terça-feira, 20 de junho de 2017


142. Uma viagem na barca Niterói - Rio de Janeiro**


Jober Rocha*


          Naquela manhã de sol eu havia saído cedo de casa, para tratar de um assunto no Departamento de Trânsito da Cidade do Rio de Janeiro, assunto este referente a um antigo veículo de minha propriedade que, já tendo sido vendido há mais de um ano, ainda constava naquele órgão como me pertencendo. Em decorrência, todas as multas de trânsito que o novo proprietário ganhava, vinham em meu nome e retiravam pontos da minha permissão para dirigir veículos automotores.
                    Como sou residente em Niterói, do outro lado da Baia da Guanabara, me dirigi à Estação das Barcas, no centro da cidade, localizada bem defronte da enorme estátua do Cacique Arariboia (figura histórica do chefe indígena da tribo dos índios Temiminós, que ajudou os portugueses na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro), na praça que leva o seu nome.
                Paguei o bilhete e passei na roleta, penetrando em um vasto salão onde os passageiros se acumulavam; cada um consultando o seu I-phone com os dedos ou falando ao celular, aguardando à hora do embarque. Na minha frente um homem de meia idade com o celular ao ouvido perguntava alto: - Você tem cabo coaxial? Sim, eu queria uns duzentos metros de cabo, para entrega imediata. Você tem? Fale mais alto!
                Ao meu lado ouvi um jovem perguntar baixinho em seu aparelho: - Vamos sair hoje à noite? O que é que você disse? O que é que tem o seu marido? Fale mais alto que não estou ouvindo!
                 Atrás uma jovem questionava: - O que é que você vai fazer para o almoço? Salada com o que? Fale de novo que aqui está muito barulho!
                 Um senhor próximo perguntava: - E aí, doutor advogado, como foi de audiência? O juiz deu sentença? Fui condenado? Não estou ouvindo nada, fale mais alto!
                 Fui surpreendido por um berro dado por uma jovem ao telefone: - Grávida, eu? Mas eu sou virgem! Leia esse resultado outra vez, doutora, devagarzinho. Fale mais alto e devagar, que não estou entendendo nada com este ruído todo!
                Uma jovem com uniforme colegial dizia: - Zero? Mas zero vírgula zero ou vírgula alguma coisa? Poxa, aquela professora não considerou nada na minha redação? E no resto da prova, qual foi a minha nota? Fale mais alto, não entendi!
               Percebi que algumas outras pessoas, por perto, da mesma forma como eu fazia, também prestavam atenção aos diálogos que estavam sendo travados através dos telefones celulares daqueles passageiros. Vi que muitos companheiros de viagem se interessavam por aqueles assuntos alheios, comentados em voz alta e despudoradamente pelos participantes. Eu, felizmente, não era um caso isolado que demandasse ajuda psiquiátrica. 
                Repentinamente, as pessoas a minha frente começaram a caminhar, como um rebanho em direção ao matadouro. A Barca, vinda do Rio de Janeiro, já havia atracado, e os seus passageiros todos desembarcado. Aqueles que estavam parados dentro da estação iniciaram, então, a caminhada em direção a entrada, pela proa, da embarcação que partiria de volta para o Rio de Janeiro.
             Com apenas dois ouvidos atentos, eu tentava captar todas as respostas das ligações telefônicas, participando, sem ser diretamente convidado, daqueles problemas alheios. Infelizmente, perdi de vista todos os passageiros meus vizinhos, sem saber as respostas que teriam recebido de seus interlocutores. A loja teria os duzentos metros de fio? A mulher casada sairia com o jovem naquela noite? O que a jovem comeria no almoço? A outra jovem estava mesmo grávida? A estudante, embora com nota zero na redação, teria se dado bem no restante da prova? 
                Certamente, tudo aquilo eu jamais ficaria sabendo para infelicidade minha, viciado que eu sou em bisbilhotar a vida alheia. Com exceção do jovem que marcava um encontro com a mulher casada (o único que falava baixo, quase sussurrando), os demais pareciam não se importar em partilhar todas as suas conversas com os demais passageiros. 
                Alguns daqueles ao telefone (para usar um jargão científico), despiam-se do Superego e deixavam o ID vir à tona, permitindo que o público contemplasse os seus inconscientes totalmente nus. Constatei que, ademais das pessoas que também sentiam prazer de mostrar seus corpos publicamente, existiam outros, novos personagens frutos da modernidade, que sentiam orgasmos ao ter as suas conversas telefônicas partilhadas com os vizinhos de transportes coletivos. Talvez, alguns daqueles que falavam ao celular, contando vantagem publicamente, estivessem com o aparelho totalmente desligado e falando, apenas, consigo mesmo, em ímpetos incontroláveis de vaidade e de exibicionismo, para um público ávido por inteirar-se da vida alheia.
                Pude perceber, naquela ocasião, que além dos antigos ‘voyeurs’ que gostavam de espionar casais fazendo sexo e pessoas nuas, existia, atualmente, uma nova classe de extravagantes, a dos ‘écouteurs’, que sentia prazer em ouvir conversas telefônicas alheias, conversas estas em que muitos dos protagonistas também se desnudavam, só que, neste caso, psicologicamente. 
                  Durante a caminhada em direção à barca, procurei apertar o passo, para tentar informar-me de alguns daqueles desfechos, mas eram tantas as pessoas embarcando que perdi de vista os meus vizinhos de sala de espera. Não cheguei a me preocupar tanto, naquela ocasião, com a perda do contato visual e auditivo com os meus alvos; afinal, pensei com os meus botões: - Em qualquer lugar da embarcação em que eu me posicione, sem dúvida alguma, haverá novas conversas ao telefone, para matar a minha ânsia por desfechos lacrimejantes, trágicos e inusitados. 
                 Escolhi o melhor lugar, bem no meio de uma fila de poltronas. Ali eu teria vizinhos em ambos os lados, na frente e atrás. Com certeza, me inteiraria de inúmeros episódios ocorridos com gente de raças, sexos, religiões, classes sociais e cores diferentes, em uma amostragem que faria inveja aos institutos de pesquisa de opinião e de marketing.
                 Ao meu lado direito sentou-se um casal de turistas alemães. Ao lado esquerdo uma menina, de aproximadamente seis anos, acompanhada da mãe. Tanto na frente quanto atrás, por infelicidade, os passageiros pareciam ser de nível sócio-cultural mais elevado que a maioria, pois não portavam telefones celulares...
                  A menina pediu o telefone da mãe emprestado e, quando eu imaginei que ligaria para algum colega do colégio, para falar mal dos amiguinhos e da professora, começou a jogar um joguinho eletrônico. O casal de alemães utilizou o celular por diversas vezes, mas, infelizmente, eu nada consegui entender daquilo que falavam. O assunto deveria ser muito interessante, pois o homem esbravejou, por diversas vezes, proferindo palavras em alemão que me soavam como ofensas ou palavrões.
               Sem nada para ouvir ali sentado, resolvi levantar-me e caminhar para a proa da embarcação, onde já se amontoavam pessoas afoitas preparando-se para um rápido desembarque, tão logo a barca atracasse no cais da Praça XV. Fiz questão de situar-me bem no meio daquelas pessoas. Muitos deles com seus telefones colados ao ouvido. Algumas mensagens começaram a chegar até mim, para meu deleite:
          - E aí, a sua mãe deixou você ir ao motel comigo? – perguntou um jovem cheio de espinhas.
               - Conseguiu a munição de revolver que te pedi? – indagava um tipo mal encarado.
             - O fiscal disse que por menos de trinta por cento do valor, ele não libera a mercadoria apreendida na alfândega. Vai querer ou não? – questionou um tipo de terno e gravata com uma maleta de couro preta nas mãos.
               - Só se for com camisinha! – dizia uma jovem, cheia de tatuagens nos braços.
          Eu estava em êxtase, com tantos assuntos interessantes e todos à minha disposição. Repentinamente, o ruído das turbinas de um avião a jato dominou o ambiente. A barca estava passando em frente da pista de pouso do Aeroporto Santos-Dumont, onde aeronaves pousavam e decolavam a todo instante. Mais uma vez fiquei sem saber se a mãe deixara a filha ir ao motel, se as munições chegaram, se o indivíduo tinha concordado em pagar os trinta por cento pedidos pelo fiscal da alfândega e se o interlocutor da jovem aceitara o uso da camisinha.
                Quase chegando ao cais da Praça XV, a embarcação começou a apitar, avisando a algumas traineiras de pesca, que por ali pescavam, para que saíssem da frente, pois a prioridade era do veículo maior. Não sei por que razão, mas os telefones por perto de mim foram todos desligados.
                Sem mais nada para fazer, fiquei olhando para algumas outras embarcações de transporte, cheias de passageiros, que passavam no rumo de Niterói e da Ilha do Governador, imaginando quantas conversas de celulares, mantidas por passageiros e tripulantes daquelas embarcações, eu não estaria perdendo. 
                Quando dei por mim, a barca estava atracando e os passageiros desembarcando. Ainda procurei captar algum sinal de alegria ou de tristeza em uns poucos caminhantes com os seus telefones nas mãos, mas nada pude perceber que denotasse alguma conversa boa ou má que pudessem ter mantido, em seus telefones, durante a travessia da baia. Ao caminhar rumo à sede do DETRAN, eu meditava: 
               _ Quem sabe na lancha em que retornaria para Niterói eu não seria mais feliz?  Quem sabe não conseguiria desfrutar de alguma conversa que tivesse início, meio e fim? 
             _ Talvez, tendo um pouco de sorte, eu conseguisse inteirar-me de algum crime passional, de um roubo ou desfalque em uma grande empresa, de uma traição conjugal, de uma concorrência pública fraudada ou de um grave segredo de confessionário...


