segunda-feira, 13 de novembro de 2017

149. A falácia da santidade nas religiões


Jober Rocha*


          O presente texto tem por objetivo evidenciar, com base na Filosofia e na Ciência, que a santidade, supostamente atribuída pelas religiões a alguns seres humanos, nada mais é do que uma falácia.
             Segundo os dicionários o termo falácia deriva do verbo latino 'fallere', que significa enganar. Designa-se por falácia, portanto, um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público, apesar de conterem falácias; mas não deixam de ser falsos por causa disso.
           O vocábulo santo, por sua vez, em conformidade com o dicionário mundial Wikipédia, teria vindo do termo latino 'sanctu' e trataria de tudo aquilo que fosse sagrado; ou seja, que estivesse conforme os preceitos religiosos e a divindade. Santidade, por conseqüência, seria a qualidade ou a virtude de ser santo.
                 Especificamente para a Igreja de Roma, santo seria todo aquele ser cujo espírito já estaria no céu, junto de Deus, aguardando a segunda vinda de Cristo. Aqueles indivíduos que a Igreja reconheceu como santos, através da canonização, teriam sido pessoas que, segundo ela, desempenharam uma obra admirável ou cuja vida serviria de exemplo aos demais cristãos. Na Igreja Ortodoxa e na Igreja Anglicana pessoas reconhecidas por virtudes especiais poderiam receber, também, o título de Santo; entretanto, a Igreja de Roma foi a que mais gerou santos na sua História. Na atualidade existem cerca de três mil santos oficialmente reconhecidos, embora o total geral daqueles que receberam este título, ao longo da história do cristianismo, seja desconhecido. 
            Só João Paulo II, em 25 anos de pontificado, chegou a proclamar 476 santos e 1.314 beatos. Esse título de santo denotaria, assim, que, além de um grande caráter, a pessoa estaria na graça de Deus. Ademais, a falta do reconhecimento formal do título não significaria, necessariamente, que o indivíduo não fosse classificado como um santo pela igreja, pois aqueles que não possuíssem o reconhecimento formal receberiam o título de santos anônimos.
                    Assim, a figura do santo passou a ser endeusada pelas igrejas, de um modo geral, fazendo com que inúmeros de seus mais ardorosos adeptos buscassem, a todo custo, atingir este status glorioso, seja mediante ações virtuosas em vida ou, até mesmo, submetendo-se a padecimentos e martírios, como inúmeros casos ocorridos ao longo da História. Uma possível explicação para este comportamento além da argumentação de que a santidade corresponde a uma falácia são fornecidas nas páginas que se seguem e suas origens remontam a antes do cristianismo existir como religião. 
               Todavia, ao iniciar a explanação da nossa tese, convém deixar claro que desde a mais remota antiguidade os seres humanos já tinham sido inoculados pelo vírus da curiosidade, do questionamento e da preocupação metafísica sobre a natureza humana, seus desejos e comportamentos. Esta não é, portanto, uma doença contemporânea.
            Nos tempos de Aristóteles já constituíam preocupações dos filósofos, descobrir e explicar por que os seres humanos agiam da forma como agiam, em busca da felicidade e do prazer.
                Pelo lado religioso, Sidarta Gautama (563 a.C – 483 a.C), fundador do Budismo, estudou as causas do sofrimento a as condições necessárias para eliminá-lo e atingir o Nirvana (estado de perfeita paz mental semelhante à santidade), que consistiria na liberação total do sofrimento e na aniquilação do desejo, fator que, segundo ele, gerava o sofrimento.
              Deixando a religião, provisoriamente, de lado e atendo-nos a Filosofia, encontramos que vários filósofos ao longo da História discorreram sobre o prazer e a felicidade e suas importâncias e conseqüências nas ações humanas. Muitas daquelas considerações foram, mais tarde, apropriadas pelo cristianismo e incorporadas às suas próprias crenças e liturgias.
              Na verdade tais idéias sobre prazer e felicidade tiveram grande importância para a origem da filosofia, bem como de várias religiões. Elas fizeram parte das primeiras reflexões filosóficas sobre Ética, que foram elaboradas na Grécia antiga. Muitos filósofos que discorreram sobre o assunto, desde aqueles tempos, possuíam pensamentos bem semelhantes, inclusive alguns deles coincidentes com os escritos de Sidarta Gautama.
                Demócrito de Abdera (460 a.C.- 370 a.C.) julgava que a felicidade era ‘a medida do prazer e a proporção da vida’. Para atingi-la, ‘o homem precisava deixar de lado as ilusões e os desejos e alcançar a serenidade’. A filosofia, segundo ele, ‘era o instrumento que possibilitava esse processo’.
              Sócrates (469 a.C.- 399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando que ela não se relacionava, apenas, à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para ele, o homem não era só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, ‘a felicidade era o bem da alma, que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa’. Para Sócrates, ‘sofrer uma injustiça era melhor do que praticá-la’.
             Antístenes (445 a.C.-  365 a.C.), seu discípulo, acrescentou um toque pessoal à ideia de felicidade do mestre, considerando que 'o homem feliz é o homem auto-suficiente'. A ideia de auto-suficiência continuou diretamente vinculada à de felicidade nos setecentos anos seguintes.
              O maior discípulo de Sócrates, que, efetivamente, levou a especulação filosófica adiante de onde a deixara seu mestre, foi Platão (427 a.C.- 347 a.C.), o qual considerava que 'todas as coisas têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtém a felicidade'.
                  Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) dedicou todo um livro à questão da felicidade: a ‘Ética a Nicômaco’ (que é o nome de seu filho, para quem o livro foi escrito). Amigo de Platão, mas, em suas próprias palavras, ‘mais amigo da verdade’, Aristóteles criticou o idealismo do mestre, reconhecendo a necessidade de elementos básicos como a boa saúde, a liberdade (em vez da escravidão) e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz.
                   Após Alexandre ‘O Grande’, no mundo grego, surgiram quatro principais escolas filosóficas buscando os caminhos da felicidade. Tais escolas iriam se estender até o fim do Império romano e propagavam as chamadas filosofias helenísticas.
                   Uma delas consistiu no Epicurismo, que se tratava de um sistema filosófico proposto pelo filósofo Epicuro (341 a.C - 271 a.C), conhecido como “Profeta do prazer e da amizade”, que pregava ‘a procura dos prazeres moderados, para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal, pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos’. Quando os desejos fossem exacerbados, segundo ele, 'poderiam ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade, que consistiria em manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito'.
                      Segundo Epicuro, 'para ser feliz seria necessário controlar os nossos medos e desejos, de maneira que o estado de prazer fosse estável e equilibrado, com um consequente estado de tranquilidade e de ausência de perturbação'.
                    A finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas bastante prática. Buscava, sobretudo, ‘encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte, estariam definitivamente eliminados’. Para isso, fundamentava-se em uma teoria do conhecimento empirista, em uma física atomista e na ética.
                    A ideia que Epicuro tinha era a de que, 'para ser feliz, o homem necessitava de três coisas: liberdade, amizade e tempo para filosofar'. 
                Epicuro defendia que 'nada estava além dos nossos sentidos e que não existiria nenhuma realidade que não poderia ser entendida com auxílio dos nossos cinco sentidos, princípio este denominado naturalismo radical'. 
                  Epicuro pregava, ainda, que 'os deuses existiam, mas não estavam preocupados conosco’. Se os deuses não se encarregavam de nosso destino, benção ou maldição; caberia a nós mesmos esta responsabilidade. A felicidade ou o sofrimento dependeria, portanto, das escolhas de cada um. 
                  Epicuro afirmava, também, 'a ideia da morte como sendo o nada’. A dor e o sofrimento residiam nas sensações, na vida como fardo; e se a morte era o total aniquilamento do viver, nada teríamos a temer. A lógica da sua filosofia era a de que, ‘se a vida e as sensações causavam o sofrimento do indivíduo, a morte existiria para cessar essas sensações. Portanto, era inadmissível imaginar que ocorreria sofrimento, pois a morte ocasionaria o extermínio das sensações’.
                 Para Epicuro, ‘o desejo se originava de uma falta, que podia partir da natureza (desejo natural) ou de uma opinião falsa (desejo frívolo)’. 
                Em sua época, e mesmo posteriormente, Epicuro possuía muitos discípulos e seguidores.
                Outra escola helenística foi o Estoicismo, que apresentava uma visão unificada do mundo, consistindo de uma lógica formal, uma física não dualista e uma ética naturalista.  Os estoicos enfatizavam a ética como o foco principal do conhecimento humano. O estoicismo ensinava o desenvolvimento do autocontrole e da firmeza, como um meio de superar emoções destrutivas. Defendia que ‘tornar-se um pensador claro e imparcial, possibilitava compreender a razão universal (logos)’. Um aspecto fundamental do estoicismo envolvia a melhoria da ética do indivíduo e de seu bem-estar moral: 'A virtude consistia em um desejo que estava de acordo com a natureza'. Este princípio também se aplicava ao contexto das relações interpessoais; ‘libertar-se da raiva, da inveja e do ciúme e aceitar, até mesmo, os escravos como iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza’.
                 A ética estoica defendia uma perspectiva determinista. Com relação àqueles que não tinham a virtude estoica, Cleanto, uma vez, opinou que o homem ímpio é ‘como um cão amarrado a uma carroça, obrigado a ir para onde ela vai’. Já um estoico virtuoso, por sua vez, alteraria a  vontade própria para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epiteto, ‘doente e ainda feliz; em perigo e ainda assim feliz; morrendo e ainda assim feliz; no exílio e feliz; na desgraça e feliz’; assim afirmando um desejo individual ‘completamente autônomo’ e, ao mesmo tempo, um universo que é ‘um todo rigidamente determinista’.
            O estoicismo acabou por tornar-se a filosofia mais popular entre as elites educadas do mundo helenístico e do Império Romano.
                      A outra escola consistia no Ceticismo, que era tanto uma escola de pensamento filosófico quanto um método que atravessava disciplinas e culturas. Muitos céticos examinavam criticamente os sistemas de significado de sua época, e este exame muitas vezes resultava em uma posição de dúvida. 
                   O cético era aquele que, insatisfeito com as irregularidades do mundo em que vivia, saia procurando explicações que o levassem a verdades sobre como entender e resolver estas irregularidades. De posse da verdade o cético esperaria alcançar, enfim, paz de espírito. Porém nenhum sistema filosófico que ele havia estudado tinha sido capaz de lhe proporcionar qualquer certeza absoluta sobre os objetos de estudo. Ainda por cima, para todo sistema dogmático que afirmava ter descoberto a verdade, havia sempre outro sistema dogmático, oposto ao primeiro e igualmente convincente (antilogia), que também dizia ter encontrado a verdade. Diante destas contradições e incertezas, e dada, até então, a impossibilidade de alcançar uma explicação absolutamente verdadeira, o cético decidia-se por suspender seus juízos sobre o que quer que fosse, encontrando, com isso, a paz de espírito, que antes ele esperava alcançar através da posse da verdade. 
                 Outra destas escolas era o Cinismo. Para os cínicos, ‘o propósito da vida era viver na virtude, de acordo com a Natureza’.
               O cinismo se espalhou durante a ascensão do Império Romano, no século I, quase se tornando um movimento de massas, e, assim, os cínicos eram encontrados pedindo dinheiro e pregando ao longo das cidades do império. A doutrina finalmente desapareceu no final do século V, embora alguns afirmem que o cristianismo primitivo adotou muitas de suas idéias ascéticas e retóricas.  
                 Por volta do século XIX, a ênfase sobre os aspectos negativos da filosofia cínica levou ao entendimento moderno de cinismo, ou seja, significar uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas, e como uma caracterização de pessoas que desprezam as convenções sociais. Para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e convenções, os cínicos, de então, empreenderam uma cruzada de escárnio anti-social e assim demonstrar as frivolidades da vida social. 
                O cinismo foi uma das filosofias mais marcantes de toda a filosofia helenística. O cinismo oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em uma época de incertezas. Embora nunca tenha havido uma doutrina cínica oficial, os princípios fundamentais do cinismo podem ser resumidos da seguinte forma: 

