quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

 409. Estaria o Criador tentando se vingar de suas criaturas?


Jober Rocha*


Recentemente tive a oportunidade de ouvir uma palestra de um renomado mestre espírita que revelava quem são aqueles seres humanos que a pandemia veio buscar.

Dizia ele que a pandemia veio de Deus e que veio buscar aqueles que estavam inscritos no livro onde se contabilizavam os débitos de mortalidade. A própria pandemia daria maior liberdade aos que ficariam vivos neste mundo ainda em ebulição. 

Toda grande transformação, segundo ele, produzia o caos, momento de transição, de provas e de calamidades. Este seria o caos de uma nova ordem que viria para melhorar a Terra, para mudar as nossas vidas, a nossa existência terrestre e reduzir o mundo de suas mazelas.

Em que pese toda a admiração que este famoso mestre espírita sempre me despertou, creio que ele disse diversas impropriedades em sua palestra, não sei se inspirado por algum espírito, pouco esclarecido sobre as coisas mundanas, com o qual consegue dialogar quando inspirado de forma mediúnica. 

Como tenho lido muito sobre a Nova Ordem Mundial, ordem esta que está, aos poucos, sendo imposta aos habitantes do planeta por diversas personalidades do mundo financeiro (todas vivendo nas sombras e comandando o mundo através de seus prepostos) que desejam implantar o caos neste planeta por razões que nada têm a ver com o Criador de todas as coisas, conforme afirmou o mestre espírita, resolvi enviar uma carta aberta ao Criador, solicitando explicações para este e diversos outros acontecimentos supostamente produzidos por Ele, mas cujas explicações mundanas ou religiosas até hoje não me convenceram. Afinal, estaria o Criador tentando se vingar de suas criaturas? Segue, pois, o teor da minha carta: 


  Prezado Criador do Universo, Inicialmente - na hipótese de que você realmente exista e que, também, seja o responsável pela criação da vida humana - serei eternamente agradecido por me haver dado o sopro da vida e por permitir que, através de inúmeras encarnações – se é que estas também ocorram -, meu espírito possa evoluir em busca da luz do conhecimento e da perfeição espiritual. 

Entretanto, por mais que as religiões e as correntes filosóficas tentem explicar aos seres humanos, quem na realidade somos nós, de onde viemos e para onde vamos; além das razões por que a civilização humana se apresenta da forma como a conhecemos nesta passagem pelo planeta Terra, algumas dúvidas ainda insistem em permanecer na minha mente e em meu coração de filho grato; porém, de espírito muito curioso, amante da Sabedoria e um pouco rebelde.

Minha primeira dúvida diz respeito à razão pela qual você, pai justo e imparcial que é, consentiu em privilegiar um determinado povo e uma determinada religião com o seu amor e as suas benesses, em detrimento de outros povos e de outras religiões (Genesis 9 – Deus disse a Noé e seus filhos: “De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência...”); bem como, qual o motivo que o levou a privilegiar o homem em relação à mulher (Genesis 3 – “Teus desejos te arrastarão para o teu marido e ele te dominará...”). Digo isto porque em um livro considerado sagrado, a Bíblia, determinado povo sempre afirmou que fez um pacto com você e que, portando, era o povo por você escolhido. Por sua vez, uma determinada religião, aqui mesmo neste planeta, afirma que os seres humanos só chegarão a você através dela. Esta religião possui até um representante Seu que, da mesma forma que você sempre o foi, também é infalível em suas decisões. Além disto, a maioria das religiões por aqui existentes possui templos luxuosos que necessitam, cada vez mais, de recursos financeiros para se expandirem e, algumas religiões, falando em seu nome através de livros que consideram sagrados, apresentam a mulher como um ser inferior ao homem e a discriminam desde tempos imemoriais, conforme já mencionado. 

Dizem até que o homem foi criado primeiro, evidenciando uma inegável descrença em sua onipotência; posto que, com o seu incomensurável poder, certamente deverá ter criado ambos no mesmo momento. Serão verdades estas afirmações daqueles que se apresentam como seus representantes aqui na Terra? Você, realmente, além de ter representantes, possui preferências por povos, religiões, raças e sexos? Porque você só permite que haja santos e só realiza milagres no seio de uma determinada religião? Você necessita mesmo de templos luxuosos para se hospedar em suas passagens pela Terra, ou você se contentaria em habitar lugares mais modestos, como os mares, os rios, as montanhas e os corações dos seres humanos?

Por outro lado, qualquer religião que não objetivasse o domínio de corações e mentes - pelo poder que tal fato representa - deveria ver nas demais religiões grandes parceiras de um mesmo fim, qual seja, o de agradecer nossas existências ao Criador do Universo e da vida e não a de considerar as demais religiões e crenças como inimigas, em um combate sem tréguas, como ocorre desde tempos imemoriais com as principais religiões aqui deste planeta.

Perdoe-me por apresentar estes questionamentos, mas acredito que aqui na Terra estejam propagando boatos inverídicos acerca de Suas ações com respeito a nós, seres humanos, para que venhamos a nos indispor uns contra os outros e contra o nosso criador, criando, assim, uma monumental cizânia.

Minha segunda dúvida, caso não sejam verdadeiras estas preferências anteriormente mencionadas, se refere, ainda, a razão pela qual Você tem permitido, desde o início dos tempos, até o tempo presente, a existência de seres dominadores e de seres dominados? Neste caso, não estaria realmente evidenciada a Sua preferência por alguns de Seus filhos, em detrimento dos outros? Os dominadores (reis, caciques, imperadores, califas, presidentes, elites, etc.), a quem todos estamos subordinados, sempre afirmaram que chegaram até onde chegaram e que dominavam os povos e as populações a eles submetidos, pela graça de Deus; isto é, pelo Seu consentimento e aprovação, afirmando, ainda, que Você os autorizou a continuar eternamente dominando os seres humanos, quer por hereditariedade, quer por alternância no poder entre eles mesmos (grupos, famílias, elites, etc.). Caso não sejam verdadeiras estas afirmações, sugiro que, de alguma forma, dê ciência às Suas criaturas da falsidade de tais assertivas e promova uma total reviravolta nas crenças e crendices que por aqui vicejam.

A terceira dúvida me ocorre quando vislumbro a desigualdade reinante no planeta como um todo: alguns países são mais desenvolvidos que outros culturalmente, economicamente, socialmente, etc. Algumas pessoas são mais bem aquinhoadas do que outras seja em termos de beleza física, de saúde, de riqueza, de inteligência, etc. Creio que se isto ocorre é porque Você assim o quis ou permitiu e, neste caso, não estaria também privilegiando alguns filhos em detrimento de outros?

Reconheço da minha parte que a evolução espiritual, assim como todo tipo de evolução, ocorre através de um processo dialético, no qual a tese e a antítese resultam na síntese, síntese esta que não é mais nem a tese nem a antítese; porém, alguma outra coisa que representa uma simbiose entre as duas. Assim, para que haja evolução espiritual, o ser humano deve conviver com as virtudes e com os vícios em seu caráter e, para a necessária evolução material dos povos e dos indivíduos, há necessidade da existência do contraditório e das diferenças, tanto entre os indivíduos quanto nas relações sociais. Entretanto, o primeiro pensamento que ocorre aos menos aquinhoados é o de que foram alvos de uma grande injustiça; pois, já iniciaram com uma largada mal feita na corrida pela existência. 

Tal pensamento não deixa de ser pertinente, principalmente, ao considerarmos que vivemos em um meio inóspito em que competimos entre nós mesmos e com as demais espécies existentes no planeta. A competição atual pelos alimentos, pelo espaço, pelos recursos naturais, pelos empregos e pela posse de bens, a que fomos levados ao longo dos tempos, independe daqueles novos seres humanos, cuja matéria e espírito estão chegando a este planeta neste momento através do nascimento; pois, é fruto de decisões tomadas, tanto anteriormente quanto na atualidade, por elites econômicas, políticas, religiosas e militares, que dominam os países e o planeta desde primitivas eras. Suponho que Você esteja a par disto tudo e que tenha permitido que assim seja; embora eu considere que um pai não deva privilegiar desigualmente seus filhos, dando mais para uns e menos para outros.

Com a hipótese de múltiplas encarnações, adotada pelos espíritas, pelos budistas, hinduístas, etc., posso imaginar que aquilo que hoje me afigura como uma tremenda injustiça, amanhã, poderá se revelar como fruto da maior sabedoria. Explico-me melhor: se nesta encarnação pertenci à plebe rude e ignara e fui pobre, feio, sem saúde e desprovido de inteligência, em uma próxima encarnação poderei ser totalmente o oposto, além de renascer em uma família pertencente à nobreza das classes dominantes. 

Todavia, vejo nesta hipótese, ainda, a manutenção da injustiça; pois, a plebe humilde, que preza as virtudes e combate os vícios, é, quase sempre, mais virtuosa que a elite que a domina e explora viciosamente. Assim, não creio que tendo feito parte da plebe em uma encarnação, na próxima poderei fazer parte da elite dominante; pois isto seria uma involução espiritual e, como a doutrina espírita bem deixa explicito, tal involução não ocorre com os espíritos. A existência, pura e simples, de uma única vida (uma única encarnação), como propalado por algumas religiões, salientaria ainda mais esta injustiça, pois não haveria a possibilidade do rodízio, tal como ocorre em uma dança das cadeiras; isto é, quem esteve em pé nesta existência, continuará eternamente em pé, não tendo a possibilidade de vir a sentar-se em uma próxima existência. Creio que me fiz entender...

