quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 401. Como muitos indivíduos fazem para manter a sua ignorância bem escondida  


Jober Rocha*



              Ignorância, conforme nos informam os dicionários, consiste em um estado mental de quem não está a par da existência ou ocorrência de algo ou de quem não tem conhecimento ou cultura, por falta de estudo, experiência ou prática.

              A subjetividade da ignorância pode ser estendida a inúmeros domínios, como o das leis, dos costumes, dos comportamentos, da verdade e da razão, por exemplo. Assim, uma pessoa ignorante poderia ser também considerada como ‘incompetente, inexperiente, mal-educada, pretensiosa, presunçosa e bronca’.

                  Inúmeros pensadores já se manifestaram sobre ela, como, por exemplo, Rui Barbosa, que afirmou: ‘A chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta; e somente esta: a Ignorância! Ela é a mãe da servilidade e da miséria’. Ou então William Shakespeare: ‘Só há uma treva: a ignorância’. Ou o filósofo Sócrates: ‘O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância’.

                   Muitos outros pensadores, ao longo da história, já se manifestaram sobre a ignorância; mas, ficaremos apenas com estes três para não cansar os leitores.

                        A ignorância, todavia, pode ser bem escondida e milhares, se não milhões, de seres humanos fazem isto todos os dias. Existem, evidentemente, várias formas de escondê-la que são comumente utilizadas por cidadãos comuns, políticos, cientistas, professores, sacerdotes, militares e profissionais liberais e é sobre isto que trataremos neste texto. De tanto observá-los, acabei por perceber algumas delas, embora isto não esgote o assunto.

                     Iniciarei com a forma mais comum, que é a de, simplesmente, balançar a cabeça afirmativamente durante um diálogo, como se estivéssemos entendendo e concordando com o que está sendo dito pelo nosso interlocutor, muito embora nada saibamos sobre aquele assunto. 

                     Aquele que nos fala ficará impressionado com a nossa ‘cultura’, já que concordamos com o balançar afirmativo da cabeça sobre tudo o que fala e ele, com certeza, se julga alguém muito culto.

                          Outra forma de a escondermos consiste em nada dizer é adotar um comportamento impassível, como se soubéssemos mais do que ele, mas que não o quiséssemos contraditar. Se o oponente perguntar o que achamos da questão, devemos responder: - Penso de forma diferente, mas não gosto de criar polêmicas, notadamente com amigos; portanto, nada direi a respeito!

                         Uma variante consiste em, durante a conversa, ao perceber que nada sabe sobre o que está sendo discutido e que podem, eventualmente, solicitar a sua opinião, é a de alegar alguma reunião importante em outro lugar, um compromisso anterior, uma conferência que terá de fazer, pedir desculpas e sair rápido daquele local.

                      A ignorância costuma ser, também, escondida com a utilização de palavras rebuscadas e de pouco conhecimento dos ouvintes. Podem ser palavras pouco utilizadas de caráter técnico ou, até mesmo, palavras antigas que já caíram em desuso. Isto passa por um sinal indiscutível de cultura e é um método muito usado por cientistas, professores de pós- graduação, políticos, sacerdotes, magistrados, médicos, advogados e economistas, quando desejam demonstrar cultura, e fazer crer aos seus ouvintes ou leitores sobre a veracidade daquilo que escreveram ou sobre o que falam.

                           Quantas asneiras, parvoíces e estultices, ao longo da história, já foram aplaudidas de pé, pelo fato de os ouvintes ou leitores não terem compreendido nada daquilo que foi dito ou escrito por alguém que nada sabia sobre o assunto que tratava; mas, que era profundo conhecedor do uso da retórica e da construção de falácias com termos rebuscados e pouco usados. 

                        Quantos não se especializaram em técnicas de Neurolinguística, para dar credibilidade às asneiras, baboseiras, disparates e bobagens proferidas, sempre aos gritos como manda a técnica, para uma plateia política ou religiosa hipnotizada pelo magnetismo do orador?

                       Uma forma mais cruel de esconder a ignorância é a de apelar para a violência física. Sempre foi muito utilizada, pois, neste caso, quem a pratica aparece como o anjo do bem agindo contra o agente do mal. A verdade estaria com aquele que usa da violência para combater os que desejam promover o mal. 

                       O ato serve, portanto, para esconder a falta de conhecimento e de argumentos contraditórios, por parte dos violentos, e que são mantidos encobertos pela violência praticada.

                       Outra forma também utilizada consiste em adotar poses, roupas, procedimentos, etc., condizentes com a postura de um intelectual. Em suma, possuir uma aparência que seja interpretada e identificada, conforme a época e os costumes, com a de pessoas sábias e cultas.

                      Assim, ora deixando os cabelos e as barbas crescerem, ora usando óculos de grau, ternos bem feitos, togas, paramentos, jalecos e fardas impecáveis, ora carregando consigo livros, bastões de mando, cajados de profetas e pastores de almas, pastas de couro, estetoscópios, teses doutorais, processos jurídicos, medalhas, condecorações, comendas, etc., pode-se passar para o público, em geral, uma aparência de alguém que prima por possuir grande cultura e enormes conhecimentos.

                      Isto, meus caros, é o que fazem, diariamente, milhares, se não milhões, de seres humanos em todo o mundo. São pessoas que vivem de vender algo que não possuem consigo mesmo, pessoas que vivem de iludir o próximo (quase sempre crédulo, inocente e também ignorante), objetivando obter poder e riqueza, usando, para tanto, dos mais variados artifícios que desenvolveram ou aprenderam com a esperteza nata que possuem.

                      A grande questão que se coloca é a seguinte: como distinguir o joio do trigo? Evidentemente que existem milhares, se não milhões, de pessoas verdadeiramente cultas, sábias e inteligentes entre os cientistas, os filósofos, os militares e os sacerdotes, em todos os cantos do mundo.

                     Creio que para tanto, seria necessário, da parte dos ouvintes e leitores, um mínimo de conhecimento e de informação, de modo a poder perceber quando alguém fala com conhecimento de causa ou, simplesmente, emite sua opinião sobre algum assunto sem nada conhecer sobre ele, notadamente quando o assunto é de caráter político ou religioso, temas que ocupam grande parte das discussões mundialmente.

                      Imagino que se milhares, se não milhões, de pareceres, teses, livros, discursos, pronunciamentos, homilias, ordens do dia, sentenças, perícias, laudos, etc., feitos por indivíduos que procuravam demonstrar conhecimento e sapiência, deixassem de ser feitos, em nada mudariam os destinos dos países, das populações e dos indivíduos isoladamente.

                     Estes foram, simplesmente, trabalhos inócuos, sem utilidade prática nenhuma, apenas com o objetivo de demonstrar sabedoria, de esconder a ignorância, de justificar o injustificável ou de ganhar dinheiro e adquirir poder; trabalhos estes que, ou já foram destruídos por sua inutilidade ou que, por falta de serventia, jazem esquecidos em prateleiras de arquivos mortos pelos quatro cantos do mundo.

                       Todavia, muitos de seus autores ganharam dinheiro e poder com as sandices que disseram ou escreveram. Este é um grande paradoxo que vislumbro nas Ciências, nas Filosofias, nas Religiões e na Política, em geral: A ignorância da maioria enriquece e concede poder à falsa sabedoria de outros tantos ignorantes, que, com malícia, esperteza, egoísmo e maldade, conseguem enganar a todos, infelizmente ou felizmente, durante quase todo o tempo... 


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


domingo, 18 de outubro de 2020

             400. Vencendo o medo da morte 

          O papel da Medicina ao alterar o destino das criaturas


Jober Rocha*


          A doutrina do retorno do espírito à vida material, a partir da reencarnação em outro corpo, teve sua origem há milhares de anos antes da existência de Allan Kardec (1804-1869) e ocorreu, segundo os historiadores, na Grécia, na Índia e entre os povos Celtas.