1. O objetivo da vida era a felicidade e a clareza ou lucidez - significando libertação da nebulosidade, que, por sua vez, significava ignorância, inconsciência, insensatez e presunção.
2. A arrogância era causada por falsos julgamentos de valor, que causavam emoções negativas, desejos não naturais e um caráter vicioso.
3. O desenvolvimento humano dependia de auto-suficiência e indiferença para com as vicissitudes da vida 
4. Evoluía-se através de práticas ascéticas que ajudavam o indivíduo a tornar-se livre de influências - tais como riqueza, fama ou poder - que não tinham valor na natureza. 
5. A sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.
                Assim, um cínico não tinha bens e rejeitava todos os valores convencionais de dinheiro, fama, poder ou reputação. Viver de acordo com a Natureza requeria, apenas, as necessidades básicas para a existência e qualquer um poderia tornar-se livre, ao libertar-se de todas as necessidades resultantes das convenções.  

                Vê-se, portanto, que tanto o povo quanto a elite do império romano já dispunham de conceitos filosóficos orientadores de seus pensamentos, conceitos estes que mesclavam com crenças religiosas sobre deuses, espíritos e demônios.
               Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu do horizonte da filosofia. Estando relacionada à vida do homem neste mundo, ela não interessou aos filósofos cristãos como Agostinho de Hipona (354 d.C.- 430 d.C.), mais conhecido como Santo Agostinho; Anselmo de Canterbury (1033 - 1109) ou Tomás de Aquino (1225 - 1274), todos eles tornados santos pela Igreja católica. Para a filosofia cristã, mais do que a felicidade, o que contava era a salvação da alma (que, implicitamente e sem que a primitiva psicologia se apercebesse, tratava da futura felicidade do espírito).
         Alguns filósofos voltaram a se debruçar sobre o tema na Idade Moderna. John Locke (1632 - 1704) e Leibniz (1646 - 1716), na virada dos séculos XVII e XVIII, identificaram a felicidade com o prazer, um ‘prazer duradouro’. Algumas décadas depois, o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724 - 1804), na obra ‘Crítica da Razão Prática’ definiu a felicidade como ‘a condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade’.
           Constata-se, assim, que a felicidade e o prazer sempre foram objetivos humanos, a nortearem as ações dos indivíduos durante suas existências e constituíram fonte inesgotável de ocupação do tempo dos filósofos, desde o início da Filosofia.
          Ainda buscando as origens das ações humanas que conduziriam à felicidade ou à infelicidade, através do campo da Ciência, o médico e psicanalista Sigmund Freud (1856-1939) estabeleceu o Princípio do Prazer, que, traduzido em outras palavras, seria  o desejo de gratificação imediata que acompanharia todos os indivíduos em suas ações. Tal desejo conduziria o ser humano a buscar o prazer e a evitar a dor, mais ou menos na mesma linha de raciocínio de alguns filósofos.  
             O Princípio de Prazer, por ele estabelecido, opor-se-ia ao Princípio de Realidade, que se caracterizaria pelo adiamento da gratificação do prazer. O Principio da Realidade faria parte do amadurecimento normal do indivíduo, ao aprender a suportar a dor e adiar a gratificação do prazer. Ao fazer isso, ele passaria a reger-se menos pelo Princípio do Prazer e mais pelo Principio da Realidade, embora, subjacente aos seus atos reinasse o prazer.
              Em sua atuação clínica, segundo seus biógrafos, Freud chegou à conclusão de que a mente funcionava de modo a alcançar o prazer e evitar o desprazer. Assim, se por último lugar o psiquismo buscava eliminar excitações, por primeiro lugar almejava alcançar prazer. Logo, a sensação de prazer era a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significava descarga de excitações. 

            Em http://psicanaliseclinica.com/principio-do-prazer-freud/ encontramos que, 

         ‘Segundo a Teoria da Personalidade de Freud, o Princípio do Prazer é o que guia o Id. Isso quer dizer que o Id é sua força propulsora. Sabemos que o que o Id busca é a satisfação imediata dos impulsos humanos, que podem ter caráter de desejo ou de necessidade primária. Sendo o princípio do prazer a força motriz do Id, podemos concluir que ele tem como único objetivo satisfazer nossos impulsos primitivos. Esses podem ser o impulso da fome, o da raiva ou o sexual’.
          ‘Lembremo-nos que para Freud o Id é a parte psíquica da mente humana que trata de desejos biológicos, presente desde o nascimento. Assim, da mesma forma como pode ser considerado a origem das mais intensas motivações humanas, é a instância mental que tende a permanecer mais enterrada no campo inconsciente’.
           ‘Basta perceber como agem os indivíduos na primeira infância. Nessa fase, o Id comanda o indivíduo. Isso quer dizer que quem guia as ações infantis é o Princípio do Prazer, orientando-as sempre no sentido de satisfazer suas necessidades básicas. As crianças menores tendem a exigir a satisfação de suas necessidades, como fome, sono e desejos variados. E o fazem sem levar em consideração o local e o momento. Isso porque nelas não se encontra desenvolvido o Ego que, por sua vez, é guiado pelo Princípio da Realidade’.
         ‘Enquanto o Id é guiado pelo princípio de prazer, o Ego é guiado pelo Princípio da Realidade. Sua principal função é satisfazer o máximo possível os desejos do Id, mas de uma forma socialmente adequada ditada pelo Superego. Nesse sentido, o Princípio da Realidade se opõe ao Princípio do Prazer. Mas não para anulá-lo. Sua função segue no sentido de mediar os impulsos do Id para que eles sejam satisfeitos de acordo com os princípios morais da realidade social’.
         ‘O Princípio da Realidade se desenvolve, assim como o Ego, a partir do amadurecimento da personalidade e da vida em sociedade. Os aspectos culturais dizem muito, portanto, do conteúdo que preencherá o Ego, ainda que sua função seja fixa’.
              ‘O Ego, regido pelo princípio da realidade, está preocupado em evitar o perigo e adaptar o indivíduo à realidade e ao comportamento civilizado. Freud destaca, ainda, que o nível pré-consciente também é regido pelo Princípio da Realidade’ 
             ‘É bastante provável que o Princípio do Prazer entre em conflito com a atividade consciente da psique. Isso porque ela se preocupa constantemente em evitar o perigo e garantir a adaptação do indivíduo no mundo exterior’.
            ‘Quando a mente é dominada pelo Principio do Prazer, que pode ser entendido aqui como a busca da satisfação de desejos, somos levados a agir de forma estritamente impulsiva. Sabemos que as ações impulsivas desprezam regras e, em consequência, não obedecem a nenhuma lógica’.
              ‘Podemos dizer, então, que o Princípio da Realidade racionaliza os impulsos arcaicos do Princípio do Prazer, de forma a delimitar, a partir de regras culturais, quais desses impulsos podem ser satisfeitos, quando podem e onde são aceitáveis’.
           ‘Freud conclui, portanto, que todo o pensamento humano é, por um lado, conflito e, por outro, compromisso entre o sistema pré-consciente (Princípio da Realidade) e inconsciente (Princípio do Prazer)’.

                Em sua obra ‘O Fenômeno Religioso sob a leitura da Psicanálise Freudiana’, Caroline Gonzaga Torres, menciona que: 

              ‘Freud nos diz que existe algo mais nos agrupamentos humanos e que forças psíquicas mais poderosas atuam no sentido de manterem as pessoas unidas. Na análise da Igreja, Freud (1921/1996) cita o líder como figura idealizada pelo grupo, tendo capacidade de proteger e castigar. Os membros do grupo o colocam no lugar de ideal do eu, possibilitando a identificação, entre si, através do ideal que é comum a todos. O ideal do eu se desenvolve como uma instância de referência. Freud (1921/1996) a observa como uma formação separada do eu, que torna possível a fascinação amorosa e a submissão à figura de um líder, quando este é colocado pelo sujeito no lugar de ideal de eu. Sendo assim, é o líder-herói que dá ao grupo a sua identidade e suas feições, imprimindo a sua referência, assemelhando-se, também, à figura paterna. Considerando que o fenômeno religioso se organiza de forma tal a possibilitar um agrupamento de pessoas, permitindo, assim, relacionamentos entre os homens, Freud (1929/1996), no texto ‘O Mal-Estar na Civilização’, apresenta sua concepção da condição humana, que busca felicidade e prazer ainda que esteja em contradição com as restrições impostas pela cultura, partindo de uma análise acerca da religiosidade’.

