levamos como fazendeiros e desbravadores sobreviventes, tendo, nestes três últimos anos, que aprender quase tudo sobre a vida no campo, será, no entanto, objeto de outro texto ainda em elaboração.


_*/ Aviso aos meus leitores: este é um conto de ficção; todavia, no Brasil e no mundo de hoje, ninguém poderá distinguir,  sem medo de errar, o que é ficção daquilo que é realidade.

_**/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.




segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


352. O Museu da Malandragem


Jober Rocha*


      Sábios do mundo todo e banqueiros espertos reuniam-se periodicamente em um conclave na cidade de Davos, na Suíça, para discutir sobre os destinos do mundo e da humanidade. Entre um e outro gole de champanhe francesa e ao final das discussões daquele ano, deliberaram edificar, em algum lugar próximo da capital do país, um museu destinado a salvaguardar para as futuras gerações todo o conhecimento sobre a esperteza humana, acumulado nos diversos campos das atividades, quer políticas, econômicas, militares ou psicossociais.
Assim é que pretendiam criar uma entidade filantrópica privada, com inúmeros empregados que percorreriam todos os países, de todos os continentes, buscando inteirar-se de episódios, já passados ou atuais, em que os protagonistas principais tivessem demonstrado uma superioridade matreira muito maior do que aquela dos seus contemporâneos pares, em episódios de pura e simples esperteza e malandragem; com isto, auferindo vantagens de toda ordem, inclusive pecuniárias.
O Vocábulo malandragem, como bem sabem os leitores, possui, evidentemente, várias conotações; mas, aquela a que mencionamos aqui se refere ao ato de ser mais esperto no trato com os demais; à ação daquele que é hábil e malicioso em suas maquinações; o proceder de quem se utiliza de algum ardil para vencer; a característica de alguém que age com malícia para atingir seus objetivos.
A entidade a ser criada, que seria um museu, conteria, pois, depoimentos de milhares de pessoas ao redor do mundo; depoimentos estes que poderiam ser apenas escritos ou também gravados e filmados. Possuiria o museu uma ala onde se prestariam homenagens aos vultos mais malandros da humanidade, expondo suas fotos ou imagens em pintura e escultura. Estes vultos seriam escolhidos por uma comissão de banqueiros, previamente nomeada pelos próprios, que eram os donos do museu, em um ato de pura malandragem. Aquele considerado o mais malandro de todos seria alvo de uma homenagem, em que receberia um prêmio e um diploma de honra ao mérito da malandragem.
As despesas seriam custeadas pelos banqueiros suíços, já imaginando seus próprios retratos figurando em uma ala, como aquela mencionada, onde seriam expostas as fotos ou as imagens dos indivíduos considerados como os mais malandros do mundo.
Criada logo a empresa (pois, como dizia um velho banqueiro: - Quem tem dinheiro tem pressa!), contratados os empregados, estes partiram para os quatro cantos do mundo com suas pranchetas, gravadores e filmadoras, buscando descobrir episódios inéditos de malandragem dignos de figurarem nos arquivos do museu. Enquanto isto iniciavam-se as obras do prédio, cujo projeto, megalomaníaco, evidenciava uma certa malandragem do arquiteto ao ter previsto a colocação de uma grande placa interna no saguão do edifício contendo o seu próprio nome e mencionando-o como tendo sido o arquiteto projetista de tão importante e suntuosa obra.
Os custos, evidentemente, foram superfaturados em conluio com a empreiteira que realizaria a obra. Os banqueiros, donos do dinheiro, não se importavam, em realidade, com os custos; pois imaginavam serem ressarcidos, de todas as despesas da construção e da manutenção dos empregados, com a cobrança de ingressos para a visitação do museu pelos turistas mundiais e com a isenção de impostos sobre atividades filantrópicas tão importantes quanto aquela.
Os empregados do futuro museu passaram meses viajando e entrevistando pessoas. Ouviram um sem número de histórias, gravaram milhares de horas de depoimentos e outras tantas horas de filmagens e de entrevistas. Todos estes empregados recebiam diárias e deveriam apresentar comprovantes das despesas efetuadas com taxis, alimentação, hotéis, etc., para comprovarem os seus gastos. A quase totalidade deles, em um ato de pura malandragem, solicitava recibos acima dos valores efetivamente gastos, buscando ficar com a diferença para si mesmo.
Tendo todos eles, finalmente, retornado à Suíça, teve início então a seleção, a catalogação e o julgamento dos depoimentos e das entrevistas. Todos estes ficariam arquivados no museu, mas, o que se buscava avidamente eram os casos que demonstrassem uma maior malandragem da parte do seu protagonista principal. O importante, segundo pensavam os espertos banqueiros, seria aprender com os casos daqueles que fossem considerados os mais malandros do mundo.
Havia, no meio de todo aquele material coletado, depoimentos de marajás indianos; de comerciantes árabes; de contrabandistas chineses; de chefes de facções criminosas brasileiras; de negociantes internacionais de armas; de piratas da Somália; de membros dos Carteis de Cali, Medellin e Tijuana; de produtores de petróleo do oriente; de proprietários de empresas de transporte aéreo e marítimo; de donos de empreiteiras de obras públicas; de atuais e de ex políticos do mundo todo (prefeitos, governadores e presidentes); de sacerdotes e membros do clero de todas as seitas e religiões; de chefes militares, com e sem experiência de guerras; de doleiros; de financistas; de investidores na Bolsa de Valores; de deputados e senadores; de juízes e promotores; de advogados; de donos de empresas de marketing; de proprietários de órgãos de imprensa e Mídia em geral; de donos de institutos de pesquisas e de verificação de opiniões, etc. 
Aos poucos, depois de filtrada e analisada a maior parte dos depoimentos, ficou bem evidente para os membros integrantes do júri ou da comissão de juízes, que os depoimentos de uma determinada pessoa se destacavam bastante de todos os demais.
Tais depoimentos denotavam uma enorme perspicácia do entrevistado na maquinação e montagem de negócios e situações em que o único grande ganhador era ele. Os banqueiros, tradicionalmente espertos, ficaram maravilhados com golpes e maquinações, jamais imaginados por eles, que haviam sido bolados e aplicados por aquele indivíduo que amealhara uma imensa fortuna, sabiamente espalhada pelos quatro cantos do planeta.
Por unanimidade de votos, o título de personalidade mais malandra do mundo foi atribuído àquele personagem que tanta admiração despertara entre os espertos banqueiros.
Resolveram convidá-lo para a inauguração do museu e para receber o prêmio a que fazia jus, por ter sido considerado a pessoa mais malandra do mundo por um júri de homens reconhecidamente espertos. A entrega do prêmio e do diploma seria precedida de um discurso do presidente do júri, enaltecendo o premiado. A seguir seria pronunciado o discurso deste, agradecendo tão honroso galardão. Todas as despesas de translado e de hospedagem do homenageado seriam custeadas pelo museu, que solicitaria a ele declarações, para a contabilidade e para o fisco, de valores muito mais elevados do que aqueles realmente despendidos.
No dia programado para a festa de inauguração, a grande mídia mundial estava presente ao evento. Os flashes não se cansavam de espocar pelos corredores do museu. As estantes e as prateleiras estavam repletas de pastas contendo milhares de depoimentos. Enormes telas de TV transmitiam entrevistas de personalidades mundiais da malandragem.
O presidente do Júri deu início a cerimônia de premiação, lendo um breve curriculum do agraciado e destacando alguns dos episódios de extrema criatividade e malícia, que fizeram com que ele fosse considerado como o homem mais malando do mundo, de todas as épocas e lugares.
A medida que o presidente do júri seguia discursando, qualquer pessoa medianamente esperta perceberia o sentimento dominante de inveja que pairava no ar, partido daquela plateia tão seleta e composta de cidadãos mundanos considerados como águias nos negócios mundiais.
O que mais contribuía para deixá-los invejosos era o fato de que a maioria deles havia tido uma formação científica primorosa. Grande parte possuía doutorado em Finanças, em Economia, em Política, em Marketing, em Ciências Militares, em Teologia, por conceituadas universidades. Todos eram bastante experientes e maldosos quando se tratava de enganar o próximo (ou, como costumavam dizer, os otários). No entanto, nenhum havia tido as magníficas ideias do homenageado, criadas por sua privilegiada mente, apenas, para enganar os demais. A inveja dos presentes se devia, pois, ao fato de tratar-se ele de pessoa praticamente sem nenhuma formação científica ou cultural que o destacasse de qualquer homem comum do povo.
Eu, felizmente ou infelizmente, estava presente aquele evento, como jornalista, enviado que fora por minha agência sediada nas Ilhas Jersey, paraíso fiscal onde muitos dos ali presentes possuíam contas correntes abastecidas com dinheiro público desviado de países pobres.
Terminado o discurso, que foi muito aplaudido pelos presentes, entregue o prêmio e o diploma, chegou a vez do homenageado discursar.
Ele subiu ao púlpito, mirou a todos com um olhar cínico e malicioso e começou com uma voz rouca, saída das profundezas: - Cumpanheiros e Cumpanheiras...
Nesta hora, reconhecendo quem era o homenageado, levantei-me para deixar o recinto. Caminhando em direção à porta de saída, ainda pude ouvir algumas vozes que gritavam histéricas: - Deixem o pobre homem livre!