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.
_**/ Texto publicado na Revista APA, ano II, Edição 04, set/out/nov/dez 2016. APA/BNDES. Rio de Janeiro, RJ. 
Texto também publicado na Revista do Clube Militar nº461, ago/set/out 2016, texto 36. Rio de Janeiro, RJ


sábado, 17 de junho de 2017

141. Globalização: a última grande ideologia política

Jober Rocha*


      O termo ideologia foi inventado pelo conde Antoine Louis Claude Destutt de Tracy (1754-1836), pertencente à Escola dos Ideólogos, que o definiu como a Ciência das Idéias. Outros sentidos e significados foram sendo acrescentados ao longo dos anos: deformação da realidade; conjunto de idéias e opiniões de uma sociedade; falsa consciência entre o trabalho manual e o intelectual; instrumento de dominação que age através do convencimento, alienando a consciência; discurso ou ação que mascara um objeto, mostrando apenas a sua aparência e escondendo suas verdadeiras qualificações, etc. Embora, segundo os estudiosos, ideologia possua uma concepção neutra (a de conjunto de idéias, de pensamentos, de doutrinas ou de visões de mundo, de um indivíduo ou de um grupo orientados para suas ações sociais e, principalmente, políticas) e outra crítica (instrumento de dominação que age por meio de convencimento, persuasão ou dissuasão, mas não por meio da força física, de forma prescritiva, alienando a consciência humana), o sentido que queremos dar ao presente texto é o primeiro deles.
   A fértil mente humana, com a sua insuperável capacidade de imaginar e de criar (não importa se verdades ou mentiras, coisas úteis ou inúteis), imaginou, ao longo do tempo, as seguintes ideologias principais:
1.  Anarquismo: ambientalista; individualista; religioso; social; comunista; capitalista e de outros tipos (indigenista, autárquico, etc.);
2.  Comunismo: marxismo; leninismo; comunismo à esquerda; comunismo não marxista; etc.;
3. Conservadorismo: geral (liberalismo, neo-conservadorismo, etc.); agrarianismo; carlismo; democracia cristã; monarquismo; tradicionalismo; etc.;
4. Ambientalismo: eco-feminismo; eco-capitalismo; anarco-naturismo; sindicalismo verde; eco-socialismo; etc.;
5. Feminismo: geral (mulherismo, feminismo socialista, anarco-feminismo, etc.); feminismo não religioso; feminismo religioso; movimento LGBT; masculinismo; etc.;
6.  Liberalismo: geral; libertarismo; radicalismo; etc.;
7. Nacionalismo: geral; fascismo; nazismo; variantes regionais (integralismo, peronismo, gaulismo, etc.); sionismo; movimentos de unificação (pan-arabismo, pan-africanismo, etc.); outros;
8.  Religiosa: geral (teocracia); budismo (anarquismo budista); cristandade (fascismo clerical, direita cristã); hinduísmo (nacionalismo hindu); islamismo (anarquismo islâmico, socialismo islâmico); judaísmo (sionismo religioso, anarquismo judaico);
9.  Socialismo: geral; marxismo; anarquismo social; socialismo reformista; socialismo democrático; social democracia; variantes regionais (bolivarianismo); socialismo religioso, socialismo revolucionário;
10.  Centrismo: democracia cristã; terceira via; distributismo; centro radical.

      Estas ideologias, ao longo da História Humana, têm arrebatado os corações e as mentes de enormes parcelas populacionais que se digladiam, muitas vezes, em praças públicas ou através da WEB, para vê-las adotadas nos quatro cantos do planeta. Algumas saem vencedoras e acabam implantadas, em determinadas situações, locais e épocas. Pouco tempo depois, estas mesmas ideologias que fizeram sucesso são destronadas e substituídas por outras, que, por sua vez, tiveram a nova graça de cair no gosto popular ou serem impostas, seja lá por que razões conjunturais.
      As ideologias políticas, que se propõem a justificar sistemas econômicos ou movimentos sociais e que almejam ter uma abrangência mundial, segundo penso, estão fadadas ao insucesso e deverão futuramente, apenas, fazer parte da história do pensamento humano. Conforme destaco no título deste texto, serão todas substituídas pela ideologia da globalização e isto se deve a algumas razões, que iremos discutir a continuação. Por sua vez, as Ideologias que objetivam, tão somente, alcançar pequenas parcelas da população ou grupos, com objetivos específicos e sem a pretensão de se tornarem hegemônicas, estas jamais terão os seus dias contados, da mesma forma como ocorre com as seitas e organizações esotéricas que, quando perdem a liberdade de atuar abertamente, passam a agir de maneira secreta ou clandestinamente.
             Em primeiro lugar, vale destacar que as ideologias sempre estiveram a serviço de grupos (econômicos, religiosos, políticos, etc.) que, mediante conceitos e formulações que os beneficiavam, tentaram disseminar estes pensamentos ao restante das populações, como se as idéias que veiculavam se tratassem de verdades universais que deveriam ser, por todos, adotadas. Mais recentemente, com o crescimento populacional, com o progresso tecnológico, com o desenvolvimento científico, com o aumento do comercio mundial, das comunicações, etc., surgiu, partindo de um determinado grupo de lideres empresariais com atuação a nível mundial, a concepção de uma economia globalizada. Estes lideres empresariais mundiais, mencionados anteriormente, segundo informações que estão disponíveis na WEB, fazem parte de diversas associações e de grupos (de caráter secreto), que se reúnem, periodicamente, para discutir os rumos das economias dos países e o destino do planeta (Grupo Bilderberg, Skull and Bones, Illuminati, etc.).
            A globalização, por sua vez, caso venha a ser implantada no futuro (e acreditamos que o seja), se constituirá em uma ameaça fatal a todas as demais ideologias, até então, existentes; já que, com a proposta de relações supra-territoriais entre os indivíduos, a eliminação de barreiras físicas entre os países e as novas formas de comunicação, de comércio e de transporte existentes, passaríamos a viver em um mundo globalizado, com um governo mundial e onde os eventos que ocorrem influenciariam a vida de todos os cidadãos. A globalização, no entanto, também possui um componente ideológico, na medida em que ao se propor a aumentar o poder de determinadas empresas e de grandes grupos de investidores transnacionais e estabelecer um governo mundial, reduziria o poder dos Estados Nacionais, criando parlamentos, foros e tribunais comuns aos atuais países existentes; além de moedas, línguas e religiões também comuns. Outro efeito do globalismo seria o estabelecimento da “Segurança Mundial”, equivalente a “Pax Romana”, garantindo a segurança pessoal dos indivíduos, das comunidades e dos valores liberais, além das idéias humanitárias, em uma escala planetária (se é que seria verdadeiro este propósito e viável de ser implantado). O sistema econômico que prevaleceria seria, possivelmente, uma mescla de capitalismo e socialismo. Todavia, os leitores já se perguntaram qual a razão por detrás desta proposta recente de globalização?
        Além dos argumentos tradicionalmente divulgados pela Mídia para justificar a globalização (excessiva população mundial, esgotamento dos recursos naturais, perigo de conflitos nucleares, necessidade de movimentação de capitais e de fatores de produção em uma escala mundial, redução de custos e de desperdício, extinção da miséria, etc.), podemos supor outro, ainda não mencionado, que discutiremos a seguir.
           Ufólogos modernos declararam na WEB que algumas das pessoas abduzidas ou que mantiveram contato com seres alienígenas, relataram que nos planetas destes seres (segundo informações que deles próprio receberam) é assim que as coisas se passam, isto é, de forma globalizada: uma só raça, uma só língua, um só território, um só governo. Quem sabe se a globalização, que se pretende implantar em nosso planeta, já não faça parte de um protocolo comum a todos os integrantes de uma eventual federação de civilizações alienígenas, porventura existente no Universo, que estaria sendo mantida em segredo pelas autoridades mundiais? Informações divulgadas pela Mídia (acessíveis na WEB) dão ciência de que alguns países já mantiveram contatos com civilizações alienígenas (USA, China e Rússia, pelo menos) e com elas estabeleceram algum tipo de intercâmbio. Quem sabe se para que venhamos a fazer parte desta eventual federação de raças alienígenas e possamos nos beneficiar com seus conhecimentos, nós sejamos obrigados a seguir um protocolo de ações a serem tomadas previamente; protocolo este que visaria eliminar as diferenças e as injustiças hoje existentes, focos históricos das dissensões, das guerras e da desunião que vigora entre os habitantes e os diversos países do nosso planeta? Se, como, até então, parece, estes seres são de natureza pacifica e benevolentes, talvez, fosse o cumprimento deste protocolo o que estaria faltando, para que um contato definitivo, deles com a população mundial, finalmente ocorresse. Após eles terem suas naves exaustivamente fotografadas, filmadas e observadas nas telas dos radares, civis e militares, não se entende por que ainda não mantiveram, oficialmente, contato com a população mundial. 
           Trata-se, apenas, de outra hipótese; mas, ela não deve ser descartada. Qualquer que seja, enfim, a razão da globalização, no entanto, creio que esta acabará sendo implantada no nosso planeta, mais dia menos dia, decretando, assim, o fim das demais ideologias políticas.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