             Como assinala Freud, os adeptos religiosos veem o seu líder como àquele com capacidade para proteger ou castigar, segundo as ações de cada um, e o colocam no lugar de ideal do eu, tornando possível a fascinação amorosa e a submissão à figura do líder, assemelhando-o a figura paterna. Todos os verdadeiros crentes almejariam, pois, em busca do prazer e da felicidade sem limites, estar eternamente ao lado do ‘pai celestial’, objetivo este que só  alcançariam mediante a santidade. Outras religiões conduzem seus adeptos a pensarem da mesma forma; isto é, a desejarem, após o final da existência, estar em um lugar agradável, tranqüilo, felizes, ao lado dos entes queridos e das divindades. Os próprios indígenas norte-americanos, em suas concepções metafísicas do após a morte, afirmavam que, ao deixarem esta vida, iriam para os felizes campos de caça do além, onde viveriam com fartura de tudo aquilo que necessitavam.
         O raciocínio errado, no que respeita a santidade, que caracterizaria a falácia mencionada no título deste texto, trata das ações direcionadas ao objetivo santidade, por parte dos adeptos religiosos, e sobre as razões que, teoricamente, as motivariam. Relativamente às ações do adepto necessárias ao alcance do grau de santidade, segundo a Igreja de Roma, ‘o candidato deveria demonstrar que praticava, de forma heroica e continuada, as virtudes da fé; além de ter, pelo menos, um milagre a ele atribuído’.
            Por virtudes da fé, se entende as chamadas Virtudes Teologais, definidas pela igreja como a fé, a esperança e a caridade. 
            Por Fé, a igreja entende ‘a virtude pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou e que a santa igreja nos propõe para acreditarmos, por que Ele é a própria verdade. Pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus; e, por isso, o crente, procura conhecer e fazer a vontade de Deus’.
               Por Esperança a igreja entende ‘a virtude pela qual desejamos o reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo’. 
             Por Caridade a igreja entende que esta virtude ‘assegura e purifica a nossa capacidade humana de amar e eleva-a a perfeição sobrenatural do amor divino. A caridade é benevolente e, conforme afirma a igreja, suscita a reciprocidade’.

               Com respeito à necessidade de atribuição de um milagre, ao candidato a santidade, destacamos um texto do filósofo e escritor Jean Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, que, em seu ‘Dicionário Filosófico’, escrito no ano de 1764, afirmava:
             - ‘Segundo as ideias aceitas, os milagres seriam violações das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Mediante essa exposição, o milagre seria uma contradição; já que uma lei não pode ser violada’. Voltaire afirmava, ademais: - ‘Deus nada pode fazer sem razão, sendo impossível conceber que a natureza divina trabalhasse para algum homem, em particular, em detrimento dos outros; constituindo-se a mais absurda das loucuras, imaginarmos que o Ser Infinito invertesse, em favor de alguns, o movimento dessas imensas molas que fazem mover o Universo inteiro. Assim, ousar supor que Deus realiza milagres é realmente insultá-lo (se é que os homens podem insultar a Deus), e desonrar de certo modo a divindade’. Voltaire citava, ainda, que, ao perguntarem a um filósofo o que diria se visse o sol deter sua marcha e os mortos ressuscitarem, o filósofo teria respondido: - ‘Tornar-me-ia Maniqueísta e diria que existe um principio que desfaz o que o outro fez’.

