quinta-feira, 6 de maio de 2021

 420. A Visão de Michel de Nostradamus


 Jober Rocha*


    Nestes tempos de pandemia, em uma noite quente em que havia tomado um tranquilizante para poder dormir, tive a sensação de que caia em um precipício e, logo a seguir, que acordava sobressaltado na cidade do Rio de Janeiro, onde realmente morava. Não saberia dizer se estava verdadeiramente acordado ou se sonhava, pois o que passarei a narrar foi, para mim, tão real que até hoje ainda estou em dúvida se não se tratou de um sonho ou de uma premonição acerca de algo que, certamente, está bem próximo de ocorrer no futuro ano de 2025.

    Acordei com estampidos vindos da rua. Isso já era uma coisa normal em todos os bairros da cidade; mas, naquela manhã, os tiros eram tantos e acompanhados de muita gritaria, razão pela qual resolvi olhar por trás da persiana fechada do meu quarto e ver do que se tratava.

  Antes, porém, quero dizer que meu nome é Michel de Nostradamus de Castro e Silva e moro com a família, mulher e dois filhos, em um apartamento de três quartos em um bairro de classe média alta, na cidade do Rio de Janeiro.

  A última eleição presidencial havia transcorrido três anos antes, em 2022. Nela havia sido eleito um candidato de extrema esquerda. O anterior presidente, um liberal de direita candidato a reeleição, embora tenha feito um bom governo, por haver se recusado a utilizar os recursos do Fundo Partidário nas eleições de 2022, não conseguiu mobilizar seus tradicionais eleitores nem aqueles outros que lhe faziam oposição. 

  Sua campanha foi pobre e totalmente superada pela dos partidos de esquerda, que se uniram em torno do nome de um único candidato. Este candidato, tendo sido anteriormente condenado e preso, por casuísmos das mais altas cortes do país fora solto e tivera a sua condenação anulada. Os demais processos a que respondia foram todos paralisados e arquivados, possibilitando, com isso, que ele se apresentasse candidato nas eleições de 2022.

     Naquela eleição, o dinheiro do fundo correu solto para a mídia venal e para a compra de corações e mentes dos formadores de opinião, fazendo com que a população ignorante, submissa e interesseira, mais uma vez, fosse engambelada com promessas do paraíso terrestre construído pelas mãos daquele candidato esperto e bem falante, dono de uma retórica invejável  com a qual ainda supera todos os demais políticos de esquerda, oportunistas, do país.

     Enfim, foi eleito aquele velho candidato da esquerda que, paradoxalmente, além dos votos dos mais pobres, contou também com os votos e o apoio de grandes empresários, de autoridades religiosas, de intelectuais, de artistas e de militares graduados das mais altas patentes.

     Tendo transcorrido três anos da posse do candidato eleito, em 2025, praticamente, já vivíamos em um governo ou regime narco-comunista. Os líderes das facções criminosas, até então presos incomunicáveis em presídios federais, haviam sido todos soltos, seus negócios haviam prosperado e se expandido. Plantações de maconha e destilarias de cocaína funcionavam abertamente em vários Estados da Federação, depois que tanto a produção quanto o consumo de drogas haviam sido liberados pelas autoridades parlamentares.

     Os militantes e os ativistas da esquerda, que estavam infiltrados no governo anterior, de direita, sabotando decisões do presidente e de sua equipe de governo e fornecendo informações privilegiadas para seus partidos e que, por isso mesmo, haviam sido demitidos, retornaram todos no novo governo de esquerda eleito, agora com muito mais força política e um ódio muito mais intenso contra o capitalismo.

  As facções criminosas que agiam livremente, haviam recrutado milhares de ‘soldados’, que intimidavam a inoperante polícia e amedrontavam a população trabalhadora, temerosa de sair às ruas e vivendo trancada em suas casas, por força do chamado lockdown, torcendo para que dela se esquecessem.

     Esses ‘soldados’ do crime, anteriormente desunidos e em guerra entre eles mesmos, já haviam superado suas divergências e se unido em torno de um líder único, conhecido como Mariozinho Beira Rio, que chefiava com mão de ferro aquele exército de criminosos.

  Nas reuniões e solenidades no palácio do novo governo de esquerda, na capital federal, via-se, constantemente, a presença de inúmeros assessores fardados de alguns países comunistas, tanto do nosso continente quanto de fora dele.

    Os uniformes visíveis, nestas ocasiões, cada qual mais colorido que o outro, demonstravam que nossas autoridades nada mais eram que simples representantes fantoches e lacaios de países comunistas mais antigos e mais poderosos, que, aproveitando-se da saída dos USA dos acordos e foros internacionais; do protecionismo e do fechamento daquele país em torno de suas fronteiras; da ausência de ideólogos de direita que contrabalançassem os ideólogos de esquerda junto ao meio intelectual e artístico (que, tradicionalmente, orientam a juventude e as massas trabalhadoras) e do trabalho desenvolvido por entidades internacionais e pelos representantes de algumas religiões que adotaram as chamadas Teologia da Libertação e a Ecoteologia ou Teologia Ambientalista (está última uma forma disfarçada de panteísmo, mas, que, visava, na prática, assenhorear-se dos recursos naturais da Região Amazônica para grupos econômicos a elas ligados), visando à implantação da Nova Ordem Mundial, tinham, finalmente, conseguido chegar ao poder em inúmeros países sul americanos e africanos.

  Assim, tendo eu feito uma breve síntese dos fatos ocorridos após a derrota nas urnas do candidato liberal de direita, seguirei com a narração do que ocorreu naquele dia e nos demais que se seguiram ao meu ‘suposto’ sonho.

  Olhando por detrás da persiana, vi muitas pessoas armadas saqueando os transeuntes e as lojas abertas, algumas delas já cerrando-as rapidamente. Resolvi descer até a portaria do prédio e ver como estavam as coisas lá embaixo, isto é, nas ruas.

  No térreo fui alertado pelo porteiro a não sair do prédio, mas minha curiosidade era grande demais e resolvi sair e caminhar pelas ruas.

     A primeira coisa que notei foi a total ausência da polícia. Está havia, simplesmente, sumido. Caminhando por várias ruas não vi nenhum policial, como, também, nenhum bombeiro para combater os inúmeros incêndios que grassavam pelo bairro, ateados com coquetéis Molotov jogados pelos criminosos e revoltosos.

     Pelo que pude perceber, as facções criminosas haviam ordenado aos moradores das comunidades pobres que se rebelassem contra as autoridades constituídas e fossem às ruas para roubar e saquear o comércio e as residências particulares, visando a instauração do caos social. 

     Essas facções agiam sob ordem do partido político no poder, que encontrou forte resistência da parte de alguns civis e militares patriotas, que não compactuam com a tentativa de implantação do comunismo no país. O objetivo dos criminosos era implantar o caos nas cidades e no campo para que o governo pudesse agir com mão forte, reprimindo os patriotas com o auxílio das forças armadas e das forças policiais cooptadas.

     Notei, caminhando pelas ruas, as lojas fechadas, a ausência de transportes públicos e, apenas, um ou outro veículo circulando. Muita fumaça partindo dos prédios incendiados e as ruas quase todas desertas.

    Ao longe eu ouvia rajadas de fuzis e de metralhadoras e disparos de pistolas. Resolvi retornar para casa, me esgueirando rente às paredes das lojas e dos edifícios.

     Fiquei cerca de três ou quatro dias em casa com meus familiares, comendo aquilo que tínhamos na despensa. A situação nas ruas, pelo que imagino, não se modificará. Nenhuma polícia, nem elementos das forças armadas eram vistos circulando pela cidade. As lojas permaneciam fechadas e os gêneros alimentícios já faltavam em todas as residências. Uma ocasião, durante a noite, a luz foi cortada em um ato de sabotagem junto às torres de distribuição, segundo fiquei sabendo por intermédio do porteiro. Pouco depois, cortaram o fornecimento de água.

     Resolvi que não valia mais a pena esperar ali, no apartamento, a normalização da situação, pois, pelo visto, ela jamais se normalizaria.

     Decidi que tentaria me deslocar com a família para uma casa de fim de semana que comprara a prestação, localizada em região montanhosa do interior, afastada da capital.

     Antevendo eu a possibilidade de uma futura convulsão social no país, há alguns anos adquiri esta casa em região montanhosa isolada, onde poderia estocar alimentos, armas e munições, em um porão previamente construído, e tentar sobreviver com o que dispunha.

  Ali eu poderia resistir durante muito tempo, até as coisas se definirem e o país voltar ao seu rumo, com ordem e segurança.

  Com calma e tempo, eu preparei previamente uma horta, plantei árvores frutíferas, montei um galinheiro onde viviam cerca de trinta e poucas galinhas e iniciei uma criação de coelhos. O terreno possuía em seus limites um pequeno córrego de águas limpas, que abastecia a casa.

     A energia da casa vinha de células captadoras de energia solar. O gás da cozinha vinha de uma pequena usina produtora de gás, a partir de rejeitos orgânicos. Havia também estocado diesel para a caminhonete. 

    Em suma, se eu conseguisse chegar até a minha propriedade nas montanhas, ali poderia sobreviver durante muito tempo, resistindo pela força das armas a alguma invasão ou assalto de bandos ou turbas revoltosas.

  O grande problema era chegar até lá, pois a convulsão social havia se estendido por todos os Estados da Federação e, naquela situação, transitar pelas ruas das cidades transformou-se em uma aventura arriscada, ainda mais com mulher e filhos.

    De qualquer forma, dei início a preparação para sair daquele apartamento. Minha caminhonete Toyota estava estacionada na garagem do prédio com o tanque de diesel cheio. 

     Recolhi os mantimentos que ainda restavam em casa, enchi várias garrafas de plástico com água potável, apanhei vários cobertores, meus documentos e os dos demais membros da família e coloquei tudo na parte de trás do veículo.

    Peguei minha pistola Beretta mod. 92, calibre 9mm, com quatro carregadores de 15 tiros cada, cheios; minha pistola Colt 1911, calibre .45, com cinco carregadores de 7 tiros cada, cheios; uma escopeta Mossberg, calibre 12, semiautomática, com capacidade para 10 cartuchos, carregada, e diversas caixas de munição que possuía em casa.

    Coloquei as caixas com as munições no porta luvas, as pistolas na cintura, os carregadores nos bolsos da calça e a escopeta ao meu lado no banco da caminhonete, reuni a família e deixei a garagem do prédio sem nem olhar para trás e sem saber quando ali voltaria novamente.

    Sai do prédio e transitei por várias ruas desertas, tomando o rumo do Aterro do Flamengo. Avisei aos familiares que, quando me vissem sacando alguma das armas, eles deveriam se jogar no chão do veículo e dali só sair com ordem minha. 

     Pretendia atravessar a Ponte Rio Niterói, seguir pela Avenida do Contorno, já em Niterói, até atingir a BR 101, passando pelo município de Itaboraí e, mais adiante, seguir pela RJ 116 em direção ao município de Nova Friburgo. Dali, depois de atingir Muri no quilômetro 73, pegaria a estrada à direita em direção ao município de Lumiar. 

    Minha propriedade fica próxima de São Pedro da Serra, em uma alta montanha, quase sempre coberta pela cerração, entre este município e o de Benfica.