              Na Grécia este conceito foi codificado por Orfeu e por Pitágoras no século VI e, posteriormente, adotado por Sócrates e por Platão, dentre outros filósofos que, mais tarde, vieram a sofrer influências dos Mistérios Órficos e da Escola Pitagórica.

          Aristocles de Atenas, mais conhecido como Platão, foi um dos primeiros a enunciar que “os espíritos, antes de encarnarem, são levados a escolher o modelo de vida a que posteriormente ficarão presos”.

         Seus diálogos ‘Timeu’ e ‘Fedro’ e sua obra ‘A República’, constituem os principais textos que falam sobre a reencarnação. Nos dois primeiros explica suas concepções a respeito da criação dos espíritos e de sua individualização e desenvolvimento, a partir das reencarnações. Em ‘A República’ utiliza-se de um mito (de Er, pastor de Pamfilia) para exemplificar suas ideias a respeito da reencarnação. 

          Assim, conforme afirmava Platão, os espíritos escolheriam suas novas vidas de acordo com os costumes de vidas anteriores.

          Segundo o filósofo, para o espírito, “a reencarnação em um corpo físico seria uma prisão, por castigo, e só poderia ser evitada a partir da adoção de uma filosofia de vida baseada no amor e na sabedoria”.

          Platão considerava a alma como a consciência, em si, das coisas do bem e do mal, da justiça e da virtude. Seria, ainda, a inteligência como reflexão e interrogação sobre a realidade e a capacidade de descobrir, por si, a verdade e as regras da vida ética. Para ele, a essência da alma era a razão e o principal mal a ignorância.

          Para Homero, autor de ‘Ilíada’ e ‘Odisséia’ – Séc. VIII a.C, o Destino está acima do próprio Júpiter que, soberano dos deuses e dos homens, deixa isto claro quando afirma que não pode impedir Sarpedon, seu filho, de morrer na data fixada. O futuro da Terra inteira esteve dependente da morte de Sarpedon, a qual dependia, por sua vez, de outro acontecimento que estava ligado por outros à origem das coisas (tal conceito de necessidade e de fatalidade foi denominado por Leibniz, mais tarde, de Razão Suficiente).

          Este determinismo foi completamente esquecido pelos povos ocidentais até a idade contemporânea, em razão da noção de livre arbítrio dominante durante o final da antiguidade e por toda a idade média.

          Enquanto alguns povos do Oriente mantiveram a crença no determinismo e na reencarnação, em face de suas doutrinas religiosas; no Ocidente, a expansão do cristianismo veio difundir a noção da não reencarnação e do livre arbítrio, para o bem e para o mal, fazendo surgir, assim, a noção de pecado, segundo afirmava o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900).

               Milhares de anos depois dos filósofos da antiguidade, Allan Kardec em seus principais livros: O Livro dos Espíritos (1857); O Livro dos Médiuns (1861); O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864); A Gênese (1868); O Céu e o Inferno (1865) e O que è o Espiritismo (1859); traçou as bases da doutrina espírita, segundo ele ditada pelos próprios e iluminados espíritos superiores.

                 Relativamente à morte, em ‘O Livro dos Espíritos’, há um capítulo inteiro sobre o assunto: trata-se do capítulo III, do livro segundo, com o título ‘Retorno da vida corpórea à vida espiritual’. 

                   Algumas questões, como a 149 (Que sucede à alma no instante da morte? “Volta a ser Espírito, isto é, volve ao mundo dos Espíritos, donde se apartara momentaneamente.”), a 163 (A alma tem consciência de si mesma imediatamente depois de deixar o corpo? “Imediatamente não é bem o termo. A alma passa algum tempo em estado de perturbação”.) e a 164 (A perturbação que se segue à separação da alma e do corpo é do mesmo grau e da mesma duração para todos os Espíritos? “Não; depende da elevação de cada um. Aquele que já está purificado se reconhece quase imediatamente, pois que se libertou da matéria antes que cessasse a vida do corpo, enquanto o homem carnal, aquele cuja consciência ainda não está pura, guarda por muito mais tempo a impressão da matéria.”) esclarecem parcialmente este assunto. 

                    Em sua obra ‘O Céu e o Inferno’ (10ª edição, dez 2002, Lake), Alan Kardec no capítulo ‘A Preocupação com a morte’, diz: “No instante da morte, todo homem retorna ao mundo dos espíritos, pátria de origem; Uma vez no chamado outro mundo, conserva plenamente sua individualidade; a separação da alma e do corpo não é dolorosa (grifo meu). O corpo sofre mais durante a vida que no momento da morte; a alma se liberta com o rompimento do laço que a mantinha presa ao corpo; a sensação que se experimenta no momento em que se reconhece no mundo dos espíritos depende do que fizeram em vida. Se foram bons, sentirão enorme alegria. Se foram maus, sentirão vergonha”.

                   No capítulo ‘A Passagem’, do mesmo livro, específico sobre a questão, Kardec diz: “A preocupação com a morte é determinada pela sabedoria da Providência, e uma consequência do instinto de conservação comum a todos os seres vivos. É necessária, enquanto o homem não estiver esclarecido a respeito da vida futura, como um contrapeso ao arrastamento que, sem esse freio o levaria a deixar prematuramente a vida terrena e a negligenciar o seu trabalho neste mundo, que deve servir para o seu próprio adiantamento. Acrescentemos que tudo, nos nossos costumes, concorre para fazer que lamentemos a perda da vida terrena e temamos a passagem da Terra para o Céu. A morte é cercada de cerimónias lúgubres que servem mais para aterrorizar do que para despertar a esperança. Sempre se representa a morte sob um aspecto repulsivo e jamais como um sono de transição. Todos os seus símbolos lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo e descarnado. Nenhum nos apresenta a alma se desprendendo, radiosa, dos laços terrenos”.

                             O tradutor da obra de Kardec acrescenta em nota de rodapé desta página: “Essa impressão negativa, da morte, foi intencional. O objetivo era atemorizar as criaturas a fim de se portarem bem na vida. (Grifo meu). Há uma relação evidente entre essa ameaça da morte e as ameaças de castigos nas escolas, para garantir o bom comportamento dos alunos”.

                          Vê-se, portanto, que a morte, segundo pensam muitos filósofos e pensadores religiosos, não é o fim de tudo, mas o começo de outra vida, de outra forma. Sob este aspecto, portanto, não há por que temê-la.

                         Vejamos, agora, se ela costuma ocorrer de forma dolorosa ou não.

                          Pesquisando a literatura médica relativamente ao fato de ‘se as mortes são dolorosas ou não’, me surpreendi com algumas informações que obtive. A grande maioria das mortes são indolores (conforme afirmado no livro de Kardec, citado anteriormente, e que tive o cuidado de sublinhar), ao contrário do que eu pensava e, creio, do que a grande maioria das pessoas ainda pensa.

                       A remoção da cabeça de uma pessoa, por exemplo, é considerada uma das mortes mais rápidas e ocorre em alguns segundos.  A morte ocorre com a falência dos batimentos cardíacos e da falta de respiração. Quando ocorre na guilhotina ou por corte de uma espada, por incrível que pareça, é imediata e indolor.

                      O enforcamento, por sua vez, também induz a uma morte rápida e indolor.  A morte cerebral acontece por falta de oxigênio e se dá em menos de um minuto.

                     Na eletrocussão (morte na cadeira elétrica ou por uma descarga elétrica de mais de 2.000 volts) a morte da pessoa é instantânea e, portanto, indolor.

               A injeção letal consiste na injeção de três drogas administradas de forma sucessiva e a morte ocorre em, no máximo, um minuto, com o indivíduo totalmente inconsciente, nada sentindo.

                        Na morte por fuzilamento o executado leva de 10 a 15 segundos para perder a função cerebral, o que leva à imediata perda de consciência.

                             O mesmo ocorre nos casos de grandes traumas por acidentes graves e tiros em pontos vitais. A vítima perde logo a consciência, mediante um mecanismo natural que retira o sangue do cérebro, desviando-o para a área onde é mais necessário. Com isso ocorre a perda da consciência e, caso não seja viável algum tipo de socorro médico, a morte ocorre com a pessoa inconsciente, sem sentir nenhuma dor.