A quarta dúvida que tenho se relaciona com aquilo que os filósofos chamam de Teodicéia; isto é, com a razão pela qual Você, todo poderoso e de bondade infinita, permite o sofrimento de Seus filhos. Reconheço que o ser humano sempre aprende pelo caminho mais difícil e que não viemos a este mundo para desfrutar de uma existência de total felicidade (como já diziam os filósofos Estóicos, Céticos e Cínicos, ao contrário dos filósofos Epicuristas que assim pensavam); pois, segundo minha convicção, está só seria destinada aos espíritos superiores e, assim mesmo, quando desencarnados. Reconheço também que o sofrimento humano é devido, conforme sabiamente afirmou Sidarta Gautama muito antes do nascimento de Jesus Cristo, aos anseios, aos desejos e aos apegos para a satisfação dos sentidos; ou seja, à realização das vontades do Ego, que prende o indivíduo ao ciclo das existências. Ao se eliminar o Ego, o sofrimento desapareceria. Todavia, segundo a concepção de vida que ora prevalece na sociedade terrena, o Ego é necessário para a evolução social do planeta e para que os Sistemas Políticos e Econômicos existentes sobrevivam e se expandam; isto é, os seres humanos precisam consumir cada vez mais, satisfazendo seus Egos, para que as indústrias e as empresas produzam, gerem empregos, paguem os impostos que custeiam as obras públicas, etc., etc., etc.

Vejo nisto uma contradição, que, certamente, Você já terá percebido muito antes do que eu. Como, todavia, permite que as coisas assim continuem a se desenrolar, não consigo atinar como deseja que todos nós venhamos a evoluir espiritualmente nesta existência se:

1. Para a evolução espiritual é necessário que as virtudes prevaleçam sobre os vícios e que os seres humanos se desapeguem dos desejos materiais, que os mantêm presos às existências encarnadas;

2. Para que os seres humanos possam sobreviver e se reproduzir, nos moldes em que a sociedade atual está estabelecida, certamente com o seu consentimento, é necessário que tenham um forte apelo consumista: isto é, que os indivíduos desejem cada vez mais bens materiais, para que as rodas da engrenagem política, econômica, psicossocial e militar continuem se movimentando, gerando empregos, pagando impostos, fazendo guerras, matando pessoas, construindo e destruindo; em suma, que através da prevalência dos vícios o Sistema continue a se expandir, permitindo que os espíritos continuem a ir e a vir, desta existência para outras e de outras para esta;

3. Como qualquer ser humano pode constatar as duas hipóteses anteriores são totalmente conflitantes; mas, estou certo de que existe uma razão para que assim seja e que eu é que não tenha conseguido percebê-la. Existindo esta razão, rogo para que, com respeito a ela, cientifique todos aqueles que pensam como eu, pois é muito ruim saber que devemos seguir pelo caminho indicado por Você e constatar que as autoridades que nos comandam exigem que sigamos pelo caminho por elas escolhido, totalmente diferente do Seu. O conflito gerado internamente, motivado por esta contradição, tem influído enormemente no aumento do stress, da depressão e dos distúrbios mentais das Suas criaturas, fazendo aumentar o consumo de bebidas alcoólicas e de substâncias químicas estupefacientes.

A quinta dúvida se refere aos cataclismos e aos grandes desastres, naturais ou não, que, periodicamente, afligem as populações do planeta, como as pandemias, e que alguns costumes antigos e algumas religiões afirmam haverem sido provocados por Você, pelo fato de nós, seres humanos, nos termos distanciado de Seus desejos e ensinamentos (parece que, na antiguidade, este foi o caso das cidades de Sodoma e Gomorra e do continente da Atlântida). 

Creio que em qualquer população, de qualquer parte do mundo, existam sempre indivíduos cujos espíritos se encontram em diferentes graus de evolução (uns muito elevados, outros medianamente e outros, ainda, em estágios atrasados de evolução). Um cataclismo (terremoto, tsunami, erupção vulcânica, pandemia, etc.), por vezes, mata milhares de pobres indivíduos de uma só vez, destruindo, quase sempre, suas moradias, cidades e vilas. Uma queda de avião ou o naufrágio de um navio, por vezes, ceifa centenas de vidas em um único momento. Evidentemente que, nestes casos, muitos espíritos evoluídos, que já poderiam deixar esta existência, desencarnarão junto com espíritos ainda não evoluídos, que, talvez, ainda necessitassem aqui permanecer um pouco mais. 

Embora saiba que tudo tem um propósito e que Você é fonte de amor e de infinita bondade, não consigo atinar sobre a necessidade de um efeito pirotécnico de tamanha magnitude trágica, para recolher, de volta à dimensão espiritual, aquelas almas cujo prazo de validade já vencera.  Poderiam todos aqueles infelizes desencarnar no aconchego do lar, vítimas de um simples infarto, de uma súbita queda de escada ou de alguma moléstia grave; a não ser que Você busque na tragédia destes eventos, impor o medo sobre as pobres almas sobreviventes, alertando para a necessidade de respeitarem e temerem as coisas do além. Se, realmente, Você é o verdadeiro idealizador dos cataclismos e dos grandes desastres, procure selecionar melhor a ocasião, o local e os participantes. Como sugestão, poderia ser incluído um maior número de dominadores, como vítimas destes eventos, de modo a buscar suavizar um pouco mais a existência dos dominados.

A sexta dúvida está relacionada com a morte de crianças e bebês. A explicação religiosa e espiritualista para tal fato me afigura como tristemente pobre. Dizer que faltava muito pouco para que aqueles espíritos atingissem a necessária evolução e que eles retornaram a este planeta para completar o breve tempo que lhes faltava, é uma explicação que tenta desmerecer Sua onisciência e Sua onipotência. 

É evidente que um pouco mais de vida em alguma das existências anteriores poderia proporcionar a evolução que faltava àqueles espíritos e evitar toda a dor dos pais e familiares enlutados destas crianças e bebês. Dizer que a morte prematura deles tinha por objetivo a evolução espiritual dos pais, me afigura como uma tortura psicológica, não condizente com a Sua tradição de amor incondicional. Creio, mesmo, que todos os seres humanos deveriam ter o direito de viver um determinado número de anos, igual para todos, de maneira a que os seus espíritos tivessem a mesma oportunidade de evoluir nesta existência. Em não sendo assim, muitos espíritos poderão questionar: - “Puxa vida, logo agora, quando eu estava evoluindo rapidamente, foram me chamar de volta”.

Creio que esta sugestão poderia ser levada em consideração e o assunto repensado com mais calma, já que decisões tomadas em sete dias (conforme rezam as escrituras) me afiguram como tempestivas para tão importantes temas, como estes aqui expostos.

Minha sétima dúvida diz respeito ao fato de, segundo algumas teorias religiosas, ao encarnar perdermos toda a consciência de nossas vidas anteriores. Como Você nunca se pronunciou sobre este assunto, de maneira categórica, diretamente para as suas criaturas, mas apenas mandou recados através de supostos representantes Seus, fica difícil para muitos de seus filhos entenderem quais os reais objetivos da Criação. É como receber um frasco de medicamento sem bula, quando não somos médicos: não saberíamos quando e como usar aquele remédio e para qual enfermidade serviria. Como sei que os remédios devem ser tomados com receita médica e que devo evitar a automedicação, acredito que o mesmo deveria se passar com relação à evolução espiritual. Os seres humanos deveriam ser informados, diretamente por Você, sobre quem haviam sido em outras vidas, o que Você espera deles nesta existência e como deveriam proceder para atender aos Seus desígnios para a vida deles. Caso contrário, ouvindo Seus desejos por intermédio de outras vozes, pode se dar que sigam por um caminho totalmente oposto àquele por Você desejado, por haverem entendido mal a orientação de seus mestres ou por seus mestres haverem entendido mal a Sua orientação. 

Por outro lado, se alguns resolverem seguir as próprias intuições e estas os levarem, também, para caminhos diferentes daqueles por Você planejados, não poderá jamais lhes imputar nenhuma culpa, pois, afinal, Você jamais lhes disse pessoalmente qual era o caminho que desejava que seguissem.

Minha oitava dúvida está relacionada ao fato de, segundo dizem e acreditam muitos, Você haver beneficiado com sua atenção e favores especiais alguns seres, em detrimento de outros. Novamente, me explico melhor: trata-se daquilo que diz respeito aos denominados ‘milagres’.

Inúmeros filósofos, muito mais sábios do que eu, meditaram sobre esta matéria anteriormente, e as conclusões a que alguns deles chegaram, como Você bem sabe, são apresentadas a seguir:

O filósofo e escritor Jean Marie Arouet, conhecido como Voltaire, em seu ‘Dicionário Filosófico’, afirma que: - “Segundo as ideias aceitas, os milagres seriam violações das leis matemáticas, divinas, imutáveis, eternas. Mediante essa exposição, o milagre seria uma contradição; já que uma lei não pode ser violada”. Voltaire afirma, ademais: - “Deus nada pode fazer sem razão, sendo impossível conceber que a natureza divina trabalhasse para algum homem, em particular, em detrimento dos outros; se constituindo a mais absurda das loucuras, imaginarmos que o Ser Infinito invertesse, em favor de alguns, o movimento dessas imensas molas que fazem mover o Universo inteiro. Assim, ousar supor que Deus realiza milagres é realmente insultá-lo (se é que os homens podem insultar a Deus), e desonrar de certo modo a divindade”. Voltaire cita, ainda, que, ao perguntarem a um filósofo o que diria se visse o sol deter sua marcha e os mortos ressuscitarem, o filósofo teria respondido: - “Tornar-me-ia Maniqueísta e diria que existe um principio que desfaz o que o outro fez”.

