quarta-feira, 18 de julho de 2018

238. Crônicas curtas sobre o País da Corrupção



Jober Rocha*



1.    Na Instituição Financeira Governamental

                                Um empresário nacional, cuja empresa necessitava fazer investimentos para sobreviver, tendo necessidade de recursos a baixo custo, isto é, subsidiados pelo governo, procurou um amigo que era, por sua vez, amigo do gerente de uma instituição de crédito governamental, para pedir que conseguisse uma entrevista com o referido gerente, pois necessitava de um vultoso empréstimo financeiro.
                                         O amigo, após transcorridos alguns dias, agendou uma entrevista entre o empresário e o gerente, a qual também compareceu.
                                                Feitas as apresentações, tomados os copos d’água e os cafezinhos de praxe, o empresário relatou ao gerente as dificuldades pelas quais passava a sua empresa e, apelando para a amizade comum que tinham, ele e o gerente, para com o apresentador de ambos, pedia que a sua solicitação de crédito àquela instituição fosse atendida.
                                                    O gerente, acendendo um finíssimo e caro charuto cubano, perguntou ao empresário, aparentando um leve ar de filósofo: - O amigo, como eu, também possui alguma religião?
                                                   O empresário respondeu que sim e acrescentou, ainda, que era devoto de Santa Edwiges, padroeira dos comerciantes e dos empresários endividados.
                                                     O gerente, dando uma longa baforada do charuto, continuou: - Então, sempre que você ou alguém da sua família adoece, imagino que peça ajuda ao nosso Deus e à sua padroeira, não é assim?
                                                    O empresário concordou imediatamente, relatando que, certa vez, havia prometido uma ou mais novenas completas, caso se curasse de uma crise de hemorroidas sem a necessidade de intervenção cirúrgica. Como a inflamação diminuísse dias depois, passou várias semanas rezando em agradecimento à graça alcançada.
                                                    O gerente, ainda degustando o perfumado charuto cubano, acrescentou: - Caro amigo - creio que posso chama-lo assim – se você, para uma simples crise de hemorroidas oferece novenas ao Criador, para uma situação grave como esta pela qual passa a sua empresa - que considero como uma sua filha, pois você a fez nascer e crescer – qual a oferenda que você pretenderá fazer ao seu Salvador, neste caso o amigo gerente aqui presente e à sua disposição?
                                                  O empresário, que já possuía longa experiência no trato com políticos, fiscais e despachantes, respondeu: - Excelência – creio que posso chama-lo assim – como disse Jesus em Mateus 22:21, ‘a César o que é de César’, digo eu também ‘ao Gerente o que é do Gerente’. Fique tranquilo que a oferenda que farei ao meu Salvador será equivalente, em moeda corrente, a diversos caminhões contendo velas, flores, imagens e materiais de construção diversos para as obras da matriz.
                                                  O gerente, apagando o seu charuto no belo cinzeiro de cristal sobre a mesa, levantando-se, finalizou dizendo enquanto dava um fraternal abraço no novo amigo empresário e apertava a mão do amigo comum: - Face a esta crise moral e de valores que corrói a sociedade em nosso país, nada como os verdadeiros religiosos e tementes à Deus se apoiarem mutuamente. Concordam comigo, meus queridos amigos?




