quinta-feira, 15 de março de 2018



180. Teríamos, de fato, sido feitos a imagem e semelhança do Criador?**

Jober Rocha*


                                          O recente inquérito motivado pela Operação Lava a Jato, no qual um ex-presidente, seus assessores mais chegados, empresários e políticos foram acusados de desvio de recursos públicos, concussão, lavagem de dinheiro, tráfico de divisas e outros crimes diversos (processo este em que quase todos os principais envolvidos negaram as suas participações nos atos criminosos, afirmando inexistirem provas materiais, a não serem, segundo eles, aquelas delações de alguns empresários objetivando redução de suas penas), me fez recordar episódios ocorridos há milênios, quando do surgimento dos primeiros escritos sobre a religião, escritos estes que teriam sido inspirados ou mesmo ditados pelos Deuses, segundo os seus propagadores sempre afirmaram.
                                                     Os réus de hoje, na Lava a Jato, declararam, através de seus advogados, que todas as acusações que lhes imputavam não passavam de suposições, de ilações, de vinganças pessoais partidas de inimigos políticos, de fraude processual, de perseguição dos membros do Judiciário e do Ministério Público, etc.
                                                       Os advogados dos réus desdobraram-se em argumentos, tentando salvar seus clientes de longos períodos de inatividade em presídios de segurança máxima no interior do país. Em que pesem todos os argumentos apresentados parece que eles, ainda, não conseguiram atingir seus objetivos; pois a Justiça tem caminhado, inexoravelmente, na direção da condenação dos réus em todas as instâncias. Os investigadores, os promotores de justiça e os juízes fizeram, ao que parece, um trabalho impecável, a luz de todo o aparato moderno existente para facilitar a apuração de crimes financeiros e dos chamados crimes de 'colarinhos brancos'.
                                                       Fiquei, pois, imaginando, como seriam os julgamentos, nos dias atuais, de nossos autores ancestrais dos chamados livros sagrados, caso fossem tornados réus pela prática de propaganda enganosa (Lei nº 8.078 de 11 de Setembro de 1990, que Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. § 1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2º É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança) e/ou falsidade ideológica (que é um tipo de fraude criminosa que consiste na adulteração de documento, público ou particular, com o fito de obter vantagem - para si ou para outrem - ou mesmo para prejudicar terceiro), caso isso pudesse ocorrer na atualidade (na hipótese de que conseguíssemos, através da tecnologia, regressar ao passado e trazer ao presente os nossos ancestrais redatores destes textos) e algum inquérito fosse instaurado por um rigoroso promotor de causas difusas, desejoso de apurar, em nome do Ministério Público, eventual prática de crime ou de ilícito penal por parte daqueles que redigiram os antigos textos religiosos, falando em nome de Deus e de Jesus sem autorização expressa destes; isto é, hipoteticamente, usurpando funções e se apropriando da imagens de terceiros, com possíveis finalidades de auferir poder e riqueza. 
                                                        Digo isto, por que muitas igrejas, na atualidade, transformaram-se em empresas, com o estabelecimento de metas de arrecadação de dinheiro dos fiéis por parte de seus pastores e sacerdotes. Hoje pela manhã li na imprensa a notícia de que uma determinada igreja havia sido condenada, judicialmente, a devolver tudo o que tinha recebido de um fiel, sob a acusação de coação moral irresistível e abuso de direito. O fiel teria sido coagido a doar seus bens, sob ameaça de receber uma maldição por parte da igreja, caso não o fizésse. 
                                                Será que as modernas técnicas de interrogatório; o avanço no uso da informática; a possibilidade atual do cruzamento de informações; o acesso instantâneo às fontes de dados primários e o conhecimento científico e tecnológico moderno, permitiriam, talvez, obter a confissão dos autores de textos antigos de que haviam mentido em alguns casos? Nesta hipótese, poderíamos chegar a conclusões diferentes daquelas a que chegaram os antigos pensadores religiosos, que instituíram as suas religiões com base em tais livros sagrados, supostamente influenciados ou psicografados por Deus? E o que diriam os fiéis que adotaram estas religiões, se os autores daqueles textos confessassem haver mentido?
                                                              Segundo consta nestes escritos mencionados, feitos todos por seres humanos, em inúmeras ocasiões de épocas remotas, Deus, supostamente, teria falado diretamente aos sacerdotes e aos líderes de vários povos. 
                                                              Isto teria, realmente, acontecido? Tais afirmações, contidas nestes textos, resistiriam a um inquérito judicial, igual aqueles que são realizados nos dias atuais?

                                                  O promotor de causas difusas mencionado, tendo estudado o caso e marcado o depoimento do réu, autor de algum destes textos, começaria por dizer:

                                                          - "Em Gênesis 1:26 -28, Deus teria dito: 
26 - “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra”.
27 – “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.
28 – “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”."

                                                             - "Poderia você, como o autor do Gênesis, provar que Deus, realmente, disse isso?" - perguntaria o inquiridor ao réu, cujo depoimento estava sendo tomado naquele momento.
                                                             - "Deus disse isso a quem, quando e de que forma? Em qual língua falou? Por que disse façamos? Estava Ele sozinho ou em presença de algum outro Deus, para dizer façamos? Qual a aparência física Dele? Descreva-o!"
                                                                   O réu, sem dúvida alguma, por melhor que fosse o seu advogado, não teria respostas para tais questionamentos. Caso tivesse, já as teria inserido no texto que escrevera há milênios.  
                                                             Seguindo adiante com a sua inquirição, o promotor lembraria ao réu:
                                                                 - "Por outro lado, as escrituras mencionam também o Caos (vazio primordial de caráter informe, ilimitado e indefinido, que precedeu e propiciou o nascimento de todos os seres e realidades do universo), que existiria antes de Deus criar o mundo". 

                                                                  A continuação, o inquiridor, inteligentemente, em tom acusatório, diria ao réu responsável pelo texto bíblico que conteria a afirmação acerca da existência do Caos: 

                                                           - "Você está mentindo! O Caos é impossível de ter existido aos olhos da razão, pois é impossível que tenha havido algo oposto ao Criador e às suas leis, que são eternas! Se antes houvesse o Caos, de onde teria surgido o Criador? Ou o Caos seria eterno ou o Criador é que seria, pois ambos não poderiam conviver juntos! Foi você mesmo quem criou esta ideia do Caos e quero saber com que objetivo?"
                                                                  Mais uma vez, réu e advogado não teriam como contestar o inquiridor e o réu, instruído por seu causídico, diria que só falaria em juízo, conforme lhe facultava a lei.