O filósofo Baruch Spinoza afirmava: - “Contra a natureza, ou acima da natureza, o milagre não passa de absurdo e Deus era mais bem conhecido graças à ordem e à necessidade da natureza do que por pretensos milagres”.

Alguns autores modernos especulam que, na impossibilidade da alteração de leis universais, imutavelmente por Você mesmo criadas, Deus atuaria, apenas, nos eventos probabilísticos. Assim, se um indivíduo tem grande probabilidade de contrair uma doença mortal, ou sofrer algum revés, Você poderia, em razão das súplicas e do merecimento deste, reduzir esta probabilidade, livrando-o completamente do mal.

A questão pelo visto continua e ainda continuará por muito tempo em aberto, na ausência de um pronunciamento oficial Seu, a respeito do assunto. O fato é que muitas religiões usam esta possibilidade para angariar prestigio e fortuna, em Seu nome.

As igrejas e o próprio espiritismo enfatizam para os seus adeptos a ideia do milagre, ou da ‘cura sobrenatural’ ou ‘mediúnica’, como forma de manter seus fiéis ou adeptos sempre vinculados àquelas instituições e aos seus sacerdotes, médiuns ou dirigentes.

A igreja católica chegou a criar centros onde tais milagres, supostamente, aconteceriam com certa frequência, como Lourdes (na França), Fátima (em Portugal) e Aparecida do Norte (no Brasil). As igrejas evangélicas fazem com que os supostos milagres, ocorram dentro dos próprios templos (com pastores fazendo supostas curas milagrosas, nos cultos ao vivo e naqueles transmitidos pela televisão, exorcizando os demônios dos fiéis); da mesma forma, o espiritismo também propicia supostas curas mediúnicas nos próprios centros espíritas. 

Em um destes centros, em meu país, um médium que supostamente receberia o espírito de um médico alemão, está respondendo a dezenas de processos, cíveis e criminais, por lesões corporais graves, ocorridas em cirurgias mediúnicas, por ele realizadas em frequentadores do centro espírita onde atua, com a utilização de facas e tesouras não esterilizadas.

Em minha modesta opinião creio que, com Sua onisciência, saberá das necessidades evolutivas e das aflições e sofrimentos de todas as suas criaturas e estou convencido de que os pedidos que, eventualmente, algumas Lhe dirijam, não deverão ser suficientes para alterar todo o planejamento para elas efetuado, prévio à encarnação e elaborado ainda na dimensão etérea, visando à evolução espiritual daquelas criaturas.

A nona dúvida que tenho refere-se à questão do Livre Arbítrio e do Determinismo. As religiões usualmente adotadas no Ocidente afirmam que todos os seres humanos possuem Livre Arbítrio, enquanto as religiões adotadas no Oriente reafirmam o Determinismo da existência humana. Da mesma forma, as correntes filosóficas e os filósofos não têm uma posição unânime sobre o assunto. 

  Com respeito ao posicionamento dos homens de Ciência terrestres, sobre o tema do Livre Arbítrio versus Determinismo, o pensamento científico, de uma maneira geral, como Você também já sabe, vê o Universo de maneira determinística, e alguns pensadores científicos creem que para predizer o futuro é preciso, simplesmente, dispor de informações sobre o passado e o presente. A crença atual, entretanto, consiste em uma mescla de teorias determinísticas e probabilísticas.   

Como Você pode ver o nosso conhecimento científico, filosófico e religioso ainda é muito precário com relação a este assunto, que é de fundamental importância para a nossa evolução espiritual. As opiniões se dividem e, na ausência de uma manifestação direta Sua, a respeito do tema, os seres humanos ficarão, eternamente, oscilando entre um e outro conceito, sem saber, ao certo, qual deles é o verdadeiro.

Por último, minha décima dúvida, diz respeito à razão pela qual Você tem permitido, ao longo da História, que suas criaturas sejam todas lideradas e comandadas não pelos indivíduos mais virtuosos e bem intencionados, mas, sim, pelos mais espertos e oportunistas. Se Você, pai amoroso, tem como objetivo para as Suas criaturas, nesta existência, a evolução através do sofrimento, compreendo que possa estar absolutamente certo. 

Entretanto, se for outro o objetivo desejado para nós, creio que algumas atividades, de maior relevância perante o Universo, têm ocupado Seu tempo e desviado o foco de Sua onisciência com respeito às Suas criaturas. Longe de mim qualquer crítica ou sentimento de revolta pela forma como nós, Suas criaturas, somos encaminhados do plano etéreo para desfrutarmos uma nova existência neste planeta. Na suposição de que existam novas existências em outros mundos ou em outras dimensões, espero que eventuais erros ou omissões, que porventura tenham escapado a Sua onisciência, e que possam ter ocorrido na vida humana transcorrida neste planeta, tenham sido corrigidos nestes demais mundos e dimensões, existentes pelo vasto Universo por Você criado. 

Enquanto aguardo com tranquilidade o vencimento do meu prazo de validade (ocasião em que será, sem dúvida, providenciada a minha partida para a dimensão etérea), fico no aguardo de alguma orientação Sua sobre como devo proceder, até lá, para a obtenção da máxima evolução espiritual possível nesta minha vida atual.


      Do seu filho e admirador agradecido,



Alguns dias depois de ter escrito esta carta aberta, recebi, em minha caixa de Correio, sem remetente e sem selo, a seguinte mensagem dentro de um envelope comum. Em um bilhete separado, no mesmo envelope, alguém se identificando como médium disse haver psicografado aquela mensagem a mim dirigida, já que o Criador, mais uma vez, não se manifestou pessoal e diretamente sobre a minha missiva:

  

 Meu querido e rebelde filho; recebi sua carta e aproveito um momento de repouso (após uma estafante semana transcorrida a mediar conflitos, de ordem material e espiritual, que ocorrem em todos os momentos, entre aqueles seres frutos da minha criação, neste vasto Universo), para responder as suas dúvidas e indagações.

  Querido filho, de início, lhe informo que nunca tive preferências por nenhuma das minhas criaturas. Deferências para com algumas, sim, pode ser que tenham ocorrido; mas foram devidas apenas àquelas que primeiro criei. Explico-me melhor: quando dei início ao processo de criação, nem eu possuía a experiência necessária de pai, nem as criaturas que criava possuíam a de filhos. Todos nós estávamos começando do zero. Em razão disto, é evidente que eu me apegasse mais àquelas criaturas que criei em primeiro lugar. Isto não significa, entretanto, que eu goste menos daquelas que vieram depois.

  Relativamente a sua primeira dúvida, informo que, realmente, ao longo da história humana, muitos boatos inverídicos e crendices foram e são propalados com o intuito de me incompatibilizar com as minhas criaturas. Uma destas crendices é de que basta me chamar, a qualquer hora do dia ou da noite, para que eu imediatamente venha à presença daquele que me chamou. Ora, todos os filhos possuem os genes dos pais; meus genes estarão sempre com vocês (esta é a verdadeira onipresença que me atribuem), não significando isto que eu necessite estar fisicamente ou mesmo espiritualmente ao lado de minhas criaturas quando invocado, até porque sou também requisitado, ao mesmo tempo, por outras criaturas em outros mundos e em outras dimensões. Não possuo preferências por povos, raças religiões ou sexos, pois não vejo meus filhos sob estas óticas. Tais distinções a exceção daquela referente aos sexos, foram por vocês mesmos estabelecidas. Eu, como você inteligentemente supôs em sua carta, criei todos os seres, inclusive o homem e a mulher, no mesmo instante. Com esta afirmação, espero haver esclarecido, definitivamente, o dilema que tem afligido a todos desde a origem dos tempos e que se resume em: “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”.

  Com relação ao fato de as minhas criaturas serem dominadas ou dominantes, esclareço que esta, também, é uma distinção estabelecida pelas próprias criaturas. As razões pelas quais vocês se estruturaram desta forma, com certeza, foram as mais variadas: aptidão natural e/ou elevado nível intelectual de alguns para mandar, decidir e comandar; vocação natural e/ou reduzido nível intelectual de outros para serem comandados e obedecer; maior esperteza, ganância e orgulho de alguns que, iludindo aos demais, conseguiram obter vantagens sobre estes; necessidade de uma liderança para conduzir a todos os demais em segurança pelos caminhos da sobrevivência em um meio inóspito, etc. O que pretendo deixar bem claro é que eu, embora onisciente e onipotente, também não tenho todas as respostas. Outra vez me explico melhor: minha onisciência me permite saber o que minhas criaturas fizeram, mas não aquilo que ainda irão fazer. Neste particular, vigora o Livre Arbítrio de cada uma. O Determinismo, que também existe, diz respeito às grandes linhas de comportamento, ao planejamento geral evolutivo de cada criatura. Vários são os caminhos que conduzem ao objetivo previamente determinado e o Livre Arbítrio permite à criatura escolher qualquer um deles. Os seres espirituais não têm prazo para evoluir. Alguns caminham mais rapidamente, outros mais devagar; uns necessitarão de muitas encarnações, outros de poucas. Saiba, entretanto, que todos terão as mesmas e infinitas oportunidades, necessárias para concluir a evolução requerida. Para que? Não me pergunte isso agora, pois, com certeza não entenderia a minha resposta.