domingo, 21 de maio de 2017


140. Parece que eles sentiram o golpe...**


Jober Rocha*


                        A rede WEB, mais especificamente o You Tube, possui um enorme poder de divulgação mundial de informações. Em questão de segundos, de um ponto a outro do planeta, um filme sobre algo desconhecido ou uma informação importante sobre fato do momento, chega, instantaneamente, à grande parte das residências, locais de trabalho, de veraneio ou, diretamente, nas mãos dos usuários dos whatsUpp. O poder de informação e de formação de opinião que isto representa, em um mundo globalizado, é imenso.
                        Os chamados ‘donos do mundo’, aquelas trezentas maiores corporações (pertencentes a umas poucas famílias, que alguns já contabilizaram como sendo da ordem de 1.300) que dominam os sistemas produtivos da maioria dos países e que impõem às sociedades os seus valores e as suas verdades, de um momento para outro deixaram de lado a euforia dos primeiros tempos (quando imaginavam uma publicidade mundial para seus produtos e vendas também de caráter mundial), ao se darem conta de que inúmeras matérias de cunho político-ideológico, mediante uma transvaloração dos valores tradicionais por eles instituídos, estavam sendo divulgadas, mundialmente, sem nenhum controle maior por parte deles ou de seus prepostos nos governos.
                         O efeito multiplicador destas matérias, ao espraiar-se pelos vários continentes, estava possibilitando, apesar das idiossincrasias típicas dos diversos povos e das distintas raças, a unificação, em um nível jamais visto, do pensamentos e da maneiras de ver e entender o mundo que nos cerca; bem como, de perceber as injustiças sociais que caracterizavam a maioria dos países, notadamente aqueles do denominado Terceiro Mundo.
                        Rapidamente, os ‘donos do mundo’ tentaram, através de seus prepostos nos governos, estabelecer regras e marcos na Internet, que permitissem eliminar matérias indesejáveis e potencialmente perigosas para seus interesses perenes de dominação.
                        Paralelamente, sob o argumento de impedir a divulgação de assuntos violentos, racistas, anti-religiosos e homofóbicos, estas trezentas maiores empresas mundiais retiraram os seus patrocínios do You Tube (como seus maiores anunciantes), que era da ordem de quase cem milhões de dólares, deixando-o a beira da falência. 
                       Muitos alegam que por detrás dos interesses que estavam sendo prejudicados, e que conduziram estas trezentas principais empresas a retirarem seus patrocínios do You Tube, estavam os chamados Iluminattis e a ideia da implantação de uma denominada Nova Ordem Mundial. Ocorre que a WEB, se em um primeiro momento poderia ser o instrumento ideal para a implantação desta Nova ordem Mundial, ao fazer com que as mensagens dos Iluminattis atingissem a maioria das pessoas em todos os continentes (com as suas propostas, para o nosso planeta, de um único território, uma única moeda, uma única religião, o fim dos Estados soberanos e a criação de um governo mundial), em um segundo instante proporcionou voz aos pequenos ‘You Tubers’, produtores independentes de filmes e textos divulgados no You Tube e ativistas políticos e ideológicos.
                       Este efeito perverso, inicialmente não percebido ou não considerado como muito importante pelos ‘donos do mundo’, mostrou-se como uma ameaça quase mortal aos seus interesses’, pois consistiu na criação de uma Mídia fora do controle deles, com o poder de solapar-lhes as bases ideológicas e políticas; bem como, os conceitos de moral e os costumes que haviam implantado, notadamente no Ocidente, ao longo dos tempos. Talvez, tenham concluído ser preciso, para suas sobrevivências, efetuar mudanças radicais ou iniciar uma nova fase na História da Humanidade.
                       Aos que imaginam tudo isto como fazendo parte de uma Teoria da Conspiração, acrescento, ainda, mais um pouco de combustível na fogueira. Inúmeros são os casos de relatos, captação em radares, fotos e filmes de objetos voadores não identificados. A WEB está cheia deles e alguns são falsificações grosseiras, mas outros são comprovadamente verdadeiros; inclusive muitos deles foram divulgados por governos e forças aéreas ao redor do mundo. 
                       A minha tese é a seguinte: e se as elites mundiais (ou uma parte importante delas) já mantiveram contatos oficiais com seres alienígenas e as teses Iluminattis (da implantação de um só governo mundial, uma só religião, um só território e uma só moeda), nada mais são do que exigências destes seres para que possamos fazer parte de uma eventual federação de raças cósmicas (possivelmente existente no Universo e que pode ser que possua este protocolo político, econômico e social para o ingresso de novos membros), e podermos, desta forma, nos integrar a outras espécies mais antigas, beneficiando-nos dos seus conhecimentos científicos e tecnológicos e afastando, com estas medidas por eles propostas e buscadas pelos Iluminattis, a possibilidade da ocorrência futura de novas guerras mundiais (eliminando tudo aquilo que desune a raça humana, como os países, as religiões, os governos, as moedas, as várias línguas, etc.)? 
                       Esta é uma hipótese que não pode ser descartada, notadamente quando ignoramos a maior parte daquilo que verdadeiramente ocorre pelo mundo, quer de forma pública ou privada. 
                       Quando, ao longo da História Humana, nós, o povo, chegamos a nos inteirar de alguma coisa importante ou sensível, esta, quase sempre, se tratou apenas da versão dos fatos e não dos fatos concretamente ocorridos. Sendo verdadeira a hipótese levantada e, possivelmente, para evitar pânico, convulsão social ou rebeliões populares, tudo poderia estar sendo arquitetado em sigilo pelos ‘donos do mundo’, com as eventuais dissensões de praxe entre as elites, em razão de interesses contrariados, da busca de hegemonia nesta fase de transição, do espírito de competição, da ânsia pelo poder, da ganância por riquezas, etc. Se teremos um governo mundial, quem será o mandatário e virá de que país? Uma só religião, quem será o Pontífice Máximo e sairá de qual religião? Um só território, como se organizará a estrutura de poder neste território?                                           
                       Dificilmente as elites abrirão mão do poder que já desfrutam, a não ser que vislumbrem a possibilidade de mais poder. Talvez, por isto, ainda não tenham conseguido implantar a Nova Ordem Mundial em nosso planeta. Quanto ao povo, pelo visto, com ou sem a existência de alienígenas, jamais deixará de ser aquilo que sempre foi ao longo da História Humana: massa de manobra em uma eterna servidão consentida.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

_**/ Texto publicado no jornal A Palavra, nº 191, APA/BNDES, Rio de Janeiro, RJ.




sexta-feira, 12 de maio de 2017



139. Será a Justiça Divina apenas mais uma falácia?



Jober Rocha*


                   A palavra falácia, segundo os dicionários, deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Trata-se a falácia, portanto, de um raciocínio errado com a aparência de verdadeiro. Segundo os critérios da lógica e, também, da retórica, uma falácia consistiria em um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho, na tentativa de provar de forma eficaz e convincente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão, algumas vezes, podem parecer convincentes para grande parte do público, apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos em razão disso. Este é justamente o caso do questionamento que dá título ao presente texto e que denominamos de Justiça Divina. Reconhecer falácias não é coisa fácil; já que, os argumentos falaciosos costumam ter validade emocional, íntima e psicológica, ainda que não lógica.

                  As falácias podem ser cometidas intencionalmente ou não. No primeiro caso denominam-se sofismas e no segundo paralogismos. Evidentemente, a presença de uma falácia em um texto não o invalida totalmente, mas apenas o argumento no qual ela ocorreu. Algumas vezes é fácil reconhecê-la; outras, dificílima. A lista de falácias, por categoria, é enorme: da ambiguidade; do apelo a motivos; de erros de categoria e de regras gerais; causais; de explicação; erros de definição; da dispersão; indutivas; argumentum ad hominem; non sequitur; etc.
                  Para se discorrer sobre a Justiça Divina, por sua vez, costuma-se, previamente, fazer uma escolha sobre a Natureza Humana: seria ela Determinista (isto é, todos os acontecimentos que lhe ocorrem são causados por fatos anteriores) ou nela existiria o Livre-arbítrio (ou seja, o poder que cada indivíduo, supostamente, teria de escolher livremente suas ações ou os caminhos que deseja seguir)? Esta última característica é preconizada por diversas religiões, como, por exemplo, o cristianismo, o espiritismo, o budismo, etc., como a indicar que o ser humano dispõe do poder de escolher, para sua existência, o caminho certo ou o caminho errado, por sua livre e espontânea vontade. 
                  Sobre estas duas possibilidades muitos filósofos, religiosos e homens de Ciência já escreveram milhares de páginas, ao longo da História Humana. Um breve resumo da matéria poderia destacar cinco grandes correntes: 


1. Determinismo Mecanicista e Teleológico: Rejeita a ideia de que os homens possuem livre-arbítrio,

2. Libertarísmo: Aceita que os indivíduos possuem livre-arbítrio pleno,
3. Indeterminísmo: Aceita que os indivíduos possuem livre-arbítrio e que as ações que praticam são efeitos sem causas,
4. Compatibilísmo: Aceita que o livre-arbítrio existe mesmo em um universo sem incerteza metafísica; isto é, seria um livre-arbítrio que respeitaria as ações ou pressões internas e externas,
5. Incompatibilísmo: Entende que não há maneira de reconciliar a crença em um universo determinístico com um livre-arbítrio verdadeiro.


                  Ademais, alguns dos principais filósofos assim expressaram seus pontos de vista sobre o assunto, que não é matéria pacífica no ambiente filosófico e científico:



Spinoza: O filósofo Spinoza afirmou em seu livro ‘Ética’ que “Não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada, por sua vez, por outra causa e essa por outra, e assim sucessivamente até o infinito. Os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar.”.