  Pelo caminho por onde passávamos, o panorama era de uma guerra declarada: casas, lojas e edifícios em chamas ou enegrecidos pelo fogo já apagado. Buracos de balas em muitas paredes, ruas desertas, esparsos veículos circulando, nenhuma viatura policial ou das forças armadas.

     Entrei no Aterro do Flamengo e segui em direção ao Aeroporto Santos Dumont, de onde seguiria através do túnel Marcello Alencar até a Praça Mauá.

     Nas proximidades do aeroporto, ainda de longe, notei que haviam feito uma barreira na pista e algumas pessoas armadas faziam sinais para que eu parasse. Parar, naquela situação, significaria morte certa. Mandei que todos no veículo se abaixassem, saquei a pistola 9 mm e desci os vidros da frente do veículo. Fiz que ia parar na barreira, o que tranquilizou os seus integrantes.

     Com os olhos procurei rápido o ponto mais fraco da barreira e logo o encontrei. Alguns caixotes de madeira jogados na pista bloquearam o lado esquerdo da via e percebi que por ali poderia passar, quebrando aqueles caixotes com as rodas do veículo.

    Quando um dos que ali estavam se aproximou pela direita, atirei em seu peito com a pistola. Ele caiu e os outros se aproximaram. Descarreguei meio carregador neles, joguei o veículo em direção aos caixotes e, passando por eles, pisei fundo no acelerador, pois eles começaram a atirar em minha direção. Felizmente não acertaram nenhum tiro. 

     Entrei no túnel Marcello Alencar e rumei célere em direção à Praça Mauá. Ali chegando, tomei a direção da subida da Ponte Rio Niterói. Eventualmente, cruzava com algum veículo em sentido contrário, pois aquela parecia uma cidade fantasma, embora possuísse cerca de 6,2 milhões de habitantes.

    A travessia da ponte foi tranquila. De cima dela pude avistar partes da cidade do Rio de Janeiro, que ficavam para trás e parte da cidade de Niterói, para onde eu me dirigia. Em ambas a fumaça negra dos incêndios turvava o céu azul daquele belo dia de sol.

     O posto de pedágio estava vazio e as cancelas todas abertas. Não vi nenhum funcionário no local. Tomei o rumo da Avenida do Contorno, local perigoso pois passava por cerca de quinze comunidades carentes, a pior delas entre os quilômetros 307 e 309 da BR 101 (Rodovia Niterói-Manilha), chamada Complexo do Salgueiro e mais conhecida como Faixa de Gaza.

     Nesta rodovia parei o veículo e pedi a minha esposa que ocupasse o volante. Passei para o banco de trás da caminhonete, arriei ambos os vidros laterais, segurei nas mãos a escopeta Mossberg semiautomática, engatilhei o mecanismo e fiquei atento à estrada.

     Mais à frente, justamente na altura da Faixa de Gaza, duas motocicletas atravessadas na pista impediam o trânsito de veículos. Minha mulher ficou nervosa, sem saber o que fazer. Mandei que seguisse devagar e mirasse com a nossa caminhonete a parte do meio da pista que separava ambas as motos, pois entre elas havia um espaço de cerca de um metro.

    Em volta das motocicletas haviam cerca de dez pessoas conversando, algumas com fuzis nas mãos e outras com suas armas penduradas nos ombros pelas bandoleiras. No acostamento da rodovia notei mais algumas pessoas.

     Nenhuma delas esperava reação, pois foram completamente surpreendidas pelos meus disparos repetidos em suas direções. Muitos deles, atingidos pelos inúmeros chumbos projetados dos cartuchos, caíram ao chão. Minha mulher jogou o veículo entre as duas motos, que foram atiradas para o lado. Ao mesmo tempo eu seguia disparando em todas as direções, vendo gente cair por todos os lados, todos atingidos pelos meus disparos.

    Mais uma vez passamos incólumes por uma barreira de revoltosos sublevados. Seguimos até perto de Itaboraí, quando pedi a ela que parasse o veículo e eu assumi o volante. Recarreguei todas as armas e seguimos em frente.

    Meus filhos, dois meninos, um com doze anos e o outro com quatorze, participavam daqueles acontecimentos como se estivessem vivendo na vida real algum dos jogos de guerra que costumavam acessar com seus Smartphones. Eu me recordava dos velhos filmes de faroeste em que os colonizadores, em carroções puxados por parelhas de cavalos, eram assediados pelos índios revoltosos.

  Lembrei-me, naquela ocasião, do maquiavelismo dos governantes de esquerda que desarmaram a população do país, já prevendo a chegada destes dias trágicos que viveríamos. Os cidadãos desarmados tornavam-se presas fáceis das organizações criminosas que importavam fuzis, pistolas e munições em quantidade, pelas fronteiras desguarnecidas do país.

     Eu, desde longa data, havia me filiado a um clube de tiro e caça e, como atirador desportivo e caçador, havia adquirido diversas armas e munições, além de praticar com frequência o tiro sob as mais diversas modalidades.

  Sempre achei que a esquerda não desistiria enquanto não tomasse o poder em nosso país. Os episódios da Intentona Comunista de 1935 e da Guerrilha Urbana e Rural, iniciada após o Movimento Militar de 1964, reforçaram esta minha crença e fizeram com que eu me preparasse pessoalmente para essa eventualidade. 

     Aprendi técnicas de sobrevivencialismo e procurei construir um refúgio isolado e distante dos centros urbanos, para viver com a família em uma eventualidade como a que agora se apresentava. Quantos cidadãos de bem irão perecer nessa convulsão social, por não terem feito o mesmo?

     Uma coisa que notei agora, e que jamais pensei que fosse ocorrer, é que os primeiros a sumirem das ruas nas convulsões sociais são as autoridades públicas. As ruas tornam-se desertas de uma hora para a outra. A polícia, os bombeiros, os militares, os serviços públicos, todos desaparecem da vida da cidade. O transporte público para de funcionar, os lixos não são mais coletados e se amontoam pelas ruas, a luz e a água são cortadas, o comércio fecha as suas portas, surge o desabastecimento e com ele a fome.

    Quem antecipadamente não se preparou para uma eventualidade deste tipo é apanhado de surpresa e, infelizmente, acaba perecendo. A situação geral de destruição é muito parecida com aquela que ocorre nos grandes cataclismos; todavia, nestes existe um espírito de cooperação entre os sobreviventes. Na convulsão social e na guerra civil o espírito é de antagonismo e de guerra entre os participantes dos dois lados em contenda.

    Você seguirá vivendo tão somente enquanto dispuser de armas, munições, água e comida. Ninguém estará preocupado com a sua situação, a não ser você mesmo.

     Minha mulher é uma pessoa prática e fatalista. O que tiver de ser será, segundo ela pensa. Vive bem com aquilo que tiver, não sendo ambiciosa nem gastadeira. Se adapta perfeitamente à vida simples do campo, como eu também. Espero que possamos seguir sobrevivendo enquanto durar esta terrível situação pela qual estamos passando, exclusivamente, por descaso de algumas autoridades, políticas, militares, econômicas e religiosas, não comprometidas com a ideologia marxista nem com o narcotráfico, nas últimas décadas de governos esquerdistas, mas ineficientes e desinteressadas.

     Tais autoridades sempre acharam que, em nosso país, as coisas poderiam ser negociadas entre os grupos que disputavam o poder, visando chegar a um acordo que fosse bom para todos os grupos; sempre foram pacifistas; sempre tiveram receio da opinião mundial. 

     Pouco ou nada entendiam de política, de ideologia, de estratégia geopolítica e se deixaram iludir pelo canto das sereias marxistas-gramscistas, que almejavam alcançar o poder, inicialmente de forma pacífica, subvertendo a moral e os bons costumes como fizeram na realidade nos anos em que governaram, antes de partir para o golpe final na democracia mediante a revolta que ora vivenciamos envolvendo, de um lado, as facções criminosas e o povo pobre das periferias, armados e incentivados pelos ideólogos e intelectuais de esquerda, e do outro a população dos profissionais liberais e dos empresários da classe média (os pequenos burgueses odiados pelos comunistas), desarmados pelos governos de esquerda. 

     As elites envolvidas com o narcotráfico, com o desvio de dinheiro público, com concorrências fraudadas, com a compra de leis e decretos que os favorecia, com a compra de sentenças quando julgadas pelos crimes cometidos, eram declaradamente favoráveis aos governos de esquerda venais, que roubavam e deixavam roubar.

     Com o início da convulsão social, os ricos e oportunistas seguiram em seus aviões particulares para as grandes capitais no exterior e para os paraísos fiscais, onde aguardariam a poeira assentar, vivendo nababescamente, para retornarem, futuramente, com seus esquemas e maquinações tradicionais, tão logo os novos e poderosos governantes comunistas controlassem totalmente  a situação.  

    Terminada esta digressão, face a impaciência que já percebo em alguns leitores para conhecer o desenrolar dos acontecimentos daquele dia, seguirei narrando a nossa viagem. 

    Após atravessarmos o município de Itaboraí, viramos à esquerda e seguimos pela RJ 116 em direção a Nova Friburgo. Já estávamos, praticamente, bastante longe dos principais focos de rebelião, que eram os centros urbanos populosos, como o Rio de Janeiro e Niterói.

     Passamos por Sambaetiba, Agrobrasil, Papucaia e Cachoeiras do Macacu, antes de atingir Nova Friburgo. Esse trajeto foi feito sem nenhum incidente, pois a estrada estava praticamente deserta. 

  Não vimos nenhum veículo da Polícia Rodoviária, nem pessoas andando nas margens da estrada. Parecia que éramos os únicos habitantes vivos do planeta. Nos municípios em que penetramos, as lojas estavam todas fechadas e as ruas vazias. Notamos alguns veículos queimados e marcas de disparos de armas de fogo nas paredes das casas. A situação, realmente, parecia muito grave.

     Os pedágios da estrada, da mesma forma que o da Ponte Rio Niterói, estavam vazios e com as cancelas abertas.

     Finalmente, mais tranquilizados, pudemos apreciar um pouco da bela paisagem que se descortinava e respirar aquele ar puro que sentíamos ao subir a serra. Matas com grandes árvores se perdiam no horizonte. Por vezes, ao fazer alguma curva, avistávamos um fio de água escorrendo pelas encostas rochosas que a estrada margeavam. Aspirávamos um cheiro de essências florestais quando descíamos os vidros das janelas do veículo.

    Os meninos brincavam no banco de trás, minha mulher dormia no assento do meu lado. Aquele parecia mais com um dia de férias do que com um dia de guerra, no qual eu já havia matado e ferido diversas pessoas. Chegamos ao alto da serra de Friburgo e começamos a descer.

     Passamos pelo posto fechado da Polícia Rodoviária, na entrada do município, e seguimos em frente. Pouco depois de Muri, viramos à direita e entramos na estrada que conduzia a Lumiar.

     Esta estrada, como as demais, estava totalmente deserta. Pensei comigo mesmo: será que só eu tive a ideia de construir um abrigo fora de casa na cidade e afastado, para me esconder e tentar sobreviver? Todos os demais se escondiam em suas próprias casas nas cidades? Só podia ser isto, para as estradas se acharem todas desertas.

     Depois de rodar algumas horas, nos aproximamos da minha propriedade. A casa ficava na parte alta da montanha e era acessada por uma estrada de terra. Na época das chuvas, mesmo usando a tração nas quatro rodas era difícil chegar ao alto, pois o barro ficava escorregadio.