  Com respeito ao esquecimento sobre as vidas passadas, o que tenho a dizer é que cada existência é única; isto é, embora a evolução espiritual seja acumulativa, a evolução física jamais poderia ser, pois o espírito em busca da evolução deve, infinitamente, habitar em vários corpos e viver em vários mundos e dimensões diferentes. Após inúmeras encarnações em vários corpos e em locais diferentes, a lembrança destas vidas causaria enorme confusão na mente do ocasional corpo hospedeiro do espírito. Imagine quem já foi belo vivendo com uma nova aparência feia, quem já foi rico e poderoso vivendo como pobre e humilde e quem foi saudável vivendo doente. O sentimento que teriam seria de revolta e de inconformismo com a nova situação. Para que uma existência anterior não venha a prejudicar a seguinte, o véu do esquecimento é colocado sobre todas as criaturas, tão logo encarnam. Por outro lado, o conhecimento da realidade das múltiplas existências poderia ter um efeito perverso em algumas criaturas, qual seja o de abandonarem por iniciativa própria aquela atual vida, na qual não se julgavam satisfeitos, esperando voltar futuramente em uma melhor situação. Existem aspectos do fenômeno vida e morte que não podem ter sua realidade conhecida pelas criaturas, sob a pena de influenciar, para o bem ou para o mal, seus desempenhos quando encarnados.

Pense na coisa como se fosse um jogo de adivinhação no qual você, antecipadamente, conhecesse a resposta. Qual a graça em jogar tal jogo?

  Quanto aos cataclismos, às pandemias e aos grandes acidentes, informo que nada tenho a ver com eles. São eventos que ocorrem ou espontaneamente, em razão de acomodações geológicas, ou são provocados por falhas humanas, materiais ou até mesmo propositadamente, como parece ter sido está atual pandemia que assola o planeta. Acusar-me de estar por detrás destes episódios é má fé ou o desejo de esconder responsabilidades. O que deve ficar bem claro é que eu não posso ser responsabilizado por tudo aquilo que ocorre de, supostamente, errado na vida das criaturas. Todo aprendizado implica em erros e acertos ou, como você muito bem explicou, as criaturas evoluem dialeticamente. Assim, vocês acertam e erram por vocês mesmos. Não me envolvam nesta questão.

  Relativamente à morte de crianças e bebês, são também válidas as considerações anteriores, além de outras mais. Independentemente daqueles que morrem em decorrência de erros de diagnóstico médico, da falta de cuidados higiênicos dos pais, da eventualidade de acidentes imprevistos e inevitáveis, outro fator tem contribuído para tais casos. Trata-se do fato da proliferação descontrolada de minhas criaturas, talvez fruto do esgarçamento do tecido social que conduz a perda de valores morais. O fato é que as criaturas nunca se multiplicaram tanto como na atualidade. Ora, as espécies animais e vegetais que criei devem viver em harmonia no planeta, de forma autosustentável. Quando uma espécie vegetal se multiplica demasiada e descontroladamente com relação às demais (como quando se cultiva grandes áreas de terra com uma só espécie vegetal), surgem pragas agrícolas para reduzi-la, como um mecanismo da Natureza em busca do equilíbrio. Com os seres humanos, que se multiplicaram demasiada e descontroladamente com relação às outras espécies animais, ocorre o mesmo. As doenças humanas, motivadas por vírus e bactérias, são como as pragas agrícolas e objetivam manter um controle biológico sobre a proliferação das criaturas. Isto não quer dizer que não exista uma indústria de vírus e de vacinas, com objetivo de auferir lucros; bem como a guerra biológica, com objetivo de dominação. 

Estes vírus e bactérias atacam mais as crianças e bebês, por serem mais vulneráveis às suas ações, ações estas que objetivam reduzir a natalidade e o crescimento das populações humanas. Mais uma vez afirmo: - nada tenho a ver com isto, embora saiba que alguns destes vírus estejam sendo criados em laboratórios, com a finalidade de reduzir, de maneira mais rápida, a população do planeta. Volto a dizer que nada tenho a ver com isto, mas reduzam a taxa de natalidade, pois o planeta não comporta uma espécie de tamanha magnitude e preservem as outras espécies antes que elas se extingam. Sei que alguns irresponsáveis são contra o controle da natalidade, mas a proliferação descontrolada acabará por inviabilizar a vida humana no planeta. Ao contrário do que alguns afirmaram em meu, nome no passado, vocês não foram colocados aí, apenas, para crescer e se multiplicar descontroladamente, mas para evoluir espiritualmente.

  Com respeito a beneficiar algumas criaturas de modo especial, em detrimento de outras (aquilo que você denominou de milagre em sua carta aberta), informo-lhe que jamais o fiz. O processo de criação do Universo requereu, da minha parte, a criação de tantas e imutáveis Leis Físicas, Matemáticas, Químicas e Biológicas, objetivando a que o mesmo permanecesse em equilíbrio estável, que a suspensão de alguma destas Leis, visando a beneficiar quem quer que fosse, poderia proporcionar um efeito desestabilizador no sistema, que acabaria por fazer ruir todo este Universo que construí com muito esforço, dedicação e carinho, e que espero dure para sempre.

  Quanto a colocar como elites dominantes as mais espertas, levianas, egoístas, desumanas, aproveitadoras e malignas criaturas; creio que este é um problema que diz respeito, exclusivamente, a vocês. Milhões de seres humanos apenas se interessam por coisas frívolas e fúteis, não demonstrando o menor interesse por assuntos de ordem política, por aprender e evoluir. Ora, aproveitando-se disso, criaturas mais espertas apresentam-se como pastores, aptos a conduzir aqueles pacíficos rebanhos para a tosquia ou para o matadouro. Se eu interferisse neste assunto, vocês perderiam uma boa oportunidade de aprender, por si mesmo, a conduzir os seus destinos com sabedoria. Por esta razão, não me envolvo e jamais me envolverei neste assunto. Que fique bem claro para você, que os seres humanos não são fruto do acaso, pois o acaso só existe nos exemplos citados pelos professores nas aulas de Teoria das Probabilidades, quando dizem aos seus alunos: - “Jogando-se um dado ao acaso, qual é a probabilidade de sair um seis?”

  Ao criar os seres humanos (que não possuem minha imagem e semelhança, posto que em outros mundos e em outras dimensões criei seres diferentes de vocês e que também carregam consigo o meu DNA) e conduzi-los para uma existência no planeta Terra, tive por objetivo proporcionar-lhes uma escola de aprendizado, voltada, tão somente, para a evolução espiritual. Todavia, nenhum professor pode fazer muito se seus alunos não quiserem aprender. O aprendizado depende mais da vontade do aluno do que do esforço do professor. Quem deseja mesmo aprender, acaba por transformar-se em um autodidata. Assim, as reclamações que minhas criaturas apresentam, como sendo devidas à minha incúria, são devidas, na verdade, ao comodismo, à preguiça e à falta de interesse destas próprias criaturas, com relação ao aprendizado necessário para sua evolução. 

Embora eu não haja criado nenhuma religião, algumas delas passaram perto daquilo que eu reputo como o conhecimento da Verdade; isto é, a resposta àquelas três perguntas que todos vocês fazem sempre que se encontram deprimidos ou filosofando. Alguns filósofos, também, intuíram alguma coisa sobre quem são vocês, de onde vieram e para onde vão. O que posso adiantar a respeito (e que talvez contribua para lhe tranquilizar) é que, primeiramente, o espírito é imortal e tem por objetivo a evolução. Em segundo lugar, ele não tem prazo para evoluir, traçando o seu próprio caminho evolutivo através dos tempos. Em terceiro lugar, por mais que alguns seres humanos distorçam a finalidade da criação e o objetivo das criaturas, o fato é que a riqueza, o poder, o prestigio, a saúde, a beleza física, etc., não representam a finalidade pela qual vocês ai se encontram, não duram para sempre e não podem ser levados para o etéreo junto com o espírito. A criatura levará, apenas, aquilo que aprendeu quando encarnada. Lembre-se que evoluir é uma característica individual, que ninguém pode processar pelo outro, muito menos eu que os criei.

Com relação ao conflito, por você levantado, entre a necessidade de eliminar o EGO para a evolução espiritual e a necessidade de conservar o EGO para a evolução dos Sistemas Econômicos, Políticos, Psicossociais e Militares, gostaria de ressaltar que ambas as coisas poderiam ocorrer, desde que fossem mais planejadas por elites bem intencionadas e desprovidas de ganância, de egoísmo, de orgulho, de soberba, etc. Explico-me melhor: se vocês, minhas criaturas, fossem chefiadas por autoridades virtuosas e bem intencionadas, que tivessem como única preocupação conduzir bem os seres humanos no rumo da evolução espiritual, certamente haveria um meio termo em que as populações poderiam conviver em um Sistema Econômico sustentável, com baixo consumo ambiental, sem desperdício e com preservação da natureza. Neste sistema o Ego poderia vir a ser, não digo eliminado; mas, sensivelmente reduzido, permitindo uma tranquila evolução do espírito. Conseguir isto só depende de vocês, pois eu, como já disse anteriormente, jamais interferirei no aprendizado de minhas criaturas.