Voltaire: Voltaire em ‘O Filosofo Ignorante’ afirma: “Nada é sem causa. Um efeito sem causa é apenas uma palavra absurda. Todas as vezes que quero, isto só pode ocorrer em virtude do meu juízo bom ou mau; este juízo é necessário, portanto minha vontade também o é. Com efeito, seria muito singular que toda a Natureza, todos os astros obedecessem a leis eternas, e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que, menosprezando tais leis, pudesse agir sempre como lhe agradasse, ao sabor do seu capricho. Agiria ao acaso e sabe-se que o acaso nada é; pois, Inventamos esta palavra para exprimir o efeito, conhecido, de toda causa desconhecida. Não há intermediário entre a necessidade e o acaso, e sabeis que não há acaso; portanto, tudo o que ocorre é necessário.”.
Immanuel Kant: Kant em ‘Critica da Razão Prática’ afirma que a religião não pode ser baseada na ciência nem na teologia, mas sim na moral. “Temos de encontrar uma ética universal e necessária; princípios ‘a priori’ de moral, tão absolutos e certos quanto a matemática. Temos de mostrar que a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por si só, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica, que o senso moral é inato, e não derivado de experiência. O imperativo moral de que precisamos, como base da religião, deve ser um imperativo absoluto, categórico.”
“A mais impressionante realidade em toda a nossa experiência é, precisamente, o nosso senso moral, nosso sentimento inevitável, diante da tentação, de que isto ou aquilo está errado. Podemos ceder; mas, apesar disto, o sentimento lá está.”( grifo nosso).
“E uma boa ação é boa não porque traz bons resultados, ou porque é sabia, mas porque é feita em obediência a esse senso íntimo do dever, essa lei moral que não vem de nossa experiência pessoal, mas legisla imperiosamente e ‘a priori’ para todo o nosso comportamento, passado, presente e futuro.”(grifo nosso).
Hegel: Hegel desenvolveu uma velha ideia, prenunciada por Empédocles e corporificada por Aristóteles, que é a do movimento dialético. “O movimento de evolução é um continuo desenvolvimento de oposições, e a fusão e reconciliação destas. Não só os pensamentos se desenvolvem e evoluem segundo esse movimento dialético, mas também as coisas. Tese, antítese e síntese constituem a fórmula e o segredo de todo o desenvolvimento e de toda a realidade.”.
Schopenhauer: Para Schopenhauer “Cada um acredita de si mesmo ‘a priori’ que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver. ‘A posteriori’, entretanto, descobre para seu espanto, através da experiência, que não é livre, mas sujeito a necessidade (grifo nosso), que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta e que, do inicio ao fim da vida, ele deve conduzir o mesmo caráter, o qual ele mesmo condenou.”.
Hobbes afirma que “O livre-arbítrio é um poder definido pela vontade e, portanto, não é livre nem não livre. Seria, assim, um erro atribuir liberdade à vontade.”.
Locke, em seu ‘Ensaio acerca do Entendimento Humano’, afirma que “A questão de se a vontade humana é livre ou não, é imprópria. A liberdade, que é apenas um poder, pertence apenas aos agentes e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.”.
Isaiah Berlin diz que “Para uma escolha ser livre, o agente deve ter sido capaz de agir de outra maneira.” Este princípio, mais tarde denominado de principio das Possibilidades Alternativas, é considerado por seus defensores como uma condição necessária para a liberdade.
Nietzsche, em seu “Porque Sou um Destino” afirma que “A religião inventou a noção do pecado juntamente com o seu instrumento de tortura, o livre-arbítrio, para confundir os instintos, para fazer da desconfiança frente aos instintos uma segunda natureza!”
Daniel Dennet, um compatibilísta, apresenta o seu argumento para uma ‘Teoria Compatibilista do Livre-Arbítrio’ da seguinte maneira: “Se os indivíduos não considerarem a existência de Deus, através do ‘Caos’ e da pseudo-aleatoriedade ou aleatoriedade quântica, o futuro não está definido para os seres finitos. Visto que os indivíduos teriam a capacidade de agir diferentemente do que se espera, o livre-arbítrio existiria.” 


                    A Ciência também tem efetuado inúmeras tentativas de responder a questão do livre-arbítrio através de pesquisas científicas.

                   O pensamento científico, de uma maneira geral, vê o universo de maneira determinística e alguns pensadores científicos creem que para predizer o futuro é preciso, simplesmente, dispor de informações sobre o passado e o presente. A crença atual, entretanto, consiste em uma mescla de teorias determinísticas e probabilísticas.
                   Albert Einstein, determinista, acreditava na Teoria da Variável Oculta, isto é, de que no âmago das probabilidades quânticas existiriam variáveis pré-determinadas.
                     Os Incompatibilistas alegam que a hereditariedade e o ambiente configurariam uma ‘coerção irresistível’, e todas as nossas ações seriam controladas, portanto, por forças exteriores a nós mesmos.
                   Voltando a ideia de falácia na chamada Justiça Divina, constata-se que foi através da interpretação religiosa da Bíblia, por Agostinho de Hipo (Santo Agostinho), que surgiu e se firmou, entre os pensadores cristãos, a ideia do livre-arbítrio que veio, por fim, ensejar o surgimento da noção do pecado, mediante uma transvaloração dos valores, até então, existentes.                    
                     Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche, a existência do pecado constitui a base de todo o poder exercido pelo sacerdote, que têm a autoridade de perdoá-lo mediante a aplicação de alguma penitência, por ele mesmo estabelecida.
                     Vê-se que, dependendo da forma como a Natureza Humana é considerada, a chamada Justiça Divina, segundo alguns que nela acreditam, poderia ocorrer de forma pré ou de forma pós encarnação. Pré se, antecipadamente a encarnação, fosse acertado, de comum acordo, entre o espírito e a divindade, o destino daquele na existência que se iniciaria. Pós se, ainda, de comum acordo, o espírito possuísse a faculdade de escolher e de traçar o seu próprio destino, tão logo encarnado, sem a necessidade de consulta prévia, anterior ou posterior, à divindade.  Algumas religiões pensam da primeira forma e outras da segunda.
                        Outro aspecto relevante, conhecido como Teodicéia (ramo da Teologia que trata da coexistência de um Deus todo-poderoso, de bondade infinita, com o mal; isto é, a resposta para a pergunta: por que Deus permite o mal?), serviu para atiçar mais lenha nesta já alta fogueira.                             
                          Lembremo-nos, todavia, que todas as considerações até aqui apresentadas são, exclusivamente, criações, humanas; ou seja, trata-se, tão somente, de seres humanos tentando adivinhar como pensaria o Criador de Todas as Coisas e quais seriam as Suas Razões para aquilo que, supostamente, Ele pretende ou faz com as Suas criaturas.
                    A Teodicéia procura, assim, mostrar que ainda é razoável acreditar em Deus, apesar das evidências do mal no mundo, e tenta oferecer uma estrutura para explicar por que o mal existe; evidentemente, fazendo uso de falácias. A Teodiceia é, portanto, baseada em uma teologia natural que tenta provar a existência de Deus e procura demonstrar que esta existência permanece provável, mesmo depois que o problema do mal é colocado; dando uma justificativa, quase sempre falaciosa, para Deus permitir o mal de acontecer; posto que, por detrás do suposto mal, encontrar-se-ia a mais pura Justiça Divina. Os autores religiosos fazem uso, para tanto, com relativa freqüência, de falácias em suas teses, visando convencer o público leitor de que existe, por detrás de todos os males, uma justiça promovida pelo Criador; em que pese toda a dor, toda a magoa, todo o sofrimento, toda a desigualdade e toda a comprovada injustiça, vivenciada, em todos os momentos, pelos seres humanos encarnados. Acresce, ainda, segundo afirmam muitos pensadores religiosos, que o Criador deixar-se-ia influenciar por pedidos de suas criaturas, interferindo nestes problemas de ordem humana, seja para corrigi-los, para modificá-los ou para eliminá-los. Por detrás disto tudo estaria pairando a imagem da Justiça Divina, que, conforme ditado popular, tarda, mas não falha. Reconheço que é consolador para os seres humanos imaginarem que alguém vela por eles e que este alguém, como um pai, está pronto a enxugar-lhes o pranto e a corrigir o que se lhes afigura como alguma injustiça humana, eventualmente, contra eles praticada. É consolador, mas não significa que isto seja verdadeiro.
                      Mudando um pouco de assunto, o primeiro filósofo a discorrer sobre a Arte e a Ciência de “Como Vencer um debate sem precisar ter razão”, fazendo uso de sofismas, creio que foi Arthur Schopenhauer em sua obra com o próprio título entre aspas, já citado.
                     Recentemente, ademais, uma lista com 24 tipos diferentes de argumentos falaciosos foi elaborada por Jesse Richardson, Andy Smith e Som Meaden, responsáveis pelo site Thou Shalt Not Commit Logical Fallacies. Os argumentos listados pelos autores, a título de exemplo, são os seguintes:


1. Apresentar o argumento da outra pessoa de forma errônea, como forma de atacá-lo mais facilmente. Ao exagerar, deturpar ou inventar o argumento da outra pessoa é mais fácil apresentar a nossa própria posição como sendo razoável ou válida. Todavia, este tipo de desonestidade não só mina o discurso racional, como prejudica a nossa própria posição, já que põe em causa a nossa credibilidade. Se estivermos dispostos a deturpar o argumento do nosso oponente, de forma negativa, também estaremos dispostos a exagerar a nossa própria posição, como positiva. Exemplo: O João diz que, no nosso país, deveríamos gastar mais dinheiro na Educação e Ciência, ao que o José responde: mas então tu odeias tanto o teu próprio país que queres deixá-lo sem Sistema Nacional de Saúde?



2. Assumir que há uma relação real ou perceptível entre duas coisas significa que uma é a causa da outra. Um erro deste tipo é a falácia cum hoc ergo propter hoc (com isto, portanto por causa disto), em que assumimos que, porque duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, então uma é a causa da outra. O erro está em ignorar a possibilidade de que pode haver uma causa comum a ambos os acontecimentos ou, como no exemplo abaixo, que as duas coisas em questão não têm qualquer relação causal entre elas e a sua relação aparente é apenas uma coincidência. Outra variação comum é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disto, portanto por causa disto), em que assumimos uma relação causal porque um acontecimento se deu depois de outro e, portanto, o segundo deve ter sido causado pelo primeiro. Exemplo: Apontando para um gráfico, o Francisco mostra que as temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, enquanto que, ao mesmo tempo, o número de piratas tem diminuído. Logo, a falta de piratas é que tem aquecido o mundo e o aquecimento global, da forma como dizem que ocorre, é uma fraude.



3. Tentativa de manipulação através de uma resposta emocional, em vez de um argumento verdadeiramente convincente. Os apelos à emoção incluem apelos ao medo, inveja, ódio, piedade, orgulho, entre outros. É importante assinalar que, por vezes, um argumento logicamente coerente pode inspirar emoções e ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia ocorrem quando a emoção é usada em vez de um argumento lógico ou como forma de ocultar o fato de que não existe nenhuma razão racional convincente para a posição que estamos a tomar. Todos, com exceção dos sociopatas, somos afetados pela emoção e, portanto, os apelos à emoção são uma táctica argumentativa comum e efetiva. Mas, em última análise, têm falhas, são desonestos e tendem a fazer com que o nosso oponente se emocione. Exemplo: O Luís não queria comer miolos com brócolis, mas o seu pai disse-lhe para pensar nas pobres crianças famintas de África que não tinham qualquer comida para comer.