           O filósofo Baruch Spinoza (1632-1677), também a respeito de milagres, afirmava: - ‘Contra a natureza, ou acima da natureza, o milagre não passa de absurdo e Deus era mais bem conhecido graças à ordem e à necessidade da natureza do que por pretensos milagres’.
                Evidentemente, quando estão envolvidos crentes fervorosos, sacerdotes devotos e autoridades religiosas que possuem interesses mercadológicos na divulgação de milagres, objetivando a expansão da fé e a aquisição de novos adeptos, os milagres dos postulantes a santidade, eventualmente relatados, acabam sendo, quase sempre, confirmados.
                Relativamente às razões que, consciente ou inconscientemente, motivariam os adeptos religiosos a almejarem atingir a santidade, todos os crentes, inclusive a própria Igreja de Roma, imaginam que permeiam, na mente e na alma dos candidatos, ideais de bondade, de sacrifício pessoal, de aceitação do sofrimento, de caridade, etc. O que quase ninguém consegue imaginar é que, muitos destes postulantes ao grau de santidade, podem estar agindo, inconscientemente, por puro prazer do Id e em busca da felicidade própria, em uma postura estritamente pessoal e egoísta; fato este que deve ocorrer com bastante freqüência segundo as inúmeras considerações, de ordem filosófica e científica, já mencionadas no início do texto.
            Mesmo ao se tecerem considerações de ordem religiosa, vemos que no próprio Budismo, criado por Sidarta Gautama, o que se objetiva com a prática deste é atingir o nirvana e, a partir de então, não mais encarnar. Ora, por que não mais encarnar? Por que não continuar, em encarnações seguintes e sucessivas, seguir auxiliando e ajudando inúmeros outros espíritos encarnados, pouco evoluídos, que continuam sofrendo neste planeta de expiação? Por puro egoísmo cada um só pensa em si, desejando atingir o mais breve possível o estagio que lhe permitiria deixar para trás o sofrimento de uma encarnação e, a partir de então, não mais encarnar e passar a privar da companhia do Criador e dos demais espíritos iluminados. Ocorre que a decisão de encarnar ou não é tomada do outro lado da fronteira entre a vida e a morte. Aquilo que, aqui, se imagina como o estado de santidade ou o nirvana, pode não ser considerado como tal do outro lado.
                                                   Muitos papas, cardeais e demais sacerdotes foram canonizados pela igreja, ao longo de sua história, e cronistas da época e historiadores possuem sobre eles uma imagem totalmente oposta àquela que a Igreja de Roma divulga com respeito a eles. Os seres humanos são entes políticos e os interesses econômicos, financeiros, políticos e estratégicos se sobrepõem aos demais.
                A santidade e o estado de nirvana, coisas semelhantes, não são buscados, portanto, por grande parte dos adeptos do cristianismo, do budismo e de outras religiões, com finalidades especificamente altruístas, mas, sim, com finalidades simplesmente egoístas, quase sempre de forma inconsciente e sem disso se darem conta. Todos os seres almejam a felicidade e os prazeres. Àqueles que não os conseguem nesta existência, sejam quais forem às razões ou motivos, restaria ainda, em um derradeiro esforço, alcançá-los após a morte, no reino dos céus e junto ao Criador de todas as coisas. Para tanto, far-se-ia necessário um comportamento virtuoso ou algum ato de sacrifício extremo ou martírio. Esta é a minha tese. Por detrás de todo indivíduo religioso que apresenta comportamento virtuoso e ascético, certamente, esconde-se os desejos de felicidade e de prazer eternos, em uma vida futura. 
               Quem acompanhou meu raciocínio, desde o início, percebeu que a própria Igreja de Roma, criada pelo imperador Constantino durante o Concilio de Niceia, absorveu muito da filosofia grega e de religiões mais antigas, como o Mitraísmo, o Zoroastrismo e o culto egípcio de Ísis, Horus e Ozíres. Os seus primeiros adeptos trouxeram, para a nova religião, recém criada, pensamentos e crenças comuns a estas filosofias e religiões mais antigas já mencionadas. 
           O referido Concílio de Niceia, promovido pelo Imperador Romano Constantino, no ano de 325 d.C., estabeleceu as bases da futura Religião Católica Apostólica Romana (até então inexistente e que somente foi criada, de forma oficial, em 381 d.C, durante o Concílio de Constantinopla), selecionando os textos que passariam a compor o denominado Novo Testamento, que teve a sua origem baseada na figura mitológica de Jesus Cristo a quem foi, proposital e posteriormente, imputada uma natureza divina, segundo pensam diversos pesquisadores iguais a mim. 
              As discussões que se seguiram ao Concilio de Niceia, sobre a deidade ou não de Jesus Cristo, tiveram sua origem em um simples fato: todos os imperadores romanos, durante o período em que o império adotara o politeísmo, eram proclamados deuses e possuíam estatuas, que eram veneradas pelos súditos do império. Por conseqüência, ao proibir o politeísmo e implantar o monoteísmo, como poderia o representante máximo daquela nova religião sendo construída por Constantino, Jesus Cristo, não ser, também, um Deus? Assim, nos concílios que se seguiram, inúmeras arestas foram sendo aparadas, contradições desfeitas e opiniões pessoais inseridas na liturgia como sendo manifestações divinas. Com o passar do tempo, tudo aquilo que tomou a forma de decisões humanas, fruto de acaloradas discussões (muitas vezes violentas, com agressões e mortes entre sacerdotes adeptos de correntes distintas), passou a ser considerado como sagrado e incorporado a liturgia da Igreja de Roma. 
                  Entretanto, para que Jesus fosse considerado Deus, havia, ainda, um problema adicional, importante, que necessitava ser solucionado: como fazer com o pai, a mãe, o irmão, os primos, os tios e os avos de Jesus (de Deus); em suma, com toda a sua família? Seriam eles também considerados Deuses? 
                      Se assim fosse, eles deveriam ser considerados, após a morte de Jesus (de Deus), a linhagem familiar deste Deus e, forçosamente, deveriam ser, por isso mesmo, os sucessores, por direito humano e divino, daquela nova igreja que o Império Romano (através de seu imperador Constantino) estava criando, o que, evidentemente, jamais ocorreu. 
                       Para retirar da família de Jesus (de Deus) o direito de sucessão da Igreja de Roma, sendo naquela ocasião criada, e transferi-lo para os sacerdotes a serem nomeados e comandados pelos imperadores, segundo os interesses da elite romana, os pais biológicos de Jesus não poderiam ser considerados Deuses, nem seus irmãos, primos, sobrinhos e tios, e, por via de conseqüência, quaisquer outros familiares, parentes e descendentes. 
                     A forma encontrada para não permitir que, tendo Jesus já falecido, o direito e os poderes para sucedê-lo, como representante e ‘Pontifex Maximus’ (Sumo Pontífice) da nova religião criada por Constantino, fossem transmitidos para seus familiares, foi uma engenhosa criação da inseminação divina de sua mãe; exemplo este que não chegou a ser original, pois foi tomado emprestado de religiões mais antigas e da própria mitologia grega, que já relatava a união carnal de Deuses com seres humanos, união esta que dava origem aos Heróis. 
                      Inúmeras semelhanças existem entre o Deus Jesus e os Deuses de outras raças e de outras culturas, mais antigas que o Cristianismo. As principais semelhanças encontradas seriam as seguintes: 
                     Mitra foi um Deus persa que nasceu de uma virgem, em 25 de dezembro (mesma data do nascimento de Jesus), há mil e duzentos anos antes de Cristo, possuía doze discípulos (mesmo número dos discípulos de Jesus), realizava milagres (como Jesus) e ressuscitou três dias depois da sua morte (da mesma forma que Jesus). 
                     Horus foi um Deus egípcio que nasceu de uma virgem, em 25 de dezembro, há três mil anos antes de Cristo, possuía doze discípulos, fazia milagres e ressuscitou três dias após a sua morte (tudo como Jesus).
                Átis foi um Deus da Frigia, nascido de uma virgem, em 25 de dezembro, morreu crucificado e ressuscitou três dias após a sua morte (tudo como Jesus) 
                    Krishna foi um Deus indiano, nascido de uma virgem há novecentos anos antes de cristo, realizava milagres e ressuscitou após a sua morte (como Jesus) 
                   Dionísio foi um Deus grego, nascido de uma virgem, em 25 de dezembro, quinhentos anos antes de cristo, fazia milagres e ressuscitou após a sua morte (como Jesus). 
                  Entretanto, para aquela nova religião que estava sendo criada, ainda restava o equacionamento de um problema crucial; ou seja, se Jesus Cristo era Deus e filho de Deus, como poderiam coexistir dois Deuses em uma religião, reconhecidamente, Monoteísta? 
                  A solução encontrada pelas elites romanas e pelos pensadores da Igreja, novamente engenhosa, foi a de criar um Espírito, de natureza santa, que uniria os dois Deuses transformando-os em um único Deus. Note-se que este espírito, de natureza santa, não sendo um terceiro Deus, teria poderes para unir dois Deuses, superiores espiritualmente a ele; o que também seria, no mínimo, uma nova contradição. 
                      Se o espírito santo fosse considerado um terceiro Deus, estaríamos em presença de três Deuses querendo se transformar em um único, o que seria, no mínimo, uma infantilidade divina. 
                     Se não estávamos em presença de um terceiro Deus, por que dois Deuses, que tudo podem, necessitariam de um espírito santo, de ordem inferior a deles, para os unirem em um único Deus? Mais uma vez, vê-se que se tratava, apenas, de tentar resolver a contradição surgida pelo fato de ter sido forçada uma divindade para a figura humana de Jesus.
                 Constata-se, pois, que, inteligentemente e com base nos conhecimentos disponíveis naquela época, as autoridades romanas e os sacerdotes da nova religião procuraram criar uma estória factível, utilizando, no entanto, similitudes com outras religiões mais antigas e buscando eliminar, com base nos conhecimentos científicos reduzidos da época, todas as eventuais contradições existentes nos fundamentos desta nova religião, contradições estas que, aos poucos, foram se apresentando. 
                  Estes são relatos históricos, disponíveis nas bibliotecas mundiais para todos aqueles que, por se interessarem pelo Império Romano e pela história da edificação da Igreja de Roma, se dispõem a passar horas, dias, semanas e meses, pesquisando a literatura existente sobre o assunto. As Histórias de outras religiões espalhadas pelo mundo, certamente, possuirão gêneses semelhantes; posto que, todas elas constituem criações humanas, mesmo que difiram em liturgia, em Deuses e em escrituras (contendo as suas origens e explicações).
               Em sua tese de doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco, cujo título é ‘A Crítica da Religião em Marx: 1840-1846’, Romero Junior Venâncio Silva, destaca como primeiro aprendizado fundamental com os textos de Marx, a partir de 1840, que: “Toda religião, qualquer religião que possamos imaginar, é uma realidade situada num contexto humano específico: um espaço geográfico, um momento histórico e um meio ambiente social concreto e determinado. Uma consequência obvia: toda religião é sempre uma invenção de seres humanos em determinado momento histórico. Uma religião que não seja de determinados seres humanos é algo inexistente, uma pura fantasia da imaginação”.
                 No que respeita a motivação dos fiéis desta nova religião romana para a santidade, podemos ver que prevaleciam entre o povo e as elites, na ocasião da criação daquela nova igreja, as teses das escolas helenistas mencionadas, quais sejam: o Epicurismo, o Estoicismo, o Ceticismo e o Cinismo. Neste contexto, buscava-se a paz de espírito, a felicidade, o prazer, evitar os sofrimentos e as dores, uma vida virtuosa em meio à natureza, uma vida baseada na Ética, a compreensão da razão universal, o bem estar moral, um estado de tranqüilidade e a ausência de perturbações. Tudo isto era buscado de forma egoística, cada um apenas preocupado consigo mesmo. O adepto do cristianismo continuou buscando as mesmas coisas; porém, a nova crença imprimiu uma modificação substancial e mais apelativa, ao consciente e ao inconsciente do homem daquela época.
                    Os homens simples, em sua maioria, incultos e súditos ou escravos do império, buscavam a felicidade e o prazer efêmeros; posto que, estes vigorariam, apenas, durante aquelas suas existências terrenas, já que eles não acreditavam que houvesse a continuação da vida após a morte.
                    A proposta de Jesus, de uma vida após a morte, no Reino dos Céus e ao lado do Criador de Todas as Coisas, trouxe novo alento àquela gente sofredora, além da esperança de novos prazeres e maiores felicidades; só que, agora, esses prazeres e esta felicidade seriam eternos. O apelo foi grande demais e tornou-se irresistível. Após vencer a resistência de algumas autoridades romanas, que viam os judeus e os cristãos como rebeldes, contrários ao império, a nova religião tomou conta de todo o império romano como a religião oficial, estendendo-se, ainda, a outros povos bárbaros e nações distantes.
                    Não nos iludamos, pois, mesmo nestes novos tempos, os seres humanos continuavam sendo como sempre foram; isto é, adeptos do prazer e da felicidade e contrários a dor e ao sofrimento. Neste contexto, segundo penso, a qualificação de santos somente poderia ser atribuída aos indivíduos que fossem adeptos do oposto, isto é, do sofrimento e das dores e contrários ao prazer e a felicidade, o que, convenhamos, não é uma característica comum encontrada entre os integrantes de nenhum dos povos ou nações do nosso planeta Terra, a não ser naqueles poucos casos patológicos estudados pela Psiquiatria.
                      Mesmo aqueles primeiros cristãos que se sacrificaram ou foram conduzidos ao martírio, conforme a História relata, com toda certeza o fizeram pela crença de uma vida melhor, eterna e cheia de prazeres e felicidade, no Reino dos Céus e ao lado do Criador de Todas as Coisas. Tanto é assim, que caminhavam felizes para a morte, certos dos prazeres e da felicidade eterna. O mesmo, na atualidade, ocorre com os fanáticos islâmicos que, conduzindo explosivos atados ao corpo, explodem-se no meio de uma multidão de pessoas, Confiando na promessa de disporem de 72 virgens ao chegarem ao paraíso.  O paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, conforme se pode ver no Alcorão:
“E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (…) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos.” Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
O mesmo ocorreu, durante a Segunda Grande Guerra, com os pilotos Camicases japoneses, budistas em sua maioria, que se suicidavam pela pátria em busca de recompensas em uma vida futura.
                       Em todos estes casos, os participantes estavam convencidos de que desfrutariam uma vida de prazeres e felicidades em outro plano de existência, em razão dos atos de coragem e de desprendimento que haviam praticado. Estavam convencidos de que a divindade criadora reconheceria e premiaria aqueles seus atos.
                Vê-se, portanto, conforme bem salientou Freud, que os seres humanos sempre foram orientados pelo Principio do Prazer, principio este que busca a satisfação de desejos internos, presentes ou futuros, e, neste afã, são levados a agir de forma estritamente impulsiva, desprezando regras e sem obedecer a nenhuma lógica, como faziam os cristãos primitivos, ao caminharem rezando, tranquilamente, para serem jogados às feras ou queimados vivos.
                   No mundo moderno, a aplicação do Principio da Realidade, pelo Ego, mascara o Principio do Prazer, que rege o Id. Assim, muitos indivíduos tidos como santos, em razão dos seus procedimentos virtuosos, apenas estariam fazendo uso do Principio da Realidade para satisfazerem os prazeres presentes e futuros do Id. Suas formas de agir e seus procedimentos não possuiriam, conscientemente, aquela conotação de desprendimento, de solidariedade, de sacrifício pessoal em prol de seus semelhantes, agindo de forma desinteressada e sem a necessidade de qualquer reconhecimento, agradecimento ou glorificação; mas, inconscientemente, seriam todas aquelas ações consideradas os meios necessários para alcançar o prazer presente (e também a futura felicidade eterna) do Id, sabendo que estes seriam, segundo as suas crenças religiosas, atos do agrado do Criador.
                   A grande dúvida, que alguns leitores poderão apresentar diz respeito à existência de Id, Ego e Superego no plano espiritual. Nos meios espiritualistas, de uma forma geral, o espírito serve de sinônimo para consciência desencarnada ou consciência extra-física. Se esta consciência continua existindo no plano etéreo, existirá também o inconsciente; portanto, Id, Ego e Superego são três características intrínsecas do consciente e do inconsciente, que, em resumo, representariam aquilo que todos nós somos e sempre seremos em nosso psiquismo, quer quando encarnados, quer quando desencarnados. Ademais, as religiões cristãs pregam a existência de céu, inferno e purgatório. O espiritismo e outras religiões espiritualistas mencionam a existência de bons e de maus espíritos, tudo como aqui no planeta Terra; logo, Id, Ego e Superego, com certeza, são características psíquicas presentes em todas as almas e em todos os espíritos.