Finalmente, gostaria de lhe dizer da imensa saudade que nutro por você, em especial, e que, como você possui boas ideias e vejo que está do meu lado e do seu presidente (pois ambos me colocam sempre “acima de tudo”), querendo ajudar, gostaria muito de conversar pessoalmente com você qualquer dia desses. Vá se preparando... 


                                                                  Papai


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.

 








quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 408. Em nossas vidas, por que as más notícias ocorrem em muito maior número do que as boas?


Jober Rocha*



                      Recentemente tive a oportunidade de conversar com um amigo que cursa o doutorado em Filosofia e que me disse não saber, ainda, qual assunto de tese iria escolher para apresentar ao seu orientador de forma a, finalmente, poder defendê-la perante a banca examinadora, concluir o curso e receber o tão almejado título de Doutor.

                           Fiz-lhe, na ocasião, uma sugestão séria, porém em tom de brincadeira: - Por que não pesquisar as razões filosóficas e/ou científicas pelas quais, na vida de qualquer pessoa, as más notícias ocorrem em muito maior número do que as boas?

                            Ele, sem perceber que eu falava sério, levou o assunto na brincadeira. Embora eu já tivesse visto teses de mestrado e de doutorado, com títulos esdrúxulos e pomposos, que discorriam sobre assuntos sem nenhuma importância, tanto para a Ciência quanto para a Filosofia, este me pareceu um tema inusitado e com tendência a não ser levado a sério pela maioria das pessoas, embora pertinente e totalmente verdadeiro. 

                          Fiquei durante alguns dias pensando naquela ideia que me havia ocorrido na ocasião da conversa com o amigo. No entanto, estou convencido de que ele não voltou mais a cogitar do assunto depois que nos despedimos.

                           Eu, por minha vez, continuei, sim, a amadurecer aquele tema durante mais alguns dias e, finalmente, resolvi escrever o presente texto, sob a forma de um ensaio em que analiso, despretensiosamente, alguns aspectos desta questão que se me afigurou como bastante curiosa e instigante. 

                           O fato é que, na realidade, as más notícias ocorrem, mesmo, em muito maior número do que as boas na vida de todas as pessoas, embora a maioria dos seres humanos não se dê conta disso. Os indivíduos pensam, em um ledo engano, que as más notícias e suas consequentes vicissitudes e funestas implicações posteriores só ocorrem com eles e que todas as demais pessoas são inteiramente felizes durante a maior parte de suas vidas, esquecendo-se que a maioria dos seres humanos costuma dissimular suas atribulações diárias com sorrisos forçados ou, simplesmente, com o silêncio.

                          Esta mencionada questão das más notícias, trazendo consigo a infelicidade, serem em maior número do que as boas na vida das pessoas, que costumam sempre escondê-las dos demais aparentando uma falsa felicidade, já fora intuída no passado por, ao menos, três poetas famosos como Raimundo Correia (1859 – 1911), Fernando Pessoa (1888 – 1935) e Casemiro de Abreu (1837 -1860)

                                   Raimundo Correia, nos dois últimos tercetos do poema ‘Mal Secreto’, diz:

Quanta gente que ri, talvez, consigo

Guarda um atroz, recôndito inimigo

Como invisível chaga cancerosa!


Quanta gente que ri, talvez existe,

Cuja ventura única consiste

Em parecer aos outros venturosa!


                       Fernando Pessoa, por sua vez, na primeira estrofe do poema ‘Autopsicografia’, diz:

O Poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


                              Casemiro de Abreu, em seu poema ‘Dores’, diz na primeira e na última estrofe:


Há dores fundas, agonias lentas,

Dramas pungentes que ninguém consola

Ou suspeita sequer!

Máguas maiores do que a dor dum dia,

Do que a morte bebida em taça morna

De lábios de mulher!


Oh! Há dores tão fundas como o abismo,

Dramas pungentes que ninguém consola,

Ou suspeita sequer!

Dores na sombra, sem carícias de anjo,

Sem voz de amigo, sem palavras doces,

Sem beijos de mulher!


                  Após esta rápida introdução, portanto, iniciarei com meus singelos argumentos em defesa da tese que dá título ao presente texto e que pretendo aqui defender, sem a pretensão de convencer os leitores e sem o rigor científico de um trabalho acadêmico.

                    Em primeiro lugar, para aqueles leitores que possuem alguma religião e acreditam em um Criador, é evidente que estamos todos neste mundo para aprender e para evoluir espiritualmente, conforme afirmam todas as religiões. Uma das formas de aprendizado e, certamente, a mais importante delas, é através do sofrimento, que sempre chega até nós por intermédio de más notícias. 

                           Não nascemos para, hipoteticamente, sermos felizes de forma vitalícia enquanto ainda encarnados, hipótese esta que, se verdadeira, nos corromperia em vida; embora, o desejo de vivermos felizes até o fim de nossos dias seja o objetivo máximo de todos nós, seres humanos. 

                            Se acaso fossemos felizes todos os dias do ano, tenderíamos a desfrutar desta felicidade integralmente e nos corromperíamos pelo seu excesso; felizmente, porém, eu acredito que, ainda se verdadeiramente existisse esta possibilidade, seriamos felizes tão somente durante alguns anos e não por toda a vida. 

                     Explico-me melhor: fazem parte da natureza humana a inconstância, a insaciabilidade, o inconformismo, a volubilidade, a mutabilidade, a rebeldia e a ambição. Assim, em pouco tempo, devido a estes fatores psicológicos, nós nos cansaríamos de desfrutar daquela felicidade que, até então, tínhamos usufruído despreocupadamente e passaríamos a desejar algo diferente para nossas vidas, em busca de mais felicidade ou de níveis mais elevados da mesma, se isso fosse possível... 

                         O próprio Cristianismo afirma em Gênesis que Deus pôs o homem no Jardim de Éden, o conhecido paraíso terrestre, dizendo-lhe: - “Podes comer frutos de todas as árvores do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dele comeres, com certeza, morrerás”. Após Deus haver feito uma mulher para o homem, ainda segundo o Gênesis, esta foi tentada pela serpente, que lhe disse: - “Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore do conhecimento, vossos olhos se abrirão e vós, humanos, sereis iguais a Ele, conhecedores do bem e do mal”. A mulher, chamada Eva, viu, na ocasião, que seria bom comer da árvore para obter conhecimento. Colheu o fruto, comeu dele e o deu ao marido, Adão. Deus, sabedor do ocorrido, expulsou a ambos do Jardim de Éden; isto é, do paraíso terrestre. 

                          Mesmo que isto se trate, apenas, de metáforas, de alegorias ou de fábulas escritas por mãos humanas, percebe-se, pois, que a insaciabilidade, a inconstância, o inconformismo e a ambição humana fizeram com que o homem e a mulher deixassem o paraíso, o único lugar terrestre onde existia a felicidade plena, segundo o Antigo Testamento nos relata. 

                          Notem que, ao contrário do que havia dito Deus, nem o homem nem a mulher morreram após comerem o fruto da árvore do conhecimento. Teria sido isto um teste do Criador, para ver se suas criaturas apresentavam as características psicológicas mencionadas, que possibilitariam a sua rebeldia daquela situação de conforto e consequente evolução espiritual e, também, uma indicação de que estavam aptas para evoluir espiritualmente, pois, desrespeitando ordem divina em contrário, haviam comido do fruto do conhecimento, sido expulsos do paraíso onde viviam felizes e tendo, a seguir, que lutar por suas próprias sobrevivências? 

                             Deus, após este episódio, teria ainda, segundo o Gênesis, declarado à mulher: “Multiplicarei os sofrimentos da tua gravidez. Entre dores darás à luz os filhos. Teus desejos te arrastarão para teu marido e ele te dominará”.

                             Para o homem Ele disse: “Porque ouviste a voz da tua mulher e comeste do fruto da árvore que te proibi comer, amaldiçoado será o solo por tua causa. Com sofrimento tirarás dele o alimento todos os dias da tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e ervas daninhas. Tu comerás das ervas do campo. Comerás o pão com o suor do teu rosto até voltares ao solo do qual fostes tirado, porque tu es pó e ao pó hás de voltar”. 

                           Vê-se, portanto, segundo reza o Antigo Testamento, que o próprio Deus retirou o homem e a mulher do lugar onde viveriam eternamente felizes e lhes destinou um futuro de necessidades insatisfeitas, de sofrimentos e de vicissitudes, simplesmente por haverem adquirido o conhecimento. Não creio que um Criador tão poderoso e fonte inesgotável de amor, conforme mencionado nos demais evangelhos que compõem a Bíblia, pudesse ser tão vingativo quanto o poderia ser uma reles criatura sua, razão pela qual considero o livro sagrado, apenas, como uma coletânea de textos partida de escritores antigos, que pretendiam deixar um legado de ensinamentos para povos bárbaros.

                            Penso que o ensinamento a ser tirado deste suposto episódio, certamente escrito por mãos humanas, é o de que para desfrutarmos da felicidade existe um custo, que tem que ser custeado. Este custo é o sofrimento, o trabalho, a dor.