4. Assumir que, porque um argumento está mal construído ou uma falácia foi cometida, então o argumento está, necessariamente, errado. É muito frustrante ver alguém a debater ou argumentar mal uma posição correta. A maior parte das vezes, um debate ganha-se, não porque o vencedor tem razão, mas porque ele é melhor a debater que o seu opositor. Se formos honestos e racionais, temos que ter em mente que, só porque alguém cometeu um erro na sua argumentação, não significa, necessariamente, que o argumento, em si, esteja errado.

Exemplo: Ao reconhecer que a Maria cometeu uma falácia ao argumentar que deveremos comer comida saudável porque está na moda, a Alice resolveu comer um duplo-hamburguer com queijo e bacon todos os dias.


5.  Quando se constrói um argumento que dá a entender que caso se permita que A aconteça, então Z também vai eventualmente acontecer, pelo que A não deveria acontecer.  O problema com este raciocínio é que evita enfrentar o tema e, em vez disso, desvia a atenção para uma hipótese extrema. Como não apresentamos nenhuma prova de que tal hipótese extrema vai de fato acontecer, esta falácia é semelhante à falácia do apelo à emoção, já que desencadeia o medo. Na verdade, o argumento está injustamente marcado por conjecturas não substanciadas.

Exemplo: O Joaquim afirma que caso se permita o casamento a pessoas do mesmo sexo, então depois vamos acabar por permitir o casamento entre progenitores e filhos, entre pessoas e chimpanzés ou entre pessoas e automóveis.
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6. Atacar o caráter do oponente ou alguma característica pessoal, em vez de enfrentar o seu argumento.  Os ataques ad hominem podem tomar a forma de um ataque aberto a alguém ou, de um modo mais sutil, levantar dúvidas sobre o seu caráter ou atributos pessoais. O resultado desejado com um ataque ad hominem é minar o oponente, sem realmente enfrentar o seu argumento ou apresentar um argumento próprio convincente. Exemplo: Depois da Xana fazer uma apresentação convincente de porque é que os impostos deveriam ser mais justos e equitativos, o Simão pergunta à audiência se deveríamos ou não acreditar numa mulher que não é casada, que até já foi presa uma vez e que tem um cheiro esquisito.
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7. Evitar enfrentar uma crítica virando-a contra o acusador – responder a uma crítica com uma crítica. Literalmente se traduz como “tu também”. Esta falácia é frequentemente usada como uma eficaz manobra diversionista (red herring) porque retira o foco de atenção do acusado e desvia-o de novo para o acusador. A implicação é a seguinte: se o nosso oponente também faz aquilo de que nos está acusando, então, é um hipócrita. Independentemente de isto ser ou não verdade, o problema reside no fato de esta ser  efetivamente uma tática de fuga ao reconhecimento e de resposta à crítica. Ao virar a crítica contra o acusador, o acusado não precisa responder à acusação. Exemplo: A Natália nota que a Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de responder ao seu argumento, Ana acusa a Natália de também ter cometido uma falácia lógica num momento anterior da sua conversa.
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8. Porque algo é difícil de entender ou não se sabe como funciona, então é provavelmente falso. Assuntos complexos, como a evolução biológica por seleção natural, precisam de certo grau de compreensão antes que os possamos abordar devidamente. Esta falácia é geralmente usada em substituição desse conhecimento. Exemplo: O Joaquim desenhou um peixe e um ser humano e, com um ar depreciativo, perguntou ao Ricardo se ele realmente achava que as pessoas eram idiotas o suficiente para achar que o peixe se tinha transformado num humano só por acaso.


9. Modificar os objetivos ou abrir uma exceção quando a afirmação feita se demonstra falsa. Os seres humanos são criaturas curiosas e têm uma aversão especial a estarem errados. Em vez de percebermos os benefícios de sermos capazes de mudar o nosso entendimento através de uma melhor compreensão, muitos de nós inventam formas de se agarrarem a crenças antigas. Uma das formas mais comuns de o fazermos é racionalizar, à posteriori, o motivo pelo qual o que pensávamos ser verdadeiro deve permanecer verdadeiro. É geralmente fácil encontrar a razão para uma crença que se adapta a nós e é necessária integridade e uma genuína honestidade para que examinemos as nossas próprias crenças e motivações sem cair na armadilha de justificar a nossa forma de nos vermos e de vermos a nós próprios e o mundo que nos rodeia.

Exemplo: Mestre Supimpa dizia-se vidente, mas quando as suas “capacidades” eram testadas em condições científicas, magicamente desapareciam. Segundo Supimpa, a explicação para este fenômeno é que era necessário ter-se fé nele, para que as suas capacidades tivessem efeito.


10. Fazer uma pergunta que tem uma assunção incluída, de forma que não pode ser respondida sem aparentar culpa. As falácias da pergunta complexa são particularmente efetivas no desvio de debates racionais devido à sua natureza “inflamatória”: o receptor da pergunta é levado a defender-se e pode parecer agitado ou “à defensiva”. Não só esta falácia é também um apelo à emoção, como traiçoeiramente enquadra o argumento de uma forma enganadora, como uma espécie de ‘falácia do espantalho’ preventiva.

Exemplo: A Graça e a Margarida estão interessadas no Bruno. Um dia, estando o Bruno a ouvir, a Graça pergunta com um tom inquisitivo: “Margarida, estás tendo problemas com drogas?”.


11. Dizer que o ônus da prova não compete à pessoa que fez a afirmação, mas qualquer outra pessoa que a queira negar. O ônus da prova recai em quem faz uma afirmação e não em quem a quer falsificar. A incapacidade, ou a falta de vontade, para falsificar uma afirmação não a torna válida, nem lhe dá qualquer credibilidade. No entanto, é importante notar que nunca podemos estar certos de algo e, portanto, temos que avaliar todas as afirmações com base na evidência existente. Descartar algo apenas porque ainda não foi provado, é também um raciocínio falacioso. Exemplo: O Bernardo declara que há um bule a orbitar o Sol, entre a Terra e Marte. Como ninguém pode provar que ele está errado, a sua afirmação é, portanto, válida.



12. Usar um duplo-sentido ou linguagem ambígua para induzir em erro ou deturpar a verdade. Os políticos são muitas vezes peritos em usar a ambiguidade para induzir em erro e mais tarde, caso sejam questionados, explicam como, tecnicamente, não estavam a mentir. A razão pela qual este tipo de estratégia é uma falácia é que se trata intrinsecamente de uma deturpação da verdade. Exemplo: A Margarida promete entregar o projeto até ao fim do mês ao diretor. Quando o mês chega ao fim, novo mês começa e o diretor pergunta pela tarefa por cumprir. A Margarida explica que não está atrasada, porque o prometido é que terminaria o projeto até ao final do mês… seguinte.


13. Achar que há alguma tendência por trás de fenômenos estatisticamente independentes. Diz-se que esta falácia, em que muitos acreditam, pode ter dado origem a um cidade no meio do deserto de Nevada, nos Estados Unidos da América. Apesar da probabilidade da “mudança na sorte” ser baixa, cada nova jogada na roleta é completamente independente da anterior. Logo, embora possa haver uma pequena probabilidade de atirar a moeda ao ar e sair “coroa” 20 vezes seguidas, a probabilidade de sair “coroa”, em cada uma dessas jogadas, continua a ser 50/50 e não é influenciada pela tentativa anterior.
Exemplo: Em seis jogadas de roleta, saiu sempre vermelho, portanto o Rui estava quase seguro que depois sairia preto. Como, ao pensar desta forma, estava a sofrer de uma espécie de “seleção natural econômica”, rapidamente ficou sem as suas poupanças.


14. Como forma de validação, apelar à popularidade de uma afirmação ou ao fato de muitas pessoas praticarem determinado ato. A falha deste argumento é que a popularidade de uma ideia não tem qualquer relevância para a sua validade. Se tivesse, então a Terra teria sido plana durante a maior parte da história, para se ajustar à crença popular. Explicamos melhor esta e a falácia do apelo à antiguidade   Exemplo: Samuel, bêbado, apontou um dedo ao Fernando e pediu-lhe para explicar porque é que tanta gente acreditava em fantasmas, se eram só uma velha superstição. O Fernando, pelo seu lado, já tinha tomada umas cervejas a mais e caiu da cadeira.



15. Usar, como argumento, a posição ou a opinião de uma figura ou de uma instituição de autoridade. Em relação a esta falácia, é importante notar que as autoridades em determinados campos têm argumentos válidos e que não deveríamos desprezar a experiência e sabedoria de outras pessoas. No entanto, para formular um argumento, uma pessoa deve defender-se com o seu próprio mérito, ou seja, há que saber por que é que a pessoa com autoridade toma uma posição em particular. Mas, claro que é possível que uma pessoa ou instituição com autoridade estejam erradas. Portanto, a autoridade dessa pessoa ou instituição não tem qualquer relevância intrínseca na verdade ou falsidade das suas afirmações. Exemplo: Como não podia defender a sua posição de que a evolução “não é real”, o Roberto alega que conhece cientistas que também questionam a evolução (e que presumivelmente não é um Primata).



16. Assumir que uma parte se aplica ao todo ou a outras partes da mesma coisa.

Por vezes, quando algo é certo para uma parte, também se aplica ao todo, mas a diferença crucial é ter evidência que demonstre que esse é o caso. Como observamos consistência nas coisas, o nosso pensamento pode tornar-se enviesado, de forma a assumirmos consistência onde ela não existe. Exemplo: O Daniel foi uma criança precoce e gostava de lógica. Ele argumentava que os átomos eram invisíveis e que ele era feito de átomos, logo, que ele também era invisível. Infelizmente, e apesar das suas habilidades de raciocínio, perdia a jogar às escondidas.