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sábado, 18 de janeiro de 2020

351. Atualizando fábulas antigas: O Pomo da Discórdia

Jober Rocha*


                                     Todos haviam recebido convite para a posse do Secretário de Cultura do Monte Olimpo, morada oficial dos Deuses, menos a ativista política de esquerda Éris (Discórdia, em grego antigo), que, todavia, estava presente à cerimônia em andamento por possuir crachá de jornalista.
                                            -  Que posse poderá dar certo com essa intrigante por perto? – Pensou, ao vê-la na ocasião, o assessor encarregado da expedição dos convites, lembrando-se que ela, especificamente, não havia sido convidada por ele.
                                               Éris, realmente, havia ficado furiosa por não receber o convite para a posse e resolvera honrar o seu nome, criando uma intriga de tal ordem que jamais seria esquecida.
                                                Ao saber, previamente, que não seria uma das convidadas, redigiu um discurso de posse (Pomo, em grego antigo) enaltecendo a ideologia dos Titãs (que haviam caído em desgraça depois de uma sangrenta guerra) e citando frases de antigos discursos destes.
                                                  Substituiu, nos bastidores da secretaria, o discurso original do secretário (elaborado por um Herói encarregado dos discursos oficiais dos Deuses) pelo novo texto dela. 
                                           O secretário desconhecia o teor do texto que iria ler, pois, como de praxe, limitar-se-ia a falar, apenas, aquilo previamente escrito pelo  Herói (filho de Deuses com seres humanos) encarregado oficialmente desta missão.
                                                  O conflito não demorou muito a estourar, tão logo o secretário terminou de ler o discurso redigido por Éris.
                                                Esta já havia preparado, anteriormente, diversas pastas contendo cópias das frases dos Titãs por ela citadas e que, incontinente, passou a distribuir para os jornalistas e convidados presentes. 
                                          A matéria logo depois estava em todas as mídias do Universo, acusando o secretário de apologia aos Titãs (jovens Nacional Socialistas, em grego antigo), filhos de Gaia (Direita, em grego antigo) e de Urano (Esquerda, em grego antigo), que este, todavia, embora comprovadamente pai dos jovens, jamais assumira como seus filhos.
                                              O atual Deus supremo Cronos, que havia derrotado Urano em combate nas eleições passadas, observando calmamente o desenrolar dos acontecimentos, resolveu exonerar o secretário por ele recém nomeado, principalmente, em virtude deste ter caído em um golpe tão manjado quanto aquele conhecido como Boa Noite Cinderela.
                                           As fábulas gregas, passadas quando os Deuses conviviam com os humanos, ainda continuavam sendo escritas pelos velhos narradores gregos em uma época em que os demais povos da Terra ainda não haviam surgido. Vejamos qual será a próxima fábula a ser por nós atualizada.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