                            Por outro lado, sendo os indivíduos integralmente felizes, caso não possuíssem estas características psicológicas já mencionadas não evoluiriam espiritualmente; posto que, as nossas vidas se resumiriam simplesmente em aproveitar e gozar de uma eterna felicidade, sem termos feito nenhum esforço para obtê-la nem para merecê-la. 

                             Esta felicidade a que me refiro, para 99,99% dos seres humanos, se resumiria ao gozo dos prazeres mundanos, sejam da mesa, da cama, do ócio, dos divertimentos, do consumo, das viagens, dos esportes, das confraternizações, etc. Muito poucos indivíduos, com exceção dos verdadeiros filósofos, dos autênticos cientistas e dos genuínos anacoretas, encontrariam a felicidade no prazer da meditação, do estudo, do aprendizado, das pesquisas e das descobertas. Vê-se, pois, que a felicidade humana está, normalmente, vinculada aos excessos e aos vícios (gula, preguiça, luxúria, etc.). Evidentemente, algumas pessoas podem ser felizes com pouco e até mesmo encontrar a felicidade na adversidade (como um sacerdote que agradecia ao Criador toda vez que recebia uma triste notícia ou que era vítima de alguma vicissitude ou sofrimento), mas estás já serão espíritos evoluídos, que não fazem da busca pela felicidade suas metas. Já terão superado o desejo de seus EGOS, em uma aparente contradição com aquilo que a maioria dos seres humanos imagina. A maior parte dos seres humanos busca a felicidade, embora esta esteja vinculada ao EGO de cada um, que deseja ser feliz. Os seres evoluídos não buscam a felicidade, pois já terão se libertado dos desejos de seus EGOS. Buscam eles, tão somente, a verdade, a justiça, a compaixão, a sabedoria, a lealdade, a compreensão, a tolerância, a coragem, mas não a felicidade. Por outro lado, muita gente é infeliz no meio da total abundância, enquanto outros são felizes no meio da total carência, demonstrando, assim, que a felicidade é um estado mental onde vigoram componentes psicológicos, culturais, religiosos, filosóficos e intelectuais.

                                    Assim, na vida real, não sendo os indivíduos felizes todos os dias do ano, mas, apenas, desfrutando de momentos de felicidade ao longo da existência, a felicidade passa a se constituir em um objetivo avidamente buscado por todos os seres humanos. Para alcança-la é que trabalhamos, fazemos planos, nos esforçamos, nos sacrificamos e sofremos; em resumo, mediante estes aspectos da vida é que evoluímos espiritualmente. Embora a felicidade seja uma necessidade do EGO, cujos desejos devemos procurar combater, o caminho para atingi-la é que proporciona a necessária evolução espiritual. 

                            Caso fôssemos naturalmente felizes durante toda a existência, nossa tendência seria nada fazer em busca da felicidade, que seria algo que consideraríamos como natural em nossas vidas. Nada faríamos para conquista-la, simplesmente dela desfrutaríamos.

                              Ao contrário, sendo naturalmente infelizes, buscamos a felicidade com afinco. Creio ser esta uma possível explicação para que recebamos com frequência um número maior de notícias más, que nos deixam momentaneamente infelizes, do que de boas notícias, que nos alegram e felicitam. Más notícias são obstáculos que nos são impostos pelo Criador para que os ultrapassemos; bem como, também, através delas suplantemos as nossas deficiências e nos superemos em busca de um aperfeiçoamento espiritual. 

                           Ocorre, no entanto, muitas vezes, de uma aparente má notícia mostrar-se, mais adiante, como uma boa notícia e vice versa. Imagino que possa ser este um teste do Criador para observar o comportamento de suas criaturas. Contemplar se elas encaram os obstáculos em seus caminhos com resignação ou com revolta; se ao confrontarem algum óbice, seguem em frente com determinação ou desanimam; se guardam magoa ou rancor do fato danoso ou prejudicial ocorrido ou logo se esquecem do mesmo; se retribuem o mal com o mal ou se o retribuem com o bem; se são vingativos com relação à maldade ou a injustiça ou se as perdoam com facilidade; etc.

                                  Em segundo lugar, para aqueles leitores que não acreditam na hipótese de um Criador, lamento informar-lhes que, em virtude da existência de um fenômeno conhecido como Entropia (que consiste em uma importante grandeza física utilizada na Mecânica Estatística e na Termodinâmica para medir o grau de desordem de um sistema), suas vidas não serão nem mais nem menos felizes do que a daqueles que em um Criador acreditam e as más notícias por eles recebidas serão sempre em maior número do que as boas, da mesma forma como ocorre na vida dos que acreditam em um Criador, 

                                O conceito de entropia está também relacionado à noção de aleatoriedade e de número de estados ou configurações possíveis no Universo. Assim, quanto maior a entropia de um sistema, maior será o número de estados possíveis; bem como, também, a sua aleatoriedade ou desordenação.

                              Um exemplo clássico de Entropia pode ser entendido através da comparação entre o sol e a lua: o Sol contém muito mais calor e matéria e, portanto, um número muito maior de estados físicos e químicos que a Lua, que é fria e sólida. Por isso, a entropia do Sol é muito maior que a entropia da Lua, cujas moléculas são muito mais ordenadas que aquelas que compõem o Sol em virtude da sua menor entropia.

                         Outro exemplo clássico, de acordo com a 2ª lei da Termodinâmica, consiste no fato de a entropia total de um sistema sempre tender a aumentar. Pensando no Universo como um sistema termicamente isolado, sua entropia está sempre aumentando e, por isso, um dia o Universo acabará por sua total desordenação.

                               Em virtude disto, considerando a inexistência de um Criador e supondo que o Universo foi algo que surgiu do caos ou do nada, de forma espontânea, como imaginam estes leitores, existirão sempre muito mais notícias más para todos os indivíduos (em razão da desordenação natural da maior parte dos sistemas), do que notícias boas (fruto estas de sistemas ordenados). 

                              Portanto, em ambas as hipóteses (existindo ou não um Criador), embora por razões distintas, as notícias más sempre ocorrerão em maior número do que as boas notícias e a felicidade, portanto, será sempre constituída, apenas, por breves momentos na vida das pessoas, não importa se acreditem ou não na existência de um Criador. 

                              Deus, evidentemente, traçou objetivos para as suas criaturas; mas, sabiamente, antes, teve o cuidado e o bom senso de respaldá-los por leis eternas e imutáveis...


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.


sábado, 28 de novembro de 2020

 407. Escrevendo para si mesmo


Jober Rocha*



                          Todo escritor, seja de simples comentários políticos até de contos, crônicas, romances, novelas e ensaios, gosta de ter aquilo que escreve lido pelo maior número possível de pessoas. Os seus textos são como filhos queridos, que qualquer escritor deseja sejam constantemente observados e elogiados pela finura dos traços, pela educação aprimorada, pelo caráter imaculado, pelas ricas vestimentas, pela rara inteligência e pela beleza destacada.

                                          Assim tem sido desde os tempos em que o homem inventou a escrita. Ocorre, entretanto, que se os livros e textos eram disputados avidamente quando existiam em pouca quantidade, na atualidade, na era da informação, da WEB e das redes sociais, quando milhões de textos estão diariamente disponíveis, as coisas se passam de outra maneira.

                                            Recente estudo da Nielsen Norman Group, empresa norte americana, revelou que, em média, as pessoas leem, apenas, um quinto de todo o conteúdo que existe dentro de uma página da web. Outra pesquisa também mostrou índices que chamam a atenção: oito a cada dez pessoas leem, tão somente, a ‘headline’; ou seja, o título da matéria, mas, apenas, duas a cada dez pessoas leem o restante do texto. Isto tem feito com que os editores invistam em manchetes ou títulos persuasivos, buscando despertar nos leitores o interesse necessário para que continuem lendo o restante da matéria. Ademais, paradoxalmente, na era da informação, segundo as pesquisas indicaram, apenas vinte por cento de qualquer conteúdo literário é lido, seja por falta de tempo, seja por que a atenção do leitor já foi despertada por outro título ou manchete mais interessante.

                                          Em nosso país, segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro denominada Retratos da Leitura, quarenta e quatro por cento da população não lê nada e trinta por cento jamais comprou um livro. A média de livros lidos anualmente, pelos eventuais leitores, é de 4,96. Destes, apenas, 2,43 foram lidos integralmente até o final e 2,53 foram lidos, tão somente, de forma superficial. Isto sem mencionar textos políticos, científicos e filosóficos, cujo eventual público leitor é muito mais reduzido.

                                          Por sua vez o PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos, que consiste em uma prova levada a efeito em setenta países, com estudantes entre quinze e dezesseis anos, evidenciou que cinquenta e um por cento dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível dois, considerado este um patamar básico. A média atual obtida no PISA pelos estudantes brasileiros foi de 407 pontos, bastante inferior a dos estudantes dos demais países participantes.

                                        Nota-se a existência de um enorme contingente de analfabetos funcionais formados, ao longo das três últimas décadas de governos de esquerda, por mestres ativistas ideológicos e militantes políticos. São jovens que, embora sabendo ler, não possuem conhecimentos suficientes para interpretar aquilo que leram. Ao se formarem não conseguem emprego, pois não foram preparados para o mercado de trabalho e sim para o proselitismo político e ideológico.