Só a título de curiosidade, em 1590, Rudolf Goclenius já se referia a Psicologia como a Ciência da Alma. Em 1879 a Psicologia separou-se da Filosofia, da qual, até então, fazia parte. Os argumentos daqueles que pretendem que a Psicologia deixe de ser o estudo da alma e passe a ser a ciência do comportamento humano biológico, centrado no cérebro e que pode ser manipulado e controlado pela Ciência, não me convencem.
Um destes argumentos é o de que seria impossível que os ateus, os agnósticos e outros descrentes, que negassem a existência de algo além do corpo (espírito), pudessem ser psicólogos; pois, seriam psicólogos admitindo essa entidade que controla o comportamento, ou não poderiam ser ateus ou agnósticos.
A este fraco argumento, eu responderia como respondeu Galileu Galilei, depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição:  E pur si muove (mas, no entanto, ela se move).

                       - Me fiz compreender? - como gostava de dizer Friedrich Nietzsche.





Literatura Consultada

1. Aggio, Juliana O. Prazer e desejo em Aristóteles. USP, Depto. de Filosofia. Tese de Doutorado em Filosofia. SP. 2011.

2. Careguato, Marta. O conceito de prazer em Epicuro e sua relação com a Phronesis. bempensarparabemviver.blogspot.com.br

3. Psicanálise Clinica. Principio do Prazer e da Realidade para Freud. lttp://psicanaliseclinica.com

4. Rocha, Jober. A Curva do Destino. Editora Iglu. SP. 2011.

5. ___________. Filosofando com Humor. Editora Biblioteca 24 horas. SP. 2012.

6. ___________. Os Descendentes de Jesus Cristo. Inédito. RJ. 2016.

7. Silva, Romero J.V. A crítica da religião em Marx: 1840-1846. Univ. Fed. de Pernambuco. Tese de Doutorado. PE.

8. Torres, Caroline G. A perspectiva Freudiana sobre o fenômeno religioso. Revista de Psicologia. Fortaleza. V 3, Nº1,Jan/Jun 2012.CE.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sábado, 4 de novembro de 2017



148. A Geração dos Correspondentes de Guerra


Jober Rocha*


                 Todas as sociedades sentem necessidade da Literatura. Através dela os indivíduos que as compõem aprendem, se informam, passeiam pelo espaço físico e pelo tempo, enfim, se abstraem da vida comum e enfadonha que levam em suas medíocres existências.
                               Em nosso país, nos dias atuais, noto que a Literatura dos escritores está sendo substituída pela dos jornalistas. Muito poucos leitores acompanham os lançamentos literários dos escritores nacionais. Livrarias estão cerrando suas portas. O sonho e a ficção, produzidos pelas mentes dos escritores, estão sendo substituídos pela dura realidade do dia a dia nas grandes cidades, descritas pelos jornalistas.
                             As notícias que atualmente mobilizam a nossa sociedade são aquelas que dizem respeito à violência urbana dos assaltos, dos enfrentamentos, dos combates entre as forças da lei e os traficantes de drogas, das denúncias envolvendo políticos e empresários no desvio de recursos e no superfaturamento de obras públicas.
                              O crime e a corrupção, generalizados pelo território nacional, transformaram o nosso país em uma zona de guerra, de onde os escritores se retiraram e cederam seus lugares aos jornalistas, correspondentes de guerra.
                        Ficou difícil para aqueles ter a paz de espírito necessária para dar vazão à imaginação criativa, de modo a produzir grandes e belas obras literárias, em um cenário de guerra e de devastação moral e de costumes, como o que estamos vivendo.
                           O mais fácil, para quem gosta de escrever, é transformar-se em um jornalista do cotidiano, verdadeiro correspondente de guerra preocupado, apenas, em informar sobre o desenrolar diário dos combates e sobre a ação policial e da justiça, em sua ânsia de tentar conter a sanha criminosa de uma multidão de marginais, seja nos morros e na periferia dos miseráveis, seja nas capitais (inclusive a federal) e nos gabinetes e palácios dos poderosos. 
                           Para que a população amedrontada não busque outras terras, como refugiados de guerra, insere-se na Mídia muita notícia sobre esportes, sobre seitas, sobre futilidades (como filmes, novelas, mexericos e fofocas sobre artistas), tentando mostrar que a vida segue normal e que as instituições ainda funcionam com certa tranqüilidade. Em suma, tentam mostrar que ainda “reina a paz em todo o Território Nacional”.
                        A crise econômica, o desemprego, os baixos salários, o alto custo dos livros, por sua vez, também desestimulam a oferta e a demanda literária. Quem ganha pouco não compra livros como fonte de lazer e de instrução. Quem vive daquilo que escreve, não encontrando público leitor para suas obras, fica desestimulado e reduz seu ritmo ou, até, mesmo, busca outra atividade para se manter. 
                         Os poucos escritores que continuam escrevendo são aqueles que possuem fonte de renda própria e não dependem da profissão de escritor; em suma, escrevem porque gostam e porque não conseguem reprimir a imaginação criativa, tendo que extravasá-la. Muitos, embora brasileiros, vivem e moram no exterior onde encontram a paz de espírito para produzirem suas obras, vindo aqui apenas para divulgá-las.
                      Resta, pois, aos profissionais da escrita transformarem-se em verdadeiros correspondentes de guerra, escrevendo sobre o seu cotidiano de violência; seja sob a forma de pequenos textos e de crônicas na internet, no facebook ou na imprensa.
                    Assim, vê-se uma profusão de textos diários sobre crimes vários; prisão de traficantes; mortes de policiais; desvios de recursos; delações premiadas; declarações de políticos, de advogados e de autoridades negando crimes e acusações, etc.
                         Estas são as matérias que absorvem o tempo daqueles que o possuem para ler, não restando, pois, oportunidades para a Literatura do sonho, da ficção e da abstração produzidas pelos verdadeiros literatos; já que, a dura e crua realidade da vida veio absorver a atenção e todo o tempo disponível dos leitores.
                     Estando, pois, a sociedade brasileira vivendo uma situação de guerra não declarada e não assumida por nossas autoridades que, em razão de seus interesses próprios, afirmam e reafirmam a normalidade democrática e o funcionamento normal das instituições, proliferam no Teatro de Guerra Nacional os correspondentes de guerra, jornalistas e profissionais da escrita encarregados de transmitir às populações sitiadas em suas residências (gradeadas, muradas e cercadas de arames farpados), as notícias sobre o desenrolar dos combates, as ações das forças da lei e da ordem e as reações apresentadas pelo crime organizado ou não.
                      Enquanto isso, os amantes da Literatura, sonham com dias melhores e com aqueles famosos cavaleiros cantados em prosa e verso, tão comuns na era medieval, que libertavam os povos oprimidos da tirania, dos crimes e dos maus governantes. 

_*/ Economista, Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 15 de outubro de 2017



147. Declarações que poderão ser dadas à Imprensa por aqueles políticos eventualmente envolvidos em escândalos de desvio de dinheiro público


Jober Rocha*


Acompanhando o desenrolar dos acontecimentos relativos ao denominado escândalo da Operação Lava a Jato, quando um ex-diretor, um ex-gerente de empresa estatal e um doleiro, sob o manto da delação premiada, denunciaram empreiteiros, políticos e membros do executivo envolvidos em um mega esquema de desvio de dinheiro público, cujo objetivo era comprar corações e mentes na câmara e no senado (não se trata de erro de digitação; coloquei em letras minúsculas mesmo!), além de enriquecer seus patrimônios pessoais; chamou-me a atenção as contestações apresentadas por alguns desses políticos denunciados e a simples negativa de outros em responder a perguntas, quando entrevistados pela imprensa. 
                         Os políticos que, eventualmente, fazem alguma declaração afirmam sempre serem mentirosas as acusações que pesam sobre eles, muito embora, dentre as regras da delação premiada, os delatores devam apresentar provas daquilo que denunciam - e, certamente, eles as apresentaram.
Lembrei-me logo das antigas entrevistas concedidas por um ex-governador paulista, quando jornalistas lhe perguntaram sobre suas contas na Ilha Jersey (uma das ilhas do Canal da Mancha para onde ele havia transferido, segundo acusações que lhe fazia o Ministério Público, o dinheiro de propinas arrecadado em obras públicas realizadas quando à frente do governo paulista e naquela ilha depositado, louvando-se no sigilo bancário daquele paraíso fiscal). Dizia o referido político para a Mídia: - Desafio que provem que aquele dinheiro é meu! Quem conseguir provar pode ficar com ele para si! (Ao fazer esta declaração ele sabia que os banqueiros de Jersey não forneceriam, jamais, o nome dos titulares das contas ali existentes).
Como sei que nossos atuais políticos atualmente acusados na Lava a Jato (bem como aqueles que ainda virão a ser, com o decorrer do processo), tal qual o ex-governador paulista, jamais serão réus confessos, apresento, a seguir, onze desculpas que, convenientemente decoradas, poderão ajudá-los durante suas entrevistas na mídia, ao desembarcar em aeroportos ou comparecer a inaugurações e demais eventos de natureza política.

                   Sugestões de declarações que poderão ser dadas em momentos críticos:

1. Meus caros amigos jornalistas, eu jamais recebi qualquer centavo das mãos daqueles que ora me acusam. Vivi durante toda a minha vida de maneira monástica nas montanhas do Tibete e cheguei ao país apenas ontem. Não sei de nada sobre este assunto Lava a Jato. Eu nem tenho carro e ando sempre a pé. Vim ao Brasil, apenas, para realizar uma palestra sobre levitação, destinada aos monges brasileiros. Por favor, me deem licença que estou muito cansado da longa viagem!

2. Desafio a estes delatores que hoje me acusam, a mostrar uma única nota de real com a minha impressão digital gravada. Isto é uma mentira que assacam contra a minha pessoa e, estejam certos, vou processar aqueles que me denigrem na Corte Internacional de Haia, pois, infelizmente, não confio na justiça brasileira, sempre parcial e tendenciosa!

3. Prezados jornalistas, sou deputado há várias legislaturas e já consegui, desde muito tempo atrás, formar meu imenso patrimônio pessoal. Eu não teria mais necessidade, hoje em dia, de entrar em um esquema de corrupção milionário como este, que pouco acrescentaria ao meu patrimônio já bilionário!