350. O sequestro e o desaparecimento de nossos jovens


Jober Rocha*



                                  No Brasil as estatísticas psicossociais são falhas e desatualizadas. Todavia, no ano de 1999, isto é, há vinte anos, portanto, o Ministério da Justiça e o Movimento Nacional de Direitos Humanos, ao se unirem para fazer um levantamento sobre pessoas desaparecidas, constataram o sumiço anual de cerca de duzentas mil pessoas. Destas, quarenta mil eram jovens; isto é, crianças e adolescentes, indicando que de cada dez pessoas desaparecidas nas ruas do país duas eram crianças. Dados de 2016, no entanto, já indicavam que para cada 10 pessoas desaparecidas no país, quatro eram crianças, mostrando um crescimento no número de crianças desaparecidas com relação ao total.
                                                  As crianças e adolescentes desaparecidos em nosso país, segundo os especialistas, podem ter sido vítimas de adoção ilegal; de exploração sexual infantil e de trabalho escravo doméstico, em campos, minas e plantações; bem como, terem sido sequestradas para a venda de órgãos destinados à transplantes, realizados no país e no exterior; de terem se filiado espontaneamente a grupos e fações que comercializam drogas ou por gostarem de viver pelas ruas simplesmente vadiando.
                                            Para estes tipos de desaparecimentos, os organismos policiais, embora contando com muita precariedade de meios e de profissionais especializados, alguma ação ainda realizam no sentido de tentar localizar e recuperar os jovens desaparecidos e de punir os responsáveis pelos seus sequestros.
                                            No entanto, existe um outro tipo de sumiço de crianças e adolescentes que mortificam e martirizam o dia a dia dos pais e responsáveis: é aquele em que os jovens desaparecem dentro das suas próprias casas, no interior de seus quartos. Estes desaparecimentos, ao contrário daqueles já mencionados onde os jovens têm seus corpos sequestrados, possuem outra peculiaridade: desta vez trata-se das suas mentes que foram sequestradas. Este número, certamente, é muito maior do que o anteriormente citado da ordem de quarenta mil anual.
                                                As mentes juvenis têm sido sequestradas, nas duas últimas décadas, principalmente, pela ideologia marxista propagada nas escolas e nas universidades, por intermédio de intelectuais orgânicos formadores de opinião; isto é, professores, militantes políticos dos partidos de esquerda e ativistas ideológicos, infiltrados nestas instituições com a missão específica de se assenhorarem das mentes dos jovens estudantes. Para tanto contribuem, ainda, jornalistas e autores literários que divulgam matérias em que ressaltam qualidades e vantagens que o marxismo teórico não possui e que o comunismo prático jamais possuiu.
                                          As mentes juvenis são, também, sequestradas por seitas religiosas permitidas (e até incentivadas pelas autoridades) e por seitas satânicas, algumas delas protagonistas de sacrifícios humanos eventualmente noticiados na Mídia. Ademais, o tráfico de drogas alucinógenas e estupefacientes também é responsável pelo sequestro das mentes de significativa parcela de jovens em nosso país.
                                                  Contra o sequestro das mentes juvenis o combate torna-se muito mais difícil, pois, mesmo o consumo de drogas (que não é mais tipificado como crime), foge da alçada das autoridades policiais e judiciais.
                                              Os pais e responsáveis sofrem muito quando perdem os seus filhos, tanto de uma forma quanto de outra e as armas de que dispõem para trazê-los novamente de volta ao lar e ao convívio social familiar, em ambos os casos, são muito escassas ou inexistentes. 
                                                 Muitos pais perguntam a si mesmo, com os olhos marejados de lágrimas: - Onde está aquele filho alegre, amigo de todas as horas e companheiro de brincadeiras que, até então, vivia nesta casa? 
                                                   A resposta triste e crua é de que aquele jovem já não mais existe, desapareceu ceifado pelas drogas, pela ideologia marxista ou por seitas radicais. O Estado, embora pouco atuante no primeiro caso, o do sequestro físico, mostra-se totalmente ausente no segundo, o do sequestro mental.
                                              Os jovens cujas mentes foram sequestradas começam por apresentar um comportamento estranho no meio familiar. Passam a ser taciturnos, a não conversarem mais com os familiares, a vê-los como seus inimigos ou como pessoas retrógradas. Trancam-se em seus quartos e não desejam contato com nenhum familiar. 
                                                  Nos poucos encontros que mantêm com membros da família só fazem por criticá-los, ofendê-los e, até mesmo, agredi-los. Alguns saem de casa espontaneamente, rompendo definitivamente os laços afetivos com a família e indo viver em ‘cracolândias’ (locais onde se consome drogas e se negocia a sua compra e a sua venda); se alojam em estabelecimentos onde são praticadas seitas religiosas ou, então, partem para uma vida clandestina na qual são mantidos por organizações ligadas a aplicação da doutrina marxista para a tomada do poder, através da prática de atos terroristas, de guerrilha urbana ou rural, cometidos contra pessoas e instituições. 
                                               E o pior de tudo isto, para aqueles que se preocupam com o assunto, é que, à exceção dos traficantes de drogas, que podem ser punidos pelo Estado por fornecerem substâncias proibidas que sequestram as mentes dos jovens, viciando-os; os demais responsáveis pelo sequestro de mentes juvenis, como os ideólogos intelectualóides do marxismo e os sacerdotes estelionatários de seitas radicais e/ou demoníacas, escapam às malhas da lei pelo fato de suas atividades de proselitismo ideológico ou religioso, em si mesmo, não constituírem crimes na nossa atualidade.
                                               Lembro aos leitores que tanto na Alemanha Nazista quanto na Rússia comunista e na China de Mao Tse Tung quando da chamada Revolução Cultural, os filhos eram conclamados a denunciarem seus país e familiares à polícia política, quando estes não fossem fiéis seguidores da ideologia adotada e proclamada pelo Estado.
                                                  O mesmo ocorreu com a Igreja de Roma na época da Inquisição, quando aqueles que não rezassem pela cartilha da igreja eram denunciados como hereges, torturados e mortos pela espada ou queimados nas fogueiras. Desta forma foi eliminado totalmente o povo Cátaro, que vivia na região de Montségur, no Languedoc, sul da França. O Islã, por sua vez, em sua expansão pelo mundo continua também fazendo vítimas entre os chamados hereges; isto é, aqueles que não professam a sua crença.
                                                    As mentes e os corações dos jovens, nos dias atuais, são constantemente assediados pela mídia, que divulga tanto notícias verdadeiras quanto falsas, tentando cooptá-los para que adotem determinadas ideologias, façam parte de determinados partidos políticos, pertençam a determinadas religiões, consumam determinados produtos, valorizem determinados comportamentos sociais e costumes morais.
                                               Com isto, face a ação da propaganda, do marketing e da massificação, criam-se gerações de jovens que pensam de forma unânime sobre determinados temas, notadamente morais, provocando aquilo que Friedrich Nietzsche chamou de transvaloração de valores; isto é, quando as virtudes passam a ser consideradas vícios e os vícios considerados virtudes, em uma nova genealogia da moral.
                                                    Em muitas comunidades e regiões, hoje em dia o consumo de drogas é generalizado e todos acham o fato comum e normal. Da mesma forma ocorre com o movimento gay, com a traição entre casais, com a corrupção, com o desarmamento, com o aborto, com a eutanásia, com a aceitação dos movimentos guerrilheiros e das facções criminosas, com a inculpação social pelos crimes individuais (quando parte da população e, inclusive, autoridades do Poder Judiciário e do Ministério Público, passam a acreditar que os criminosos são vítimas indefesas de uma sociedade injusta que os explora e persegue), etc. 
                                             Muitos não percebem que estas mudanças de comportamento em nossa sociedade não surgiram por acaso, de uma hora para outra, mas foram fruto de ações programadas por ideólogos, por exemplo, como Antônio Gramsci. Para Gramsci a implantação do comunismo deveria ser feita pela via pacífica, através do entorpecimento da consciência e da massificação dos indivíduos de forma lenta, gradual e subliminar.
                                                Este objetivo seria alcançado mediante a hegemonia e a ocupação de espaços. A hegemonia consistiria na criação de uma mentalidade uniforme sobre certas questões, de modo que o povo acreditasse correto determinado critério, determinada medida, determinada análise. Assim, quando o golpe para a implantação do comunismo fosse desfechado, ninguém se oporia a ele, pois estaria inteiramente convencido de que a mudança seria para melhor. O chamado comportamento Politicamente Correto teria, pois, esta finalidade de preparar as mentes e os corações para o dia do desfecho final.
                                                O atual governo tem trabalhado no sentido de combater o narcotráfico e suas facções criminosas; bem como, tem buscado limitar ou impedir a ação dos intelectuais orgânicos, disseminadores da ideologia marxista junto às escolas e universidades. Da mesma forma tem trabalhado junto a mídia, fechando as torneiras das verbas públicas que durante os governos de esquerda inundavam as contas de muitos jornalistas e artistas com o objetivo de que estes fizessem a divulgação e a apologia da ideologia marxista, o panegírico dos governos e de suas autoridades e omitissem os fatos desabonadores destes mesmos governos e de seus dirigentes, envolvendo o desvio de recursos públicos, a corrupção generalizada e as inúmeras concorrências fraudadas e superfaturadas objetos de inquéritos no âmbito da Operação Lava a Jato.
                                            Resta, a meu ver, uma ação mais eficaz e contundente do governo com respeito àqueles falsos profetas, simples cidadãos comuns que têm enriquecido de forma desmesurada às custas da credulidade, da inocência e do misticismo da nossa gente, dentre estas destacando-se os mais jovens.
                                            Vamos salvar as nossas crianças, como já disse tanta gente de bem neste país; inclusive o próprio presidente por diversas vezes e em distintas circunstâncias e lugares.