                                             Ademais, em conformidade com outra pesquisa, cerca de trinta por cento dos professores brasileiros se declararam não leitores.

                                             Imagino que este quadro todo, em nosso país, possua duas componentes: uma natural, fruto do nosso tradicional subdesenvolvimento intelectual e outra artificial e planejada, criada pelos intelectuais de esquerda que se assenhoraram da educação pública em nosso país nas últimas décadas, como forma de preparar a juventude para a aceitação da ideologia marxista que precederia a um governo socialista bolivariano, que pretendem ainda implantar, sendo esta uma versão cabocla do comunismo.

                                             Por este motivo, tem sido tão difícil ao presidente Jair Bolsonaro, liberal de direita, nomear um Ministro da Educação que promova as necessárias mudanças tendentes a retirar a ideologia política dos currículos escolares, afastar da educação pública os ativistas e militantes de esquerda e nomear reitores das universidades públicas que as transformem naquilo para o qual foram criadas e mantidas com recursos públicos: entidades destinadas a formar profissionais de nível superior para o mercado de trabalho e não para manter, com dinheiro de impostos retirados do povo em geral, ativistas políticos, drogados e viciados em práticas sexuais antinaturais, as quais consumam nas próprias salas de aula e nos corredores das universidades, mantidas estas, a duras penas, com recursos de todo o povo trabalhador brasileiro.

                                           Foi, pois, com um sentimento de desânimo que iniciei a escrever este artigo. Imagino que os demais escritores conscientes da nossa triste realidade, também, estejam desanimados. Com o advento das redes sociais, a maioria dos indivíduos passa grande parte do dia olhando a telinha de seus aparelhos smartphones em busca de mexericos, esportes, vídeos, jogos eletrônicos e ‘Fake News’ de ordem política e psicossocial, plantados por empresas regiamente contratadas por uma elite para desinformar, confundir e contrainformar os internautas. 

                                                Neste contexto, já não se sabe mais o que é verdade e o que é mentira, objetivo este daquela elite venal que ainda se encontra encastelada no poder, mesmo após a recente mudança de governo.

                                              O povo brasileiro, ao não saber mais qual a verdade, passou a aceitar tudo o que lê, vê e ouve como verdade e a não se importar mais com as mentiras. Vive em um mundo de ‘faz de conta’, onde tudo pode ser ou não ser, não importando mais as consequências de um ou de outro caso.

                                               Neste paraíso psicossocial, as elites venais e ideologicamente comprometidas com o desvio de recursos e com a implantação do comunismo no país, se esbaldam com seus casuísmos, já que mesmo a Constituição Federal Cidadã, promulgada para beneficiar a própria esquerda, foi deixada de lado pela esquerda que a violenta constantemente sem nenhum pudor. Chegaram ao cúmulo de declarar a Constituição, em vigor, inconstitucional...

                                               Criminosos já condenados em segunda instância são soltos, as celas dos presídios são abertas e milhares de condenados, cumprindo pena, são libertados supostamente em razão da pandemia, enquanto, paradoxalmente, se mantêm presos em quarentena nas suas casas milhões de pessoas trabalhadoras, também, supostamente, em razão da pandemia.

                                            Por mais que autores sérios, patriotas e comprometidos com o bem do país, se esforcem para esclarecer à nossa população sobre a realidade em que está vive, parece que falam a ouvidos moucos. As recentes eleições municipais mostraram que candidatos comprovadamente desonestos, comprovadamente comprometidos com a implantação do comunismo, com a extinção da religião, com a ideologia de gênero, com a prática do aborto, muitos deles membros de partidos que causaram rombos nas contas públicas por desvios criminosos que quase quebraram a nossa economia, foram eleitos ou ainda disputam o segundo turno com chances de vitória. 

                                            Isto só confirma que o nosso povo está desinformado em razão da pouca leitura; bem como, da acentuada crendice, da despolitização, da subserviência e da reduzida cultura geral a que tem sido conduzido por um ensino fraco, que estabelece cotas raciais e que, normalmente, aprova todos ao final do ano letivo, mesmo sem o nível de conhecimentos necessários para tal. Convenhamos que qualquer tentativa de mudar uma conjuntura como esta é um trabalho Hercúleo para os poucos patriotas com larga visão do panorama nacional e internacional; patriotas estes em sua grande parte incompreendida e difamada pela esquerda atuante e, ainda, aparelhada na mídia, no governo, no meio artístico e entre os falsos intelectuais que se apresentam, perante o público, como filósofos e cientistas políticos. 

                                             Qualquer texto honesto, esclarecedor e que aponte caminhos, será lido por muito poucos leitores formadores de opinião e será incapaz de mudar o cenário em que vivemos através da pequena influência que exercerão, em geral, sobre o grande público inculto e, em particular, sobre aqueles que decidem.

                                            Assim meus caríssimos leitores, restam, apenas, aos escritores que adoram escrever diariamente, redigirem para si mesmos. Muitos guardam em suas gavetas o produto de suas mentes, sem se atreverem a divulgar aquilo que colocaram no papel, por saberem que não serão lidos ou, caso o sejam de modo superficial, não serão compreendidos pela maioria de leitores, que param apenas no título e, quase sempre, não ultrapassam a primeira página. Nosso povo prefere os discursos ou as exposições orais, em razão da tradição cultural e de ser mais fácil de assimilar; já que a leitura, para aqueles que não a amam, cansa os olhos e a mente.

                                                Tenho participado de alguns grupos de escritores que se reúnem no WhatsApp para conversar sobre Literatura. A maioria deles, eu constatei entristecido, escreve para si mesmo, guardando seus escritos para o futuro; talvez para uma geração que surja após a Terceira Grande Guerra entre a China e os USA, quando a Web não mais exista e os textos em papel voltem a ter, para os sobreviventes, a importância que tiveram no passado. Tempos aqueles em que a mentira, o falso testemunho e o roubo de dinheiro público eram, veementemente, criticados pelas populações e punidos pelos monarcas e governantes, no mínimo, com as galés ou com a prisão perpétua nos calabouços dos castelos, e não agraciados com comendas, altos salários e cargos vitalícios nos palácios da capital do reino.


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.






quarta-feira, 18 de novembro de 2020

 406. Está difícil se destacar pelas virtudes? Então se destaque pelos vícios!


Jober Rocha*


              Eu imagino que uma questão tão atual quanto esta, nos dias que correm, tenha passado pela mente do filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), quando estabeleceu o conceito de transvaloração de valores. Segundo o filósofo esta transvaloração seria um episódio a mais na busca pelo poder e consistiria em valorizar, através dos formadores de opinião da época, eventuais comportamentos viciosos adotados por uma determinada classe de pessoas, com o intuito de fazê-los vir a substituir, no passo seguinte, os comportamentos nobres e virtuosos tradicionalmente adotados por outra classe. 

             Nas palavras do filósofo, “ao longo de milhares de anos de amadurecimento, as classes mais fracas da sociedade acabaram por fazer prevalecer um novo conceito de moral que as beneficiaria, na medida em que tal conceito, estabelecendo como virtudes a serem perseguidas pelo ser humano, características que não privilegiariam as classes mais fortes - que, como tais, seriam aquelas que deveriam impor sua moral às classes mais fracas – acabou por sujeitar os indivíduos das classes dominantes (teoricamente mais fortes, mais inteligentes e mais aptos), através de conceitos de ordem espiritual, firmemente estabelecidos, ao domínio dos mais fracos, cujos valores passaram a sobrepor-se aos daqueles".

                A esquerda mundial, recentemente, fez uso deste conceito de transvaloração de valores, ao estabelecer o denominado Comportamento Politicamente Correto. Passou-se, a partir de então, a tratar o mal como bem, o mau como bom e o vício como virtude, objetivando substituir conceitos morais estabelecidos pela religião, por outros conceitos morais estabelecidos pela ideologia política de esquerda.

                  A mídia mundial, de tendência esquerdista e a serviço de uma elite, fazendo uso de seus meios de comunicação de massas, nas últimas décadas passou a divulgar e a enfatizar determinados comportamentos, referentes a diversas atividades e aspectos da vida social, como sendo os mais modernos, adequados e corretos, devendo ser adotados por todos os cidadãos de todos os países.

         Muitos filmes, vídeos, novelas, peças teatrais, revistas, jornais e livros, produzidos desde então, deram, pois, início a uma campanha mundial de conscientização enaltecendo a união de pessoas do mesmo sexo; o uso de drogas; a adoção do materialismo; a pregação da ideologia marxista nas escolas; o estabelecimento do ódio e da perseguição religiosa; a extinção da família tradicional; a prática livre do aborto; a rebeldia entre os jovens; a perda do patriotismo; a efeminação dos homens; a ação dos criminosos pertencentes às gangues e facções das periferias urbanas, vistos sempre como vítimas de uma sociedade perversa que os discriminava e perseguia; bem como, a crítica contumaz às ações policiais no combate ao crime, seja ele oriundo de criminosos comuns, seja ele partido de criminosos de colarinho branco, notadamente políticos, empresários e funcionários governamentais.

           Aos poucos, as populações mundiais foram se acostumando a ver, a ler e a ouvir a mesma mensagem de valorização de determinados procedimentos, mensagem está comumente destacada pelos meios de comunicação mundiais envolvidos nesta ‘operação planejada de transvaloração de valores’.