                                                            Ainda continuando com o interrogatório, o promotor mencionaria:

                                                               - "Por sua vez, a figura do demônio também é citada em vários textos do Novo Testamento (em Marcos, Mateus, Lucas, Tiago, João, Apocalipse, etc.), ademais de ser mencionado no velho (Deuteronômio)".
                                                                      O inquiridor (reunindo em separado todos os respectivos autores destes textos, considerados réus no mesmo processo, diria a mesma coisa a cada um deles, em particular), na presença do réu e de seu advogado falaria em tom acusador: 
                                                            - "Fique você sabendo que não acredito em nada daquilo que disse! Você estava tentando amedrontar o povo com alguma finalidade inconfessável, ao mencionar a existência do demônio! Estava tentando obter lucros fáceis? Buscava esconder do povo a verdade sobre algo muito grave que ocorrera no passado? Queria criar dificuldades para vender facilidades, através da intermediação que a sua igreja faria com o Criador para livrar os fiéis das garras do demônio, no inferno?"
                                                               - "Todos nós sabemos que a doutrina que trata da existência do Demônio colide, por principio, com a da existência de Deus. Efetivamente, a luz da Filosofia, Deus e o Demônio são potencias que se excluem mutuamente; isto é, que não podem coexistir simultaneamente. As relações mútuas a que se obrigaram, implicariam a destruição de um dos dois". 
                                                                      - "Esta incompatibilidade pode ser formulada através dos seguintes argumentos, que você deve saber muito bem e que escondeu dos seus leitores: 

1. Se Deus é o criador de tudo o que existe, deve ter sido, também, o criador do Demônio (ou pai do Demônio). Se o Demônio é criação de Deus (ou filho de Deus), indiscutivelmente, antes de ser criado estaria em Deus, participando de sua essência; o que impõe a conclusão de que Deus, o Eterno Bem, tenha em si a essência do Eterno Mal; 
2. Se o Demônio não foi criado por Deus, então, existe algo que Deus não criou e que ou foi criado por si mesmo (o que a tornaria igual a Deus) ou deve a sua criação a outrem; o que ainda força a existência de um Deus anterior (caso este em que se estabeleceria uma dualidade divina). Se existissem essas duas potências, elas ocupariam a totalidade do espaço e existiriam no mesmo lugar, uma penetraria a outra e isto é um absurdo".

                                                                - "Contra a criação do Demônio por Deus, há, ainda, os seguintes raciocínios, que, com certeza, você sabia muito bem e nada disse em seu texto: 

1. Deus seria incoerente porque conhecendo, pela sua omnisciência, o futuro de todas as criaturas, teria criado uma voltada, exclusivamente, para combater a sua obra; 
2. A doutrina católica de que Deus, antes de criar o universo da matéria, criou o mundo dos espíritos (destinados todos a louvarem, servirem e glorificarem seu Criador), impõe a seguinte conclusão: Se Deus precisa que o louvem, sirvam e glorifiquem, logicamente, é por que lhe falta alguma coisa e porque não tem em si tudo aquilo que precisa. Não há dúvida de que um Deus assim não é completo, sendo incompleto e imperfeito; 
3. No Capítulo XXI, v.27 do Apocalipse, encontra-se: “Nada de profano, nem ninguém que pratique abominações e mentiras, entrará no céu, mas, unicamente, aqueles cujos nomes estão inscritos no livro de vida do Cordeiro.” No Capítulo XII, v 7, 8 e 9, o Apocalipse se contradiz, ao afirmar que “Houve uma batalha no céu e Satanás, o Demônio, foi precipitado na terra com seus anjos”. "

                                                        - "Assim, o Demônio, por ser um contaminado da maldade, desde o principio (Primeira Epístola, João, III, 8), não podia estar no céu para dele ser precipitado. Consequentemente, a estória do Demônio é falsa e, como Satanás não existe, não existe também o inferno, que consiste em outra alegoria oriunda de antigas crenças. Antes de a Bíblia registrá-lo, já existia nas mitologias Persa, Indiana, Egípcia, Gaulesa, etc".

                                                             - "Acho melhor você confessar logo que mentiu e tentarmos chegar a um acordo. Se você disser as verdadeiras razões pelas quais tentou enganar seus leitores e quem o pagou para escrever o que escreveu, posso estudar uma redução de pena, uma eventual prisão domiciliar ou, até mesmo, o uso de tornozeleira eletrônica".

                                                                 Em outra etapa do interrogatório particular de alguns dos autores de textos antigos, o inquiridor diria a cada um dos réus, individualmente:

                                                        - "Relativamente ao seu texto que menciona a figura de Jesus Cristo como sendo Deus ou filho de Deus, hoje nós sabemos, segundo vários autores, que tudo não passou de uma criação dos antigos pensadores da Igreja de Roma (dentre os quais, certamente, você se destacava), instituída esta pelo Imperador Constantino no Concilio de Niceia, para justificar o fato de que, se os próprios imperadores romanos eram considerados deuses pelo povo, o principal personagem daquela nova religião (sendo criada pelo Império Romano, na ocasião) não poderia desfrutar de um status inferior. Você, com o seu texto, ajudou a criar e a difundir a notícia inverídica de que Jesus Cristo era Deus".

                                                          - "Voltaire, em seu 'Dicionário Filosófico', menciona o seguinte texto do abade de Tilladet:
“Os quatro evangelhos foram pouco conhecidos entre os romanos no tempo de Trajano e não andaram nas mãos do público antes dos últimos anos de Diocleciano. Os Socinianos rígidos (seguidores de Fausto Socino, falecido na Polônia, em 1604, que desenvolveu sua teologia inspirada em seu tio Lélio Socino, morto em 1562 em Zurique. A doutrina sociniana é antitrinitária e considera que em Deus há uma única pessoa e que Jesus de Nazaré é um homem) consideram, pois, os nossos quatro evangelhos como obras clandestinas, fabricadas cerca de um século depois de Jesus Cristo e cuidadosamente escondidas dos gentios durante o século seguinte”."

                                                                - "O Professor Bart D. Ehrman, Ph.D. em Teologia por Princeton e professor de estudos religiosos na Universidade da Carolina do Norte, afirma: “Com o desenvolvimento do Cristianismo, houve várias tentativas de explicar como Jesus podia ser divino, se havia um único Deus.Uma dessas tentativas (chamada patripassianísmo, por Tertuliano, ou sabelianísmo, por causa de Sabélio) diz que Deus pai e Deus filho não eram duas entidades, mas que Deus filho é Deus pai, quando este encarna. A outra era o arianismo, que afirmava que Jesus e Deus não eram da mesma substância, mas de substancias similares. Cristo passou a existir em determinado momento e, embora fosse divino, não era igual a Deus. A Trindade, é uma invenção cristã posterior, baseada segundo os argumentos de Atanásio e outros, em passagens das Escrituras, mas que na verdade não aparece em nenhum dos livros do Novo Testamento. Em três séculos, Jesus deixou de ser um profeta apocalíptico judeu para se tornar o próprio Deus, um membro da Trindade”." 
                                                             - "Em conformidade com F. Fernandes em “Jesus este ilustre desconhecido”, publicado em ‘Cristianismo’ e disponível em www.diariodeunsateus.net, encontramos: “Nem a Arqueologia, nem a História, nem o Antigo Testamento contém uma única referência ao personagem Jesus. Apenas o Novo Testamento fala nele. Nos documentos históricos contemporâneos, ou posteriores à época de Jesus, nunca se fala dele e apenas quatro historiadores o mencionam: Flávio Josefo, cujos escritos sobre Jesus concluiu-se ser uma falsificação grosseira, isto é, uma tentativa de fazer ‘colar’ o nome do historiador à prova existencial do suposto Jesus. Plínio, o Jovem, faz referência numa carta a Trajano em que fala, vagamente, que os cristãos “afirmavam que as culpas ou erros se redimiam no fato de encontrar o dia esperado antes da Alba, para cantar um hino a Cristo como se fora um deus…”. Suetonio (referindo-se a alguém que no ano 45, estava em Roma): “uma vez que os judeus fomentavam contínuos distúrbios instigados por Crestos, Claudio expulsou-os de Roma”. Crestos é a tradução do original latino Chrestus; nome derivado do grego Chrestos, que quer dizer – Bom, Valente -. Mais do que um erro de transcrição de Christus, este era um nome comum na época. Tácito cita algumas vezes os cristãos nos seus “Annales”, dizendo que estavam em Roma no tempo de Nero, entre 54 e 65, escrevendo que “Cristo foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério”. Estas são as passagens “não cristãs”, da antiguidade, que de alguma maneira referem-se a Jesus” ."