17. Fazer um apelo ao purismo como modo de descartar uma crítica relevante ou uma falha no próprio argumento. Nesta forma de raciocínio errado, a crença pessoal torna-se infalsificável porque, independentemente das provas, simplesmente alteramos os nossos parâmetros de forma a que não se apliquem a um “verdadeiro” exemplo. Este tipo de racionalização, à posteriori, é uma forma de evitarmos críticas válidas ao nosso argumento.

Exemplo: O Bill afirma que nenhum escocês verdadeiro põe açúcar no chá, ao que Charles replica que ele é escocês e gosta de pôr açúcar no chá. Furioso, como um verdadeiro escocês, o Bill grita dizendo que nenhum escocês verdadeiro adoça o chá!


18. Julgar algo como bom ou mau, tendo como base apenas a sua proveniência.

Esta falácia evita a argumentação, desviando o foco de atenção para a origem da coisa ou da pessoa. É semelhante à falácia ad hominem já que usamos a percepção negativa pré-existente para dar a entender que o argumento da outra pessoa está errado, sem realmente apresentar motivos válidos para a falta de mérito do argumento.
Exemplo: Acusado no Telejornal de corrupção, o deputado diz que deveríamos ter muito cuidado com o que aparece na televisão; porque, todos nós sabemos, a imprensa pode não ser de confiança.


19. Apresentar dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades quando, na verdade, existem mais. Esta tática insidiosa tem a aparência de um argumento lógico mas, se analisarmos o caso com cuidado, torna-se evidente que há mais possibilidades que a dualidade que é apresentada. O pensamento binário de “preto ou branco”, não permite contemplar às muitas variáveis, condicionantes e contextos nos quais existiriam mais que as duas possibilidades apresentadas. Enquadra o argumento de uma forma enganadora e ensombra o debate honesto e racional. Exemplo: Numa campanha para reunir apoio ao seu plano, que iria diminuir os direitos fundamentais do cidadão, o Líder Supremo advertiu o seu povo que, ou estavam do seu lado, ou estariam do lado dos inimigos do país.



20. Apresentar um argumento circular, no qual a conclusão está incluída na premissa.

Este argumento sem coerência lógica surge muitas vezes em situações nas quais assumimos algo que está muito entranhado e que, portanto, é dado como um fato. Usamos como prova, aquilo que estamos a tentar provar. A argumentação circular é má, principalmente porque não é muito boa. Exemplo: As palavras de Odin são verdadeiras e infalíveis. Sabemos isso porque assim o diz no “Grande Livro de Odin, O livro das coisas boas e verdadeiras que não devem nunca ser questionadas”. 


21. Argumentar que, porque algo é natural, é, portanto válido, justificado, inevitável ou ideal. Só porque algo é natural, não significa que seja bom. Por exemplo, o assassinato é muito natural, mas a maioria de nós concordará que não é algo que se deva fazer ou que a sua “naturalidade” sirva de justificação.  Exemplo: Um curandeiro chegou à aldeia oferecendo, como solução para as doenças, vários remédios naturais, como uma água muito especial. Dizia que as pessoas deveriam ter cuidado com os remédios artificiais, como os antibióticos.

(Nota: muitos antibióticos são, na realidade, de origem natural)


22. Usar uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de argumento válido ou evidência sólida. É por vezes muito mais fácil acreditarmos num testemunho pessoal em vez de tentar compreender um conjunto de dados complexo e a variação ao longo de um contínuo. As medidas quantitativas científicas são quase sempre mais rigorosas que as percepções e experiências pessoais, mas temos tendência a acreditar naquilo que é concreto e/ou com as palavras de alguém em quem confiamos, em vez da realidade estatística mais “abstrata.

Exemplo: O Paulo diz que o seu avô fumava dois maços de tabaco por dia e viveu até aos 97 anos, portanto não acredita no que lê sobre os estudos científicos com meta-análises que afirmam que há uma relação entre o tabaco e o câncer do pulmão.


23. Selecionar os dados de forma a que se ajustem ao argumento ou procurar um padrão que se ajuste à hipótese. O nome desta falácia de “falsa causa” advém do exemplo de um atirador que dispara aleatoriamente a vários celeiros e depois desenha o alvo onde há mais buracos de bala, dando a entender que é muito bom atirador. A aglomeração de dados pode dar-se naturalmente, por acaso, e não indica, necessariamente, uma relação causal.

Exemplo: Os fabricantes de Sumix afirmam que uma pesquisa indica que, dos cinco países onde é mais consumido o sumo, três são dos mais saudáveis do mundo. Logo, o Sumix é bom para a saúde.


24. Argumentar que a verdade está no compromisso, ou no meio termo.

Na maior parte dos casos, a verdade está algures entre dois extremos, mas isto pode enviesar o nosso pensamento. Por vezes, algo é simplesmente falso e o compromisso que inclui essa idéia é também falso. O meio caminho entre uma verdade e uma mentira é, também, uma mentira.
Exemplo: A Helena afirma que as vacinas causam autismo, mas o seu amigo Cláudio, que está cientificamente bem informado, diz que essa afirmação é comprovadamente falsa. Alice, amiga de ambos, procura um compromisso e diz que, se calhar, as vacinas causam autismo, mas não de todos os tipos.
 
           Os exemplos de argumentos falaciosos são tantos, que deixarei aos leitores o trabalho de procurá-los nos textos religiosos que falem sobre Justiça Divina, de qualquer seita ou religião, onde, certamente, serão profusamente encontrados.

              Em que pese acreditar na existência de um Criador, não imagino que ele realmente interfira na vida e na morte de quem quer que seja, para promover Justiça quando o espírito ainda se encontra encarnado. Imaginamos o Criador agindo segundo nossas crenças e valores; entretanto, quem somos nós, simples mortais, para tentar determinar como pensa, age e julga o Criador de todas as coisas. Quão pobre de espírito seria Este, e quão imperfeita teria sido a Sua criação, caso necessitasse de louvações, de orações, de pedidos e de oferendas para estabelecer seus desígnios e para processar seus atos em busca de uma justiça cósmica e espiritual; bem como, para interferir e mudá-los circunstancialmente, em razão de eventuais motivos supervenientes não previstos, após previamente decidido o rumo dos destinos entre espíritos e a divindade, se é de fato, realmente, assim que as coisas se passam naquela dimensão. A própria Justiça Divina consistiria em não interferir, jamais, no cenário que se desenrola ou no panorama que se descortina no mundo material.                          
                  Tenho a convicção de que todas as coisas acontecem, inexoravelmente, quando e por que têm que acontecer. Se todas as mães e todos os pais, de ambos os lados de algum conflito entre países, rezassem ao Criador pedindo por seus filhos combatentes (o que, certamente, eles sempre fizeram e ainda fazem), estes, independentemente da quantidade de orações feitas pelos progenitores, continuariam a morrer em decorrência dos tiros, das bombas e dos acidentes, como sempre ocorreu em todas as guerras. Caso contrário, seria possível uma guerra sem vítimas e sem mortes e eu nunca soube de nenhuma.
                       Se o Criador quisesse interferir nas contendas, por razões de Justiça Divina (ou estivesse preocupado com o destino, pré ou pós, traçado para suas criaturas), tê-lo-ia feito antes que os conflitos ou as guerras se iniciassem, impedindo-os, e não apenas por ouvir os apelos de pais e mães dos combatentes ou deles próprios. Como disse Voltaire em seu Tratado de Metafísica, de 1738, podemos imaginar quatro alternativas: ou o Criador quer e não pode (é bom, mas não tem poder), ou pode e não quer (tem poder, mas não é bom), ou não quer e não pode (não é bom e não tem poder), ou quer e pode (é bom e tem poder).
                     Em minha modesta opinião acredito que todas estas hipóteses, em teoria, poderiam se verificar, até mesmo concomitantemente; já que, não seriam elas mutuamente excludentes para o poder do Criador que tudo pode. Entretanto, sei que todos nós temos muito a aprender, nesta e em outras existências. Por este motivo Ele, embora podendo e, até mesmo, eventualmente, desejando, não interfere durante a existência do ser humano para modificar suas leis imutáveis em benefício de quem quer que seja; fazendo com que a propalada Justiça Divina e, da mesma forma, os chamados Milagres, nada mais se tratem do que sofismas, posto que falácias intencionais daqueles que desejam fazer o marketing da religião que abraçaram; já que, a verdadeira Justiça Cósmica e Espiritual é, inexoravelmente, conhecida, percebida, desejada e buscada por cada espírito, individualmente, e por todos eles em conjunto, ao longo de suas múltiplas encarnações, conforme mencionado por Kant e citado no início do texto com grifo nosso.                  
                      Os próprios espíritos rejeitariam, por um sentimento intrínseco e universal de justiça, a interferência divina em suas evoluções particulares. Lembremo-nos que a evolução espiritual é alguma coisa que tem que ser alcançada pelos próprios espíritos, não podendo ser outorgada por ninguém, nem mesmo pelo Criador de todas as coisas.