2.    No Hospital Público

                                                    A sala de espera estava lotada. Pacientes com febre, falta de ar, pressão alta, pressão baixa, enjoos, dores diversas, etc. amontoavam-se nas poucas cadeiras disponíveis e no chão úmido e sujo daquele hospital público, quando cheguei com meu vizinho de porta, após eu haver agendado uma consulta particular, paga antecipadamente a uma senhora que ali trabalhava e que prometia atendimento imediato e sem fila.
                                                             Antes, porém, é necessário que eu relate aos leitores qual era o problema do meu vizinho e amigo. Segundo ele me relatara algumas semanas antes, enquanto tomávamos uísque e comíamos umas linguiças fritas elaboradas por sua esposa, um dia pela manhã, ao tomar banho e ensaboar-se, sentiu um pequeno caroço sob a pele do pescoço.
                                                       Como tinha horror a médicos e doenças não comunicou o achado à mulher, nem aos filhos; porém, com o passar dos dias, além de doer e incomodar o caroço havia aumentado de tamanho, passando a se tornar visível.
                                                      A esposa ao perceber o caroço, durante o almoço, sugeriu-lhe a ida ao hospital. Ele, no entanto, atarefado com seu trabalho de vendedor ambulante, deixou de lado o tal caroço; já o considerando como um adorno permanente que o acompanharia pela vida a fora.
                                                Dias depois, no entanto, mais precisamente hoje, como o caroço passasse a doer muito ele me pediu que o acompanhasse até o hospital, o que fiz; não sem antes ligar para a minha conhecida que lá trabalhava e depositar em sua conta corrente o valor da consulta.
                                              Lá chegando, portanto, meu amigo foi prontamente atendido por uma enfermeira que gritou da porta: - Senhor Ariovaldo Benigno!
                                         Caminhando em direção à enfermeira, ele adentrou a sala de exames enquanto eu esperava do lado de fora, observando aquela multidão de pacientes esperando a sua vez de ser atendida.
                                                   Finalizada a coleta de material (exame de sangue e biópsia), a enfermeira pediu que ele aguardasse na sala de espera, onde estavam todos os demais pacientes.
                                                   Ficamos ali, em pé, por quase duas horas, aguardando a liberação do resultado. Subitamente, quando já não aguentávamos mais de cansados, abriu-se a porta da sala de exames e uma enfermeira chamou: - Senhor Ariovaldo Maligno!
                                                  Como nenhum dos presentes se manifestasse, ao ouvir aquele nome sendo chamado pela segunda vez, o meu vizinho, timidamente, perguntou: - Senhorita, não será Ariovaldo Benigno?
                                                    A enfermeira, com um sorriso estranho nos lábios, prontamente e em voz alta, respondeu para que todos na sala ouvissem: - Não, senhor Ariovaldo, no seu caso é maligno mesmo!
                                                     Desenganado desde então o meu vizinho Benigno aguardava em sua casa, tomando uísque e comendo linguiça frita junto comigo, o dia em que, após ser mortalmente nocauteado por “Maligno‟, partiria definitivamente para os “Campos Sagrados de Caça‟, conforme costumava se referir ao território do além...