                          Uma parada cardíaca súbita (PCS), enquanto o indivíduo dorme, é uma das mortes mais tranquilas. Uma PCS ocorre devido ao mau funcionamento do sistema elétrico do coração e, se ocorrer durante o sono, o indivíduo não acordará e nem terá consciência de que está morrendo.

                      Pacientes terminais, internados em hospitais com moléstias graves ou graves traumas, normalmente, se chegam a falecer, estão sedados e morrem sem perceber que morreram e sem sentir nenhuma dor.

                      O fato é que quando a morte ocorre, na grande maioria dos casos, o indivíduo está inconsciente ou sedado ou ela ocorre tão rápido que é praticamente indolor. Apenas poucas maneiras de morrer provocam algum tipo de dor, como, por exemplo, o infarto ou uma queda de grande altura. Porém, a eventual dor é tão rápida quanto à ocorrência da morte, podendo-se dizer, pois, que inexiste.

                    Qual a razão, portanto, para que a morte seja tão temida por todos?

                             Acredito que o problema seja cultural e psicológico. Cultural, na medida em que tem sido incutido pela religião judaico cristã, nas mentes dos seus fiéis e seguidores, buscando atemorizar as criaturas com a existência do inferno e do purgatório (onde no primeiro caso sofreriam eternamente e no segundo até purgarem seus pecados), no sentido de que pautassem seus comportamentos em vida segundo as virtudes pela religião apregoadas (pacifismo, humildade, esperança, caridade, tolerância, bondade, fé, etc. – virtudes estas que deveriam ser perseguidas e cultivadas pelo povo, mas que nunca foram apanágio das elites, até mesmo das eclesiásticas). Psicológica por que todo ser humano tem medo ou receio daquilo que desconhece. Ademais, a morte tem o poder de separar os entes queridos, os familiares e amigos, daquele que se vai, definitivamente, para o desconhecido (mesmo que para o céu dos cristãos, para os verdes campos de caça dos índios norte-americanos ou para o céu das setenta e duas virgens do paraíso islâmico).

                        No Egito antigo, os faraós faziam questão de que fossem depositados em suas tumbas tudo aquilo de que pudessem precisar no local desconhecido para onde iam. Em alguns casos, em algumas tribos, a mulher  e os servos eram enterrados junto com o chefe, para servi-los no lugar desconhecido para o qual iam após a morte.

                   O imperador romano Adriano (76 d.C – 138 d.C), escreveu um belo poema sobre a vida após a morte: 

Animula vagula blandula 

Hospes comesque corporis 

Quae nunc abibis in loca 

Pallidula rigida nudula 

Nec ut soles dabis iocos 


(Pequena alma, terna e flutuante)

(Hospede e companheira do meu ser)

(Vais descer pálida, rígida, nua)

(A lugares lúgubres, hesitante)

(Que jamais pensaste algum dia conhecer)


              Existem inúmeras traduções do seu poema, mas considero esta a melhor.

             Embora no território da morte só exista um caminho; isto é, aquele que leva para adiante; muitos indivíduos, ao longo da história, conseguiram descobrir atalhos que lhes permitiram retornar ao mundo dos vivos. Tais casos são denominados EQM – Experiência de Quase Morte. São pessoas cujos corpos tiveram morte aparente ou real e seus espíritos penetraram, por momentos, nos umbrais da morte e de lá conseguiram retornar para seus corpos, relatando, posteriormente, aquilo que viram e experimentaram durante esta viagem. 

                  O número de casos ocorridos é tão extenso, que têm motivado diversos médicos a escreverem sobre os relatos de seus pacientes que passaram por estas experiências. Como regra geral os pacientes, após vivenciarem suas experiências extracorpóreas, passaram a não mais temer a morte e a interessarem-se pela busca do conhecimento, tornando-se leitores assíduos de todos os assuntos.

          Respeito os que não creem na espiritualidade e aqueles que pretendem a ela chegar através das religiões. Todavia, ambas as posições apenas servem para transformar uma coisa tão mágica e tão interessante em algo simples demais. Sem nenhuma graça no primeiro caso ou então repleto de rituais, de crendices e de superstições, no segundo. Convenhamos, meus caros leitores, que estes não devem ter sido os objetivos iniciais do Criador de todas as coisas, ao dar vida aos seres humanos.

                   Outra questão interessante, que vale a pena destacar neste texto, é o papel da Medicina ao interferir no destino das criaturas, salvando da morte certa aqueles a ela condenados pelo Criador que, segundo a religião cristã, é onipresente, onipotente e onisciente; ou seja, que está em todos os lugares, que tudo pode e que tudo sabe. A morte de todos os seres humanos, segundo afirmam as religiões, foi adredemente programada; isto é, com antecedência e finalidade específica. Ninguém viveria mais do que o tempo que lhe foi determinado por aquele que o criou.

        De todas as Leis da natureza, quer se acredite ou não nas existências delas, uma única pertenceria ao rol das coisas que não poderiam ser violadas e esta seria a Lei da Lógica. Como já disse alguém: “As cadeias com que a Lógica acorrenta a Natureza, são apenas formais, não chegando a oprimi-la; porém, em razão disto, são totalmente inquebrantáveis”. Assim, ao considerarmos as Leis da Natureza como ordens que teriam partido de um Criador, estaríamos bem próximos de atribuirmos a estas leis a necessidade de pertencerem às Leis da Lógica.

             A Medicina como todas as demais Ciências, dizem os filósofos, fazem parte do ‘Pacote da Criação’; isto é, ao criar tudo o que existe no Universo conhecido, o ‘Criador de Todas as Coisas’, também, teria criado as leis que regeriam o comportamento e o funcionamento da Sua criação. Tais leis, a pouco e pouco, iriam sendo descobertas pelo homem (figura importante, consciente e, talvez, até mesmo central de todo este fenômeno), dando lugar ao surgimento, pela descoberta humana conforme dito, das diversas Ciências já existentes e outras ainda por descobrir.

              A Medicina, como todos nós sabemos, consiste em uma área do conhecimento ligada à manutenção e a restauração da saúde, trabalhando, em um contexto médico, para a prevenção e a cura das doenças dos seres humanos e dos animais. 

               Segundo alguns autores, a Ciência da Medicina teria surgido, no Ocidente, com Hipócrates (460 a 377 a.C.) e, segundo outros, no Império Aquemênida (no Sudeste da Ásia, entre 550 e 330 a.C.), no Oriente. 

               Ao longo da História, após Hipócrates, diversos ‘médicos’ contribuíram para o desenvolvimento desta ciência incipiente, notadamente Asclepiades de Bitinia, Claudio Galeno, Ibn Sina (Avicena), Ibn Rushd (Averrois), Ibn al-Nafis, Ibn al-Baytar, Al-Farabi, Al-Zarzi, Louis Pasteur, Alexander Fleming, etc.

              Na atualidade, fruto de pesquisas teóricas e aplicadas, a Medicina tem progredido sensivelmente, tendo descoberto as causas e as curas de uma infinidade de moléstias que acometem os seres humanos e os animais. Ao fazer isto, entretanto, segundo podemos supor, tem interferido nos desígnios do Criador para com as Suas criaturas.

              Diversas crenças religiosas associam a vida humana (ou a encarnação de um espírito em um corpo material) à necessidade do aprendizado espiritual, aprendizado este que passaria pelas vias dos sofrimentos, das dores e das vicissitudes, necessárias estas para que o aperfeiçoamento ocorresse. 

                 Lembremo-nos que a evolução ocorre dialeticamente e que o embate entre a tese e a antítese é o que provoca a síntese; isto é, a evolução daquelas duas em direção a esta. Algumas crenças falam em, apenas, uma vida e outras em múltiplas existências; todas, entretanto, reafirmam a necessidade deste aprendizado encarnado, para que o espírito possa evoluir.