     Chegamos a casa em um dia de semana, de surpresa. Todavia, quem foi surpreendido fui eu, pois um indivíduo estava sentado na varanda.

    Ao descer da caminhonete, notei que ele portava um revólver na cintura, de um lado, e um facão, do outro. Já desci com a Colt .45 na mão, engatilhada, e mandei que deitasse no chão com as mãos na nuca. Ele, vendo a minha disposição, seguiu a ordem que recebeu. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu que a casa estava vazia e que ele resolveu pegá-la para si, pois o país estava em guerra e o comunismo havia sido implantado. Segundo ele, tudo era de todos e aquela propriedade agora era dele.

     Percebi que corria um risco enorme ao deixá-lo ir embora, naquela situação de guerra civil em que nos encontrávamos; pois ele poderia voltar com outros companheiros seus e tomar a casa pela força, matando a mim, minha mulher e meus filhos. Mandei que a esposa e os filhos permanecessem na caminhonete, aproximei-me e, com ele ainda deitado de costas no chão, apontei para a sua nuca e disparei. A morte foi instantânea e eu diria que até indolor. A varanda ficou, imediatamente, toda suja de sangue.

    Arrastei o corpo dele, segurando-o pelas pernas, para fora da varanda, em direção ao chão de terra, vendo um rastro de sangue que escorria da sua cabeça esfacelada seguir o mesmo trajeto do seu corpo.

     Minha mulher e as crianças, saindo correndo do carro, entraram na casa pela porta dos fundos e eu fui cavar um buraco razoavelmente grande para depositar aquele corpo.

     Escolhi um local distante da casa e, com uma picareta, uma pá e uma enxada comecei a cavar. Depois de horas, o buraco estava com uma profundidade razoável. Arrastei o corpo até lá e joguei-o dentro. A seguir comecei a tapá-lo, jogando terra com a pá. Em breve o buraco estava totalmente fechado. Coloquei alguns troncos secos e arbustos em cima, bem como algumas pedras.

     Voltei para a casa, guardei as ferramentas e fui limpar a varanda e os rastros de sangue.

     Em breve tinha terminado tudo e estava com as costas e os braços doloridos. Descarreguei a caminhonete, acendi as luzes da casa, pois já escurecia, e preparei-me para comer algo. Minha mulher já tinha feito um arremedo de jantar e as crianças já haviam comido e estavam dormindo.

    Tomei um banho rápido e sentei-me à mesa, junto com ela.

 Minha mulher me olhou e vi que dos olhos molhados escorriam lágrimas. Peguei em sua mão e, depois de algum tempo, disse baixinho olhando-a firme nos olhos: 

     - É a vida. Temos de sobreviver. Não temos mais a quem recorrer neste país do salve-se quem puder. As autoridades deixaram de existir. Estamos por nossa própria conta e risco.  

    No dia seguinte começaria a vida da minha família no campo, que duraria cerca de três anos; período este que durou a guerra civil em nosso país. 

    Pouco depois acordei no apartamento do Rio de Janeiro, com uma forte dor de cabeça. A casa estava ainda às escuras e no maior silêncio. Teria eu feito uma viagem ao futuro enquanto dormia? Seria aquilo tudo verdade?

    Aquilo tudo me parecia mais um conto de ficção, destes que lemos em revistas especializadas no assunto; todavia, estou convencido de que no Brasil e no mundo de hoje, ninguém poderá distinguir, sem medo de errar, o que é ficção daquilo que é a pura realidade...

_*/ Da Academia Brasileira de Defesa


domingo, 11 de abril de 2021

 419. Estranho, muito estranho...


Jober Rocha*


O Brasil conta, na atualidade, com 212 milhões de habitantes. Do total de eleitores, que monta a 148 milhões, cerca de cinquenta e oito por cento votaram em Jair Bolsonaro; certamente, por se sentirem insatisfeitos com as três décadas de governos de esquerda, onde a tônica foi o roubo de recursos públicos, a formação de quadrilha, o aparelhamento do Estado em seus três poderes, o tráfico de divisas e de drogas, as concorrências fraudadas, o nepotismo e a tentativa de implantação de um governo socialista bolivariano, eufemismo de um governo comunista.

A vitória de Bolsonaro, candidato sem recursos, de partido pequeno, com dificuldades para obter um vice, contra a corrupção institucionalizada, vítima de uma tentativa de assassinato; considerando que o governo de então detinha o controle das eleições e de suas apurações, e que inúmeras denuncias apontaram fraude na eleição passada de Dilma Roussef, foi, de certa forma, muito fácil. Digo isto por que, caso o sistema de esquerda, já implantado no país através do Foro de São Paulo, desejasse outro resultado na eleição de 2018, seria muito fácil obtê-lo. A própria prisão de Luís Inácio Lula da Silva, como a de Sergio Cabral, parece ter sido vingança por acordos espúrios não cumpridos. Tantos roubaram tanto, desde há muito, reconhecidamente, e nada lhes aconteceu por isto.

Fico imaginando se, há vários anos, já estivesse previsto, pelos donos do mundo, o lançamento de um vírus fabricado, que daria um reset em todo o planeta, reduzindo o consumo dos recursos naturais e ambientais e, notadamente a população, da ordem de 7 bilhões de seres humanos. Consequentemente, o número de indústrias e a produção mundial seriam reduzidos, o comércio e os empregos também, além de eliminar parcela substancial da humanidade que pesa nas folhas de pagamento e na previdência social. A robótica e a inteligência artificial já chegaram para substitui-los eficazmente, assim pensam aqueles que comandam o planeta. A esquerda, evidentemente, não gostaria que seus governos fossem responsabilizados pelo caos que se seguiria.

Certamente, iriam querer atribuir todo caos e confusão à direita. Isto, caso a minha hipótese seja verdadeira e o plano para o lançamento do vírus já estivesse pronto para ser desfechado, desde há algum tempo.

Inúmeros especialistas em informática já afirmaram que as máquinas eleitorais aqui utilizadas e fabricadas na Venezuela, são facilmente fraudáveis. Não vejo razão plausível para que os partidos políticos não recebam comprovantes dos votos que seus candidatos receberam nas urnas. A não ser o desejo de os organizadores esconderem os verdadeiros resultados. E assim, o sistema implantado elegeu Jair Bolsonaro como boi de piranha.

Eleito presidente Jair Bolsonaro, o governo do país se transferiu, a sua revelia, para o STF, para a Câmara e para o Senado. Os 58 milhões de eleitores sentiram-se totalmente frustrados. A parceria entre o judiciário e o parlamento assumiu o controle do país de forma ilegal e inconstitucional, mas, de fato.

Com a retirada dos poderes do presidente no que tange a atual Pandemia de Covid 19 (poderes que não sejam, unicamente, os de liberar recursos federais) e as suas outorgas aos governadores e prefeitos, o presidente viu-se de mãos amarradas para impedir o descalabro, a prepotência, a má fé de muitos políticos desejosos de aprofundar a crise em seus Estados, de forma a macular e comprometer o governo federal atribuindo-lhe a culpa pela recessão econômica, pelo desemprego, pela inflação e pelo desabastecimento da população.

Digo isto por que na maioria dos países as autoridades Estaduais e municipais buscam combater o vírus, sem a implantação do chamado lockdown; enquanto aqui se busca, ademais de desviar dinheiro público destinado ao combate da pandemia, combater o governo federal e o seu presidente, provocando recessão econômica e desemprego.  Tanto è assim que o Brasil é a única grande economia que aparece com desaceleração, enquanto em todas as outras a situação varia entre “crescimento constante” ou “aumento da expansão”.

Por outro lado, também acho muito estranho o fato de que a parcela maior dos prejudicados com o lockdown não se manifeste através de seus sindicatos e órgãos de classe e que estes não convoquem seus membros para passeatas pelas ruas das cidades, reivindicando o fim do lockdown. Inúmeros profissionais liberais e comerciantes tiveram que cerrar suas atividades, por falta de clientes ou por não poderem manter abertos seus comércios, escritórios e consultórios. Reclamam entre si, mas não vão para a porta dos conselhos regionais, OAB, sindicatos, associações de classe, etc. reclamar o fim do lockdown, cujo caráter, sabemos, é meramente político. Será que os sindicatos existentes encontraram novas fontes de recursos que, agora, já prescindem de seus associados? Será que o crime organizado e as fações criminosas estão sustentando os desempregados da periferia, agora que os criminosos foram libertados das cadeias por ordem superior, sob o argumento frágil de não se contaminarem com o vírus, posto que as autoridades estabeleceram o lockdown para os cidadãos de bem enquanto soltaram os criminosos já confinados? Serão, esses criminosos soltos, os lideres dos moradores das periferias desempregados, em alguma convulsão social que se avizinha em futuro próximo?

A taxa de desempregados no Brasil, hoje, é de 14.2%, representando 14,3 milhões de pessoas, a maioria oriunda das classes mais pobres. Estes, no entanto, não são vistos nas inúmeras passeatas e movimentos populares já realizados no governo Bolsonaro. Será que os recursos do Bolsa Família e do Auxílio Emergencial são suficientes para mantê-los em casa? Estes recursos, no entanto, não poderão ser mantidos por muito tempo mais.

Por causa da queda de receita e dos gastos extras decorrentes da pandemia de covid-19, o governo projeta que a União fechará o ano com déficit recorde de R$ 812,2 bilhões, o equivalente a 11,3% do Produto Interno Bruto. A dívida brasileira monta a cerca de 5 trilhões de reais. Em breve não haverá dinheiro para pagar o funcionalismo, nem para investimentos públicos.

As manifestações que se veem, na atualidade, parecem mais movimentos partidos da classe média, de donos de empresas, de comerciantes e de profissionais liberais, do que de empregados da periferia que perderam os seus empregos e estão famintos e desabastecidos. A crise, parece, ainda não ter atingido o fundo do poço.

Evidentemente, nós, os escritores que não fazemos parte nem dos donos do mundo, nem das autoridades governamentais, apenas podemos especular e trabalhar com a ficção, dando vazas a imaginação.

No entanto, creio que existe alguma verossimilhança em tudo aquilo mencionado, embora eu não possa afirmar serem verdadeiras todas as suposições levantadas.

O nosso povo, além de acomodado, é crédulo, inocente, despolitizado e subserviente. A esquerda aparelhada nos três poderes sabe bem disso, razão pela qual não tem nenhum receio de agir da forma temerária como age. Se não for contida, agora, em suas pretensões, logo a miséria tomará conta do nosso país, como ocorreu com a nossa vizinha Venezuela.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


sexta-feira, 9 de abril de 2021

418.  A Humanidade precisa de novas religiões ou as religiões precisam de uma nova humanidade?


Jober Rocha*


Em um texto anterior, lembro-me de tê-lo iniciado com a seguinte afirmação: 

    “Na sociedade humana dos dias atuais, entorpecida em virtude da corrupção, dos males da pobreza e do desemprego, da degradação ambiental, da extinção de recursos naturais, das epidemias e enfermidades, da violência, etc., muitos indivíduos sentem-se inclinados a abraçar alguma religião ou, até mesmo, a se dedicarem a uma vida monástica, de modo a se subtraírem de um mundo cuja estruturação e modo de administração não lhes agrada, cuja repartição das riquezas lhes repugna a razão e cuja existência quotidiana não lhes oferece senão padecimentos”.  “O caminho natural para estes indivíduos é o da busca por uma religião que realmente os reconforte, tanto para os que são ateus quanto para aqueles que já possuem alguma religião; religião esta, porém, que não satisfaz plenamente aos seus anseios”.