                                                                    - "Se as referências a Jesus, fora da Bíblia, são pouco críveis para um filho de Deus, dentro desta são contraditórias e inverídicas, segundo o comentário de F. Fernandes na obra já mencionada: “Relativamente ao seu nascimento, Mateus escreve que «nasceu em Belém, região da Judéia, no tempo em que Herodes era o rei do país…», enquanto Lucas escreve que «por aquele tempo o imperador Augusto ordenou que se fizesse um recenseamento em todo o mundo. Este primeiro recenseamento foi efetuado, sendo Cirenio governador de Síria». Uma vez que Herodes morreu no ano quatro antes da nossa Era, os relatos são temporalmente contraditórios. Nesse período não se registrou nenhum fenômeno atmosférico que possa ser interpretado como a estrela dos reis magos, nenhuma matança de crianças, nem nenhum recenseamento romano. Este último, pelo simples fato de que naquele tempo a Judéia não estava sob o domínio romano. Assim sendo, estes relatos não correspondem à verdade”. “Nos quatro evangelhos Jesus é chamado de Nazareno, mas só nos capítulos iniciais de Mateus e Lucas se conta sobre o seu nascimento e se situa o mesmo em Belém. Tal como sobre o nascimento, também sobre a morte de Jesus não dispomos de relatos criveis. O único dado que sabemos é que aconteceu “sob o reinado de Pôncio Pilatos”, entre o ano 26 e 36 depois da nossa Era. Não há registro dos, dificilmente esquecidos, prodígios que acompanharam a sua morte. É certamente falso que «desde o meio dia e até às três da tarde, toda aquela terra ficou às escuras», não poderia haver um eclipse do sol de três minutos e muito menos de três horas, durante o plenilúnio. Surpreendentemente, nenhum historiador da época parece ter-se apercebido que naquele momento «o céu se rasgou em dois de alto a baixo, a terra tremeu, as rochas se partiram, os túmulos se abriram e muitos homens de Deus que estavam mortos ressuscitaram»”." 

                                                            - "As contradições e as inverdades, conforme pode ser visto, são evidentes. Quero saber qual foi o seu objetivo ao divulgar estes fatos inverídicos naquela ocasião? Você estava a serviço de alguém ou de alguma instituição? Recebeu algum pagamento pelo texto que escreveu?" 

                                                             Mais uma vez, eu estou plenamente convencido de que os réus, instruídos pelos seus advogados, responderiam que só falariam em juízo, tentando ganhar tempo para imaginar respostas verossímeis, que fossem aceitáveis pelo inquiridor. Este, continuando seu interrogatório, diria, ademais, que: 

                                                                 - "A credibilidade dos evangelhos é tal, que apenas quatro deles são considerados canônicos e todos os outros são considerados apócrifos e rejeitados como inautênticos. Naturalmente em questões de cânon (regra) tudo é relativo; por exemplo: os livros do Antigo Testamento, os Macabeus, que atualmente a Igreja considera canônicos, são considerados não canônicos pelos próprios judeus e considerados apócrifos pelos protestantes, e a decisão definitiva sobre o cânon católico do Antigo Testamento não vai além de 1546, quando o Concílio de Trento estabeleceu a lista atual e declarou «anátema sobre quem não admita como sagrados e canônicos estes livros completos, com todas as suas partes, tal como são lidos na Igreja Católica»." 

                                                                       - "Tal fato não impede que a igreja Etíope admita, ainda, mais três livros como canônicos. Muitos dos evangelhos considerados apócrifos perderam-se, mas outros se conservaram e narram episódios completamente diferentes da vida de Jesus, da Virgem e dos apóstolos. Aqui a posição da Igreja varia entre uma clara aceitação de alguns documentos como oficiosos, e uma explícita recusa de outros, como oficialmente heréticos. Não deixa de ser curioso que o evangelho de Pedro, parcialmente encontrado em 1886, descreva a “paixão” de Cristo de maneira análoga à dos sinópticos, mas desde uma perspectiva política diversa, anti-judía e pró-Pilatos". 

                                                                  - "O que você tem a dizer sobre isto? Por que escolheram logo o seu evangelho, dentre tantos outros? Você pagou alguma coisa para alguém, objetivando incluir o seu texto entre aqueles considerados canônicos?"

                                                            Mais uma vez, o réu permaneceria em silêncio.
                                                                O inquiridor continuaria:


- "O Dr. Bart D. Ehrman, citado anteriormente, afirma em seu livro ‘Quem Jesus foi? Quem Jesus Não Foi?’: “O surgimento final da religião cristã representa uma invenção humana que, em termos de seu significado histórico e cultural, pode ser considerada a maior invenção da história da civilização ocidental”.

“Aquilo que consideramos cristianismo tradicional não caiu simplesmente do céu, pronto e plenamente desenvolvido, logo depois do ministério de Jesus. Nem emergiu direta e simplesmente de seus ensinamentos. Em muitos sentidos, aquilo que veio a ser o cristianismo representa uma série de distanciamentos bastante importantes dos ensinamentos de Jesus. O cristianismo, como há muito reconhecido pelos historiadores críticos, é uma religião sobre Jesus, não a religião de Jesus”."



                                                            - "Marcelo da Luz, em seu livro ‘Onde a Religião Termina?’, afirma: Nos séculos seguintes, os evangelhos divergentes foram destruídos para que a definição dada pelo Concílio de Niceia, no ano 325, fosse a única interpretação aceitável. Esses dados históricos mostram como a figura divina do Cristo é um produto, pouco a pouco, construído pelo fanatismo e interesse político-econômico de seus seguidores. Por outro lado, essa desconstrução pode ser feita a partir do conteúdo dos evangelhos, pois os ensinamentos e obras de Jesus apresentam muitas inconsistências. Ele foi sectário, obscuro em muitos momentos; usou discurso demagógico e populista; fomentou o fanatismo ao reclamar para si o amor exclusivo dos discípulos; foi ignorante quanto ao próprio parapsiquismo; utilizou muitas vezes a coerção psicológica para convencer os devotos (medo do inferno, proximidade do juízo final), insuflou a violência em alguns momentos; pregou o amor condicional (aqueles que não aceitam sua vontade serão condenados)..., isto só para citar alguns exemplos. Não há motivos racionais para que alguém considere Jesus divino ou o homem mais inteligente e brilhante que já existiu. Muito pelo contrário. Hoje, qualquer pessoa esclarecida pode ir muito além de Jesus Cristo. As pessoas têm medo de questionar a obscuridade e a irracionalidade das proposições dos evangelhos; porque fomos lavados cerebralmente, desde o berço, por uma cultura de base cristã”."
  