                As crenças Orientais, panteístas em sua maioria, advogam a existência de um Determinismo com relação ao destino dos indivíduos, enquanto as principais crenças Ocidentais, quase todas monoteístas, propugnam a existência de um Livre Arbítrio.

            Com base no que dizem a Religião e a Filosofia, podemos estabelecer algumas hipóteses: 1. A existência humana seria determinística e Deus estaria em toda a Natureza (conforme acreditam o Budismo, Hinduísmo, Sufísmo, Confucionismo, Taoísmo e Xintoísmo); 2. A existência humana seria determinística e Deus estaria fora da Natureza (conforme pensam o Islamismo e o Espiritismo); 3. A existência humana possuiria total livre-arbítrio e Deus estaria em toda a Natureza (nenhuma religião comunga com esta hipótese, pois, aparentemente, se trataria de uma contradição religiosa); e 4. A existência humana possuiria total livre-arbítrio e Deus estaria fora da Natureza (conforme acreditam o Catolicismo e o Protestantismo).

          Cada uma destas hipóteses implicaria em uma maneira diferente, para seus seguidores, de encarar a vida e os demais fenômenos Metafísicos, como, por exemplo, a vida após a morte. 

           A primeira hipótese seria a que mais nos aproximaria fisicamente do Criador (que estaria na própria Natureza) e, portanto, implicaria em uma menor necessidade da intermediação por parte de organizações religiosas entre Deus e os homens, além de induzir a uma maior pratica das chamadas virtudes, por parte dos cidadãos, em razão da visão determinística da existência. 

          A última delas seria a que mais nos distanciaria fisicamente do Criador, criando, assim, uma necessidade maior da presença de instituições religiosas para servir de ponte entre o Criador e as criaturas e induziria a uma maior pratica dos chamados vícios (pecados), por parte dos cidadãos, tanto em razão da visão religiosa de livre arbítrio quanto do constante apelo do Sistema Capitalista para a satisfação dos desejos do ego, prontamente atendidos em razão do livre-arbítrio. Tanto é assim, que a noção de pecado e do inferno (onde ficariam os pecadores) é muito forte no Cristianismo.

             Como visto, todas as religiões (quer monoteístas, quer panteístas) admitem a existência de um Criador e de leis que regeriam a criação. Assim, em condições normais, a Natureza operaria segundo os critérios estabelecidos pelo Criador e da forma como necessitaria operar; isto é, nada seria feito de maneira supérflua ou sem finalidade.

                 Neste contexto, como compatibilizar a Medicina (que objetiva salvar e prolongar a vida dos seres humanos) com as Leis da Natureza? A interferência da Medicina teria, assim, a propriedade de interromper o livre curso da Natureza, modificando-o a revelia do Criador; já que, nada ocorreria por acaso (assim, o indivíduo que estivesse enfermo, possuísse deformidades ou estivesse à beira da morte, teria, necessariamente, de passar por tudo aquilo, para atingir a evolução prevista para o seu espírito naquela atual existência). A Medicina, ao corrigir deficiências, curar enfermidades e prolongar a vida do ser humano, estaria interferindo nos desígnios do Criador.

             Determinada crença religiosa cristã é conhecida mundialmente pelo fato dos seus seguidores recusarem transfusões de sangue. Estes fazem isto com base em suas interpretações de Genesis 9:4; Levítico 17:10; Deuteronômio 12:23; Atos 15:28, 29 e Levítico 17:14. 

               Em todos os lugares do nosso planeta onde a vida surgiu (quando na ausência de qualquer interferência humana), ela tem seguido o seu curso normal; isto é, a Lei Natural que faz com que tudo aquilo que necessite morrer, morra. Com a interferência dos seres humanos e da Ciência da Medicina, esta Lei pode ser anulada e constantemente o tem sido, para felicidade nossa.

              Filosoficamente, entretanto, a questão que se coloca é a de que os praticantes da Ciência Médica, ao obstarem a ação da Natureza mediante as suas intervenções e impedirem, assim, a ação da Lei Natural, interferem na programação divina de aprendizado dos espíritos encarnados. 

                 Lembremo-nos que a constituição física de cada indivíduo, seu DNA, seus cromossomas, sua resistência ou propensão às doenças e as enfermidades, etc., são determinados de maneira exógena; isto é, já vieram com eles quando dos seus nascimentos (ou encarnações). 

                     Ao se acreditar na existência de um Criador, nas Leis da Natureza, na necessidade da evolução espiritual e no consequente caminho do sofrimento para atingir esta evolução, a interferência do médico com a sua ciência, embora vista com alegria, carinho e respeito pelos pacientes, pode ter conotações espirituais desconhecidas por nós, ao permitir prorrogar a vida de alguém que teria, inexoravelmente, sucumbido pela ação da Lei Natural.

             Reconheço ser este um assunto complexo e, filosoficamente, ainda não solucionado a contento até o presente. Quem sabe se, futuramente, a Ciência, a Religião e a Filosofia não convergirão para um ponto comum, de modo a chegarem, as três, a possuir a mesma concepção Metafísica sobre o fenômeno da vida e da morte, de modo a que possamos ter uma resposta definitiva para esta instigante questão que desafia a Filosofia, a Ciência e a Religião?


_*/ Economista e doutor pela universidade de Madrid, Espanha.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

 399. Em defesa do pensamento conservador 


                                                                        Jober Rocha*



                      O tema principal deste artigo é tentar evidenciar que existe uma grande distinção entre o que se conhece como conservador (ou pensamento conservador), adjetivo, e aquilo que é conhecido como conservador ou conservadorismo, substantivo; embora persista certa confusão sobre um e outro conceito, por parte da população, incentivada esta confusão por ideólogos de esquerda com finalidades pejorativas, tentando atribuir o mesmo sentido aos dois conceitos (substantivo e adjetivo), de modo a estigmatizar aqueles indivíduos que, adjetivamente, pensam de forma conservadora, correspondendo esta à qualificação de atitudes e de ideias práticas cujo tempo e a história sancionaram.

                        O Pensamento Conservador, adjetivo, é, pois, aquele que acomete os seres humanos individualmente e é construído pela história do país, da nação, do povo e da sociedade. Pode-se pensar de forma conservadora sem pertencer a partidos políticos conservadores, que adotam o conservadorismo como forma de se atrelarem ao poder no tempo e no espaço. 

                       “O Estado consiste em um organismo vivo, que não pode ser separado da sociedade como prega o liberalismo, nem engoli-la totalmente como prega o socialismo e o comunismo”, no dizer de Roger Scruton (1891-1937). Além disso, conforme ainda considera o autor, “o pensamento conservador traz, em si, a perspectiva dos elementos de alguma crença religiosa, como cruciais para a vitalidade do Estado. Sem a moral cristã (ou aquelas advindas de qualquer outra religião), por exemplo, se veem mortas relações existentes entre o passado, o presente e o futuro, tanto dos indivíduos, quanto das raças e dos países”.

                         Ademais, segundo o mencionado autor, “O pensamento conservador visa, durante todo momento, manter os pés no chão. Olhar para o passado é mais eficaz do que ficar especulando o futuro. Prezar pela ordem social, na qual o Estado é um organismo que defende os interesses públicos, ao mesmo tempo em que respeita a vitalidade de suas células (indivíduos) e órgãos (instituições autônomas), são os objetivos do pensamento conservador. Os que possuem pensamento conservador não podem admitir a mercantilização do que não tem preço, isto é, a família, a arte, a fé e a nação”, como fazem os partidos de esquerda e sua ideologia marxista.  

                               O pensamento conservador, portanto, pode ser qualificado, adjetivamente, em uma atitude inteligente individual perante a vida e não em um movimento ou em uma corrente política como muitos imaginam. Os adeptos das ideologias de esquerda, que se autodenominam progressistas ou revolucionários, ao classificarem determinadas pessoas como conservadoras tentam atribuir a estas um caráter pejorativo oposto ao delas, como se o fato de pensar de forma conservadora fosse algo mau e pensar de forma revolucionária algo bom.