3.    Um Político Honesto

                                        Não desejo que aqueles que me leem pensem que brinco com seus sentimentos e com suas emoções, ao denominar este texto de ‘Um Político Honesto’. Sei que é difícil imaginar algo parecido; porém, o fato que passarei a narrar foi por mim mesmo testemunhado, já que convivi por longo tempo com o seu protagonista, como amigo particular e colega dos bancos escolares, e, para mim, também foi uma grande surpresa o desfecho final deste insólito caso.
                                                Desde pequeno fomos vizinhos em um pequeno prédio residencial do subúrbio. Crescemos juntos como colegas de escola, companheiros de partidas de futebol e, mais tarde, na adolescência, frequentadores assíduos dos bailes e festas nas casas das jovens do bairro.
                                                Ele, desde garoto, possuía o dom da palavra e do convencimento. Toda vez que alguém aniversariava, ele era o escolhido para fazer a saudação; panegirico este que emocionava não só ao aniversariante, como, também, a sua família e os demais convidados. Sempre que ocorria alguma discussão entre duas ou mais pessoas, em ambiente no qual ele se encontrasse presente, a sua intervenção na conversa fazia com que a opinião dos presentes convergisse para a dele, em razão dos seus argumentos e do seu poder de persuasão que tinha.
                                                 Nunca - que eu visse - falou alguma palavra indelicada ou algum palavrão, faltou com a verdade, agiu com injustiça, fez alguma covardia, foi descortês com alguém, apropriou-se de algo que não lhe pertencia, maltratou algum ser humano ou, mesmo, qualquer animal. Era estimado por todos, na escola, no clube, na vizinhança, no bairro.
                                                     Talvez em razão disto tudo, quando atingiu a maioridade, seus amigos mais chegados sugeriram que ele ingressasse na política partidária, como forma de poder contribuir para a melhoria do bairro, onde vivera a maior parte da vida e onde possuía uma multidão de amigos.
                                                      Inicialmente contrário à ideia – já que dentre todas essas suas qualidades, ainda existiam as da modéstia e da premonição – relutou durante alguns anos, mas, finalmente, sucumbindo à pressão dos amigos, acabou se filiando ao Partido dos Suburbanos Inconformados e Unidos – PSIU e candidatando-se a uma cadeira de vereador, na Assembleia Legislativa do município, nas eleições daquele ano.
                                                       Durante os comícios pelas praças do bairro, a multidão em peso acorria para ouvi-lo falar sobre seus programas e propostas de melhoria para a comunidade. Foi eleito vereador com milhares de votos. Creio que o bairro inteiro - além de vários outros bairros vizinhos - deu seu voto para ele.
                                               Empossado, começaram os seus problemas. Tendo recusado um cargo de direção na administração municipal, para que o suplente ocupasse a sua vaga de vereador e ele, na função de diretor de órgão municipal, conseguisse desviar recursos financeiros para o partido pelo qual se elegera - através de concorrências fraudadas e superfaturadas - foi logo mal visto pelo seu próprio partido político, que, a partir de então, passou a considerá-lo como um traidor.
                                               Tendo, logo a seguir, recusado uma verba mensal concedida pela prefeitura – verba esta oferecida para todos os vereadores – destinada a comprar seus votos favoráveis naquelas matérias do interesse do prefeito, passou a fazer parte das listas negras, tanto da casa onde se reunia para legislar quanto da prefeitura.
                                                  A partir de então, todos os projetos que apresentava eram sistematicamente rejeitados pelos seus pares. Era sempre visto sozinho em seu gabinete; nem seus próprios assessores e assistentes apareciam por lá.
                                                   Os eleitores do bairro, depois de algum tempo, vendo que nenhuma das promessas que ele havia feito fora cumprida (pois o bairro continuava igualzinho como sempre: ruas sujas, esgotos a céu aberto, terrenos baldios com o mato alto, falta de coleta de lixo, falta d’água, ruas esburacadas, hospitais carentes de médicos, pouco transporte coletivo, etc. etc. etc.), passaram, a partir de então, a falar mal dele. Diziam que era igual a todos os demais políticos; isto é, prometia apenas para obter votos, já sabendo, de antemão, que nada faria daquilo que havia prometido.
                                                   A noiva que possuía antes de ser eleito, acabou por abandoná-lo ao saber das coisas que ele contava sobre a vida de político. Abandonou-o, porque não via nele nenhum futuro na política e nem na vida pessoal. A recusa dele em receber aquela pequena fortuna que lhe havia sido oferecida, foi uma gota d’água que entornou as taças de champanhe com que brindariam o casamento já marcado para o mês seguinte. Como ser a feliz esposa de um político de sucesso – pensava ela – que não cuidava do conforto e bem-estar da família e dos futuros filhos que, certamente, pretendiam ter?
                                                  Os eleitores, antes contados aos milhares e agora contados às dezenas, o evitavam sempre que podiam. Não frequentavam mais o bar do Manoel nas quintas feiras - dia em que ele por lá costumava aparecer, desde muito antes de se tornar um político – para não o encontrar e, eventualmente, poder chegar até as raias de vir a agredi-lo fisicamente, durante alguma discussão mais acalorada.
                                                 Seus poucos amigos achavam que em defesa dos eleitores e de suas demandas, todos os comportamentos políticos, mesmo os viciosos, eram válidos na vida de um vereador. Eram adeptos do ‘Rouba, mas faz’! - frase esta dita com certo orgulho por muitos eleitores, em determinada ocasião, referindo-se a um político local.
                                                 Todos no bairro o criticavam por não haver aceitado suborno; propinas estas que, mantendo-o ‘bem’ na política municipal, permitiria a eles - seus eleitores - verem atendidas as suas reivindicações em prol do bairro em que residiam. Todos eles, em seu lugar, teriam aceitado aquele ‘acerto’ proposto pelo prefeito e, por isso, não entendiam o seu comportamento ‘moralista’ e nem o perdoavam. Na assembleia legislativa ele se sentia como um ‘peixe fora d’água’. Era como se falasse outra língua (gaélico ou provençal, por exemplo), que nenhum dos seus pares entendia.
                                                     Esperou o seu mandato terminar e deixou o partido e a política, para sempre. De que adiantava – pensava ele - pelejar por um povo acostumado a ‘levantar templos aos vícios e cavar masmorras às virtudes’ (endeusar o errado e demonizar o certo)?
Aquele era um povo que aceitava o mal, buscando angariar o bem para si mesmo. Um povo que era conivente com a fraude, desde que aquilo resultasse em alguma melhoria para o seu bem-estar pessoal. Um povo que passava por cima da moral e dos bons costumes, se vislumbrasse, com isto, alguma benesse para si, para sua família ou para seu grupo social.
                                                         Assim, meu amigo de infância concluiu que era melhor viver isolado em uma ilha deserta, longe daqueles eleitores oportunistas e egoístas.
                                                        Isso, meus caros leitores, foi o que ele declarou, particularmente, a mim como seu amigo e antigo companheiro de juventude e, também, publicamente, perante a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI, que apurava desvio de recursos e malversação de fundos públicos, durante seu mandato; já que ele era um dos principais acusados de chefiar uma quadrilha que fraudava concorrências, extorquia empresários e participava de inúmeros negócios escusos no município e no Estado.
                                                            Fora descoberto, ao ser investigado pelo Ministério Público, em razão da aquisição de milionária e cinematográfica ilha (com dezenas de suítes, varandas, salas, garagens de barco, porto para atracação de iates e aeroporto para pouso e decolagem de aviões e helicópteros), situada no litoral do Estado e adquirida por cinquenta milhões de dólares, conforme a escritura de compra e venda em poder das autoridades judiciais. Vivia na ilha com a amante, depois que terminou o noivado com aquela moça do bairro, que namorava desde os tempos de colégio.
                                                            Até hoje, ainda não sei em quem acredito - se nele, meu amigo e vizinho de infância, ou se nos promotores que o acusam. Ele sempre me pareceu um camarada tão sério, tão certinho e tão honesto...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.
   