                                                              Queridos leitores, aqui, encerro o meu conto de ficção, pois sei que todos os réus, instruídos por seus advogados, alegarão prescrição, alegação esta que a justiça não poderá ignorar, deixando de considera-la.

                                                                     Quanto ao título do presente conto, tenho a dizer aos meus leitores que os seres humanos, na minha modesta opinião, jamais foram feitos a imagem do Criador, como em algum momento da História Humana alguém resolveu alardear, em um acesso de megalomania e de soberba. Até mesmo, porque ninguém sabe qual seria essa imagem, se é que o Criador possui alguma.
                                                                Por outro lado, também não somos a imagem do Criador, nem física nem espiritualmente, por sermos seres mortais, com corpos frágeis, sujeitos a incontáveis moléstias e enfermidades e portadores de uma imagem que, se em alguns casos pode ser considerada aceitável, em outros são totalmente bizarras e, até mesmo, disformes e monstruosas. Desta forma, nós, simples mortais,não poderíamos, jamais, sermos feitos a imagem de um ser imortal, necessário porém desconhecido. Espiritualmente também não somos a imagem do Criador em virtude dos nossos espíritos, em sua maioria, serem pouco evoluídos e dominados, na maior parte do tempo, pelos sentimentos viciosos (notadamente em razão da presença do EGO em nossa psique, que tudo quer para si mesmo); assim, jamais poderíamos possuir a imagem espiritual do Criador.
                                                         Relativamente a  alegada semelhança que teríamos com o Criador (no sentido de analogia, afinidade ou algo em comum), creio que esta foi uma tentativa dos pensadores religiosos antigos de alçar os seres humanos a uma categoria superior a das demais espécies conhecidas, embora todas elas tenham algo em comum com o Criador; isto é, a capacidade de gerarem outras vidas como aquela que receberam Dele. 
                                                     Ocorre, no entanto, que, recentemente, em razão dos contatos de primeiro, segundo e terceiro graus (muitos deles documentados com fotos e filmes), realizados com seres de outros mundos ou de outras dimensões, verificou-se que a imagem de algumas destas espécies (muito mais desenvolvidas cientifica e socialmente do que a nossa), embora antropomórfica, é bastante diferente de nós, humanos. Certamente, tais seres viverão vidas mais longas e estarão menos sujeitos a enfermidades e doenças do que nós, em razão do estágio tecnológico que já alcançaram. Espiritualmente, por serem mais avançados do que nós cientificamente (milhares ou milhões de anos, segundo ufólogos), também deverão ser mais avançados filosoficamente, pois Ciência e Filosofia costumam caminhar juntas. A semelhança deles com o Criador, neste caso, seria bem maior do que a nossa. 
                                                                     Quando estávamos sós no Universo podíamos nos gabar, alegando, falsamente, sermos a imagem e a semelhança do Criador; mas, agora, quando vemos outras espécies diferentes da nossa, mais evoluídas e que nos visitam com certa frequência, constatamos que a afirmação que fazíamos não passava de vanglória de seres ínfimos, habitantes de um planeta ínfimo, perdido na imensa vastidão do Universo.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Conto de ficção.

quinta-feira, 8 de março de 2018




179. Percam todas as esperanças, pois estamos no inferno...**


Jober Rocha*



                                        O título desta matéria me ocorreu ao ler a suposta entrevista do cidadão Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital - PCC, a um jornal brasileiro, há algum tempo atrás e divulgada recentemente nas redes sociais. Mesmo que não seja verdadeira esta entrevista, muito do que nela consta foi dito pelo Marcola a deputados brasileiros, na CPI do trafico de armas em 2006.                                                        
                                                     A citação original, que dá nome ao texto, é do poeta Dante em sua obra A Divina Comédia, quando diz: Lasciate ogna speranza voi che entrate!”(Deixai qualquer esperança, vós que entrais!). Marcola, ao citá-la na suposta entrevista que deu ao jornalista, demonstrou que, ademais de ser um profundo conhecedor da sociedade brasileira atual, possui, também, alguma leitura, podendo considerar-se, na verdade, um intelectual do crime.
                                                        Falando sobre a realidade presente brasileira, dentre os vários assuntos supostamente por ele abordados, destacou:

1. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema; 
2. Nós (os membros das facções criminosas que agem no país) somos o início tardio de vossa consciência social…;
3 ....e tudo isso (consertar o país) custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução; 
4. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso, a pós-miséria, gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas; 
5. Vocês representam o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós (as facções) temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio; 
6.  Vocês têm mania de humanismo. Nós (as facções) somos cruéis, sem piedade; 
7. O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao mês, e o governo ainda aumenta os gastos públicos empregando 40 mil picaretas;
8. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência;
9.  Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós (as facções) vivemos dele. 