_*/ Economista e doutor pela universidade de Madrid, Espanha. Membro titular da Academia Brasileira de Defesa – ABD e do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos – CEBRES.

sábado, 11 de janeiro de 2020

349. O Nó Górdio na Política** 


Jober Rocha*



                                     Segundo os dicionários, o nó górdio consistiria em uma lenda a envolver o rei da Frígia, na antiga Ásia Menor, e Alexandre, o Grande, alguns séculos depois. O termo é, normalmente, usado como uma metáfora para qualquer problema insolúvel; isto é, problema que, aparentemente, não teria solução, mas que poderia ser resolvido facilmente por algum ardil astuto de alguém que "pensasse fora da caixa".
                                               A lenda conta que o rei da Frígia morreu sem deixar herdeiro e que, ao ser consultado o Oráculo, este anunciou que o seu sucessor chegaria à cidade num carro de bois. A profecia foi cumprida por um camponês de nome Górdio que, tendo chegado em um carro de bois, foi coroado rei. Este, para não esquecer de seu passado humilde, colocou a carroça com a qual ganhou a coroa no templo de Zeus e a amarrou em uma coluna com um enorme nó. 
                                              O nó, na prática, era impossível de desatar e por isso ficou famoso e conhecido como Nó Górdio. Segundo o oráculo, quem desatasse o Nó Górdio dominaria o mundo.
                                             Cinco séculos depois Alexandre, o Grande, ouvindo essa lenda ao passar pela Frígia, foi até o templo de Zeus observar o Nó Górdio. Após muito analisar, desembainhou sua espada e cortou o nó. 
                                             Alexandre, poucos anos depois deste fato, tornar-se-ia se o senhor de toda a Ásia Menor.
                                    A teoria da separação dos poderes, de Montesquieu, na qual se baseia a maioria dos Estados ocidentais modernos, afirma a distinção dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) e suas limitações mútuas. 
                                                O objetivo dessa separação proposta seria o de evitar que o poder se concentrasse nas mãos de uma única pessoa, para que não houvesse abuso como aqueles ocorridos nos Estados Absolutistas, por exemplo, em que todo o poder concentrava-se nas mãos dos reis.
                                            Cada um desses Poderes teria, portanto, sua atividade principal e outras atividades secundárias. 
                                           Por exemplo, ao Legislativo caberia, principalmente, a função de produzir leis e fiscalizá-las, administrando e julgando em segundo plano. 
                                              Ao Judiciário caberia a função de zelar pelo Direito, nos casos concretos, pacificando a sociedade em face da resolução dos conflitos, sendo suas funções secundárias e atípicas as de administrar e legislar. 
                                                 Ao Executivo caberia a atividade administrativa do Estado, isto é, a implementação daquilo que determina a lei, atendendo às necessidades da população em termos de infraestrutura, saúde, educação, segurança e cultura; sendo suas funções secundárias as de legislar e julgar.
                                              A Constituição Federal do Brasil, em vigor desde 1988, em seu artigo 2º dispõe sobre a corrente tripartite, ao prever que “são poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”.
                                              Ainda mais, como cláusula pétrea, seu artigo 60, § 4º, III, estabelece: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [...] a separação de poderes”
                                                 Estes dois artigos mencionados, a luz da antiga lenda frígia, constituiriam, pois, um Nó Górdio a desafiar aventureiros e cleptocratas, obcecados por galgar o poder objetivando receber tudo aquilo que de bom, segundo eles, viria junto com este.
                                                Mas, da forma como rezava a antiga lenda, apenas um ardil astuto poderia desfazer este nó, fazendo com que os três poderes, constitucionalmente independentes e harmônicos, na realidade, nada mais se tornassem do que uma simples lenda.
                                                  Bastava, para tanto, que eventuais integrantes de dois dos poderes se unissem, de forma esperta, para dividir entre eles o poder que antes pertencia aos três poderes.
                                              E como proceder, a partir desta união de ideias, para implementar a decisão tomada? Simples. Um dos poderes, aquele que produz as leis, buscaria legislar sobre quase todas as atividades principais e secundárias do poder que administra o Estado, cerceando, assim, as atividades do seu responsável.
                                                    Ao poder que deveria julgar sob a luz do Direito os casos concretos, mediante casuísmos e interpretações esdruxulas, caberia, pois, impedir ao administrador do Estado de agir contra os interesses, confessáveis ou não, dos membros dirigentes dos  dois poderes em conluio, alegando inconstitucionalidades. Ademais, os integrantes em conluio dos dois poderes se protegeriam mutuamente; os de um deles postergando, retardando ou deixando prescrever ações judiciais contra membros do outro poder e os membros deste fazendo leis que beneficiassem os integrantes do outro.
                                                    Estaria, pois, desfeito o Nó Górdio inicial, criado pela Constituição Federal acerca da independência dos poderes e, infelizmente, estabelecido um outro Nó Górdio, criado agora por eventuais integrantes, em conluio, dois dos poderes da República. Este novo nó, aparentemente, seria quase impossível de ser desatado. 
                                               Como impedir que integrantes de apenas dois dos poderes da república mandassem no país e ditassem as regras, à revelia de milhões de eleitores que elegeram um único presidente, justamente, para que só ele fizesse isto e em consonância com o seu Programa de Governo, pelo qual havia sido eleito?
                                                            Poderiam os eventuais integrantes em conluio dos outros dois poderes impedir o presidente de cumprir com o seu Programa de Governo, programa este que representava a vontade nacional de mais da metade da população e que, por isto mesmo, o havia conduzido ao cargo máximo da nação? 
                                                     Evidentemente que não poderiam; pois a Constituição Federal de 1988 ainda permanece em vigor e fala em independência e harmonia de poderes. 
                                               O que poderia ocorrer é que as coisas seguiriam sendo feitas à revelia das diversas manifestações populares em contrário, que levariam às ruas milhões de pessoas. Algumas autoridades em conluio, dos dois poderes mencionados, simplesmente, não escutariam os apelos populares e seguiriam com aquilo que vinham fazendo; isto é, cerceando o poder do presidente, praticamente de mãos atadas após ter sido eleito. 
                                                Este novo Nó Górdio, à primeira vista, pareceria mesmo impossível de ser desfeito. Todavia, lembremo-nos nesta nossa hipótese de que o presidente é um militar e que para o gênio militar nada é impossível, como bem demonstrou o general Alexandre, no passado, cortando o nó com a sua espada... 