O que se nota é que muitas pessoas religiosas seguem uma tendência da raça humana, qual seja, a de acreditar em um Criador de todas as coisas e de prestar-lhe homenagens, reconhecimento e servidão, entregando aos seus sacerdotes a responsabilidade por fazer a ponte entre ambos. Dependendo do continente onde hajam nascido e da religião de seus pais, o costume natural deles, desde criança, é o de adotarem esta mesma religião dos pais, devido a pressão que sofrem na família e na sociedade.

Ocorre que todas as religiões existentes no planeta, pregam aos seus seguidores, que, somente por intermédio dela e de suas práticas, conseguirão a cura de enfermidades, o sucesso nas vidas particular e profissional; um lugar no céu das divindades; em suma, promessas de felicidade plena que nenhuma delas está apta a cumprir. Em retribuição por esta suposta prestação de serviços, são regiamente remunerados pelos fiéis. De uma maneira geral, as religiões que servem a um mesmo Deus, deveriam se ajudar mutuamente e se unir em prol de um objetivo comum. Paradoxalmente, são inimigas entre si e cada uma se proclama como a única verdadeira, aquela que conduzirá o adepto ao reino dos Céus.

Aqueles que as seguem, por sua vez, apresentam-se como pessoas corretas, honestas, caridosas, humildes, bondosas etc. , virtudes estas que a maioria delas não possui e que está longe de possuir. Ao não alcançarem o sucesso que almejavam, o seu insucesso passa a ser creditado à pouca fé que possuíam ou ao pouco recurso que desembolsaram para consegui-lo junto às divindades.

O cenário atual, no meu modo de ver, transformou-se, com o passar do tempo, em um jogo de faz de conta: As religiões em seus cultos, a troco de dinheiro, prometem aquilo que não podem cumprir e seus seguidores fazem de conta que são boas pessoas e que desejam prestar homenagens ao Criador de todas as coisas, através dos cultos daquela religião, em troca dos favores que pensam irão receber deste mesmo Criador.

Desta forma, as consciências culpadas, tanto de um lado quanto do outro, se aplacam e todos podem colocar suas cabeças nos travesseiros e dormir em paz, sonhando com um futuro glorioso...

Imagino, todavia, que grande parcela da humanidade atual já não acredita em mais nada. De tanto ver as autoridades se locupletando e agindo contra o povo, de tanto ver religiosos se aproveitando da crendice, ingenuidade e ignorância popular, de tanto ver a justiça vendendo sentenças e o parlamento se prostituindo, a Mídia propagando mentiras diariamente e produzindo desinformação e contrainformação a favor daqueles que pagam mais; qualquer ser humano, por mais medíocre que seja, percebe que algo está errado e que este sistema atualmente implantado já não o satisfaz.

O tão falado Contrato Social, que no passado foi firmado entre as autoridades e o povo, hoje já não faz mais sentido devido às suas clausulas leoninas, onde um lado pode tudo (Três Poderes) e o outo lado não pode nada (povo).

Ocorre-me, nesta hora, uma famosa frase atribuída a Santo Agostinho: "Se não há Justiça, o que é o governo senão um bando de ladrões”?

Creio que grande parte dos seguidores das religiões o faz, na atualidade, por uma ou mais destas razões; por ingenuidade; por desconhecimento histórico de suas origens; pela necessidade de uma crença em dias melhores, nesta época de crise; objetivando receber benesses e favores do Criador; etc.

No texto de número 267 deste blog, existe um resumo sobre todas as religiões, onde os leitores interessados poderão melhor se informar sobre os diversos aspectos de cada uma.

Entretanto, a se acreditar nos princípios 4, 5 e 6 do Caibalion, princípios estes herméticos que regeriam todas as coisas do Universo e que foi atribuído a Hermes Trismegisto, que exerceram grande influência na filosofia grega do século III e voltaram à tona durante a Idade Média e o Renascentismo, podemos, seguramente, imaginar, para o futuro da raça humana, novas formas de religião.

 4 - O Princípio da POLARIDADE: "Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliáveis”.

(Na quarta lei hermética, entendemos que vivemos em um mundo polarizado. Tudo tem uma dualidade: o quente e o frio, o claro e o escuro, esquerda e direita, bem e mal... Quando associamos o princípio da polaridade com o da vibração, porém, compreendemos que as dualidades são duas faces da mesma moeda - em graus diferentes. O escuro não é nada além da luz ausente; a saúde é ausência de doença. A dualidade é, também, a unidade).

A se acreditar neste principio, mal e bem, virtude e vício, crença e descrença são a mesma coisa. Todos os paradoxos são reconciliáveis; ou seja, não existem. Logo, todas as religiões nada mais são do que fábulas, mitos ou mitologias criadas pelo homem. Assim, nada impede que surjam outras no futuro.

5 - O Princípio do RITMO: "Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação”.

(Na quinta lei hermética, entendemos que vivemos em uma dinâmica de ciclos. Tudo o que vai, volta, e vivemos em uma vibração eterna de atração e repulsão, de inspiração e expiração. Assim como podemos estar por cima, certamente voltaremos para baixo, e isso vale tanto para movimentos físicos como o dos astros, frequências mentais e padrões de relacionamento. Por meio da Neutralização, é possível conquistar maior estabilidade dos ritmos).

A se acreditar neste principio, as épocas e seus costumes sempre mudam. O que já ocorreu retorna e o que hoje ocorre retornará algum dia; logo, novas religiões poderão surgir futuramente enquanto as atuais poderão fenecer.

6 - O Princípio de CAUSA E EFEITO: "Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei”.

(Na sexta lei hermética, compreendemos que as coincidências nada mais são do que acontecimentos nos quais as causas ainda não foram esclarecidas. Toda ação tem uma reação e nada é por acaso. Ao dominar os princípios desta lei, é possível ser o agente causador e não apenas sentir os efeitos, de modo que possamos propagar o bem. Quando tal mecanismo é dominado, nos tornamos mestres de nós mesmos).

A se acreditar neste principio, vemos que nada acontece por acaso e que toda ação possui uma reação. Logo, a vida humana estará sempre em mudança e nada do que hoje ocorre durará para sempre, inclusive as religiões.

Ainda, segundo este princípio, imagino que a própria raça humana deverá evoluir física e mentalmente, transformando-se em uma espécie distinta da atual. Qualquer efeito atual, embora tenha uma causa, provocará a causa para novo efeito e assim sucessivamente.

Finalizando, creio que ambas as coisas deverão ocorrer futuramente, A Raça humana se modificará e as religiões também. Muitas delas já não resistem às novas questões suscitadas pela Ciência, pela Tecnologia e pela Filosofia, demonstrando que se fossem criadas por um Deus seriam, para sempre, coerentes e atuais. Como elas foram criadas por seres humanos; possuem inúmeros erros factuais e conceituais atinentes ao nível de conhecimento da época em que foram escritas, que são encontrados nos diversos livros considerados sagrados pelas várias religiões, e explicações que não convencem e, por isso, são consideradas como dogmas (ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível; porém, sem nenhuma prova).

Espero que a espécie humana caminhe para a sua expansão com respeito à conservação e a preservação do planeta que habitamos e das demais espécies que conosco convivem. Espero que a nova religião atinja o coração e a mente de todos nós e não de somente alguns. Que aqueles que nos governam parem de pensar, apenas, no bem estar de si mesmo e de seus grupos, para pensar no bem estar de todos os habitantes.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.





sábado, 3 de abril de 2021

 417. A História sempre se repete. A primeira vez como tragédia e a segunda como farsa (Karl Marx)

Jober Rocha*


Na obra “Guerreiros de Hitler”, de Guido Knopp, nós encontramos que antes e durante o Julgamento de Nuremberg, após o fim da Segunda guerra Mundial, a maior parte dos militares nazistas alegou obediência militar e negou qualquer culpa nos eventos criminosos de que participaram.

Um general chamado Beck, todavia, desde o início da guerra declarara: “A obediência de um soldado tem limites, que é quando o conhecimento, a consciência e a responsabilidade proíbem o cumprimento de uma ordem”. Muito poucos militares, no entanto, tiveram coragem de oferecer resistência ativa aos criminosos que controlavam o país, naquela ocasião.

Buscando ascensão nas carreiras, a maioria deles se apegou ao dubio conceito de dever e a tradicional obediência do soldado, que no dizer do teólogo Dietrich Bonhoeffer “O homem que é guiado por deveres e obediências acabará servindo ao próprio diabo”.

A única forma de por um fim a catástrofe nazista, naquela ocasião, era reconhecida pelos militares como alta traição, pois, conforme conceito da época, generais não se rebelam.

O livro de Knopp tenta desvendar por que os principais marechais e generais de Hitler usaram de suas habilidades a serviço de um déspota assassino; o que eles sabiam sobre os crimes do regime; até que ponto eles estavam implicados nestes crimes; quais os limites da obediência militar.

Não me deterei nos comentários do livro, pois são extensos e, certamente, ultrapassariam as quatro ou cinco páginas de um artigo como este.   

Meu objetivo é o de enfatizar que estes comportamentos não findaram com o término da guerra. Em inúmeros países, comandados por déspotas ou por cleptocracias, eles continuam a existir, exatamente da mesma forma como na Alemanha Hitlerista.

Uma única diferença eu percebo, todavia, nestes comportamentos: Os marechais e generais de Hitler provinham da nobreza e das classes de renda mais altas da Alemanha, enquanto que na atualidade, na maioria dos países dominados por déspotas ou por cleptocracias, os generais são oriundos das classes populares. Costuma-se dizer em nosso país que “as forças armadas são o povo fardado”.

Em seu Art. 1º, a Constituição Federal de 1988, declara: A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania;

II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana;

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa

V - o pluralismo político.

Em seu artigo 1º, parágrafo único, a Constituição Federal de 1988, menciona: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

Em seu artigo 2º, a Constituição Federal de 1988 dispõe sobre a corrente tripartite, ao prever que “são poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”.

Em seu artigo 3º, menciona: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Em seu artigo 5º. A Constituição Federal assegura:

II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;

XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;


Quantas vezes estes artigos foram pisoteados por membros do legislativo e do judiciário, sob o olhar complacente dos militares? Quantas vezes a independência entre os poderes deixou de existir, com o judiciário tomando a frente do executivo e impedindo o presidente eleito, por maioria de votos, de cumprir a missão para a qual foi eleito em sufrágio universal? Quantas vezes o povo que elegeu o presidente foi às ruas, em passeatas contando com milhões de pessoas em todos os Estados da Federação, pedindo uma intervenção nos desmandos praticados pelos outros poderes, sob os olhares complacentes dos militares, para os quais “reinava a calma em todo o território nacional”.

Quantas vezes funções e decisões que são especificas do presidente da república, constitucionalmente, foram delegadas a governadores e a prefeitos, pelo judiciário, sob os olhares complacentes das Forças Armadas? 