       Esta mensagem a que me refiro caiu como luva em determinadas classe de pessoas: para os adolescentes ricos, para os artistas de destaque milionários e para os intelectuais acadêmicos bem remunerados; como também, paradoxalmente, para os jovens estudantes desempregados, para os artistas sem destaque profissional e para os intelectuais e mestres medíocres e mal remunerados.

                  A explicação para o primeiro caso é dada por Nicholas Crovitz em seu texto “É fácil entender por que os jovens dos países mais ricos tendem a defender mais socialismo”, encontrado no link:

https://www.mises.org.br/article/3149/e-facil-entender-por-que-os-jovens-dos-paises-mais-ricos-tendem-a-defender-mais-socialismo

                   Afirma Nicolas em suas conclusões:

“Aquelas pessoas, normalmente adolescentes ricos, artistas e intelectuais acadêmicos, que professam ideias socialistas aparentemente não se lembram de como realmente era o mundo quando o socialismo era realmente aplicado. É fácil defender ideias socialistas quando se vive em um mundo opulento em que a comida é farta e barata. É fácil defender o regime venezuelano morando-se em um país rico”.

“O fato é que, onde quer que tenha sido tentado, desde a União Soviética em 1917 até a Venezuela atual, o socialismo foi um desastre, não importam quais eram as intenções originais. Socialistas sempre prometeram uma utopia marcada por igualdade e abundância. Em vez disso, sempre entregaram tirania e inanição. Seus propagandistas devem ser sempre e incansavelmente cobrados por isso”.

“Como disse Thomas Sowell, o histórico de desastres do socialismo é tão óbvio, que somente intelectuais poderiam ignorá-lo“.

                   A explicação para o segundo caso, por sua vez, pode ser encontrada no texto de Diego Reis “Por que a juventude ama o socialismo?”, encontrado no link  https://www.institutoliberal.org.br/blog/por-que-os-jovens-amam-o-socialismo/

                        Diego menciona em seu texto: 

“Quando a adolescência se estabelece como uma fase de insatisfações e conflitos, a busca por culpados parece aliviar o drama e o estresse em muitos indivíduos. Nada mais imediato do que culpar os pais e sua vida “careta” como sendo os principais responsáveis por todos os problemas. Além disso, se desenvolve um pensamento que culpa o Sistema, como um todo, pelos problemas de toda a humanidade: - ninguém me entende e é tudo muito injusto - são pensamentos normais que ocorrem aos jovens”.

“Se o jovem possui uma sensibilidade pelos dramas humanos e um desejo de mudar o mundo, a aproximação aos grupos esquerdistas é um caminho possível”.

“A grande incoerência no amor dos jovens pelo socialismo é o fato de que, para muitos, o interesse pelas ideias coletivistas é motivada por um desejo de liberdade. Se, de imediato, fosse dito que socialismo é sinônimo de intervenção estatal e que um governo interventor limita ou elimina a liberdade, muitos adolescentes pensariam duas vezes antes de usar uma camiseta do PC do B, PT ou Che Guevara”.

“Os discursos romantizados e apaixonados da esquerda parecem combinar perfeitamente com o idealismo comum na adolescência”.

“Ao entender que a relação amorosa com o socialismo está fadada ao fracasso, o jovem irá perceber que o empreendedor é o verdadeiro revolucionário”.

                         Em minha modesta opinião, embora a grande maioria dos seres humanos, de maneira racional e teórica, reconheça que devamos ser todos iguais perante a lei e que devamos ter iguais oportunidades, na prática as coisas seguem por caminhos diferentes.

                     A simples comparação, física e intelectual, entre os seres humanos evidencia a diferença existente entre eles (não me imaginem racista em razão desta constatação, pois não sou!). 

                      Os mais inteligentes, mais fortes, mais belos e os mais aptos para determinadas funções, percebem, naturalmente, que são melhores que os demais – em conformidade com os valores e os padrões predominantes do gênero humano - mediante a simples comparação entre eles e os seus congêneres. 

                         Esta percepção os torna orgulhosos de seus méritos, ao mesmo tempo em que faz nascer nos demais, que não possuem tais atributos naquela mesma proporção, sentimentos de inveja e de repulsa com relação aos primeiros.

                     Em que pese às religiões pregarem que somos todos irmãos e filhos de um mesmo Criador, o simples raciocínio nos conduz a imaginar que se fosse desejo do próprio Criador – aquele que tudo pode – este, certamente, ter-nos-ia feito, a todos, com características físicas e intelectuais idênticas, igualmente belos e com as mesmas aptidões.

                    Penso que o nosso Criador teria sido muito mais coerente com a RAZÃO PRATICA, definida pelo filósofo Immanuel Kant (1724 – 1804), se tivesse feito com que nascêssemos iguais em nossa criação (isto é, fôssemos todos idênticos, física e intelectualmente) e que, a partir daí, aproveitássemos as oportunidades desiguais que a vida nos oferece em qualquer lugar do planeta para construirmos o nosso futuro; ao invés de imaginarmos, conforme a RAZÃO PURA, também definida por Kant, que, tendo todos nascidos desiguais por desejo do Criador, devamos ter, forçosamente, oportunidades iguais e sermos mantidos todos sob uma mesma ideologia, de amplitude universal, como preconizam os marxistas ao desejarem expandir o comunismo para todos os países do nosso planeta.

                      A ideologia marxista tenta demonstrar que o coletivismo é mais importante que o individualismo e que os seres humanos nos países capitalistas padecem, social, econômica e financeiramente, em decorrência de fatores externos (como, por exemplo, a exploração dos patrões, donos dos meios de produção) e não devido às suas intrínsecas características pessoais (como, por exemplo, a falta de ambição, a inaptidão para trabalhar, a preguiça, o reduzido nível intelectual motivado por razões várias, etc.). Para os marxistas, naqueles países onde vigora o capitalismo, todo pobre é um injustiçado e todo rico é um ladrão.

                       Eles se esquecem de mencionar que nos países comunistas, onde o marxismo é adotado como a ideologia do governo, as populações, em geral, recebem salários mais baixos que nos países capitalistas, possuem menos liberdade de ir e vir, mais censura nas comunicações e na livre expressão do pensamento, mais burocracia, além de contarem com, apenas, um único partido político ao qual pertencem todos os eventuais candidatos, participantes de um simulacro periódico de eleições. Uma casta de burocratas, que detém vitaliciamente poder e riqueza, é quem substitui nos países comunistas os mal falados patrões burgueses dos países capitalistas.

                       Voltando ao título do presente texto, imagino que muitos daqueles jovens que nos países capitalistas não conseguem se destacar por suas virtudes e acham injusto alguém ser melhor do que eles, seja na beleza, na força, na inteligência, na sabedoria e na riqueza, escolhem se destacar pelos vícios. Ao menos desta forma, pensam eles, poderão ser notados.

                        Aproveitando-se dessa necessidade psicológica de aceitação dos jovens e de se fazerem notados pelos demais, se não pelas virtudes ao menos pelos vícios, os ideólogos marxistas (como os ideólogos e pensadores de qualquer outra ideologia totalitária) buscam seus ativistas ideológicos e militantes políticos entre jovens frustrados e viciosamente propensos. 

                      Em muitos países, como, por exemplo, na Colômbia, na Venezuela e no próprio Brasil, as esquerdas costumam também se aliar a facções criminosas no intuito de angariar recursos financeiros com o tráfico de narcóticos e o contrabando, além de contar com um braço armado, quando a hora fatal chegar, para auxiliar na tomada do poder e na implantação do comunismo.

                   Estes os verdadeiros motivos para as atitudes, que hoje observamos em nosso país, incentivadoras dos vícios, da criação de novas leis permissivas ou benevolentes com relação aos atos ilícitos, votadas pelos parlamentos de esquerda antes da implantação definitiva do comunismo. Primeiro é preciso destruir a ordem e os costumes vigentes no capitalismo para, em seguida, implantar a ordem e os costumes comunistas. 

                       Por isto os marxistas necessitam tanto da transvaloração de valores, na qual a moral é subvertida, a religião é combatida, o crime incentivado, a polícia reprimida e a família desagregada mediante a liberalização e o incentivo das práticas homossexuais e do aborto.

                      Estas técnicas foram profundamente estudadas pelo ideólogo marxista italiano Antônio Gramsci, que propunha a implantação do comunismo pela via pacífica, transformando as mentes dos indivíduos e as instituições do Estado, de modo a que estas assimilassem e adotassem conceitos e práticas marxistas, antes mesmo do golpe final da tomada do poder para a implantação do regime comunista no país.

                     Na atualidade, tais conceitos e práticas foram e estão sendo aplicadas no nosso e em outros países do continente, com o objetivo de facilitar a tomada do poder pelo comunismo. Os jovens são peças de fundamental importância neste jogo de Xadrez, razão pela qual se torna dificílimo o atual presidente nomear um ministro para o Ministério da Educação e reitores para as Universidades Públicas, todos aparelhados durante os anteriores governos de esquerda. 

                    A educação dos jovens, feita por ativistas ideológicos (e não por mestres) é fundamental para a implantação do comunismo no Brasil e a esquerda sabe disto. Estes ativistas e aqueles que os seguem devem pensar consigo mesmo: - “Está difícil se destacar pelas virtudes? Então se destaque pelos vícios”!


_*/ Economista e doutor pela Universidade de Madrid, Espanha.