_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.





sexta-feira, 28 de abril de 2017

138. Sobre a indecisão no meio militar

Jober Rocha*


             “É uma coisa os soldados cumprirem ordens, outra seguirem os exemplos nobres. Os primeiros têm por paga o soldo, os outros a glória.” Esta frase, cujo autor não me recordo, povoou os primeiros anos da minha vida em uma escola militar. Escrita em uma das paredes de um dos alojamentos, era constantemente lida por quantos ali transitassem. Vejam os leitores que o autor já destacava a diferença de comportamento entre os militares; ou seja, entre aqueles com iniciativa própria daqueles que apenas cumpriam ordens. Outra frase, também escrita em uma das paredes do alojamento, dizia que “Cem anos não podem apagar um momento de perda da honra”.
                Após ter convivido durante cinco anos na vida militar, acabei tomando outro rumo que me levou a travar conhecimento com os fenômenos econômicos, com o comportamento dos agentes produtivos, com as Teorias Econômicas, com a Sociologia, com as Ideologias, com as Correntes Filosóficas, com os alicerces do Direito, com a Psicologia das Massas, com a Ciência Cognitiva, a Crítica Social, o Ativismo Político, etc. Formei-me em Economia, fiz o mestrado no país e cursei o doutorado na Espanha e na França. Tempos depois tive a oportunidade de retornar ao convívio militar através da realização do Curso de Administração do Transporte Marítimo, promovido pela Diretoria de Portos e Costas da Marinha do Brasil, com duração de um ano. Alguns anos depois fui estagiário na Escola Superior de Guerra (vinculada ao Estado Maior das Forças Armadas), ao cursar o Curso Superior de Guerra, também, com duração de um ano.
                 Menciono isto tudo, apenas, para evitar que alguns leitores, militares ou não, fiquem a imaginar se aquele que escreveu o presente texto está habilitado a falar sobre algo que, ao longo da História, tem sido objeto da preocupação de estrategistas, de comandantes militares, de historiadores militares, de cientistas do comportamento humano e de combatentes. Por outro lado, já aposentado, fui, durante dez anos, permissionário em um quartel de Infantaria da minha cidade. Mais uma vez, retornei ao meio militar. Naquele quartel fiz grandes amizades e cheguei a presidir a Associação de Amigos e Veteranos, ali instalada, sendo, posteriormente, presidente do Conselho Deliberativo da associação.
                 Volto a destacar que tudo aquilo que até aqui relatei não visa a minha autopromoção, servindo, tão somente, para enfatizar que não falo sem conhecimento de causa ou que tento discorrer sobre algo com que não tenho intimidade. Convivi muitos anos com militares das mais variadas patentes, de soldados a oficiais generais, e creio poder fazer uma análise, embora sucinta e superficial, sobre o pensamento da grande maioria dos militares com os quais convivi, tendo a ousadia ou a temeridade de generalizar minhas conclusões.  
                  Sem a menor pretensão de querer chegar aos pés daquilo que foi deixado à posteridade por estrategistas famosos como Sun Tsu, Maquiavelli, Liddell Hart, Clauzewitz, Schilieffen, teóricos que foram da estratégia militar, estas considerações tentam evidenciar as minhas opiniões particulares sobre um tema específico, qual seja o da iniciativa ou da falta dela no meio militar. Reconheço ser este um texto polêmico, mas a polêmica é o meu objetivo maior, visando despertar a atenção dos militares e das nossas autoridades militares para a importância do problema, levando-as a aprofundarem o assunto. 
                 A minha intenção não é a de tecer críticas a pessoas ou a instituições, mas, tão somente, através de relatos de situações que presenciei evidenciar que existe algo de falho ou de errado impedindo ou tolhendo a iniciativa pessoal, extremamente necessária aos militares em suas atividades bélicas na defesa do Brasil, das nossas leis e da nossa ordem.
                  Inicialmente eu gostaria de destacar as diferenças entre as iniciativas pessoais (com as evidentes exceções de praxe) que se apresentam gritantemente distintas, em média, entre os militares das polícias militares e os das forças armadas convencionais. Os primeiros vivem, em nosso país, diuturnamente em um Teatro de Guerra real, teatro este para o qual os segundos são levados a participar, episodicamente e em situações muito específicas. A participação de nossas FFAA em combates fora do Brasil, após a WWII, ocorreu apenas, em pequena escala, na República Dominicana, em Suez e no Haiti (todas em missão de paz, pela ONU). Note-se que houve mais baixas entre os heróis anônimos das polícias militares brasileiras, no período de 1994 a 2016 (cerca de 3.000 policiais mortos em confronto), do que entre os heróis combatentes da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial (460 praças, 13 oficiais e 08 pilotos). 
                  O número de Policiais Militares mortos, apenas no Rio de Janeiro e no período citado, representa um percentual do efetivo empregado (da ordem de 3,59%) maior do que o mesmo percentual das baixas norte-americanas em guerras mundiais. “É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do Rio de Janeiro do que estando em guerras", disse o coronel Fabio Cajueiro, que era um dos oficiais presentes na discussão travada no Fórum de Policiais Mortos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, realizado na academia da Polícia Militar, em Sulacap, na Zona Norte do Rio, fórum aquele que visava diminuir a vitimização de policiais. Só no primeiro mês de 2017, 18 policiais foram mortos no Estado do Rio de Janeiro.
                      O fato de atuar, diuturnamente, em um Teatro de Guerra real (ainda que tais guerreiros, de forma errônea no meu ponto de vista, continuem sendo julgados por uma legislação cível e criminal de tempos de paz; o que é algo contraditório e deixa bem claro a fraqueza do executivo, do legislativo e do Judiciário em reconhecerem o Estado de Guerra Interna existente em muitos dos Estados da Federação, que já possuem áreas liberadas e dominadas por facções criminosas, as quais trazem o pânico e a violência às comunidades no seu entorno e à população de toda a cidade), faz com que o Policial Militar, muitas vezes atuando sozinho, em duplas ou em pequenas frações, tenha de decidir, por si mesmo, a conduta que adotará. 
                    Como a velha frase que, muitas vezes, ouvi na aviação: “A indecisão mata o piloto!”, a indecisão do policial acabará por levá-lo a óbito. A frase que vale para o piloto vale também para o policial militar em uma viela estreita e suja de uma favela na periferia, onde ele tem que decidir, na hora e sem perguntar a ninguém, qual a iniciativa que irá adotar frente à situação que se apresenta. 
                       Por sua vez, em um quartel das forças armadas convencionais brasileiras em “tempos de paz”, a forte hierarquia e o fato de os conscritos ou mesmo dos militares engajados, serem, em sua maioria, oriundos das classes de renda mais baixas, aliado a uma natural subserviência e timidez típicas destas classes menos favorecidas do nosso povo, faz com que raramente as praças militares tenham iniciativa própria em diversas situações. Assim, é comum sempre perguntarem aos superiores o que devem fazer e como devem proceder, temendo serem repreendidos ou punidos caso façam algo errado. 
                     Já presenciei inúmeros episódios em que o comandante do quartel decidia quase tudo, inclusive sobre o corte da grama do campo de futebol. Todos os pequenos problemas que poderiam ser resolvidos nos escalões inferiores, eram submetidos ao comandante, sobrecarregando-o. Não que inexista delegação de funções e de atribuições, mas, na prática, elas não costumam vigorar em razão da falta de iniciativa e do temor de punições, caso a decisão tomada não tenha sido a mais correta ou a necessária para o caso específico. A mesma situação verificada entre as praças ocorre, com freqüência, entre os subalternos e os superiores. Mesmo ao chegar aos altos postos de mando, alguns, ainda, continuam consultando os seus superiores para decisões que seriam da sua própria alçada.
                     Extrapolando um pouco a matéria e mudando de cenário, vemos que o mesmo também ocorre quando os militares que (em conformidade com o artigo 142 da Constituição da República Federativa do Brasil: “Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.) possuem a missão de defender a pátria, a lei e a ordem, contemplam estas três serem diariamente vilipendiadas, desrespeitadas e desdenhadas pelas próprias elites no poder. 
                         Como naquele quartel mencionado anteriormente, todos esperam a decisão do comandante supremo das forças armadas (do presidente ou, até mesmo, do responsável por algum dos demais poderes), para poderem agir em defesa da pátria, das leis e da ordem, esquecendo-se de que o próprio comandante supremo (presidente da república), bem como os responsáveis pela Câmara e pelo Senado federal, têm sido mencionados em depoimentos de empresários beneficiados pela delação premiada como tendo recebido, ilegalmente, recursos de caixa dois e tendo sido citados em pedidos de abertura de inquéritos no âmbito da Operação Lava-Jato conduzida pela Polícia Federal. Ademais, recentemente, o Ministro Nelson Fachin, do STF, autorizou a abertura de 76 inquéritos envolvendo 8 ministros do atual governo, 24 senadores, 39 deputados, 3 governadores e 1 ministro do TCU. E notem que estamos apenas no início das denúncias e das apurações sobre corrupção, desvio de recursos públicos e crimes de lesa pátria em nosso país. Constata-se, assim, que o Brasil já não possui mais segurança jurídica e que a máquina pública - no dizer do ministro do STF Gilmar Mendes - foi tomada por uma Cleptocracia; ou seja, um Estado governado por ladrões. 
                        Neste contexto, as leis, os decretos e as portarias, aprovados e promulgados pelo Legislativo e pelo Executivo, atuais, careceriam de credibilidade e de legitimidade; posto que, estariam sob suspeição, em razão de terem sido elaborados e aprovados por personagens, em grande parte, réus nos processos de corrupção instaurados na Justiça.
                     Enquanto isto ocorre, muitos militares, mais acostumados a cumprirem ordens do que a seguirem os exemplos nobres, aguardam por uma iniciativa, partindo dos poderes constituídos, para intervirem em defesa da pátria, das leis e da ordem. Mas, o que fazer, se a origem dos nossos problemas atuais está, justamente, em muitas daquelas ‘autoridades’ responsáveis conjunturalmente pelos poderes constituídos, personagens estas as quais, ao contrário dos militares, jamais lhes interessaram a defesa da pátria, das leis e da ordem? Creio que a resposta a este questionamento poderia ser encontrada escrita nas paredes do velho alojamento daquela escola militar em que estudei, mencionadas no início deste texto; já que, a nossa situação, além de inusitada, é incompreendida pela maioria das populações das democracias ocidentais. 
                        A instalação de uma Cleptocracia no governo é um fato inédito na maioria destes países e para nos livrarmos de uma situação destas o mecanismo eleitoral não demonstra ser suficiente; já que, o Tribunal Superior Eleitoral-TSE começa, este ano, a julgar a ação em que o PSDB pede a cassação da chapa Dilma-Temer, vencedora das eleições presidenciais de 2014, por fraude eleitoral e pelo uso de recursos originários de caixa dois, oriundos do desvio de recursos públicos em obras contratadas pelo governo com diversas empreiteiras.
                      O julgamento é considerado o mais importante da história do tribunal. Por outro lado, a utilização de urnas eletrônicas nas eleições (sistema implantado em nosso país), tem sido muito criticada por possibilitar fraudes, na medida em que o eleitor não recebe nenhum comprovante informando sobre a natureza do seu voto; isto é, em qual candidato ele votou e a que partido político pertencia. Somos, talvez, o único país do mundo a utilizar este sistema.
                       Embora muitos critiquem as intervenções militares na vida civil dos países, na atualidade e em algumas situações pontuais, elas são as únicas alternativas viáveis, para libertar as populações, de alguns deles, de uma eterna servidão à déspotas e aos seus asseclas e comparsas, travestidos de democratas, que desejam apenas perpetuar-se no poder e enriquecer ilicitamente.