Criminosos condenados, traficantes de drogas e chefes de facções criminosas cumprindo penas, confinados em suas celas, foram libertados pelo judiciário sob o argumento frágil de que deviam fazer confinamento em suas casas, para não contrair o covid 19. O maior criminoso do país, condenado em segunda instância, já cumprindo pena, foi libertado através de um casuísmo e, na atualidade, possui transito livre pelo país e pelo exterior, viajando as expensas do erário público, sem nenhuma manifestação crítica por parte das Forças Armadas.

Certamente, em futuro próximo, quando eclodir a convulsão social que já se antevê e muitos forem chamados a responder pelos seus atos, usarão os mesmos argumentos falaciosos usados em Nuremberg pelos generais e marechais de Hitler: cumprimento do dever e obediência aos chefes.

O cel Vitor Filho, da PMMG, está divulgando uma nota em que menciona:

CHAMADA ÀS POLÍCIAS MILITARES DO BRASIL*

(Por um Coronel Veterano da PMMG)

*Senhoras e Senhores Policiais Militares,*

Não é segredo pra ninguém que enfrentamos uma das maiores crises que o Brasil já experimentou. Estudamos isso nas nossas Academias e, por força da nossa profissão, nos mantemos bem informados sobre a ordem geopolítica do mundo. 

Está claro como o sol, que existe um concerto comunista para desestabilizar o Brasil e derrubar o nosso atual Presidente, que elegemos com mais de 60 milhões de votos. A pandemia da Covid 19 caiu como uma luva para os comunistas. Através dela, governadores de estados conspiram contra o Presidente, estabelecendo medidas inconstitucionais para oprimir a população ordeira e destroçar a nossa economia. E pior, estão usando as Polícias Militares como instrumento de força, para levarem à cabo essa opressão. 

Não é sobre salvar vidas! É sobre desestabilizar a economia e derrotar o nosso Presidente em 2022, senão inviabilizar o seu governo e quiçá, promover o seu impeachment, ainda no atual mandato! As forças contrárias são numerosas. Contam com políticos, a maior parte da grande mídia e do próprio Judiciário! Não fossem esses atores, o Brasil estaria experimentando crescimento expressivo em sua economia. Estaríamos voando! 

O nosso Presidente tem lutado bravamente para repelir toda sorte de ataques e pressões! Mas ele está basicamente sozinho! Apenas o povo, que não sabe direito o que fazer, apesar de assustado e aturdido, o apoia. 

Em momentos outros no passado, as Polícias Militares do Brasil tiveram papel preponderante na retomada dos rumos da lei e da ordem, quando ameaças comunistas rondavam nossa Nação. Recordemos 1924, 1932 e 1964, quando as Polícias Militares pegaram em armas e tiveram papel preponderante no restabelecimento da ordem, contra políticos comunistas que se alinharam aos governos da antiga URSS e da própria China. Hoje, no entanto, ainda não precisamos pegar em armas, por enquanto. 

O nosso Presidente está acuado, sob pressão de todos os lados e não tem muito o que fazer, a não ser resistir bravamente à frente do Comando do Brasil. Claramente, ele pede nossa ajuda, como cidadãos! As Forças Armadas não nos parecem atentas ao que acontece, senão por alinhamento contrário, talvez por preguiça. 

Mas nós, Policiais Militares podemos fazer muito e quiçá, tenhamos também a parceria das Polícias Civis e Federal, de todo o Brasil nessa nossa luta, que deve começar agora. E nem precisamos pegar em armas! Basta que não façamos qualquer intervenção policial relativa à pandemia, a não ser na prestação de socorro. Não vamos, a partir de hoje, intervir em: lock-dows, toques de recolher, fechamento de comércio ou qualquer outro ramo da economia, fiscalização de transeuntes sem máscara ou aglomeração, apoio à fiscais das prefeituras em cumprimento de decretos estaduais ou municipais relativos à pandemia, ou quaisquer outras atividades correlatas. 

Se os Governadores pretendem continuar com a opressão ao cidadão de bem e trabalhador, eles que o façam sem a participação das Polícias! Até então, todas as nossas ações nesse sentido estão indo de encontro à tudo que aprendemos em nossas Academias. Fomos forjados para servir e proteger o cidadão de bem. Oprimi-lo, em cumprimento a ordens manifestamente ilegais e até inconstitucionais, vai de encontro à nossa essência! Somos instituições de Estado e não de Governo! Devemos ser leais ao cidadão de bem e ao Estado brasileiro, mas nunca à governos autoritários! Nossas liberdades, que juramos defender, estão sendo suprimidas à conta-gotas! Toda sorte de proibições nos estão sendo impostas. Do uso obrigatório de máscaras, passando por lock-dows, toque de recolher e até o nosso direito de propriedade já está ameaçado, como decretou, recentemente, o Governador de Sergipe. Tudo, contando com a nossa cega obediência como instituições de força! Basta que não participemos desses projetos autoritários! Que os Governadores e Prefeitos inescrupulosos e mal intencionados façam cumprir suas ordens autoritárias por outros meios! Menos com a parceria das Polícias! 

Não é necessário nos amotinar e nem nos rebelar. Vamos continuar defendendo e socorrendo o cidadão e combatendo a criminalidade, como sempre fizemos! Mas cumprir ordens ilegais, não! Ordem ilegal não se cumpre!

*Esse é o chamamento que faço! Não atuar em quaisquer questões relativas à pandemia.*

Ontem, perdemos um companheiro na Bahia, abatido pelos próprios colegas! Não entro aqui no mérito da ação que vitimou nosso companheiro. Mas o que levou o militar àquela situação é assombrosamente relevante: o conflito psicológico entre o que aprendeu nos quartéis e o que estava executando em seus dias de serviço! 

Isso tem que parar! 

Não sejamos instrumentos de força desse projeto, nefasto e desumano, de poder. 

Sem a força de suas Polícias Militares e Civis, não há como os Governadores continuarem solapando e atacando nosso Presidente e arruinando nossa economia. 

Não existe poder sem força! E nós somos a força! Basta direcionar nossos esforços para os caminhos da Lei e da Ordem! 


*Concesso Vítor Filho*

*Coronel Veterano da PMMG*

P.S: Fineza compartilhar, até que essa mensagem chegue a outros estados da Federação. Precisamos de todas as Polícias irmanadas nesse objetivo


quinta-feira, 1 de abril de 2021

 416. Um breve ensaio sobre o medo


Jober Rocha*


Segundo os dicionários, o medo é uma sensação que proporciona o estado de alerta corporal, demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto física quanto psicologicamente. Quando o medo é muito intenso denomina-se pânico ou pavor. A ansiedade, por sua vez, pode ser considerada como o prenuncio do medo. 

O medo tem seu lado bom e seu lado mau. O bom é que previne ações muito arrojadas ou temerárias, que podem expor a vida do agente e de outras pessoas a sua volta. O mau, é que tolhe ações importantes que poderiam salvar a vida do agente e de outras pessoas à sua volta.

O medo acarreta estímulos físicos que se originam na mente dos indivíduos, podendo se transformar em doenças, como fobias (cujo número é enorme na Medicina Psicossomática, passando das centenas ou milhares), síndrome do pânico, etc., e que, muitas vezes, podem incapacitar os indivíduos para o trabalho e para a vida social.

Segundo alguns cientistas, trazemos conosco, algumas vezes, medos que datam do Paleolítico, do Neolítico, do Mesozoico e do Cenozoico, herdados do DNA de nossos ancestrais e que hoje fazem parte do nosso. Segundo eles o medo é um mecanismo de aprendizagem, mas, também evolutivo e de sobrevivência da espécie humana, em geral, e dos indivíduos, em particular.

Em um breve apêndice, mencionarei as idades do homem e como são contadas.

Os povos, em geral, contavam o tempo tendo por referência as suas crenças. Os judeus contam-no a partir da criação do mundo, que supõem haver ocorrido há cerca de seis mil anos. Os árabes contam-no a partir da fuga de Maomé de Meca para Medina, ocorrida 622 anos após o nascimento de Jesus. Os povos que viveram antes do nascimento da escrita são referidos com os povos pré-históricos, não fazendo, portanto, parte dos quatro grandes períodos da história da humanidade, mencionados a seguir.

A Idade Antiga é contada do surgimento da escrita, mais ou menos 4.000 anos antes de Cristo, até a queda do Império Romano, em 476 depois de Cristo (século V).

 Em 533 D.C. o monge Dionisio Exiguo, conhecido como O Pequeno, propôs a divisão da História em dois ciclos: um antes e um depois do nascimento de Cristo. O nascimento ficou sendo o ano 01 D.C, embora Jesus tenha nascido cerca de 4 a 6 anos antes. Anteriormente o tempo, no Império Romano, era contado a partir da data de fundação de Roma.

A Idade Média teve início no século V e foi até a queda de Constantinopla, em 1453 D.C. (século XV). A Idade Moderna se inicia no século XV e vai até a Revolução Francesa de 1789 (século XVIII) e a Idade Contemporânea vem do século XVIII até os dias atuais.

Voltemos agora ao cerne do nosso texto.

Os próprios familiares, desde priscas eras, se encarregavam de colocar medo nas crianças, temendo algum comportamento inusitado por parte destas que lhes acarretasse algum malefício físico ou mental. As religiões, criadas em razão do medo, de modo geral, e as cristãs, de modo particular, fazem o mesmo com seus seguidores, ameaçando-os com sofrimentos e padecimentos, após o desencarne, em regiões desconhecidas normalmente denominadas inferno e purgatório.

Mencionamos que o medo originou as religiões, em virtude de podemos afirmar, com toda a convicção, que as algemas mentais que nos prendem aos troncos da sujeição e do domínio das elites, começaram a ser colocadas com o surgimento dos mitos e das religiões.

A função do mito é, exclusivamente, a de lidar com as angustias dos indivíduos na tentativa de superar o vazio que o ser humano enfrenta diante dos mistérios da criação.

Oliveira Martins, em seu livro “Mitos da Religião” destaca: 

“A Mitologia consiste no sistema dos sonhos primitivos com que o pensamento inconsciente dos povos representa a seu modo a Natureza. O mito e o fato são, pois, na essência, uma e a mesma coisa, vista por maneiras diversas. Tanto o pensamento cria um mito quando representa ou corporifica noções mentais, como quando anima ou define objetos reais”.

“È fato conhecido e estudado que da admiração e do medo, gerados pelo instinto do conhecimento (característica intelectual da espécie humana), nascem os mitos que são a raiz da religião. Assim é absurdo negar a qualquer homem a faculdade mitogenica, como é absurdo afirmar a existência de raças sem religião”.

“A criação de mitos é, assim, uma função espontânea inerente ao espírito humano, da mesma forma que a fala”.

“A função psicológica inventora dos mitos é universal e essencialmente humana O mito é, pois, a parte subjetiva das religiões, enquanto o medo é sua parte objetiva. Este medo do inominado foi o que fez a raça humana tremer e fugir, produzindo o calafrio e a palidez; foi á impressão que levou o homem primitivo a cair de rastros adorando um Deus. Do mito que deu realidade a quimeras, nasceu o medo religioso, nasceu Deus, cuja imagem é sempre dupla “ Bem ou malfazeja, terrível como as sombras errantes animadas ou simpática à maneira da luz do céu sereno”.

“Com o primeiro Deus surgiu o primeiro sacerdote, porque uma autoridade que se sente sem se ver; a quem se obedece e se teme sem se conhecer, envolve, em si, a necessidade de um intermediário”.