-*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Defesa – ABD e do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos – CEBRES. 
_**/Publicado pela Academia Brasileira de Defesa - ABD, em 06.02.2020


domingo, 5 de janeiro de 2020

348. Olha o Maniqueísmo aí, gente!


Jober Rocha*



                              O Grêmio Recreativo e Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, cujas cores tradicionais são o verde e o rosa, sempre que desfila durante o carnaval do Rio de Janeiro é precedido do grito de algum carnavalesco que brada ao microfone: - Olha a Mangueira ai, gente!
                                             As cores do Maniqueísmo, ao invés do verde e rosa da Escola de Samba Mangueira, são o branco e o preto, muitas vezes, encontrados nos mosaicos dos pisos das catedrais e sempre presente na sala dos passos perdidos dos templos maçônicos.
                                          Segundo encontramos nos dicionários, o Maniqueísmo é uma filosofia religiosa e dualística fundada e propagada pelo profeta persa e filósofo cristão do século III, Mani, Manes ou Maniqueu, e as suas ideias sincretizavam elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo.  O filósofo dividia o mundo, simplesmente, em duas partes, uma boa (Deus) e outra má (Demônio), razão do branco e do preto como suas cores.
                                              Mani acabou por ser crucificado no final do século III e seus adeptos, depois de inicialmente aceitos, acabaram sendo perseguidos por todo o Império Romano. Todavia, em que pese tudo isto, o Maniqueísmo permaneceu vivo como religião e doutrina filosófica até meados da Idade Média.
                                            A matéria física da qual os seres humanos são formados, segundo o profeta e filósofo persa, era intrinsecamente má e o espírito, etéreo, eterno e divino, em oposição a matéria, era intrinsecamente bom. Com a popularização do termo ao longo da história, no entanto, maniqueísta passou a adjetivar toda doutrina fundada em dois princípios opostos, um do bem (que tratava da parte boa) e outro do mal (que cuidava da parte má).
                                             Esse dualismo de princípios se opunha ao monismo. O primeiro deles afirmava que a mente e o corpo eram duas substâncias diferentes convivendo juntas e o segundo dizia que a mente e o corpo eram, na realidade, uma única substância.
                                                 O Dualismo atual, por extensão do dualismo de Mani, tornou-se, assim, um conceito religioso e filosófico que admite a coexistência de dois princípios necessários e complementares, embora tratando-se de duas posições ou de duas realidades contrárias entre si, como o espírito e matéria, o corpo e a alma, o bem e o mal e que estejam, um e outro, em eterno conflito.
                                                    Este conceito é similar ao conceito taoista de Yin e de Yang, surgido muito antes das teorias de Mani, entre os anos 770 e 221 a.C., onde yin e yang são duas energias cósmicas opostas e complementares que, embora conflitantes, estão presentes em todas as coisas no Universo. Yin significa escuridão, sendo representado pelo lado pintado de preto, e yang é a claridade, o lado pintado de branco. Mani, sem dúvida alguma, deve ter-se baseado neste princípio mais antigo ao estabelecer os fundamentos da sua doutrina.
                                                        Neste particular, e considerando tudo o que até agora foi mencionado, vê-se que a moderna ideologia marxista também copiou e adotou uma nova forma de dualismo ideológico, sem a conotação religiosa de Mani. 
                                                  Nada mais vivo e atual do que o dualismo marxista e ateu, principalmente aquele estimulado pelos postulados de Antônio Gramsci (1891-1937) ao buscar alterar, aos poucos, as estruturas que compõem os pilares de sustentação da sociedade, desde os valores morais e sociais, até os políticos, dividindo os seres humanos e suas relações psicossociais entre dualismos tais, como esquerda e direita, nós e eles, heterossexuais e homossexuais, pobres e ricos, crentes e ateus, brancos e negros, comunistas e fascistas, etc.
                                                      Estas criações gramscistas fazem parte daquilo que o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), alguns anos antes de Gramsci formular seus postulados, definiu como Transvaloração de Valores e que, modernamente, tem sido colocada em prática através do conhecido Comportamento Politicamente Correto, onde a genealogia da moral, ao invés de ser baseada em princípios religiosos tradicionais, passou a ser baseada em princípios políticos e ideológicos de esquerda.
                                                     Ocorre que, de tanto propalar e difundir o dualismo como marco de separação entre eles (os comunistas/socialistas, os bons, os justos, os preocupados com a melhoria das condições sociais do povo) e nós (os capitalistas/fascistas, os burgueses maus, os exploradores do povo, os patrões capitalistas selvagens), aqueles ativistas, militantes e ideólogos marxistas passaram a raciocinar e a agir também de forma dual em suas próprias vidas particulares; isto é, pregando o marxismo e se dizendo marxistas, em teoria, ao falar para as populações pobres e crédulas dos países subdesenvolvidos, mas, na prática, gostando de viver bem, de acumular dinheiro ilícito e de gastá-lo em companhia dos companheiros de partido e das elites ricas dos países capitalistas, que costumam frequentar viajando pelos continentes em seus jatos particulares. 
                                                    Isto é o que tem sido visto por todos nós, de forma costumeira, através da mídia nacional e internacional. Políticos, desportistas, artistas, empresários e ideólogos, todos se dizendo de esquerda e oriundos dos países subdesenvolvidos, gastando o dinheiro público desviado dos governos a que serviram, que comandaram ou que ainda comandam (sendo que muitos destes políticos e governantes chegaram ao poder de forma fraudulenta, em eleições viciadas) nos países ricos do primeiro mundo, consumindo nababescamente em restaurantes caríssimos, em hotéis de luxo, comprando objetos de consumo nos ricos magazines, desfilando com veículos que custam milhares de dólares, possuindo mansões no exterior e desfrutando de gordas contas correntes em paraísos fiscais, fruto de recursos desviados ou de propinas recebidas de empresários amigos, nas concorrências fraudulentas por estes vencidas em vendas e em obras para os governos dos referidos políticos. 