                                Você pode ser conservador (adjetivo) em sua alimentação, em seu modo de tratar com as pessoas, em sua atitude perante a Religião, a Filosofia e a Ciência, em sua maneira de vestir, em seu gosto musical, artístico, literário, etc. 

                                Um governo conservador (substantivo) de qualquer matiz, que adote o conservadorismo como forma de sobreviver, no tempo e no espaço, trata-se de outra coisa. 

                               Culturalmente, o pensamento conservador (adjetivo) valoriza as manifestações locais e uma identidade nacional que conduza ao patriotismo, fatos estes contestados pelo comunismo, cuja doutrina internacionalista pretende a abolição do patriotismo e da identidade nacional.  

                               Nestes aspectos, indiscutivelmente, aqueles indivíduos cujos pensamentos são conservadores são os sustentáculos que toda a comunidade deve possuir, de forma a manter certos padrões de comportamento e certos valores garantidores de uma coesão social e da identificação dos indivíduos com a comunidade em que vivem, visando o seu desenvolvimento futuro e sobrevivência.

                            Esta atitude de pensar de forma conservadora, no meu modo de ver, possui uma componente psicológica intrínseca aos indivíduos, além de ser uma atitude racional e inteligente demonstrada, felizmente, por inúmeros representantes da raça humana.

                               O pensamento conservador, portanto, enquanto adjetivo, pode ser aplicado a qualquer ramo do conhecimento e a qualquer atividade humana. De forma pejorativa, como é usualmente feito pela esquerda, o adjetivo é, comumente, substituído pelo substantivo.

                               Como substantivo, o vocábulo conservador distingue aqueles que são partidários da política conservadora, os que defendem a ordem existente, qualquer que seja a sua natureza política. Nesta perspectiva, podemos falar em esquerda conservadora: qualquer ordem institucional pode ser conservadora. Trata-se de garantir a permanência da situação a partir da posição que os agentes políticos ocupam.

                                 Ao tentar apresentar a si mesma como progressista, de vanguarda e uma alternativa, política e ideológica revolucionária para o pensamento conservador (adjetivo), a esquerda busca esconder seu conservadorismo (substantivo). Assim, o conservadorismo, como adjetivo, significando pensamento conservador, que consiste em algo benéfico para os destinos da raça humana, porquanto se traduz como uma forma de pensar e de agir antitemerária, é confundido, de forma proposital, com o conservadorismo político, como substantivo; este sim, antidemocrático e que conduz às ditaduras e aos regimes autocráticos. Normalmente os que possuem um pensamento conservador são pessoas que pensam e agem de forma democrática. 

                                 Quem não pensa e nem age de forma democrática são os progressistas e os revolucionários, que não hesitam em se utilizar de métodos brutais e violentos para alcançar o poder e, quando atingem seus objetivos, passam a apresentar comportamentos substantivamente conservadores.

                                 Depois de conquistados os seus objetivos, a esquerda sempre apresenta seu lado substantivamente conservadorístico (diferente de adjetivamente conservador e, até então, desconhecido do público em geral), fazendo tudo para conservar-se no poder, mesmo a custa de roubos, assassinatos, traições, etc., conforme a História tem demonstrado, desde o fatídico ano de 1917 quando o comunismo se implantou na Rússia.

                               A título de simples curiosidade eu menciono a continuação a quantidade estimada de mortos, vitimados para a implantação do comunismo em diversos países do mundo:

                                    China 65 milhões; União Soviética 20 milhões; Camboja 2 milhões; Coréia do Norte 2 milhões; Países Africanos 1,7 milhões; Afeganistão 1,5 milhões; países comunistas do leste Europeu 1 milhão; Vietnã 1 milhão e América Latina 150 mil.

                                        Possuir um pensamento conservador seria, portanto, a atitude racional e inteligente de qualquer ser humano, ao basear-se em tudo aquilo já testado ao longo da história e que, evidentemente, tenha dado certo e ajudado a humanidade a se precaver, proteger e progredir.

                                 O contrário disto seria possuir pensamento que conduzisse a uma atitude temerária, atitude esta que os dicionários definem como: 

1. Aquela que pode conter risco; em que há perigo; arriscado ou perigoso: viajava sempre por temerários caminhos.

2. Aquela que demonstra temeridade; excesso de ousadia: seu comportamento temerário causou a demissão de alguns funcionários.

3. Aquela muito audaciosa; imprudente.

4. Aquela sem fundamento: julgamento temerário.


                                 A esquerda tradicional sempre iniciou seu processo de convencimento e de aliciamento destacando a temeridade de suas ações. Há algum tempo, no Brasil e em outros países, os partidos comunistas eram proibidos, bem como os partidos de natureza fascistas e nazistas, e viviam na clandestinidade. Muitos jovens, em busca de aventura, foram aliciados, pois, afinal, os comunistas estavam indo em busca do “paraíso terrestre”, contra o ‘Establishment’ (ordem ideológica, econômica e política que constitui uma sociedade ou um Estado), dominante no Brasil e nos demais países capitalistas, com todos os riscos que isto representava. 

                               Tal proposta despertava o sentimento de aventura comum à maioria dos jovens ainda não inseridos no mercado de trabalho e daí surgiam os ativistas ideológicos, panfletários das portas das fábricas; os militantes políticos nas universidades e no estamento estatal; os movimentos campesinos que desejavam a posse da terra, tão somente, para vendê-las e auferirem alguma renda para gastar com bens de consumo.

                                  Surgiram, assim, os partidos políticos de natureza comunista, de fracos resultados nas urnas.  Surgiram, a seguir, as guerrilhas urbanas e rurais. Pelo menos em nosso país, os movimentos campesinos, que se instalaram, jamais produziram qualquer tipo de produto agropecuário para ser comercializado, após invadirem e se apropriarem de terras públicas e de propriedades privadas que, quando não totalmente destruídas de forma vingativa, eram vendidas a terceiros.

                               Posteriormente, os ideólogos comunistas ao verem o fracasso das guerrilhas urbanas e rurais, passaram a adotar os ensinamentos de Antônio Gramsci (1891-1937), ideólogo marxista italiano que propunha a tomada do poder pela via pacífica. Seus objetivos eram fazer com que a esquerda obtivesse a hegemonia na sociedade civil; obtivesse a hegemonia na sociedade política (Estado); estabelecesse o domínio do intelectual coletivo (partido classe) e silenciasse os intelectuais independentes.

                            O método que deveria ser utilizado, segundo Gramsci, seria o de realizar a transformação intelectual e moral da sociedade pelo abandono de suas tradições, usos e costumes, mudando valores culturais de forma progressiva e contínua; introduzindo novos conceitos que, absorvidos pelas pessoas, criariam o denominado senso comum modificado, gerando uma consciência homogênea construída com sutileza e sem aparente conteúdo ideológico, buscando a identificação com os anseios e necessidades não atendidas pelo poder público.

                                 Assim seria estabelecido o desejo de mudança em direção a um mundo novo, com a sociedade controlada através dos mecanismos de uma chamada democracia popular, onde os pensadores livres, temendo o rótulo de retrógrados, de alienados ou de conservadores, se submeteriam a uma prisão sem grades calando a voz de divergência existente dentro de si e se deixando, assim, vencer pelo senso comum modificado, de inspiração e natureza marxista. 

                                Este senso comum modificado prosseguiria intoxicando a sociedade (Igreja, Família, Escola, Governo e Mídia) sob a égide do Estado, sendo usado para reduzir e suprimir a capacidade de reação individual e coletiva.

                                       Nesse momento, segundo Gramsci, estaria construída a base para a tomada do poder e a consequente implantação do Estado Socialista. Aqui, no continente americano do sul, do chamado Socialismo Bolivariano.

                                 Vejam, pois, meus caros amigos, que é importante distinguir o pensamento conservador individual, enquanto adjetivo, do conservadorismo político, enquanto substantivo, dos governos e dos partidos no poder, que têm contra si também os partidos de oposição.

