segunda-feira, 4 de dezembro de 2017



151. Versões Tupiniquins do ‘Maior Espetáculo da Terra’


Jober Rocha*


              No ano de 1952, nas telas dos cinemas mundiais era exibida uma comédia dramática, dirigida por Cecil B. de Mille, denominada ‘O Maior Espetáculo da Terra’. Tratava-se da estória sobre a vida de um circo itinerante, chamado Ringling Brothers and Barnum & Bailey, que percorria pequenas cidades do interior dos Estados Unidos (com seus palhaços, domadores, trapezistas, mágicos, etc.) levando diversão às populações ávidas por espetáculos deslumbrantes, extraordinários e surpreendentes, que, de tão inusitados e jamais vistos, beiravam, muitas vezes à magia.
          Fazendo um paralelo ao mencionado filme, no Brasil da atualidade, as seitas e religiões que por aqui disputam os corações e as mentes dos brasileiros, revezam-se na direção de espetáculos com os mesmos requintes e objetivos daqueles do famoso circo: deslumbrar, extasiar, amedrontar e extrair dinheiro dos frequentadores, ávidos pelo bizarro, pelo desconhecido e pelo inusitado. Poderíamos, também, chamar estes acontecimentos de ‘Versões Tupiniquins do Maior Espetáculo da Terra’; posto que são feitos em nome do Criador de todas as coisas, em especial deste pequeno planeta a que chamamos Terra.
                   Assim é que os sacerdotes nos altares, como Show Man’s nos palcos de teatros, promovem espetáculos que poderiam ser representados em qualquer circo ou casa de shows do país (rivalizando com as apresentações de experimentados artistas e prestidigitadores, como o conhecido Mister M) para plateias receptivas que, em sua maioria, participam de maneira ativa daquelas encenações.
                    Alguns sacerdotes, com um simples sinal das mãos, atiram longe fiéis e diáconos. Outros expulsam demônios dos corpos de adeptos que se contorcem pelo solo. Outros, ainda, conclamam os fiéis a comparecerem ao altar e entregarem ao sacerdote as chaves e documentos dos seus veículos, além de todo o dinheiro que carregam na carteira. Alguns vendem canetas esferográficas de plástico que custam apenas um real no comércio e que, depois de ungidas pelo sacerdote, passam a valer cem reais cada.
                   Um deles, que presenciei pela televisão, vendia frascos com o perfume de Jesus Cristo; outro comercializava vassouras de piaçava que, depois de ungidas, custavam mil reais cada uma. Um deles afirmava que, pagando mensalmente determinada quantia, os fiéis tinham o direito de exigir do Criador que atendesse aos seus pedidos de saúde, de riqueza e de felicidade no amor. Alguns vendiam livros; outros chaveiros que protegiam contra o mal; outros comercializavam óleos bentos milagrosos que protegiam o corpo contra qualquer agressão externa; outros vendiam frascos de água do Rio Jordão, na Palestina. Saquinhos com areias do deserto, pisadas por Jesus Cristo; pedaços de madeira da cruz do Calvário, na qual crucificaram Jesus.
             Santinhos, imagens, relíquias de mártires, tudo era, e ainda é, comercializado por sacerdotes empresários, cujas metas de arrecadação necessitavam ser cumpridas para que eles continuassem a frente daqueles lucrativos empreendimentos.
                      Muitos levavam pessoas (que declaravam ter sido curadas das doenças mais diversas, inclusive de paralisia e de câncer), para prestar depoimentos de como as suas curas só ocorreram após terem contribuído financeiramente para as obras caridosas da igreja ou daquele templo.
                 Todos aqueles espetáculos eram seguidos de músicas, tocadas por conjuntos musicais que adaptavam letras de cunho religioso às músicas do momento. A maior parte daqueles espetáculos, no entanto, era preenchida com pedidos de dinheiro por parte dos sacerdotes.
                   Alguns deles eram mais sutis e faziam uso de metáforas, na defesa de seus argumentos para arrecadar dinheiro; outros eram mais vulgares e diretos. O público ouvinte, longe de se sentir ludibriado, parecia concordar com tudo aquilo dito pelos sacerdotes, demonstrando, assim, que suas mentes e seus corações já haviam sido capturados, definitivamente, pelos argumentos daquelas seitas ou daquelas religiões.
                   O mais estranho de tudo isso é que todas as seitas e religiões, tanto as sérias e bem intencionadas quanto as outras, contam com isenções, subsídios, facilidades e incentivos governamentais, da mesma forma como ocorre com os clubes de futebol, com as emissoras  de televisão e com os partidos políticos. Porque seria? Deixo a resposta por conta dos leitores.
                  Recordo-me de haver lido, há tempos, em um jornal carioca, que determinado indivíduo, conhecido por praticar operações mediúnicas em pessoas enfermas, fazendo uso de tesouras e facas não esterilizadas, estava sendo processado nas justiças cível e criminal, por inúmeros de seus pacientes, em razão de lesões graves sofridas por eles, decorrentes daquelas chamadas ‘cirurgias mediúnicas’.
            Muitas destas seitas e religiões que proliferam no país, se utilizam constantemente dos chamados ‘milagres’, que se constituem em violações das Leis Físicas, Químicas e Biológicas, instituídas universalmente pelo Criador e por ele mesmo violadas, segundo preconizam tais sacerdotes, através dos milagres, que possuíam a única finalidade de beneficiar determinados fiéis seguidores daquela religião.
Acerca de milagres, muitos filósofos já se pronunciaram ao longo da História, mas destaco, apenas, uma afirmação de Baruch de Spinoza (1632-1677):

 - ‘Contra a Natureza ou acima da Natureza, o milagre não passa de absurdo; e Deus é mais bem conhecido graças à ordem e à necessidade da Natureza, do que por pretensos milagres’.

                Em um país como o nosso, de carências crônicas e deficiências estruturais em quase todos os setores, além de contar com um povo tradicionalmente crédulo e inculto, estes espetáculos religiosos citados possuem o mesmo efeito de uma ópera, para os amantes da ópera; de uma sinfonia, para os adeptos da música clássica e de um espetáculo de circo para as crianças, os jovens e os adultos de antigamente. Todos, com certeza, saiam satisfeitos daqueles espetáculos, felizes da vida e com as energias renovadas, para enfrentarem as adversidades que os esperavam do lado de fora do auditório, na triste e enfadonha realidade da vida. 