                                                     Ninguém gosta de exibir mais poder e riqueza do que os pequenos títeres venais da esquerda mundial, notadamente aqueles que pertencem às cleptocracias governantes dos países de esquerda mais pobres da América Latina e da África.
                                                        São todos eles maniqueístas sem se darem conta, na medida em que acham que a sociedade humana está dividida segundo os seus conceitos distorcidos e egoístas do que deva ser considerado bom e mau, e na medida em que em suas práxis diárias contrariam tudo aquilo que costumam pregar na teoria marxista, que querem fazer-nos crer ser verdadeira (por ter sido escrita de forma ininteligível e incompreensível, para eles, por Karl Marx) e o único caminho que conduziria ao paraíso terrestre da massa trabalhadora. 
                                                     Não mencionam que nos países marxistas, os trabalhadores continuam sendo aquilo que sempre foram, isto é, simples trabalhadores. Nem dizem que o patrão Estado costuma ter um coração mais duro do que o do patrão burguês. Não falam, também, que nos países capitalistas a ascensão social costuma ocorrer com bastante frequência em qualquer estrato social; fato este que só ocorre esporadicamente nos países comunistas.
                                                 Como vivemos no País do Carnaval, toda vez que um governante de esquerda assumisse o poder no Brasil e iniciasse o desfile de posse com a faixa presidencial atravessada no peito e em pé no Rolls-Royce (usado pela primeira vez por Getúlio Vargas, nas comemorações do Dia do Trabalho, em 1953), acenando para o povo presente na Praça dos Três Poderes da Capital Federal, algum assessor ou porta-voz da presidência deveria pegar o microfone e, com a melhor dicção possível, gritar em alto e bom som para o público: -  Olha o Maniqueísmo ai, gente!


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

347. Queimando as elites em esfinge**


 Tradicionais leniências do nosso sistema judiciário



Jober Rocha*


                         É sobejamente conhecido dos historiadores a tradicional leniência das nossas autoridades, desde os tempos do Brasil-Colônia até os dias atuais, com respeito aos criminosos oriundos das classes de renda mais alta, envolvidos em crimes financeiros e em desvio de recursos públicos.
                                      A mesma leniência não costumava existir no reinado, no império e na república, quando se tratava daqueles criminosos de renda mais baixa, isto é, da gente do povo. Hoje em dia, no entanto, com a ideologia marxista permeando as decisões da justiça, muitos juristas consideram todos os criminosos, tanto os de classe de renda mais alta quanto os de classe de renda mais baixa, como pobres coitados que, através da violação de injustas leis, encontraram uma forma de contestar o odiento sistema capitalista selvagem que os oprime e lhes suga o sangue, expropriando daqueles que têm a posse dos bens e do próprio Estado espoliador, aquilo tudo que, por direito, a eles, os mais carentes, pertenceriam.
                                    O crime para aqueles que assim pensam (e que não são poucos) deveria, pois, receber penas mais brandas, como a progressão de regime; penas alternativas pecuniárias; proibição do uso de algemas; saídas temporárias para comemorar dias santos e feriados; audiências de custódia que constrangem e humilham os policiais; prisão domiciliar; limite de pena para presos idosos; regime semiaberto; manutenção do mandato popular para políticos condenados, que seriam parlamentares, durante o dia, e presidiários durante a noite; uso de tornozeleira eletrônica que possibilitaria a libertação do preso, com algumas restrições de se ausentar do Estado; redução de pena por bom comportamento; etc.
                                       Antigo livro denominado ‘A Arte de Furtar’, atribuído ao jesuíta Padre Manuel da Costa (1601-1667), é uma das obras literárias emblemáticas do período da Restauração e o ponto mais alto da literatura portuguesa de costumes dos séculos XVI à XVIII. 
                                            A sua redação ocorreu, como se depreende do texto, em 1652, ou seja, ainda em vida de D. João IV, ao qual foi oferecida pelo autor, embora apenas tenha sido impressa quase um século depois. O livro faz um inventário das numerosas formas de roubo, notadamente nas colônias, e desmascara as múltiplas espécies de ladrões, para que os leitores deles se acautelem e o rei lhes dê "o castigo que merecem".
                                         A roubalheira e a corrupção eram tão gerais, segundo o autor, que ele não aceitava que ninguém lhe arguisse a obra, à exceção do rei e do príncipe herdeiro, já que todos os restantes lhe eram suspeitos. Assim, do clero à burguesia, passando pelos militares e pela nobreza, a todos vai o autor descobrindo as "unhas" e as "traças de ladrões", excetuando convenientemente "os ministros que assistem a El-Rei" de Portugal. O rei, evidentemente, pouca atenção deu ao livro, pois estas ações tipificadas na obra eram características das elites nobres, sustentáculo da monarquia e do próprio Rei.  
                                                 Segundo nos narra Laurentino Gomes em sua obra 1808, D. João VI ao embarcar com a corte para o Brasil trouxe consigo todo o tesouro português e dois de seus principais assessores, já então acusados de corrupção e roubos na ocasião: O Visconde de Rio Seco (Joaquim José de Azevedo) que no Rio de Janeiro acumulou imensa fortuna como tesoureiro-mor e Bento Maria Targini, que comandava o Erário Real. Ambos, que já eram ricos em Portugal, enriqueceram de forma desmesurada no Brasil, sob os auspícios do monarca.
                                                  Ao retornar de volta para Portugal em 1821, D. João VI raspou os cofres do Banco do Brasil e levou embora o que restava do tesouro real que havia trazido para a colônia em 1808. “A realeza que acabava de viver na corrupção, fizera um verdadeiro assalto ao erário brasileiro”, segundo o historiador Oliveira Lima, citado no livro mencionado.
                                                       Conforme nos conta Laurentino em seu livro, versos populares satirizavam a roubalheira da época, como este: 