                                Todos os partidos que chegam ao poder, notadamente os de ideologia marxista, adotam o conservadorismo como arma para se perpetuarem no tempo e no espaço. Como alguém já disse: todo revolucionário de esquerda, que se apresenta como progressista e anticonservador, torna-se adepto do conservadorismo, após sua revolução ser bem sucedida.

                                      Muitos cidadãos que pensam de forma conservadora opõem-se às políticas que se dizem reformistas e que desejam fazer do país um laboratório para testes de teorias político-ideológicas e econômicas, muitas vezes, já tentadas e mal sucedidas em outros países, todavia, democraticamente, aceitam os resultados das urnas. O contrário é que normalmente não ocorre. A esquerda quando perde nas urnas não aceita esta perda e quer partir para o confronto e para a violência, de forma antidemocrática.

                                   Como já dito anteriormente, o Gramscismo, adotado pelo Foro de São Paulo como método pacífico para a implantação do socialismo bolivariano no Brasil, e em todo o continente, tentou impedir, nas três últimas décadas, a expansão do pensamento conservador, de seus defensores e de seus ideólogos em nosso país. Nas universidades públicas, em geral, os professores eram todos marxistas ou de esquerda. Professores identificados como de pensamento conservador ou de direita eram, simplesmente, afastados e ficavam sem classes de aulas.

                                 Governos, mesmo reacionários, progressistas, radicais, liberais ou reformistas, adotam sempre o conservadorismo, posição que defenderia, pois, a continuidade e a estabilidade das instituições por eles criadas ou mantidas e dos costumes por eles impostos, opondo-se a qualquer tipo de mudanças. 

                                   A meu ver, portanto, o substantivo conservador é bastante diferente do adjetivo conservador, que é uma característica inerente ao modo de pensar dos seres humanos.

                                   Partidos de tendência socialistas, comunistas, capitalistas, fascistas e nazistas são sempre conservadores depois de instalados no governo, e fazem uso do conservadorismo para se perpetuarem no poder; muito embora a esquerda procure dar a mesma conotação entre o conceito de pensamento conservador, adjetivo, e o de conservadorismo, substantivo, tentando confundir ambas as coisas.

                                   Os indivíduos cujos pensamentos são conservadores, como eleitores, procuram votar em partidos que tenham programas de governo de acordo com aquilo que pensam e que imaginam ser o melhor para si mesmo e para o seu país. Todavia, muitos partidos, de tendências marxistas, apresentam vários itens em seus programas de governo que sensibilizam eleitores conservadores em alguns de seus aspectos; porém, que estes partidos não pretendem realizar, caso cheguem ao poder.  Desejam, apenas, angariar votos de eleitores da direita.

                                 Assim, partidos de esquerda apresentam itens de interesse da direita em seus programas e vice-versa, para iludir os eleitores e angariar votos de prováveis opositores. Não existe, em nosso país, nenhum mecanismo que obrigue os partidos políticos e os candidatos a cumprirem aquilo que prometeram, por escrito ou verbalmente, antes das eleições. 

                                   O Código de Defesa do Eleitor ainda não foi inventado por nossos juristas e qualquer candidato ou partido pode mentir a vontade, sem posteriores consequências; muito embora, a meu ver, o mecanismo da eleição se trate de um contrato de fato, não escrito, onde uma das partes, o candidato, promete executar um determinado serviço (fazer leis, apresentar projetos, etc.) e o outro promete pagar seus salários e mordomias (os políticos eleitos vivem de recursos públicos obtidos com a arrecadação de impostos dos eleitores e da população em geral).

                                      Esta relação contratual, de fato, poderia ser objeto de um Código de Defesa do Eleitor, já que este constitui a parte mais fraca após a realização do pleito, muitas vezes ganho de forma fraudulenta e/ou através de propaganda enganosa.


_*/ Economista e doutor pela universidade de Madrid, Espanha.





quinta-feira, 17 de setembro de 2020

 398. A Ilha do Tesouro


Jober Rocha*



                        A Ilha do Tesouro, obra escrita por Robert Louis Stevenson em 1883, trata-se de um livro sobre piratas e tesouros enterrados.

                                  Resumidamente, no século XVIII, o jovem inglês Jim Hawkins parte para uma grande aventura: buscar um tesouro, enterrado por piratas em uma ilha distante e perdida, situada no meio do oceano.  Mas a viagem não seria tranquila, pois Hawkins iria se deparar com muitos piratas e outros diversos perigos, que rondam os mares e os oceanos do planeta.

                                    O Brasil embora um país continental, se assemelha muito a uma ilha. Está situado em um continente isolado geograficamente por dois oceanos, possuindo uma costa marítima de 7.367 km, banhada pelo oceano Atlântico, que consiste em seu limite geográfico pelo lado leste.

                                 O contorno da costa brasileira aumenta para 9.200 km se forem consideradas as saliências e reentrâncias do litoral. O litoral brasileiro é extenso e pouco recortado.

                                    O Norte do Brasil, com uma área de 3.870.000 km²     engloba os estados de Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A floresta tropical da Amazônia, célebre pela sua biodiversidade, abrange a maior parte desta região.

                                      Os países com os quais fazemos fronteiras são todos de origem hispânica e de língua espanhola, a exceção das Guianas. Somos o único país no novo continente a falar a língua portuguesa; portanto, podemos dizer que, também, cultural e socialmente estamos bastante isolados, como uma ilha.

                                     A Natureza escondeu em nosso território, desde o surgimento do planeta, recursos naturais, minerais e uma biodiversidade tal, que este nosso país é, ainda hoje, cobiçado por inúmeros piratas em todo o mundo, como uma verdadeira ilha onde estão enterrados tesouros incalculáveis.

                                         O povo brasileiro, da mesma forma como era costume ocorrer com muitos dos ilhéus, inocentes e crédulos, existentes em inúmeras ilhas situadas em mares e oceanos ao redor da Terra, sempre acreditou que aqueles estrangeiros que aqui aportavam, distribuindo miçangas, espelhos e aguardente, estavam bem intencionados e procuravam nos ajudar, de forma desinteressada, a fazer parte do rol dos países desenvolvidos.

                                      Em primeiro lugar somos cobiçados pelo sistema financeiro internacional, cujos bancos aqui instalados arrecadam os maiores lucros de todas as suas agências nos demais países onde operam. As taxas de juros aqui cobradas dos clientes são as mais elevadas do mundo.

                                  Em segundo lugar somos cobiçados pelas mineradoras internacionais, que levam embora nossas riquezas minerais, armazenadas desde a criação do planeta, a preços vis; considerando os preços que pagamos pelos produtos processados importados, que contém os minerais que daqui levaram. 

                                          Dentre os muitos tipos de minérios aqui encontrados, o nosso país se destaca na produção, sobretudo, de ferro (hematita), estanho (cassiterita), alumínio (bauxita), manganês (pirolusita), ouro, nióbio, titânio, urânio, sal, calcário, barita, areia, caulim, níquel, chumbo, cobre e zinco.

                                        Você dirá: - mas, e a tecnologia embutida nos produtos que importamos? Vale muito isto!

                                              Sem os nossos minerais, vendidos a preços vis, alguns deles somente aqui existentes, como o nióbio, do qual detemos 98% das jazidas mundiais, a tecnologia deles não teria o destaque que têm no mundo todo.

                                             O fato é que os donos do mundo importam do nosso país produtos primários a preços vis, usam tais produtos para criar novos produtos de base tecnológica e os vendem a nós mesmos a preços caríssimos. Isto não é nenhuma novidade, pois já ocorria nos tempos em que éramos uma colônia de Portugal e ainda continua a ocorrer nos dias atuais.

                                           A China, que não possui em seu território as riquezas que temos no nosso, tornou-se a segunda maior potência mundial, abaixo apenas dos USA, sediando empresas do mundo todo, atraídas por sua mão de obra barata, pela reduzida burocracia para implantação de empresas e para regras trabalhistas e pelas facilidades proporcionadas por abundância de mão de obra especializada. Obviamente os chineses, depois da revolução cultural que durou dez anos, de 1968 a 1978, passaram a possuir planos de longo prazo e projetos nacionais objetivando tornar seu país uma potência mundial.