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 3 de dezembro de 2017


150. O Belo Mundo dos Sonhos



Jober Rocha*


                 Os escritores de literatura e seus leitores, evidentemente, vivem no mundo dos sonhos e da ficção, onde os valores que tradicionalmente nortearam a raça humana acabam, quase sempre, prevalecendo ao final; isto é, na literatura, tradicionalmente, amor prevalece sobre ódio, coragem sobre covardia, bem sobre mal. A virtude, em geral, prevalece sobre o vício.
                Como é bom se abstrair, durante horas, dias e até semanas, dos problemas que nos afligem cotidianamente trazendo sofrimentos, magoas, dores, preocupações e desavenças. Como é bom esquecer, por algum tempo, que estamos neste bairro, nesta cidade, neste Estado e neste país e mergulharmos em outras terras e em outras épocas; conhecermos outras pessoas que, muito embora possam ter também os seus problemas, vivem as suas vidas de maneira bem mais emocionante que a nossa (segundo todos nós, leitores, imaginamos).
                O dia a dia de um brasileiro, embora pudesse fornecer matéria para milhares de livros sobre os mais diversos assuntos, para aquele que o vive é, quase sempre, destituído de graça e constituído de muito trabalho e de muita privação. Aqui falta quase tudo, se não em quantidade ao menos em qualidade. Os transportes são deficientes, a segurança idem, a saúde também, a moradia mais ainda, a educação é cara e de baixo nível (poucos daqueles que freqüentaram até a universidade sabem escrever corretamente e de forma compreensível; o que pode ser comprovado com uma simples consulta às matérias veiculadas no Facebook). O próprio lazer é de baixa qualidade, intelectualmente falando.
             Muitos de nossos políticos, além do baixo nível ético e moral, demonstrado em suas aparições públicas sendo conduzidos à sede da Polícia Federal para prestar depoimentos (ou mesmo sendo presos), nada produzem de útil para a nação em que pese o muito que custam, em termos de salários e de mordomias (carros, casas, planos de saúde, diárias, passagens, verbas de gabinete, assessores parlamentares, etc. etc. etc.). 
               Tais políticos chegam a ter padrão de vida superior ao de muitos grandes empresários nacionais, que trabalham de forma dura para conduzir os seus negócios e poder honrar os compromissos com empregados, clientes e fornecedores, além de pagar os seus impostos, que sustentam estes parasitas já mencionados.
                 Embora nos contos e romances também existam personagens de má índole convivendo com os de boa índole, a trama, em geral, é tão bem traçada que, após dezenas de páginas, aqueles personagens maus, quase sempre, perdem para os bons e as virtudes prevalecem sobre os vícios; ao contrário da vida diária dos leitores e escritores, onde os bons, quase sempre, perdem para os maus e os vícios sobrepujam as virtudes. 
                A trama traçada pelo Criador, para a maioria dos personagens da epopeia humana, fica devendo, em muito, àquela dos escritores. Os livros do Criador que, de maneira especifica, tratam sobre os destinos de cada um dos seres humano, quase sempre, após descreverem muito sofrimento e poucas alegrias, terminam com um triste final. Qualquer leitor que os lesse acabaria com lágrimas nos olhos. Não seriam livros empolgantes e arrebatadores, embora existam algumas boas exceções para confirmar a regra.
                  Por isso recorremos tanto a Literatura, tentando penetrar no mundo dos sonhos e da ficção, únicos lugares onde poderemos encontrar aquilo que todos nós, leitores, ansiamos para as nossas pobres existências terrenas: justiça, amor, felicidade, paz, amizade, etc. A Literatura é a única fonte que poderá matar esta nossa sede interior. A própria fortuna, tão desejada, não possui este poder.
                    A Literatura de uma maneira mais ampla, de forma a abarcar também a Filosofia e a Ciência, possui, ademais, outra fonte que, juntando suas águas à ficção e ao sonho, aumenta o volume do manancial necessário para saciar essa nossa sede interior. Esta outra fonte chama-se conhecimento ou sabedoria.
                    Não acompanho o desempenho da indústria editorial no nosso país, mas acredito que em épocas como a que ora vivenciamos, a venda de livros (contos e romances) aumente. Todos desejam sair, mesmo que por pouco tempo, do ambiente conflituoso e desagradável em que, eventualmente, vivem; ainda que, no novo ambiente em que penetrem, venham encontrar as mesmas coisas que deixaram para trás. A única coisa que difere entre estes dois mundos (além do fato das virtudes, normalmente, prevalecerem ao final no mundo da ficção) é que basta fechar o livro para sair, definitivamente, daquele mundo dos sonhos e só conseguimos sair deste mundo real quando a vida se esvai.
               Pena que a referida indústria não conte com os mesmos incentivos, subsídios, isenções e facilidades com que contam as redes de televisão, as igrejas, os bancos, os clubes de futebol, os partidos políticos, etc. Pena que a mente tacanha, retrógrada e egoísta de uns poucos dirigentes e líderes espirituais implantem, por vezes e em épocas de obscurantismo, a censura literária às obras de escritores que destoam daquelas consideradas “política, ideológica e religiosamente corretas”.
                 Enfim, louvemos aqueles escritores que, da mesma forma como procede a indústria dos fármacos químicos de tarja preta, mantém, por algum tempo, os indivíduos afastados da realidade madrasta, levando-os, ainda que por um breve período, para o colo dos avós no belo mundo dos sonhos.  