segunda-feira, 16 de julho de 2018


237. Nós e Eles


Jober Rocha*

 



                                     Segundo podemos encontrar em qualquer gramática, os pronomes pessoais são aqueles que possibilitam que permutemos os substantivos, indicando diretamente as pessoas do discurso.
                                                 Quem fala ou escreve assume os pronomes eu ou nós. Usa os pronomes tu, vós, você ou vocês para designar a quem se dirige. E utiliza ele, ela, eles ou elas para fazer referência à pessoa, ou às pessoas, de quem fala.
                                                      De acordo com o Dr. Yuval N. Harari, em sua obra Uma Breve História da Humanidade, “a evolução fez o Homo Sapiens uma criatura xenofóbica. Os Sapiens dividem a humanidade instintivamente em duas partes, ‘nós’ e ‘eles’. Nós somos pessoas como você e eu, que partilhamos a mesma língua, a mesma religião, os mesmos costumes”. Eu acrescentaria, ainda, e as mesmas ideologias.
                                                  Ainda, segundo Yuval, “nós somos sempre distintos deles, e não devemos nada a eles”.
                                                      Isto me recorda um fato ocorrido há muitos anos, quando meu filho (na ocasião com seis ou sete anos) foi apresentado, por mim, a um amigo meu. Este amigo, ao saber que ele se chamava Renato, disse ao meu filho que também possuía um filho pequeno chamado Renato. A resposta que o meu filho deu surpreendeu a nós dois, quando disse: “É, mas só eu sou o verdadeiro”! 
                                                     A partir de então, sempre que o meu amigo me via perguntava pelo Renato ‘Verdadeiro’.
                                                  Este preâmbulo todo teve por objetivo introduzir uma hipótese que tem me ocorrido, cada vez com maior intensidade de certeza, nos últimos meses. Trata-se da hipótese de os brasileiros estarem caminhando, a passos largos, para o chamado Niilismo, conforme descrito pelo filósofo Friedrich Nietzsche.
                                                    A palavra Niilismo traduz um conceito que, por estar relacionado à Ética e à Moral (além de abranger, também, restritamente a Filosofia e a Literatura), passou a alcançar diferentes áreas do conhecimento humano, como a Ciência, a Arte, a Política, as Teorias Sociais, etc.
                                                Trata-se de um sentimento (ou de uma percepção) que acomete o indivíduo com relação à ausência de finalidade e de respostas ao porquê da sua existência; isto é, refere-se à própria desvalorização do motivo de existir.
                                                      Tal sentimento faz com que os valores humanos sejam depreciados e os princípios que norteiam a vida social se dissolvam. Como já dito por alguém, em algum lugar: “A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais encontra-se despedaçada, o que torna difícil ao indivíduo prosseguir em seu caminho ou, então, permitir que ele aviste um ancoradouro”.
                                                    Um dos principais filósofos a estudar o Niilismo foi o alemão Friedrich Nietzsche, embora depois dele outros tantos tenham se ocupado deste tema (Spengler, Max Weber, Heidegger, Sartre e Albert Camus, por exemplo). A origem do conceito pode ser encontrada em Platão e no Cristianismo; muito embora, uma das primeiras menções ao Niilismo tenha sido feita durante a Revolução Francesa, para se referir àqueles que não eram nem a favor nem contra a revolução.
                                                     Nietzsche, segundo alguns autores, distinguia dois tipos de Niilismo: o passivo e o ativo. 
                                                     O primeiro ele considerava uma evolução do indivíduo, quando, demolindo antigos valores, dava lugar a novos valores que, por sua vez, não seriam fixos; pois tal determinação era considerada como uma atitude negativa, conforme pensava o filósofo.
                                                     O segundo tipo propunha uma atitude mais ativa, renegando valores metafísicos tradicionais e redirecionando a força vital do indivíduo para a destruição da moral vigente. Após esta destruição tudo cairia no vazio, sendo a vida desprovida de qualquer sentido e, na falta de quaisquer valores, restaria ao indivíduo apenas esperar pela morte.
                                                         O Niilismo já teve sua ocorrência verificada como um fenômeno característico da vida social: na França, durante a Revolução Francesa, conforme já mencionado, e na Rússia Czarista de Alexandre II, no período de 1881 a 1885. Condições diversas (de ordem política e econômica, mas também cultural e ideológica) proporcionaram ambiente propício ao seu desenvolvimento, que se apresentou como uma reação popular às antigas concepções religiosas, metafísicas e idealistas, até então vigentes.
                                                  Uma atitude negativa e de desprezo caracterizou o movimento Niilista na Rússia daquela época; todavia, isto tudo estava mais ligado a valores pessoais dos indivíduos do que, propriamente, a uma atividade política.
                                                        Voltando ao que dizia o filósofo, vemos que Nietzsche destacava três momentos na vida do indivíduo, para que o Niilismo nele se instalasse.