                                            Nós, com todo o nosso potencial de riquezas naturais, não tivemos elites a altura das nossas necessidades a partir do final dos governos militares, que duraram de 1964 à 1985; conforme os dados, a seguir, tornarão bem evidentes.

                                          Embora entre 1948 e 1981 o Brasil tenha sido um dos países que mais cresceu no mundo, a uma média superior a 7% a.a. (o que significava que o tamanho da economia brasileira dobrava a cada 10 anos), alguma coisa faltou às nossas autoridades a partir do final da década de 1980. Sem sofrer nenhum cataclismo ou passar por alguma condição climática adversa, o nosso país, após o término dos governos militares, acabou por perder o bonde da história, em razão da falta de um projeto de longo prazo, por parte de nossas elites, para nos transformar em uma potência mundial pertencente ao Primeiro Mundo. Podemos creditar isto a alguns fatores: governos de tendência esquerdista e falta de visão de nossas elites; corrupção de nossos políticos; influência de ideologias internacionalistas, corruptoras de nossos valores e costumes tradicionais; inocência, servilismo, despolitização e credulidade de nossa população.

                                            O Brasil, em 1978, possuía um Produto Interno Bruto de US$ 200,8 bilhões e uma população de 115 milhões de habitantes.

                                            A China, por sua vez, no mesmo ano de 1978, era um país relativamente pobre, quando comparado ao Brasil, com um Produto Interno Bruto de US$ 150 bilhões e uma população de 800 milhões de pessoas; ou seja, com uma população quase oito vezes maior do que a nossa e com um PIB 50 bilhões de dólares menor do que o nosso. A China estava, portanto, em pior situação que o Brasil, naquela ocasião.

                                        Hoje o Brasil possui uma população de 209 milhões de habitantes e um PIB de 2,35 trilhões de dólares. A China conta com 1,40 bilhão de habitantes e um PIB de US$ 16 trilhões, segundo dados do FMI; ou seja, um PIB quase sete vezes maior do que o do Brasil e uma população também quase sete vezes maior. Hoje o Brasil está em uma situação muito pior do que a da China, que, inclusive, está na atualidade comprando setores, industriais e de serviços, inteiros em nosso país,

                                              A China é a segunda economia mundial e o Brasil a sétima, em termos de Produto Interno Bruto. Em termos de infraestrutura de transportes, de forças armadas, de parque industrial, de educação, de saúde, de segurança, creio que a distância que nos separa é muitas vezes maior.

                                                  O Brasil, em que pese tudo isto, continua sendo uma ilha do tesouro, aonde os demais países do mundo vêm buscar os alimentos e os minérios de que necessitam e os seus empresários vêm enriquecer, adquirindo empresas mineradoras, agroindustriais, de transportes aéreos, de geração e de distribuição de energia, de telecomunicações, do setor financeiro, de montagem de veículos e aeronaves, de eletro eletrônicos, de alimentos industrializados, etc.

                                              Grande parte destes setores mencionados já pertence a empresários e a governos estrangeiros, criando um problema para as gerações futuras resolverem, que é o da desnacionalização de nossas riquezas e de nossa indústria de bens e serviços.

                                      Políticos e autoridades venais permitiram a desnacionalização de diversos setores estratégicos; bem como, a criação de nações indígenas autônomas dentro do território nacional, mediante verdadeiros crimes de lesa pátria. Algumas dessas nações indígenas, situadas em extensas áreas na Região Norte, já negociaram parte de suas terras, bem como a exploração de minérios e de madeira, com grupos estrangeiros, mediante contratos firmados em cartórios da região, segundo noticias veiculadas na mídia. Tais contratos, possuem valor jurídico mundialmente, notadamente em uma economia globalizada.

                                            A maior parte das terras indígenas concentra-se na Amazônia Legal: são 424 áreas, totalizando 115.344.445 hectares, representando 23% do território amazônico e 98.25% da extensão de todas as terras indígenas do país. São áreas riquíssimas em minerais e em biodiversidade. Muitos inocentes úteis argumentam que os índios são os verdadeiros donos do país. Foram, mas, infelizmente para eles, em uma época em que o direito da força era o único que valia e era respeitado, perderam para os portugueses o seu território, que ocuparam anteriormente, talvez expulsando outras tribos que aqui já estavam antes deles. A História não pode ser mudada e querer rediscuti-la, ou os vencidos quererem questionar os vencedores, é “chover no molhado”.

                                        Mas, voltando  ao assunto anterior, com a globalização da economia e a nossa participação em tratados e acordos internacionais, ficara, cada vez mais, difícil anular estas vendas, revertendo situações criadas no passado pelo descaso e/ou conivência de autoridades.

                                            O fato é que, como já dito anteriormente, somos uma verdadeira ilha do tesouro, cobiçada por todos os piratas do mundo. Só que esses piratas possuem dinheiro e poder fora da ilha e autoridades cúmplices na ilha, cujo trabalho é o de levantar a localização dos tesouros, maquinar a forma de assegurar aos piratas as suas propriedades e os ajudar a extraí-los, ficando, evidentemente, com parcela substancial destes tesouros descobertos e subtraídos dos brasileiros.

                                             A ilha é tão rica que os piratas não hesitam em fomentar protestos internacionais contra as nossas Políticas Ambiental, de Saúde e de Educação; de criticar, através da mídia venal, a presença de militares em cargos do Poder Executivo; de tentar processar autoridades do atual governo, inimigas mortais de piratas, em fóruns e organismos internacionais, etc. Tudo fazem para destruir aqueles que procuram cercear suas atividades lesivas e atuações criminosas, impedir seus golpes nefastos contra a soberania brasileira e a propagação da ideologia marxista que esposam, visando contaminar os ilhéus e cooptá-los e anestesia-los para não oferecerem resistência a pilhagem que fazer e desejam continuar fazendo.

                                            Para evitar esta dilapidação que poderá, futuramente, conduzir a uma convulsão interna e fazer com que percamos parte da ilha, já tomada, de fato, pelos insaciáveis piratas, necessitaríamos de forças armadas fortes, patriotas e bem equipadas. 

                                               Precisaríamos, urgentemente, de uma marinha bem equipada que impedisse o desembarque de bucaneiros em nosso vasto litoral.  Necessitaríamos da construção de fortes e fortalezas em locais sensíveis a invasões. Carecemos da reestruturação e do reequipamento do nosso exército, da nossa marinha e da nossa força aérea. 

                              Falta-nos a realização de eleições verdadeiramente livres de fraudes. Necessitamos de punições exemplares, inclusive com penas de prisão perpétua para os crimes de traição e de lesa pátria; bem como, para os crimes de corrupção passiva e ativa (crimes estes que contribuem para o genocídio de populações inteiras). 

                                     Torna-se urgente o fim do foro privilegiado para autoridades criminosas. Precisamos combater sem tréguas o crime organizado e o narcotráfico. É imprescindível a proibição de registro no Tribunal Regional Eleitoral dos partidos políticos cujos programas de governo sejam de tendência comunista, fascista e nazista.

                                               Enfim, é preciso que nós, os brasileiros, verdadeiros donos desta grande ilha, passemos à ação e tomemos a iniciativa, para que possamos usufruir de seus imensos tesouros e riquezas e que não nos acovardemos e vivamos, eternamente, em uma servidão consentida, programada para ser proporcionada por um Estado autoritário socialista bolivariano, sendo espoliados constantemente por países estrangeiros, aliados a autoridades nacionais venais e antipatrióticas, que não hesitam vender ou em se apropriar daquilo que pertence historicamente ao povo brasileiro, descendentes daqueles pioneiros que conquistaram este território e o conservaram unido, ao longo dos anos, para as gerações futuras.