_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

149. A falácia da santidade nas religiões


Jober Rocha*


          O presente texto tem por objetivo evidenciar, com base na Filosofia e na Ciência, que a santidade, supostamente atribuída pelas religiões a alguns seres humanos, nada mais é do que uma falácia.
             Segundo os dicionários o termo falácia deriva do verbo latino 'fallere', que significa enganar. Designa-se por falácia, portanto, um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público, apesar de conterem falácias; mas não deixam de ser falsos por causa disso.
           O vocábulo santo, por sua vez, em conformidade com o dicionário mundial Wikipédia, teria vindo do termo latino 'sanctu' e trataria de tudo aquilo que fosse sagrado; ou seja, que estivesse conforme os preceitos religiosos e a divindade. Santidade, por conseqüência, seria a qualidade ou a virtude de ser santo.
                 Especificamente para a Igreja de Roma, santo seria todo aquele ser cujo espírito já estaria no céu, junto de Deus, aguardando a segunda vinda de Cristo. Aqueles indivíduos que a Igreja reconheceu como santos, através da canonização, teriam sido pessoas que, segundo ela, desempenharam uma obra admirável ou cuja vida serviria de exemplo aos demais cristãos. Na Igreja Ortodoxa e na Igreja Anglicana pessoas reconhecidas por virtudes especiais poderiam receber, também, o título de Santo; entretanto, a Igreja de Roma foi a que mais gerou santos na sua História. Na atualidade existem cerca de três mil santos oficialmente reconhecidos, embora o total geral daqueles que receberam este título, ao longo da história do cristianismo, seja desconhecido. 
            Só João Paulo II, em 25 anos de pontificado, chegou a proclamar 476 santos e 1.314 beatos. Esse título de santo denotaria, assim, que, além de um grande caráter, a pessoa estaria na graça de Deus. Ademais, a falta do reconhecimento formal do título não significaria, necessariamente, que o indivíduo não fosse classificado como um santo pela igreja, pois aqueles que não possuíssem o reconhecimento formal receberiam o título de santos anônimos.
                    Assim, a figura do santo passou a ser endeusada pelas igrejas, de um modo geral, fazendo com que inúmeros de seus mais ardorosos adeptos buscassem, a todo custo, atingir este status glorioso, seja mediante ações virtuosas em vida ou, até mesmo, submetendo-se a padecimentos e martírios, como inúmeros casos ocorridos ao longo da História. Uma possível explicação para este comportamento além da argumentação de que a santidade corresponde a uma falácia são fornecidas nas páginas que se seguem e suas origens remontam a antes do cristianismo existir como religião. 
               Todavia, ao iniciar a explanação da nossa tese, convém deixar claro que desde a mais remota antiguidade os seres humanos já tinham sido inoculados pelo vírus da curiosidade, do questionamento e da preocupação metafísica sobre a natureza humana, seus desejos e comportamentos. Esta não é, portanto, uma doença contemporânea.
            Nos tempos de Aristóteles já constituíam preocupações dos filósofos, descobrir e explicar por que os seres humanos agiam da forma como agiam, em busca da felicidade e do prazer.
                Pelo lado religioso, Sidarta Gautama (563 a.C – 483 a.C), fundador do Budismo, estudou as causas do sofrimento a as condições necessárias para eliminá-lo e atingir o Nirvana (estado de perfeita paz mental semelhante à santidade), que consistiria na liberação total do sofrimento e na aniquilação do desejo, fator que, segundo ele, gerava o sofrimento.
              Deixando a religião, provisoriamente, de lado e atendo-nos a Filosofia, encontramos que vários filósofos ao longo da História discorreram sobre o prazer e a felicidade e suas importâncias e conseqüências nas ações humanas. Muitas daquelas considerações foram, mais tarde, apropriadas pelo cristianismo e incorporadas às suas próprias crenças e liturgias.
              Na verdade tais idéias sobre prazer e felicidade tiveram grande importância para a origem da filosofia, bem como de várias religiões. Elas fizeram parte das primeiras reflexões filosóficas sobre Ética, que foram elaboradas na Grécia antiga. Muitos filósofos que discorreram sobre o assunto, desde aqueles tempos, possuíam pensamentos bem semelhantes, inclusive alguns deles coincidentes com os escritos de Sidarta Gautama.
                Demócrito de Abdera (460 a.C.- 370 a.C.) julgava que a felicidade era ‘a medida do prazer e a proporção da vida’. Para atingi-la, ‘o homem precisava deixar de lado as ilusões e os desejos e alcançar a serenidade’. A filosofia, segundo ele, ‘era o instrumento que possibilitava esse processo’.
              Sócrates (469 a.C.- 399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando que ela não se relacionava, apenas, à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para ele, o homem não era só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, ‘a felicidade era o bem da alma, que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa’. Para Sócrates, ‘sofrer uma injustiça era melhor do que praticá-la’.
             Antístenes (445 a.C.-  365 a.C.), seu discípulo, acrescentou um toque pessoal à ideia de felicidade do mestre, considerando que 'o homem feliz é o homem auto-suficiente'. A ideia de auto-suficiência continuou diretamente vinculada à de felicidade nos setecentos anos seguintes.
              O maior discípulo de Sócrates, que, efetivamente, levou a especulação filosófica adiante de onde a deixara seu mestre, foi Platão (427 a.C.- 347 a.C.), o qual considerava que 'todas as coisas têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtém a felicidade'.
                  Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) dedicou todo um livro à questão da felicidade: a ‘Ética a Nicômaco’ (que é o nome de seu filho, para quem o livro foi escrito). Amigo de Platão, mas, em suas próprias palavras, ‘mais amigo da verdade’, Aristóteles criticou o idealismo do mestre, reconhecendo a necessidade de elementos básicos como a boa saúde, a liberdade (em vez da escravidão) e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz.
                   Após Alexandre ‘O Grande’, no mundo grego, surgiram quatro principais escolas filosóficas buscando os caminhos da felicidade. Tais escolas iriam se estender até o fim do Império romano e propagavam as chamadas filosofias helenísticas.
                   Uma delas consistiu no Epicurismo, que se tratava de um sistema filosófico proposto pelo filósofo Epicuro (341 a.C - 271 a.C), conhecido como “Profeta do prazer e da amizade”, que pregava ‘a procura dos prazeres moderados, para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal, pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos’. Quando os desejos fossem exacerbados, segundo ele, 'poderiam ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade, que consistiria em manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito'.
                      Segundo Epicuro, 'para ser feliz seria necessário controlar os nossos medos e desejos, de maneira que o estado de prazer fosse estável e equilibrado, com um consequente estado de tranquilidade e de ausência de perturbação'.
                    A finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas bastante prática. Buscava, sobretudo, ‘encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte, estariam definitivamente eliminados’. Para isso, fundamentava-se em uma teoria do conhecimento empirista, em uma física atomista e na ética.
                    A ideia que Epicuro tinha era a de que, 'para ser feliz, o homem necessitava de três coisas: liberdade, amizade e tempo para filosofar'. 
                Epicuro defendia que 'nada estava além dos nossos sentidos e que não existiria nenhuma realidade que não poderia ser entendida com auxílio dos nossos cinco sentidos, princípio este denominado naturalismo radical'. 
                  Epicuro pregava, ainda, que 'os deuses existiam, mas não estavam preocupados conosco’. Se os deuses não se encarregavam de nosso destino, benção ou maldição; caberia a nós mesmos esta responsabilidade. A felicidade ou o sofrimento dependeria, portanto, das escolhas de cada um. 
                  Epicuro afirmava, também, 'a ideia da morte como sendo o nada’. A dor e o sofrimento residiam nas sensações, na vida como fardo; e se a morte era o total aniquilamento do viver, nada teríamos a temer. A lógica da sua filosofia era a de que, ‘se a vida e as sensações causavam o sofrimento do indivíduo, a morte existiria para cessar essas sensações. Portanto, era inadmissível imaginar que ocorreria sofrimento, pois a morte ocasionaria o extermínio das sensações’.
                 Para Epicuro, ‘o desejo se originava de uma falta, que podia partir da natureza (desejo natural) ou de uma opinião falsa (desejo frívolo)’. 
                Em sua época, e mesmo posteriormente, Epicuro possuía muitos discípulos e seguidores.
                Outra escola helenística foi o Estoicismo, que apresentava uma visão unificada do mundo, consistindo de uma lógica formal, uma física não dualista e uma ética naturalista.  Os estoicos enfatizavam a ética como o foco principal do conhecimento humano. O estoicismo ensinava o desenvolvimento do autocontrole e da firmeza, como um meio de superar emoções destrutivas. Defendia que ‘tornar-se um pensador claro e imparcial, possibilitava compreender a razão universal (logos)’. Um aspecto fundamental do estoicismo envolvia a melhoria da ética do indivíduo e de seu bem-estar moral: 'A virtude consistia em um desejo que estava de acordo com a natureza'. Este princípio também se aplicava ao contexto das relações interpessoais; ‘libertar-se da raiva, da inveja e do ciúme e aceitar, até mesmo, os escravos como iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza’.
                 A ética estoica defendia uma perspectiva determinista. Com relação àqueles que não tinham a virtude estoica, Cleanto, uma vez, opinou que o homem ímpio é ‘como um cão amarrado a uma carroça, obrigado a ir para onde ela vai’. Já um estoico virtuoso, por sua vez, alteraria a  vontade própria para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epiteto, ‘doente e ainda feliz; em perigo e ainda assim feliz; morrendo e ainda assim feliz; no exílio e feliz; na desgraça e feliz’; assim afirmando um desejo individual ‘completamente autônomo’ e, ao mesmo tempo, um universo que é ‘um todo rigidamente determinista’.
            O estoicismo acabou por tornar-se a filosofia mais popular entre as elites educadas do mundo helenístico e do Império Romano.
                      A outra escola consistia no Ceticismo, que era tanto uma escola de pensamento filosófico quanto um método que atravessava disciplinas e culturas. Muitos céticos examinavam criticamente os sistemas de significado de sua época, e este exame muitas vezes resultava em uma posição de dúvida. 
                   O cético era aquele que, insatisfeito com as irregularidades do mundo em que vivia, saia procurando explicações que o levassem a verdades sobre como entender e resolver estas irregularidades. De posse da verdade o cético esperaria alcançar, enfim, paz de espírito. Porém nenhum sistema filosófico que ele havia estudado tinha sido capaz de lhe proporcionar qualquer certeza absoluta sobre os objetos de estudo. Ainda por cima, para todo sistema dogmático que afirmava ter descoberto a verdade, havia sempre outro sistema dogmático, oposto ao primeiro e igualmente convincente (antilogia), que também dizia ter encontrado a verdade. Diante destas contradições e incertezas, e dada, até então, a impossibilidade de alcançar uma explicação absolutamente verdadeira, o cético decidia-se por suspender seus juízos sobre o que quer que fosse, encontrando, com isso, a paz de espírito, que antes ele esperava alcançar através da posse da verdade. 
                 Outra destas escolas era o Cinismo. Para os cínicos, ‘o propósito da vida era viver na virtude, de acordo com a Natureza’.
               O cinismo se espalhou durante a ascensão do Império Romano, no século I, quase se tornando um movimento de massas, e, assim, os cínicos eram encontrados pedindo dinheiro e pregando ao longo das cidades do império. A doutrina finalmente desapareceu no final do século V, embora alguns afirmem que o cristianismo primitivo adotou muitas de suas idéias ascéticas e retóricas.  
                 Por volta do século XIX, a ênfase sobre os aspectos negativos da filosofia cínica levou ao entendimento moderno de cinismo, ou seja, significar uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas, e como uma caracterização de pessoas que desprezam as convenções sociais. Para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e convenções, os cínicos, de então, empreenderam uma cruzada de escárnio anti-social e assim demonstrar as frivolidades da vida social. 
                O cinismo foi uma das filosofias mais marcantes de toda a filosofia helenística. O cinismo oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em uma época de incertezas. Embora nunca tenha havido uma doutrina cínica oficial, os princípios fundamentais do cinismo podem ser resumidos da seguinte forma: 

1. O objetivo da vida era a felicidade e a clareza ou lucidez - significando libertação da nebulosidade, que, por sua vez, significava ignorância, inconsciência, insensatez e presunção.
2. A arrogância era causada por falsos julgamentos de valor, que causavam emoções negativas, desejos não naturais e um caráter vicioso.
3. O desenvolvimento humano dependia de auto-suficiência e indiferença para com as vicissitudes da vida 
4. Evoluía-se através de práticas ascéticas que ajudavam o indivíduo a tornar-se livre de influências - tais como riqueza, fama ou poder - que não tinham valor na natureza. 
5. A sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.
                Assim, um cínico não tinha bens e rejeitava todos os valores convencionais de dinheiro, fama, poder ou reputação. Viver de acordo com a Natureza requeria, apenas, as necessidades básicas para a existência e qualquer um poderia tornar-se livre, ao libertar-se de todas as necessidades resultantes das convenções.  