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

137. O Estagio


                                  Jober Rocha*




São Petersburgo, Império da Rússia, 18 de março de 1842.

De: Aleksandr Nicolaevich Romanov, primogênito e príncipe herdeiro (czarevich), filho de Nicolau I, da Rússia e da princesa Carlota, da Prússia.

Para: Sua Alteza Imperial Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – Dom Pedro II, mui digno Imperador Constitucional e Perpétuo Defensor do Brasil.

Assunto: Estagio não remunerado para conselhos políticos, treinamento sobre governabilidade e noções para uma boa administração de um império. 



Majestade,
Na qualidade de príncipe herdeiro do Império da Rússia e com a idade atual de 22 anos (exatamente sete anos mais velho do que Vossa Majestade, prematuramente declarado e coroado Imperador do Brasil), dirijo-me a presença de Vossa Alteza, nesta oportunidade, pelos motivos que a seguir passarei a expor:

1. Minha educação, como futuro imperador da Rússia, é feita sob a supervisão de Vasily Zhukovsky, poeta liberal e tradutor competente, muito conhecido por aqui, que incluiu em meu aprendizado várias disciplinas importantes para o desempenho da sagrada missão de um imperador; bem como, o estudo das principais línguas europeias. Imagino que Vossa Alteza esteja passando por algo semelhante no Brasil, pelas mãos do seu tutor José Bonifácio de Andrada; em que pese haver assumido o Império com apenas cinco anos de idade e coroado imperador aos quinze. 
Meu pai, o Czar Nicolau I, diferentemente do seu, D. Pedro I, não deseja abrir mão, prematuramente, do império para mim. Cuida de sua saúde com extremo rigor, alimenta-se bem, faz exercícios físicos e mantém alguns médicos de confiança sempre ao seu lado. Pelo visto, espera viver cem anos ou mais.

2. Enquanto a minha vez não chega, estudo e faço planos para o futuro da Rússia. Eu gostaria de implantar grandes mudanças em meu país, logo após ser declarado Czar, como, por exemplo: liberdade de expressão, incentivo à iniciativa privada, reforma da Administração do Império, desenvolvimento da exploração dos Recursos Naturais, expansão e melhoria da rede ferroviária, melhoria da condição de vida dos camponeses, fim da servidão em todas as províncias, implantação do serviço militar obrigatório, abolição do castigo corporal aos militares, uma nova administração judicial baseada no modelo francês, um código civil e criminal mais simplificado, um novo código penal, a criação de uma polícia rural, etc.
 Imagino que Vossa Alteza, embora comandando um império com características diferentes daquelas deste em que vivo e que, algum dia, deverá ser por mim chefiado pela graça de Deus, possui os mesmos sentimentos ou desejos semelhantes. Reconheço que qualquer reforma é muito mais fácil de ser tentada em países menos populosos e mais homogêneos, do que em grandes impérios como o da Rússia e o do Brasil; entretanto, aguardo ansioso o dia em que poderei tentar implantar as mudanças que vislumbro.

3. Vossa Majestade não imagina quanto o invejo. Aos quinze anos de idade já comanda um vasto império, enquanto eu, com vinte e dois, creio que jamais chegarei a sentar no trono do Czar. Enquanto Vossa Alteza recebe as homenagens e reverências de toda a sua corte e de todo o seu povo, eu, aqui em Moscou, sou um ilustre desconhecido e ninguém me leva a sério. 
Os ministros, os duques, arquiduques, condes e barões, passam por mim e não fazem nenhuma reverência. Acho que pensam que eu nunca chegarei a substituir meu pai ou que seus títulos de nobreza são maiores do que o meu, um simples filho de Czar. Enquanto Vossa Alteza participa de reuniões com seus ministros e conselheiros, eu fico andando pelos vastos corredores do palácio imperial, buscando alguém que me escute e que acredite em meu potencial como guerreiro e como futuro administrador de um império tão vasto quanto o russo.

4. Por vezes, durante a estação fria, nesta corte onde as pessoas somente pensam em festas e ostentações, tenho ímpetos de largar tudo, tomar um navio e, como um simples passageiro, desembarcar no Porto do Rio de Janeiro onde, certamente, encontrarei uma temperatura tropical amena e aquele sol que aquece os corpos e proporciona uma bela cor bronzeada. Por aqui todos os cortesões apresentam aquela cor pálida, que nos deixa sempre em dúvida se estão ou não doentes.  
Ao fazer minhas refeições, quase sempre compostas de carnes gordurosas, fico sonhando com as deliciosas frutas tropicais saboreadas, com toda a certeza, por Vossa Alteza. Ao banhar-me nos rios quase congelados do meu país, imagino os riachos de águas límpidas e tépidas do Brasil; por vezes, com cachoeiras maravilhosas que massageiam os corpos dos banhistas. Sonho com as areias mornas das praias que banham o território de vosso imenso império.

5. Durante as guerras, notadamente a Caucasiana (iniciada em 1817 e ainda se desenrolando); a Revolta de Dezembro de 1825 (da aristocracia militar contra a nobreza); a Guerra Russo-Persa de 1826/28 (quando tomamos a Armênia); a Guerra Russo-Turca de 1828/29, quando tomamos a foz do Danúbio e a Costa Leste do Mar Negro; e a Revolta da Polônia de 1830/31, o gasto de recursos e a perda de vidas humanas é enorme. Muitas destas guerras poderiam ter sido evitadas, caso as pessoas fossem menos ambiciosas e violentas. 
Quando exprimo estes meus pensamentos em público, na corte, sou taxado de “bonzinho”, de “inocente”, de “fraco” e de “sem ambição”. Invejo, mais uma vez, Vossa Majestade, que administra um império tão vasto quanto este daqui sem necessitar ir à guerra contra os vizinhos e sem revoltas militares internas. Como devem ser tranquilos os dias passados na corte de Vossa Alteza. Como devem viver felizes os vossos súditos.

6. Considerando o até aqui exposto, Vossa Majestade já deve imaginar como me sinto, sendo sem ser, podendo sem poder, mandando sem mandar. Dizem que represento o futuro do império, mas acho que este futuro ainda demorará muito a chegar ou pode ser, até, que nunca chegue. 
Fui informado que meus pais estão buscando uma esposa para mim, dentre as casas reais europeias, conforme é tradição da realeza russa e de outras tantas realezas. Outra vez invejo Vossa Alteza, que pode escolher, por si mesmo, aquela que o acompanhará por toda a vida, sem a necessidade de atender aos interesses políticos, estratégicos e econômicos dos pais.

7. Finalizando, chego ao motivo pelo qual tomei a liberdade de escrever à Vossa Majestade: somos jovens e temos uma grande responsabilidade pela condução dos negócios e destinos de nosso império. Eu, embora tenha tido bons mestres e tutores, não possuo nenhuma experiência sobre a administração imperial e, após a revolta de dezembro de 1825, tenho muito receio da aristocracia militar. 
Muitos destes aristocratas, pelo simples fato de terem comandado tropas vitoriosas, acham que os territórios conquistados lhes deveriam pertencer por direito. Esquecem que são, apenas, servos do Czar e servidores do império. 
Assim, gostaria de fazer uma visita ao Brasil e aprender, mediante um estagio não remunerado junto a Vossa Majestade, os meandros e as nuances da boa administração quanto aos aspectos políticos, militares, econômicos e psicossociais de um império. As noticias que aqui me chegam são muito elogiosas com respeito à capacidade administrativa de Vossa Alteza e, por esta razão, estou certo de que terei muito a aprender em vossa corte, caso me honre com a aceitação da presente solicitação. As minhas despesas nas terras do Brasil e aquelas decorrentes do séquito que me acompanhará, enquanto durar este meu período de estagio junto ao vosso império, serão todas custeadas pelo Império Russo. 
Rogo a Vossa Majestade que me ajude, neste momento difícil da minha existência.

Aleksandr Nicolaevich Romanov
Czarevich do Império da Rússia



Nota do autor:
Cópia da presente correspondência foi encontrada em um baú, no porão do Palácio de Tsarskoe Selo, no ano de 1923, onde o Czar Nicolau II, neto de Alexandre II (Aleksandr Nicolaevich Romanov), vivia com a família antes da fatídica Revolução de 1917, que eliminou, para sempre da Rússia a Dinastia Romanov.  Junto da cópia, havia uma carta de D. Pedro II alegando que, por problemas políticos conjunturais, a visita de Aleksandr teria de ser adiada. Os historiadores acham que Pedro II gostava mais de aprender do que de ensinar.
O Czar Alexandre II morreu assassinado em 13.03.1881, aos 63 anos, na cidade de São Petersburgo, pela explosão de uma bomba lançada por Ignaty Grinevetsky, membro da organização terrorista Vontade do Povo.
O imperador Pedro II foi deposto por militares em 15.11.1889, embora querido pelo povo brasileiro. Faleceu em Paris, no dia 05.12.1891, aos 66 anos, vitimado por uma gripe que evoluiu para pneumonia. Décadas depois da morte a sua reputação foi restaurada e os seus restos mortais foram trazidos de volta para o Brasil. Nos arquivos do império foi encontrada a carta de Aleksandr com o seguinte comentário de Dom Pedro II (então com quinze anos) a margem do texto: “Ora, onde já se viu. Estagio não remunerado. Era só o que faltava!”


_*/ Economista e Doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.