                                                         O primeiro deles se apresentaria quando de crise na denominada ‘categoria meta’; ou seja, quando o ser humano tomasse consciência da chamada ‘agonia do em vão’, isto é, quando se desiludisse com relação à existência de uma meta em sua vida ou quando compreendesse que, mesmo no futuro, nada seria obtido ou alcançado por ele, rompendo, assim, uma das vigas de sustentação dos seus valores tradicionais.
                                                             O segundo momento estaria relacionado à denominada ‘categoria unidade’ e se daria quando o indivíduo perdesse a crença em um sentimento universal, isto é, em uma unidade de sentimentos que abrangeria a todos os seus iguais. Esta totalidade ou universalidade, sustentada pela unidade, teria por finalidade última a crença no seu próprio valor individual. A descrença no sentimento de universalidade de sentimentos derrubaria, assim, a segunda viga de sustentação dos valores tradicionais.
                                                          O terceiro momento ocorreria quando o indivíduo vislumbrasse estar localizada em suas próprias carências psicológicas, a verdadeira razão que deu origem a criação de todo um arcabouço metafísico para orientar e sustentar seus valores éticos e morais.
                                                         O Niilismo que acometeria o indivíduo, neste terceiro momento, seria, assim, a resposta dele ao se contrapor (por total descrença) a crença na existência de um mundo real (e metafísico) que pudesse verdadeiramente nortear o seu futuro e, certamente, melhorá-lo.
                                                          Fazendo, agora, uma ilação, entre tudo isto dito anteriormente e a situação vivida por grande parte dos cidadãos brasileiros, na atualidade, encontramos motivos para pensar na possibilidade de estar sendo, rapidamente, instalado entre a nossa gente um sentimento Niilista como aquele definido por Nietzsche, sentimento este que tenderia a se generalizar.
                                                     Explico-me melhor: o primeiro momento (crise da categoria meta), salientado por Nietzsche, já ocorre há algum tempo. Em qualquer dos quatro campos do Poder Nacional (Econômico, Político, Militar e Psicossocial), por mais que a sociedade se dedique ao trabalho de construir o país e que os anos passem, sempre ficamos no mesmo lugar ou, até mesmo, caminhamos para trás.
                                                             Se isto é notado no nível macro, o mesmo pode ser percebido também no nível de micro unidades; isto é, entre as famílias e as pequenas empresas, notadamente, em decorrência do alto custo de vida; da burocracia; da corrupção generalizada que faz com que as coisas só caminhem quando a propina é distribuída; das carências de toda ordem nos vários setores da vida nacional; da recessão econômica que a todos atinge com o fantasma do desemprego e da elevadíssima carga tributária incidente sobre os preços das mercadorias, sobre o custo dos serviços, sobre os salários e as rendas.
                                                        Em raríssimos casos, ao final de uma existência toda dedicada ao trabalho, o brasileiro pode gozar de uma velhice tranquila, sem preocupações de ordem financeira. Em razão da estrutura política montada no país e do aparelhamento político partidário e ideológico das instituições dos três poderes, constata-se a quase total impossibilidade de uma eventual mudança no quadro vigente, em que pesem as manifestações públicas clamando por tais mudanças já realizadas por todo o país.
                                                         Em pleno século XXI restam por fazer, no Brasil, reformas na Educação, na Política, no Sistema Financeiro, no Sistema Fiscal, na Saúde, na Segurança Pública, na Agricultura, na Estrutura Fundiária, etc. etc. etc. A primeira viga, portando, já estaria, assim, comprometida.
                                                      O segundo momento (crise da categoria unidade) também já estaria ocorrendo, com a nossa população dividida em categoria ou classes pela ideologia de esquerda implantada, que visaria fracionar a unidade nacional da população, estabelecendo distinção e antagonismos que coloquem em lados opostos e como inimigos os ricos, os remediados e os pobres; os negros, os pardos e os brancos; os comunistas/ socialistas e os capitalistas; os democratas, os progressistas, os conservadores, os liberais e os ditatoriais; os heterossexuais, os bissexuais, os transexuais e os homossexuais; os católicos, os protestantes, os espíritas, os ateus; os sulistas, os nortistas e os nordestinos; etc.
                                                   O estabelecimento de todas estas diversidades, que separariam os indivíduos ao invés de os unir, estaria acabando com o sentimento de unidade e dando ensejo a intensificação do já natural sentimento do Eu e do Eles; ou seja, do ‘salve-se quem puder’. A segunda viga, portanto, também já poderia estar carcomida.