                                                     A recente intervenção feita pelo governo federal no Estado do Rio de Janeiro é mais um fator indicativo a referendar as supostas declarações de Marcola. A realidade é que estamos todos no inferno, como ele bem destacou no início da sua suposta entrevista.                                                                 
                                                    Alguns Estados, como o Rio de Janeiro, todavia, estão mais próximos do centro do inferno do que outros.
                                                     Estamos no centro do inferno na Segurança Pública; na Saúde; nos Transportes; no Saneamento; nas Estradas; na Previdência Social; na Educação; no nível de emprego; na morosidade do Judiciário; na total ausência de planos e de diretrizes setoriais de longo prazo; etc. etc. etc.
                                                          A explicação para isto, em minha modesta maneira de ver a questão, é que nós, os brasileiros, tivemos um mau começo do qual jamais conseguimos nos desvincular. Na obra A Arte de Furtar, de escritor anônimo do século XVIII (atribuída ao padre Antônio Vieira), o roubo e o furto já eram contemplados em suas inúmeras variações. A obra foi oferecida ao rei de Portugal em 1744 e mencionava sobre como se roubava e furtava no Brasil colonial.
                                                       Por sua vez, o nosso mártir da Independência (segundo o que o escritor e pesquisador Assis Brasil afirma em sua obra ‘Tiradentes’), Joaquim José da Silva Xavier, não foi nenhum mártir. Sua morte foi uma encenação, tendo morrido em seu lugar o ator de circo Renzo Orsini. Tiradentes, por ser maçom, teria sido salvo pelas maçonarias portuguesa e brasileira, que o transferiram, inicialmente, para Angola e, posteriormente, para a França. 
                                                     O episódio da invasão francesa do Brasil, com a tomada da cidade do Rio de Janeiro pelo corsário Duguay-Trouin, em 1711, para vingar a morte de seu companheiro Duclerc que o precedera um ano antes, foi outro fato a desmerecer a nossa história, pois o governador da cidade na ocasião, Francisco de Castro Morais (segundo a opinião de alguns historiadores em troca de dinheiro), desguarneceu as fortalezas que protegiam o Rio de Janeiro, favorecendo o desembarque das tropas francesas. 
                                                        Os habitantes da cidade tiveram que pagar vultoso resgate aos franceses (610 mil cruzados, cem caixas de açúcar e duzentas cabeças de gado) e, mais tarde, o governador foi alvo de um inquérito instaurado pela coroa portuguesa, tendo sido condenado a ser queimado em esfinge (outra fraude da época, imaginada para beneficiar pessoas importantes que cometiam crimes. Faziam-se bonecos com a imagem dos condenados e ateava-se fogo aos bonecos, considerando-se, desta forma, que os réus tinham sido suficientemente punidos).
                                                        Assim a nossa história (com a qual a maioria do povo brasileiro não se identifica) tem consistido em um vasto mundo de mentiras e de subterfúgios, cujo verdadeiro enredo poucas pessoas conhecem. Digo que a maioria do povo não se identifica com a nossa história por que, desde a sua descoberta em 1500 até 1815, o nosso país pertencia a Portugal como colônia. De 1816 a 1822 passou a ser um reino unido ao de Portugal e Algarves, comandado de direito por D. João VI e de fato por seu filho D. Pedro I; o qual, a partir de 1822, transformou-se em imperador do Brasil, libertando o país, formalmente, de Portugal. Digo formalmente por que o nosso país continuava em mãos de portugueses e de uma mesma família.
                                                        D. Pedro I ficou até 1831, quando voltou para Portugal. Seu filho, Pedro II, assumiu em 1840 ficando até 1889, quando foi proclamada a república. Somente a partir de então é que os naturais do país passaram a ter influência nos destinos da nação, que o nosso país adquiriu autonomia e que os brasileiros conquistaram a sua soberania, passando a possuir uma história verdadeiramente brasileira.
                                                        Note-se que o povo dito brasileiro, até então, em sua maioria, era formado por portugueses e seus familiares, além de escravos africanos e seus descendentes.  
                                                    Nossa história, apenas a partir da Proclamação da República pode ser considerada como a verdadeira história do povo brasileiro. Até então, consistiu na história das nações indígenas que aqui viviam, na história da colonização portuguesa no Novo Mundo e na história dos povos africanos escravizados pelos portugueses. Os episódios históricos de violências, aqui ocorridos entre brancos contra brancos, neste período, foram travados entre os portugueses e os seus descendentes residentes no país, entre portugueses e franceses ou entre portugueses e holandeses.
                                                     Embora o sentimento de brasilidade tenha se fortalecido com a república, o fato é que, mesmo após a proclamação da mesma, a política no país continuou desvinculada dos interesses populares. Foram as famílias de latifundiários, produtores rurais e grandes comerciantes, importadores e exportadores, que, alçadas ao poder com a república, passaram a eleger seus apadrinhados e prepostos, com a missão de assegurar seus interesses e aumentar seus poderios econômicos. 
                                                      Desde então, até os dias atuais, tais grupos se alternam no poder, espoliando tudo aquilo que podem dos recursos nacionais gerados com o trabalho de todos os brasileiros.
                                                      Nos últimos trinta anos, todavia, a coisa tomou um rumo desproporcional; talvez, por que, pela primeira vez, pessoas originárias das classes mais pobres do país tiveram acesso ao comando do governo e ao Tesouro Nacional, levando o Brasil quase a bancarrota pelo excesso de ganância na apropriação privada dos recursos públicos.
                                                   Ocorre ainda (conforme supostamente bem diagnosticou Marcola) que os governos têm sido todos incompetentes, sinalizando, com isto, que a elite no poder não parece preocupada com a morte da ‘galinha dos ovos de ouro’. Talvez o volume de dinheiro já transferido para paraísos fiscais, pelas elites nacionais, seja suficiente para manter algumas de suas próximas gerações na ociosidade, razão pela qual não se preocupam mais com os destinos do país.
                                                    Por outro lado, talvez elas ganhem muito com o caos instalado, conforme o próprio Marcola ressaltou em sua fala, quando afirmou que “Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós (as facções) vivemos dele”; por isto, as elites nada fazem para solucionar os nossos óbices e, ao contrário, muito fazem para incentivá-los.
                                                    Ademais, conforme destacou o entrevistado, “não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência”. Essa autocrítica de que ele fala, no entanto, só teria sentido se os erros cometidos não fossem propositais, mas devidos a simples incompetência; o que não parece ser o caso. Aqui, conforme está sendo apurado em diversos  inquéritos policiais, a promulgação de decretos e de leis, lesivos a população, foi, em vários casos, negociada com empresários que teriam pago por tais dispositivos legais que os beneficiariam, deixando bem claro a separação entre a incompetência e a má fé. 
                                                          O que as elites brasileiras não demonstraram ainda ter se dado conta (e Marcola fez questão de destacar isto em sua entrevista, talvez em razão de alguma leitura que tenha feito acerca da Revolução Francesa de 1789), é que “vocês têm mania de humanismo. Nós (as facções) somos cruéis, sem piedade”. Na Revolução Francesa, quando o povo teve a oportunidade de se vingar de uma elite odiosa, milhares de cabeças elitizadas rolaram na recém criada guilhotina, de forma cruel e sem piedade como destacou Marcola com respeito às facções atuais.

                                                       Não consigo ser um brasileiro otimista, com a visão que possuo da nossa história pregressa e da nossa realidade atual. Chegamos a um ponto tal que, conforme destacou o entrevistado Marcola, consertar tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura do país. Assim, na ausência de uma verdadeira e drástica revolução cultural, moral e de costumes, que, infelizmente, sabemos impossível de ocorrer, sou obrigado a concordar com ele quando diz: - “Não há solução!”