“Por outro lado, a alma humana, neste momento da sua compreensão, seria a ponte que colocaria o homem em relação com a divindade, á ponte que ligaria o mundo real ao fantástico, o mundo do sonho ao mundo dos astros”.

“No Céu, no Paraíso, no Olimpo, junto aos deuses, partilhando-lhes a essência e a vida, a alma também seria um intermediário necessário”.

“A tendência para a unidade, por sua vez, é ingênita no espírito humano e toda a mitologia, quer seja animista (percepção infantil do mundo, invenção dos espíritos ou almas, seres fantásticos, etc.), naturalista (ideia de uma causa da existência humana, dos animais e das coisas) ou idealista (o mundo externo e o mundo interno representam-se para a imaginação como aspectos de substancias que, no seu desenvolver, o pensamento reduzirá à pureza de ideias), procede unificando os deuses no seio de uma Doutrina Monoteísta”.

“Houve quem chamasse a religião de uma doença (Fuerbach) e quem a radicalizasse psicologicamente no medo (Schleiermacher)”;

“A religião seria, pois, a doença do medo”. (Grifo meu)

“Outros denominam a religião como a teoria das relações entre o homem e o universo”.

“Resumindo, desde o surgimento do homem sobre a face da terra, as religiões tiveram suas origens no fato dos homens verem, sentirem e explicarem, a seu modo, a existência e, cheios de medo, colocarem-se de joelhos perante o desconhecido. Naquela ocasião tudo em sua volta consistia em sombra e morte. Não havia sociedade, nem leis: não havia moral, nem ciências, surgindo daí os mitos de representação simples. Depois, a sociedade constitui-se como uma cristalização e esboçam-se ideias científicas; isto é, percepções e opiniões obtidas pela comparação e pela observação. Surge, então, outra esfera de mitos, os mitos da invenção, porque é por via deles que o pensamento inventa os casos que solicitam a sua curiosidade”.

“Posteriormente, quando deuses morais e criadores introduzem-se, os mitos sociais e cosmogônicos progridem, pondo, a par da mitologia remota, os ditos mitos do pensamento, que são as invenções abstratas da teologia e da filosofia”.

“Assim, o medo já transformado em respeito e submissão, torna-se amor, piedade e caridade”.

“Surgidas às religiões, consolidadas e adotadas por todas as raças, como uma necessidade intrínseca do ser humano para explicar o inexplicável, surge, também, a associação do sacerdote (como intermediário entre o indivíduo e a divindade) e os detentores do poder temporal terrestre. Desta forma, um poder passa a precisar do outro; posto que, ambos se complementam”.

Desde os tempos imemoriais, os governantes governam pela graça de Deus, ou de Deuses, segundo afirmam eles próprios e confirmam os sacerdotes. Esta associação entre os poderes terrestres e os religiosos, existente em todos os cantos do planeta, além de legitimar os primeiros busca manter os povos conformados com seus destinos; pois, se Deus existe (e isto é fora de dúvida) e escolheu aquele governante, aquela oligarquia, aquele partido ou aquela religião, para cuidar dos destinos daquele povo, não há porque contestar tal escolha. Mesmo porque os verdadeiros valores, aqueles que realmente importam para os seguidores de alguma religião, são os transcendentais que os aproximam da sua divindade. Os bens que devem ser buscados não são os materiais (aqueles buscados avidamente pelos governantes e detentores do poder), mas sim os bens imateriais (as virtudes que devem ser buscadas pelo homem comum para obter uma vida melhor após a morte). Esta colocação, acatada pelas populações religiosas, evita quaisquer contestações sobre legitimidade do poder e sobre a apropriação da riqueza gerada por aquele povo.

Alguns cientistas espiritualistas afirmam que certos tipos de medo apresentado por seres humanos se tratam de experiências mal sucedidas em suas vidas anteriores, como, por exemplo: a claustrofobia (medo de lugares fechados), que teria a sua origem no fato de que o indivíduo, em outra encarnação, sofreu intensamente e veio a falecer em algum lugar fechado, de onde não conseguiu se libertar. O medo do mar, por parte de alguém, pode significar que morreu afogado em outra existência, etc.

Uma diferença importantíssima entre a fobia e a síndrome do pânico, moléstias que acometem parcela significante das populações, mormente em épocas como a que vivemos na atualidade, trata-se do seguinte: o indivíduo fóbico é capaz de se defender da ansiedade ao associá-la a um objeto externo que caracteriza a sua fobia ou medo. O indivíduo portador do transtorno de pânico não pode prever um ataque, por isso é incapaz de se defender quando ele acontece e, como afirmado, um ataque de pânico pode ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. A ausência de um objeto definido, contra o qual o sujeito possa se defender, pode gerar, muitas vezes, uma sensação de morte súbita ou de iminente loucura.

O Psicólogo Sigmund Freud (1856 – 1939) sempre se interessou pelas fobias, mesmo antes da descoberta do inconsciente. Teria declarado em um de seus trabalhos: “A primeira experiência de medo, pelo menos do ser humano, é o nascimento, e este significa objetivamente ser separado da mãe, podendo ser comparado a uma castração da mãe”. 

Para Jacques Lacan (1901 - 1981), segundo texto da profa. Doris Rinaldi, “o que provoca angústia não é a nostalgia do seio materno, nem a alternância da presença/ausência da mãe. O que é angustiante é quando não há possibilidade de falta, quando a mãe está o tempo todo em cima”.

Ainda conforme o texto, “em primeiro lugar, para Lacan a angústia é um afeto”. “A angústia não é uma emoção, mas um afeto especial que tem estreita relação de estrutura com o que é um sujeito”. “Este afeto especial Lacan diz que é da ordem de uma perturbação e não de um sentimento”.

Carl Gustav Jung (1875 – 1961), em um texto sobre a angústia, afirmava: “Não tem importância saber qual a possível causa original de tal problema. A busca pela causa pode ser enganosa, já que a existência do medo continua, não porque foi originalmente iniciada num passado remoto, mas porque uma tarefa está acionada em você no momento presente, e, enquanto permanecer não finalizada, todo dia ela produz medo e culpas de novo”.

As teorias psicológicas, evidentemente, como nas demais ciências e na Filosofia se sucedem umas as outras. A verdade de hoje é abandonada amanhã, quando surge outra verdade, mais moderna e mais condizente com o pensamento e a realidade atuais. Basta ver como os médicos antigos entendiam as moléstias e as tratavam e comparar tais métodos e tratamentos com os atuais.

Tanatofobia, ou medo da morte, trata-se do medo patológico da morte e se constitui em uma das dez fobias mais comuns entre os seres humanos. Dizem que o medo da morte é a origem de todos os demais medos. Para aonde iremos, o que será de nossos projetos, de nossos familiares? São questões estas que assolam muitos indivíduos a todos os momentos, aumentando-lhes o medo da morte.

O instinto de sobrevivência, inato aos seres humanos, faz com que todos nós sintamos medo em algumas ocasiões. Todavia, como somos distintos uns dos outros, alguns superam o medo que sentem, enquanto outros se deixam por ele dominar. O medo tem muito a ver com o desconhecimento, logo, a presença do conhecimento elimina de início, muitas das razões para se ter medo.

 Muitos indivíduos considerados como heróis nada mais foram do que pessoas comuns, que conheciam o terreno em que pisavam e que tinham a plena convicção de não correrem qualquer perigo, ao fazerem aquilo que fizeram e que os elevou à categoria de heróis. Como disse o general George Smith Patton (1885 – 1945), durante a Segunda Grande guerra: “Se aceitarmos a definição consagrada de coragem como qualidade de não conhecer o medo, então nunca vi um homem corajoso”.

Diversos autores contemporâneos já discorreram sobre o medo em suas obras, como, por exemplo: Políticas do Medo, de Adauto Novaes; Devemos temer a morte, de Francis Wolf; Medos de ontem e de hoje, de Jean Delumeau; Do medo ao terror, de Jacques Ranciere; Elogio ao medo, de Maria Rita Kahl; Racionalização do medo na política, de Maria Isabel Limangi; O medo como virtude de substituição, de Nathalie Fragneux; A construção do medo no cinema, de João Luiz Vieira; O medo como procedimento heurístico e como instrumento de persuasão em Hans Jonas.

Ao longo da História Humana, alguns filósofos também se dedicaram ao tema das emoções, dentre elas o medo. A primeira Teoria das Emoções parece ter sido desenvolvida por Platão, em sua obra Filebo. Aristóteles fez uma análise filosófica interessante sobre as emoções. Inúmeros outros pensadores se dedicaram ao assunto, como Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), Tomás de Aquino, o bispo Telésio, Thomas Hobbes, René Descartes, Kant, etc. Não é nosso propósito, porém, descrever o pensamento destes filósofos do passado.

Na atualidade, as massas humanas são conduzidas pelo medo: medo das pandemias, das enfermidades, do desemprego, do desabastecimento, das convulsões sociais, das guerras externas, da fome, da miséria, dos cataclismos, da concorrência predatória, etc. Grande parte destes medos são, artificialmente, criados pela mídia a serviço dos “donos do mundo”. O ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, Joseph Goebbels (1897 – 1945), já dizia, quando ainda estava no poder: "A essência da propaganda é ganhar as pessoas para uma ideia de forma tão sincera, com tal vitalidade, que, no final, elas sucumbam a essa ideia completamente, de modo a nunca mais escaparem dela. A propaganda quer impregnar as pessoas com suas ideias. É claro que a propaganda tem um propósito. Contudo, este deve ser tão inteligente e virtuosamente escondido que aqueles que venham a ser influenciados por tal propósito NEM O PERCEBAM." “Dê-me o controle da mídia e farei de qualquer país um rebanho de porcos”.

Suas antigas ideias foram, desde então, aperfeiçoadas pelos detentores da grande mídia e estes aperfeiçoamentos acabaram sendo estudados pelo professor Noam Chonsky (1928 - ), linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político. Chomsky afirmou que "a propaganda significa para a democracia o mesmo que o porrete significa para o estado totalitário". Desta forma, para Chomsky, a massificação da cultura se dá, basicamente, através de um artifício totalitário servindo a interesses econômicos. É através do medo que somos dominados pelas elites, medo este que faz com que muitos se viciem em drogas alienantes da realidade e que consumam remédios de tarja preta e álcool.

O fato é que com o desenvolvimento de novos fármaco-químicos ansiolíticos (que causam inibição leve do sistema nervoso) os transtornos de ansiedade, como os distúrbios do pânico e as fobias sociais; os transtornos do humor, como a bipolaridade e a depressão; as síndromes psicóticas, como a acatisia; as vertigens e os distúrbios do equilíbrio, podem ser  suprimidos, permitindo aos indivíduos levarem uma  vida normal, sem nenhum medo patológico além daqueles medos comuns provocados pela Mídia, com que somos constantemente massacrados, na atualidade, pelas nossas autoridades.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha;


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

415.  Histórias de amantes e de amores que a História preservou


Jober Rocha



            Pesquisando na WEB (http://www.educ.fc.ul.pt › hfe › abelardo › abelardohelois) encontrei um resumo da história de amor, verídica, entre Pierre Abélard (1079 – 1142) e Heloisa de Argenteuil (1090 – 1164) , que consistiu em uma história verdadeiramente dramática, como muitas que a História preservou em seus anais e outras tantas que foram, pela mesma História, esquecidas

                O romance, segundo o link resume, iniciou-se na cidade de Paris. Abelardo tinha 37 anos, era filósofo escolástico e teólogo francês e Heloísa 17 anos, escritora, erudita e, mais tarde, abadessa. Heloisa era filha da fundadora da abadia de Fontevraud, Hersint de Champagne, com Gilbert de Garlande, senescal da França. Portanto, ela pertencia a uma família da alta sociedade local.