                Vê-se, portanto, que tanto o povo quanto a elite do império romano já dispunham de conceitos filosóficos orientadores de seus pensamentos, conceitos estes que mesclavam com crenças religiosas sobre deuses, espíritos e demônios.
               Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu do horizonte da filosofia. Estando relacionada à vida do homem neste mundo, ela não interessou aos filósofos cristãos como Agostinho de Hipona (354 d.C.- 430 d.C.), mais conhecido como Santo Agostinho; Anselmo de Canterbury (1033 - 1109) ou Tomás de Aquino (1225 - 1274), todos eles tornados santos pela Igreja católica. Para a filosofia cristã, mais do que a felicidade, o que contava era a salvação da alma (que, implicitamente e sem que a primitiva psicologia se apercebesse, tratava da futura felicidade do espírito).
         Alguns filósofos voltaram a se debruçar sobre o tema na Idade Moderna. John Locke (1632 - 1704) e Leibniz (1646 - 1716), na virada dos séculos XVII e XVIII, identificaram a felicidade com o prazer, um ‘prazer duradouro’. Algumas décadas depois, o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724 - 1804), na obra ‘Crítica da Razão Prática’ definiu a felicidade como ‘a condição do ser racional no mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade’.
           Constata-se, assim, que a felicidade e o prazer sempre foram objetivos humanos, a nortearem as ações dos indivíduos durante suas existências e constituíram fonte inesgotável de ocupação do tempo dos filósofos, desde o início da Filosofia.
          Ainda buscando as origens das ações humanas que conduziriam à felicidade ou à infelicidade, através do campo da Ciência, o médico e psicanalista Sigmund Freud (1856-1939) estabeleceu o Princípio do Prazer, que, traduzido em outras palavras, seria  o desejo de gratificação imediata que acompanharia todos os indivíduos em suas ações. Tal desejo conduziria o ser humano a buscar o prazer e a evitar a dor, mais ou menos na mesma linha de raciocínio de alguns filósofos.  
             O Princípio de Prazer, por ele estabelecido, opor-se-ia ao Princípio de Realidade, que se caracterizaria pelo adiamento da gratificação do prazer. O Principio da Realidade faria parte do amadurecimento normal do indivíduo, ao aprender a suportar a dor e adiar a gratificação do prazer. Ao fazer isso, ele passaria a reger-se menos pelo Princípio do Prazer e mais pelo Principio da Realidade, embora, subjacente aos seus atos reinasse o prazer.
              Em sua atuação clínica, segundo seus biógrafos, Freud chegou à conclusão de que a mente funcionava de modo a alcançar o prazer e evitar o desprazer. Assim, se por último lugar o psiquismo buscava eliminar excitações, por primeiro lugar almejava alcançar prazer. Logo, a sensação de prazer era a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significava descarga de excitações. 

            Em http://psicanaliseclinica.com/principio-do-prazer-freud/ encontramos que, 

         ‘Segundo a Teoria da Personalidade de Freud, o Princípio do Prazer é o que guia o Id. Isso quer dizer que o Id é sua força propulsora. Sabemos que o que o Id busca é a satisfação imediata dos impulsos humanos, que podem ter caráter de desejo ou de necessidade primária. Sendo o princípio do prazer a força motriz do Id, podemos concluir que ele tem como único objetivo satisfazer nossos impulsos primitivos. Esses podem ser o impulso da fome, o da raiva ou o sexual’.
          ‘Lembremo-nos que para Freud o Id é a parte psíquica da mente humana que trata de desejos biológicos, presente desde o nascimento. Assim, da mesma forma como pode ser considerado a origem das mais intensas motivações humanas, é a instância mental que tende a permanecer mais enterrada no campo inconsciente’.
           ‘Basta perceber como agem os indivíduos na primeira infância. Nessa fase, o Id comanda o indivíduo. Isso quer dizer que quem guia as ações infantis é o Princípio do Prazer, orientando-as sempre no sentido de satisfazer suas necessidades básicas. As crianças menores tendem a exigir a satisfação de suas necessidades, como fome, sono e desejos variados. E o fazem sem levar em consideração o local e o momento. Isso porque nelas não se encontra desenvolvido o Ego que, por sua vez, é guiado pelo Princípio da Realidade’.
         ‘Enquanto o Id é guiado pelo princípio de prazer, o Ego é guiado pelo Princípio da Realidade. Sua principal função é satisfazer o máximo possível os desejos do Id, mas de uma forma socialmente adequada ditada pelo Superego. Nesse sentido, o Princípio da Realidade se opõe ao Princípio do Prazer. Mas não para anulá-lo. Sua função segue no sentido de mediar os impulsos do Id para que eles sejam satisfeitos de acordo com os princípios morais da realidade social’.
         ‘O Princípio da Realidade se desenvolve, assim como o Ego, a partir do amadurecimento da personalidade e da vida em sociedade. Os aspectos culturais dizem muito, portanto, do conteúdo que preencherá o Ego, ainda que sua função seja fixa’.
              ‘O Ego, regido pelo princípio da realidade, está preocupado em evitar o perigo e adaptar o indivíduo à realidade e ao comportamento civilizado. Freud destaca, ainda, que o nível pré-consciente também é regido pelo Princípio da Realidade’ 
             ‘É bastante provável que o Princípio do Prazer entre em conflito com a atividade consciente da psique. Isso porque ela se preocupa constantemente em evitar o perigo e garantir a adaptação do indivíduo no mundo exterior’.
            ‘Quando a mente é dominada pelo Principio do Prazer, que pode ser entendido aqui como a busca da satisfação de desejos, somos levados a agir de forma estritamente impulsiva. Sabemos que as ações impulsivas desprezam regras e, em consequência, não obedecem a nenhuma lógica’.
              ‘Podemos dizer, então, que o Princípio da Realidade racionaliza os impulsos arcaicos do Princípio do Prazer, de forma a delimitar, a partir de regras culturais, quais desses impulsos podem ser satisfeitos, quando podem e onde são aceitáveis’.
           ‘Freud conclui, portanto, que todo o pensamento humano é, por um lado, conflito e, por outro, compromisso entre o sistema pré-consciente (Princípio da Realidade) e inconsciente (Princípio do Prazer)’.

                Em sua obra ‘O Fenômeno Religioso sob a leitura da Psicanálise Freudiana’, Caroline Gonzaga Torres, menciona que: 

              ‘Freud nos diz que existe algo mais nos agrupamentos humanos e que forças psíquicas mais poderosas atuam no sentido de manterem as pessoas unidas. Na análise da Igreja, Freud (1921/1996) cita o líder como figura idealizada pelo grupo, tendo capacidade de proteger e castigar. Os membros do grupo o colocam no lugar de ideal do eu, possibilitando a identificação, entre si, através do ideal que é comum a todos. O ideal do eu se desenvolve como uma instância de referência. Freud (1921/1996) a observa como uma formação separada do eu, que torna possível a fascinação amorosa e a submissão à figura de um líder, quando este é colocado pelo sujeito no lugar de ideal de eu. Sendo assim, é o líder-herói que dá ao grupo a sua identidade e suas feições, imprimindo a sua referência, assemelhando-se, também, à figura paterna. Considerando que o fenômeno religioso se organiza de forma tal a possibilitar um agrupamento de pessoas, permitindo, assim, relacionamentos entre os homens, Freud (1929/1996), no texto ‘O Mal-Estar na Civilização’, apresenta sua concepção da condição humana, que busca felicidade e prazer ainda que esteja em contradição com as restrições impostas pela cultura, partindo de uma análise acerca da religiosidade’.