                                                      O terceiro momento, embora de caráter mais intelectualizado, poderia também ser vivenciado pelo homem comum, desde que houvesse uma transvaloração de seus valores (conforme mencionado por Nietzsche; isto é, quando o indivíduo acreditasse que o mal era um bem, que o vício era uma virtude e que esta era viciosa); o que, sem dúvida, já vem ocorrendo desde algum tempo e proporcionado pela Mídia nativa, através da divulgação do denominado ‘ comportamento politicamente correto’, comportamento este que tenderia a substituir a moral tradicional, estabelecida pela Religião, por uma nova moral estabelecida pela ideologia política.
                                                  Voltando ao Niilismo russo, podemos constatar que o mesmo, na ocasião em que ocorreu naquele país, não possuía nenhuma intenção revolucionária ou um ideal de reconstrução social; todavia, tendo sido reprimido violentamente pela polícia do Czar (que prendeu e matou suas principais personalidades), fez recrudescer as ações de ambos os lados e acabou pelo assassinato do próprio Czar Alexandre II, avô de Nicolau II que, por sua vez, destronado e morto pela Revolução de 1917, ensejou o fim a dinastia dos Romanov.
                                                Dentro dos marcos aqui traçados anteriormente, da mesma forma que aquele Niilismo russo, o nosso eventual Niilismo também não possuiria, creio eu, uma intenção revolucionária por parte do povo em geral, muito pelo contrário; embora possa ter, da parte de uma minoria liberal e democrática mais intelectualizada e politizada. A motivação principal do brasileiro comum (violentado pelo crime, desempregado ou subempregado, sem saúde e escolaridade, estaria mais ligada à valores pessoais do que a quaisquer conotações de cunho político-partidário ou, mesmo, ideológica.
                                                     Tratar-se-ia tão somente de cidadãos pacíficos que, em razão da crescente onda de violência urbana e rural; bem como, contrários ao desvio de recursos públicos e a corrupção generalizada (praticados estes sem nenhum constrangimento pelos detentores do poder, integrantes dos três poderes da república e do meio empresarial), influenciados pelo novo comportamento ‘politicamente correto’ divulgado e incentivado pela Mídia a serviço de uma ideologia socialista Fabiana e Gramscista, passariam a descrer dos valores éticos e morais tradicionalmente vigentes; bem como, da possibilidade de um futuro melhor para si mesmo, seus familiares e seus negócios, por não acreditarem mais neste futuro, haja visto o quadro de falência generalizada, ao estilo venezuelano, que se delineia para o futuro do Brasil, caso a esquerda, responsável por tudo isto, continue no poder a partir das próximas eleições presidenciais.
                                             Muitos brasileiros pensam e proclamam, para quem queira ouvir, seus desejos de mudarem-se do país (a exemplo do que já ocorre na Venezuela), só não o fazendo em grandes proporções por dificuldades várias (de ordem financeira; de dificuldade de transporte, em razão de nossas dimensões continentais e da enorme distância que nos separa dos principais países do Primeiro Mundo, como os da Europa e os USA; de avançada idade cronológica de muitos; de restrições externas para a imigração; etc.).
                                               Diversos pensadores, jornalistas, escritores, cientistas sociais, economistas, etc., falam em décadas perdidas (como também ocorre na Venezuela); ou seja, períodos recentes em que deixamos de crescer e nos desenvolver econômica e socialmente ou, mesmo, em que regredimos para níveis bastante inferiores a outros já alcançados, por nós mesmos, no passado. Estas décadas perdidas nada têm a ver com a conjuntura internacional e foram perdidas, exclusivamente, por um mau planejamento, pelo desvio monumental de recursos públicos para os bolsos das elites no poder e pela má gestão da coisa pública pelos últimos governos.
                                                     A crescente desnacionalização de setores empresariais ligados a exploração mineral, a agroindústria, a energia, as comunicações, etc. reduz a perspectiva de empregos para os brasileiros, substituídos por estrangeiros que entram em nosso país com facilidade, seja legalmente, seja de forma ilegal.
                                                – “Nada parece dar certo em nosso país. Tudo é feito de maneira errada e na contramão da História e daquilo que faz o resto do mundo”! – São frases ditas, com frequência, por gente do povo e por profissionais de várias áreas.
                                               Pelo exposto até aqui, as pré condições para o estabelecimento generalizado do Niilismo em nosso país, da forma como definida por Nietzsche, eu creio que já existem.
                                                 Se ele vai ou não se instalar, definitivamente, nos corações e nas mentes dos nossos cidadãos dependerá, em muito, da ação futura de nossos eleitores elegendo o único candidato liberal e democrático, sem vínculos ideológicos com a esquerda, e de alguns poucos juízes, promotores, delegados, militares e políticos com visão de futuro, patriotas e compromissados com o combate à corrupção e ao crime de uma maneira geral; como também com a manutenção da Ética e da Moral tradicionais.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