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Ensaio.





terça-feira, 6 de março de 2018



178. Uma rápida conversa no céu dos escritores**


Jober Rocha*



                                   Não costumo recordar, na manhã seguinte, qualquer sonho que tenha tido na noite anterior. Acreditava, inclusive, que jamais sonhava. Em recente artigo científico que li, no entanto, fiquei sabendo que todos nós sempre sonhamos, mas, normalmente, não nos lembramos da maior parte dos sonhos que tivemos.
                                                       O que se passou comigo naquela noite, no entanto, foi muito mais do que um simples sonho. A coisa foi tão real que imagino ter tido mesmo uma dessas experiências extracorpóreas, de que muitos falam mas que somente poucos vivenciam.
                                                       Logo após haver deitado para dormir, vi-me situado em um local muito florido, como um enorme e belo jardim. Caminhando por suas alamedas cheguei a uma espécie de coreto, onde estavam comodamente sentadas diversas pessoas, todas com ares intelectualizados. Dentre elas pude reconhecer diversas, por já haver lido seus livros. Percebi, logo, tratar-se de em encontro de escritores famosos, embora nem todos fossem caracterizados como tal.
                                                       Aproximei-me silenciosamente e fiquei, durante um intervalo de tempo que não posso precisar a duração, ouvindo o que diziam. Antes, permitam-me mencionar quem eram alguns dos escritores presentes a este encontro: Victor Hugo (1802-1885), Alexandre Dumas (1802-1870), Marques de Sade (1740-1814), Honoré de Balzac (1799-1850), Manuel Maria Barbosa Du Bocage (1765-1805), Jean Genet (1910-1986) e Lucky Luciano (1897-1962).
                                                    Em primeiro lugar, notei que os escritores estavam todos desanimados; em segundo, que falavam em tom de crítica.
                                                Pelo que pude absorver de toda a conversa, cujo resumo eu transcrevo nestas páginas aos meus leitores, eles comparavam os seus dias de escritores com os dias atuais em que vivemos. 
                                                  Creio que daquele local em que nos achávamos (que acredito ser o céu, em virtude de ali se encontrarem reunidos homens de gênio, que deixaram um legado de obras magníficas que jamais deixarão de fazer sonhar leitores de todas as idades e de todos os locais do mundo, mesmo que a vida pessoal de alguns deles não seja considerada muito virtuosa, segundo nossos critérios humanos), eles podiam observar a vida na Terra; pois, da forma como falavam, eu pude perceber que todos estavam bem a par do que ocorria na atualidade, notadamente no Brasil que parecia ser o foco central de toda a conversação daqueles mestres escritores.
                                                         Victor Hugo lamentava-se com os demais: 
                                                      - Vejo meus romances empoeirados nas prateleiras das livrarias brasileiras. Infelizmente, minhas aventuras não estão à altura daquelas que vivem, diariamente, os leitores brasileiros ao saírem de suas casas para o trabalho. Ocorre que as aventuras que eles vivenciam, cotidianamente, são reais; enquanto aquelas que eu descrevi em minhas obras foram apenas fruto da imaginação. Não consigo competir com a realidade brasileira, sem dúvida, muito mais emocionante do que as aventuras descritas em Os Miseráveis ou em os Trabalhadores do Mar ou em Notre Dame de Paris - lamentou-se o escritor.
                                                         O Marques de Sade, tomando a palavra, disse: - Passei a vida toda em devassidões e libertinagens. Descrevi tudo aquilo, o que vivenciei de fato e o que imaginei em sonhos, em minhas obras que escandalizaram o mundo na época em que foram publicadas; mas, que, hoje em dia, conforme afirmou também o colega Victor Hugo, infelizmente, dormem nas prateleiras das livrarias brasileiras, sem ninguém que por elas se interesse. Uma simples novela de TV, no Brasil, possui mais pornografia e erotismo do que todas as minhas obras juntas.  Por sua vez, os 120 dias de Sodoma, O Marido Complacente e Os Crimes do Amor, são estórias infantis, face ao que é ensinado atualmente nas escolas brasileiras, acerca de sexo e de ideologia de gênero - finalizou o escritor libertino.
                                                     A seguir, falou rapidamente Bocage, mencionando que se sentia injustiçado em razão de algumas de suas poesias eróticas ou de baixo calão, acabarem por conduzi-lo à Prisão do Limoeiro, em Lisboa, e, posteriormente, ao Calabouço do Rossio: 
                                                   - Hoje, no Brasil, todos compõem musicas eróticas e de baixo calão, que são cantadas nas rádios, na TV e nos blocos carnavalescos e nada acontece com os seus autores; muito pelo contrário, são exaltados por aquilo que produzem enquanto eu passei anos encarcerado – exclamou o poeta.
                                                             A continuação, Lucky Luciano, o mafioso que se tornou escritor, tomou a palavra. Ele fora o autor da autobiografia “O Último Testamento’, na qual descrevia sua vida de mafioso nos Estados Unidos. Ele fora também o criador do Sindicato do Crime (Murder Inc.) naquele país, tendo criado, ainda, as Cinco Famílias do Crime.
                                                          Ele afirmou que se sentia como um simples menino travesso, ao contemplar os autos do processo conhecido como ‘Operação Lava a Jato’, que julgou e condenou diversos políticos e empresários brasileiros. Disse que jamais poderia imaginar tanta criatividade criminosa, como às que teve a oportunidade de ler nos autos do processo em questão: 
                                                  _ Nos últimos trinta anos, as livrarias brasileiras não venderam um único exemplar, que fosse, da minha autobiografia. Acompanhar o desenrolar do inquérito criminal conduzido por um juiz do Paraná, ao vivo, com episódios de lavagem internacional de dinheiro, extorsão, corrupção, tráfico de divisas, crimes de toda ordem, etc., foi, com toda certeza, muito mais emocionante para o público brasileiro do que ler malfeitos de simples imigrantes italianos, incultos como eu, tentando se estabelecer nos Estados Unidos - rosnou, com sua voz rouca, o escritor mafioso.
                                                       Jean Genet iniciou, logo a seguir, dizendo: 
                                                    - Tive inúmeras dificuldades, tanto de caráter econômico quanto policial, para montar e encenar minhas peças teatrais eróticas na França: O Balcão, Os Negros e os Biombos. As autoridades as proibiram, por serem consideradas imorais.
                                                 - No Brasil, vejo que muitas peças teatrais, sem nenhum conteúdo dramatúrgico importante, são montadas, apenas, para obter recursos gratuitos do governo. As autoridades brasileiras nem querem saber acerca do que se trata a peça; isto é, se são imorais, pornográficas, etc. Tudo pode ser levado ao palco no Brasil e ser visto por quem quer que seja, mesmo que sejam crianças. O que as autoridades desejam é ter os escritores e os artistas dependentes do Estado. Assim, eventuais criticas ao governante e ao partido no poder são abortadas ou minimizadas, com estes recursos gratuitos aos produtores e artistas – disse o escritor com lágrimas nos olhos, que enxugou com um lencinho rosa bordado.
                                                     Alguém, cujo nome não sei, pois jamais havia visto aquele rosto antes, disse bem alto: _ O Brasil real está quebrando todos os escritores de aventuras, de sobrenatural, de terror e de pornografia. Já ninguém mais compra livros destes autores, pois tais episódios acontecem ao vivo, nas ruas, becos, barracos, avenidas e palácios das principais cidades do país.
                                                           A conversa estava interessantíssima e ainda faltavam inúmeros participantes a expressarem seus pontos de vista, quando fui puxado para trás com força, como se tivesse uma corda amarrada na cintura. Vi-me caindo de costas e, subitamente, abri os olhos, percebendo que me encontrava deitado na cama.
                                                       Levantei ainda meio tonto, lavei o rosto e sentei-me ao computador para tentar descrever, da forma mais fiel possível, o sonho que havia tido ou, como disseram alguns amigos mais chegados que leram o texto antecipadamente, a experiência extra-corpórea que eu vivenciara naquela noite.
                                                     O Brasil, segundo parecia, era um verdadeiro Best Seller...