“Quem furta pouco é ladrão
Quem furta muito é barão
Quem mais furta e esconde
 Passa de barão a visconde”.

                                          Chegando a Lisboa, vários integrantes da comitiva real, que embarcaram de volta, no Rio de janeiro, junto com D. João VI, foram impedidos de desembarcar acusados de corrupção e roubo na administração dos cofres públicos do Rio de Janeiro, dentre eles o famoso e já citado Visconde de Rio Seco.
                                           Outra semelhança do Brasil de então com os recentes governos brasileiros das últimas décadas, foi o fato de D. João VI pagar uma pensão anual a Hipolito José da Costa, brasileiro que vivia na Inglaterra e era dono do jornal Correio Brasiliense, editado em Londres em virtude da censura existente no Brasil. Hipolito, inicialmente, escrevia contra D. João e seu reinado. 
                                          Depois de procurado por emissários do rei, estabeleceu-se um “sistema de relações promiscuas entre o seu jornal e o governo no Brasil. Por um acordo secreto D. João começou a subsidiar Hipolito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Brasiliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal” – afirma Laurentino Gomes em sua obra 1808. 
                                          Cerca de duzentos anos depois, a mesma tática continuava sendo usada pelos governantes de esquerda para comprar o apoio da mídia, visando esconder fatos importantes que os denegrissem e para ressaltar notícias medíocres que os enalteciam.
                                                Tratava-se aquela de uma corte perdulária e voraz, com a pratica da caixinha nas concorrências e nos pagamentos dos serviços públicos. “Cobrava-se uma comissão de 17% sobre todos os pagamentos ou saques do tesouro público, como extorsão velada. Se o interessado não pagasse o processo parava.  Era uma corte de muita corrupção e peculato”, segundo Oliveira Lima, citado no livro de Laurentino Gomes.
                                        Episódio anterior, marcado pelos historiadores, passou-se com um administrador português chamado Francisco de Castro Morais. Este foi governador e capitão-geral da capitania do Rio de Janeiro, de 1697 a 1699, da capitania de Pernambuco, de 1703 a 1707 e, novamente da capitania do Rio de Janeiro, de 1710 a 1711. Era governador da cidade do Rio de janeiro durante as invasões francesas de Duclerc (1710) e de René Duguay-Trouin (1711) em busca de saque e de resgate no Rio de janeiro, conhecido, na ocasião como um entreposto do ouro que afluía em quantidade das montanhas da região das Minas Gerais.
                                             Na segunda invasão, comandada por Duguay Trouin, o governador desguarneceu antecipadamente as fortalezas e movimentou as tropas de defesa da cidade em direção oposta à dos invasores, permitindo a fácil tomada da cidade, em um ato reconhecido pelos habitantes, de então, como de alta traição.
                                                Segundo comentário do historiador Ione de Andrade “entre o governador e sua família, bem como entre os demais chefes políticos e religiosos da praça carioca e os franceses, reinou, durante as negociações para o resgate da cidade (600 mil cruzados em ouro, 200 bois e 100 caixas de açúcar), uma tal cordialidade que hoje temos a impressão de que o episódio da invasão foi, na verdade, pretexto para que, no engenho jesuíta chamado Engenho Novo, se encontrassem os representantes de duas organizações mercantis, a fim de negociarem livremente a venda e compra de um próspero entreposto, situado à beira-mar”.
                                                 Denunciada a atuação do governador carioca às autoridades portuguesas, foi feita uma devassa por uma comissão vinda de Portugal que concluiu pela culpabilidade de Castro Morais no favorecimento a Duguay Trouin e na facilitação da invasão dos franceses.
                                                    Sua pena foi ser condenado a ‘queima em esfinge’, pena esta imposta na ocasião aos crimes das altas autoridades e de seus familiares.
                                               A dita pena consistia em confeccionar-se um boneco com as feições do condenado, tipo físico semelhante e vestido com roupas por ele usadas, ao qual era ateado fogo (como nas tradicionais malhações e queimas de judas, ainda comuns no Brasil durante a páscoa). Tratava-se, pois, de um simulacro de punição, para não pensarem que o crime compensava e que o criminoso saia sempre impune.
                                               Após a queima em esfinge, o ex governador foi enviado exilado para as Índias portuguesas, onde ficou por pouco tempo, e terminou seus dias em 1738, na cidade de Chaves, em Portugal.
                                                   Como mencionam alguns historiadores que se ocuparam do período, a corrupção generalizada nos altos postos da mais importante cidade do Brasil no século XVIII, acabou por convencer a coroa portuguesa da necessidade de dar mais atenção à sua colônia. 
                                             Outro episódio histórico, onde ficou bem claro a leniência das autoridades com muitos dos presos condenados, foi o da conhecida Conjuração Mineira ou Inconfidência Mineira.
                                                    Segundo o historiador Marcos Correia, como também na opinião do historiador maranhense Austregésilo Cerqueira Nunes, Tiradentes não teria morrido enforcado em 1792, como um dos principais responsáveis pela Inconfidência Mineira. A opinião dominante é a de que Tiradentes teria sido beneficiado por um dos juízes da Devassa, o poeta Cruz e Silva, que tinha sido amigo de muitos dos inconfidentes. De acordo com Correa, Tiradentes teria salvado a vida de Cruz e Silva, que, como ele, também era maçom. Um ladrão e bêbedo contumaz, preso na mesma ocasião, teria assumido a identidade de Tiradentes na forca em troca de dinheiro e de proteção à sua família. Ambos possuíam estatura parecida, estavam barbados, cabeludos e esfarrapados, podendo passar um pelo outro perante o público que assistiu ao enforcamento.