quarta-feira, 11 de julho de 2018


236. Sobre o medo de se expor publicamente no Brasil



Jober Rocha*


                                       O receio ou o medo de se expor publicamente, atualmente em nosso país, é mais comum do que imaginamos. Ocorre com frequência entre pessoas honradas, de boa índole, que têm um nome a preservar, quer sejam normalmente artistas, profissionais das ciências ou qualquer ser humano comum, chamado a dar o seu ponto de vista sobre alguma coisa de maneira pública, através de áudio, vídeo ou por escrito, em qualquer tipo de Mídia ou nas redes sociais.
                                                        Entre os artistas, o receio de que a sua arte não seja do agrado de quem a vê, ouve ou lê, faz com que muitos trabalhem com pseudônimos ou com nomes artísticos. Previnem-se desta forma contra possíveis críticas aos seus trabalhos, por parte daqueles que tomaram contato com as suas produções e delas não gostaram ou a criticaram em alguns de seus vários aspectos. Como estes artistas não estão, ainda, convencidos da qualidade daquilo que produzem, utilizam-se deste artifício que, supõem, preservaria as suas identidades verdadeiras, no caso de não verem as suas produções apreciadas pelo público.
                                                    Entre profissionais das ciências, muitos brasileiros receiam que suas eventuais teorias, ou ideias, ou teses, ou monografias, tenham falhas não percebidas e que possam ser ridicularizadas com as suas divulgações no meio científico (interno e/ou externo) e, com isso, não as publicam em livros, revistas ou periódicos, guardando-as para eventual divulgação pós-morte.
                                                 Durante a vigência de regimes ditatoriais ou totalitários, também, mas por outras razões, os cidadãos têm medo de dizer o que pensam sobre as ações do governo ou sobre temas que possam ser considerados como subversivos à ordem vigente. O patrulhamento ideológico existente na Mídia e também executado pelo próprio governo e seus serviços de informações, pode trazer consequências desagradáveis àqueles que dizem o que acham e pensam, sobre temas que possam ameaçar o status quo vigente. Nestes regimes os únicos que podem expor sem receio suas eventuais verdades ou mentiras, publicamente, são os próprios governos, através de seus órgãos de propaganda, e aqueles que dele se beneficiam ou favorecem e que desejam, portanto, promove-los.
                                                    Em quaisquer regimes, por sua vez, quando se tratam de profissionais que colocam seus interesses mesquinhos acima da honradez de seus nomes, estes não receiam se expor, ao dizerem o que dizem ou a escreverem o que escrevem, porque os benefícios que esperam colher com aquilo superam a eventual mácula que possa vir a gravar seus nomes; muitos deles, até mesmo, com os nomes já maculados.
   
                              Isto ocorre também no meio científico (independentemente do tipo de governo em vigor) com profissionais mercenários que transformam resultados negativos de suas pesquisas em resultados positivos (fato que quase sempre é possível, variando as premissas formuladas) visando interesses bem remunerados, quase sempre com pesquisas feitas sob encomendas para apresentar determinados resultados, a serviço de indústrias diversas.
                                                 Da mesma forma é comum ocorrer entre artistas pagos com verbas oficiais, que não se importam em produzir arte sob encomenda, destinada a fins ideológicos, mesmo que a sua arte objetive subverter a moral e os bons costumes (tais artistas sempre argumentam, ao serem criticados, que a arte está acima da moral e dos bons costumes).
                                                  Ocorre ademais, tanto no meio artístico quanto esportivo, durante a época das campanhas eleitorais, quando, em troca de uma remuneração, artistas e esportistas com certa projeção declaram, em vídeos produzidos por empresas de marketing e de propaganda, as suas preferências por determinados candidatos, os quais, muitas vezes, estes artistas ou esportistas nem conhecem e em quem nem votarão.
                                                   Mas, sobretudo, isto ocorre quase que diariamente no meio político-partidário, onde o compromisso com a verdade pode-se dizer que não existe.
                                                   Verbas públicas, recursos partidários e recursos de empresas públicas e privadas (contabilizados ou não) são alocados com a finalidade de dar divulgação à realizações e obras já feitas, em elaboração ou ainda por fazer, dos candidatos de determinados partidos. Estes recursos, alimentam uma enorme rede de pessoas e de instituições especializadas em divulgar matérias inverídicas e a fazer contra- informação acerca de outros candidatos, na Mídia de uma maneira geral e nas redes sociais de um modo particular.
                                                     Nas redes sociais, com estes recursos disponíveis, através da contratação de pessoas e de empresas especializadas, cria-se uma indústria dos chamados fakes (notícias falsas), que beneficiam determinados candidatos e prejudicam seus eventuais oponentes.
                                                      O cidadão comum, de bem, quase sempre, em se tratando de matéria de cunho político, evita se comprometer com comentários ou com o compartilhamento de notícias, muitas vezes, se limitando a uma simples curtida, quando muito, na matéria que lhe agradou. Muitos grupos nas redes sociais proíbem, inclusive, a veiculação de matérias de cunho político, em que pese alguns filósofos, políticos, pensadores e escritores terem se expressado sobre política da forma seguinte: 

. Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam (Platão);
. Quem não luta pelos seus direitos não é digno deles (Ruy Barbosa);
. O castigo dos bons que não fazem política é serem governados pelos maus (Platão);
. Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada (Otto Von Bismarck).
 
                                                 A razão para isto tudo, em nosso país, pode ter várias conotações, segundo penso. A mais importante destas conotações, na atualidade, creio ser aquela que se refere ao acatamento ou a aceitação, pelos internautas, do chamado comportamento politicamente correto (uma transvaloração dos antigos valores, promovida pela esquerda fabiana no poder, que busca implantar o comunismo de maneira disfarçada e para quem impostos são "contribuições", gastos do governo são "investimentos", criticar o governo é "entreguismo" ou "falta de patriotismo", donos de propriedades são "elites", "reacionários" e "privilegiados", e "mudança" significa " socialismo"),  que faz com que os cidadãos de bem evitem fazer comentários críticos, de forma pública, mesmo não concordando com a matéria exposta.
                                                     Outra razão pode ser a de buscar evitar eventuais réplicas aos seus comentários, réplicas estas, algumas vezes, partidas de internautas mal educados, incivilizados e militantes ideologicamente radicais, que não hesitam em fazer ameaças e/ou em proferir ofensas pessoais de baixo calão. Outra razão, também importante, pode ser a pouca cultura do internauta e a dificuldade de se expressar corretamente, em um comentário de forma escrita, sobre aquilo que lhe passa pela mente. O receio de ações cíveis e criminais também pode inibir a postura de matérias e comentários que possam ser considerados inverídicos e ofensivos.
                                                     O não compartilhamento de notícias de cunho político pode estar, ainda, ligado ao receio do internauta de se comprometer; isto é, de permitir que seus amigos ou o público em geral saibam qual a sua posição política e as suas preferências partidárias ou ideológicas. Pode estar ligado, também, ao fato de julgar que a matéria veiculada não é verdadeira e não querer propaga-la. Por último, o internauta pode ser daqueles que costumam estar sempre em cima do muro, a esperar pela definição da corrente mais forte no gosto popular para a ela aderir posteriormente.
                                                     Em minha maneira particular de ver toda esta questão, penso como Ruy Barbosa, já citado neste texto, quando afirma que aqueles que não lutam pelos seus direitos não são dignos deles. Um povo submisso, que aceita passivamente tudo aquilo de mau que seus governantes lhe impõe, merece passar pelo que passa e conformar-se com o destino que lhe será imposto.
                                                      Essa luta pelos nossos direitos, individuais e coletivos, deve ser diária, incessante, em todos os aspectos da vida econômica, política, psicossocial e militar.
                                                      Não devemos ter medo ou receio de nos expor, principalmente no que respeita à política, notadamente quando temos a consciência de que estamos do lado do bem, fazendo a coisa certa, com bons propósitos.
                                                          Com medo de se expor deveriam estar os maus, os que são adeptos dos ‘malfeitos’ na vida pública (como no Brasil atual costumam denominar os crimes dos políticos, de forma a minimizá-los aos olhos do povo), os que confabulam suas maquinações perversas na calada da noite. Infelizmente, estes não têm medo de nada, pois muitos deles ainda estão no poder, zombando das instituições republicanas, rindo-se das leis, julgando-se eternamente poderosos.
                                                         O Nosso país encontra-se em uma encruzilhada, talvez a mais importante em que já esteve desde o dia 15 de novembro de 1889, quando foi transformado em uma República. Se a esquerda tomar, novamente, o poder nas próximas eleições, o nosso país será uma nova Venezuela, com todas as trágicas consequências que disto advirão. Para mascarar essa tomada de poder, os partidos e candidatos, antes de esquerda, hoje se declaram de centro (usando a velha técnica Fabiana já mencionada, de modo a travestir seus objetivos com aparências mais inofensivas) e fazem coligações contra o único candidato de direita, que, com certeza, é exclusivamente o que poderá evitar o risco de ocorrência desse  lastimável e fatídico desfecho.
                                                          É preciso que os brasileiros de bem percam o medo de se expor publicamente, pois a verdade está do lado deles e o futuro do país sob as suas responsabilidades.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.