4. Meus caros senhores jornalistas, são absolutamente inverídicas estas acusações que me atribuem estes delatores. Minha imensa fortuna foi conseguida tanto no setor energético, quanto através de advocacia administrativa junto aos bancos oficiais. Todos os projetos do interesse de amigos do executivo e de empresários, que propus e aprovei no legislativo, tiveram por objetivo, tão somente, poder indicar parentes meus para cargos de direção na administração pública e jamais foram motivados por dinheiro. Quando muito podem me acusar de nepotismo, mas não de corrupção!

5. Depois destas denúncias, prometo que jamais me candidatarei novamente a um cargo eletivo. Estou enojado destes promotores, delegados e juízes, que, em um simulacro de Inquisição moderna, só pensam em colocar na fogueira aqueles que pensam de maneira diferente da deles e possuem outras convicções de ordem moral e ideológica. Considero-me um segundo Sócrates, assassinado moralmente pela elite judiciária dominante!

6. A posteridade, certamente, me dará razão. Segundo os filósofos e os economistas clássicos, se você não sabe cuidar do seu dinheiro, deixe outro que o saiba se apropriar dele e multiplicá-lo em benefício da coletividade. Foi simplesmente o que fiz durante meus mandatos. Isto não é um reconhecimento de culpa da minha parte, mas, apenas, uma afirmação de caráter filosófico, que faço com base nos pensadores antigos!

7. Estas denúncias, que os delatores fizeram a meu respeito, nada mais são do que um grande complô armado contra a nossa Democracia e engendrado pelos conspiradores Illuminatis, contando com o apoio da Maçonaria, abençoado pelo Vaticano, financiado pelos USA e contando com a ajuda de alguns extraterrestres infiltrados em nossa justiça e na Polícia Federal!

8. Pensem bem, meus caros jornalistas, e raciocinem comigo simplesmente com base na lógica formal: Se eu houvesse ganhado esta montanha de dinheiro de que me acusam os delatores, vocês não acham que eu teria comprado todos os policiais, promotores e juízes deste caso e meu nome nem apareceria no processo, como sempre ocorreu em nosso país em casos semelhantes? Logo, não é verdadeira a acusação que me fazem, pois meu nome ainda está lá no processo judicial e, até mesmo, com destaque!

9. Fazendo uma autocrítica sobre o meu mandato, encontrei um único motivo relevante para que os delatores pudessem envolver meu nome nas denúncias: votei contra o projeto de casamento entre homo-afetivos submetido à câmara com pedido de destaque. Não sei não, mas aqueles delatores que me acusaram, flagrados sempre aos cochichos com os policiais e com os promotores, pelos cantos escuros das delegacias, me parecem que jogam no time contrário ao meu...

10. Denúncias como estas de que me acusam já ocorreram no pretérito e nunca foram apuradas ou sequer tiveram qualquer corolário. Nossos suspicazes promotores e juízes não se deixarão embair ou esbulhar por qualquer rufião leviano que, intempestivamente, levante, a sorrelfa, alguma aleivosia malévola acerca da altivez, decência e apreço de doutos políticos pátrios como eu!

11. Senhores jornalistas, nesta oportunidade, nego-me a tocar neste assunto com a imprensa; a não ser que seja, por ela, bem remunerado. Notícias como estas, de que disponho em primeira mão, envolvendo vários colegas e altas autoridades do governo, valem bem uma centena de milhares de dólares. Sugiro que voltem às suas redações e conversem com seus diretores e editores; se estes aprovarem o pagamento daquilo que peço, me procurem em meu gabinete parlamentar na quinta-feira, pois não trabalho na segunda, terça, quarta e sexta. Nestes dias estou junto às bases eleitorais em meu Estado!


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


sábado, 14 de outubro de 2017


146. Estarão os oráculos, as profetisas, os videntes, os adivinhos, os numerólogos e os astrólogos, com os seus dias contados? 



Jober Rocha*




              Pelo visto é o que parece ao se confirmar, na prática, a inédita e revolucionária teoria exposta em meu livro “A Curva do Destino” publicado e distribuído pela Iglu Editora, de São Paulo, e a venda nas Livrarias Saraiva, Cultura e Siciliano.
                       O ponto central da teoria descrita neste livro é o de que a evolução da alma dos seres humanos (entendendo-se por alma o espírito quando encarnado), por tratar-se de um fenômeno que ocorre neste universo em que vivemos, possui, como todo fenômeno, uma equação matemática que o descreve, equação esta por mim denominada de "Curva do Destino'.
                   O fato importante a ser considerado é o de que a maior ou menor evolução da alma constitui um fenômeno, embora considerado Metafísico, que ocorre com todos os indivíduos durante suas vidas neste planeta. Como tal, este fenômeno, forçosamente, tem que possuir uma equação matemática que o descreva.  Podemos não conhecê-la, como, aliás, não conhecemos as equações que descrevem milhões de fenômenos físicos que ocorrem a cada instante, mas ela existe. 
                      O método usual para se estimar funções (determinar a forma das equações matemáticas), com base em séries temporais, é o dos Mínimos Quadrados, que os Matemáticos, Estatísticos, Economistas e Engenheiros fazem uso frequentemente. As variáveis que explicam o fenômeno analisado é que precisam ser bem definidas, para representá-lo adequadamente. Os testes estatísticos disponíveis permitem descartar aquelas variáveis que não possuem importância (significância) para o fenômeno. Se a função estimada for representativa do fenômeno pesquisado, ela pode, sem sombra de dúvida, ser utilizada para análises e previsões sobre o comportamento presente, passado e futuro do fenômeno.
                  A referida obra, além de buscar uma justificativa teórica para a existência desta equação (ou função) matemática, indica, em uma primeira aproximação, quais variáveis poderiam ser relevantes para a evolução da alma; fornece algumas formulações matemáticas, também em uma primeira aproximação, que poderiam traduzir esta evolução e indica qual o método matemático a ser empregado para a determinação de uma possível 'Curva do Destino', representativa da evolução espiritual de cada indivíduo. Todos os seres humanos teriam, assim, as suas próprias curvas individuais, diferentes entre si.
              Os pressupostos básicos desta teoria são: a existência da alma, a necessidade de evolução espiritual, a vigência de múltiplas encarnações e um relativo determinismo, pré-existente ao nascimento do individuo, no que se refere a sua Curva do Destino; porém, que não necessariamente teria a obrigatoriedade de cumprir-se, permitindo que a evolução da alma daquele ser humano, caso ele mesmo decidisse modificar a sua curva após encarnado, pudesse realizar-se com base em outra curva, diferente daquela originalmente traçada para ele antes da sua encarnação.   
                      A presente obra faz uma ponte entre o que rezam as principais religiões, o que dizem as principais correntes filosóficas e o atual estado das “artes e das ciências”, para reforçar a teoria sobre a existência da 'Curva do Destino'. A única coisa que restou ser feita, dada a magnitude dos recursos físicos e financeiros envolvidos, foi a tentativa de estimar, na prática, a 'Curva do Destino' para um determinado indivíduo, ou mesmo para um grupo de indivíduos; o que poderá, evidentemente, ser efetuado futuramente em alguma universidade que disponha de instalações, meios e pessoal adequado, dado que esta seria uma tarefa multidisciplinar envolvendo diversos departamentos.
                    Determinada a função matemática representativa da 'Curva do Destino' para determinada pessoa, caso as variáveis elegidas fossem estatisticamente significantes (o que seria confirmado por intermédio dos testes estatísticos disponíveis), poder-se-ia trabalhar a equação mediante a utilização do Cálculo Diferencial, do Cálculo Integral, da Análise Matemática e dos Métodos Econométricos, visando obter informações relevantes sobre a evolução da alma daquele individuo objeto do estudo. Em um dos anexos do livro apresento, com base na Teoria da Produção, uma possível Teoria da Evolução da Alma.
                       A existência de pontos de inflexão na curva, de pontos máximos e mínimos e do limite matemático, comuns a maioria das funções, quais significados Metafísicos poderiam conter? Poderiam indicar que a evolução da alma daquele ser humano, naquela existência, atingiu seu ponto máximo? Poder-se-ia determinar o dia da morte do individuo? Predizer, matematicamente, a data da ocorrência de bons eventos que incrementariam a evolução de sua alma? De eventos maus?
                         A obra possui o mérito do ineditismo com relação a esta teoria. Se os fatos a comprovarão ou não, somente o futuro poderá dizer.
                  Muitos autores fazem uso de pseudônimo em suas obras, por não saberem qual será a opinião do público, notadamente quando se trata de algum assunto polêmico. O assunto desta obra é tremendamente polêmico por envolver Religião, Filosofia e Ciência, mas tomei a decisão de escrevê-lo com meu próprio nome. 
                      Em razão de haver passado grande parte de minha vida profissional dedicado à Ciência, sei como podemos ser estigmatizados por falsas teorias, falsas hipóteses ou falsas conclusões. Entretanto, pelo fato desta teoria ser tão inovadora, não quis escrevê-la sob um pseudônimo. Julguei melhor considerar a obra como uma estória de ficção. O futuro dirá se a ficção acabará ou não por se transformar em realidade.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