Nota do autor
Recente pesquisa realizada pelo IBOPE no corrente ano, denominada Retratos da Leitura no Brasil, em sua quarta edição, apresentou os seguintes dados e conclusões:

* O brasileiro lê, em média, 4,96 livros por ano;
* 74% da população não comprou nenhum livro nos últimos três meses;
* 30% dos entrevistados jamais comprou algum livro;
* As razões alegadas para não ler, foram: falta de tempo, não gostar de ler, não ter paciência para ler, não existir bibliotecas por perto, alto preço dos livros, falta de local apropriado para a leitura e não saber ler;
* A leitura ficou em décimo lugar no ranking da ocupação do tempo livre. Em primeiros lugares vieram a TV, a música, a internet, o encontro com os amigos, os filmes, etc;
* 50% dos professores não leram nenhum livro recentemente e 22% apenas leram a Bíblia.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Conto de Humor.




domingo, 4 de março de 2018


177. Em tempos de manipulação, como aprender a ler nas entrelinhas?**


 Jober Rocha*



                                           Nos dias atuais, certamente em razão de algum viés de ordem ideológica, muitos daqueles que se dedicam à atividade cotidiana de escrever e de divulgar textos sobre assuntos diversos, costumam ter o habito de preparar as suas matérias não de modo imparcial e atendo-se, apenas, aos fatos ocorridos, como deveria ser o correto; mas, sim, utilizando-se de palavras e frases tais, que estejam em comunhão com as suas posições pessoais ou que venham de encontro aos seus interesses políticos, objetivando, ao manipular a informação, favorecer pessoas e acontecimentos, meramente tendo em vista interesses ideológicos.
                                                            Tanto é assim, que alguém, no Facebook, já inventou a chamada caneta desesquerdizadora, que consiste em riscar determinadas palavras de algum texto publicado naquele local (texto este considerado de esquerda), substituindo-as por outras palavras de conotação direitista, palavras estas que, quase sempre, mudam completamente o sentido da matéria. Ainda não surgiu a caneta desesdireitadora, mas é só uma questão de tempo.
                                                  Explico-me melhor: se a ideologia de quem escreveu a matéria for de esquerda (ou de direita), o escritor costumará usar determinado vocabulário (ao narrar fatos e episódios em seus textos), que favoreçam os personagens envolvidos e os próprios pontos de vista ideológicos do escritor sobre o assunto, em conformidade com os interesses que defende. 
                                                       O leitor, ao invés de ter uma visão imparcial do fato ocorrido, terá uma visão parcial (dada por aquele que escreveu a matéria), visão esta que, dependendo de quem escreveu, poderá ser caracterizada como de esquerda ou de direita. Ambas servindo a interesses distintos daqueles do leitor comum, normalmente despolitizado.
                                                         Assim, por exemplo, em uma ocorrência de cunho criminal, o policial poderá ser denominado tanto como o agente da lei e da ordem, quanto como o agente da repressão ou como guarda pretoriana do regime, conforme a ideologia de quem escreveu o texto.
                                                          Nesta mesma ocorrência, um indivíduo que tenha sido preso poderá ser tratado na matéria apenas como suspeito; ou como um jovem estudante; ou um simples trabalhador ou, então, como um criminoso contumaz, um marginal e assaltante, oscilando de inocente a culpado somente em razão da ideologia ou do ponto de vista  de quem escreveu a matéria.
                                                              O político corrupto, envolvido em algum inquérito policial por desvio de recursos públicos, poderá ser tratado pelo escritor como um perseguido por razões políticas e falsamente acusado por aqueles que almejam seu cargo ou que querem dar um golpe na democracia. Também poderá ser chamado de corrupto, traidor da pátria e membro da quadrilha que se apossou do governo e do poder, dependendo da orientação política e ideológica de quem escreveu a matéria.
                                                         Entre essas duas maneiras de escrever, fica o leitor perdido e sem saber na posse de quem estaria a verdade que procura. A solução que quase sempre ocorre é a do leitor procurar ler, apenas, matérias escritas por aqueles que se alinhem com aquilo que ele mesmo já pensava sobre o assunto em pauta, dando crédito, assim, tão somente às matérias que vão de encontro ao seu próprio modo de ver a questão.  Com isto, na ausência do contraditório, o próprio leitor acaba por tornar-se tão parcial quanto o escritor.
                                                       Creio ser essa a explicação para o fato de inúmeros eleitores de determinados candidatos ou de determinados partidos, continuarem afirmando que neles continuarão votando, em que pesem os inquéritos policiais envolvendo seus nomes e as eventuais condenações que eles tenham recebido na justiça. 
                                                      Na atualidade, onde os vícios reinam soberanos nos templos e nos palácios e as virtudes se escondem nas masmorras e nas catacumbas; nesta época de governos mafiosos e manipuladores, realmente, fica muito difícil para nós, simples mortais, conhecermos a verdade sobre quaisquer assuntos; posto que, ela só é do conhecimento daqueles que a produzem e que, com freqüência, se encontram encastelados no poder, possuindo o arbítrio de decidir quais informações, e de que forma, serão divulgadas.
                                                            As redes sociais, que exploram o ambiente social de forma virtual, ao influenciarem o modo como as pessoas pensam e se comportam, sem disso se darem conta, possuem o poder de interferir no próprio funcionamento da democracia e na integridade das eleições. Os boatos inverídicos, as meias verdades e as manchetes tendenciosas, encontram, quase sempre, eco e são reproduzidas pelos internautas atingindo milhares, senão milhões, de indivíduos instantaneamente.
                                                   Em minha opinião cabe aos leitores descobrirem a verdade por conta própria. Em primeiro lugar, devem suspeitar de tudo aquilo que leem, sabendo, de antemão, que escritores (filósofos, cientistas, pensadores religiosos, escritores, jornalistas, etc.) possuem ideologia e costumam defendê-la e propagá-la em seus escritos. 
                                                  Em segundo lugar, devem ser ecléticos, no sentido de ter abertura para conhecer o novo, sem idéias pré-concebidas e sem preconceitos. O leitor deve abrir a sua visão para conhecer o máximo de coisas possível e, assim, selecionar aquilo que considera bom. Leitores desse tipo costumam ter uma grande bagagem de conhecimento, porque se permitem conhecer primeiro, para depois tirar as suas próprias conclusões. 
                                                             Em terceiro lugar devem perceber que para profissionais da escrita, muitas vezes, o que menos importa é o fato em si, mas, tão somente, a versão que podem dar ao mesmo.
                                                      Em quarto, devem saber que existem inúmeras organizações dedicadas à prática da contra-informação e a disseminação de informações falsas, objetivando desviar a atenção dos leitores de assuntos importantes sendo tramados (normalmente em benefício de pequenos grupos poderosos e em prejuízo das populações) ou fazer apologia de governos, de partidos políticos e de ideologias.
                                                           Em quinto, não devem acreditar nos resultados de pesquisas de opinião com objetivos eleitoreiros. Todas elas, de uma maneira geral, favorecem aqueles candidatos ou partidos que as encomendaram e que por elas pagaram.
                                                                Em sexto, devem estar cientes de que suas mentes e seus corações são avidamente disputados, diariamente, por uma multidão de pessoas e de organizações cujo único objetivo é o de influenciá-lo, quer para finalidades comerciais, políticas, religiosas ou ideológicas. Cabe a cada um perceber isto e saber evitar ou desvincular-se destas pessoas e destas organizações.
                                                             Dizem que o Criador escreve certo por linhas tortas. Da mesma forma, as suas criaturas devem, também, aprender a ler certo por linhas tortas...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