             Como assinala Freud, os adeptos religiosos veem o seu líder como àquele com capacidade para proteger ou castigar, segundo as ações de cada um, e o colocam no lugar de ideal do eu, tornando possível a fascinação amorosa e a submissão à figura do líder, assemelhando-o a figura paterna. Todos os verdadeiros crentes almejariam, pois, em busca do prazer e da felicidade sem limites, estar eternamente ao lado do ‘pai celestial’, objetivo este que só  alcançariam mediante a santidade. Outras religiões conduzem seus adeptos a pensarem da mesma forma; isto é, a desejarem, após o final da existência, estar em um lugar agradável, tranqüilo, felizes, ao lado dos entes queridos e das divindades. Os próprios indígenas norte-americanos, em suas concepções metafísicas do após a morte, afirmavam que, ao deixarem esta vida, iriam para os felizes campos de caça do além, onde viveriam com fartura de tudo aquilo que necessitavam.
         O raciocínio errado, no que respeita a santidade, que caracterizaria a falácia mencionada no título deste texto, trata das ações direcionadas ao objetivo santidade, por parte dos adeptos religiosos, e sobre as razões que, teoricamente, as motivariam. Relativamente às ações do adepto necessárias ao alcance do grau de santidade, segundo a Igreja de Roma, ‘o candidato deveria demonstrar que praticava, de forma heroica e continuada, as virtudes da fé; além de ter, pelo menos, um milagre a ele atribuído’.
            Por virtudes da fé, se entende as chamadas Virtudes Teologais, definidas pela igreja como a fé, a esperança e a caridade. 
            Por Fé, a igreja entende ‘a virtude pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou e que a santa igreja nos propõe para acreditarmos, por que Ele é a própria verdade. Pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus; e, por isso, o crente, procura conhecer e fazer a vontade de Deus’.
               Por Esperança a igreja entende ‘a virtude pela qual desejamos o reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo’. 
             Por Caridade a igreja entende que esta virtude ‘assegura e purifica a nossa capacidade humana de amar e eleva-a a perfeição sobrenatural do amor divino. A caridade é benevolente e, conforme afirma a igreja, suscita a reciprocidade’.

               Com respeito à necessidade de atribuição de um milagre, ao candidato a santidade, destacamos um texto do filósofo e escritor Jean Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, que, em seu ‘Dicionário Filosófico’, escrito no ano de 1764, afirmava:
             - ‘Segundo as ideias aceitas, os milagres seriam violações das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Mediante essa exposição, o milagre seria uma contradição; já que uma lei não pode ser violada’. Voltaire afirmava, ademais: - ‘Deus nada pode fazer sem razão, sendo impossível conceber que a natureza divina trabalhasse para algum homem, em particular, em detrimento dos outros; constituindo-se a mais absurda das loucuras, imaginarmos que o Ser Infinito invertesse, em favor de alguns, o movimento dessas imensas molas que fazem mover o Universo inteiro. Assim, ousar supor que Deus realiza milagres é realmente insultá-lo (se é que os homens podem insultar a Deus), e desonrar de certo modo a divindade’. Voltaire citava, ainda, que, ao perguntarem a um filósofo o que diria se visse o sol deter sua marcha e os mortos ressuscitarem, o filósofo teria respondido: - ‘Tornar-me-ia Maniqueísta e diria que existe um principio que desfaz o que o outro fez’.