segunda-feira, 31 de julho de 2017


145. Minha amiga Laura T.


Jober Rocha*



                  Laura T. é minha correspondente no Facebook, a quem conheci através de um amigo de um amigo. Mora em um país distante do meu, com cidades de nomes estranhos, como: Cluj-napoca, Timisoara, Iasi, Brasov. A região mais conhecida do país em que ela vive é a Transilvânia, onde a lenda afirma ter residido o Conde Drácula, personagem inspirado em Vlad III, príncipe da Valáquia, considerado herói por sua luta contra o Império Otomano.
                    Pelos dados que a página dela no Facebook contém e pela sua foto, classifico-a como uma ‘femme fatale’ (aquela mulher que todo homem deseja, mas que não consegue ter); já que, ela, aparentemente, preenche grande parte dos requisitos para tal, se não todos: possui um cabelo sedutor, é misteriosa, é inteligente, sensual sem ser vulgar, possui senso de humor, aparenta ter uma personalidade fascinante, independente, percorre lugares misteriosos, fina, autêntica, não se submete aos homens e tem um ar charmoso.
                    Outras qualidades comuns às ‘femmes fatales’, como um perfume especial, uma bebida característica, um batom vermelho, uma voz sedutora e o fato de maltratar aqueles homens que a admiram, infelizmente, não puderam ser confirmadas através de uma simples comunicação virtual. A intuição e a razão, no entanto, afirmam que elas devem existir; pois, existindo as primeiras características, as segundas forçosamente também existirão.
                      Suas fontes de interesse parecem ser a Fotografia em preto e branco e a Literatura.
                     Escreve bem em Português e, como o seu primeiro nome é Laura, imagino que seja nascida no Brasil e, em alguma ocasião, possivelmente tenha se transferido para aquele distante país; do qual, confesso, sei muito pouco a respeito. Conheço, por já haver provado, um prato típico da culinária local: polenta com queijo cottage e molho azedo, diga-se de passagem, delicioso. Sei também, por declarações de amigos, que os passeios de trem pelo país são muito interessantes; já que o mesmo é totalmente cortado por linhas férreas, que o percorrem de norte a sul e de leste a oeste. 
                       Em algumas ocasiões, como agora ao escrever esta crônica, me vem à mente a mágica proporcionada pela WEB. Quem poderia imaginar, há cinqüenta anos ou mais, que pessoas desconhecidas venceriam, em instantes, os receios, a timidez, o orgulho e o preconceito, existentes até então no âmago de cada um, para se comunicarem com outras pessoas, desconhecidas, residentes nos quatro cantos do mundo, trocando informações e, até mesmo, confidências, sem se conhecerem pessoalmente? 
                         Mediante a revolução da WEB as barreiras das raças, das línguas, dos sexos, das cores e das religiões são transpostas, transformando o mundo inteiro em uma comunidade global, onde todos sabem de tudo que está ocorrendo, no momento exato em que ocorre. A catarse, a purificação ou purgação mundial, com toda a certeza, é feita, na atualidade, através da WEB. 
                         O sentimento de liberdade dos seres humanos, em relação aos sentimentos ou situações opressoras do dia a dia, se expressa através das matérias que os internautas postam na WEB, permitindo ou facilitando a ‘purificação das almas’ através da descarga emocional que isto representa e dos comentários e compartilhamentos por eles feitos.
                          A par do lado bom, entretanto, existe, também, o lado mal da WEB: os fakes, as matérias plantadas com objetivos escusos ou inconfessáveis, os vírus, etc. Estes efeitos perversos, todavia, são plenamente superados pelos efeitos benéficos. Certamente, qualquer um depois de conhecer e de se utilizar de todas as potencialidades da WEB, jamais conseguirá viver sem ela.
                           Quantos novos amigos, quantas informações importantes, quanto conhecimento útil ela proporciona aos seus usuários, diariamente.
                           A WEB, por outro lado, poupa tempo, dinheiro e trabalho dos seus usuários, evita horas intermináveis em filas, simplifica procedimentos, permite o envio de documentos, textos e imagens, em questão de segundos, para qualquer local do mundo servido por ela; possibilitando, até mesmo, o salvamento de vidas humanas.
                              Finalizando, sou grato a todas as Lauras, Renatos, Pedros, Lucias, Marcias, Filipes, etc., que fazem parte do meu dia com as suas interessantes matérias e pertinentes comentários sobre o que quer que seja. São eles que alegram o meu dia e me fazem crer no futuro da espécie humana como uma linhagem colaborativa, em que pese toda a cizânia fomentada e espalhada por políticos e por dirigentes globais objetivando dividir para governar.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


sexta-feira, 21 de julho de 2017


144. Desisto, novamente!


Jober Rocha*


          Caros amigos leitores, em texto anterior, denominado ‘Desisto!’, eu mencionei inúmeros problemas que afetam o nosso país, problemas estes para os quais não vislumbro solução futura, e que me levou a denominá-lo de ‘O país que não deu certo’.
                      Hoje, resolvi voltar ao assunto com um tema semelhante e reafirmar que, mais uma vez, desisto. 
                   Normalmente passo meus dias sentado a frente do computador, enviando e recebendo matérias dos meus contatos, via e-mail e Facebook. A lição que aprendi ao longo de todos estes anos contemplando o que circula na WEB, notadamente no Facebook, é bem simples: cinquenta por cento do que circula é simplesmente falso (também conhecido como fake) com relação a todos os assuntos tratados, mentiras estas disseminadas por governos, por empresas, por partidos políticos, por religiões e por particulares, todos com interesses inconfessáveis e escusos; vinte por cento representam matérias sobre laser, esportes, artes e show business; dez por cento consiste em propaganda sobre algum serviço ou produto; dez por cento constitui matéria humorística e de gozação, bem típica do espírito brasileiro e, apenas, dez por cento trata de assuntos sérios e aproveitáveis. 
                    Não sei como se apresenta a WEB em outros países, mas, no nosso, penso que a distribuição de frequências dos assuntos veiculados é esta que apresentei.
                Outra constatação que fiz é a de que, nos diversos grupos do Facebook, existem pessoas de nível intelectual baixo, médio, alto e muito alto; todos eles interagindo entre si e ninguém sabendo qual o nível do outro. Em razão disto, as matérias postadas e os comentários feitos são os mais estapafúrdios possíveis, muitas vezes chegando às raias das ofensas pessoais e das difamações, quando os pontos de vista conflitam. Faltam conhecimentos, educação e civilidade por parte de muitos dos participantes dos grupos de discussão, para participar construtivamente de algum debate sobre qualquer assunto.
                      Todos querem ver seus pontos de vista prevalecendo. Os participantes dos inúmeros grupos, notadamente os de Filosofia, Ciências e Religiões, não estão interessados em aprender, mas, sim, em ensinar; porém, na maioria das vezes desconhecem tudo ou quase tudo acerca daquilo que discutem. 
                         Outro ponto a destacar é a falta generalizada de conhecimentos básicos sobre a língua em que escrevem; no caso a portuguesa. Os erros de ortografia e de gramática são tantos e tão gritantes que, muitas vezes, mesmo com boa vontade, não conseguimos entender o que o internauta quis dizer.
                         Relativamente às matérias de cunho falso, muitas vezes se torna difícil perceber a fraude, mesmo tomando todo o cuidado, já que são elaboradas por profissionais altamente qualificados, empenhados em enganar e confundir. Organismos secretos, com verbas milionárias, espalhados por todo o mundo, plantam notícias falsas e produzem contra-informação, diariamente, a serviço de interesses políticos, econômicos, militares e psicossociais.
                          Milhões de internautas são conduzidos, como ovelhas em um rebanho, para onde os seus pastores desejam. 
                         Opiniões são formadas ou desfeitas com base em matérias falsas, divulgadas como verdadeiras. Infelizmente, o internauta não tem, na maioria das vezes, como checar a veracidade ou não da matéria veiculada. Dependendo do seu nível intelectual e da informação de que dispõe, o internauta percebe tratar-se de notícia falsa, mas, na maioria dos casos, em se tratando de pessoas do povo, sem maiores conhecimentos e com pouca informação, a matéria divulgada passa por verdadeira. Milhares, senão milhões, de boatos circulam diariamente pela internet, em suas várias modalidades.
                      Na realidade, tendo em vista as técnicas atualmente existentes e constantemente aperfeiçoadas, infelizmente, já não mais podemos crer naquilo que vemos, lemos ou ouvimos nesta excepcional ferramenta, que surgiu para aproximar as pessoas, além de transmitir conhecimentos e informações.
                       Em muitas ocasiões, ao perceber que a matéria é falsa ou tendenciosa, menciono isto nos meus comentários, tentando alertar os incautos. Prá que: imediatamente recebo ofensas e xingamentos desde os nossos limites territoriais do Oiapoque ao Chui. Muitos assuntos que me parecem óbvios e do conhecimento geral, constato que não o são para inúmeros internautas.                                 A disparidade de informações, de níveis sócios culturais e de idades, entre as pessoas que acessam a internet (mais especificamente o Facebook), faz com que os diálogos, quase sempre, sejam sem pé nem cabeça e, muitas vezes, eivados de ofensas mútuas, notadamente quando os interlocutores são mais jovens. 
                         Assim, meus amigos leitores, eu informo a todos que desisti, mais uma vez. Não enviarei nem comentarei mais nada pela WEB. Serei, de agora em diante, apenas um contemplador mudo desta imensidão de informações que são geradas diariamente e que circulam pelos computadores, nos lares e escritórios brasileiros, e também nos WhatsApp, bem aconchegados nas mãos daqueles que os possuem. 
                       Tentarei me conter quando contemplar uma mentira deslavada ou um comentário infame, sobre uma tese corretamente apresentada. Sairei do escritório por alguns minutos, quando presenciar dois internautas se ofendendo com palavras de baixo calão, normais no mundo virtual de hoje em dia. Respirarei fundo quando ler matérias afirmando que a Terra é plana; que devemos parar de comer carne e derivados do leite; que se doarmos tudo o que temos para determinada seita, o Criador nos dará tudo de volta, multiplicado por dez. 
                       Fecharei meus olhos por alguns minutos, quando ler que um imenso asteroide irá se chocar com a Terra e que um Tsunami estará chegando ao litoral brasileiro nas próximas horas. Tomarei uma pequena dose de uísque, após contemplar um Buda da Sorte (que supostamente enriquece quem o passa adiante), uma imagem de santa (que atende a qualquer pedido com uma prece), uma vela acesa para a cura do câncer (que deve ser passada adiante).
                    Por um lado será até bom, pois pretendo iniciar um programa de caminhadas ecológicas. Caminhando surgem idéias, como afirmava Rousseau. Quem sabe se, a partir de agora, não terei assunto para novas e melhores crônicas?