                                             Esta ilha, segundo costumava dizer um comentarista da TV muito conhecido, “precisa ser passada a limpo” e ver-se livre de piratas e aventureiros.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.




terça-feira, 15 de setembro de 2020

 397. Onde estarão os nossos Policarpos Quaresma?


Jober Rocha*



                              Policarpo Quaresma foi um personagem do escritor Lima Barreto (1881-1922), cuja literatura sempre esteve a serviço da indignação, seja contra o preconceito aos pobres e mestiços ou contra a insensibilidade dos mais ricos, a superficialidade dos burocratas, a corrupção dos políticos e a esterilidade criativa dos falsos artistas. Para ele a função mais importante da Literatura era desmascarar os falsos valores e as instituições que exploram a inconsciência popular.
                                 O seu personagem Policarpo Quaresma pode ser identificado com muitos de nós, brasileiros patriotas, que ainda acreditam no futuro do país como potência; em que pese uma parcela importante da nossa sociedade, notadamente ocupando altos postos nos três poderes da república pensar de modo diferente e contrário, preferindo ver nossas riquezas drenadas para potências estrangeiras em troca de dinheiro e de apoio político para seus sonhos megalomaníacos de poder.
                                     Policarpo era um modesto funcionário público que tinha um projeto de desenvolver o país, na época do governo de Floriano Peixoto, através, inicialmente, de uma revolução cultural (que se mostrou impraticável), depois de uma revolução na agricultura (que também se mostrou impraticável) e, finalmente, de uma revolução política, como voluntário na revolta da Armada em 1893, onde encontrou seu fim.
                                     Policarpo, puro de coração e patriota convicto, via o país como um celeiro de farturas, de possibilidades, de amor, de entendimento, de experiências novas.
                                  Infelizmente, tudo aquilo que tentou mostrou-se infrutífero, demonstrando o abismo existente, já naquela época, entre o sonho dos homens bons e do bem e a dura realidade praticada pelos homens maus e do mal.
                                       A obra de Lima Barreto, cujo título é “Triste Fim de Policarpo Quaresma” consistiu, segundo os críticos da época, em uma sátira contra o Brasil oficial, onde dominavam generais sem batalhas e almirantes sem navios. O livro corresponde ao período da história do Brasil, em que o Marechal Floriano Vieira Peixoto governou o país como o segundo presidente do Brasil, desde 23 de Novembro de 1891, com a renúncia de Deodoro da Fonseca, até 15 de Novembro de 1894, com a entrega do cargo para o presidente Prudente de Morais, após as primeiras eleições diretas do Brasil republicano.
                                    A obra, segundo os críticos, consiste em uma alegoria contra a burocracia, formada por pessoas sem consistência moral ou profissional, contra uma política em que predominavam os corruptos e entreguistas, contra a passividade e tolerância do povo (que se deixava conduzir como rebanho ao matadouro), contra a falta generalizada de objetivos de longo prazo. Vivia-se o dia de hoje.
                                        Cerca de cento e vinte anos depois (pois o livro foi publicado em folhetim em 1911) nós podemos afiançar que quase nada mudou, embora a população tenha evoluído de 24 milhões de habitantes para 209 milhões e o Produto Interno Bruto - PIB de 18.481 milhões de reais, de 2008, para 3.338.702. 
                                             O país continua enormemente burocratizado, os corruptos predominam na política nacional e o povo do bem continua tolerante e passivo, as forças armadas sucateadas, as polícias e o Ministério Público impedidos de combater os crimes das elites, embora o povo do mal se mantenha, cada vez mais, violento e ativo.
                                           Um fator novo, todavia, foi introduzido no país neste intervalo de tempo: a ideologia autoritária marxista, que, de forma sub-reptícia e a sorrelfa, dominou corações e mentes de inocentes brasileiros com propostas mentirosas e mirabolantes do alcance de um paraíso terrestre pelas mãos dos ativistas e militantes dos partidos de esquerda, inicialmente clandestinos e depois legalizados. O paraíso ocorreu, sim, mas para os dirigentes, ideólogos e ativistas destes partidos de esquerda, a maioria deles hoje sem problemas financeiros, muitos aposentados com vultosos salários, outros com polpudas contas correntes em paraísos fiscais espalhados pelo mundo. O povo? Continua como sempre, passando necessidades, desempregado ou com baixos salários, sem assistência médica, sem transportes, sem saneamento, sem educação e sem segurança.
                                           A partir dos primeiros governos de esquerda no país, em 1995, até o último, em 2018, a administração pública, nos três poderes, foi inflada com militantes e simpatizantes dos partidos de esquerda, em um verdadeiro aparelhamento visando à implantação de um regime comunista no país, eufemisticamente chamado de socialismo bolivariano nos demais países do continente.
                                                Em que pese tudo isto ocorrido nas últimas três décadas, acrescido do roubo, puro e simples, do dinheiro público, através de concorrências fraudadas; dos crimes de lesa pátria e de traição cometidos por muitas autoridades, da sonegação fiscal, do contrabando de divisas; da formação de quadrilhas exclusivamente destinadas à pilhagem da coisa pública; da formação de uma cleptocracia que governa o país, extraoficialmente, tolhendo as ações do presidente eleito que começou a governar em 2019; ainda existem,, no mínimo, cinquenta e sete milhões de Policarpos Quaresma em nosso país e que, com seus votos, elegeram Jair Bolsonaro presidente. 
                                       Estes são aquelas pessoas do bem que acreditam na possibilidade de nos desenvolvermos e chegarmos a fazer parte do Primeiro Mundo, tanto econômica quanto socialmente. São aqueles que trabalham e se esforçam para que progridamos econômica, política, militar e psicossocialmente. Fazem parte de uma multidão silenciosa que necessita de um líder tão patriota quanto eles, disposto a enfrentar todo um exército do mal infiltrado e treinado, durante décadas, nas táticas subversivas dos costumes e dos valores da nacionalidade.
                                          Este exército do mal que terão de enfrentar está acostumado ao desvio de recursos públicos; às sinecuras; ao nepotismo; ao apadrinhamento político; às mentiras; as sabotagens; a venda de terras, empresas e consciências a países estrangeiros; bem como, a traições e crimes de lesa pátria. Algum dia, que espero não demore muito, todos eles serão levados aos bancos dos réus e pagarão por seus crimes perpetrados contra o povo brasileiro.
                                             Como disse Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos, por algum tempo; se pode enganar alguns, por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos, durante todo o tempo”.
                                                  Em breve o povo brasileiro se dará conta de que tem sido enganado, ao longo de décadas, por gente má, traiçoeira e vil cujo único objetivo na vida é enriquecer de modo fácil através da política, desviando dinheiro público em benefício próprio. Esta é a verdadeira causa da miséria e da pobreza existentes em nosso Brasil, “país rico por natureza” como costumava dizer Policarpo Quaresma, que imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, que removesse todos esses óbices e entraves ao nosso desenvolvimento econômico e social.
                                          As eleições se aproximam. Este ano teremos que escolher os novos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.
                                        Que saibamos selecionar os nossos novos representantes, não reelegendo ninguém. Política não é profissão. Um mandato é mais do que suficiente, principalmente, por que os políticos, votando em causa própria, estabeleceram suas aposentarias após dois mandatos. Aposentam-se com elevados salários e diversas 'mordomias' em apenas oito anos, muitos deles sem jamais terem apresentado nenhum projeto de lei ao parlamento e diversos tendo apoiado projetos contrários aos interesses do povo e do Estado brasileiros. 
                                           Que não votemos em candidatos que sempre tomaram partido contra os interesses de seus eleitores e do povo, em geral. Que não votemos em candidatos de partidos que, historicamente, em vários países do mundo, se aproveitam da democracia neles existente para instaurar regimes ditatoriais que, logo após eleitos, extinguem os demais partidos e instauram o partido único, comunista.
                                           Que sejamos todos nós, cidadãos de bem, espalhados por todo o território nacional, novos Policarpos Quaresma em defesa do nosso país, das nossas instituições republicanas, de nossos tradicionais costumes e da nossa tradicional moral, fazendo com que, desta vez, proporcionemos, com os nossos votos em urnas livres de fraudes, um final diferente daquele da obra de Lima Duarte.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.