           O filósofo Baruch Spinoza (1632-1677), também a respeito de milagres, afirmava: - ‘Contra a natureza, ou acima da natureza, o milagre não passa de absurdo e Deus era mais bem conhecido graças à ordem e à necessidade da natureza do que por pretensos milagres’.
                Evidentemente, quando estão envolvidos crentes fervorosos, sacerdotes devotos e autoridades religiosas que possuem interesses mercadológicos na divulgação de milagres, objetivando a expansão da fé e a aquisição de novos adeptos, os milagres dos postulantes a santidade, eventualmente relatados, acabam sendo, quase sempre, confirmados.
                Relativamente às razões que, consciente ou inconscientemente, motivariam os adeptos religiosos a almejarem atingir a santidade, todos os crentes, inclusive a própria Igreja de Roma, imaginam que permeiam, na mente e na alma dos candidatos, ideais de bondade, de sacrifício pessoal, de aceitação do sofrimento, de caridade, etc. O que quase ninguém consegue imaginar é que, muitos destes postulantes ao grau de santidade, podem estar agindo, inconscientemente, por puro prazer do Id e em busca da felicidade própria, em uma postura estritamente pessoal e egoísta; fato este que deve ocorrer com bastante freqüência segundo as inúmeras considerações, de ordem filosófica e científica, já mencionadas no início do texto.
            Mesmo ao se tecerem considerações de ordem religiosa, vemos que no próprio Budismo, criado por Sidarta Gautama, o que se objetiva com a prática deste é atingir o nirvana e, a partir de então, não mais encarnar. Ora, por que não mais encarnar? Por que não continuar, em encarnações seguintes e sucessivas, seguir auxiliando e ajudando inúmeros outros espíritos encarnados, pouco evoluídos, que continuam sofrendo neste planeta de expiação? Por puro egoísmo cada um só pensa em si, desejando atingir o mais breve possível o estagio que lhe permitiria deixar para trás o sofrimento de uma encarnação e, a partir de então, não mais encarnar e passar a privar da companhia do Criador e dos demais espíritos iluminados. Ocorre que a decisão de encarnar ou não é tomada do outro lado da fronteira entre a vida e a morte. Aquilo que, aqui, se imagina como o estado de santidade ou o nirvana, pode não ser considerado como tal do outro lado.
                                                   Muitos papas, cardeais e demais sacerdotes foram canonizados pela igreja, ao longo de sua história, e cronistas da época e historiadores possuem sobre eles uma imagem totalmente oposta àquela que a Igreja de Roma divulga com respeito a eles. Os seres humanos são entes políticos e os interesses econômicos, financeiros, políticos e estratégicos se sobrepõem aos demais.
                A santidade e o estado de nirvana, coisas semelhantes, não são buscados, portanto, por grande parte dos adeptos do cristianismo, do budismo e de outras religiões, com finalidades especificamente altruístas, mas, sim, com finalidades simplesmente egoístas, quase sempre de forma inconsciente e sem disso se darem conta. Todos os seres almejam a felicidade e os prazeres. Àqueles que não os conseguem nesta existência, sejam quais forem às razões ou motivos, restaria ainda, em um derradeiro esforço, alcançá-los após a morte, no reino dos céus e junto ao Criador de todas as coisas. Para tanto, far-se-ia necessário um comportamento virtuoso ou algum ato de sacrifício extremo ou martírio. Esta é a minha tese. Por detrás de todo indivíduo religioso que apresenta comportamento virtuoso e ascético, certamente, esconde-se os desejos de felicidade e de prazer eternos, em uma vida futura. 
               Quem acompanhou meu raciocínio, desde o início, percebeu que a própria Igreja de Roma, criada pelo imperador Constantino durante o Concilio de Niceia, absorveu muito da filosofia grega e de religiões mais antigas, como o Mitraísmo, o Zoroastrismo e o culto egípcio de Ísis, Horus e Ozíres. Os seus primeiros adeptos trouxeram, para a nova religião, recém criada, pensamentos e crenças comuns a estas filosofias e religiões mais antigas já mencionadas. 
           O referido Concílio de Niceia, promovido pelo Imperador Romano Constantino, no ano de 325 d.C., estabeleceu as bases da futura Religião Católica Apostólica Romana (até então inexistente e que somente foi criada, de forma oficial, em 381 d.C, durante o Concílio de Constantinopla), selecionando os textos que passariam a compor o denominado Novo Testamento, que teve a sua origem baseada na figura mitológica de Jesus Cristo a quem foi, proposital e posteriormente, imputada uma natureza divina, segundo pensam diversos pesquisadores iguais a mim. 
              As discussões que se seguiram ao Concilio de Niceia, sobre a deidade ou não de Jesus Cristo, tiveram sua origem em um simples fato: todos os imperadores romanos, durante o período em que o império adotara o politeísmo, eram proclamados deuses e possuíam estatuas, que eram veneradas pelos súditos do império. Por conseqüência, ao proibir o politeísmo e implantar o monoteísmo, como poderia o representante máximo daquela nova religião sendo construída por Constantino, Jesus Cristo, não ser, também, um Deus? Assim, nos concílios que se seguiram, inúmeras arestas foram sendo aparadas, contradições desfeitas e opiniões pessoais inseridas na liturgia como sendo manifestações divinas. Com o passar do tempo, tudo aquilo que tomou a forma de decisões humanas, fruto de acaloradas discussões (muitas vezes violentas, com agressões e mortes entre sacerdotes adeptos de correntes distintas), passou a ser considerado como sagrado e incorporado a liturgia da Igreja de Roma. 
                  Entretanto, para que Jesus fosse considerado Deus, havia, ainda, um problema adicional, importante, que necessitava ser solucionado: como fazer com o pai, a mãe, o irmão, os primos, os tios e os avos de Jesus (de Deus); em suma, com toda a sua família? Seriam eles também considerados Deuses? 
                      Se assim fosse, eles deveriam ser considerados, após a morte de Jesus (de Deus), a linhagem familiar deste Deus e, forçosamente, deveriam ser, por isso mesmo, os sucessores, por direito humano e divino, daquela nova igreja que o Império Romano (através de seu imperador Constantino) estava criando, o que, evidentemente, jamais ocorreu. 
                       Para retirar da família de Jesus (de Deus) o direito de sucessão da Igreja de Roma, sendo naquela ocasião criada, e transferi-lo para os sacerdotes a serem nomeados e comandados pelos imperadores, segundo os interesses da elite romana, os pais biológicos de Jesus não poderiam ser considerados Deuses, nem seus irmãos, primos, sobrinhos e tios, e, por via de conseqüência, quaisquer outros familiares, parentes e descendentes. 
                     A forma encontrada para não permitir que, tendo Jesus já falecido, o direito e os poderes para sucedê-lo, como representante e ‘Pontifex Maximus’ (Sumo Pontífice) da nova religião criada por Constantino, fossem transmitidos para seus familiares, foi uma engenhosa criação da inseminação divina de sua mãe; exemplo este que não chegou a ser original, pois foi tomado emprestado de religiões mais antigas e da própria mitologia grega, que já relatava a união carnal de Deuses com seres humanos, união esta que dava origem aos Heróis. 
                      Inúmeras semelhanças existem entre o Deus Jesus e os Deuses de outras raças e de outras culturas, mais antigas que o Cristianismo. As principais semelhanças encontradas seriam as seguintes: 
                     Mitra foi um Deus persa que nasceu de uma virgem, em 25 de dezembro (mesma data do nascimento de Jesus), há mil e duzentos anos antes de Cristo, possuía doze discípulos (mesmo número dos discípulos de Jesus), realizava milagres (como Jesus) e ressuscitou três dias depois da sua morte (da mesma forma que Jesus). 
                     Horus foi um Deus egípcio que nasceu de uma virgem, em 25 de dezembro, há três mil anos antes de Cristo, possuía doze discípulos, fazia milagres e ressuscitou três dias após a sua morte (tudo como Jesus).
                Átis foi um Deus da Frigia, nascido de uma virgem, em 25 de dezembro, morreu crucificado e ressuscitou três dias após a sua morte (tudo como Jesus) 
                    Krishna foi um Deus indiano, nascido de uma virgem há novecentos anos antes de cristo, realizava milagres e ressuscitou após a sua morte (como Jesus) 
                   Dionísio foi um Deus grego, nascido de uma virgem, em 25 de dezembro, quinhentos anos antes de cristo, fazia milagres e ressuscitou após a sua morte (como Jesus). 
                  Entretanto, para aquela nova religião que estava sendo criada, ainda restava o equacionamento de um problema crucial; ou seja, se Jesus Cristo era Deus e filho de Deus, como poderiam coexistir dois Deuses em uma religião, reconhecidamente, Monoteísta? 
                  A solução encontrada pelas elites romanas e pelos pensadores da Igreja, novamente engenhosa, foi a de criar um Espírito, de natureza santa, que uniria os dois Deuses transformando-os em um único Deus. Note-se que este espírito, de natureza santa, não sendo um terceiro Deus, teria poderes para unir dois Deuses, superiores espiritualmente a ele; o que também seria, no mínimo, uma nova contradição. 
                      Se o espírito santo fosse considerado um terceiro Deus, estaríamos em presença de três Deuses querendo se transformar em um único, o que seria, no mínimo, uma infantilidade divina. 
                     Se não estávamos em presença de um terceiro Deus, por que dois Deuses, que tudo podem, necessitariam de um espírito santo, de ordem inferior a deles, para os unirem em um único Deus? Mais uma vez, vê-se que se tratava, apenas, de tentar resolver a contradição surgida pelo fato de ter sido forçada uma divindade para a figura humana de Jesus.
                 Constata-se, pois, que, inteligentemente e com base nos conhecimentos disponíveis naquela época, as autoridades romanas e os sacerdotes da nova religião procuraram criar uma estória factível, utilizando, no entanto, similitudes com outras religiões mais antigas e buscando eliminar, com base nos conhecimentos científicos reduzidos da época, todas as eventuais contradições existentes nos fundamentos desta nova religião, contradições estas que, aos poucos, foram se apresentando. 
                  Estes são relatos históricos, disponíveis nas bibliotecas mundiais para todos aqueles que, por se interessarem pelo Império Romano e pela história da edificação da Igreja de Roma, se dispõem a passar horas, dias, semanas e meses, pesquisando a literatura existente sobre o assunto. As Histórias de outras religiões espalhadas pelo mundo, certamente, possuirão gêneses semelhantes; posto que, todas elas constituem criações humanas, mesmo que difiram em liturgia, em Deuses e em escrituras (contendo as suas origens e explicações).
               Em sua tese de doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco, cujo título é ‘A Crítica da Religião em Marx: 1840-1846’, Romero Junior Venâncio Silva, destaca como primeiro aprendizado fundamental com os textos de Marx, a partir de 1840, que: “Toda religião, qualquer religião que possamos imaginar, é uma realidade situada num contexto humano específico: um espaço geográfico, um momento histórico e um meio ambiente social concreto e determinado. Uma consequência obvia: toda religião é sempre uma invenção de seres humanos em determinado momento histórico. Uma religião que não seja de determinados seres humanos é algo inexistente, uma pura fantasia da imaginação”.
                 No que respeita a motivação dos fiéis desta nova religião romana para a santidade, podemos ver que prevaleciam entre o povo e as elites, na ocasião da criação daquela nova igreja, as teses das escolas helenistas mencionadas, quais sejam: o Epicurismo, o Estoicismo, o Ceticismo e o Cinismo. Neste contexto, buscava-se a paz de espírito, a felicidade, o prazer, evitar os sofrimentos e as dores, uma vida virtuosa em meio à natureza, uma vida baseada na Ética, a compreensão da razão universal, o bem estar moral, um estado de tranqüilidade e a ausência de perturbações. Tudo isto era buscado de forma egoística, cada um apenas preocupado consigo mesmo. O adepto do cristianismo continuou buscando as mesmas coisas; porém, a nova crença imprimiu uma modificação substancial e mais apelativa, ao consciente e ao inconsciente do homem daquela época.
                    Os homens simples, em sua maioria, incultos e súditos ou escravos do império, buscavam a felicidade e o prazer efêmeros; posto que, estes vigorariam, apenas, durante aquelas suas existências terrenas, já que eles não acreditavam que houvesse a continuação da vida após a morte.
                    A proposta de Jesus, de uma vida após a morte, no Reino dos Céus e ao lado do Criador de Todas as Coisas, trouxe novo alento àquela gente sofredora, além da esperança de novos prazeres e maiores felicidades; só que, agora, esses prazeres e esta felicidade seriam eternos. O apelo foi grande demais e tornou-se irresistível. Após vencer a resistência de algumas autoridades romanas, que viam os judeus e os cristãos como rebeldes, contrários ao império, a nova religião tomou conta de todo o império romano como a religião oficial, estendendo-se, ainda, a outros povos bárbaros e nações distantes.
                    Não nos iludamos, pois, mesmo nestes novos tempos, os seres humanos continuavam sendo como sempre foram; isto é, adeptos do prazer e da felicidade e contrários a dor e ao sofrimento. Neste contexto, segundo penso, a qualificação de santos somente poderia ser atribuída aos indivíduos que fossem adeptos do oposto, isto é, do sofrimento e das dores e contrários ao prazer e a felicidade, o que, convenhamos, não é uma característica comum encontrada entre os integrantes de nenhum dos povos ou nações do nosso planeta Terra, a não ser naqueles poucos casos patológicos estudados pela Psiquiatria.
                      Mesmo aqueles primeiros cristãos que se sacrificaram ou foram conduzidos ao martírio, conforme a História relata, com toda certeza o fizeram pela crença de uma vida melhor, eterna e cheia de prazeres e felicidade, no Reino dos Céus e ao lado do Criador de Todas as Coisas. Tanto é assim, que caminhavam felizes para a morte, certos dos prazeres e da felicidade eterna. O mesmo, na atualidade, ocorre com os fanáticos islâmicos que, conduzindo explosivos atados ao corpo, explodem-se no meio de uma multidão de pessoas, Confiando na promessa de disporem de 72 virgens ao chegarem ao paraíso.  O paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, conforme se pode ver no Alcorão:
“E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (…) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos.” Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
O mesmo ocorreu, durante a Segunda Grande Guerra, com os pilotos Camicases japoneses, budistas em sua maioria, que se suicidavam pela pátria em busca de recompensas em uma vida futura.
                       Em todos estes casos, os participantes estavam convencidos de que desfrutariam uma vida de prazeres e felicidades em outro plano de existência, em razão dos atos de coragem e de desprendimento que haviam praticado. Estavam convencidos de que a divindade criadora reconheceria e premiaria aqueles seus atos.
                Vê-se, portanto, conforme bem salientou Freud, que os seres humanos sempre foram orientados pelo Principio do Prazer, principio este que busca a satisfação de desejos internos, presentes ou futuros, e, neste afã, são levados a agir de forma estritamente impulsiva, desprezando regras e sem obedecer a nenhuma lógica, como faziam os cristãos primitivos, ao caminharem rezando, tranquilamente, para serem jogados às feras ou queimados vivos.
                   No mundo moderno, a aplicação do Principio da Realidade, pelo Ego, mascara o Principio do Prazer, que rege o Id. Assim, muitos indivíduos tidos como santos, em razão dos seus procedimentos virtuosos, apenas estariam fazendo uso do Principio da Realidade para satisfazerem os prazeres presentes e futuros do Id. Suas formas de agir e seus procedimentos não possuiriam, conscientemente, aquela conotação de desprendimento, de solidariedade, de sacrifício pessoal em prol de seus semelhantes, agindo de forma desinteressada e sem a necessidade de qualquer reconhecimento, agradecimento ou glorificação; mas, inconscientemente, seriam todas aquelas ações consideradas os meios necessários para alcançar o prazer presente (e também a futura felicidade eterna) do Id, sabendo que estes seriam, segundo as suas crenças religiosas, atos do agrado do Criador.
                   A grande dúvida, que alguns leitores poderão apresentar diz respeito à existência de Id, Ego e Superego no plano espiritual. Nos meios espiritualistas, de uma forma geral, o espírito serve de sinônimo para consciência desencarnada ou consciência extra-física. Se esta consciência continua existindo no plano etéreo, existirá também o inconsciente; portanto, Id, Ego e Superego são três características intrínsecas do consciente e do inconsciente, que, em resumo, representariam aquilo que todos nós somos e sempre seremos em nosso psiquismo, quer quando encarnados, quer quando desencarnados. Ademais, as religiões cristãs pregam a existência de céu, inferno e purgatório. O espiritismo e outras religiões espiritualistas mencionam a existência de bons e de maus espíritos, tudo como aqui no planeta Terra; logo, Id, Ego e Superego, com certeza, são características psíquicas presentes em todas as almas e em todos os espíritos.