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 16 de julho de 2017

143. Desisto!


Jober Rocha*



           Caros leitores, eu peço a todos que me perdoem este desabafo, mas, infelizmente, cheguei à triste conclusão de que é inútil despender qualquer esforço maior, tentando mudar o atual quadro psicossocial brasileiro.
                Tudo por aqui caminha mal. Tudo, ou quase tudo, aquilo que parte da iniciativa do governo (municipal, estadual e federal) é mal feito, por ignorância ou de forma proposital. Estamos regredindo diariamente, sob os olhares complacentes de autoridades que deveriam ser as promotoras e guardiãs das leis, da ordem e do desenvolvimento.
                    Muitos cidadãos, fanatizados por suas ideologias, criticam o que ainda existe de bom e de certo e elogiam o que vigora de mau e de errado (que buscam generalizar para o país inteiro), em uma transvaloração de valores. Apenas no Estado em que nasci e onde vivo, morre um policial quase que diariamente, assassinado por marginais. Os combustíveis são fraudados e dezenas, senão milhares, de veículos estão nas oficinas, com sérios problemas de motor, em razão dos efeitos danosos dos solventes misturados ao álcool e a gasolina por empresários desonestos e inescrupulosos.
                  Rouba-se por todos os lados, em todas as horas do dia e da noite. As ruas, estreitas em sua maioria, estão constantemente engarrafadas de veículos durante o dia inteiro, dificultando o ir e vir das pessoas para os seus trabalhos, para as suas casas e para os seus lazeres. Os transportes coletivos, sempre apinhados de passageiros, jamais cumprem seus horários.
                  Os hospitais e postos de saúde, congestionados de pacientes, carecem de médicos, de enfermeiros, de materiais e de equipamentos. Por outro lado, profissionais de saúde, mal remunerados, perdem o estímulo que tinham e, na falta de apoio institucional, limitam-se apenas ao trivial, sem nenhuma dedicação maior ou interesse pela situação dos impacientes pacientes. 
                  Nas escolas públicas professores com os salários aviltados e, muitas vezes, recebendo-os com atraso de alguns meses, sofrem nas mãos de alunos totalmente desinteressados em aprender algo de útil, que possibilite os seus ingressos futuros no mercado de trabalho. Em vários setores da máquina estatal, pessoas normalmente despreparadas profissionalmente ocupam funções técnicas ou de chefia, às quais foram guindadas pelo nepotismo ou pelo apadrinhamento político-partidário.
                No setor empresarial, a regra, quase sempre, é apenas a de visar o ganho de lucros máximos, sem nenhum compromisso com a qualidade ou a com a durabilidade dos itens produzidos. Os azeites são fraudados, conforme denunciam os órgãos de imprensa. Frauda-se nos pesos, nos tamanhos, nos componentes e ingredientes dos produtos. Remédios são feitos apenas com farinha e não com os sais químicos informados nas bulas. Injetam-se bolhas de ar dentro das embalagens, para caber menos produtos; colocam-se os biscoitos inclinados dentro de seus pacotes, para caber menos; constantemente diminui-se a quantidade oferecida nas embalagens, mantendo-se o mesmo preço.
            Agentes fiscalizadores do Estado, em muitas ocasiões, fazem vista grossa a estas irregularidades em razão de propinas recebidas. Muitos afirmam que a nossa agropecuária e o setor energético já pertencem, em sua maioria, aos chineses, que os adquiriram bem barato em época de recessão econômica. Os setores industriais se desnacionalizam a olhos vistos em razão da falta de recursos e da queda nas vendas, motivadas pela má administração de governos sucessivos. A recessão está batendo a nossa porta e qualquer um pode constatar a quantidade de lojas, empresas, consultórios, salas de profissionais liberais, fechadas nestes dois últimos anos em todas as cidades e capitais do país. Cerca de 20 milhões de pessoas estão desempregadas e o déficit orçamentário do governo federal é da ordem de quase duzentos bilhões de reais.
                Relativamente aos indivíduos eleitos para nos representar nas assembleias legislativas, na câmara e no senado, dá até desânimo comentar, tantos são os casos escabrosos relatados pela mídia envolvendo a maioria destes políticos. Mais da metade dos cerca de quinhentos e poucos deputados, integrantes da Câmara, respondem a processos na justiça. No senado deve ser a mesma coisa.
             No que respeita às religiões, constata-se que muitas delas transformaram-se em negócios altamente lucrativos, tendo em vista uma população inculta, despolitizada e ingênua como a nossa. Muitos sacerdotes praticam verdadeiros atos de estelionato com os seus seguidores, obrigando-os, através de ações psicologicamente formuladas, a venderem seus bens e doarem o valor apurado nas vendas a estes sacerdotes, com a promessa de que receberão do Criador muito mais do que aquilo que doaram.
                  O contrabando tornou-se algo corriqueiro, vendido nas ruas e praças das cidades. Pelas fronteiras desguarnecidas do país entram armas, munições, cigarros, perfumes, roupas, bebidas, etc. etc. etc. Os dois primeiros itens abastecem o crime organizado e também o desorganizado. Os demais abastecem as populações pobres em razão dos baixos preços, já que não pagam impostos.
                As chamadas ‘balas perdidas’ são encontradas nos corpos de cidadãos pacatos que tentam conviver com a guerra civil urbana não declarada de direito, mas existente de fato. Facções criminosas trocam tiros, entre si, pela disputa de pontos de venda de drogas e também com a polícia, que apenas ‘enxuga gelo’ ao reprimi-las, pois logo seus integrantes presos estarão nas ruas novamente.
               Milhões de desempregados perambulam pelas ruas do país buscando alguma alternativa que lhes permita sobreviver: vendendo balas nos sinais de trânsito ou fazendo malabarismos; trabalhando como camelôs; guardando ou lavando veículos (os chamados ‘flanelinhas’); distribuindo folhetos de publicidade, etc. etc. etc. Epidemias de dengue, chigungunha, zika, febre amarela, etc. povoam as nossas cidades e campos, fazendo milhares, senão milhões, de vítimas anuais. Vetores outros, como ratos, moscas e baratas também povoam as cidades aos milhões, trazendo com eles mais enfermidades e mais vítimas.
                   As nossas forças armadas, empobrecidas e desmotivadas, muitas vezes, operam em regime de meio expediente, por não terem condições de fornecer comida para os seus integrantes. Os equipamentos estão sucateados e os treinamentos e exercícios profissionais também são reduzidos, por medida de contenção e economia. Bases Aéreas e quartéis foram alienados para a iniciativa privada. O projeto do submarino movido a energia nuclear parou por falta de recursos. Dizem que as forças armadas, em conjunto, teriam munição apenas para um dia de combates.
                    Em grupos do Facebook destinados ao comentário de assuntos filosóficos, científicos e religiosos, seus integrantes se digladiam trocando ofensas quando possuem pontos de vista contrários sobre qualquer assunto. A competição atual não é mais apenas por empregos, mas também por idéias e pontos de vista. Todos querem a prevalência dos seus e, quando isto não ocorre, partem para as ofensas pessoais, injúrias e difamações.
                  As agências dos bancos e as repartições públicas, em suas maiorias, apresentam filas colossais. As filas dos primeiros, certamente, não são devidas à carência de recursos financeiros, como alegado pelos responsáveis pelas segundas. Nestas filas, muitas vezes, perdemos uma boa parte do dia, quando não o dia inteiro. As fraudes são muito comuns e sobejamente conhecidas: aparelhos que retém os cartões magnéticos dos clientes nos caixas eletrônicos; boletos de pagamento falsos, que enviam os recursos pagos para contas diferentes das verdadeiras.
                 Assaltos e roubos, nas vias públicas, ocorrem infinitas vezes; já nem sendo mais comunicados às autoridades policiais pelas vítimas, notadamente o roubo dentro de coletivos e o furto de celulares. Nosso país é o maior, mundialmente, em número de roubos de veículos e roubo de cargas.
               A burocracia estatal aumenta a cada dia. Dezenas de certidões (com firma reconhecida) e de cópias autenticadas são solicitadas para tratar de assuntos corriqueiros. Para abrir uma empresa, contratar um empregado, mudar de atividade, fabricar alguma coisa, exercer qualquer atividade, têm-se que recolher diversas guias de impostos e taxas aos cofres públicos. A burocracia é tão grande que se têm, com frequência, de contratar despachantes para obter aquilo que poderia ser resolvido de forma simples e imediata. O Estado não tem prazo para responder as solicitações do contribuinte, mas os contribuintes têm prazo para solicitar ao Estado, seja lá o que for.
                Se algum leitor acredita que este quadro possa, eventualmente, vir a ser modificado no futuro, eu respondo que penso haver um vício intrínseco ou uma falha de origem a permear a chamada ‘civilização brasileira’, contaminando nossa gente e nossas instituições. Uma entropia, que se apresenta ciclicamente, parece desorganizar e destruir parte daquilo de bom que havia sido feito, até então, deixando incólume o que de mal foi realizado e que ainda existe.
                     Se pedissem uma receita ao Prêmio Nobel de Economia, sobre a forma de consertar o país, antes de se pronunciar sobre problemas econômicos, ele, com certeza, diria: em primeiro lugar construam presídios e façam cumprir a lei, inexoravelmente. Nada de prisões domiciliares, indultos de natal, de páscoa, do dia dos pais, do dia das crianças, de São João, etc. Criminosos condenados a trinta anos de cadeia deveriam cumpri-los integralmente e não cumprir apenas seis anos, como na atualidade. Em segundo lugar, acabem com os privilégios dos políticos e das autoridades: nada de veículos oficiais, planos de saúde no exterior, aposentadoria após o segundo mandato, foro privilegiado, verbas de gabinete, emendas parlamentares, assessores, abonos, residências oficiais, empregados domésticos, auxílios moradia, creche, etc. etc. etc. Os políticos são empregados do povo e não patrões. Em sua maioria, em nosso país, eles ganham tanto ou mais que muitos empresários de sucesso, dirigentes e donos de grandes empresas, para o pouco que fazem. As imagens feitas no plenário da câmara e do senado mostram, quase sempre, a maioria das cadeiras vazias ou diversos políticos dormindo. 
                   Finalizando, quero dizer a todos que cansei de esperar por alguma mudança na triste realidade do nosso país. Não vejo nenhuma possibilidade desta mudança ocorrer no futuro; pelo contrário, a situação deve se agravar com a entrada de milhares, senão milhões, de imigrantes e refugiados políticos vindos de distantes países islamitas, do Haiti, da Venezuela, etc. Não pretendo tomar parte na guerra fratricida que, sem dúvida alguma, acabará por se instalar definitivamente no país. Pretendo mudar-me para outro lugar, distante daqui. Portugal é uma boa alternativa para os aposentados. De lá, passeando por ruas e avenidas tranquilas e seguras, saboreando bolinhos de bacalhau e tomando vinho em algum restaurante lisboeta, estarei sempre ligado, acompanhando de perto o sofrimento dos brasileiros no país que não deu certo.

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.