_**/ Ensaio.





sexta-feira, 2 de março de 2018


176. Você pode escrever tudo aquilo quer quiser, desde que não seja lido por ninguém...**


Jober Rocha*



                                      O assunto desta matéria me ocorreu hoje, pela manhã. Fala-se, frequentemente, na existência de censura na Mídia de um modo geral (Livros, jornais, WEB, etc). Muitos acreditam que ela exista na realidade; outros tantos são de opinião contrária.
                                                 É minha convicção que a censura literária existe, verdadeiramente, mas ela é seletiva e apenas alcança aqueles textos que ameaçam, de alguma forma, determinadas personalidades ou o ‘status quo’ dominante e tenham sido obras de escritores, jornalistas, etc., cujas expressões literárias possuam um razoável público de leitores assíduos; ou que, não sendo este o caso, o meio de que se utilizem para divulgar suas matérias alcance um público expressivo.
                                                   Escritores, jornalistas, críticos literários, cartunistas, etc., que não são lidos; ou seja, que não possuem um grande público cativo, ou que não alcancem muitos leitores, em razão da mídia de que se utilizem, tem a total liberdade de publicar àquilo que desejam, pois seus velados censores sabem bem sobre o destino que terá todo o material por eles produzido: acabará por descansar em estantes, dormirá em arquivos físicos ou digitais ou, simplesmente, perecerá esquecido nos cestos de lixo, de onde seguirá para as estações de tratamento de resíduos e reciclagem ou para os vazadouros  ao ar livre.  
                                                    Desde os tempos de Galileu Galilei e de Giordano Bruno a censura eclesiástica do Santo Ofício, através do Index Librorum Prohibitorum, impedia a divulgação de matérias controversas que ameaçassem as crenças vigentes e o poder temporal ou secular da igreja; mas, a mão pesada da inquisição costumava atingir, além daqueles considerados bruxos, tão somente, os autores que possuíam leitores (isto é, os sábios de notório saber, os professores de universidade, os filósofos famosos, os escritores reconhecidos, etc.). Ela não perdia seu tempo com aqueles escritores desconhecidos, que escreviam para si mesmo ou para seus poucos amigos mais chegados.
                                                     Por outro lado, a elite sempre teve acesso a tudo aquilo que era controverso e/ ou ameaçador; quem não podia tomar conhecimento destes assuntos era a massa ignara, o rebanho humano. Isto parece ter continuado, desde então, até os dias atuais.
                                                 Os meios de cerceamento mais comuns de censura, na atualidade, são as classificações por faixas etárias, as pressões, os assédios, as ameaças de demissões e os processos judiciais; podendo até, nos casos mais sensíveis e ameaçadores as personalidades da elite e ao ‘status quo’, chegar à violência física, ao sequestro, à tortura e à morte do autor ou do divulgador da matéria.
                                                    Segundo a professora e doutora Maria Cristina Castilho Costa, no artigo ‘Liberdade de Expressão e censura na atualidade', divulgado pelo Instituto Palavra Aberta, “o primeiro-ministro britânico David Cameron teria pedido ao jornal The Guardian a destruição de documentos confidenciais entregues ao periódico pelo ex-analista e ex-consultor de segurança da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o norte-americano Edward Snowden, hoje asilado na Rússia. Snowden foi acusado de fornecer detalhes do sistema de vigilância norte-americano aos jornais The Guardian e The Washington Post, razão pela qual fugiu dos Estados Unidos”.
                                                   O artigo 10 da Convenção Européia de Direitos Humanos garante amplo e irrestrito direito à liberdade de expressão, da mesma forma como ocorre na Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, quando diz:   

 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

                                                         No entanto, em que pesem estes marcos formais e legais, existentes na maioria dos países que se dizem democráticos, existem inúmeras formas de ultrapassá-los e que são adotadas por grande parte dos governos, ao estabelecem a censura velada por razões de ordem ideológica, política, religiosa, estratégica, militar, econômica, etc.
                                                   A implantação do comportamento politicamente correto, pelos governos de esquerda mundiais, de tendência centralizadora e estatizante, tem sido uma tentativa de estabelecer censura sobre determinados temas e assuntos; posto que, se trata de uma justificativa para a afirmação de valores doutrinários e ideológicos destes grupos de esquerda no poder. Busca-se, através disto, obter uma transvaloração de valores, já mencionada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
                                                           Na era digital, entretanto, quando grande parte daquilo que se lê vem através da WEB, fica mais fácil censurar na origem matérias que, muitas vezes, nem chegam a ser divulgadas ou disseminadas nas redes sociais. Outras vezes, os chamados "crimes contra a honra" são usados como um "instrumento político de intimidação" e cerceiam a liberdade de expressão na Mídia. 
                                                 Previstos na legislação atual do País, estes denominados ‘crimes contra a honra’ podem receber punição ainda mais grave se for aprovado, sem alterações, projeto de reforma do Código Penal em discussão no Senado. O projeto de reforma do código não só mantém os crimes, como duplica a pena, caso a vítima seja ocupante de cargo público (dos três poderes).
                                                     Por outro lado, segundo notícias da imprensa, estuda-se na Câmara propor uma mudança no marco civil da internet para facilitar a retirada das postagens ofensivas contra políticos em geral. Pela proposta, sites, provedores e portais terão cor-responsabilidade pelas publicações. Busca-se, desta forma, impedir eventuais denúncias contra os políticos.
                                                      Como os criminosos de colarinho branco, em nosso país, só podem ser presos depois de esgotados todos os recursos em todas as instâncias, situação esta que, muitas vezes, leva anos para ocorrer e acaba até por fazer o crime prescrever (em razão dos bons advogados que tais políticos possuem e do foro privilegiado que muitos detêm); caso seja mantida esta legislação, inibidora de críticas e de denúncias, não será mais permitida ao cidadão comum qualquer crítica à atuação de nossos políticos, aos malfeitos que praticaram, aos erros e aos crimes que cometeram; pois aqueles que o fizerem serão enquadrados como autores de crimes contra a honra (já que os políticos sempre negam os seus crimes e acabam não tendo a eventual condenação transitada em julgado), mantendo, assim, a ficha limpa.
                                                     A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem proferido diversas decisões determinando que os países sob sua jurisdição deixassem de criminalizar os casos de injúria, calunia e difamação contra funcionários públicos, notadamente políticos acusados de corrupção, mas suas decisões não costumam ser acatadas.



_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Crônica.