Só a título de curiosidade, em 1590, Rudolf Goclenius já se referia a Psicologia como a Ciência da Alma. Em 1879 a Psicologia separou-se da Filosofia, da qual, até então, fazia parte. Os argumentos daqueles que pretendem que a Psicologia deixe de ser o estudo da alma e passe a ser a ciência do comportamento humano biológico, centrado no cérebro e que pode ser manipulado e controlado pela Ciência, não me convencem.
Um destes argumentos é o de que seria impossível que os ateus, os agnósticos e outros descrentes, que negassem a existência de algo além do corpo (espírito), pudessem ser psicólogos; pois, seriam psicólogos admitindo essa entidade que controla o comportamento, ou não poderiam ser ateus ou agnósticos.
A este fraco argumento, eu responderia como respondeu Galileu Galilei, depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição:  E pur si muove (mas, no entanto, ela se move).

                       - Me fiz compreender? - como gostava de dizer Friedrich Nietzsche.





Literatura Consultada

1. Aggio, Juliana O. Prazer e desejo em Aristóteles. USP, Depto. de Filosofia. Tese de Doutorado em Filosofia. SP. 2011.

2. Careguato, Marta. O conceito de prazer em Epicuro e sua relação com a Phronesis. bempensarparabemviver.blogspot.com.br

3. Psicanálise Clinica. Principio do Prazer e da Realidade para Freud. lttp://psicanaliseclinica.com

4. Rocha, Jober. A Curva do Destino. Editora Iglu. SP. 2011.

5. ___________. Filosofando com Humor. Editora Biblioteca 24 horas. SP. 2012.

6. ___________. Os Descendentes de Jesus Cristo. Inédito. RJ. 2016.

7. Silva, Romero J.V. A crítica da religião em Marx: 1840-1846. Univ. Fed. de Pernambuco. Tese de Doutorado. PE.

8. Torres, Caroline G. A perspectiva Freudiana sobre o fenômeno religioso. Revista de Psicologia. Fortaleza. V 3, Nº1,Jan/Jun 2012.CE.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

sábado, 4 de novembro de 2017



148. A Geração dos Correspondentes de Guerra


Jober Rocha*


                 Todas as sociedades sentem necessidade da Literatura. Através dela os indivíduos que as compõem aprendem, se informam, passeiam pelo espaço físico e pelo tempo, enfim, se abstraem da vida comum e enfadonha que levam em suas medíocres existências.
                               Em nosso país, nos dias atuais, noto que a Literatura dos escritores está sendo substituída pela dos jornalistas. Muito poucos leitores acompanham os lançamentos literários dos escritores nacionais. Livrarias estão cerrando suas portas. O sonho e a ficção, produzidos pelas mentes dos escritores, estão sendo substituídos pela dura realidade do dia a dia nas grandes cidades, descritas pelos jornalistas.
                             As notícias que atualmente mobilizam a nossa sociedade são aquelas que dizem respeito à violência urbana dos assaltos, dos enfrentamentos, dos combates entre as forças da lei e os traficantes de drogas, das denúncias envolvendo políticos e empresários no desvio de recursos e no superfaturamento de obras públicas.
                              O crime e a corrupção, generalizados pelo território nacional, transformaram o nosso país em uma zona de guerra, de onde os escritores se retiraram e cederam seus lugares aos jornalistas, correspondentes de guerra.
                        Ficou difícil para aqueles ter a paz de espírito necessária para dar vazão à imaginação criativa, de modo a produzir grandes e belas obras literárias, em um cenário de guerra e de devastação moral e de costumes, como o que estamos vivendo.
                           O mais fácil, para quem gosta de escrever, é transformar-se em um jornalista do cotidiano, verdadeiro correspondente de guerra preocupado, apenas, em informar sobre o desenrolar diário dos combates e sobre a ação policial e da justiça, em sua ânsia de tentar conter a sanha criminosa de uma multidão de marginais, seja nos morros e na periferia dos miseráveis, seja nas capitais (inclusive a federal) e nos gabinetes e palácios dos poderosos. 
                           Para que a população amedrontada não busque outras terras, como refugiados de guerra, insere-se na Mídia muita notícia sobre esportes, sobre seitas, sobre futilidades (como filmes, novelas, mexericos e fofocas sobre artistas), tentando mostrar que a vida segue normal e que as instituições ainda funcionam com certa tranqüilidade. Em suma, tentam mostrar que ainda “reina a paz em todo o Território Nacional”.
                        A crise econômica, o desemprego, os baixos salários, o alto custo dos livros, por sua vez, também desestimulam a oferta e a demanda literária. Quem ganha pouco não compra livros como fonte de lazer e de instrução. Quem vive daquilo que escreve, não encontrando público leitor para suas obras, fica desestimulado e reduz seu ritmo ou, até, mesmo, busca outra atividade para se manter. 
                         Os poucos escritores que continuam escrevendo são aqueles que possuem fonte de renda própria e não dependem da profissão de escritor; em suma, escrevem porque gostam e porque não conseguem reprimir a imaginação criativa, tendo que extravasá-la. Muitos, embora brasileiros, vivem e moram no exterior onde encontram a paz de espírito para produzirem suas obras, vindo aqui apenas para divulgá-las.
                      Resta, pois, aos profissionais da escrita transformarem-se em verdadeiros correspondentes de guerra, escrevendo sobre o seu cotidiano de violência; seja sob a forma de pequenos textos e de crônicas na internet, no facebook ou na imprensa.
                    Assim, vê-se uma profusão de textos diários sobre crimes vários; prisão de traficantes; mortes de policiais; desvios de recursos; delações premiadas; declarações de políticos, de advogados e de autoridades negando crimes e acusações, etc.
                         Estas são as matérias que absorvem o tempo daqueles que o possuem para ler, não restando, pois, oportunidades para a Literatura do sonho, da ficção e da abstração produzidas pelos verdadeiros literatos; já que, a dura e crua realidade da vida veio absorver a atenção e todo o tempo disponível dos leitores.
                     Estando, pois, a sociedade brasileira vivendo uma situação de guerra não declarada e não assumida por nossas autoridades que, em razão de seus interesses próprios, afirmam e reafirmam a normalidade democrática e o funcionamento normal das instituições, proliferam no Teatro de Guerra Nacional os correspondentes de guerra, jornalistas e profissionais da escrita encarregados de transmitir às populações sitiadas em suas residências (gradeadas, muradas e cercadas de arames farpados), as notícias sobre o desenrolar dos combates, as ações das forças da lei e da ordem e as reações apresentadas pelo crime organizado ou não.
                      Enquanto isso, os amantes da Literatura, sonham com dias melhores e com aqueles famosos cavaleiros cantados em prosa e verso, tão comuns na era medieval, que libertavam os povos oprimidos da tirania, dos crimes e dos maus governantes. 