            “Abelardo, ao ver a jovem Heloísa, ficou encantado com a sua beleza e tentou aproximar-se dela, pedindo ao seu tio Fulberto que o alojasse em sua casa, pois ficaria mais perto da escola onde lecionava e não teria as preocupações de cuidar de uma casa, ficando com mais tempo para se dedicar aos seus estudos”.

            “O tio de Heloísa viu, nesta oferta, uma oportunidade para a sua sobrinha evoluir nos estudos. Assim, Abelardo tornou-se professor de Heloísa”.

            “Todas as horas vagas que Abelardo tinha dedicava-as a ensinar Heloísa, inicialmente na presença do tio Fulberto. Algum tempo depois, Fulberto, confiando em Abelardo, deixava-os sozinhos”.

           “Como Abelardo ensinava na escola durante o dia, dava aulas a Heloísa durante a noite, enquanto o seu tio Fulberto e todos dormiam”.

           “Em pouco tempo, cresceu entre ambos um grande amor e deixaram de se preocupar com os livros e o estudo, fascinados um pelo outro. Viviam esta paixão de forma intensa”.

            “Tanto Abelardo quanto Heloísa eram dois jovens intelectuais, e ao viverem o seu amor sabiam dos perigos que corriam perante a sociedade”.

            “Numa certa noite, o tio Fulberto descobriu o amor escondido entre Abelardo e Heloísa. Furioso, expulsou Abelardo de sua casa. Entretanto, o amor entre Abelardo e Heloísa não diminuiu; pois começaram a se encontrar nos locais que Heloísa podia frequentar sem acompanhantes: sacristias, confessionários e catedrais”.

            “Heloísa engravidou e, para evitar um escândalo, Abelardo levou-a, as escondida, da casa do tio Fulberto para a sua aldeia, em Palais; onde ficou aos cuidados da sua irmã até dar à luz um menino, a que deram o nome de Astrolábio”.

            “Abelardo voltou para Paris, para continuar a ensinar; mas não conseguia estar longe de Heloísa e, assim, foi pedir ao tio Fulberto permissão para casar com Heloísa. Fulberto, embora magoado, consentiu no casamento. Heloísa deixou o filho com a irmã de Abelardo e dirigiu-se a Paris”.

            “O casamento realizou-se durante a noite, às escondidas, numa pequena ala da Catedral de Notre-Dame, de modo a que ninguém desconfiasse. Só estavam presentes os familiares de Heloísa e alguns amigos de Abelardo”.

           “Pouco tempo depois o casamento foi descoberto e Fulberto, envergonhado, resolveu vingar-se de Abelardo. Contratou uns homens para invadirem os aposentos de Abelardo durante a noite e castraram-no”. 

            “Na sua angústia e vergonha, Abelardo obrigou Heloísa a ingressar no mosteiro de Santa Maria de Argenteuil. Heloísa tinha vinte anos. Heloísa fez os votos monásticos e ingressou na vida religiosa por amor a Abelardo. Abelardo retirou-se para o mosteiro de Saint-Denis. Durante muitos anos Abelardo e Heloísa não se viram, apenas trocavam cartas um com o outro. Nestas cartas Heloísa expressava toda a sua dor pela triste sorte do seu amor e toda a sua rebeldia por ter ingressado na vida religiosa e ter vestido o hábito”.

            “Heloísa e Abelardo nunca deixaram de se amar. Anos mais tarde, Abelardo construiu uma escola-mosteiro perto de Heloísa. Viam-se diariamente; mas não se falavam, apenas trocavam cartas”. 

            “Abelardo morreu em 1142, com 63 anos de idade. Heloísa mandou construir uma sepultura em sua homenagem”.

           “Em 1162 morre Heloísa e, a seu pedido, foi sepultada ao lado de Abelardo. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes foram levados para o cemitério do Père Lachaise, em Paris”.

 

                 O motivo desta introdução foi o de despertar o interesse dos leitores para uma simples história de amor que, infelizmente, a História esqueceu; mas, que ainda deve permanecer viva na mente de alguns sobreviventes que dela participaram, direta ou indiretamente. Por incrível que pareça, está história também ocorreu na cidade de Paris.

                   Eu tomei conhecimento dela através de um ex combatente brasileiro da Segunda Grande Guerra, que esteve internado em um hospital norte americano, no mesmo quarto em que também estava um dos dois personagens  principais desta bela história de amor, recuperando- se de desnutrição e de diversas moléstias adquiridas em um campo de concentração na Alemanha. Como ambos os pacientes internados conviveram durante meses, juntos naquele mesmo quarto, acabaram por consolidar uma sólida amizade e um ficou conhecendo a história de vida do outro.

                        Anos depois conheci o ex combatente brasileiro que me relatou esta incrível história. Resolvi escrever sobre ela para que, ao menos, em algum lugar do planeta ficasse registrada para a posteridade e algumas pessoas dela tomassem conhecimento.

                        A história que irei relatar, portanto, trata do amor entre  Johnny Rock e Holly Hellen, iniciada durante a vigência da Segunda Grande Guerra Mundial.

                      Johnny era, ao inicio da guerra, um oficial submarinista da Marinha e, posteriormente, por razões de saúde, foi transformado em um agente norte americano servindo na Europa, para apoiar a criação de movimentos de resistência às tropas alemãs. Hellen era uma agente inglesa, também atuando na Europa com finalidades semelhantes; porém, ambos não se conheciam. 

                   A base de operação dos dois era na cidade de Paris.

                    O problema que levou Johnny da Marinha para as ações clandestinas de um agente infiltrado na Europa foi o seguinte:

                  Durante sua vida de submarinista, praticou uma operação bastante arriscada em um porto italiano.  Conduzindo um mini submarino, conhecido também como submarino de bolso pelo seu reduzido tamanho, armado com explosivos, penetrara em um porto italiano com a missão de afundar um cruzador inimigo ali atracado. Conseguiu, na calada da noite, adentrar o porto com a sua carga e posicioná-la debaixo do cruzador; fugindo nadando em seguida. A espoleta de tempo detonara quando ele já se encontrava bem afastado. O navio foi destruído e cerca de três mil marinheiros italianos pereceram nesta operação.

                   Ele, todavia, foi visto nadando nas águas do porto e, rapidamente, aprisionado. Após interrogatórios feitos no local, foi enviado para o quartel da Gestapo, na Alemanha.

                   Ali padeceu torturas intensas. Todavia, como era um militar treinado em fuga e evasão, em breve já tinha pronto um plano de fuga.

                    Tendo conseguido concretizá-lo, fugiu da Alemanha para a Holanda. Passou a seguir pela Bélgica e pela França ocupadas, pela Espanha e conseguiu chegar a Portugal, onde manteve contato com a Marinha do seu país, que o recambiou para os USA.

                   Lá desembarcando, como ele estava tremendamente debilitado, passou meses em tratamento para recuperar-se e poder retornar ao serviço ativo.

                      Como era considerado um herói de guerra, aceitaram logo o pedido que fez para tornar-se um agente infiltrado na Europa. Deram-lhe treinamento adequado e enviaram-no para a França, onde saltou de paraquedas próximo da cidade de Paris. A resistência francesa necessitava do apoio das forças aliadas, para ter uma expressão mais significativa que ultrapassasse as atividades clandestinas e as lutas de guerrilha.

                   Com documentos falsos e dinheiro, conseguiu atingir a capital ocupada, onde manteve contato com os maquis (Maquis é um termo que designa, ao mesmo tempo, os grupos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial que se escondiam em zonas montanhosas com vegetação tipo bosques ou maquis, para atacar de surpresa as tropas nazistas, assim como para designar os locais onde eles se escondiam). Os maquis de Paris denominavam-se FFI ou ‘FiFis’, como eram chamados. Eram as Forças Francesas do Interior, que passou a ser a designação dos membros da Resistência Francesa na fase final da Segunda Guerra Mundial. 

                     Em outubro de 1941, no seio da França livre de De Gaulle, foi criado o Bureau Central de Renseignement et d'Action Militaire (BCRA), dirigido pelo coronel Passy e especializado em missões de sabotagem e de informação. As redes do BCRA, criadas e dirigidas em Londres, estavam, portanto, na fronteira entra a Resistência no exterior e a Resistência no interior.

                     Três serviços secretos britânicos passaram a operar em território francês: o Special Operations Executive (SOE), encarregado da execução das operações; o MI6, encarregado da informação; o MI9, encarregado das evasões. Segundo o historiado Michael R. D. Foot, o SOE enviou para a França durante o conflito 1.800 agentes, dos quais 1.750 homens e 50 mulheres, sendo Holly Hellen uma delas. 

                      Um em cada quatro destes agentes foi preso enquanto durou a guerra, sendo está uma proporção elevada; todavia, inferior à de outros países: um em dois nos Países Baixos, um em três na Bélgica. Os agentes do SOE armaram 250.000 resistentes franceses e executaram operações de sabotagem importantes.

                     Quis o destino que Johnny e Hellen se conhecessem durante uma operação de emboscada, montada pelos ‘FiFis’ contra tropas alemãs de ocupação. Nesta operação, Hellen teve a oportunidade de salvar a vida de Johnny.

                        Para comemorar o sucesso da operação procuraram um bar isolado, em um subúrbio da cidade, para beber alguma coisa e conversar. Hellen pediu pastis (bebida alcoólica aromatizada com anis, cujo nome vem do provençal, significando ‘mistura’), enquanto Johnny pediu leite. Ao estranhar seu pedido, pois o leite era racionado (já que estava destinado às crianças), Hellen ouviu dele a história da sua captura e tortura pela Gestapo, quando ficara desnutrido e com a saúde comprometida. Por isso, sempre que podia, ele tomava leite.

                     Hellen, como muitas inglesas de origem celta, era loura e de olhos azuis. Johnny, como americano de ascendência grega, era branco com cabelos pretos e olhos castanhos.

                  Em um clima de guerra, longe das famílias e sozinhos em uma terra estranha, o amor surgiu facilmente entre eles.

                     A partir daquele dia, embora cada um dos dois continuasse desenvolvendo suas próprias atividades junto aos ‘Fifis’, eles procuravam ficar juntos sempre que possível.

                  Costumavam passear de mãos dadas, durante a tarde, pelo Bois de Vincennes (um parque no estilo jardim inglês, a leste de Paris. O parque tem o nome da cidade vizinha de Vincennes), como um casal de namorados. Nestes momentos esqueciam que o mundo estava em guerra e o imaginavam como um lugar de paz e tranquilidade, onde dois amantes podiam conversar coisas de amor, se beijar e desfrutar da Natureza.  Não faziam planos para o futuro, pois este era, naturalmente, incerto.

                       Deixaram os locais onde se hospedavam desde que haviam chegado clandestinamente a Paris e alugaram um pequeno quarto em uma hospedaria. Ambos possuíam documentos de identidade falsos que os tornavam cidadãos franceses e, como ambos falavam fluentemente o francês, imaginaram uma estória de cobertura para justificar suas estadias na cidade, caso fossem parados em alguma ‘blitz’ nazista ou questionados por pessoas locais.