                                              Conforme as versões dominantes, Tiradentes teria, a seguir, sido banido para Angola, de onde seguiu posteriormente para Lisboa. Esteve em Paris em 1793. Segundo consta, existe, na Torre do Tombo, em Portugal, uma carta do desembargador Simão Sardinha, na qual este diz ter-se encontrado na Rua do Ouro, em dezembro de 1792, com alguém parecido com Tiradentes, a quem conhecera no Brasil, e que saiu correndo quando o viu. Tiradentes teria voltado ao Brasil em 1806, onde faleceu em 1818.
                                                De acordo com o que mencionam alguns historiadores, dentre estes Cerqueira Nunes, “entre os figurões coloniais da Inconfidência o próprio governador-general, Visconde de Barbacena, estaria envolvido até o pescoço na conspiração, motivo pelo qual teria demorado tanto para denunciar o complô ao vice-rei, seu próprio tio. O principal delator, Joaquim Silvério dos Reis, tio-avô do intrépido Duque de Caxias, estando endividado teria delatado os inconfidentes em troca do perdão da sua dívida”. A maçonaria, a qual muitos dos réus e juízes pertenceriam, teria obrado no sentido de abrandar e diminuir penas e absolver participantes da conjuração.
                                             Mais recentemente, os brasileiros foram surpreendidos com o episódio conhecido como Operação Lava a Jato, em que diversos políticos, empresários e executivos foram acusados de corrupção ativa e passiva e condenados em primeira instância, notadamente o ex presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, que foi considerado culpado e recorreu, em Segunda Instância, ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, em Porto Alegre. A sua condenação foi confirmada por este segundo tribunal, sendo a pena aumentada de 9 anos e meio para 12 anos e 1 mês.
                                                   Mencionaremos apenas este caso, por ser um dos que mais se destacou dentre todos os outros. Deixaremos de mencionar os milhares de outros casos de menor monta ocorridos em administrações federais, estaduais e municipais, ao longo das últimas décadas, em que os réus foram simplesmente absolvidos ou tiveram seus processos arquivados por falta de provas, por decurso de prazo ou por prescrição.
                                             A defesa do ex-presidente, no caso mencionado, chegou a protocolar cerca de 78 questionamentos judiciais no âmbito de um único processo, que acabou levando o ex presidente à condenação e a prisão, ainda, em segunda instância. Além deste processo, pelo qual foi condenado, Luiz Inácio Lula da Silva responde a mais oito outros processos.
                                                   O Supremo Tribunal Federal, no entanto, de forma casuística segundo especialistas em Direito Constitucional, mudou o entendimento do dispositivo constitucional que permitia a prisão do réu após condenado em segunda instância, por três vezes desde a Constituição de 1988; isto é, em 2009, 2016 e recentemente em 2019. Dos onze ministros que integram o STF, sete deles foram nomeados pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef, ambos do Partido dos Trabalhadores.
                                                    No mês de novembro de 2019, o STF decidiu derrubar a possibilidade de prisão em segunda instância, isto é, decidiu que a prisão do réu sem esgotar todos os recursos jurídicos seria inconstitucional. Por esta razão, Luiz Inácio Lula da Silva foi solto no dia seguinte ao da votação e responderá aos recursos, ainda possíveis no âmbito do processo em que figura como réu condenado, em liberdade. A decisão do supremo beneficiou com a liberdade, além de Lula, todos os demais condenados envolvidos na Operação Lava a Jato e já julgados, condenados e presos. Ademais disso, beneficiou, ainda, milhares de outros condenados presos em primeira e segunda instâncias, cujas condenações não tivessem transitado em julgado e ainda coubesse recursos ao STF.
                                                         Por outro lado, foram estabelecidos Acordos de Leniência, firmados entre o Ministério Público Federal e as empresas envolvidas em episódios de corrupção no âmbito da operação Lava a Jato. Segundo estes acordos as empresas devolveriam ao Estado parte dos recursos roubados. Tais valores, a serem devolvidos, foram considerados recordes mundiais em razão dos seus montantes. Os pactos firmados entre as partes deveriam ser submetidos aos juízos competentes para homologação. As empresas beneficiadas comprometiam-se a “prevenir a ocorrência de novos ilícitos e privilegiar, em grau máximo, a ética e a transparência na condução de seus negócios, a partir de então”.
                                                   Conforme ficou amplamente evidenciado neste texto, os leitores puderam perceber a contumaz leniência com que são tratados os casos de desvios de recursos públicos em nosso país, praticados pelas elites e por seus representantes, desde os tempos da sua descoberta em 22 de abril de 1500. 
                                                  Comparando as nossas penas com aquelas descritas por Dante Alighieri (1265-1321), em seu poema ‘A Divina Comédia’ (publicado pela primeira vez em 1555 e onde o poeta fornece uma descrição dos sofrimentos impostos, no Inferno, aos espíritos daqueles condenados por vícios, crimes e pecados, de muito menor monta que os que foram julgados e condenados no âmbito da nossa humana Operação Lava a Jato), podemos aquilatar como a nossa justiça tem sido tolerante e leniente com os membros da elite que, no dizer de muitos deles, apenas cometeram ‘malfeitos’; malfeitos estes, que, no entanto, a par de enriquecer suas respectivas contas correntes em paraísos fiscais, deixaram morrer à míngua milhares, senão milhões, de cidadãos brasileiros que alimentaram com seus impostos essa tradicional ‘farra do boi’, onde o personagem principal, o boi, após ser torturado, acaba por findar seus dias em espetos de churrasco, queimado de verdade e não apenas em esfinge...


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Defesa - ABD e do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos – CEBRES. 
_**/ Publicado pela Academia Brasileira de Defesa - ABD, em 06.02.2020