_*/ Economista, Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 15 de outubro de 2017



147. Declarações que poderão ser dadas à Imprensa por aqueles políticos eventualmente envolvidos em escândalos de desvio de dinheiro público


Jober Rocha*


Acompanhando o desenrolar dos acontecimentos relativos ao denominado escândalo da Operação Lava a Jato, quando um ex-diretor, um ex-gerente de empresa estatal e um doleiro, sob o manto da delação premiada, denunciaram empreiteiros, políticos e membros do executivo envolvidos em um mega esquema de desvio de dinheiro público, cujo objetivo era comprar corações e mentes na câmara e no senado (não se trata de erro de digitação; coloquei em letras minúsculas mesmo!), além de enriquecer seus patrimônios pessoais; chamou-me a atenção as contestações apresentadas por alguns desses políticos denunciados e a simples negativa de outros em responder a perguntas, quando entrevistados pela imprensa. 
                         Os políticos que, eventualmente, fazem alguma declaração afirmam sempre serem mentirosas as acusações que pesam sobre eles, muito embora, dentre as regras da delação premiada, os delatores devam apresentar provas daquilo que denunciam - e, certamente, eles as apresentaram.
Lembrei-me logo das antigas entrevistas concedidas por um ex-governador paulista, quando jornalistas lhe perguntaram sobre suas contas na Ilha Jersey (uma das ilhas do Canal da Mancha para onde ele havia transferido, segundo acusações que lhe fazia o Ministério Público, o dinheiro de propinas arrecadado em obras públicas realizadas quando à frente do governo paulista e naquela ilha depositado, louvando-se no sigilo bancário daquele paraíso fiscal). Dizia o referido político para a Mídia: - Desafio que provem que aquele dinheiro é meu! Quem conseguir provar pode ficar com ele para si! (Ao fazer esta declaração ele sabia que os banqueiros de Jersey não forneceriam, jamais, o nome dos titulares das contas ali existentes).
Como sei que nossos atuais políticos atualmente acusados na Lava a Jato (bem como aqueles que ainda virão a ser, com o decorrer do processo), tal qual o ex-governador paulista, jamais serão réus confessos, apresento, a seguir, onze desculpas que, convenientemente decoradas, poderão ajudá-los durante suas entrevistas na mídia, ao desembarcar em aeroportos ou comparecer a inaugurações e demais eventos de natureza política.

                   Sugestões de declarações que poderão ser dadas em momentos críticos:

1. Meus caros amigos jornalistas, eu jamais recebi qualquer centavo das mãos daqueles que ora me acusam. Vivi durante toda a minha vida de maneira monástica nas montanhas do Tibete e cheguei ao país apenas ontem. Não sei de nada sobre este assunto Lava a Jato. Eu nem tenho carro e ando sempre a pé. Vim ao Brasil, apenas, para realizar uma palestra sobre levitação, destinada aos monges brasileiros. Por favor, me deem licença que estou muito cansado da longa viagem!

2. Desafio a estes delatores que hoje me acusam, a mostrar uma única nota de real com a minha impressão digital gravada. Isto é uma mentira que assacam contra a minha pessoa e, estejam certos, vou processar aqueles que me denigrem na Corte Internacional de Haia, pois, infelizmente, não confio na justiça brasileira, sempre parcial e tendenciosa!

3. Prezados jornalistas, sou deputado há várias legislaturas e já consegui, desde muito tempo atrás, formar meu imenso patrimônio pessoal. Eu não teria mais necessidade, hoje em dia, de entrar em um esquema de corrupção milionário como este, que pouco acrescentaria ao meu patrimônio já bilionário!

4. Meus caros senhores jornalistas, são absolutamente inverídicas estas acusações que me atribuem estes delatores. Minha imensa fortuna foi conseguida tanto no setor energético, quanto através de advocacia administrativa junto aos bancos oficiais. Todos os projetos do interesse de amigos do executivo e de empresários, que propus e aprovei no legislativo, tiveram por objetivo, tão somente, poder indicar parentes meus para cargos de direção na administração pública e jamais foram motivados por dinheiro. Quando muito podem me acusar de nepotismo, mas não de corrupção!

5. Depois destas denúncias, prometo que jamais me candidatarei novamente a um cargo eletivo. Estou enojado destes promotores, delegados e juízes, que, em um simulacro de Inquisição moderna, só pensam em colocar na fogueira aqueles que pensam de maneira diferente da deles e possuem outras convicções de ordem moral e ideológica. Considero-me um segundo Sócrates, assassinado moralmente pela elite judiciária dominante!

6. A posteridade, certamente, me dará razão. Segundo os filósofos e os economistas clássicos, se você não sabe cuidar do seu dinheiro, deixe outro que o saiba se apropriar dele e multiplicá-lo em benefício da coletividade. Foi simplesmente o que fiz durante meus mandatos. Isto não é um reconhecimento de culpa da minha parte, mas, apenas, uma afirmação de caráter filosófico, que faço com base nos pensadores antigos!

7. Estas denúncias, que os delatores fizeram a meu respeito, nada mais são do que um grande complô armado contra a nossa Democracia e engendrado pelos conspiradores Illuminatis, contando com o apoio da Maçonaria, abençoado pelo Vaticano, financiado pelos USA e contando com a ajuda de alguns extraterrestres infiltrados em nossa justiça e na Polícia Federal!

8. Pensem bem, meus caros jornalistas, e raciocinem comigo simplesmente com base na lógica formal: Se eu houvesse ganhado esta montanha de dinheiro de que me acusam os delatores, vocês não acham que eu teria comprado todos os policiais, promotores e juízes deste caso e meu nome nem apareceria no processo, como sempre ocorreu em nosso país em casos semelhantes? Logo, não é verdadeira a acusação que me fazem, pois meu nome ainda está lá no processo judicial e, até mesmo, com destaque!

9. Fazendo uma autocrítica sobre o meu mandato, encontrei um único motivo relevante para que os delatores pudessem envolver meu nome nas denúncias: votei contra o projeto de casamento entre homo-afetivos submetido à câmara com pedido de destaque. Não sei não, mas aqueles delatores que me acusaram, flagrados sempre aos cochichos com os policiais e com os promotores, pelos cantos escuros das delegacias, me parecem que jogam no time contrário ao meu...

10. Denúncias como estas de que me acusam já ocorreram no pretérito e nunca foram apuradas ou sequer tiveram qualquer corolário. Nossos suspicazes promotores e juízes não se deixarão embair ou esbulhar por qualquer rufião leviano que, intempestivamente, levante, a sorrelfa, alguma aleivosia malévola acerca da altivez, decência e apreço de doutos políticos pátrios como eu!

11. Senhores jornalistas, nesta oportunidade, nego-me a tocar neste assunto com a imprensa; a não ser que seja, por ela, bem remunerado. Notícias como estas, de que disponho em primeira mão, envolvendo vários colegas e altas autoridades do governo, valem bem uma centena de milhares de dólares. Sugiro que voltem às suas redações e conversem com seus diretores e editores; se estes aprovarem o pagamento daquilo que peço, me procurem em meu gabinete parlamentar na quinta-feira, pois não trabalho na segunda, terça, quarta e sexta. Nestes dias estou junto às bases eleitorais em meu Estado!


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.