                       Naquele novo alojamento onde se instalaram, podiam desfrutar um do outro sem nenhum receio. Nas frias noites de Paris se amavam debaixo das cobertas até adormecerem cansados. Dormiam, então, abraçados; como dois irmãos siameses unidos pelo coração e pela mente.

                      Em diversas ocasiões marcavam encontro com os ‘Fifis’ no cemitério Père Lachaise, localizado no 20º Arrondissement. Ali, junto com os Maquis, como uma família chorando por entes queridos mortos, em algum túmulo se reuniam, combinavam suas ações armadas e planejavam suas estratégias, aguardando o dia do desembarque das tropas norte americanas, inglesas, canadenses e neozelandesas no continente europeu. A data do desembarque, conhecido como o Dia D, seria anunciada, na véspera de sua ocorrência, através de mensagens de rádio divulgadas pela rádio BBC de Londres. Mal sabiam que naquele cemitério, em duas covas juntas, estavam enterrados os restos mortais de Abelardo e Heloisa, amantes como eles, falecidos quase oitocentos anos antes.

                     Todavia, em uma operação de sabotagem mal sucedida, a instalações militares alemãs, acabaram sendo presos pelos nazistas. Interrogados em Paris, foram levados para o quartel da Gestapo na Alemanha. Após alguns meses de sofrimento com interrogatórios e torturas, foram enviados para o campo de trabalhos forçados de Dachau, na própria Alemanha. Ficaram em alas diferentes, ele na de homens e ela na de mulheres.

                        Aos poucos, conseguiram se comunicar mediante bilhetes enviados através de alguns prisioneiros que possuíam mais liberdade de circulação dentro daquele Campo de Concentração.

                       Johnny ficou sabendo que Hellen estava grávida. Alguns meses depois, soube que ela perdera a criança. Naquele campo a alimentação era escassa e os trabalhos forçados intensos. Ambos se encontravam desnutridos e com diversas moléstias típicas da promiscuidade entre pessoas, da falta de asseio e do frio intenso.

                    No ano de 1945, forças norte-americanas libertaram mais de 20.000 prisioneiros no Campo de Buchenwald e, em seguida, liberaram os campos de Dora-Mittelbau, Flossenbürg, Dachau e Mauthausen.

                  Johnny, com pneumonia e desnutrido, foi, imediatamente, recambiado de volta aos Estados Unidos. No hospital onde ficou foi que conheceu o ex combatente brasileiro que eu conheci mais tarde e que me relatou esta comovente história de amor que ouvira do próprio personagem principal.

                    Após ter se recuperado, Johnny buscou incansavelmente localizar Hellen. Suas buscas, todavia, foram infrutíferas. Jamais conseguiu localizá-la.

                  Fico imaginando quantas belas histórias de amor, semelhantes ou não a esta, devem ter existido ao longo da trajetória do homem sobre a face do planeta e ficaram totalmente desconhecidas da posteridade.

                  Pesquisando, certo dia, na WEB encontrei uma carta escrita em um velho pergaminho de papiro depositado no Musee de L’homme, em Paris. O museu, vinculado ao Museu Nacional de História Natural, é dedicado à apresentação de um vasto painel relativo às ciências humanas, com itens que vão da pré-história até a contemporaneidade, passando pelas áreas da antropologia, etnologia, arqueologia, biologia, meio-ambiente, história e geografia, sempre tendo a raça humana, com sua evolução e cultura, como ponto focal.

                 A carta havia sido descoberta durante uma expedição científica francesa ao Egito, logo após o ano de 1798, quando Napoleão Bonaparte com dezoito mil soldados chegou ao Cairo, dando início a Campanha do Egito, realizada durante a Revolução Francesa. As escavações realizadas na ocasião, no local onde o pergaminho foi encontrado, descobriram túmulos e monumentos da XXV dinastia, que ocorreu entre 724 a.C e 717 a.C (A XXV dinastia egípcia, também conhecida como Dinastia Núbia ou dos Faraós Negros, foi a última do Terceiro Período Intermediário do Egito, que ocorreu após a invasão Núbia. A XXV dinastia era uma linha de faraós que se originaram no Reino de Cuxe, localizado no atual norte do Sudão e no Alto Egito).

                   A correspondência, basicamente, tratava de uma comunicação particular entre um amante preterido e a sua amada. Seus termos eram os seguintes:


“Amiga,

Perdoe-me por chamá-la assim, mas, tendo você comigo rompido, não posso - e não devo mais - tratá-la da maneira carinhosa e apaixonada com que sempre a tratei. 

Não que eu tenha deixado de ter por você o afeto que sempre tive ou que meu amor tenha diminuído um milímetro que seja; mas é que, tendo desfrutado outrora de um infinito amor do qual me julgava correspondido, hoje disponho apenas da memória para manter vivas as belas recordações dos tempos em que estivemos juntos. 

Creio que o mesmo não ocorre com você e, por esta razão, chamo-a apenas de amiga.

Gostaria de dizer-lhe que sua simples passagem pela minha vida, foi suficiente para fazer com que esta se justificasse inteiramente perante os Deuses. 

Pode ser até que estes objetivassem para esta ínfima centelha de vida que criaram, trazendo-me a este mundo, algum propósito maior, nesta breve existência terrestre, de fama, de fortuna ou de sabedoria.

Quero que saiba, entretanto, que de tudo isto eu abdicaria - no caso desta hipótese ser verdadeira - apenas para manter o seu amor, por mim, igual àquele que ainda mantenho por você. 

Creio que basta o amor para justificar, plenamente, a existência humana; pois, tudo o mais passa a ser acessório na vida de dois verdadeiros amantes como nós já fomos.

Reconheço que não são muitas, ao longo da história, as almas denominadas ‘gêmeas’ que conseguiram, após terem se encontrado, continuar unidas e felizes até a extinção de suas apaixonadas vidas. 

A grande maioria sempre ficou pelas margens do caminho; principalmente, porque eram apenas denominadas ‘gêmeas’, não sendo, na realidade, aquilo tudo que pensavam ser. 

Não sei se este será o nosso caso; pois, até agora, não entendi as razões alegadas para o rompimento.

Considerando que tais razões verdadeiramente existiram, peço-lhe, mais uma vez, que as releve. Se destas razões fizer parte o seu amor por outra pessoa, não lhe pedirei tanto; pois o amor que sinto é grande o bastante para desejar vê-la feliz para sempre, não importa que não tenha sido ao meu lado”. 


                        A História oficial sempre documentou inúmeros casos de amor entre pessoas de sexos diferentes, bem como entre indivíduos do mesmo sexo. As principais histórias entre amantes, que estão documentadas historicamente, referem-se aos seguintes personagens mencionados a continuação.

                       Os leitores interessados em conhecer suas histórias, poderão obtê-las em livros ou pesquisando na WEB. Os personagens não estão ordenados por ordem cronológica no tempo. Imagino que para cada uma dessas histórias lembradas devam existir milhares de outras esquecidas.

                        Afinal, o amor, como a força mais sutil de todas, é um sentimento que está sempre além do bem e do mal (como costumava dizer Friedrich Nietzsche) e presente em todas as pessoas, épocas e lugares. Os principais amantes heterossexuais cujas histórias poderão ser conhecidas, pois foram registradas para a posteridade, são:

                         Dante e Beatriz, Pedro I de Portugal e Inés de Castro, Joana ‘a louca’ e Filipe ‘o belo’, Mumfaz Mahal e Shah Vohan, Diego Marcilla e Isabel de Segura, Princesa Diana e Dodi Al Fayed, John Lennon e Yoko Ono, Salvador Dali e Gala, Sissi da Baviera e Francisco José, Liu Guojiang e Xu Chaoqing, Lola Montez e Luis I da Baviera, Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, Luís Carlos Prestes e Olga Benário, Jesus e Maria Madalena,  Ana Emília Ribeiro de Castro e Dilermando Cândido de Assis, Madame Pompadour e Luís XV, Servilia Caepionis e Júlio César, Marie Walewska e Napoleão Bonaparte, Bonnie e Clyde, Aspasia e Péricles, Salomão e a Rainha de Saba, Henrique VIII e Ana Bolena, Cleopatra e Marco Antônio, Marilyn Monroe e John F. Kennedy, Camila Parker e Príncipe Charles da Inglaterra, Wallys Simpson e Eduardo VIII da Inglaterra, Katherine Hepburn e Spencer Tracy, Khatarina Schratt e Francisco José da Áustria, Monica Lewinsky e Bill Clinton, Pocahontas e John Rolfe, Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi, Margarida de Valois e Joseph Boniface de La Mole, Frida Kahla e Léon Trotsky.

                             Alguns dos principais amantes homossexuais, cujas histórias também ficaram registradas oficialmente, são: 

Adriano e Antinoo, Oscar Wilde e Alfred Douglas, Willian Shakespeare e William Hart, Rock Hudson e Mark Kristian, Alexandre da Macedônia e Heféstion, Cary Grant e Randolph Scott, Sócrates e Alcibiades, Ricardo Coração de Leão e Felipe II da França.

                               As próprias mitologias grega, hindu, romana, celta, nórdica, maia e egípcia, estão cheias de amores entre os deuses, entre si, e dos deuses com os humanos. Mencionarei alguns destes casos, como, por exemplo, na Mitologia Grega: de Afrodite e Adônis, Eros e Psiquê, Páris e Helena, Hades e Persefone, Orfeu e Eurídice, Hero e Leandro, Aquiles e Pátroclo, Apolo e Daphne, Perseu e Andrómeda, Zeus e Europa. Na Mitologia Hindu: Rama e Sita, Arjuna e Daupradi, Shiva e Parvati, Krishna e Radha, Akash e Akita.

                            Na Mitologia Romana: Daphnis e Chloe, Aeneas e Dido, Marte e Vênus. Na Mitologia Celta, Artur e Guinevere, Tristão e Isolda, Diarmuid e Gráinne, Deirde e Naoise, Oisin e Niamh, Cúchulain e Emer, Midhir e Etain. Na Mitologia Nórdica: Hagbard e Signy, Njord e Skadi, Odin e Frigg, Bragi e Iduna, Baldes e Nanna, Thor e Sif, Loki e Sigyn. Na Mitologia Maia: Ixchel e Itzama.

                            Na Mitologia Egípcia: Osíris e Ísis, Set e Anat, Hórus e Hator, Nut e Geb, Anúbis e Anput.

                          Estou convencido de que cada leitor, se questionado a respeito, teria também uma bela história de amor a contar, talvez até mais emocionante que as citadas. 

                           Sua história, talvez, só não tenha passado para os anais da História, certamente, pela falta de um escritor, de um historiador ou de um cronista social da época, que a relatasse sob a forma de um conto, de um romance, de uma novela, de uma poesia, de uma notícia ou de um fato histórico digno de ser mencionado.

                         Esta é a razão pela qual estes artífices das palavras embora, por vezes, partidários, tendenciosos, enganosos, falsos, dissimulados e astuciosos, têm o poder de conduzir os indivíduos da total obscuridade histórica para os holofotes do palco em que se desenrola a comédia humana, nomeada assim por Honoré de Balzac; isto é, a vida social, onde eclodem todas as paixões.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.